Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley · Capítulo 13 de 24

Páginas do PDF

Admirável Mundo Novo

Capítulo VII

 

A mesa parecia um navio retido por uma calmaria num estreito de poeira cor de leão. O canal serpenteava entre margens alcantiladas, e, descendo obliquamente de um a outro dos paredões, corria um filete verde: o rio e os campos que regava. Na proa desse navio de pedra no centro do estreito, erguia-se o pueblo de Malpaís como se fizesse parte dele, um afloramento de forma definida e geométrica da rocha nua. Bloco sobre bloco, cada andar menor que o inferior, as casas altas elevavam-se, como pirâmides com degraus e truncadas, no céu azul. A seus pés, um montão irregular de construções baixas, uma rede de muros; e de três lados, os precipícios caindo a prumo no vale. Algumas colunas de fumaça subiam verticalmente no ar pesado, e nele se diluíam.

— Estranho — disse Lenina. — Muito estranho. — Era seu modo habitual de expressar reprovação. — Isto não me agrada. E esse homem também não me agrada. — Apontou para o guia índio que tinha sido designado para levá-los ao pueblo lá em cima. Seu sentimento era evidentemente retribuído: até as costas do homem, que caminhava adiante deles, eram hostis, sombriamente desdenhosas. — E além disso — baixou a voz — ele cheira mal.

Bernard não tentou negar. Continuaram sua marcha.

De repente, dir-se-ia que todo o ar tinha adquirido vida, e pulsava, pulsava com o movimento incansável do sangue. Lá em cima, em Malpaís, os tambores rufavam. Seus pés acompanharam o ritmo daquele coração misterioso; eles apressaram o passo. O caminho que palmilhavam levou-os ao pé do precipício. Os flancos do enorme navio-mesa os dominavam de toda a sua altura — noventa metros até a amurada.

— Se pelo menos pudéssemos ter trazido o helicóptero até aqui! — disse Lenina, olhando com ressentimento a superfície nua do rochedo saliente. — Tenho horror de caminhar, e a gente se sente tão pequena quando está no sopé de uma montanha.

Continuaram a andar por algum tempo à sombra da mesa, contornaram um esporão e, finalmente, em um barranco cavado pelas águas, depararam com a subida pela escada do tombadilho. Galgaram-na. Era uma trilha muito íngreme, que ziguezagueava de um lado a outro do barranco. Em certos momentos o pulsar dos tambores era quase inaudívei, em outros parecia que estavam rufando logo além da primeira curva.

Quando iam a meio caminho, uma águia passou voando tão perto deles, que sentiram no rosto o vento frio produzido pelo bater das asas. Em uma brecha do rochedo jazia um montão de ossos. Tudo era opressivamente estranho e o índio cheirava cada vez mais. Saíram, por fim, do barranco para a plena luz do sol. O topo da mesa era um convés chato de pedra.

— Parece a Torre de Charing-T — comentou Lenina. Mas não lhe foi dado gozar por muito tempo a descoberta dessa semelhança tranqüilizadora. Um ruído de passos amortecidos fê-la virar-se. Nus do pescoço ao umbigo, com o corpo castanho-escuro raiado de riscas brancas ("como quadras de tênis asfaltadas", explicaria Lenina tempos depois), rosto tornado inumano pela pintura com tinta escarlate, preta e ocre, dois índios vinham correndo ao longo da trilha. Seus cabelos negros estavam trançados com tiras de pele de raposa e de flanela vermelha. Mantos de plumas de peru flutuavam sobre seus ombros, enormes diademas de penas explodiam em cores vistosas em torno de suas cabeças. A cada passo que davam, ouvia-se o retinir das pulseiras de prata, o chocalhar dos pesados colares de ossos e de contas de turquesa. Aproximavam-se calados, correndo sem ruído com seus mocassins de camurça. Um deles segurava um espanador; o outro trazia em cada mão, coisas que de longe pareciam ser três ou qu tro pedaços de corda grossa. Uma das cordas retorcia-se de modo inquietante e, de súbito, Lenina percebeu que eram cobras.

Os homens aproximaram-se mais e mais; seus olhos sombrios encararam-na, porém sem darem o menor sinal de a terem visto ou de terem conhecimento da sua existência. A cobra que antes se retorcia, agora pendia flacidamente como as outras. Os homens passaram.

