Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX
4 Adolfo Caminha, autor-leitor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
pris la peine de devenir romanesque 16 ». Mais uma vez, Caminha traz à cena a importância da apreensão do verdadeiro, sentindo-se ou apresentando-se ele mesmo como um historiador dos modos, uma vez que a verdade dos fatos era a diferença fundamental entre a história e a literatura.
A leitura de Balzac também parece estar presente na criação dos tipos que constam nesse romance de estreia de Adolfo Caminha. São tipos bem construídos, alguns ganham as características bem demarcadas, como João Maciel da Mata Gadelha, que, usando a supressão de nome e sobrenome, o narrador o transformou em João da Mata, ou seja, como homem vindo do mato, da selva onde estavam as feras a busca de presas afim de saciar-lhes a fome. Também de Balzac, mas podemos dizer que também de Eça de Queiroz, viera a ideia do subtítulo – (Cenas do Ceará) – que inúmeras edições do romance desconsideram. Como sabemos, A comédia humana foi organizada em divisões e subdivisões, muitas delas organizadas em cenas, como "Cenas da vida privada", "Cenas da vida provinciana", "Cenas da vida parisiense" da qual fazem parte o já citado "A última encarnação de Vautrin", Cenas da vida rural".
Esse recurso parece fazer do narrador e dos leitores assistentes de fatos que se desenrolam diante deles. Talvez também seja por esse motivo que o enredo do romance muitas vezes, seja na focalização de personagens, seja na da paisagem, lembre um roteiro para o cinema, ideia essa que ainda não existia naqueles anos. Esse fato é também um exemplo de representação da literatura como uma constituição de imagens encadeadas, cena após cena, criando uma narrativa que se desejava vista. De Eça de Queiroz sabemos que o seu romance O primo Basílio tem como subtítulo "Episódio doméstico", e o romance O crime do padre Amaro tem como subtítulo (Cenas da vida religiosa).
O segundo indício de leitura presente em A normalista é uma referência ao livro A imitação de Cristo, publicado no século XV e atribuído a Tomás de Kempis. É formado de quatro livros. Trata-se de uma obra devocional. No contexto do romance de Caminha serviu ao narrador para marcar o período em que Maria do Carmo era interna no Colégio da Imaculada Conceição: "Quando ia passar o domingo em casa, uma vez ao mês, metia-se para os fundos do quintal ou pelas camarinhas, muito calada, muito sonsa, a ler a Imitação..." (Caminha, 1998, p.21). Assim, o livro em causa é usado como um marcador de tempo e de comportamento na vida da personagem protagonista.
Se Maria do Carmo lia a Imitação, Zuza, o seu pretendente, lia a Gazeta jurídica (ibidem, p.23). Não sabemos ao certo se se trata de um periódico que de fato existira, ou se se trata de um livro criado na trama romanesca para caracterizar a personagem, que, como já vimos no breve resumo do enredo, era estudante de Direito, servindo também para marcar as diferenças entre Maria do Carmo e Zuza. A formação religiosa de Maria do Carmo se iniciara em casa, na companhia dos pais, como nos faz concluir a leitura deste trecho: "Crescia sem outra educação a não ser a que lhe davam os pais, de modo que, naquela idade, mal soletrava a Doutrina Cristã", o que só reforça o perfil religioso da personagem, ao menos nos primeiros capítulos do romance (ibidem, p.26).
Ainda uma vez, encontramos uma passagem do romance que reforça este perfil: "Transportava-se, num vôo da imaginação, a Campo Alegre, e via-se, como por um óculo-de-ver-ao-longe, ao lado da mamãe, costurando quieta ou soletrando a Cartilha, ou na novena do Senhor do Bonfim, muito limpa, com o seu vestidinho de chita que lhe dera o Sr. Vigário" (ibidem, p.28).
