Admirável Mundo Novo
Capítulo XI
Depois da cena na Sala de Fecundação, toda Londres das castas superiores ardia em desejos de ver aquela criatura deliciosa que se ajoelhara diante do Diretor de Incubação e Condicionamento — ou antes, do ex-Diretor, pois o pobre homem se demitira imediatamente e não tornara a pôr os pés no Centro — aquela criatura que se havia prostrado chamando-o (a piada era quase boa demais para ser verdadeira!) "meu pai". Linda, pelo contrário, não provocava o menor entusiasmo; ninguém manifestava o menor desejo de vê-la. Dizer que era mãe — aquilo já passava dos limites do gracejo: era uma obscenidade. Além disso, ela não era uma selvagem autêntica, pois fora incubada num bocal, decantada e condicionada como qualquer outra pessoa, de modo que não podia ter idéias verdadeiramente singulares. Enfim — e era esse o motivo mais poderoso para que ninguém desejasse ver a pobre Linda — havia o seu aspecto pessoal. Gorda, com a mocidade perdida, os dentes cariados, a cútis pustulosa, e aquele corpo — Ford! Era simplesmente impossível olhá-la sem sentir náuseas; sim, náuseas. Por isso, as pessoas das mais altas camadas estavam firmemente decididas a não ver Linda. E, quanto a esta, também não tinha desejo algum de vê-las. A volta à civilização era, para ela, a volta ao soma; era a possibilidade de ficar na cama e ter fugas sobre fugas, sem delas voltar com dor de cabeça ou vômitos; sem ter de sentir o que sempre sentia depois de tomar peyoltl — a sensação de ter feito algo tão vergonhosamente anti-social que não poderia mais andar de cabeça erguida. O soma não trazia nenhuma dessas conseqüências desagradáveis. Proporcionava um esquecimento perfeito, e, se o despertar era desagradável, não o era intrinsecamente, mas apenas em comparação com as alegrias desfrutadas. O recurso era tornar contínua a fuga. Avidamente, ela reclamava doses cada vez mais fortes, cada vez mais freqüentes. O Dr. Shaw a princípio hesitou, depois consentiu que tomasse quanto quisesse. Linda chegou a tomar vinte gramas por dia.
— Isso acabará com ela em um mês ou dois — disse confidencialmente o médico a Bernard. — Um belo dia, o centro respiratório ficará paralisado. Cessará a respiração. Tudo acabado. E será melhor assim. Se pudéssemos rejuvenescê-la,o caso seria diferente, sem dúvida. Mas não podemos.
Coisa surpreendente para todos (pois, durante suas fugas pelo soma. Linda ficava convenientemente afastada do caminho), John opôs objeções.
— Mas não vão encurtar-lhe a vida, dando-lhe doses tão grandes?
— Sob certo ponto de vista, sim — reconheceu o Dr. Shaw. — Mas, sob outro, nós realmente a estamos prolongando. — O jovem arregalou os olhos sem compreender. — O soma pode fazer perder alguns anos no tempo — continuou o médico. — Mas pense nas durações enormes, imensas, que ele é capaz de proporcionar fora do tempo. Todo sono produzido pelo soma é um fragmento daquilo que os nossos antepassados chamavam eternidade.
John começava a compreender.
— 1 "A eternidade estava em nossos lábios e em nossos olhos" — murmurou.
1 Anthony and Cleopatra, l, 3.
— Como? - Nada.
— É claro — continuou o Dr. Shaw — que não se pode permitir essas fugas para a eternidade às pessoas que têm algum trabalho sério a fazer. Mas como ela não tem nenhum trabalho sério. . .
— Mesmo assim — insistiu John — não me parece direito.
O doutor encolheu os ombros.
— Bom, naturalmente, se o senhor prefere vê-la todo o tempo gritando como uma louca. . .
Por fim, John foi obrigado a ceder. Linda conseguiu o seu soma. Daí por diante, ela se conservou em seu pequeno quarto no trigésimo sétimo andar do edifício de apartamentos de Bernard, deitada na cama, com o rádio e a televisão permanentemente ligados, a torneira de patchuli a gotejar o perfume, e os comprimidos de soma ao alcance da mão — ali ficou ela; e, no entanto, não era ali que ela estava; achava-se sempre em outra parte, infinitamente longe, fora da realidade, em algum outro mundo onde a música do rádio era um labirinto de cores sonoras, um labirinto deslizante, palpitante, que levava (por que voltas maravilhosamente inevitáveis!) a um centro brilhante de convicção absoluta; onde as imagens dançantes do aparelho de televisão eram os atores de algum filme sensível e cantado, indescritivelmente delicioso; onde o patchuli, caindo gota a gota, era mais do que um perfume — era o sol, um milhão de sexofones, Pope fazendo o amor, mas muito mais intensamente, muitíssimo mais, sem cessar.
