Admirável Mundo Novo
Capítulo XVIII
A porta estava entreaberta; eles entraram.
— John!
Do quarto de banho veio um ruído desagradável e característico.
— Está sentindo alguma coisa? — gritou Helmholtz. Não houve resposta. O ruído desagradável repetiu-se por duas vezes. Fez-se um silêncio. Depois, com um estalido, a porta do banheiro abriu-se e, muito pálido, o Selvagem apareceu.
— Que é isso, John? — exclamou Helmholtz com solicitude. — Você está mesmo com ar de doente!
— Comeu alguma coisa que não lhe fez bem? — perguntou Bernard.
O Selvagem fez um sinal afirmativo.
— Comi a civilização. - O quê?
— Ela me envenenou; fiquei contaminado. E então — acrescentou em voz mais baixa — engoli minha própria perversidade.
— Sim, mas o que foi, precisamente. . . ? Quero dizer, ainda há pouco, você estava. . .
— Agora estou purificado — retorquiu o Selvagem. — Tomei mostarda com água morna.
Os dois fitaram-no assombrados.
— Quer dizer que fez isso de propósito? — perguntou Bernard.
— É assim que os índios sempre se purificam. — O Selvagem sentou-se e, suspirando, passou a mão pela testa. — Vou repousar alguns minutos. Estou um pouco cansado.
— Bem, isso não me surpreende — disse Helmholtz. Depois de um silêncio, acrescentou em outro tom: — Nós viemos despedir-nos; partimos amanhã pela manhã.
— Sim, nós partimos amanhã pela manhã — confirmou Bernard, em cujo rosto o Selvagem notou uma expressão nova de decisão resignada. — E, a propósito, John — continuou ele, inclinando-se para diante na cadeira e pousando a mão no joelho do Selvagem — eu queria dizer-lhe quanto lamento o que se passou ontem. — Corou. — Quanto estou envergonhado — prosseguiu, apesar do tremor de sua voz — quanto, na verdade. . .
O Selvagem interrompeu-o e, tomando-lhe a mão, apertou-a afetuosamente.
— Helmholtz foi extremamente bondoso comigo — recomeçou Bernard/, depois de pequena pausa. — Se não fosse ele. . .
— Ora, vamos — protestou Helmholtz. • Houve um silêncio. Apesar da sua tristeza — por causa mesmo dessa tristeza, pois ela era um sintoma da afeição que se tributavam — os três jovens sentiam-se felizes.
— Fui falar com o Administrador esta manhã — disse, por fim, o Selvagem.
— Para quê?
— Para perguntar se eu não poderia ir com vocês para as ilhas.
— E que disse ele? — perguntou vivamente Helmholtz. O Selvagem sacudiu a cabeça.
— Não consentiu.
— Por que não?
— Disse que queria continuar a experiência. Mas diabos me levem — acrescentou o Selvagem, com súbito furor — diabos me levem se eu continuar a servir de objeto de experiências. Nem por todos os Administradores do mundo. Também parto amanhã.
— Mas para onde? — perguntaram os dois ao mesmo tempo.
O Selvagem deu de ombros.
— Para qualquer parte. Pouco me importa. Contanto que eu possa estar só.
De Guildford, a rota aérea de sudoeste seguia o vale do Wey até Godalming, depois, por Milford e Witley, dirigia-se para Haslemere e continuava por Petersfield até Portsmouth. Com um traçado aproximadamente paralelo, a rota de retorno passava por Worplesden, Tongham, Puttenham, Elstead e Grayshott. Entre a crista do Hog's Back e Hindhead, havia pontos em que as duas rotas não distavam mais de seis ou sete quilômetrosyma da outra. Essa distância era muito pequena para os aviadoreVdescuidados — sobretudo à noite e quando tinham ingerido mela grama além da dose normal. Houvera acidentes. Graves. Resolvera-se por isso desviar a rota de retorno alguns quilômetros para oeste. Entre Grayshott e Tongham, quatro faróis aéreos abandonados assinalavam o traçado da antiga rota de Portsmouth a Londres. O céu, acima deles, tornara-se silencioso e deserto. Era por Selborne, Borden e Farnham, que, zumbindo e rugindo, passavam agora sem interrupção os helicópteros.
