Admirável Mundo Novo
Capítulo VIII
Lá fora, no meio da poeira e do lixo (havia agora quatro cães), Bernard e John caminhavam lentamente de um lado para outro.
— Para mim é tão difícil de compreender, de reconstruir — dizia Bernard. — Como se vivêssemos em planetas diferentes, em séculos diferentes. Uma mãe, e toda esta sujeira, e os deuses, a velhice, a doença. . . — Sacudiu a cabeça. — É quase inconcebível. Não chegarei nunca a compreender, a menos que você me explique.
— Que explique o quê?
— Isto. — Indicou o pueblo. — Aquilo. — E dessa vez era a casinha fora da aldeia. — Tudo. Toda a sua vida.
— Mas que é que devo dizer?
— Desde o começo. Desde a época mais afastada que você possa recordar.
— Desde a época mais afastada que eu possa recordar. — John franziu a testa.
Houve um longo silêncio.
Fazia muito calor. Tinham comido muitas tortillas e milho doce. Linda disse-lhe: "Vem te deitar, Nenê". Deitaram-se juntos na cama grande. "Canta." E Linda cantou. . . Cantou: "No meu estreptococo alado, Voa a Banbury-T" e "Adeus, bebezinho, em breve serás decantado' Sua voz tornou-se cada vez mais indistinta. . .
Houve um ruído forte e ele acordou sobressaltado. Um homem estava em pé ao lado da cama, enorme, pavoroso. Dizia qualquer coisa a Linda, que ria. Ela puxara o cobertor até o queixo, mas o homem tornou a descobri-la. Os cabelos dele pareciam duas cordas pretas, e em torno do braço tinha uma bonita pulseira de prata, com pedras azuis. John gostou da pulseira, mas, ainda assim, teve medo; escondeu o rosto contra o corpo de Linda. Esta pousou a mão sobre ele, que se sentiu mais seguro. Empregando aquelas outras palavras que ele não compreendia muito bem, ela disse ao homem: "Não com John aqui". O homem olhou para ele, depois novamente para Linda e disse algumas palavras em voz suave. Linda tornou a dizer: "Não". Mas o homem inclinou-se para ele sobre a cama, e sua cara era enorme, terrível; as cordas negras dos cabelos tocavam nas cobertas. "Não", repetiu Linda, e ele sentiu que sua mão o segurava com mais força. "Não, não!" Então o homem o agarrou por um braço e ele sentiu dor. Gritou. O homem estendeu a outra mão e levantou-o. Linda continuava a segurá-lo e dizia sempre: " Não, não". O homem disse umas poucas palavras em tom irritado, e de repente as mãos de Linda soltaram-no. "Linda, Linda!" Esperneou, torceu-se, mas o homem levou-o até a porta, abriu-a, deitou-o no chão no meio da outra peça e fechou a porta atrás de si. Ele se levantou e correu para a porta. Espichando-se na ponta dos pés, mal pôde alcançar a tranqueta de madeira. Levantou-a e empurrou; mas a porta não se abriu. "Linda!" gritou. Ela não respondeu.
Lembrava-se de uma peça imensa, um pouco escura; e havia ali grandes armações de madeira, às quais estavam atados cordões, e uma porção de mulheres em redor — tecendo cobertores, disse Linda. Esta mandou que ele se sentasse ao canto com as outras crianças, enquanto ela ia ajudar as mulheres. Ele brincou um bom tempo com os garotinhos. De repente, começaram a falar muito alto, e lá estavam as mulheres empurrando Linda, e ela estava chorando. Linda dirigiu-se para a porta e ele correu atrás. Perguntou-lhe porque elas estavam zangadas. "Porque eu quebrei qualquer coisa." E então ela também se enraiveceu. "Como é que eu ia saber lidar com essas malditas máquinas de tecer? " disse. "Selvagens nojentos!" Ele então perguntou-lhe o que eram selvagens. Quando chegaram a sua casa, Pope estava esperando à porta e entrou com eles. Trazia uma cabaça grande cheia de uma coisa que parecia água; mas não era água, era uma coisa que tinha mau cheiro, queimava a boca e fazia a gente tossir. Linda bebeu e também Pope, e então Linda riu muito e falou muito alto. Depois ela e Pope foram para a outra peça. Quando Pope foi embora, ele entrou. Linda estava deitada na cama e dormia tão profundamente que ele não pôde acordá-la.