— Não, não podemos rejuvenescer— concluiu o Dr. Shaw. — Mas estou muito satisfeito por ter tido esta oportunidade de observar um caso de senilidade num ser humano. Muito obrigado por ter-me chamado.
E apertou cordialmente a mão de Bernard.
Era, pois, em John que todos estavam interessados. E como era exclusivamente por intermédio de Bernard, seu curador credenciado, que se poderia conhecer John, aquele viu-se então, pela primeira vez na vida, tratado não apenas normalmente, mas como pessoa de preeminente importância. Não mais se falava de álcool no seu pseudo-sangue, não mais se fazia troça do seu físico. Henry Foster fez questão de lhe demonstrar amizade; Benito Hoover deu-lhe de presente seis pacotes de chicletes de hormônio sexual; o Predestinador Adjunto veio suplicar-lhe quase abjetamente um convite para uma de suas recepções. Quanto às mulheres, bastava que Bernard deixasse entrever a possibilidade de um convite para ter qualquer delas que lhe agradasse.
— Bernard me convidou para conhecer o Selvagem quinta-feira próxima — anunciou Fanny com ar de triunfo.
- Como fico satisfeita — respondeu Lenina. — E agora você tem de reconhecer que estava enganada a respeito de Bernard. Não acha que ele é bastante gentil?
Fanny aquiesceu com um sinal de cabeça.
— E devo confessar — acrescentou — que me senti agradável mente surpreendida.
O Enfrascador-Chefe, o Diretor de Predestinação, três Subadjuntos do Fecundador Geral, o Professor de Cinema Sensível do Colégio de Engenharia Emocional, o Deão do Coro Comunitário de Westminster, o Supervisor da Bokanovskização — a lista de notabilidades de Bernard era interminável.
— E tive seis mulheres na semana passada — contou a Helmholtz Watson.. — Uma na segunda-feira, duas na terça, outras duas na sexta e uma no sábado. E, se tivesse tido tempo ou desejo, havia pelo menos uma dúzia mais que não quereria outra coisa. . .
Helmholtz ouviu suas gabolices num silêncio tão sombriamente desaprovador que Bernard se ofendeu.
— Você está com inveja — disse. Helmholtz sacudiu a cabeça.
— Estou um pouco triste, nada mais.
Bernard saiu amuado. Nunca mais, prometeu a si mesmo, nunca mais tornaria a falar com Helmholtz.
Os dias passaram. O êxito subiu à cabeça de Bernard como um vinho capitoso e reconciliou-o completamente (como deve fazê-lo um bom produto inebriante) com um mundo que, até então, achara muito pouco satisfatório. Enquanto esse mundo reconhecesse sua importância, a ordem das coisas parecia-lhe boa.Mas, embora reconciliado pelo êxito, recusava-se a abandonar o direito de criticar essa ordem. Porque o fato de criticar exaltava nele o sentimento de sua importância, dava-lhe a impressão de ser maior. Além disso, ele acreditava sinceramente que havia coisas a criticar. (Ao mesmo tempo, agradava-lhe genuinamente ter sucesso e possuir todas as mulheres que quisesse).
Diante daqueles que agora, por causa do Selvagem, o procuravam, Bernard ostentava uma atitude crítica pouco ortodoxa. Ouviam-no cortesmente. Mas, pelas costas, sacudiam a cabeça. "Esse rapaz acabará mal", diziam, profetizando com tanto mais confiança quanto era certo que eles próprios, chegada a ocasião, tratariam de fazer com que Bernard tivesse efetivamente um mau fim. "Ele não encontrará outro Selvagem para tirá-lo de apuros pela segunda vez", comentavam. Entrementes, havia o primeiro Selvagem, e por isso eram corteses. E porque se mostravam polidos, Bernard sentia-se positivamente gigantesco — gigantesco e, ao mesmo tempo, todo leveza, mais leve que o ar.