O Selvagem escolhera para seu eremitério o velho farol que se erguia sobre a crista da colina entre Puttenham e Elstead. A construção era de cimento armado e estava em excelentes condições — quase confortável demais, pensara o Selvagem, ao explorar o local pela primeira vez, quase excessivamente luxuosa e civilizada. Aplacou a consciência prometendo impor-se, como compensação, uma disciplina pessoal mais dura, purificações completas e rigorosas. Sua primeira noite no novo eremitério foi deliberadamente uma noite de insônia. Passou-a de joelhos, dirigindo preces ora àquele Céu a que o culpado Cláudio mendigara perdão, ora em zuni a Awonawilona, ora a Jesus e Pukong, ora ao seu próprio animal guardião, a águia.
De quando em quando, abria os braços como se estivesse pregado numa cruz e mantinha-os assim por longos minutos, sentindo dores que aumentavam gradualmente até se tornarem uma agonia trêmula e cruciante; mantinha-os assim numa crucificação voluntária, repetindo entre os dentes semicerrados (ao mesmo tempo que o suor lhe escorria pelo rosto): "Oh! Perdoai-me! Purificai-me! Oh! Ajudai-me a ser virtuoso!" muitas e muitas vezes até quase desmaiar de dor.
Quando raiou a manhã, ele sentiu que havia conquistado o direito de habitar o farol; sim, embora ainda houvesse vidraças na maioria das janelas, embora a vista da plataforma fosse tão bela. Pois a razão que o levara a escolher 6 farol tinha-se tornado quase imediatamente uma razão para preferir outro lugar. Ele decidira viver ali porque a paisagem era belíssima; porque, desse ponto elevado, parecia-lhe contemplar a encarnação de um ser divino. Mas quem era ele, para ser agraciado com o espetáculo diário, e mesmo horário, da beleza? Quem era ele, para viver na presença visível de Deus? Tudo o que merecia, como habitação, era alguma pocilga suja, algum escuro buraco no chão. Ainda dolorido e com as juntas emperradas depois da longa noite de sofrimentos, mas, por isso mesmo, acalmado interiormente, subiu até a plataforma da sua torre e contemplou o luminoso mundo matinal em que agora tinha novamente o direito de viver. Ao norte, a paisagem era limitada pela longa aresta de giz da crista de Hog's Back, atrás de cuja extremidade oriental se erguiam as torres dos sete arranha-céus que constituíam Guildford. Vendo-as, o Selvagem fez uma careta; mas ainda iria reconciliar-se com elas, porque, à noite, cintilavam alegremente em constelações geométricas, ou então, iluminadas por projetores, dirigiam seus dedos luminosos, solenemente (num gesto que ninguém na Inglaterra, exceto o Selvagem, compreendia agora), para os mistérios insondáveis do céu.
No vale que separava o Hog's Back da colina arenosa sobre a qual se erguia o farol, Puttenham era uma pequena e modesta aldeia, alta de nove andares, com silos, uma granja avícola e uma pequena fábrica de vitamina D. Do outro lado do farol, para o sul, o terreno descia em pendentes cobertas de urzes até uma série de pequenas lagoas.
Além, acima dos bosques intermediários, erguia-se a torre de quatorze andares de Elstead. Vagamente perceptíveis através do ar brumoso da Inglaterra, Hindhead e Selborne solicitavam o olhar para um longínquo e romântico azul. Mas não era só a paisagem distante o que atraíra o Selvagem ao farol; as cercanias não eram menos sedutoras. Os bosques, as extensões abertas de urzes e tojos amarelos, os gruposde pinheiros-silvestres, as lagoas brilhantes com suas bétulas inclinadas, seus nenúfares, suas moitas de junco — tudo isso era magnífico e, para olhos habituados à aridez do deserto americano, surpreendente. E, além do mais, a solidão! Passavam-se dias inteiros sem que ele visse um único ser humano. O farol estava a apenas um quarto de hora de vôo da Torre de Charing-T; mas as montanhas de Malpaís eram pouco mais desertas do que aquela charneca do Surrey. As multidões que deixavam diariamente Londres só o faziam para jogar Golfe Eletromagnético ou Tênis. Puttenham não tinha campo de golfe; as superfícies de Riemann mais próximas achavam-se em Guildford. As flores e a paisagem eram ali as únicas atrações. De modo que, como não havia razão plausível para vir, ninguém vinha. Durante os primeiros dias o Selvagem viveu só, sem ser incomodado.