Pope vinha com freqüência. Dizia que a coisa que trazia na cabaça se chamava mescal; mas Linda dizia que deveria chamar-se soma, com a diferença que deixava a gente doente, depois. Ele detestava Pope. Detestava todos — todos os homens que vinham visitar Linda. Uma tarde em que tinha estado brincando com as outras crianças — fazia frio, lembrava-s^e, e havia neve nas montanhas — voltou para casa e ouviu vozes irritadas no quarto de dormir. Eram vozes de mulheres, e diziam palavras que ele não compreendia, mas sabia que eram palavras horríveis. Depois, de súbito, craque! — derrubaram alguma coisa, e ouviu gente ir e vir rapidamente; houve um novo estrondo e depois um barulho semelhante ao produzido quando se dá numa mula, mas não tão seco; então Linda gritou: "Oh, não, não, não!" Ele correu para dentro do quarto. Havia três mulheres vestidas com mantos escuros. Linda estava deitada. Uma das mulheres segurava-lhe os pulsos. Outra estava deitada, atravessada sobre suas pernas, para que ela não pudesse dar pontapés. A terceira batia-lhe com um chicote. Uma, duas, três vezes, e de cada vez Linda gritava.
Chorando, ele puxou as franjas do manto da mulher. "Por favor, por favor!" Com a mão livre, a mulher o manteve à distância. O chicote desceu, e de novo Linda gritou. Ele agarrou nas suas a enorme mão bronzeada da mulher e mordeu-a com toda a força. Ela deu urn grito, libertou a mão com uma sacudida e empurrou-o com tamanha violência que o fez cair. Enquanto estava caído no chão, a mulher deu-lhe três chicotadas. Doeram-lhe mais que tudo que já havia sentido — como fogo. O chicote sibilou novamente e desceu. Dessa vez, porém, foi Linda quem gritou.
— Mas por que é que elas queriam te fazer sofrer Linda? — perguntou, aquela noite. Ele chorava porque os vergões vermelhos do chicote nas costas ainda lhe doíam horrivelmente. Mas também chorava porque as pessoas eram tão más e injustas e porque ele era apenas um menino e não podia fazer nada contra elas. Linda também chorava. Ela era grande, mas não era bastante forte para lutar contra as três. Para ela também não era justo. — Mas por que é que elas queriam te fazer sofrer, Linda?
— Não sei. Como é que eu vou saber? — Era difícil ouvir o que ela dizia, porque estava deitada de bruços, com o rosto no travesseiro. — Disseram que esses homens são
os homens delas — continuou, e não parecia estar falando com ele; parecia estar falando com alguém que estivesse dentro dela mesma. Uma conversa comprida que ele não compreendeu; e, por fim, recomeçou a chorar, mais alto que nunca.
— Oh, não chores, Linda. Não chores. Chegou-se para ela. Passou-lhe o braço em volta do
pescoço. Linda deu um grito: — Ah! Cuidado! Meu ombro! Oh! — e repeliu-o brutalmente. Sua cabeça bateu na parede. — Pequeno idiota! — gritou ela e, de repente, começou a dar-lhe tapas. Zás! Zás!. . .
— Linda! — exclamou ele. — Oh, mãe, não faças isso!
— Eu não sou tua mãe! Não quero ser tua mãe!
— Mas Linda. . . Oh! — Ela deu-lhe uma bofetada.
— Transformada numa selvagem! — vociferou.
— Tendo filhos como um animal!. . .Se não fosse por tua causa, eu poderia ter ido procurar o Inspetor, poderia ter saído daqui. Mas não com um bebê. Teria sido vergonhoso demais!
Viu que ela ia bater-lhe outra vez e levantou o braço para proteger o rosto.
— Oh, não, Linda, não, por favor!
— Animalzinho! — Ela baixou-lhe o braço, descobrindo-lhe o rosto.