A saída de Maria do Carmo também foi marcada pela mudança de suas leituras. Se antes ela lera somente livros devocionais, sua entrada na Escola Normal, de formação laica, foi acompanhada da leitura de O primo Basílio. A primeira vez que esse romance de Eça de Queiroz é citado na narrativa romanesca de Caminha foi em uma situação bem diferente do que já se vira a respeito de Maria do Carmo. Vejamos:
Depois que saíra da Imaculada Conceição a vida não lhe era de
todo má. Ora estava no piano, ensaiando trechos de música em
voga, ora saía a passear com a Lídia Campelo, de quem era
muito amiga de escola, ora lia romances... Ultimamente a Lídia
dera-lhe a ler O primo Basílio, recomendando muito cuidado
"que era um livro obsceno": lesse escondido e havia de gostar
muito. (ibidem, p.31)
Os indícios de leitura do O primo Basílio, e nesse caso podemos afirmar mesmo que Caminha o lera, continuam nas páginas seguintes. Todos eles envoltos nesse tom de desconfiança, de leitura censurada e sempre servido como forma de marcar a mudança que se operara na personagem com a sua saída do colégio religioso para a instituição laica. A leitura desse romance queiroisiano, bem como a dos demais de sua lavra causaram verdadeiro alvoroço por parte de uns, mas também verdadeiro entusiasmo por parte de outros. Adolfo Caminha parece situar-se entre esses. Entre censura e admiração, Eça de Queiroz foi um dos autores mais lidos e comentados no Brasil até pelo menos após a guerra de 1914-1918, como o declarou Brito Broca. É também dele este comentário que transcrevemos a respeito de O primo Basílio e sua recepção no Brasil:
Eça de Queirós não foi somente uma grande influência na
literatura brasileira; foi também moda literária, que se iniciou por
volta de 1878, quando se divulgou aqui O primo Basílio –
implantando o que os cronistas da época chamavam de
"basilismo" –, até a guerra de 1914, mais ou menos. No começo
do século XX, Eça continuava a ser ma obsessão para muitos
intelectuais brasileiros. E presenciavam-se episódios como
este: numa partida de Olavo Bilac para a Europa, os amigos, ao
acompanhá-lo a bordo, recitavam versos com alusões aos
personagens do romancista português. Bilac ia a Portugal e era
como se fosse encontrar aquela comparsaria d'Os Maias, d'O
primo Basílio, d'A relíquia, tida como criatura de carne e osso,
gente de verdade por todos os leitores e admiradores de Eça.
Em meio dos adeuses em verso, Goulart de Andrade enviava
"uma beijoca bem boa no imortal Johannes da Ega"; outro
mandava recomendações ao conselheiro Acácio, e assim por
diante. (Broca, 2005, p.174)
No caso do romance de Caminha, O primo Basílio também serviu para comparar o casal Maria do Carmo e Zuza ao casal Luísa e Basílio, pois Maria do Carmo quisera fazer-se de Luísa:
Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela
complicada história do Paraíso!... A primeira entrevista de
Basílio com Luísa causou-lhe uma sensação estranha, uma
extraordinária superexcitação nervosa; sentiu como um
formigueiro nas pernas, titilações em certas partes do corpo,
prurido no bico dos seios púberes; o coração batia-lhe
apressado, uma nuvem atravessou-lhe os olhos... Terminou a
leitura cansada, como se tivesse acabado de um gozo infinito...
E veiolhe à mente o Zuza: se pudesse ter uma entrevista com o
Zuza e fazer de Luísa... (Caminha, 1998, p.32, grifo nosso)
De fato, a leitura de O primo Basílio marca um verdadeiro rito de passagem na vida da personagem caminhiana, como nos faz concluir o trecho que citamos a seguir:
Até aquela data só lera romances de José de Alencar, por uma
espécie de bairrismo mal entendido, e a Consciência de Heitor
Malot publicada em folhetins na Província. A leitura do Primo
Basílio despertou-lhe um interesse extraordinário. "Aquilo é que
é um romance. A gente parece que está vendo as cousas, que
está sentindo..." (ibidem)
Vemos por essa citação que Maria do Carmo ela leitora apenas de romances românticos, aqui representados pelo nome de José de Alencar, e também de folhetins, no caso do escritor francês Heitor Malot, que, de fato, se chamava Hector Henri Malot, célebre pelo seu Sans famille, de 1878, que conta a história comovente do pequeno Remy. Sua estreia no romance se deu em 1859 com Les amants, seguido de Les epoux, de 1865, e Les enfants, de 1866, que constituíram a trilogia Victimes d'amour, bastante lida pelo público. Segundo Maria Letícia Guedes Alcoforado (1982, p.64), esse livro de Mallot citado no romance de Caminha, Conscience, fora publicado na França em 1888 "e já estava divulgado no Brasil". Ainda segundo Alcoforado, sobre o título de Malot lemos: "Possivelmente Adolfo Caminha o conhecera mesmo em Fortaleza para onde se tinha transferido naquele ano".