— Mais leve que o ar — disse Bernard, apontando para cima:
Como uma pérola no céu, lá no alto, muito acima deles, o balão cativo do Serviço Meteorológico brilhava, inteiramente róseo, ao sol.
". . . Deverá ser mostrada ao referido Selvagem", rezavam as instruções recebidas por Bernard, "a vida civilizada em todos os seus aspectos."
Mostravam-lha agora, em vista panorâmica, do alto da plataforma da Torre de Charing-T. O Chefe do Posto e o Meteorologista Residente serviam de guias. Mas era sobretudo Bernard quem falava. Embriagado, portava-se como se fosse, no mínimo, um Administrador Mundial em inspeção. Mais leve que o ar.
O Foguete Verde de Bombaim desceu do céu. Os passageiros desembarcaram. Oito gêmeos dravidianos idênticos, vestidos de caqui, olharam para fora pelas oito portinholas da cabina — os aeromoços.
— Mil duzentos e cinqüenta quilômetros por hora disse o Chefe do Posto, em tom impressivo. — Que acha disto, Sr. Selvagem?
John achou que era muito bonito.
— Entretanto — acrescentou — Puck era capaz de dar uma volta ao redor da terra em quarenta minutos. 2
"O Selvagem", escreveu Bernard em seu relatório a Mustafá Mond, "manifesta surpreendentemente pouca admiração ou reverência diante das invenções da civilização. Isso talvez seja, em parte, devido ao que já lhe contara a mulher Linda, sua m. . ."
2 I’ll put a girdle round about the earth In forty minutes. (Midsummer Night's Dream, II, 1.)
(Mustafá Mond franziu a testa. "O imbecil estará pensando que sou tão suscetível que não posso ver a palavra escrita com todas as letras? ")
". . . e, em parte, ao fato de seu interesse se concentrar no que denomina 'a alma', que ele persiste em considerar como uma entidade independente do meio físico; ao passo que, como procurei demonstrar-lhe. . ."
O Administrador pulou as linhas seguintes e estava a ponto de virar a página, à procura de alguma coisa mais concreta e interessante, quando seu olhar foi atraído por uma série de frases absolutamente extraordinárias: ". . . embora eu tenha de reconhecer", leu ele, "que estou de acordo com o Selvagem em achar que a infantilidade civilizada é fácil demais, ou, como ele diz, não exige um preço bastante alto; e eu gostaria de aproveitar a oportunidade de chamar a atenção de Vossa Fordeza para. . ."
A irritação de Mustafá Mond cedeu lugar quase imediatamente ao riso. A idéia de aquela criatura vir fazer-lhe — a ele — uma preleção solene sobre a ordem social era verdadeiramente grotesca demais. O homem devia ter enlouquecido. "Preciso dar-lhe uma lição", pensou; depois atirou a cabeça para trás e riu a bom rir. Por enquanto, pelo menos, a lição não seria dada.
Era uma pequena fábrica de equipamento de iluminação para helicópteros, uma sucursal da Companhia Geral de Acessórios Elétricos. Foram recebidos no próprio terraço (pois a carta circular de recomendação enviada pelo Administrador era mágica em seus efeitos) pelo Técnico-Chefe e pelo Diretor do Elemento Humano. Desceram à fábrica.
— Cada tarefa — explicou o Diretor do Elemento Humano — é realizada, tanto quanto possível, por um único grupo Bokanovski.
E, com efeito, oitenta e três Deltas negros braquicéfalos quase sem nariz estavam ocupados com a prensagem a frio. Os cinqüenta e seis tornos de quatro brocaseram manejados por cinqüenta e seis Gamas cor de gengibre, de nariz aquilino. Cento e sete Ipsilons senegaleses condicionados ao calor trabalhavam na fundição. Trinta e três mulheres Deltas de cabeça alongada e cabelos cor de areia, de pelve estreita, todas com a estatura aproximada (uns 20 milímetros a mais ou a menos) de um metro e sessenta e nove centímetros, roscavam parafusos. Na sala de montagem, os dínamos eram armados por suas turmas de anões Gamas-Mais. As duas mesas baixas defrontavam-se; entre elas, o transportador de correia, com sua carga de peças, avançava lentamente. Quarenta e sete cabeças louras faziam face a quarenta e sete cabeças morenas; quarenta e sete narizes chatos, a quarenta e sete narizes aduncos; quarenta e sete queixos fugidios, a quarenta e sete queixos prognatas. As máquinas, depois de montadas, eram examinadas por dezoito moças idênticas, de cabelos castanhos encaracolados, vestidas de verde-Gama; eram então encaixotadas por trinta e quatro homens Deltas-Menos, de pernas curtas e arqueadas, e carregadas nas plataformas, depois nos caminhões que ali estavam à espera, por sessenta e três Ipsilons Semi-Aleijões de olhos azuis, cabelos cor de linho e pele sardenta.