— Não, Linda! — Fechou os olhos, esperando o golpe. Mas o golpe não veio. Ao cabo de um instante,
abriu os olhos e viu que ela o fitava. Tentou sorrir-lhe. Repentinamente, ela envolveu-o em seus braços e cobriu-o de beijos.
Às vezes, durante dias. Linda nem sequer se levantava. Ficava na cama, mergulhada em tristeza. Ou então bebia o líquido que Pope trazia, ria muito e adormecia. Algumas vezes vomitava. Com freqüência esquecia-se de lavá-lo, e não havia nada que comer, a não ser tortillas frias. . . Lembrava-se'da primeira vez que ela achara aqueles bichinhos nos seus cabelos, como ela gritara, gritara.
Os momentos mais felizes eram aqueles em que ela lhe falava sobre o Outro Lado. "E a gente pode mesmo ir voar sempre que tem vontade? "
"Sempre que tem vontade." E ela lhe falava na linda música que saía de uma caixa; em todos os jogos encantadores que havia, nas coisas deliciosas para comer e beber; na luz que aparecia quando se apertava uma pequena coisa na parede; nas imagens que era possível não só ver, mas também ouvir, tocar e cheirar; em outra caixa para fazer cheiros agradáveis; nas casas róseas, verdes, azuis, prateadas, altas como montanhas; ela lhe contava como todos eram felizes, sem que jamais alguém estivesse triste ou zangado; como cada um pertencia a todos; falava-lhe de caixas em que se podia ver e ouvir o que se passava do outro lado do mundo; de bebês em lindos bocais limpos — tudo tão limpo, sem maus cheiros, sem sujeira e lhe contava que ninguém se sentia só, mas todos viviam juntos, alegres e felizes, como durante as danças de verão aqui em Malpaís, mas muito mais felizes, com a felicidade permanente, cada dia, todos os dias. . . Ele a ouvia horas a fio. E, por vezes, quando ele e as outras crianças estavam cansados de brincar, um dos velhos do pueblo falava-lhes, com aquelas outras palavras, do grande Transformador do Mundo e da longa luta entre a Mão Direita e a Mão Esquerda, entre o Ümido e Seco; do Awonawilona, que, uma noite, só com o pensamento, fez um nevoeiro espesso e desse nevoeiro criou em seguida o mundo; da Mãe Terra e do Pai Céu; de Ahaiyuta e Marsailema,os gêmeos da Guerra e do Acaso; de Jesus e de Pukong; de Maria e de Etsanatlehi, a mulher que se faz novamente jovem; da Pedra Negra de Laguna e da Grande Águia e de Nossa Senhora de Acoma. Histórias estranhas, tanto mais maravilhosas para ele porque eram contadas por meio daquelas outras palavras e, por isso, menos completamente entendidas. Deitado na cama, ele pensava no Céu e em Londres, em Nossa Senhora de Acoma e nas fileiras e mais fileiras de bebês em bonitos bocais bem limpos, em Jesus voando para o alto e em Linda também voando, no grande Diretor Mundial de Incubação e em Awonawilona.
Muitos homens vinham visitar Linda. Os meninos começavam a apontá-lo com o dedo. Empregando também aquelas outras palavras estranhas, diziam que Linda era má; chamavam-na por nomes que ele não compreendia, mas que sabia serem nomes feios. Um dia, cantaram uma cantiga sobre ela, várias vezes seguidas. Ele atirou-lhes pedras. Os meninos revidaram; uma pedra pontuda cortou-lhe o rosto. O sangue não parava de correr; ficou todo coberto de sangue.
