Admirável Mundo Novo
§2
De duas em duas semanas, às quintas-feiras, era para Bernard dia da Cerimônia de Solidariedade. Depois de jantar cedo no Afroditeu (para o qual Helmholtz recentemente fora eleito em virtude do Artigo 29 do Regulamento), despediu-se do amigo e, chamando um táxi no terraço, ordenou ao condutor que voasse para o Orfeão Comunitário Fordson. O aparelho subiu uns duzentos metros, depois rumou para leste, e, ao fazer essa volta, diante dos olhos de Bernard surgiu o Orfeão, gigantescamente belo. Iluminados por projetores, seus trezentos e vinte metros de pseudomármore branco de Garrara brilharam numa incandescência nívea acima de Ludgate Hill; em cada um dos quatro ângulos de sua plataforma para helicópteros, um T imenso luzia, escarlate, no céu noturno, e pelas bocas de vinte e quatro enormes trombetas de ouro ressoava uma solene música sintética.
— Diabo, estou atrasado! — murmurou Bernard ao avistar Big Henry*, o relógio do Orfeão. E, com efeito, quando ele deixava o táxi, Big Henry deu a hora. "Ford", bramiu uma formidável voz de baixo, saindo de todas as trombetas de ouro. "Ford, Ford, Ford. . ." Nove vezes. Bernard correu para o elevador.
O grande auditório para as cerimônias do Dia de Ford e outros Cantos Comunitários gerais estava situado no andar térreo do edifício. Acima, à razão de cem por andar, estavam as sete mil salas que serviam aos Grupos de Solidariedade para realizarem as cerimônias quinzenais. Bernard desceu ao trigésimo terceiro andar, enfiou-se apressadamente pelo corredor, hesitou um momento diante da Sala 3210 e, decidindo-se, abriu a porta e entrou.
Graças a Ford! Ele não era o último a chegar. Das doze cadeiras dispostas em torno da mesa circular, ainda havia três desocupadas. Deslizou para a mais próxima, procurando fazer-se notar o menos possível, e preparou-se para acolher de sobrecenho franzido os outros retardatários que chegassem.
O sino maior da torre do Parlamento de Westminster (e, por extensão, a própria torre) chama-se "Big Ben".
— Que foi que você jogou esta tarde? — perguntou, voltando-se para ele, a moça que estava sentada à sua esquerda. — Golfe Obstáculo ou Electromagnético?
Bernard olhou-a (Ford! Era Morgana Rothschild!) e teve de confessar,corando, que não tinha jogado nenhum dos dois. Morgana fitou-o espantada. Houve um silêncio embaraçoso.
Depois, ostensivamente, ela virou as costas e dirigiu-se ao homem mais esportivo que estava à sua esquerda.
"Bonito começo para uma Cerimônia de Solidariedade", pensou Bernard, desconsolado, e previu que mais uma vez não conseguiria a comunhão de pensamento. Se ao menos tivesse tido o cuidado de olhar em roda, em vez de se precipitar para a cadeira mais próxima! Teria podido sentar-se entre Fifi Bradlaugh e Joana Diesel. Entretanto, fora plantar-se cegamente ao lado de Morgana. Morgana \ Ford! Aquelas sobrancelhas negras — ou melhor, aquela sobrancelha, pois elas se uniam acima do nariz! Ford! E à sua direita estava Clara Deterding. Sem dúvida, as sobrancelhas de Clara não se juntavam. Mas a moça era verdadeiramente pneumática demais. Ao passo que Fifi e Joana eram exatamente como convinha. Rechonchudas, louras, não muito grandes. . . E era aquelfe grande lorpa Tom Kawaguchi que agora se sentava na cadeira livre entre as duas.
A última pessoa a chegar foi Sarojini Engels.
— A senhora está atrasada — disse com severidade o Presidente do Grupo. — Que isso não se repita.
Sarojini desculpou-se e tomou o seu lugar entre Jim Bokanovsky e Herbert Bakunin. O grupo estava agora completo, o círculo de solidariedade estava perfeito e sem falhas. Um homem, uma mulher, um homem — num anel de alternância sem fim ao redor da mesa. Eram doze, prontos a se reunirem em um, esperando aproximarem-se, fundirem-se, perderem em um ser maior suas doze identidades distintas.
O Presidente levantou-se, fez o sinal do T e, ligando a música sintética, desencadeou o suave, infatigável rufar de tambores e um coro de instrumentos — de quase-sopro e supercordas — que repetiram expressivamente, muitas e muitas vezes, a melodia breve e obsedante do Primeiro Cântico de Solidariedade. Outra vez, mais outra — e não era o ouvido que percebia o ritmo martelado, era o diafragma; o gemido e o clangor daquelas harmonias reiteradas obsedavam, não o espírito, mas as entranhas, criando uma ardente compaixão.
O Presidente fez de novo o sinal do T e sentou-se. A cerimônia tinha começado. Os comprimidos de soma consagrados foram colocados no centro da mesa. A taça da amizade, cheia de refresco de morango com soma, foi passada de mão em mão e, com a fórmula "Bebo ao meu aniquilamento", levada doze vezes aos lábios. Depois, com o acompanhamento da orquestra sintética, cantaram o Primeiro Cântico de Solidariedade.
Nós somos doze, ó Ford; em tuas mãos reunidos Como as gotas que caem no Ribeiro Social; Ah! Faz com que corramos destemidos Como teu Calhambeque sem rival!
Doze estrofes anelantes. Depois, a taça da amizade passou novamente de mão em mão. "Bebo ao Ser Maior", tal era a fórmula. Todos beberam. Infatigável mente, a música continuava a se fazer ouvir. Os tambores rufavam. Os sons plangentes e atroadores das harmonias eram uma obsessão nas entranhas enternecidas. Cantaram o segundo Cântico de Solidariedade:
Vem, Amigo Social, ó Ser Supremo e forte, O Aniquilador dos Doze em Um, gigante! Todos morrer queremos, porque a morte É desta vida o mais sublime instante!
Novamente, doze estrofes. A essa altura, o soma já começara a atuar. Os olhos brilhavam, as faces estavam coradas, a luz interior da benevolência universal irradiava-se de cada rosto, em sorrisos felizes e amistosos. O próprio Bernard sentiu-se um pouco enternecido. Quando Morgana Rothschild se virou e lhe dirigiu um sorriso radiante, ele fez o que pôde para retribuMo. Mas a sobrancelha, aquela escura duas-em-uma, continuava ali; Bernard não podia deixar de vê-la — por mais esforços que fizesse, não podia. O enternecimento ainda não fora bastante longe. Se ele estivesse sentado entre Fifi e Joana, quem sabe. . . Pela terceira vez, a taça da amizade circulou. "Bebo à iminência de Sua Vinda", disse Morgana Rothschild, a quem tocava a vez de dar começo ao rito circular. Sua voz era forte, exultante. Ela passou a taça a Bernard. "Bebo à iminência de Sua Vinda", repetiu ele, com um esforço sincero para sentir que a Vinda era iminente; mas aquela sobrancelha continuava a obcecá-lo, e a Vinda, para ele, era horrivelmente remota. Bebeu e passou a taça a Clara Deterding. "Será outro fracasso, eu sei", disse consigo mesmo, mas continuou a fazer o possível para ostentar um sorriso radiante.
A taça da amizade completara o seu circuito. Erguendo a mão, o Presidente fez um sinal; o coro entoou o Terceiro Cântico da Solidariedade.
Senti que vem a vós o Grande Ser dos dias! Alegrai-vos com a sorte ideal que ele vos deu! Fundi-vos ao cantar das melodias, Porque enfim eu sou vós e vós sois eu.
A medida que uma estrofe sucedia a outra, as vozes vibravam com uma excitação cada vez mais intensa. O sentimento da iminência da Vinda era como uma tensão elétrica no ar. O Presidente fez parar a música e, com a última nota da derradeira estrofe, fez-se um silêncio absoluto — o silêncio da expectação tensa, a vibrar e a ofegar com uma vida galvânica. O Presidente estendeu a mão e, de súbito, uma Voz, uma Voz forte e profunda, mais musical do que qualquer voz simplesmente humana, mais cheia, mais quente, mais vibrante de amor, de desejo ardente e de compaixão, uma Voz maravilhosa, misteriosa, sobrenatural, falou-lhes por sobre suas cabeças. "Oh, Ford! Ford! Ford!" disse ela muito devagar, decrescendo de volume e numa escala descendente. Uma sensação de calor suave se irradiou do plexo solar a cada uma das extremidades do corpo dos que escutavam; as lágrimas subiram-lhes aos olhos; parecia-lhes que o coração, as entranhas, se moviam no interior do corpo como se tivessem vida independente. "Ford!" Eles se fundiam. "Ford!" Estavam fundidos. Depois, em outro tom, de repente, sobressaltando-os: "Escutem!" trombeteou a Voz. "Escutem!" Eles escutaram. Depois de uma pausa, ela decresceu até não ser mais que um murmúrio, mas um murmúrio que, de algum modo, era mais penetrante que o grito mais agudo. "Os pés do Grande Ser", disse; e repetiu: "Os pés do Grande Ser". O murmúrio tornou-se quase inaudível: "Os pés do Grande Ser estão na escada". E outra vez houve um silêncio, e a expectação, que se distendera momentaneamente, tornou a retesar-se, como uma corda que se estira, mais tensa, mais tensa ainda, quase a ponto de romper-se. Os pés do Grande Ser — ah! eles os ouviam, eles os ouviam, descendo suavemente os degraus, aproximando-se cada vez mais pela escada invisível. Os pés do Grande Ser. E, de súbito, o ponto de ruptura foi atingido. Com os olhos arregalados, os lábios abertos, Morgana Rothschild levantou-se de um salto.
— Ouço-o! — exclamou. — Ouço-o!
— Ele chega! — bradou Sarojini Engels.
— Sim, ele chega, ouço-o! - Fifi Bradlaugh e Tom Kawaguchi se ergueram simultaneamente.
— Oh! Oh! Oh! — fez Joana, num testemunho inarticulado.
— Ele chega! — urrou Jim Bokanovsky.
O Presidente inclinou-se para diante e, com um leve toque da mão, desencadeou um delírio de címbalos e de instrumentos de metal, uma febre de marteladas em tantas.
— Oh, ele chega! — gritou Clara Deterding. — Ai! -e era como se lhe cortassem a garganta.
Sentindo que era o momento de fazer alguma coisa, Bernard também se pôs de pé num pulo e bradou:
— Ouço-o! Ele chega!
Mas não era verdade. Não ouvia nada e, para ele, ninguém chegava. Ninguém — apesar da música, apesar da excitação crescente. Todavia, agitou os braços, gritou como os outros; e, quando os demais se puseram a bambolear-se, a bater com os pés e a caminhar a passos arrastados, ele também se bamboleou, também arrastou os pés.
Deram a volta à sala, uma procissão circular de dançarinos, cada um com as mãos nos quadris do dançarino precedente — e assim continuaram, volta após volta, gritando em uníssono, batendo com os pés ao ritmo da música, marcando vigorosamente a cadência com as mãos nas nádegas dos que estavam à sua frente; doze pares de mãos batendo como uma só; como uma só, doze pares de nádegas ressoando viscosamente. Doze em um, doze em um. "Ouço-o, ouço-o chegar!" A música acelerou-se, os pés bateram mais rápido; mais rápido, ainda mais rápido bateram as mãos rítmicas. E subitamente uma poderosa voz sintética de baixo rugiu as palavras que anunciavam a expiação próxima e a consumação final da solidariedade, a vinda do Doze-em-Um, a encarnação do Grande Ser. "Orgião-espadão", cantou ela, enquanto os tantas continuavam a martelar seu rufo febril:
Orgião-espadão, Ford e alegria a rodo, Com beijos unir-se às moças num só Todo! E cada rapariga vá com seu rapaz; Orgião-espadão assim vos satisfaz.
"Orgião-espadão. . ." Os dançarinos retomaram o refrão litúrgico: "Orgião-espadão, Ford e alegria a rodo, com. . ." E, enquanto cantavam, as luzes iam amortecendo lentamente — amortecendo e, ao mesmo tempo, tornando-se mais quentes, mais ardentes, mais rubras, de tal modo que, por fim, eles dançavam na penumbra vermelha de um Depósito de Embriões. "Orgião-espadão. . ." Na sua obscuridade fetal e cor de sangue, os dançarinos continuaram por algum tempo a circular, a bater, a bater incessantemente o ritmo infatigável. "Orgião-espadão. . ." Depois a ronda oscilou, rompeu-se, desagregando-se parcialmente sobre os divas que rodeavam — um círculo encerrando outro círculo — a mesa e suas cadeiras planetárias. "Orgião-espadão. . ." Ternamente, a Voz, profunda, cantarolava e arrulhava; na penumbra vermelha, dir-se-ia que um enorme pombo negro planava, benfazejo, acima dos dançarinos agora deitados sobre o ventre ou sobre o dorso.
Estavam de pé no terraço; Big Henry acabava de dar as onze. A noite estava calma e tépida.
— Foi maravilhoso, não acha? — comentou Fifi Bradlaugh. — Simplesmente maravilhoso.
Ela fitou Bernard com uma expressão de enlevo, mas um enlevo em que não havia nenhum vestígio de agitação ou de superexcitação — pois estar superexcitado ainda é estar insatisfeito. Seu êxtase era o êxtase calmo da perfeição atingida, a paz, não da simples saciedade e do nada, mas da vida em equilíbrio, das energias em repouso e contrabalançadas. Uma paz rica e viva. Porque a Cerimônia de Solidariedade havia dado tanto quanto tomara, não tendo esgotado parcialmente senão para reencher. Ela estava completa, tinha-se tornado perfeita, ainda era mais que simplesmente ela mesma.
— Não achou maravilhoso? — insistiu, fixando no rosto de Bernard seus olhos brilhantes, de um fulgor sobrenatural.
— Sim, achei maravilhoso — mentiu ele, e desviou o olhar; a vista daquela fisionomia transfigurada era uma acusação e, ao mesmo tempo, uma lembrança irônica do que o afastava dos demais.
Sentia-se tão aflitivamente só, agora, como no começo da Cerimônia — mais isolado ainda, em virtude do vácuo que nele não tinha sido preenchido, em virtude de sua saciedade inerte. Isolado e irremediado, enquanto os outros se fundiam no Grande Ser; só, mesmo no amplexo de Morgana — bem mais só, na verdade, mais irremediavelmente ele mesmo do que nunca o fora em sua vida. Tinha saído da penumbra vermelha para o fulgor banal da eletricidade com o sentimento do eu intensificado a ponto de tornar-se um martírio. Sentia-se totalmente infeliz, e talvez (os olhos luminosos de Fifi o acusavam), talves fosse por sua própria culpa.
— Absolutamente maravilhoso — repetiu. Mas a única coisa em que podia pensar era nas sobrancelhas de Morgana.