"Oh, admirável mundo novo. . ." Por algum capricho perverso de sua memória, o Selvagem deu consigo repetindo as palavras de Miranda. "Oh, admirável mundo novo que encerra criaturas tais!"
— E asseguro-lhe — concluiu o Diretor do Elemento Humano, ao deixarem a fábrica — que quase nunca temos dificuldades com a mão-de-obra. Encontramos sempre...
Mas o Selvagem se afastara repentinamente de seus companheiros e, atrás de uma moita de loureiros, fazia esforços violentos para vomitar, como se a terra firme fosse um helicóptero numa bolsa de baixa pressão.
"O Selvagem", escreveu Bernard, "recusa-se a tomar soma e parece muito aflito porque a mulher Linda, sua m. . vive em permanente fuga da realidade. É digno de nota que, apesar da senilidade de sua m. . . e de seu aspecto extremamente repulsivo, o Selvagem vai vê-la freqüentemente e parece ser-lhe muito apegado — exemplo interessante de como o condicionamento precoce pode modificar e até contrariar os impulsos naturais (no caso presente, o impulso de recuar ante um objeto desagradável)."
Em Eton, pousaram no terraço da Alta Escola. No lado oposto do Pátio, os cinqüenta e dois andares da Torre de Lupton branquejavam ao sol. O Colégio à sua esquerda, e à direita o Coro Comunitário Escolar, erguiam suas massas veneráveis de cimento armado e vita-glass. No centro do quadrângulo, via-se a velha e curiosa estátua de aço cromado de Nosso Ford.
O Chanceler, Dr. Gaffney, e a Diretora, Srta. Keate, os receberam ao descerem do helicóptero.
— Há muitos gêmeos aqui? — perguntou o Selvagem, um tanto apreensivo, enquanto se punham a caminho para a visita de inspeção.
— Oh, não — respondeu o Chanceler. — Eton é reservado exclusivamente para rapazes e moças das castas superiores. Um ovo, um adulto. Isso torna mais difícil a educação, naturalmente. Mas, como serão chamados a assumir responsabilidades e enfrentar emergências imprevistas, não há outro remédio. — Suspirou.
Bernard, entretanto, achara a Srta. Keate muito de seu agrado.
— Se estiver livre uma destas noites, segunda, quarta ou sexta. . . — dizia ele. E, indicando o Selvagem com o polegar: — Ele é interessante, sabe? Singular.
A Srta. Keate sorriu (seu sorriso era realmente encantador, pensou Bernard) e disse que muito obrigada, que teria muito prazer em comparecer a uma de suas reuniões.
O Chanceler abriu uma porta.
Cinco minutos passados nessa aula para Alfas-Mais-Mais deixaram John um pouco aturdido.
— Que vem a ser a relatividade elementar? — perguntou em voz baixa a Bernard.
Este tentou explicar-lhe, mas mudou de idéia e propôs que fossem visitar outra aula.
Enquanto seguiam pelo corredor que levava à aula de geografia dos Beta s-M e n os, ouviram uma voz sonora de soprano gritar, atrás de uma porta: "Um, dois, três, quatro" e depois, com uma impaciência cheia de lassidão: "Descansar".
— Exercícios Malthusianos — explicou a Diretora. — A maioria das nossas moças são neutras, já se vê. Eu própria sou uma neutra. — E sorriu para Bernard. — Mas temos umas oitocentas que não são esterilizadas e precisam praticar exercícios constantemente.