Linda ensinou-o a ler. Com um pedaço de carvão de lenha, ela desenhava figuras na parede — um animal sentado, um bebê num bocal; depois escrevia letras. O Gato está no Mato. O Bebê está no Bobó. Ele aprendia depressa e com facilidade. Quando soube ler todas as palavras que ela escrevia na parede, Linda abriu sua grande caixa de madeira e tirou debaixo daquele esquisito calção vermelho que não usava nunca, um livro pequeno e fino. Ele já o vira muitas vezes. "Quando fores maior", tinha ela dito, "poderás lê-lo." Bem, agora ele já estava bastante grande. Sentiu-se orgulhoso. "Receio que não aches isso muito interessante, mas é só o que tenho", disse ela. Suspirou. "Se pudesses ver as lindas máquinas de leitura que temos em Londres!" Ele começou a ler: O Condicionamento Químico e Bacteriológico do Embrião. Instruções Práticas para os Trabalhadores Betas dos Depósitos de Embriões. Precisou de um quarto de hora só para ler o título. Atirou o livro no chão. "Livro nojento, livro nojento!" exclamou, e pôs-se a chorar.
Os garotos continuavam cantando sua horrível cantiga acerca de Linda. Às vezes também faziam troça dele por andar tão maltrapilho. Quando ele rasgava as roupas, Linda não sabia remendá-las. No Outro Lado, dizia ela, as pessoas atiravam fora as roupas rasgadas e compravam outras, novas. "Esfarrapado, esfarrapado!" gritavam-lhe os meninos. "Mas eu sei ler", dizia consigo mesmo, "e eles não sabem. Nem sequer sabem o que é ler." Era-lhe mesmo fácil, se se concentrava suficientemente na idéia de saber ler, fingir que não se importava quando os outros o debicavam. Pediu a Linda que lhe desse novamente o livro.
Quanto mais os garotos o apontavam com o dedo, mais se aplicava à leitura. Logo se achou em condições de ler perfeitamente bem todas as palavras. Até as mais compridas. Mas o que significavam? Interrogava Linda; porém, mesmo quando ela podia responder, isso não lhe esclarecia muito. E, em geral, ela era absolutamente incapaz de responder.
— O que são produtos químicos? — perguntava ele.
— Oh, são coisas como sais de magnésio, e álcool para manter retardados os Deltas e Ipsilons, e carbonato de cálcio para os ossos, e todas as coisas do mesmo gênero.
— Mas como é que são feitos os produtos químicos, Linda? De onde é que eles vêm?
— Bom, isso eu não sei. Eles estão em frascos.
E quando os frascos se esvaziam, manda-se buscar mais no Depósito de Produtos Químicos. É o pessoal do Depósito que os faz, penso eu. Ou senão mandam buscá-los na fábrica. Mas não sei bem. Nunca estudei Química. Meu trabalho sempre foi com os embriões.
O mesmo acontecia com todas as outras coisas sobre as quais ele a interrogava. Linda parecia que nunca sabia nada. Os anciãos do pueblo tinham respostas bem mais categóricas.
"A semente do homem e de todas as criaturas, a semente do sol e a da terra, e a semente do céu — foi Awonawilona quem as criou todas, a partir do Nevoeiro do Crescimento. Ora, o mundo tem quatro matrizes, e ele depôs as sementes na mais baixa das quatro. E pouco a pouco as sementes começaram a crescer. . . "
Um dia (John calculou, mais tarde, que devia ter sido pouco depois do seu décimo segundo aniversário), entrou em casa e achou no chão do quarto de dormir um livro que nunca tinha visto. Era um livro grosso, que parecia muito antigo. A encadernação tinha sido roída pelos ratos, algumas páginas estavam soltas e amarrotadas. Apanhou-o e olhou a primeira página; o livro intitulava-se Obras Completas de William Shakespeare.
Linda estava deitada na cama, bebericando uma xícara daquele horrível e malcheiroso mescal.
— Foi Pope quem o trouxe — disse ela com uma voz espessa e rouca, como se fosse a de outra pessoa. — Estava numa das arcas da Kiva do Antílope? Dizem que estava lá há centenas de anos. Deve ser verdade, porque passei os olhos por ele e me pareceu cheio de bobagens. Incivilizado. De qualquer modo, sempre servirá para te exercitares na leitura.
Tomou um último sorvo, pôs a xícara no chão perto da cama, virou-se para o lado, teve um ou dois soluços e adormeceu.
Ele abriu o livro ao acaso:
Ah! não, mas viver No suor fétido de um leito imundo, Mergulhado na corrupção, acariciando e fazendo amor Por sobre a asquerosa pocilga. . .'
