Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley · Capítulo 12 de 24

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Admirável Mundo Novo

§ 3

 

A viagem transcorreu sem nenhum incidente. O Foguete Azul do Pacífico chegou a Nova Orleans com dois minutos e meio de atraso, perdeu quatro minutos em um tornado sobre o Texas, mas, encontrando uma corrente aérea favorável na longitude de 95° oeste, pôde chegar a Santa Fé apenas quarenta segundos fora do horário.

— Quarenta segundos num vôo de seis horas e meia. Nada mau — admitiu Lenina.

Dormiram essa noite em Santa Fé. O hotel era ótimo — incomparavelmente superior, por exemplo, àquele horrível Aurora Bora Palace onde Lenina tanto sofrerá no verão anterior. O ar líquido, a televisão, a massagem a vibro-vácuo, o rádio, a solução de cafeína a ferver, os anticoncepcionais quentes e os perfumes de oito diferentes qualidades estavam instalados em todos os quartos. O aparelho de música sintética estava funcionando no momento em que eles entraram no ha/1, e nada deixava a desejar. Um aviso afixado no elevador anunciava que havia no hotel sessenta Quadras de Pelota- Escalátor e que se podia jogar tanto Golfe Obstáculo como Golfe Eletromagnético no parque.

— Acho isto simplesmente maravilhoso! — exclamou Lenina. — Quase desejaria que pudéssemos ficar aqui. Sessenta Quadras de Pelota-Escalátor. . .

— Não haverá nenhuma na Reserva — advertiu Bernard.

— E também não haverá perfumes, nem televisão, e nem mesmo água quente. Se você acha que não pode suportar isso, fique aqui até a minha volta.

Lenina ofendeu-se.

— Claro que posso suportar. Se eu disse que aqui era maravilhoso foi somente porque. . . ora, porque o progresso realmente é uma coisa maravilhosa, não é?

— Quinhentas repetições, uma vez por semana, dos treze aos dezessete anos — disse Bernard desalentado, como se falasse consigo mesmo.

— Que foi que você disse?

— Eu disse que o progresso é uma coisa maravilhosa. É por isso que você não deve ir à Reserva, a menos que tenha muita vontade.

— Mas eu tenho muita vontade.

— Está bem, então — respondeu Bernard; e suas palavras eram quase uma ameaça.

A autorização que traziam tinha de ser assinada pelo Conservador da Reserva, no gabinete do qual eles se apresentaram, como cumpria, na manhã seguinte. Um porteiro negro ipsilon-Mais levou o cartão de Bernard e os fez entrar quase imediatamente.

O Conservador era um Alfa-Menos louro e braquicéfalo, baixo, vermelho, de cara de lua-cheia, espáduas largas, voz forte e atroadora muito apropriada para a transmissão de saber hipnopédico. 'Era uma verdadeira mina de informações desconexas e de bons conselhos gratuitos. Tendo começado a falar, continuava incessantemente, trovejando:

— ... quinhentos e sessenta quilômetros quadrados, divididos em quatro Sub-Reservas, cada uma delas cercada de tela metálica em alta tensão. . .

Nesse momento, e sem razão aparente, Bernard lembrou-se de súbito que deixara completamente aberta a torneira de água-de-colônia de seu banheiro.

— ... percorrida por uma corrente proveniente da estação hidrelétrica do Grande Canyon.

"Vai me custar uma fortuna, até que eu volte!" Bernard via mentalmente a agulha do contador de perfume avançar volta após volta no mostrador, como uma formiga, infatigavelmente. "É preciso telefonar com urgência a Helmholtz Watson."

— ... mais de cinco mil quilômetros de cerca de tela a sessenta mil volts.

— Não diga — fez Lenina cortesmente, sem ter a mínima idéia do que o Conservador dissera, mas aproveitando a pausa dramática do homem. Quando o Conservador começara a dissertar com sua voz tonitruante, ela havia ingerido discretamente meia grama de soma, o que lhe permitira ficar ali sentada, serena, sem ouvir e sem pensar em absolutamente nada, mas fixando seus grandes olhos azuis no Conservador, com um ar de profunda atenção.