Na aula de geografia dos Betas-Menos, John ficou sabendo que "uma Reserva de Selvagens é um lugar que, devido a condições climáticas ou geológicas desfavoráveis, ou à pobreza de recursos naturais, não compensa as despesas necessárias para civilizá-lo". Um estalido, e a peça ficou mergulhada na escuridão; subitamente, na tela acima da cabeça do Professor, apareceram os Penitentes de Acoma, prosternando-se diante de Nossa Senhora e gemendo como John os ouvira gemer, confessando seus pecados diante de Jesus crucificado, diante da imagem de Pukong sob a forma de uma águia. Os jovens estudantes de Eton explodiram em gargalhadas. Sempre gemendo, os Penitentes ergueram-se, despiram-se até a cintura e começaram a flagelar-se com azorragues, golpe após golpe. As explosões de riso, redobradas, abafaram até mesmo a reprodução ampliada dos gemidos.
— Mas por que é que eles riem? — perguntou o Selvagem com perplexidade magoada.
— Por quê? — O Chanceler virou para ele o rosto ainda enrugado pelo riso. — Porquê? Ora, porque é tão extraordinariamente engraçado.
Na penumbra cinematográfica, Bernard arriscou um gesto que, outrora, mesmo na mais completa escuridão, não teria ousado esboçar. Seguro de sua recente importância, passou o braço pela cintura da Diretora. Ela cedeu, flexível como um salso. Ele ia colher um ou dois beijos, e talvez beliscá-la de leve, quando, com um novo estalido, se abriram as persianas das janelas.
— Talvez seja melhor continuarmos a nossa visita — disse a Srta. Keate, e dirigiu-se para a porta.
— E isto aqui — disse o Chanceler um momento depois — é a Sala de Controle Hipnopédico.
Centenas de caixas de música sintética, uma para cada dormitório, se alinhavam em prateleiras ao longo de três paredes da sala; na quarta parede, classificados em pequenos compartimentos, achavam-se os rolos de fita em que estavam gravadas as diversas lições hipnopédicas.
— Introduz-se o rolo aqui — explicou Bernard, interrompendo o Dr. Gaffney — aperta-se este interruptor. . .
— Não, aquele — retificou o Chanceler, agastado.
— Aquele, então. O rolo gira. As células de selênio transformam os impulsos luminosos em vibrações sonoras e. . .
— E pronto — disse o Dr. Gaffney, concluindo.
— Eles lêem Shakespeare? — perguntou o Selvagem quando, a caminho dos Laboratórios Bioquímicos, passavam diante da Biblioteca da Escola.
— De modo algum — respondeu a Diretora, corando.
— Nossa biblioteca — disse o Dr. Gaffney — contém somente obras de consulta. Se os nossos jovens precisarem de distrações, poderão encontrá-las no cinema sensível.
Nós não os estimulamos a procurar qualquer tipo de diversão solitária.
Cinco ônibus cheios de rapazes e moças a cantar, ou abraçados em silêncio, passaram diante deles pela rua vitrificada.
— Estão voltando neste instante do Crematório de Slough — explicou o Dr. Gaffney, enquanto Bernard, em voz baixa, marcava um encontro com a Diretora para aquela mesma noite. — O condicionamento para a morte começa aos dezoito anos. Cada garotinho passa semanalmente duas semanas em um Hospital para Moribundos. Lá encontram os melhores brinquedos e, nos dias em que ocorre algum falecimento, ganham creme de chocolate. Aprendem, desse modo, a considerar a morte como uma coisa natural.
— Como qualquer outro processo fisiológico — acrescentou a Diretora, em tom profissional.
As dez horas, no Savoy. Estava tudo combinado.
De regresso a Londres, detiveram-se na fábrica da Companhia Geral de Televisão de Brentford.
— Quer me esperar aqui um instante, enquanto vou telefonar? — pediu Bernard.
O Selvagem esperou e ficou observando. Era justamente a hora de saída da turma principal do dia. Uma multidão de trabalhadores das castas inferiores fazia fila diante da estação de monotrilho — setecentos a oitocentos homens e mulheres Gamas, Deltas e ipsilons que, em sua totalidade, não tinham mais de,uma dúzia de fisionomias e estaturas diferentes. A cada um deles o bilheteiro dava, juntamente com a passagem, uma caixinha de papelão contendo pílulas. A longa fila de homens e mulheres avançava lentamente.
— Que é que há nesses. . . — (lembrando-se do Mercador de Veneza) — nesses escrínios? — perguntou o Selvagem, quando Bernard voltou.
— A ração diária de soma — respondeu Bernard em voz um tanto indistinta, pois estava mascando um pedaço do chiclete de Benito Hoover. — Eles a recebem quando terminam o trabalho. Quatro comprimidos de meia grama. Seis aos sábados.