Do dinheiro que recebera ao chegar, para suas despesas pessoais, tinha gasto a maior parte com o seu equipamento. Antes de deixar Londres, comprara quatro cobertores de lã de viscose, corda, barbante, pregos, cola, algumas ferramentas, fósforos (se bem que tivesse a intenção de fazer uma broca de fogo ), algumas panelas e caçarolas, duas dúzias de pacotes de sementes e dez quilos de farinha de trigo. "Não, nada de pseudofarinha de amido sintético e resíduos de algodão", insistira, "mesmo que seja mais nutritiva." Mas, quanto aos biscoitos panglandulares e à pseudocarne vitaminada, não pudera resistir às palavras persuasivas do vendedor. Contemplando agora as latas, censurou-se amargamente por sua fraqueza. Asquerosos produtos civilizados! Tinha resolvido não os comer nunca, ainda que estivesse morrendo de fome. "Isso lhes servirá de lição", pensou vingativamente. Também serviria de lição a ele.
Contou o dinheiro. O pouco que sobrara bastaria, segundo esperava, para passar o inverno. Na próxima primavera sua horta produziria o necessário para torná-lo independente do mundo exterior. Enquanto isso, sempre haveria a caça. Tinha visto coelhos em quantidade, e também aves aquáticas nas lagoas. Imeditamente se pôs a preparar um arco e flechas.
Havia freixos perto do farol e, para as hastes das flechas, uma mata de amendoeiras novas, maravilhosamente retas. Começou por derrubar um freixo novo, cortou um pedaço de tronco de dois metros, sem galhos, descascou-o e, camada após camada, tirou toda a madeira branca, como o velho Mitsima lhe havia ensinado, até obter uma haste de arco da sua altura, rígida no centro mais grosso, flexível e vibrátil nas extremidades afinadas. O trabalho causou-lhe intenso prazer. Depois de todas aquelas semanas de ócio em Londres, durante as quais nada mais tinha a fazer, quando desejava alguma coisa, do que apertar um botão ou dar volta a uma manivela, era uma delícia dedicar-se a uma ocupação que exigia habilidade e paciência.
Já tinha quase terminado de desbastar a vara até lhe dar a forma desejada, quando percebeu, com sobressalto, que estava cantando — cantando\ Foi como se, vindo do exterior e encontrando a si mesmo por acaso, se tivesse apanhado em flagrante delito. Corou como um culpado. No fim de contas, não era para cantar e ser feliz que tinha ido para lá. Era para escapar à contaminação da imundície da vida civilizada; era para purificar-se e tornar-se virtuoso; era para redimir-se ativamente. Para sua consternação, deu-se conta de que, absorvido pela fabricação do arco, esquecera o que tinha jurado recordar constantemente — a pobre Linda e sua própria dureza assassina para com ela, e aqueles gêmeos repulsivos, formigando como piolhos sobre o mistério de sua morte, insultando com sua presença não somente a dor e o arrependimento dele, como até os próprios deuses. Tinha jurado lembrar-se, tinha jurado consagrar-se incessantemente ao resgate de tudo aquilo. E ali estava sentado, feliz, trabalhando na vara do seu arco, cantando, incrivelmente cantando. . .
Então, abriu a lata de mostarda e pôs a água a ferver.
Meia hora depois, três trabalhadores agrícolas Deltas-Menos de um dos Grupos Bokanovsky de Puttenham passavam em um caminhão para Elstead e, no alto da colina, surpreenderam-se ao ver um jovem de pé, diante do farol abandonado, nu da cintura para cima e flagelando-se com um azorrague. Tinha as costas riscadas horizontalmente de carmesim, e entre as riscas corriam delgados filetes de sangue. O motorista parou à beira da estrada e, com os dois companheiros, contemplou, de olhos arregalados e boca aberta, o extraordinário espetáculo. Um, dois, três — eles contaram os golpes. Depois do oitavo, o jovem interrompeu o castigo que se estava impondo, para correr à orla do bosque e vomitar violentamente. Quando acabou, apanhou o chicote e recomeçou a golpear-se. Nove, dez, onze, doze. . .
— Ford! — murmurou o motorista. E os seus gêmeos foram da mesma opinião.
— Meu Ford! — disseram.
Três dias depois, como urubus descendo sobre a carniça, chegaram os repórteres.
