Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley · Capítulo 4 de 24

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Admirável Mundo Novo

Capítulo II

 

Deixaram o Sr. Foster na Sala de Decantação. O D. I. C. e seus alunos entraram no elevador mais próximo e foram levados ao quinto andar.

Berçários. Salas de Condicionamento Neopavloviano, indicava o painel de avisos.

O Diretor abriu uma porta. Entraram numa vasta peça nua, muito clara e ensolarada, pois toda a parede do lado sul era constituída por uma única janela. Meia dúzia de enfermeiras, com as calças e jaquetas do uniforme regulamentar de linho branco de viscose, os cabelos assepticamente cobertos por toucas brancas, estavam ocupadas em dispor sobre o assoalho vasos com rosas numa longa fila, de uma extremidade à outra da peça. Grandes vasos, apinhados de flores. Milhares de pétalas, amplamente desabrochadas e de uma sedosa maciez, semelhantes às faces de inumeráveis pequenos querubins, mas querubins que, naquela claridade, não eram exclusivamente róseos e arianos, mas também luminosamente chineses, também mexicanos, também apopléticos de tanto soprarem as trombetas celestes, também pálidos como a morte, pálidos da brancura póstuma do mármore.

As enfermeiras perfilaram-se ao entrar o D.I.C.

— Coloquem os livros — disse ele, secamente.

Em silêncio, elas obedeceram à ordem. Entre os vasos de rosas, os livros foram devidamente dispostos — uma fileira de in-quartos infantis, cada um aberto, de modo convidativo, em alguma gravura agradável mente colorida, de animal, peixe ou pássaro.

— Agora, tragam as crianças.

Elas saíram apressadamente da sala e voltaram ao cabo de um ou dois minutos, cada qual empurrando uma espécie de carrinho, onde, nas suas quatro prateleiras de tela metálica, vinham bebês de oito meses, todos exatamente iguais (um Grupo Bokanovsky, evidentemente) e todos (já que pertenciam à casta Delta) vestidos de caqui.

— Ponham as crianças no chão. Os bebês foram descarregados.

— Agora, virem-nas de modo que possam ver as flores e os livros.

Virados, os bebês calaram-se imediatamente, depois começaram a engatinhar na direção daquelas massas de cores brilhantes, daquelas formas tão alegres e tão vivas nas páginas brancas. Enquanto se aproximavam, o sol ressurgiu de um eclipse momentâneo atrás de uma nuvem. As rosas fulgiram como sob o efeito de uma súbita paixão interna; uma energia nova e profunda pareceu espalhar-se sobre as páginas reluzentes dos livros. Das filas de bebês que se arrastavam a quatro pés, elevaram-se gritinhos de excitacão, murmúrios e gorgolejos de prazer.

O Diretor esfregou as mãos.

— Excelente! — comentou. — Até parece que foi feito de encomenda.

Os mais rápidos engatinhadores já haviam alcançado o alvo. Pequeninas mãos se estenderam incertas, tocaram, pegaram, despetalando as rosas transfiguradas, amarrotando as páginas iluminadas dos livros. O Diretor esperou que todos estivessem alegremente entretidos. Depois disse:

— Observem bem. — E, levantando a mão, deu o sinal.

A Enfermeira-Chefe, que se encontrava junto a um quadro de ligações na outra extremidade da sala, baixou uma pequena alavanca.

Houve uma explosão violenta. Aguda, cada vez mais aguda, uma sirena apitou. Campainhas de alarma tilintaram, enlouquecedoras.

As crianças sobressaltaram-se, berraram; suas fisionomias estavam contorcidas pelo terror.

— E agora — gritou o D. l C. (pois o barulho era ensurdecedor) — agora vamos gravar mais profundamente a lição por meio de um ligeiro choque elétrico.

Agitou de novo a mão, e a Enfermeira-Chefe baixou uma segunda alavanca. Os gritos das crianças mudaram subitamente de tom. Havia algo de desesperado, de quase demente, nos urros agudos e espasmódicos que elas então soltaram. Seus pequenos corpos contraíam-se e retesavam-se; seus membros agitavam-se em movimentos convulsivos, como puxados por fios invisíveis.

— Nós podemos eletrificar todo aquele lado do assoalho — berrou o Diretor a modo de explicação. — Mas isso basta — continuou, fazendo um sinal à enfermeira.

As explosões cessaram, as campainhas pararam de soar, o bramido da sirena foi baixando de tom em tom até silenciar. Os corpos rigidamente contraídos distenderam-se, o que antes fora o soluço e o ganido de pequenos candidatos à loucura expandiu-se novamente no berreiro normal do terror comum.