Tomou afetuosamente o braço de John e voltaram para o helicóptero.
Lenina entrou cantando no Vestiário.
— Pareces muito satisfeita contigo mesma — observou Fanny.
— E estou satisfeita — respondeu ela. Zip! — Bernard me telefonou há meia hora. — Zip, zip! Tirou o calção. — Tem um compromisso inesperado. . . — Zip! — Ele me pediu para levar o Selvagem ao cinema sensível hoje de noite. Tenho que me apressar. — E precipitou-se para a sala de banho.
"É uma garota de sorte", pensou Fanny, enquanto via Lenina afastar-se.
Não havia nenhuma inveja nesse comentário; Fanny, com sua boa índole, enunciava simplesmente um fato. Lenina tinha sorte mesmo; sorte de partilhar com Bernard uma generosa porção da imensa celebridade do Selvagem; sorte de, em sua insignificante pessoa, refletir a glória suprema do momento. A Secretária da Associação Fordiana de Moças não a convidara a pronunciar uma conferência acerca de suas aventuras? Não fora ela convidada para o Jantar Anual do Clube Afroditeu? Não aparecera já num filme das Ultimas Novidades Sensíveis — de modo perceptível à vista, ao ouvido e ao tato de incontáveis milhões de espectadores em todo o planeta?
As atenções que lhe dispensavam personagens de destaque não tinham sido menos lisonjeiras. O Segundo Secretário do Administrador Mundial da região a convidara a jantar e tomar o café da manhã. Passara um fim-de-semana com Sua Fordeza o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e outro com o Arquichantre de Canterbury. O Presidente da Companhia Geral de Secreções Internas e Externas lhe telefonava constantemente e ela fora a Deauville com o Vice-Diretor do Banco da Europa.
— É maravilhoso, sem dúvida. Entretanto, de certo modo — confessou ela a Fanny — tenho a sensação de que estou conseguindo alguma coisa de má fé. Porque, naturalmente, a primeira coisa que todos desejam saber é o que se sente ao manter relações amorosas com um Selvagem. E sou forçada a dizer que não sei. — Sacudiu a cabeça. — A maioria dos homens não acredita, claro. Mas é a verdade. Bem desejaria que não fosse — acrescentou com tristeza, e suspirou. — Ele é lindo de morrer, você não acha?
— Mas ele não gosta de você? — perguntou Fanny.
— Às vezes me parece que sim e, outras vezes, que não. Ele faz sempre o que pode para me evitar. Sai da sala quando entro; não quer tocar em mim, nem mesmo me olhar. Mas às vezes, se me viro de repente, eu o surpreendo a me olhar fixamente; e então. . . ora, você sabe como os homens olham quando gostam da gente.
Sim, Fanny sabia.
— Não posso compreender isso — continuou Lenina. Não podia compreender; e estava não somente perplexa, mas também bastante desgostosa.
— Porque você vê, Fanny, eu gosto dele.
Gostava cada vez mais dele. Bem, agora se apresentava uma verdadeira oportunidade, pensou, enquanto se perfumava após o banho. Puf, puf, puf — uma verdadeira oportunidade. Seu otimismo exuberante transbordou numa canção:
Beija-me, abraça-me com rudeza; Esgota-me até o coma; Conserva-me a ti presa; O amor é como o soma.
O órgão de perfumes tocava um Capricho Herbáceo deliciosamente fresco — arpejos saltitantes de tomilho e alfazema, de alecrim, manjericão, murta e estragão; uma série de modulações audaciosas, passando por todos os tons das especiarias até o âmbar cinzento; e um lento retorno, através do sândalo, da cânfora, do cedro e do feno recém-ceifado (com tonalidades sutis, por momentos, de notas discordantes — uma baforada de pastel de rins, uma pitada mínima de estéreo de porco) aos aromas simples com os quais a melodia começara. O último acorde de tomilho desvaneceu-se, ouviram-se aplausos, as luzes se reacenderam. Na máquina de música sintética, o rolo de fita sonora começou a girar. Foi um trio para hiperviolino, supervioloncelo e pseudo-oboé que saturou então o ar com sua agradável languidez. Trinta a quarenta compassos — e depois, sobre esse fundo instrumental, uma voz muito mais que humana começou a cantar: ora voz de garganta, ora voz de cabeça, ora singela como uma flauta, ora carregada de anelantes sons harmônicos, ela passava sem esforço do recorde de baixo de Gaspard Foster nos extremos limites dos sons musicais, a um trinado agudo como o grito do morcego, muito acima do dó mais elevado que deu uma vez (em 1770, na Opera Ducal de Parma e para espanto de Mozart) Lucrezia Ajugari, única cantora a fazê-lo em toda a história.