As palavras estranhas redemoinharam em seu espírito, reboando como um trovão que falasse; como os tambores das danças de verão, se pudessem expressar-se em palavras; como os homens cantando a Canção do Trigo, bela, bela de fazer chorar; como o velho Mitsima pronunciando fórmulas mágicas sobre suas penas, seus bastões esculpidos e seus pedaços de pedra e de ossos — kiathla tsilu silokwe silokwe silokwe. Kiai silu silu, tsithl — mas ainda melhores do que as fórmulas mágicas de Mitsima, porque possuíam mais sentido; porque era a ele que se dirigiam; porque falavam de modo maravilhoso e apenas em parte compreensível, em fórmulas terríveis e esplêndidas, de Linda; de Linda deitada ali e ressonando, a xícara vazia no chão ao lado da cama; de Linda e de Pope, de Linda e de Pope.
* Os índios Pueblos dividem-se em diversas tribos ou fratrias, cada uma das quais toma o nome de um animal ou vegetal protetor e possui um lugar de reunião constituído por uma construção parcialmente subterrânea, chamada kiva
1
Nay, but to live
In the rank sweat of an enseamed bed,
Stew'd in corruption, honeying and making love
Over the nasty sty. . . (Hamlet, III, 4.)
Cada vez mais odiava Pope. Um homem pode prodigalizar sorrisos e não ser mais que um celerado. Traidor, devasso, celerado sem remorsos e sem entranhas. Que significavam exatamente essas palavras? Não sabia bem. Mas sua magia era poderosa e continuava retumbando em sua cabeça, e, de algum modo, era como se nunca houvesse antes realmente odiado Pope; como se não o houvesse verdadeiramente odiado porque nunca pudera dizer quanto o odiava. Agora, porém, ele tinha aquelas palavras, aquelas palavras que semelhavam rufar de tambores, cantos e fórmulas mágicas. Aquelas palavras, e a estranha, estranha história de onde eram tiradas (história que não tinha pés nem cabeça para ele, mas ainda assim era maravilhosa, maravilhosa) — davam-lhe uma razão para odiar Pope, tornavam seu ódio mais real; tornavam mais real o próprio Pope.
Um dia em que entrou em casa depois de brincar, estava aberta a porta do quarto, e viu-os deitados na cama, adormecidos — Linda bem branca e Pope quase preto ao lado dela, um braço passado sob seus ombros, a outra mão bronzeada descansando sobre seu peito e uma das trancas dos compridos cabelos do homem atravessada na garganta de Linda, como uma serpente negra que tentasse estrangulá-la. A cabaça de Pope e uma xícara estavam no chão, perto da cama. Linda ressonava.
Pareceu-lhe que seu coração se desvanecera, deixando um vácuo. Sentia-se vazio. Vazio, com frio, um pouco nauseado, e tonto. Encostou-se na parede para firmar-se. Traidor, devasso, sem remorsos. . . Como tambores, como os homens cantando o encantamento do trigo, como fórmulas mágicas, as palavras repetiam-se, repetiam-se em sua cabeça. Depois da sensação de frio, sentiu subitamente um grande calor. Estava com as faces ardendo sob o afluxo do sangue, o quarto girava e escurecia diante de seus olhos. Rangeu os dentes. "Vou matá-lo, vou matá-lo, vou matá-lo", repetia sem cessar. E subitamente lhe ocorreram outras palavras.