Secado e endurecido a fogo lento de madeira verde, o arco ficara pronto. O Selvagem estava ocupado na confecção de flechas. Trinta varinhas de amendoeira tinham sido cortadas e secadas, munidas, na ponta, de um prego aguçado e, no cabo, de um pequeno entalhe cuidadosamente cortado. Ele fizera, certa noite, uma incursão à granja avícola de Puttenham, e tinha agora penas em quantidade suficiente para suprir todo um arsenal de flechas. Foi em pleno trabalho de guarnecer de penas as suas setas que o primeiro repórter o encontrou. Sem ruído, graças aos seus sapatos pneumáticos, o homem aproximou-se dele pelas costas.
— Bom dia, Sr. Selvagem — disse. — Sou o representante do Rádio Horário.
Sobressaltado como pela picada de uma serpente, o Selvagem ergueu-se de um pulo, espalhando flechas, penas, pote de cola e pincel em todas as direções.
— Peço-lhe desculpas — disse o repórter, com sincero pesar. — Não tinha a intenção. . . — Levou a mão ao chapéu, à cartola de alumínio em que levava seu receptor
e transmissor de rádio. — Desculpe-me se não o tiro — excusou-se. — É um pouco pesado. . . Como estava dizendo, sou o representante do Rádio. . .
— Que é que quer? — perguntou o Selvagem, carrancudo.
Em resposta, o repórter dirigiu-lhe seu sorriso mais insinuante.
— É que, naturalmente, nossos leitores se interessariam muito em. . . — Inclinou a cabeça para um lado, seu sorriso tornou-se quase sedutor. — Apenas algumas palavras suas,
Sr. Selvagem.
Rapidamente, com uma série de gestos rituais, desenrolou dois fios metálicos ligados à bateria portátil que trazia presa ao cinto; conectou-os simultaneamente às paredes do chapéu de alumínio; tocou em uma mola na copa — e duas antenas ergueram-se no ar; tocou em outra mola na margem da aba — e, como um boneco de uma caixa de surpresas, saltou um microfone que ficou ali suspenso, balançando-se a quinze centímetros do seu nariz; baixou dois receptores sobre as orelhas; apertou um comutador no lado esquerdo do chapéu — e do interior saiu um leve zumbido de abelha; torceu um botão à direita — e o zumbido foi interrompido por uma crepitação e um chiado estetoscópico, por soluços e guinchos súbitos.
— Alô — falou ele ao microfone. — É você, Edzel? Aqui, Primo Mellon. Sim, encontrei-o. O Sr. Selvagem vai agora tomar p microfone e dizer algumas palavras. Não é, Sr. Selvagem? — Ergueu os olhos para o Selvagem com outro daqueles sorrisos cativantes. —Queira simplesmente dizer aos nossos leitores por que veio para cá. O que o fez deixar Londres (não corte, Edzel!) de maneira tão repentina. E, naturalmente, fale-lhes do seu chicote. — (O Selvagem sobressaltou-se. Como sabiam do azorrague? ) -Nós estamos todos ansiosos por ouvi-lo falar a respeito do chicote. E, depois, diga-nos alguma coisa sobre a Civilização. O senhor sabe a que espécie de coisa me refiro. "O que penso da Mulher Civilizada." Algumas palavras somente, umas poucas. . .
O Selvagem obedeceu ao pé da letra, de modo desconcertante. Pronunciou cinco palavras, não mais — cinco palavras, as mesmas que dissera a Bernard acerca do Arquichantre de Canterbury. — Hánil Sons éso tse-ná! — E, segurando o repórter pelos ombros, fê-lo girar ( o rapaz revelou-se convidativamente bem fornido), apontou e, com toda a força e precisão de um campeão de futebol, desferiu-lhe um pontapé verdadeiramente prodigioso.
Oito minutos mais tarde, uma nova edição do Rádio Horário era vendida nas ruas de Londres. "Repórter do Rádio Horário Recebe do Selvagem Misterioso um Pontapé no Cóccix", dizia a manchete da primeira página. "Sensação no Surrey."
"Sensação mesmo em Londres", pensou o repórter quando, ao voltar, leu essas palavras. E, o que era mais, uma sensação bastante dolorosa. Sentou-se com muito cuidado para almoçar.
Sem se deixarem intimidar por aquela contusão admonitória no cóccix de seu colega, quatro outros repórteres, representando o Times de Nova Iorque, o Continuum Quadridimensional de Francforte, 9 Monitor da Ciência Fordiana e o Espelho dos Deltas, foram na mesma tarde ao farol, sendo recebidos com uma violência progressivamente maior.