Comodamente instalados em suas poltronas pneumáticas, Lenina e o Selvagem aspiravam e ouviam. Chegou então a vez também dos olhos e da pele.
As luzes da sala apagaram-se; letras chamejantes destacaram-se em relevo, como suspensas na escuridão. Três Semanas em Helicóptero. Superfilme Cantante, Falante, Sintético, Colorido, Estereoscópico e Sensível.Com Acompanhamento Sincronizado de Órgão de Perfumes.
— Coloque suas mãos nesses botões metálicos que estão nos braços de sua poltrona — sussurrou Lenina. — Sem isso você não terá nenhum dos efeitos do Sensível.
O Selvagem fez o que lhe fora indicado.
Entrementes, aquelas letras chamejantes tinham desaparecido; houve dez segundos de escuridão completa; depois, de súbito, deslumbrantes e parecendo incomparavelmente mais sólidas do que se se apresentassem em carne e osso, muito mais reais do que a própria realidade, surgiram as imagens estereoscópicas estreitamente abraçadas de um negro gigantesco e de uma jovem Beta-Mais braquicéfala, de cabelos cor de ouro.
O Selvagem sobressaltou-se. Aquela sensação nos seus lábios! Ergueu a mão para levá-la à boca; o leve roçar nos lábios cessou; deixou recair a mão no botão metálico; a sensação recomeçou. Ao mesmo tempo, o órgão de perfumes exalava almíscar puro. Em tom expirante, uma superpomba de trilha sonora arrulhou: "U-uh"; e, não vibrando mais de trinta e duas vezes por segundo, uma voz de baixo, mais que africana em sua profundidade, respondeu: "Aa-aah!" "Uh-ah! Uh-ah!" os lábios estereoscópicos uniram-se de novo, e mais uma vez as zonas erógenas faciais dos seis mil espectadores do Alhambra titilaram com um prazer galvânico quase intolerável. "U-uh". . .
O enredo do filme era extremamente simples. Alguns minutos depois dos primeiros "uuhs" e "aahs" ( tendo sido cantado um dueto e realizados alguns contatos amorosos sobre aquela famosa pele de urso, da qual cada pêlo — o Predestinador Adjunto tinha razão — se deixava sentir separada e nitidamente), o negro era vítima de um acidente de helicóptero e caía de cabeça. Pan! Que ferroada de um lado a outro da testa! Um coro de uis e ais elevou-se dentre os espectadores.
O choque transtornou todo o condicionamento do negro. Este sentiu-se tomado de uma paixão exclusiva e demente pela Beta loura. Ela protestou. Ele insistiu. Houve lutas, perseguições, agressão a um rival e, finalmente, um sensacional seqüestro. A Beta loura foi raptada e mantida em pleno céu, pairando, durante três semanas, em um tête-à-tête ferozmente anti-social com o negro louco. Por fim, depois de uma longa série de aventuras e muitas acrobacias aéreas, três jovens e belos Alfas conseguiram libertá-la. O negro foi mandado para um Centro de Recondicionamento de Adultos e o filme terminou de um modo feliz e decoroso, com a Beta loura tornando-se amante de seus três salvadores. Interromperam-se por um instante para cantar um quarteto sintético com acompanhamento de superorquestra e de gardênias no órgão de perfumes. Depois a pele de urso apareceu uma última vez e, em meio a um clangor de sexofones, o último beijo estereoscópico esvaiu-se na escuridão, a última titilação elétrica amorteceu-se nos lábios, como uma mariposa em agonia, que palpita, palpita, cada vez mais fracamente, cada vez mais imperceptivelmente, e acaba por ficar imóvel, completamente imóvel.