— Ofereçam-lhes de novo as flores e os livros.

As enfermeiras obedeceram; mas à aproximação das rosas, à simples vista das imagens alegremente coloridas do gatinho, do galo que faz cocorocó e do carneiro que faz bé, bé, as crianças recuaram horrorizadas; seus berros recrudesceram subitamente.

— Observem — disse o Diretor, triunfante. — Observem.

Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques elétricos — já na mente infantil essas parelhas estavam ligadas de forma comprometedora; e, ao cabo de duzentas repetições da mesma lição, ou de outra parecida, estariam casadas indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.

— Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam um ódio "instintivo" aos livros e às flores. Reflexos inalterável mente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida. — O Diretor voltou-se para as enfermeiras. — Podem levá-las.

Sempre gritando, os bebês de caqui foram colocados nos seus carrinhos e levados para fora da sala, deixando atrás de si um cheiro de leite azedo e um agradabilíssimo silêncio.

Um dos estudantes levantou a mão. Embora compreendesse perfeitamente que não se podia permitir que pessoas de casta inferior desperdiçassem o tempo da Comunidade com livros e que havia sempre o perigo de lerem coisas que provocassem o indesejável descondicionamento de algum dos seus reflexos, no entanto. . . enfim, ele não conseguia entender o referente às flores. Por que dar-se ao trabalho de tornar psicologicamente impossível aos Deltas o amor às flores?

Pacientemente, o D. I. C. explicou. Se se procedia de modo que as crianças se pusessem a berrar à vista de uma rosa, era por considerações de alta política econômica. Não havia muito tempo (mais ou menos um século) tinham-se condicionado os Gamas, os Deltas e até mesmo os Ipsilons a amar as flores — as flores em particular e a natureza selvagem em geral. O fim visado era despertar neles o desejo de irem ao campo sempre que se apresentasse a ocasião, obrigando-os assim a utilizar os meios de transportes.

— E eles não utilizavam os meios de transporte? — perguntou o estudante.

— Sim, e muito — respondeu o D.I.C. — mas nada mais.

As flores do campo e as paisagens, advertiu, têm um grave-defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica. Decidiu-se que era preciso aboli-lo, pelo menos nas classes baixas; abolir o amor à natureza, mas não a tendência a consumir transporte. Pois era essencial, evidentemente, que continuassem a ir ao campo, mesmo tendo-lhe horror. O problema era encontrar uma razão economicamente melhor para o consumo de transporte do que a simples afeição às flores silvestres e às paisagens. Ela fora devidamente descoberta.

— Nós condicionamos as massas a detestarem o campo — disse o Diretor, em conclusão — mas, simultaneamente, as condicionamos a adorarem todos os esportes ao ar livre. Ao mesmo tempo, providenciamos para que todos os esportes ao ar livre exijam o emprego de aparelhos complicados. De modo que elas consomem artigos manufaturados, assim como transporte. Dai' esses choques elétricos.

— Compreendo — disse o estudante; e quedou-se mudo de admiração.

Houve um silêncio; depois, pigarreando para clarear a voz:

— Era uma vez — começou o Diretor — quando Nosso Ford ainda estava neste mundo, um rapazinho chamado Reuben Rabinovitch. Reuben era filho de pais de língua polonesa. — O Diretor interrompeu-se: — Suponho que sabem o que é o polonês, não?

— Uma língua morta.

— Como o francês e o alemão — acrescentou outro, exibindo com zelo^seus conhecimentos.

— E "pais"? - perguntou o D.l.C.

Fez-se um silêncio embaraçado. Vários rapazes coraram. Ainda não tinham aprendido a fazer a distinção, importante mas por vezes muito sutil, entre a indecência e a ciência pura. Um deles, por fim, teve a coragem de levantar a mão.

— Os seres humanos, antigamente, eram. . . — Hesitou; o sangue subiu-lhe às faces. — Enfim, eram vivíparos.

— Muito bem. — O Diretor aprovou com um sinal de cabeça.

— E quando os bebês eram decantados. . .

— Nasciam — corrigiu ele.

— Bom, então, eram os pais. . . isto é, não os bebês, está claro; os outros. — O pobre rapaz estava atrapalhadíssimo.