A uma distância suficiente para sentir-se em segurança, e ainda esfregando as nádegas, o homem do Mphitor da Ciência Fordiana gritou:
— Imbecil ignorante! Por que não toma soma ?
— Vá embora! — O Selvagem mostrou-lhe o punho cerrado.
O outro recuou alguns passos, depois voltou-se novamente:
— O mal é uma irrealidade se se tomam duas gramas.
— Kohakwa iyathtokyai! — O tom de voz do Selvagem era ameaçadora mente zombeteiro.
— A dor é uma ilusão.
— Ah, sim? — replicou o Selvagem; e, pegando uma grossa vara de amendoeira, avançou para ele.
O homem do Monitor correu para o helicóptero.
Depois disso, deixaram o Selvagem em paz durante algum tempo. Uns poucos helicópteros vieram pairar inquiridoramente em volta da torre. Ele atirou uma flecha no mais importunamente próximo. A seta furou o piso de alumínio da cabina. Houve um urro estridente, e o aparelho deu no ar um salto correspondente ao máximo de aceleração que lhe pôde imprimir o piloto. Os outros, desde então, conservaram-se a uma distância respeitosa. Sem dar atenção ao zumbido fastidioso dos helicópteros (ele compárava-se, na imaginação, a um dos candidatos à Donzela de Mátsaki, impassível e persistente ante a vermina alada), o Selvagem cavava o que viria a ser a sua horta. No fim de algum tempo, a vermina evidentemente se cansava e ia embora; durante horas a fio, o céu acima dele ficaria vazio e silencioso, não fossem as cotovias.
Estava quente e pesado, o ar carregado de eletricidade. Ele cavara toda a manhã e repousava deitado no chão. De repente, a lembrança de Lenina tornou-se-lhe uma presença real, nua e tangível, dizendo: "Meu querido!" e "Aperta-me em teus braços!" — vestida somente com suas meias e sapatos, e perfumada. Cortesã impudente! Mas — oh! oh! — seus braços rodeando o pescoço de John, o arfar de seus seios, sua boca! "A eternidade estava em nossos lábios e em nossos olhos\ Lenina. . . Não, não, não, não! Ergueu-se de um salto e, tal como se achava, seminu, saiu da casa correndo. Na orla da mata erguia-se um maciço de zimbros velhos. Atirou-se sobre eles e apertou contra si, não o corpo macio de seus desejos, mas uma braçada de espinhos verdes. Acerados, com suas mil pontas, eles picaram-no. Tentou pensar na pobre Linda, ofegante e muda, com suas mãos que faziam o gesto de agarrar e os olhos cheios de terror indizível — na pobre Linda, de quem tinha jurado lembrar-se sempre. Mas era ainda a presença de Lenina que o obsidiava. Mesmo sob os arranhões e as picadas do zimbro, sua carne fremente tinha consciência dela, da sua presença real, à qual não podia fugir. "Meu querido, meu querido. . . E .se você também me queria, por que é que não. . . ? "
O azorrague estava pendurado num prego ao lado da porta, ao alcance da mão para o caso de chegarem repórteres. Num frenesi, o Selvagem voltou correndo à casa, apanhou-o e brandiu-o. Os nós do açoite morderam-lhe a carne.
— Cortesã, cortesã! — bradava a cada golpe, como se fosse Lenina (e com que furor, sem o saber, desejava que fosse ela!), aquela Lenina infame de corpo branco, tépido, perfumado, que ele flagelava assim. — Cortesã! — E depois, com voz desesperada: — Oh! Linda, perdoa-me. Perdoai-me, Deus! Eu sou vil! Eu sou mau. Eu sou. . . Não, não, cortesã! Cortesã!