Para Lenina, porém, a mariposa não morrera completamente. Mesmo depois que as luzes se reacenderam, enquanto caminhavam lentamente com a multidão para os elevadores, o fantasma palpitava ainda nos seus lábios, traçando na pele finos arabescos frementes de angústia e de prazer. Estava com as faces coradas, tinha um brilho orvalhado nos olhos, respirava profundamente. Tomou o braço do Selvagem, apertou-o, inerte, contra o seu corpo. Ele baixou os olhos um segundo para ela, pálido, atormentado, cheio de desejo e envergonhado por isso. Ele não era digno, não era. . . Seus olhares cruzaram-se um momento. Que tesouros prometiam os de Lenina! Quanto a temperamento, valiam o resgate de uma rainha. Ele apressou-se a desviar os olhos, desprendeu seu braço aprisionado. Obscuramente, sentia o terror de que ela deixasse de ser algo de que ele pudesse considerar-se indigno.
— Acho que você não deveria ver coisas assim — disse, apressando-se a transferir de Lenina para as circunstâncias ambientes a culpa de qualquer imperfeição passada ou possível no futuro.
— Assim como, John?
— Como esse filme horrível.
— Horrível? — Lenina ficou sinceramente espantada. — Mas eu o achei encantador.
— Era vil — tornou ele, indignado — era ignóbil. Ela sacudiu a cabeça.
— Não sei o que você quer dizer. . . — Por que era ele tão esquisito? Por que se empenhava em estragar as coisas?
No taxicóptero, mal olhou para ela. Preso por votos poderosos que nunca tinham sido proferidos, obediente a leis caídas em desuso havia muito tempo, ficou sentado, desviando os olhos, em silêncio. Por vezes, como se um dedo tocasse numa corda tensa prestes a romper-se, todo o seu corpo era sacudido por um brusco sobressalto nervoso.
O taxicóptero pousou no terraço do edifício de apartamentos de Lenina. "Enfim", pensou ela, exultante, quando desceudo aparelho. Enfim — muito embora ele tivesse sido tão esquisito havia pouco. De pé, sob uma lâmpada, ela olhou-se no seu espelho de mão. Enfim. Sim, ela estava realmente com o nariz um nadinha lustroso. Sacudiu o pó solto de sua pluma. Enquanto ele pagava o táxi, teria tempo de empoar-se. Esfregou a parte lustrosa, pensando. "Ele é terrivelmente bonito. Não tem nenhum motivo de ser tímido como Bernard. E, no entanto... Qualquer outro homem já o teria feito há muito tempo. Mas agora, enfim!" Aquele fragmento de rosto refletido em seu espelhinho redondo, sorria-lhe de repente.
— Boa noite — disse uma voz embargada, atrás dela. Lenina voltou-se vivamente. Ele estava junto à porta
do táxi, os olhos fixos, muito abertos; era evidente que estivera olhando durante todo esse tempo, enquanto ela empoava o nariz, esperando — mas o quê? ou hesitando, procurando decidir-se e pensando continuamente, pensando — ela não podia imaginar que pensamentos extraordinários seriam os seus.
— Boa noite, Lenina — repetiu ele, e esboçou um estranho arremedo de sorriso.
— Mas, John. . . Pensei que você ia. . . Quero dizer, você não vai. . .?
Ele fechou a porta e inclinou-se para dizer qualquer coisa ao condutor. O aparelho subiu de um salto.
Olhando para baixo através da janela do piso, o Selvagem pôde ver o rosto de Lenina voltado para cima, pálido sob a luz azulada das lâmpadas. Ela estava com a boca aberta, e chamava. Seu vulto, em perspectiva reduzida, afastou-se dele a toda velocidade; o quadrado do terraço, diminuindo cada vez mais, parecia afundar nas trevas.
Cinco minutos depois, ele estava de volta ao seu quarto. Tirou dum esconderijo o volume roído pelos ratos, virou com cuidado religioso as páginas manchadas e amarfanhadas, e começou a ler Otelo. Otelo, lembrou-se, parecia-se com o herói de Três Semanas em Helicóptero — era um negro.
Enxugando os olhos, Lenina atravessou o terraço até o elevador. Enquanto descia ao vigésimo sétimo andar, pegou o seu frasco de soma. Uma grama não bastaria, decidiu; seu desgosto correspondia a uma dose maior. Mas, se tomasse duas gramas, correria o risco de não se acordar a tempo, na manhã seguinte. Optou por um meio-termo e, sacudindo o frasco, fez cair na palma da mão esquerda, aberta em concha, três comprimidos de meia grama.