— Isto não está me agradando — disse Lenina. — Isto não está me agradando.

Agradou-lhe ainda menos o que a esperava à entrada do povoado, onde o guia os deixou para ir em busca de instruções. A sujeira, em primeiro lugar, os montes de imundície, o pó, os cães, as moscas. O rosto de Lenina franziu-se numa careta de nojo. Levou o lenço ao nariz.

— Mas como é que podem viver assim? — exclamou, numa voz de incredulidade indignada. (Não era possível.)

Bernard encolheu os ombros filosoficamente.

— Seja como for, faz cinco ou seis mil anos que vivem assim. De modo que já devem estar habituados, suponho.

— Mas a limpeza está próxima da fordeza — insistiu ela.

— Sim, e "civilização é esterilização" — replicou Bernard, completando em tom irônico a segunda lição hipnopédica de higiene elementar. — Mas essa gente nunca ouviu falar em Nosso Ford, e não é civilizada, de modo que não há por que. . .

— Oh! — Ela agarrou-se no braço de Bernard. — Olhe!

Um índio quase nu descia muito vagarosamente a escadinha do terraço do primeiro andar de uma casa ali perto — um degrau após o outro, com a cautela trêmula da extrema velhice. Seu rosto estava encarquilhado e negro como uma máscara de obsidiana. A boca, sem dentes, era chupada. Nos cantos dos lábios, e de cada lado do queixo, luziam alguns pêlos espetados, quase brancos contra a pele escura. Os cabelos compridos, não trançados, caíam-lhe em madeixas grisalhas pelo rosto. O corpo era curvado e tão magro que parecia não ter quase mais carne sobre os ossos. Muito devagar ele descia, parando em cada degrau antes de arriscar outro passo.

— O que é que ele tem? — sussurrou Lenina. Estava com os olhos arregalados de horror e espanto.

— Ele é velho, simplesmente — respondeu Bernard, com toda a indiferença que lhe foi possível aparentar. Estava também sobressaltado, mas fez um esforço para se mostrar imperturbável.

— Velho? — repetiu ela. — Mas o Diretor é velho, e há uma porção de gente que é velha, e no entanto não são assim.

— É porque não deixamos que fiquem assim. Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. Por isso, sem dúvida, eles não têm esse aspecto. Em parte — acrescentou — também porque a maioria morre antes de atingir a idade daquele velho. A juventude quase intata até os sessenta anos, e depois, zás! o fim.

Lenina, porém, não o ouvia. Observava o ancião. Ele descia devagar, devagar. Seus pés tocaram o chão. Virou-se; profundamente encovados, seus olhos ainda eram extraordinariamente vivos. Eles a fitaram muito tempo, vazios de expressão, sem surpresa, como se ela não estivesse ali. Depois, lentamente, curvado e arrastando-se, o velho passou diante deles e desapareceu.

— Mas é terrível — murmurou Lenina. — É espantoso. Não devíamos ter vindo aqui.

Tateou no bolso à procura do soma — e só então descobriu que, por um descuido sem precedentes, deixara o vidro na hospedaria. Os bolsos de Bernard também estavam vazios.

Não restava a Lenina senão afrontar, sem socorro exterior, os horrores de Malpaís. Estes se abateram sobre ela, abundantes e rápidos. O espetáculo de duas mulheres moças dando o seio a seus bebês fê-la corar e virar o rosto. Nunca tinha visto, em toda sua vida, coisa tão indecente. E o que tornava aquilo ainda pior era que, em vez de fechar os olhos discretamente, Bernard se pôs a fazer comentários francos sobre o revoltante espetáculo vivíparo. Envergonhado, agora que os efeitos do soma tinham desaparecido, da fraqueza de que dera mostras pela manhã no hotel, ele se esforçava para mostrar-se forte e libertado de opiniões ortodoxas.

— Que relações maravilhosamente íntimas! — disse ultrapassando deliberadamente todos os limites. — E que intensidade de sentimentos devem criar! Penso muitas vezes que talvez nos tenha faltado algo por não termos tido mãe. E talvez também tenha faltado alguma coisa a você por não ser mãe, Lenina. Imagine-se sentada ali, com um pequeno bebê seu.. .