— Em uma palavra — resumiu o Diretor — os pais eram o pai e a mãe. — Essa indecência, que, na realidade, era ciência, caiu com estrépito no silêncio daqueles jovens, que não ousavam olhar-se. — A mãe — repetiu ele em voz alta, para fazer penetrar bem fundo a ciência; e, inclinando-se para trás da cadeira, disse gravemente: — São fatos desagradáveis, eu sei. Mas é que a maioria dos fatos históricos são mesmo desagradáveis.

Voltou ao caso do pequeno Reuben — do pequeno Reuben em cujo quarto, certa noite, por descuido, seu pai e sua mãe (hum, hum!) tinham deixado ligado o aparelho de rádio. (Pois é preciso lembrar que, naqueles tempos de grosseira reprodução vivípara, os filhos eram sempre criados pelos pais, e não em Centros de Condicionamento do Estado.)

Enquanto a criança dormia, o aparelho começou, de repente, a captar um programa transmitido de Londres; e na manhã seguinte, para espanto de seu. . . (hum) e de sua. . . (hum) (os mais arrojados entre os rapazes arriscaram-se a trocar um sorriso), o pequeno Reuben levantou-se repetindo, palavra por palavra, uma longa palestra desse curioso escritor antigo (um dos poucos cujas obras se permitiu chegassem até nós) George Bernard Shaw, que, segundo a tradição bem autenticada, falara sobre seu próprio gênio. Para o. . . (piscada de olho) e a. . . (risinho) do pequeno Reuben, essa palestra era, sem dúvida, perfeitamente incompreensível e, pensando que o filho tivesse enlouquecido de repente, chamaram um médico. Por sorte, este compreendia o inglês, reconheceu a palestra como sendo a que Shaw havia transmitido pelo rádio, percebeu a importância do que acontecera e escreveu a respeito uma carta à imprensa médica.

— O princípio do ensino durante o sono, ou hipnopedia, estava descoberto. — O D.I.C. fez uma pausa impressiva.

O princípio estava descoberto, mas decorreriam muitos anos até que ele tivesse aplicações úteis.

— O caso do pequeno Reuben ocorreu apenas vinte e três anos depois do lançamento do primeiro Modelo T de Nosso Ford. — Aqui o Diretor fez o sinal do T sobre

o estômago e todos os estudantes o imitaram, reverentes.

— No entanto. . .

Com frenesi, os estudantes rabiscaram: A hipnopedia, primeiro emprego oficial no ano 214 D. F. Por que não antes? Duas razões: a). . .

— Esses primeiros experimentadores — dizia o D.l.C.

— seguiram um caminho errado. Acreditavam que se podia fazer da hipnopedia um instrumento de educação intelectual.

(Um menino, adormecido sobre seu lado direito, o braço direito estendido, a mão direita pendendo molemente por sobre a beira da cama. Através de uma abertura redonda e gradeada na parede de uma caixa, uma voz fala baixinho.

"O Nilo é o mais comprido dos rios da África, e o segundo em comprimento de todos os rios do globo. Conquanto não atinja o comprimento do Mississfpi-Missuri, o Nilo está em primeiro lugar entre todos os rios quanto ao comprimento da bacia, que se estende por 35 graus de latitude. . ."

No café da manhã, no dia seguinte:

— Tommy — pergunta alguém - você sabe qual é o rio mais comprido da África?

Sinal negativo com a cabeça.

— Mas você não se lembra de uma coisa que começa assim: "O Nilo é. . ."?

— O Nilo-é-o-mais-comprido-dos-rios-da-Africa-e-o-segundo-em-comprimento-de-todos-os-rios-do-globo. . . — As palavras saem em torrente. — Conquanto-não-atinja. . .

— Muito bem, qual é o rio mais comprido da África? Os olhos ficam inexpressivos.

— Não sei.

— Mas o Nilo, Tommy!

— 0-Nilo-é-o-mais-comprido-dos-rios-da-Africa-e-o-segundo. . .

— Então, qual é o rio mais comprido, Tommy? Tommy desata a chorar.

— Eu não sei — responde entre lágrimas.)

Essas lágrimas, esclareceu o Diretor, desanimaram os primeiros pesquisadores. As experiências foram abandonadas. Não se fizeram mais tentativas para ensinar o comprimento do Nilo às crianças durante o sono. Muito acertadamente. Não se pode aprender uma ciência sem saber do que se trata.

— Ao passo que, se ao menos tivessem começado pela educação moral. . . — disse o Diretor, conduzindo a turma para a saída. Os estudantes o acompanharam, rabiscando desesperadamente enquanto caminhavam e durante todo o trajeto no elevador. — A educação moral, que não deve jamais, em circunstância alguma, ser racional.

"Silêncio, silêncio", murmurou um alto-falante, enquanto saíam do elevador no décimo quarto andar, e "Silêncio, silêncio", repetiram incansavelmente, a intervalos regulares, outros alto-falantes ao longo de cada corredor. Os estudantes, e o próprio Diretor, puseram-se automaticamente a caminhar nas pontas dos pés. Eles eram Alfas, por certo, mas até mesmo os Alfas haviam sido bem condicionados. "Silêncio, silêncio." Toda a atmosfera do décimo quarto andar vibrava com o imperativo categórico.

Cinqüenta metros de percurso nas pontas dos pés levaram-nos a uma porta que o Diretor abriu cautelosamente. Transpuseram o limiar e penetraram na penumbra de um dormitório de janelas fechadas. Oitenta pequenos leitos alinhavam-se ao longo da parede. Havia um ruído de respiração leve e regular, e um murmúrio contínuo, como de vozes muito baixas ciciando ao longe.

Uma enfermeira levantou-se quando eles entraram e perfilou-se diante do Diretor.

— Qual é a lição esta tarde? — perguntou ele.

— Nós tivemos Sexo Elementar durante os primeiros quarenta minutos. Mas agora passamos para o curso elementar de Consciência de Classe.

O Diretor percorreu lentamente a longa fila de pequenos leitos. Rosados e distendidos pelo sono, oitenta meninos e meninas respiravam suavemente. Debaixo de cada travesseiro saía um murmúrio. O D.I.C. parou e, inclinando-se sobre um dos pequenos leitos, escutou atentamente.

— Curso elementar de Consciência de Classe? Vamos ouvir isso um pouco mais alto.

Na extremidade da sala, um alto-falante sobressaía da parede. O Diretor foi até ele e apertou um botão.

". . . se vestem de verde", disse uma voz suave, mas bem nítida, começando no rneio de uma frase, "e as crianças Deltas se vestem de caqui. Oh, não, não quero brincar com crianças Deltas. E os ipsilons são ainda piores. São demasiado broncos para saberem ler e escrever. E além disso se vestem de preto, que é uma cor horrível. Como sou feliz por ser um Beta."

Houve uma pausa, depois a voz recomeçou:

"As crianças Alfas vestem roupas cinzentas. Elas trabalham muito mais do que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso, nós somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas. Os Gamas são broncos. Eles se vestem de verde e as crianças Deltas se vestem de caqui. Oh, não, não quero brincar com crianças Deltas. E os ipsilons são ainda piores. São demasiado broncos para saberem. . ."

O Diretor repôs o interruptor na posição primitiva. A voz calou-se. Apenas o seu tênue fantasma continuou a murmurar sob os oitenta travesseiros.

— Eles ouvirão isso repetido mais quarenta ou cinqüenta vezes antes de acordarem; depois, outra vez na quinta-feira, e novamente no sábado. Cento e vinte vezes, três vezes por semana, durante trinta meses. Depois disso, passarão a uma lição mais adiantada.

Rosas e choques elétricos, o caqui dos Deltas e uma baforada de assa-fétida — ligados indissoluvelmente antes que a criança saiba falar. Mas o condicionamento sem palavras é grosseiro e genérico; é incapaz de fazer apreender as distinções mais sutis, de inculcar as formas de comportamento mais complexas. Para isso é preciso palavras, mas palavras sem explicação racional. Em suma, a hipnopedia.

— A maior força moralizadora e socializante de todos os tempos.

Os estudantes anotavam tudo nos seus cadernos.

Novamente o Diretor tocou o botão.

". . . são formidável mente inteligentes", dizia a voz suave, insinuante, infatigável. "Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque. . ."

Não exatamente como gotas de água, conquanto esta, na verdade, seja capaz de cavar buracos no granito mais duro; mas, antes, como gotas de lacre derretido, gotas que aderem e se incorporam àquilo sobre que caem, até que, finalmente, a rocha não seja mais que uma só massa escarlate.

— Até que, finalmente, o espírito da criança seja essas coisas sugeridas, e que a soma dessas sugestões seja

o espírito da criança. E não somente o espírito da criança. Mas também o adulto, para toda a vida. O espírito que julga, e deseja, e decide, constituído por essas coisas •sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós! — O Diretor quase gritou, em seu triunfo. — Que o Estado sugere. — Bateu com a mão na mesa mais próxima. — Daí se segue que. . . Um ruído o fez voltar-se.

— Oh, Ford! — disse, em outro tom. — Não é que eu acordei as crianças!