Do seu esconderijo construído cuidadosamente no bosque, a trezentos metros dali, Darwin Bonaparte, o mais hábil fotógrafo de caça grossa da Companhia Geral de Filmes Sensíveis, observara toda a cena. A paciência e a habilidade tinham sido recompensadas. Ele passara três dias sentado no tronco oco de um carvalho artificial, três noites a arrastar-se através das urzes, escondendo microfones nas touceiras de tojo, enterrando fios na areia cinzenta e mole. Setenta e duas horas de profundo desconforto. Mas agora chegara o grande momento — o maior, teve tempo de refletir Darwin Bonaparte enquanto se deslocava entre seus aparelhos, o maior desde aquela tomada de vistas do famoso Sensível cem por cento urrante e estereoscópico do casamento dos gorilas. "Esplêndido!" dissera consigo mesmo quando o Selvagem começara suas estranhas atividades. "Esplêndido!" Manteve suas câmeras telescópicas cuidadosamente focadas no alvo móvel — coladas nele; instalou uma objetiva mais poderosa para obter um close-up da fisionomia frenética e contorcida (admirável!); tomou durante meio minuto a vista em câmara lenta (efeito de uma comicidade deliciosa, prometeu a si mesmo); ouviu durante esse tempo, no receptor, os golpes, os gemidos, as palavras ferozes e desvairadas que se gravavam na trilha sonora, à margem da fita; ensaiou o efeito de uma leve ampliação (sim, decididamente era melhor assim); ficou encantado ao ouvir, num silêncio momentâneo, o canto estridente de uma cotovia; desejou que o Selvagem se virasse, para que ele pudesse obter um close-up do sangue que escorria pelas costas — e, quase em seguida (que sorte assombrosa!) o jovem, complacente, virou-se e ele pôde tomar um close-up perfeito.
— Sim, senhor! Foi formidável! — disse, quando tudo terminou. — Realmente formidável! — Enxugou o rosto. Depois que introduzissem os efeitos do sensível, no estúdio, seria um filme estupendo. Quase tão bom, pensou Darwin Bonaparte, como a Vida Amorosa do Cachalote; e isso, por Ford, não era pouca coisa!
Doze dias depois, O Selvagem do Surrey era projetado, e podia ser visto, ouvido e sentido em todas as salas de cinema sensível de primeira ordem da Europa Ocidental.
O efeito produzido pelo filme de Darwin Bonaparte foi imediato e enorme. Na tarde que se seguiu à apresentação ao público, a solidão rústica de John foi subitamente violada por um enxame de helicópteros.
E!e estava cavando com a pá a sua horta — e cavando igualmente em seu espírito, trazendo laboriosamente à tona a substância dos seus pensamentos. A morte — e enterrava a pá uma vez, 6 outra, e ainda outra. "E todos os nossos dias passados iluminaram o caminho da morte para os tolos." Ribombava através dessas palavras um trovão convincente. Levantou mais uma pá de terra. Por que morrera Linda? Por que tinham permitido que ela se tornasse gradualmente menos que humana, e por fim. . . ? Estremeceu. Um cadáver putrefato bom para beijar.1 Pôs o pé sobre a pá e enterrou-a raivosamente no chão duro. Para os deuses, somos como moscas para as crianças travessas; matam-nos para se divertirem.2 Outra vez, o ribombar; palavras que se proclamavam verdadeiras — mais verdadeiras, de algum modo, que a própria verdade. E no entanto esse mesmo Gloucester chamara-os de deuses sempre benévolos. Além do mais, o melhor do teu repouso é o sono, e tu mesmo o provocas muitas vezes; no entanto, temes intensamente a morte, que não é mais do que ele. 3 Não mais do que o sono. Dormir. Talvez sonhar. . . A pá topou numa pedra, ele abaixou-se para tirá-la. E nesse sono da morte, que sonhos. . . ? 4
Um zumbido sobre sua cabeça tinha-se transformado em rugido; e, de repente, achou-se na sombra, havia algo entre ele e o sol. Sobressaltado, ergueu os olhos de sua pá e de seus pensamentos; ergueu os olhos num aturdimento deslumbrado, o espírito ainda vagando naquele mundo mais verdadeiro que a verdade, ainda concentrado na imensidade da morte e dos deuses; ergueu os olhos e viu, acima de sua cabeça e bem perto, o enxame dos aparelhos a planar. Chegavam como gafanhotos, ficavam suspensos, imóveis, desciam em torno dele sobre as urzes. E do ventre desses gafanhotos gigantescos saíam homens em traje de flanela branca de viscose, mulheres (pois fazia calor) em pijama de xantungue de acetato, ou em calções de belbutina e jérsei sem mangas, de fecho ecler semi-aberto — um casal por aparelho. No fim de alguns minutos havia ali dúzias deles, numa vasta cjlcunferência em roda do farol, olhando, rindo, tirando fotografias, atirando-lhes (como a um macaco) amendoim, pacotes de chiclete de hormônio sexual, petits beurres panglandulares. E a todo instante — pois, sobrevoando a crista de Hog's Back, a torrente de tráfego corria sem parar — seu número aumentava. Como num pesadelo, as dúzias tornavam-se vintenas, centenas.