— Bernard! Como é que você pode. . . ? — A passagem de uma velha com oftalmia e uma doença da pele distraiu-a de sua indignação. — Vamos embora — suplicou. — Tudo isto não me agrada nem um pouco.

Nesse instante, porém, o guia voltou e, fazendo-lhes sinal para que o seguissem, conduziu-os ao longo da estreita rua, entre as casas. Dobraram uma esquina. Um cão morto jazia sobre um monte de lixo; uma mulher com bócio catava piolhos na cabeça de uma menina. O guia deteve-se junto a uma escada, levantou a mão verticalmente, depois estendeu-a horizontalmente para diante. Obedeceram à ordem muda — subiram a escada e, transpondo a porta a que ela dava acesso, penetraram numa comprida e estreita peça, um tanto escura, que cheirava a fumaça, gordura queimada e roupa muito tempo usada sem lavar. Na outra extremidade da peça via-se uma porta pela qual penetrava um raio de sol, assim como o barulho, muito forte e próximo, dos tambores.

Franquearam o umbral e encontraram-se num espaçoso terraço. Abaixo deles, encerrada entre as casas altas, achava-se a praça da aldeia, fervilhante de índios. Mantos brilhantes, penas espetadas em cabeleiras negras, o refulgir de turquesas, peles escuras lustrosas com o calor. Lenina levou novamente o lenço ao nariz. No espaço livre no centro da praça havia duas plataformas circulares de alvenaria e argila socada — telhados, evidentemente, de câmaras subterrâneas, porque no centro de cada uma das plataformas se abria um alçapão, com uma escada que subia da obscuridade interior. Dali vinha um som de flautas subterrâneas que quase se perdia no rufar persistente e implacável dos tambores.

Lenina gostou dos tambores. Fechando os olhos, entregou-se ao seu trovejar velado e repetido, deixou que lhe invadisse por completo o eu consciente, até que, para ela, não existissem mais do que essa única e profunda pulsação sonora. Lembrava-lhe, tranqüilizadoramente, os ruídos sintéticos das Cerimônias de Solidariedade e das comemorações do Dia de Ford. "Orgião-espadão", murmurou consigo mesma. Os tambores rufavam exatamente no mesmo ritmo.

Houve uma súbita explosão de canto que a sobressaltou — centenas de vozes masculinas gritando numa unissonância rouca e metálica. Algumas notas prolongadas, e o silêncio, o silêncio atroador dos tambores; depois, estrídula, como um relincho agudo, a resposta das mulheres. Em seguida, de novo, os tambores; e, ainda uma vez, emitida pelos homens, a afirmação profunda e bravia de sua virilidade.

Estranho — sim. O lugar era estranho, a música também o era; os vestuários, os bócios, as moléstias da pele, os velhos, tudo era estranho. Mas quanto ao espetáculo em si — não parecia haver nada de particularmente estranho nele.

— Isso me lembra os cantos comunitários das castas inferiores — disse Lenina a Bernard.