Quando ele estiver embriagado a dormir, ou em sua cólera,
Ou no incestuoso prazer de seu leito. . . 2
As fórmulas mágicas estavam de seu lado, a magia explicava e dava ordens. Voltou para a peça da frente. "Quando ele estiver embriagado a dormir. . ." A faca de cozinha estava no chão, junto à lareira. Pegou-a e encaminhou-se novamente para a porta nas pontas dos pés. "Quando ele estiver embriagado a dormir. . ." Atravessou o quarto correndo e golpeou — oh, o sangue! — golpeou de novo enquanto Pope se acordava num arranco, levantou a mão para golpear mais uma vez, porém sentiu seu pulso agarrado, dominado e — oh! oh! — torcido. Não podia se mover, achava-se preso numa armadilha, e ali estavam os olhinhos negros de Pope, muito próximos, cravados nos seus. Desviou o olhar. Havia dois talhos no ombro esquerdo de Pope. "Oh, olha o sangue!" gritou Linda. "Olha o sangue!" Ela nunca pudera suportar a vista do sangue. Pope levantou a outra mão — para bater-lhe, pensou. Retesou-se para receber o golpe. Mas a mão limitou-se a segurar-lhe o queixo e virar-lhe o rosto de modo que ele fosse obrigado a cruzar novamente o olhar com Pope. Por longo tempo, por horas e horas. E de repente — não pôde conter-se — começou a chorar. Pope deu uma gargalhada. "Vai-te", disse ele, empregando as outras palavras, as dos índios. "Vai-te, meu bravo Ahaiyuta." Saiu correndo para a outra peça a fim de esconder as lágrimas.
2 When he is drunk asleep, or in his rage
Or in the incestuous pleasure of his bed. . .
(Hamlet, III, 3.)
— Tens quinze anos — observou o velho Mitsima, nas palavras dos índios. — Agora posso te ensinar a trabalhar a argila.
Agachados na beira do rio, trabalharam juntos.
— Em primeiro lugar — disse Mitsima, tomando entre as mãos uma porção de argila úmida — vamos fazer uma pequena lua.
O velho amassou a argila para dar-lhe a forma de um disco; depois recurvou os bordos; a lua tornou-se uma tigela rasa.
Lenta e desajeitadamente, ele imitou os gestos delicados do velho.
— Uma lua, uma tigela e agora uma cobra. — Mitsima preparou outra porção de argila fazendo um longo cilindro flexível, recurvou-o em círculo e comprimiu-o contra o bordo da tigela. — Outra cobra. Mais outra. Outra ainda. — Rodela após rodela, Mitsima modelou o pote; a princípio estreito, depois largo, estreitando-se outra vez no gargalo. Mitsima amassou, bateu, alisou e raspou, e eis que o objeto surgiu enfim: o jarro de água usado em Malpaís, quanto à forma, porém de um branco leitoso em vez de negro, e ainda mole ao tato. Paródia disforme do de Mitsima, o seu perfilava-se ao lado. Olhando os dois potes, teve que rir.
— Mas o próximo será melhor — disse, e pôs-se a umedecer outro pedaço de argila.
Modelar, dar forma, sentir os dedos adquirirem mais destreza e poder — isso lhe dava um prazer extraordinário.
"A, B, C, Vitamina D", cantava para si mesmo enquanto trabalhava. "No fígado o óleo, o bacalhau no mar."* E Mitsima também cantava — uma canção sobre a matança de um urso. Trabalharam assim todo o dia, e durante todo o dia sentiu uma felicidade intensa, absorvente.
— No inverno que vem — prometeu o velho Mitsima — vou te ensinar a fazer um arco.
Ficou de pé muito tempo, diante da casa; finalmente, as cerimônias que se realizavam no interior terminaram. A porta se abriu e eles saíram. Kothlu vinha na frente com o braço direito estendido e a mão bem fechada como se tivesse nela uma jóia preciosa; também com o braço estendido e a mão fechada, Kiakimé seguia-o. Caminhavam em silêncio, e em silêncio atrás deles vinham os irmãos, as irmãs, os primos e todo o grupo dos velhos.
Saíram do pueblo, atravessaram a mesa. Na beira do penhasco detiveram-se, de frente para o sol nascente. Kothlu abriu a mão. Via-se na sua palma uma pitada de alva farinha de trigo; soprou sobre ela, murmurou algumas palavras, depois atirou-a, um punhado de poeira branca, em direção ao sol. Kiakimé fez o mesmo. Então o pai de Kiakimé adiantou-se e, brandindo um bastão de orações guarnecido de penas, fez uma longa prece e atirou-o na mesma direção da farinha.
— Acabou-se — disse o velho Mitsima em voz forte. —Estão casados.