— Tocar na cerca é morte instantânea — declarou solenemente o Conservador. — Não há meio de escapar de uma Reserva de Selvagens.

A palavra "escapar" era sugestiva.

— Talvez seja conveniente pensarmos em partir — disse Bernard, fazendo menção de levantar-se. A pequena agulha negra avançava, como um inseto, mordiscando o tempo, devorando o seu dinheiro.

— Não há meios de escapar — repetiu o Conservador, fazendo-o sentar com um gesto da mão; e, como a autorização ainda não estava assinada, Bernard não teve outro remédio senão obedecer. — Aqueles que nascem na Reserva. .. e não esqueça, prezada senhorita — acrescentou, dirigindo a Lenina uma olhadela obscena e falando num sussurro inconveniente -não esqueça que na Reserva as crianças ainda nascem, sim, elas nascem de fato, por mais revoltante que isso possa parecer...

Esperava que essa alusão a um assunto vergonhoso fizesse Lenina corar; porém ela contentou-se em esboçar um sorriso de simulada compreensão e retrucar:

— Não diga!

Decepcionado, o Conservador prosseguiu:

— Aqueles, repito, que nascem na Reserva estão destinados a morrer nela.

"Destinados a morrer". . . Um decilitro de água-de-colônia por minuto. Seis litros por hora.

— Talvez — tentou novamente Bernard — devamos. . . Inclinando-se para a frente, o Conservador bateu com o dedo indicador na mesa.

— Os senhores me perguntam quantas pessoas vivem na reserva. E eu respondo — triunfante — eu respondo que não sei. Somente podemos fazer um cálculo aproximado.

— Não diga!

— Digo, minha cara senhorita.

Seis vezes vinte e quatro — não, estaria mais perto de seis vezes trinta e seis. Bernard estava pálido e trêmulo de impaciência. Mas a exposição reboante continuava, inexorável.

— ... cerca de sessenta mil índios e mestiços. .. absolutamente selvagens. . . nossos inspetores visitam de tempos em tempos. . . fora disso, nenhuma comunicação com o mundo civilizado. . .ainda conservam seus hábitos e costumes repugnantes. . . o casamento, se sabe o que isso quer dizer, minha cara senhorita; famílias. . . nenhum condicionamento. . . superstições monstruosas. . . o cristianismo, o totemismo, o culto dos antepassados. . . línguas extintas, como o zuni, o espanhol, o atabasco. . . pumas, porcos-espinhos e outros animais ferozes. . . moléstias contagiosas. . . sacerdotes. . . lagartos venenosos. . .

— Não diga!

Conseguiram finalmente desvencilhar-se. Bernard correu para o telefonem Depressa, depressa; mas teve de esperar três minutos para obter comunicação com Helmholtz Watson.

— Parece até que já estamos entre os selvagens — queixou-se. — Maldita incompetência!

— Tome uma grama de soma — sugeriu Lenina. Ele recusou, preferindo sua raiva. Até que enfim, graças a Ford, obteve a ligação e, sim, era Helmholtz, a quem explicou o que havia acontecido e que prometeu ir à sua casa imediatamente, sim, imediatamente, e fechar a torneira, sim, imediatamente, mas que aproveitou a oportunidade para lhe repetir o que o D. I. C. havia dito em público, na véspera à noite. . .

— O quê? Está procurando alguém para me substituir? —A voz de Bernard soava angustiada. — Então está mesmo decidido? Ele falou na Islândia? Você diz que sim? Ford!

A Islândia. . .

Pendurou o fone e virou-se para Lenina. Seu rosto estava pálido, sua expressão era de completo acabrunhamento.

— Que é que há? — perguntou ela.

— O que há? — Deixou-se cair pesadamente numa cadeira. — Vão me mandar para a Islândia.

Muitas vezes, no passado, ele se perguntara o que sentiria se fosse submetido (sem soma e sem poder contar com outra coisa senão seus próprios recursos interiores) a

alguma grande provação, a alguma dor; tinha mesmo desejado ardentemente que tal acontecesse. Apenas uma semana antes, no gabinete do Diretor, imaginara-se resistindo corajosamente, aceitando estoicamente, sem uma palavra, o sofrimento. As ameaças do Diretor haviam-no realmente estimulado, haviam-lhe dado a sensação de ser mais do que era. Isso, porém, ele o percebia agora, era porque não tinha levado a sério as ameaças, não acreditara que, chegado o momento, o D. I. C. as cumprisse. Agora que elas, segundo parecia, iam ser efetivamente postas em execução, Bernard sentia-se aterrado. Daquele estoicismo que imaginara, daquela coragem teórica, não restava nenhum vestígio.

Deblaterou contra si mesmo — que imbecil tinha sido! — contra o Diretor — como era injusto em não lhe proporcionar uma última oportunidade para emendar-se, essa oportunidade que, agora, não tinha a menor dúvida, ele sempre tivera a intenção de aproveitar. E a Islândia, a Islândia. . .

Lenina sacudiu a cabeça.

— "Fui" e "serei" me deixam doente — citou; — uma grama, e com o "sou" fico contente.

Conseguiu, por fim, convencê-lo a engolir quatro comprimidos de soma. Ao cabo de cinco minutos, as raízes e os frutos haviam desaparecido; a flor do presente desabrochava, inteiramente rósea. Um recado trazido pelo porteiro anunciou-lhes que, por ordem do Conservador, um guarda da Reserva estava à disposição deles, com um helicóptero, e esperava-os no terraço do hotel. Um oitavão de uniforme verde-Gama cumprimentou-os e passou a expor o programa da manhã.

Uma vista de olhos, do alto, a dez ou doze dos principais pueblos, depois uma aterrissagem para o almoço no vale de Malpaís. A hospedaria era confortável, e lá em cima, no pueblo, os selvagens estariam provavelmente celebrando sua festa de verão. Seria o melhor lugar para passarem a noite.

Embarcaram no helicóptero e partiram. Dez minutos depois, cruzaram a fronteira que separava a civilização do estado selvagem. Por montes e vales, cortando os desertos de sal ou de areia, atravessando florestas, descendo às profundidades violáceas dos canyons, franqueando penhascos, picos e mesas, a cerca corria irresistivelmente em linha reta, símbolo geométrico do desígnio humano triunfante. E junto a ela, aqui e ali, um mosaico de ossamentas brancas, uma carcaça ainda não apodrecida, escura sobre o solo fulvo, marcava o lugar onde veados ou touros, pumas, porcos-espinho ou coiotes, ou senão urubus vorazes atraídos pelas exalações da carniça e fulminados como por uma justiça poética — se haviam aproximado demais dos fios metálicos destruidores.

— Eles nunca aprendem — disse o piloto de uniforme verde, apontando para os esqueletos lá embaixo. — E nunca aprenderão — acrescentou, e riu como se, de algum modo, se atribuísse um triunfo pessoal sobre os animais eletrocutados.

Bernard pôs-se também a rir; depois de duas gramas de soma, a piada parecia boa, sem que ele soubesse por quê. Riu e quase em seguida adormeceu; e dormindo sobrevoou Taos e Tesuque, Nambe, Picuris e Pojoaque, Sia e Cochiti, Laguna, Acoma e a Mesa Encantada, Zufii, Cibola e Ojo Caliente, acordando por fim quando o aparelho estava pousado em terra, Lenina carregava as valises para uma pequena casa e o oitavão verde-Gama falava uma linguagem incompreensível com um jovem índio.

— Malpaís — explicou o piloto enquanto Bernard saltava do helicóptero. — Aquela é a hospedaria. E há danças hoje à tarde no pueblo. Ele os levará. — Apontou para o jovem selvagem de ar sombrio. — Deve ser engraçado. — Sorriu, mostrando os dentes. — Tudo o que eles fazem

é engraçado. — Dito isso, subiu ao aparelho e pôs o motor em marcha. — Voltarei amanhã. E lembre-se — acrescentou em tom tranqüilizador para Lenina — eles são absolutamente inofensivos; os selvagens não lhes farão mal algum. Eles têm bastante experiência das bombas de gás para saberem que não devem fazer brincadeiras de mau gosto.

Rindo sempre, embreou as hélices, acelerou e partiu.