Dentro em pouco, porém, a semelhança com aquela cerimônia inócua lhe pareceu muito menor. Pois, repentinamente, surgiu como um enxame, do fundo daquelas câmaras redondas do subterrâneo, um grupo pavoroso de monstros. Horrendamente mascarados, ou pintados a ponto de perderem todo aspecto humano, começaram a dançar em torno da praça, batendo com os pés no chão, numa estranha dança claudicante; davam voltas sem parar, cantando e marchando, outra vez, ainda outra — um pouco mais depressa a cada volta; e os tambores mudaram e aceleraram o ritmo que se tornou semelhante ao latejar da febre nos ouvidos; e a multidão começou a fazer coro com os dançarinos, em tom cada vez mais alto; e uma primeira mulher urrou, depois outra, e.outra mais, como se as estivessem matando; e depois, subitamente, o que ponteava a dança destacou-se do círculo, correu para um grande baú de madeira que havia na extremidade da praça, ergueu a tampa e tirou um par de cobras negras. Um urro vigoroso se ergueu na multidão, e todos os demais dançarinos correram para ele com as mãos estendidas. O homem atirou as cobras para os primeiros que chegaram, depois tornou a mergulhar as mãos no baú. Novas serpentes, negras, pardas, malhadas — ele as ia tirando e arremessando para os outros. Então a dança recomeçou num ritmo diferente. Fizeram e refizeram a volta da praça, com suas serpentes, serpenteando com um leve movimento ondulatório dos joelhos e dos quadris. Volta após volta. Depois o ponteiro fez um sinal e, uma após outra, todas as serpentes foram atiradas ao chão, no meio da praça; um ancião saiu do subsolo e polvilhou-as com farinha de trigo; pelo outro alçapão surgiu uma mulher que as borrifou com água de um jarro preto. A seguir, o velho ergueu a mão e logo, surpreendente e aterradoramente, se fez um silêncio absoluto. Os tambores cessaram de rufar, a vida parecia ter acabado. O ancião apontou para os dois alçapões que davam acesso ao mundo inferior. E lentamente, erguidas por mãos invisíveis, emergiram, de um, a imagem pintada de uma águia, e de outro, a de um homem nu pregado numa cruz. Ali ficaram aparentemente gravitando, como se observassem. O velho bateu palmas. Quase nu, com apenas uma tanga de algodão branco, um rapaz de cerca de dezoito anos destacou-se da multidão e manteve-se diante do velho, com as mãos cruzadas sobre o peito e a cabeça baixa. O ancião fez sobre ele o sinal da cruz e afastou-se. Lentamente, o rapaz se pôs a caminhar ao redor do monte de serpentes que se estorciam. Tinha terminado a primeira volta e estava no meio da segunda quando um homem de elevada estatura, com máscara de coiote e trazendo na mão um reino de couro trançado, saiu da roda dos dançarinos e avançou para ele. O rapaz continuou sua marcha como se não o tivesse percebido. O homem-coiote levantou o relho; houve um longo momento de expectação, depois um movimento rápido, o sibilar do látego e seu impacto sonoro e seco na carne. O corpo do rapaz teve um estremecimento, mas ele não exalou nenhum gemido e continuou sua marcha no mesmo passo lento e regular. O coiote deu outro golpe, e outro, e mais outro; a cada chicotada elevava-se da multidão um suspiro convulsivo, depois um gemido profundo. O rapaz continuou a caminhar. Duas, três, quatro vezes fez a volta da praça. O sangue escorria abundantemente. Cinco voltas, seis voltas. Súbito, Lenina tapou o rosto com as mãos e pôs-se a soluçar. "Oh, faça-os parar, faça-os parar!" implorou. Mas o látego batia, batia inexoravelmente. Sete voltas. Então, de repente, o rapaz tropeçou e sempre, sem emitir um som sequer, caiu para a frente. Inclinando-se sobre ele, o ancião tocou-lhe as costas com uma comprida pena branca, ergueu-a no ar um momento, rubra, para que todos a vissem, depois sacudiu-a três vezes sobre as cobras. Dela caíram algumas gotas, e repentinamente os tambores rufaram de novo em torrentes de notas precipitadas; ouviu-se um grande brado. Os dançarinos lançaram-se para diante, recolheram as serpentes e saíram correndo da praça. Homens, mulheres, e crianças, toda a multidão saiu a correr atrás deles. Um minuto depois, a praça estava vazia; ficara apenas o rapaz, estendido de bruços, no lugar onde caíra, absolutamente imóvel. Três velhas saíram de uma das casas, ergueram-no com alguma dificuldade e o levaram para dentro. A águia e o homem crucificado permaneceram algum tempo de guarda sobre o pueblo deserto; depois,como se já tivessem visto bastante, baixaram lentamente, cada um por seu alçapão, desaparecendo no mundo subterrâneo.

Lenina continuava a soluçar.

— Mas é horroroso! — repetia sem cessar, e todas as consolações de Bernard foram vãs. — É horroroso! Aquele sangue! — estremeceu. — Ah, se eu tivesse o meu soma!

Ouviu-se um ruído de passos na peça interior.

Lenina não se moveu, permaneceu sentada, o rosto escondido nas mãos, sem nada ver, alheada. Somente Bernard se virou.

O vestuário do jovem que apareceu nesse momento, no terraço, era o de um índio; mas seus cabelos trançados eram cor de palha, tinha os olhos azul-claros, sua pele era branca, bronzeada.

— Olá! Bons dias! — disse o desconhecido, em inglês impecável mas peculiar. — São civilizados, não? Vêm do Outro Lado, de fora da Reserva?

— Quem, grande Ford? . . . ? — começou Bernard, espantado.

O jovem suspirou e sacudiu a cabeça.

— Um homem bem infeliz. — E, apontando com o dedo as manchas de sangue no centro da praça, perguntou, com voz trêmula de emoção: — Vêem essa "mancha maldita" 1 ?

—"Uma grama vale mais que o mal que se proclama" — disse maquinalmente Lenina por entre as mãos que lhe cobriam o rosto. — Ah, se ao menos eu tivesse o meu soma!

— Eu é que devia ter estado ali — prosseguiu o jovem.

1 Out, damned spot! (Macbeth, V, 1)

— Por que não me aceitaram como vítima? Eu teria dado dez voltas, quinze, vinte. Palowhtiwa não foi além de sete. De mim eles poderiam ter obtido duas vezes mais sangue. "Tingir de sangue os mares tumultuosos. . ."2 — Abriu os braços num gesto largo; depois, com desespero, deixou-os cair. — Mas não me permitiram. "Eu lhes desagradava por causa da minha tez." 3 Foi sempre assim. Sempre. — Tinha os olhos rasos de lágrimas; sentiu vergonha e virou o rosto.

O espanto fez Lenina esquecer a falta de soma. Tirou as mãos das faces e, pela primeira vez, olhou o desconhecido.

— Quer dizer que desejava ser chicoteado?

Ainda com os olhos desviados, o jovem fez um sinal afirmativo.

— Para o bem do pueblo, para fazer vir a chuva e crescer

o trigo. E para agradar a Pukong e a Jesus. E também para mostrar que sou capaz de suportar a dor sem gritar. Sim — e sua voz subitamente tomou um timbre novo; virou-se, ergueu altivamente os ombros, levantou a cabeça com orgulho, com um ar de desafio — para mostrar que sou um homem. . . Oh!

Teve uma respiração convulsa e calou-se, boquiaberto. Pela primeira vez na vida via o rosto de uma moça cujas faces não eram cor de chocolate ou de pele de cão, cujos cabelos eram castanho-claros e permanentemente ondulados, e cuja expressão (surpreendente novidade!) era de benévolo interesse. Lenina sorria-lhe; que rapaz simpático, pensava ela, e quê corpo bonito! O sangue afluiu ao rosto do jovem; baixou os olhos, levantou-os um instante, somente para ver que ela continuava a sorrir-lhe, e ficou de tal modo perturbado que teve de virar-se e fingir que estava olhando atentamente alguma coisa do outro lado da praça.

As perguntas de Bernard lhe desviaram a atenção. Quem? Como? Quando? De onde? Mantendo os olhos fixos no rosto de Bernard (pois ele sentia um desejo tão intenso de ver Lenina sorrindo que simplesmente não se atrevia a olhá-la), o jovem procurou explicar sua presença. Linda e ele — Linda era sua mãe (essa palavra deixou Lenina contrafeita) — eram estranhos na Reserva. Linda viera de longe, do Outro Lado, havia muito tempo, antes de ele ter nascido, com um homem de quem era filho. (Bernard prestou mais atenção.) Ela safra a caminhar por aquelas montanhas que ficavam lá para o norte, caíra de um lugar escarpado e ferira-se na cabeça.

2 The multitudinous seas incarnadine (Macbeth, II, 2)

3 Mislike me not for my complexion. (Merch. of Venice, 11,1.)

— Continue, continue — disse Bernard com excitação. Caçadores de Malpaís

acharam-na e levaram-na para o pueblo. Quanto ao homem de quem era filho. Linda nunca mais o viu. Chamava-se Tomakin. (Sim, o prenome do D. l. C era Thomas.) Decerto havia ido embora para o Outro Lado, sem ela — um homem mau, desapiedado, sem entranhas.

— De modo que nasci em Malpaís — disse em conclusão. — Em Malpaís. — E sacudiu a cabeça.

A sordidez daquela casinha nas cercanias do pueblo! Um terreno coberto de poeira e imundície separava-a da aldeia. Dois cães famintos fossavam de maneira repelente o lixo espalhado diante da porta. No interior, quando eles entraram, a penumbra cheirava mal e zumbia com o vôo das moscas.

— Linda! — chamou o rapaz.

Do fundo da outra peça, uma voz feminina um tanto rouca respondeu: "já vou". Eles esperaram. No chão, em tigelas, viam-se restos de uma refeição, talvez de várias refeições.

A porta abriu-se. Uma mulher loura muito gorda transpôs o umbral e ficou parada, fitando os visitantes com um olhar incrédulo, boquiaberta. Lenina notou com repugnância que lhe faltavam dois dentes da frente. E a cor dos que ainda restavam!. . . Teve um estremecimento. Era pior do que o velho. Tão gorda! E todas aquelas rugas no rosto, aquelas carnes moles pendentes, aquelas dobras! E as bochechas caídas, com aquelas manchas arroxeadas! E as veias vermelhas no nariz, os olhos injetados! E aquele pescoço — aquele pescoço; e a manta que usava sobre a cabeça — esfarrapada e imunda. E sob a túnica parda, em forma de saco, aqueles seios enormes, a saliência do ventre, as ancas! Oh, muito pior que o velho, muito pior! E, de repente, aquela criatura prorrompeu numa torrente de palavras, precipitou-se para ela com os braços abertos e — Ford! Ford! era repugnante demais, ainda um minuto e ela teria náuseas — apertou-a contra aquela saliência, contra aquele peito, e pôs-se a beijá-la, Ford! a beijá-la, babando — e o seu cheiro era abominável, evidentemente nunca tomava banho, e recendia àquele produto horrível que se punha nos frascos dos Deltas e dos Ipsilons (não, não era verdade o que se dizia a respeito de Bernard), positivamente cheirava a álcool! Lenina desprendeu-se dela o mais depressa que pôde.

Achou-se frente a frente com um rosto desfigurado e banhado em lágrimas; a criatura estava chorando.

— Oh, minha querida, minha querida! — A torrente de palavras fluía entre soluços. — Se soubesse como estou contente, depois de tantos anos! Um rosto civilizado! Sim, e roupas civilizadas! Porque eu pensava que nunca mais tornaria a ver um pedaço de legítima seda de acetato! Tateou com os dedos a manga da blusa de Lenina. Suas unhas estavam pretas. — E esse adorável calção de belbutina de viscose! Sabe, minha querida, eu ainda tenho minhas velhas roupas, aquelas com que vim, guardadas numa caixa. Eu lhe mostrarei mais tarde. Se bem que, naturalmente, o acetato está todo esburacado. Mas a cartucheira branca é tão linda. . . embora deva reconhecer que a sua, de marroquim verde, é ainda mais bonita. Verdade é que não me serviu para muita coisa aquela cartucheira. — Suas lágrimas recomeçaram a correr. — John deve ter-lhes contado isso. O que eu sofri, e sem possibilidade de conseguir uma grama de soma. Apenas um gole de mescal de tempos em tempos, quando Pope me trazia. Pope é um rapaz que eu conheci. Mas o mescal deixa a gente tão indisposta depois, e o peyot dá náuseas; e, além disso, tornava ainda mais penosa aquela horrível sensação de vergonha no dia seguinte. E eu tinha tanta vergonha! Imagine: eu, uma Beta, ter um bebê; ponha-se no meu lugar! — A simples sugestão fez Lenina estremecer de horror. — Se bem que não foi por minha culpa, juro; porque até hoje não sei como foi isso, visto que fiz todos os exercícios malthusianos; você sabe, contando: um, dois, três, quatro. Sempre, juro; o que não impede que, apesar de tudo, tenha acontecido; e naturalmente não havia aqui nada parecido com um Centro de Abortos. A propósito, ele continua em Chelsea? — perguntou. Lenina fez com a cabeça um sinal afirmativo. — E sempre iluminado com projetores nas terças e sextas? — Lenina fez novamente que sim. — Aquela linda torre de vidro rosa! — A pobre Linda ergueu o rosto e, de olhos cerrados, contemplou extasiada a imagem brilhante da recordação. — E o Tâmisa, à noite. . . — murmurou. Grossas lágrimas escoaram-se lentamente por entre as pálpebras fechadas. — E a volta de helicóptero, ao entardecer, de Stoke Poges. E depois o banho quente e uma massagem a vibro-vácuo. . . Mas aí está. — Respirou profundamente, sacudiu a cabeça, abriu os olhos, fungou uma ou duas vezes, por fim assoou-se nos dedos e limpou-os na fralda da túnica. — Oh, desculpe — disse, em resposta à involuntária careta de nojo que Lenina fez. — Não devia ter feito isso..Desculpe. Mas que é que se vai fazer quando não se tem um lenço? Eu me lembro como isso me atormentava, toda esta imundície, e nada de asséptico! Estava com um talho horrível na cabeça, quando me trouxeram para cá. Você não imagina o que punham na ferida. Imundície, pura imundície. "Civilização é Esterilização", eu dizia a eles. E "No meu estreptococo alado, Voa a Banbury-T, Ver meu banheiro niquelado Com um W.C."* como se fossem crianças. Mas não compreendiam, está visto. Como poderiam compreender? E afinal de contas, acabei me habituando, suponho. De qualquer forma, como seria possível conservar tudo limpo, sem água quente encanada? E olhe esta roupa. Esta lã horrível não é como o acetato. Ela dura, dura!. . . E a gente é obrigada a remendá-la, se por acaso se rasga.

* O texto original é uma paródia duma "nursery rhyme", isto é, duma pequena poesia infantil, familiar a todas as crianças inglesas.

Mas eu sou uma Beta; trabalhava na Sala de Fecundação; nunca ninguém me ensinou a fazer essas coisas. Não era minha obrigação. Além disso, nunca foi direito remendar roupa. É atirar fora quando estiverem estragadas e comprar novas. "Quanto mais se remenda, menos se aproveita." Não é verdade? Remendar é anti-social. Mas aqui tudo é diferente. É como se a gente vivesse no meio de loucos. Tudo o que fazem é loucura. — Lançou um olhar em redor, viu que John e Bernard as tinham deixado e caminhavam de um lado para outro lá fora, na poeira e no lixo; mesmo assim, baixou confidencialmente a voz, inclinando-se de tal modo, enquanto Lenina se retesava e recuava, que seu hálito empestado de veneno para embriões agitava os cabelos que caíam no rosto da jovem. — Por exemplo — disse, num murmúrio rouco — veja como os casais se unem aqui. É uma loucura, uma completa loucura. Cada um pertence a todos, não é? Não é? — insistiu, puxando a manga de Lenina. Esta, virando a cabeça, fez um sinal afirmativo, expirou o ar que havia retido e conseguiu tomar uma inspiração de ar relativamente puro. — Pois bem, aqui — prosseguiu a outra —.ninguém pode pertencer a mais de uma pessoa. E se a gente procede como de costume, os outros acham isso imoral e anti-social. A gente é odiada e desprezada. Uma vez,estiveram aqui umas quantas mulheres e me fizeram uma cena porque os homens vinham me visitar. E por que não? E depois se atiraram sobre mim. .. Não, foi horrível demais. Nem posso lhe contar isso. — Linda cobriu o rosto com as mãos e estremeceu. — Como as mulheres aqui são odiosas! Loucas, loucas e cruéis. E, é claro, não sabem nada de exercícios malthusianos, bocais, decantação, essas coisas todas. E por isso estão sempre tendo filhos, como cadelas. É revoltante! E pensar que eu. . . Oh, Ford, Ford, Ford!. . . Entretanto, John foi um grande consolo, é verdade. Não sei o que teria sido de mim sem ele. Apesar de que se eriçava todo quando um homem. . . Mesmo no tempo em que era pequeno. Uma vez (mas ele já era maior, nessa época) tentou matar o pobre do Waihusiwa (ou seria Pope? ) simplesmente porque eu o recebia às vezes. Nunca consegui fazê-lo compreender que é assim que devem proceder as pessoas civilizadas. A loucura é contagiosa, acho. Em todo caso, parece que John a contraiu com os índios. Porque, naturalmente, convivia muito com eles. Embora tenham sido sempre tão maus com ele, não o deixando fazer o que as outras crianças faziam; o que, por outro lado, era uma vantagem, porque me facilitava o trabalho de condicioná-lo um pouco. Mas você não faz idéia como isso é difícil. Há tanta coisa que a gente não sabe; não era minha obrigação saber. Quero dizer: se uma criança pergunta como funciona um helicóptero, ou quem foi que fez o mundo. . . bem, que é que se vai responder, quando se é uma Beta que sempre trabalhou na Sala de Fecundação? Que é que se vai responder?