— Bem — comentou Linda, enquanto se afastavam — o que posso dizer é que essa gente faz muita encenação para tão pouca coisa. Nos países civilizados, quando um rapaz deseja uma moça, simplesmente. . . Mas aonde é que vais, John?
Ele não deu atenção ao seu chamado e continuou a correr, para longe, para qualquer lugar onde pudesse estar só.
* Paródia de outra "nursery rhyme".
Acabou-se. As palavras do velho Mitsima martelavam em seu espírito. Acabou-se, acabou-se. . . Em silêncio e de longe, mas violentamente, desesperadamente, havia amado Kiakimé. E agora estava acabado. Ele tinha dezesseis anos.
Por ocasião da lua cheia, na Kiva do Antílope, iam ser ditos segredos, segredos iam ser realizados e sofridos. Eles iam baixar à Kiva meninos e de lá sairiam homens. Os rapazes estavam todos com medo e, ao mesmo tempo, impacientes. Por fim, chegou o dia, O sol se pôs e a lua surgiu. Ele foi com os outros. Homens mantinham-se de pé, sombrios, na entrada da Kiva: a escada mergulhava nas profundezas iluminadas por um clarão vermelho. Já os primeiros rapazes tinham começado a descer. De repente, um dos homens avançou, pegou-o pelo braço e puxou-o para fora da fileira. Ele escapou e voltou ao seu lugar junto dos outros. Então o homem bateu-lhe, puxou-o pelos cabelos: "Não para ti, cabelo-branco!" "Não para o filho da cadela!" disse outro homem. Os rapazes riram. "Vai-te!" E, como ele ficasse perto do grupo, os homens gritaram novamente: "Vai-te!" Um deles abaixou-se, pegou uma pedra, atirou-a. "Vai-te, vai-te, vai-te!" Choveram pedras. Sangrando, ele fugiu noite a dentro. Da Kiva iluminada pelo clarão vermelho, vinha um rumor de cantos. O último rapaz descera a escada. Ele estava inteiramente só.
Inteiramente só, fora do pueblo, na planície nua da mesa. O rochedo lembrava ossamentas embranquecidas ao luar. Lá embaixo, no vale, os coiotes uivavam à lua. Ele estava ainda dolorido das suas contusões, os ferimentos recebidos sangravam ainda; mas não era pela dor que ele soluçava, era porque estava inteiramente só, porque havia sido escorraçado, sozinho, para aquele mundo sepulcral de rochas e luar. À beira do precipício, sentou-se. Tinha a lua pelas costas, mergulhou o olhar na sombra negra da mesa, na sombra negra da morte. Não precisava dar mais que um passo, um pequeno salto. ... Estendeu a mão direita ao luar. Do corte no pulso, o sangue ainda escorria. A pequenos intervalos caía uma gota, escura, quase sem cor na luz morta. Uma gota, outra, outra. . . "Amanhã, e amanhã e ainda amanhã. . ."3
Tinha descoberto o Tempo, a Morte, e Deus.
— Só, sempre só — dizia o jovem.
Essas palavras despertaram um eco doloroso no espírito de Bernard. Só, só. . .
— Eu também — respondeu, num impulso confidencial.
— Terrivelmente só.
— Você também? — John mostrou-se surpreso. — Pensei que no Outro Lado. . . É que Linda sempre dizia que lá ninguém jamais estava só.
3
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time. (Macbeth, V, 5.)
Bernard corou, contrafeito.
— Você vê — disse, balbuciando e desviando os olhos
— eu acho que sou um pouco diferente da maioria das pessoas. Quando, por acaso, alguém é diferente desde a decantação. . .
— Sim, é isso mesmo. — O jovem confirmou com um sinal de cabeça. — Se uma pessoa é diferente, é fatal que se torne solitária. A gente é tratado de um modo abominável. Acredita que eles me conservaram afastado de tudo, absolutamente tudo? Quando os outros rapazes foram passar a noite nas montanhas — você sabe, quando a gente deve ver em sonho qual é o seu animal sagrado — eles não consentiram que eu fosse com os outros; não quiseram me revelar nenhum dos segredos. O que não impediu que eu o fizesse sozinho. Fiquei cinco dias sem comer e então fui só, uma noite, para aquelas montanhas, lá. — Apontou com o dedo.