2 A good kissing carrion.
(Hamlet, II, 2.)
As flies to wanton boys are we to the gods:
They kill us for their sport.
(King Lear, IV, 1.)
3 Thy best of rest is sleep.
And that thou oft provok'st; yet grossly fear'st
Thy death which is no more
(Measure for Measure, II, 1.)
4 Hamlet, III, 1.
5
O Selvagem recuara em busca de abrigo; e agora, na posição de um animal acossado, encostara-se na parede do farol, dirigindo o olhar de um rosto a outro, num horror mudo, como um homem demente.
Despertou-o desse estupor o choque contra seu rosto de um pacote de chiclete atirado com precisão, trazendo-o a uma consciência mais imediata da realidade. Um sobressalto de dor e de surpresa — e ele estava completamente desperto, desperto e tomado de uma cóiera feroz.
— Vão embora! — bradou.
O macaco falara; houve uma explosão de risos e aplausos. "Este bom Selvagem! Hurra! Hurra!" E, no meio da algazarra ouviu gritos de "Chicote, chicote, chicote!
Obedecendo à sugestão dessa palavra, tirou do prego, atrás da porta, o feixe de açoites trançados e brandiu-o diante dos seus atormentadores.
Houve um urro de aplausos irônicos.
Avançou ameaçadoramente para eles. Uma mulher soltou um grito de medo. A linha oscilou no seu ponto mais imediatamente exposto, depois se refez e manteve-se firme. A consciência da esmagadora superioridade numérica dava aos curiosos uma coragem que o Selvagem não esperava. Surpreendido, parou e lançou um olhar em redor.
— Por que não me deixam em paz? — Havia uma nota quase queixosa em sua cólera.
— Tome estas amêndoas salgadas com magnésio — disse o homem que, se o Selvagem avançasse, seria o primeiro a sofrer o ataque. E estendeu a mão com um pacote. — São realmente boas, garanto-lhe — acrescentou com um sorriso propiciatório um pouco nervoso — e os sais de magnésio ajudam a conservar sua mocidade.
O Selvagem não deu atenção ao oferecimento.
— Que querem de mim? — perguntou, volvendo os olhos de um rosto sarcástico a outro. — Que querem de mim?
— O chicote! — responderam confusamente cem vozes. — As chicotadas! Queremos ver as chicotadas!
Depois, em coro e num ritmo lento, pesado:
— Nós-queremos-o-chicote! — gritou um grupo no extremo da linha. — Nós-queremos-o-chicote!
Outros retomaram logo o grito e a frase foi repetida como por papagaios, muitas e muitas vezes, com um volume de som sempre crescente, até que, depois da sétima ou oitava repetição, não se ouvia nenhuma outra palavra. "Nós-queremos-o-chicote!"
Todos gritavam juntos; e, embriagados pelo clamor, pela unanimidade, pelo sentimento de comunhão rítmica, teriam podido, segundo parecia, continuar durante horas — quase indefinidamente. Mas, pela vigésima quinta repetição, a cena foi de súbito interrompida. Outro helicóptero tinha chegado de além da crista de Hog's Back, ficou pairando acima da multidão, depois pousou a alguns metros do lugar onde estava o Selvagem, no espaço livre entre a linha de curiosos e o farol. O barulho das hélices dominou momentaneamente os gritos; depois, quando o aparelho pousou no chão e os motores pararam, eles recomeçaram:
"Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos-o-chicote!" — no mesmo tom invariável, insistente e forte.
A porta do helicóptero abriu-se, saindo um rapaz louro de rosto vermelho; depois com um calção de belbutina verde, uma blusa branca e, rã cabeça, um boné de jóquei, apareceu uma moça.
À vista da jovem, o Selvagem estremeceu, recuou, empalideceu.
A moça ficou de pé, sorrindo para ele — um sorriso hesitante, púplice, quase abjeto. Passaram-se alguns segundos. Seus lábios moveram-se — ela dizia qualquer coisa; mas sua voz foi abafada pelo estribilho forte e repetido dos curiosos;
"Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos-o-chicote!"
A jovem apoiou as duas mãos no coração, e no seu rosto corado como um pêssego, lindo como o de uma boneca, apareceu uma expressão estranhamente incôngrua de aflição anelante. Seus olhos azuis pareceram dilatar-se, tornar-se mais brilhantes; e, subitamente, duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Em voz inaudível, falou outra vez; depois, com um gesto vivo e apaixonado, estendeu os braços para o Selvagem e deu um passo à frente.
"Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos. . ."
E, de repente, eles tiveram o que pediam.
— Cortesã! — O Selvagem avançou para ela como um louco. — Fuinha! — Como um louco, pôs-se a vergastá-la com seu chicote de cordas finas.
Aterrorizada, ela virou-se para fugir, tropeçou e caiu no meio das urzes.
— Henry! Henry! — gritou.
Mas seu rubicundo companheiro correra a abrigar-se do perigo atrás do helicóptero.
Com um bramido de excitacão deliciada, a linha rompeu-se. Houve uma corrida convergente para aquele centro de atração magnética. A dor era um horror que fascinava.
— Ferve, luxúria, ferve! 5 — Com frenesi, o Selvagem vergastou-a outra vez.
Avidamente os curiosos os rodearam, empurrando-se e atropelando-se como porcos em redor do cocho.
— Oh! A carne!,— O Selvagem rangeu os dentes. Dessa vez foi sobre seus próprios ombros que se abateu o cnicote. — Mata! Mata!
Atraídos pela fascinação do horror do sofrimento e, interiormente, impelidos pelo hábito da ação em comum, pelo desejo de unanimidade e comunhão, que o condicionamento neles implantara de forma tão indelével, os curiosos puseram-se a imitar o frenesi dos gestos do Selvagem, batendo uns nos outros, enquanto ele fustigava sua própria carne rebelde, ou aquela encarnação roliça da torpeza que se contorcia nas urzes a seus pés.
— Mata, mata, mata. . . — continuava gritando o Selvagem.
Depois, subitamente, alguém começou a cantar: "Orgião-espadão!" Num instante, todos repetiram o estribilho, e, cantando, puseram-se a dançar. Orgião-espadão, girando, girando, girando em círculo, batendo uns nos outros, em compasso de seis-oito. Orgião-espadão. . .
Passava da meia-noite quando o último helicóptero levantou vôo. Entorpecido pelo soma e esgotado por um prolongado frenesi de sensualidade, o Selvagem jazia adormecido sobre as urzes. O sol já ia alto no céu quando ele acordou. Ficou imóvel um momento, os olhos piscando à luz, numa incompreensão de mocho; depois, repentinamente, lembrou-se -— de tudo.
—Oh! Meu Deus, meu Deus! — cobriu os olhos com as mãos.
Naquela tarde, o enxame de helicópteros que vinham zumbindo por sobre a crista de Hog's Back era uma nuvem escura de dez quilômetros de comprimento. A descrição da orgia de comunhão da noite anterior fora publicada em todos os jornais.
— Selvagem! — gritaram os primeiros a chegar, enquanto desciam dos aparelhos. — Sr. Selvagem!
Não tiveram resposta.
A porta do farol estava entreaberta. Empurraram-na e/entraram numa penumbra de janelas fechadas. Por um arco na outra extremidade da peça viam-se os primeiros degraus da escada que levava aos andares superiores. Exatamente sob o fecho do arco pendiam dois pés.
— Sr. Selvagem!
Lentamente, muito lentamente, como duas agulhas de bússola sem pressa, os pés voltaram-se para a direita: norte, nordeste, leste, sudeste, sul, sul-sudoeste; depois detiveram-se e, passados alguns segundos, recomeçaram a girar, com a mesma lentidão, para a esquerda. Sul-sudoeste, sul, sudeste, leste. . .
ALDOUS HUXLEY
Admirável Mundo Novo
5a Edição
Tradução de
VIDAL DE OLIVEIRA E LINO VALLANDRO
Editora Globo Porto Alegre 1979
Título da edição original inglesa:
BRAVE NEW WORLD
publicada em 1972 pela Chatto & Windus Ltd., de Londres,
na série "The Collected Works of Aldous Huxley"
Copyright © 1932 by Mrs. Laura Huxley
1a Edição - abril de 1941
2a Edição - julho de 1946
3a Edição - agosto de 1977
4a Edição — novembro de 1 978
Capa de Ruben Herrmann
Planejamento gráfico de Sônia M. de Mendonça Heinz
Direitos exclusivos de tradução em língua portuguesa, para o Brasil,
da Editora Globo S. A.
Porto Alegre — Rio Grande do Sul — Brasil
Este livro foi composto no equipamento de IBM Composer da Editora Globo S. A.
Impresso pela EDIPE, São Paulo, para a Editora Globo S. A.
Você terminou Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley