Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley · Capítulo 16 de 24

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Admirável Mundo Novo

Capítulo X

 

Os ponteiros dos quatro mil relógios elétricos das quatro mil salas do Centro de Bloomsbury marcavam duas horas e vinte e sete minutos. "Esta colmeia industriosa", como gostava de chamar-lhe o Diretor, estava em pleno zumbido de trabalho. Todos estavam ocupados, tudo se achava em movimento ordenado. Sob os microscópios, com as longas caudas a agitar-se furiosamente, os espermatozóides insinuavam-se de cabeça nos óvulos; e estes, fecundados, dilatavam-se, segmentavam-se, ou, se eram bokanovskizados, germinavam e fragmentavam-se em populações inteiras de embriões. Da sala de Predestinação Social, as escadas rolantes desciam ruidosas ao subsolo e ali, na penumbra vermelha, aquecendo-se em seu colchão de peritônio, saciados de pseudo-sangue e de hormônios, os fetos cresciam, cresciam; ou, envenenados, estiolavam-se no estado de Ipsílons. Com um pequeno zumbido, um ligeiro matraquear, os porta-garrafas móveis percorriam num movimento imperceptível as semanas e todas as idades recapituladas, até o lugar em que, na Sala de Decantação, os bebês recém-saídos dos bocais soltavam seu primeiro vagido de horror e de espanto.

Os d (Víamos ronronavam no andar inferior do subsolo, os elevadores subiam e desciam rapidamente. Em cada um dos doze andares de berçários era hora da alimentação. Em mil e oitocentas mamadeiras, mil e oitocentos bebês cuidadosamente rotulados chupavam ao mesmo tempo seu meio litro de secreção externa pasteurizada.

Acima deles, em dez andares sucessivos de dormitórios, os me/iinos e meninas ainda bastante novos para precisarem de uma sesta estavam, embora não o suspeitassem, tão ocupados quanto os outros, pois inconscientemente ouviam lições hipnopédicas sobre higiene e sociabilidade, sobre a consciência de classe e a vida amorosa dos pequeninos. Mais acima ainda, havia salas de recreio onde, tendo começado a chover, novecentas crianças de mais idade se distraíam com blocos de construção e massa de modelagem, brinquedos de roda e jogos eróticos.

Bzz, bzz! A colméia zumbia, ativamente, alegremente. Jovial era o cantarolar das moças curvadas sobre os tubos de ensaio; os Predestinadores assobiavam enquanto trabalhavam e, na Sala de Decantação, que magníficas piadas esfuziavam acima dos bocais vazios! Mas a fisionomia do Diretor, no momento em que entrou na Sala de Fecundação com Henry Foster, era grave, rígida em sua severidade.

— Um exemplo público — dizia ele. — Nesta sala, porque ela contém mais trabalhadores das classes superiores que qualquer outra do Centro. Eu disse a ele que viesse procurar-me aqui às duas e meia.

— Ele faz muito bem o seu trabalho — ponderou Henry, com generosidade hipócrita.

— Eu sei. E isso é mais uma razão para ser severo.

Sua elevada condição intelectual traz consigo responsabilidades morais correspondentes. Quanto maior é o talento de um homem, mais poder tem ele para desviar os outros. É preferível o sacrifício de um à corrupção de muitos. Encare o caso sem paixão, Sr. Foster, e verá que não há crime mais odioso do que a falta de ortodoxia na conduta. O homicídio mata apenas o indivíduo; e, afinal, que é um indivíduo? — Com um gesto largo, apontou as fileiras de microscópios, os tubos de ensaio, as incubadoras. — Nós podemos produzir um indivíduo novo com a maior facilidade; tantos quantos quisermos. A falta de ortodoxia, porém, ameaça mais do que a vida de um simples indivíduo; ela atinge a própria Sociedade. Sim, a própria Sociedade — repetiu. — Ah! Aí vem ele.

Bernard entrara na sala e dirigia-se para eles por entre as fileiras de Fecundadores. Um tênue verniz de desembaraçada segurança mal dissimulava seu nervosismo. O tom de voz com que disse "Bom dia, senhor Diretor" foi absurdamente forte; porém ridiculamente suave, como um guincho de camundongo, foi o tom em que, retificando seu erro, disse: "O senhor me pediu para vir falar-lhe aqui".

— Sim, Sr. Marx. — retorquiu o Diretor com ominosa solenidade. — Pedi-lhe efetivamente que viesse procurar-me aqui. O senhor voltou de suas férias ontem, não é?

— Sim — respondeu Bernard.

— S-sim — repetiu o Diretor, sibilando como uma serpente ao prolongar o s. Depois, erguendo subitamente a voz: — Minhas senhoras e meus senhores — trombeteou — minhas senhoras e meus senhores.

O cantarolar das moças curvadas sobre os tubos de ensaio, o assobio absorto dos microscopistas, cessaram repentinamente. Houve um silêncio profundo, todos se voltaram.

— Minhas senhoras e meus senhores — repetiu mais uma vez o Diretor — desculpem-me interromper os seus trabalhos. Um dever penoso a isso me obriga. A segurança e a estabilidade da Sociedade estão em perigo. Sim, minhas senhoras e meus senhores, em perigo. Este homem — e apontou para Bernard seu dedo acusador — este homem que aqui está diante de todos, este Alfa-Mais a quem tantas coisas foram dadas, e de quem, portanto, muito se deveria esperar, este colega dos senhores (ou devo antecipar e dizer ex-colega? ) traiu grosseiramente a confiança de que era depositário. Por suas idéias heréticas sobre o esporte e o soma, pela escandalosa irregularidade de sua vida sexual, peia sua recusa em obedecer aos ensinamentos de Nosso Ford e em comportar-se fora das horas de trabalho "como um bebê no bocal" — neste ponto do seu discurso o Diretor fez o sinal do T — ele se revelou um inimigo da Sociedade, um subversor, minhas senhoras e meus senhores, de toda Ordem, de toda Estabilidade, um conspirador contra a própria Civilização. Por esse motivo, eu me proponho exonerá-lo, exonerá-lo ignominiosamente do posto que ocupava neste Centro; proponho-me pedir imediatamente sua transferência para um Subcentro da mais baixa categoria, e, a fim de que seu castigo possa servir aos melhores interesses da Sociedade, o mais afastado possível de todo Centro populacional importante. Na Islândia ele terá muito poucas oportunidades de desencaminhar os outros com seu exemplo antifordiano. — O Diretor calou-se um instante; depois, cruzando os braços, voltou-se com ar imponente para Bernard. — Marx — disse — pode apresentar alguma razão para que eu não execute neste instante a sentença que acaba de ser pronunciada contra o senhor?

— Sim, posso — respondeu Bernard, em voz muito alta.

Um pouco desconcertado, mas sempre majestosamente, o Diretor falou:

— Então, apresente-a.

— Certamente. Mas está no corredor. Um momento. Bernard dirigiu-se rapidamente para a porta e abriu-a de par em par.

— Entre — ordenou: e a "razão" entrou e apresentou-se.

Houve um resfolegar convulsivo, um murmúrio de espanto e de horror; uma das moças gritou; alguém que trepara numa cadeira, para ver melhor, derrubou três tubos de ensaio cheios de espermatozóides. Balofa, de carnes pendentes, um monstro de meia-idade estranho e aterrorizador entre aqueles corpos juvenis e rijos, aqueles rostos lisos, Linda adiantou-se, sorrindo coquetemente seu sorriso desdentado e descolorido, e meneando as enormes ancas com o que pretendia ser uma ondulação voluptuosa. Bernard caminhava a seu lado.

— Ali está ele — disse, apontando para o Diretor.

— Pensou que eu não o reconheceria? — perguntou Linda, indignada. Depois, voltando-se para o Diretor: — Claro que o reconheci. Tomakin, eu reconheceria você em qualquer parte, entre mil. Mas talvez você tenha me esquecido. Não se lembra? Não se lembra, Tomakin? Sua Linda! — Ela ficou ali a olhá-lo, a cabeça para um lado, sorrindo sempre, mas com um sorriso que, ante a expressão de nojo que imobilizara o rosto do Diretor, se tornava progressivamente menos confiante, um sorriso que vacilava e acabou por extinguir-se. — Você não se lembra, Tomakin? — repetiu ela com voz trêmula. Seus olhos estavam ansiosos, angustiados. O rosto pustuloso e inchado contorceu-se grotescamente ao assumir uma expressão de sofrimento extremo. — Tomakin!

— Ela estendeu-lhe os braços. Alguém deu uma risadinha espremida.

— Que significa — começou o Diretor — esta monstruosa. . .

— Tomakin! — Ela arremessou-se para a frente, arrastando sua manta, atirou-lhe os braços ao pescoço e escondeu o rosto em seu peito.

As risadas explodiram em urros irreprimíveis.

— ... esta monstruosa farsa? — vociferou o Diretor. Com o rosto vermelho, procurou desvencilhar-se do abraço de Linda. Ela aferrou-se a ele desesperadamente.

— Mas sou eu, Linda; sou eu, Linda. — Sua voz foi abafada pelos risos. — Você me fez ter um bebê — gritou, dominando o tumulto. Houve um silêncio súbito e apavorante; Os olhares vagueavam constrangidos, não sabendo onde se fixar. O Diretor empalideceu de repente, cessou de debater-se e ficou ali, as mãos nos pulsos de Linda, fitando-a horrorizado. — Sim, um bebê, e eu sou a mãe. — Atirou essa obscenidade,como um desafio, no silêncio escandalizado; depois, afastando-se repentinamente dele, envergonhada, envergonhada, cobriu os olhos com as mãos, soluçando.

— A culpa não foi minha,Tomakin. Porque sempre fiz meus exercícios malthusianos, não é? Não é? Sempre. . .

Eu não sei como. . . Se você soubesse como é horrível, Tomakin. . . Mas ele foi um grande consolo para mim, apesar de tudo. — Virando-se para a porta, chamou: — John! John!

Ele entrou em seguida, deteve-se um instante ao transpor a soleira da porta, lançou um olhar em redor, depois atravessou a peça, rápida e silenciosamente, com seus mocassins, caiu de joelhos diante do Diretor e disse em voz clara:

— Meu pai!

Essa palavra (porque "pai" não era uma expressão tão obscena; mais afastada dos aspectos repugnantes e imorais da gestação, era simplesmente grosseira, era antes uma inconveniência escatológica do que pornográfica), essa palavra comicamente indecorosa veio aliviar uma tensão que se tornara absolutamente intolerável. Estrugiram gargalhadas, enormes, quase histéricas, em rajadas sucessivas, como se não fosse acabar mais. "Meu pai" — e era o Diretor! "Meu pái!" Oh, Ford! Oh, Ford! Essa era verdadeiramente colossal. Os uivos e rugidos de riso renovaram-se, os rostos pareciam estar a ponto de desintegrar-se, as lágrimas corriam. Outros seis tubos de espermatozóides foram derrubados. "Meu pai!"

Lfvido, de olhos desvairados, o Diretor circunvagava o olhar numa agonia de humilhação perplexa.

"Meu pai !" As gargalhadas, que pareciam querer aplacar-se, recrudesceram outra vez, mais fortes do que nunca. Ele tapou os ouvidos com as mãos e precipitou-se para fora da sala.