Bernard teve um sorriso protetor.
— E você viu alguma coisa em sonho? — perguntou. O outro fez um sinal afirmativo.
— Mas não posso lhe dizer. — Calou-se uns momentos; depois, em voz baixa, prosseguiu: — Um dia, fiz uma coisa que os outros nunca tinham feito: fiquei em pé contra um rochedo, ao meio-dia, no verão, com os braços abertos, como Jesus na cruz.
— Ora, para quê?
— Queria saber o que era ser crucificado. Suspenso ali, em pleno sol. . .
— Mas por quê?
— Por quê? Bem. . . — Hesitou. — Porque sentia que devia fazê-lo. Se Jesus pôde suportar. . . E, além disso, se se fez alguma coisa de mau. . . Por outro lado, eu me sentia infeliz; essa era outra razão.
— Acho isso um modo bastante estranho de curar-se quando se é infeliz — objetou Bernard. Mas, refletindo, concluiu que, afinal de contas, aquilo tinha algum sentido. Melhor do que tomar soma. . .
— Desmaiei depois de algum tempo — disse o jovem. — Caí para a frente. Vê o sinal do corte que recebi? — E afastou da testa a espessa cabeleira loura. A cicatriz era visível, pálida e enrugada, na têmpora direita.
Bernard olhou-a e depois, vivamente, com um pequeno arrepio, desviou o olhar. Seu condicionamento o inclinava menos à piedade que a uma profunda repugnância. A simples alusão a doenças ou a ferimentos era, para ele, não somente uma coisa apavorante, como, sobretudo, um tanto desagradável e até repulsiva. Tal como a sujeira, a deformidade, a velhice. Mudou apressadamente de assunto.
— Será que não lhe agradaria vir conosco para Londres? — perguntou, dando o primeiro passo de uma campanha cujo plano estratégico ele tinha começado a elaborar secretamente desde que, na pequena casa, compreendera quem devia ser o "pai" do jovem selvagem. - Não lhe agradaria isso?
A fisionomia do rapaz iluminou-se.
— Você fala sério?
— Certamente; isto é, se eu puder obter autorização. - E Linda também?
— Bom. . . — Hesitou, preso de dúvidas. Aquela criatura repugnante! Não, era impossível. A menos que. . . A menos que. . . Ocorreu-lhe de súbito que o próprio fato de ser ela assim tão repugnante poderia constituir um grande trunfo. — Mas claro! — exclamou, compensando sua hesitação inicial com um excesso de cordialidade ruidosa. O jovem suspirou profundamente.
— Pensar que vai se tornar realidade aquilo que eu sonhei toda a vida. . . Lembra-se do que disse Miranda?
— Quem é Miranda?
Mas o moço, evidentemente, não ouvira a pergunta.
— Oh, maravilha! — dizia ele, e seus olhos luziam, a fisionomia estava iluminada por um rubor vivo. — Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade!4 — Seu rubor se acentuou subitamente; ele pensava em Lenina, num anjo vestido de viscose verde-garrafa, resplandecente de mocidade e de cremes de beleza, rechonchudo, sorrindo benignamente. Teve um tremor na voz. — Oh, admirável mundo novo. . . 5 — começou, depois interrompeu-Se de repente; o sangue fugiu de seu rosto, que ficou branco como papel. — Você é casado com ela? — perguntou.
— Se eu sou. . . o quê?
— Casado. Você sabe: para sempre. Diz-se "para sempre" nas palavras dos índios; não se pode desfazer.
— Ford, não! — Bernard não pôde deixar de rir.
4 5 e
O wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is!
O brave new world,
That hás such peoble in't.
(Tempest, V, 1.)
John também riu, mas por outro motivo — riu de pura alegria.
— Oh, admirável mundo novo! — repetiu. — Oh, admirável mundo novo, que encerra criaturas tais! . . . Partamos em seguida.
— Você tem às vezes um modo de falar bem curioso — disse Bernard, admirado e perplexo, encarando-o. — E, de qualquer modo, não seria melhor se você esperasse para ver esse mundo novo?