Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley · Capítulo 7 de 24

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Admirável Mundo Novo

§2

 

Com os olhos quase sempre baixos, e desviando-os imediata e furtivamente quando, por acaso, os pousava em algum de seus semelhantes, Bernard atravessou o terraço às pressas. Dava a impressão de um homem perseguido, mas perseguido por inimigos que não queria ver, temeroso de que lhe parecessem ainda mais hostis do que imaginara, e de que lhe fizessem, em conseqüência, experimentar uma sensação de maior culpabilidade e de solidão ainda mais irremediável.

"Aquele maldito Benito Hoover!" Entretanto, o rapaz procedera com boa intenção. O que, de certo modo, era ainda pior. Os que tinham boas intenções comportavam-se da mesma forma que os que as tinham más. A própria Lenina o fazia sofrer. Lembrou-se das semanas de indecisão tímida, no curso das quais ele a havia contemplado e desejado, sem esperança de algum dia ter a coragem de convidá-la. Ousaria afrontar o risco de ser humilhado por uma recusa desdenhosa? Mas, se ela dissesse "sim", que êxtase! Pois bem, agora ela o havia dito, e, apesar disso, ele continuava a sentir-se desconsolado — desconsolado porque ela dissera que estava uma tarde perfeita para o Golfe Obstáculo, porque fora correndo juntar-se a Henry Foster, porque o tinha achado esquisito ao não querer falar em público de seus assuntos mais íntimos. Desconsolado, em suma, porque ela se portara como devia fazê-lo toda moça inglesa sadia e virtuosa, e não de alguma outra forma anormal e extraordinária.

Abriu a porta de seu boxe e ordenou a dois empregados Deltas-Menos desocupados que empurrassem o aparelho para o terraço. O serviço dos hangares era feito por um só Grupo Bokanovsky e aqueles homens eram gêmeos, identicamente pequenos, negros e horrorosos. Bernard dava suas ordens no tom brusco, um pouco arrogante e até ofensivo de quem não está muito certo de sua superioridade. Ter de tratar com representantes das castas inferiores constituía sempre, para Bernard, uma experiência penosa. Porque, fosse qual fosse a causa (e era bem possível que os rumores a respeito do álcool em seu pseudo-sangue tivessem fundamento — pois, apesar de tudo, acidentes como esse aconteciam), o físico de Bernard não era muito melhor que o de um Gama típico. Ele tinha oito centímetros menos do que a estatura normal dos Alfas, e era proporcionalmente delgado. O contato com os membros das castas inferiores lembrava-lhe sempre, dolorosamente, essa insuficiência física. "Eu sou eu, e bem quisera não o ser"; o sentimento do eu era nele intenso e aflitivo. Cada vez que tinha de encarar um Delta, horizontalmente e não de cima para baixo, sentia-se humilhado. Aquela criatura o trataria com o respeito devido à sua casta? Essa pergunta o atormentava. E não sem razão. Porque os Gamas, os Deltas e os ípsilons haviam sido, até certo ponto, condicionados de forma a associarem a massa corporal com a superioridade social. Na verdade, um leve preconceito hipnopédico em favor da estatura era universal. Daí o riso das mulheres a quem ele fazia propostas, as peças que lhe pregavam os homens de sua classe. A zombaria fazia com que se sentisse um pária e, sentindo-se um pária, portava-se como tal, o que fortalecia a prevenção contra ele e intensificava o desprezo e a hostilidade que seus defeitos físicos despertavam. Isso, por sua vez, aumentava nele o sentimento de exclusão e solidão. Um temor crônico de ser desdenhado fazia-o evitar seus pares, fazia-o ostentar diante de seus inferiores uma atitude de arrogância e de sentimento exacerbado do eu. Com que amargura invejava homens como Henry Foster e Benito Hoover! Homens que nunca eram obrigados a gritar com um ipsilon para que suas ordens fossem cumpridas; homens para quem sua posição era uma coisa lógica e natural; homens que se moviam no sistema de castas como um peixe na água — tão completamente à vontade que não tinham consciência de si próprios, nem do elemento benfazejo e confortável dentro do qual existiam.

Com moleza e má vontade, segundo lhe pareceu, os empregados gêmeos rodaram seu aparelho até o terraço.

— Depressa! — disse Bernard, irritado. Um deles olhou-o. Seria uma espécie de mofa bestial o que ele percebia naqueles olhos cinzentos e vazios? — Depressa! — gritou mais alto, e sua voz tinha um timbre desagradável mente áspero.

Subiu para o helicóptero, e um minuto depois voava para o sul, na direção do rio.

Os diversos Escritórios de Propaganda e o Colégio de Engenharia Emocional estavam instalados em um mesmo edifício de sessenta andares em Fleet Street. No subsolo e nos primeiros andares achavam-se as oficinas e os escritórios dos três grandes jornais de Londres — O Rádio Horário, jornal para as castas superiores, A Gazeta dos Gamas, verde-pálido, e, em papel caqui e exclusivamente em palavras monossilábicas, O Espelho dos Deltas. Depois vinham, sucessivamente, os Escritórios de Propaganda pela Televisão, pelo Cinema Sensível, e pela Voz e Música Sintéticas — que ocupavam vinte e dois andares. A seguir, vinham os laboratórios de pesquisa e as câmaras acolchoadas onde os autores de Trilhas Sonoras e os Compositores Sintéticos realizavam seu delicado trabalho. Os dezoito últimos andares eram ocupados pelo Colégio de Engenharia Emocional.

Bernard pousou no terraço da Casa da Propaganda e desceu do aparelho.

— Telefone ao Sr. Helmholtz Watson — ordenou ao porteiro Gama-Mais — e diga-lhe que o Sr. Bernard Marx o espera no terraço.

Sentou-se e acendeu um cigarro.

Helmholtz estava escrevendo quando recebeu o recado.

— Diga-lhe que vou em seguida — respondeu, e pendurou o fone. Depois, dirigindo-se à sua secretária, continuou, no mesmo tom de voz oficial e impessoal:

— Deixo-lhe o trabalho de arrumar meus papéis — e, fingindo não perceber o sorriso luminoso da moça, levantou-se e encaminhou-se a passos rápidos para a porta.

Era um homem de poderosa compleição, peito amplo ombros largos, maciço e, no entanto, vivo nos seus movimentos, elástico e ágil. O pilar redondo e sólido do pescoço sustentava uma cabeça admiravelmente bem formada. Os cabelos eram escuros e crespos, as feições fortemente pronunciadas. A seu modo vigoroso e enfático, era belo e tinha bem o ar (como sua secretária não se cansava de repetir) de um Alfa-Mais até o último centímetro. Por profissão, era professor do Colégio de Engenharia Emocional (Seção de Redação), e , no intervalo de suas atividades educativas, trabalhava como Engenheiro em Emoção. Escrevia regularmente para o O Rádio Horário, compunha cenários para filmes sensíveis e tinha o dom de criar slogans e versinhos hipnopédicos.

"Competente" — tal era o veredicto dos chefes a seu respeito. "Talvez" (e sacudiam a cabeça, baixando significativamente a voz) "um pouco competente demais".

Sim, um pouco competente demais; eles tinham razão. Um excesso mental produzira em Helmholtz Watson efeitos muito parecidos com os que, em Bernard Marx, resultavam de um defeito físico. A insuficiência óssea e muscular tinha isolado Bernard de seus semelhantes, e o sentimento de ser assim um indivíduo à parte era considerado segundo os padrões correntes, um excesso mental, o qual, por sua vez, se tornava causa de um afastamento mais acentuado. A Helmholtz, o que lhe dava tão penosa consciência de si mesmo, e de estar totalmente só, era um excesso de capacidade. O que esses dois homens tinham em comum era a consciência de serem individualidades. Mas, enquanto Bernard, o fisicamente deficiente, sofrerá toda a sua vida pela consciência de ser um indivíduo à parte, só recentemente Helmholtz Watson, tendo descoberto seu excesso mental, compreendera também o que o diferençava das pessoas que o cercavam. Esse campeão de Pelota-Escalátor, esse amante infatigável (dizia-se que possuíra seiscentas e quarenta mulheres em menos de quatro anos), esse admirável homem de comitês, eminentemente sociável, percebera de súbito que o esporte, as mulheres e as atividades comunais não eram, no que lhe dizia respeito, senão coisas de secundária importância. Na realidade, e no fundo, interessava-se por outra coisa. Mas pelo quê? Pelo quê? Esse era o problema que Bernard tinha vindo discutir com ele, ou melhor — já que era sempre Helmholtz quem falava — tinha vindo ouvir, mais uma vez, seu amigo discutir.

Três encantadoras jovens da Seção de Propaganda pela Voz Sintética abordaram Helmholtz ao sair do elevador.

— Oh, Helmholtz, querido, venha fazer conosco uma ceia campestre nos prados de Exmoor! — Agarravam-se a ele, suplicantes.

Helmholtz sacudiu a cabeça e desvencilhou-se, abrindo caminho entre elas.

— Não, não.

— Não vamos convidar nenhum outro homem. Ele, porém, permaneceu inabalável, apesar da tentadora promessa.

— Não — repetiu — estou ocupado. — E prosseguiu resolutamente sua marcha.

As jovens deixaram-se arrastar atrás dele. E foi somente quando subiu ao helicóptero de Bernard e fechou a porta que elas abandonaram a perseguição.

— Essas mulheres! — disse, enquanto o aparelho se elevava no ar. — Essas mulheres! Sacudiu a cabeça e franziu o sobrolho. — São de apavorar.

Bernard concordou hipocritamente, pois, no íntimo, gostaria de poder atrair tantas jovens, e com a mesma facilidade que Helmholtz. Sentiu uma súbita e urgente necessidade de se gabar.

— Vou levar Lenina Crowne comigo ao Novo México — disse, no tom mais despreocupado que lhe foi possível.

— Ah, sim? — replicou Helmholtz, com a mais completa indiferença. E, depois de uma pequena pausa: — Faz uma ou duas semanas que larguei todos os meus comitês e todas as minhas mulheres. Você não pode imaginar a celeuma que andaram fazendo no Colégio. Seja como for, valeu a pena, creio. Os efeitos. . . — Hesitou. — Pois são estranhos, muito estranhos.

Uma insuficiência física podia produzir uma espécie de excesso mental. Ao parecer, o processo era reversível. O excesso mental podia, por sua vez, produzir a cegueira e a surdez da solidão deliberadamente procurada, a impotência artificial do ascetismo.

O restante da pequena viagem aérea efetuou-se em silêncio. Uma vez chegados e confortável mente recostados nos sofás pneumáticos do quarto de Bernard, Helmholtz voltou à carga. Falando muito lentamente, perguntou:

— Você nunca sentiu a sensação de ter em si alguma coisa que, para se exteriorizar, espera somente que você lhe dê a chance? Uma espécie de força excedente que você não esteja utilizando, algo assim como aquela água toda que se precipita na cachoeira em vez de passar pelas turbinas?

Dirigiu a Bernard um olhar interrogativo.

— Você se refere às emoções que se poderia experimentar se as coisas fossem diferentes?

Helmholtz sacudiu a cabeça.

— Não é bem isso. Estou pensando numa sensação estranha que experimento às vezes, a sensação de ter alguma coisa de importante a dizer e o poder de exprimi-la. . . só que eu não sei o que é, e não posso utilizar esse poder. Se houvesse algum outro modo de escrever. . . Ou, então, outros assuntos a tratar. . . — Calou-se; depois: — Você vê, eu sou bastante hábil em inventar frases, quero dizer, essas expressões que nos dão um sobressalto, quase como se a gente se sentasse sobre um alfinete, tão novas e excitantes elas parecem, muito embora se refiram a alguma coisa hipnopedicamente óbvia. Mas isso não parece suficiente. Não basta que as frases sejam boas, seria preciso que o que delas se fizesse também fosse bom.

— Mas as coisas que você produz, Helmholtz, são boas.

— Ah, sim, dentro dos seus limites. — Helmholtz encolheu os ombros. — Mas são limites tão estreitos! O que eu faço, de certo modo, não é bastante importante. Sinto que poderia fazer coisas bem mais importantes. Sim, e mais intensas, mais violentas. Mas o quê? O que é que há de mais importante para dizer? E como é possível dizer algo violento sobre assuntos do gênero que se é forçado a tratar? As palavras podem ser como os raios X, se as usarmos adequadamente: penetram tudo. A gente lê, e é trespassado. Essa é uma das coisas que eu procuro ensinar aos meus alunos: como escrever de modo penetrante. Mas de que diabo serve uma pessoa ser trespassada por um artigo sobre Cantos Comunitários, ou sobre o último aperfeiçoamento dos órgãos aromáticos? Além disso, será possível fazer com que as palavras sejam verdadeiramente penetrantes — quero dizer, como os raios X mais duros — quando se trata de assuntos desse gênero? Pode-se dizer alguma coisa a respeito de nada? É a isso, afinal, que se reduz a questão. Eu tento, eu me esforço. . .

— Psit! —fez subitamente Bernard, levantando um dedo; os dois escutaram. — Creio que há alguém atrás da porta — sussurrou.

Helmholtz levantou-se, atravessou a peça nas pontas dos pés e, num movimento rápido, abriu a porta de par em par. Não havia ninguém, naturalmente.

— Desculpe — disse Bernard, desconcertado. — Devo andar com os nervos um pouco excitados. Quando as pessoas desconfiam de nós, acabamos também por desconfiar delas.

Passou a mão pelos olhos, suspirou, sua voz tornou-se lamentosa. Estava justificando-se.

— Se você soubesse o que tenho suportado nestes últimos tempos! — continuou, quase chorando, e o acesso de piedade de si mesmo parecia uma fonte que, de repente, se pusesse a jorrar. — Se você soubesse!

Helmholtz Watson ouvia-o com certo constrangimento.

"Pobre Bernard!" pensou. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se um tanto envergonhado por seu amigo. Teria preferido que Bernard mostrasse um pouco mais de amor-próprio.