A esse seu título poderíamos juntar outros de igual temática fundamentados em dramas íntimos e enredos comoventes como Le Docteur Claude, Une bonne affaire, La Belle-Mère, Les batailles du mariage, em três volumes e ainda uma autobiografia de sua vida literária intitulada Roman des mes romans, de 1896. Suas obras são marcadas pela abundância de títulos, bem como por um moralismo discreto, utilizando todos os elementos do melodrama como a inverossimilhança de situações, convenção das personagens, maniqueísmo primário e tom meio heróico, meio lamuriante. Segundo lemos no Dictionnaire des littératures de langue française:
L'oeuvre de Malot s'inscrit donc dans le cadre plus général du
roman des moeurs édifiant, dit" roman de la victime", qui connut
son apogée sous le second Empire. Le caractère naïf de certais
romans les destinait plus particulièrement à la lecture enfantine:
En famille et Sans famille ont gardé aujourd'hui encore cette
vocation.17
As referências a uma literatura romântica foi sempre uma constante na obra de Adolfo Caminha, seja para em alguns momento defendê-la, seja para atacá-la. Assim, temos referência aos poetas Barbosa de Freitas, cearense, e Victor Hugo, francês, esse já o vimos ser citado por Caminha em seus livros anteriormente analisados. Esses são dois indícios da permanência da leitura que fizera Caminha e que estava sendo constantemente citada em sua obra. Barbosa de Freitas foi um dos poetas românticos mais importantes da literatura cearense. Falecido aos 23 anos, publicou D. Juan Cacique. Poema biográfico ou a Epopéia do famoso João dos Santos e Helvecíadas, ambos de 1881. Segundo Sânzio de Azevedo (1976, p.61), deixou inédito o drama Joaquim de Souza, em três atos, escrito em 1877.
Ao tratarmos de Adolfo Caminha como autor-editor, vimos que, nas páginas do jornal O Diário, ele anunciara por diversas vezes a campanha para a publicação do volume intitulado Poesias, de Barbosa de Freitas, a fim de, com o lucro da venda de seus exemplares, dar ao corpo do inditoso poeta um túmulo à sua altura. Desse modo, percebemos a relação entre os dois fazeres, o ficcional e o jornalístico, ambos com Adolfo Caminha em duas atuações distintas, a de escritor, no caso do romance, e a de editor, no caso do jornal, porém, ainda assim, essas atividades supostamente distintas se encontram nos fazeres do autor polígrafo como aqui o procuramos conceituar e se encontram, notadamente, na sua atividade de leitor.
Fiquemos, então, com as situações em que Barbosa de Freitas foi citado no romance A normalista. O poeta aparece em uma conversa entre as personagens João da Mata e o Perneta, que, segundo lemos, "escrevia versos para o Judeu Errante" (Caminha, 1998, p.55) e "era metido a literato" considerava Barbosa de Freitas como o único poeta cearense verdadeiramente inspirado. E ao assim referir-se ao poeta o comparou a Victor Hugo:
Esse [Barbosa de Freitas], sim, cantava o que sentia em versos
magistrais, dignos de V. Hugo. Conhecera-o pessoalmente. Um
boêmio! Fazia gosto ouvi-lo! Que eloqüência, que verve, que
talento! Sabia de cor muitas poesias dele, mas nenhuma se
comparava ao Êxtase, "esse poema de amor", que valia por
todas as poesias de Juvenal Galeno. (ibidem)
O poema" Êxtase" a que se refere a personagem é este:
Quando às horas silentes da noite,
Doce flauta descanta no ar,
Quando as vagas soluçam baixinho
Sobre a praia que alveja o luar!...
Solta o vate das cordas da lira
Mil canções deleitosas, d'amor
Que se orvalham nos puros fulgores
Do luar que inebria o cantor...
Sobre as cândidas vestes da brisa
Que se imerge no bosque sombrio,
Manda o vate canções deleitosas
Que se espalham nas ondas do rio.
E as donzelas que escutam de longe
Sentem gozo, porém de matar!...
E o cantor que soluça seus trenos
De saudade lhes manda um adeus!...
Em presença dos astros que dormem
Sob as brumas cerradas dos céus!...
E as donzelas saudosas suspiram
Para o lado que foge o cantor...
E lhes mandam mil beijos na brisa
Mil suspiros banhadas de amor
Maranguape, 1876. (Freitas, 2004, p.15)
Nessa citação, dois poetas cearenses foram nomeados: o primeiro foi Barbosa de Freitas, boêmio, morto jovem; o segundo, Juvenal Galeno, que, à época, já era o patriarca da poesia do Estado. Sânzio de Azevedo (1976, p.27) afirmou a propósito dos dois poetas aqui citados:
Podemos assim situar o início do nosso [cearense] Romantismo
em 1856, data da publicação, no Rio de Janeiro, dos Prelúdios
Poéticos, de Juvenal Galeno, embora, na opinião de Antônio
Sales, seus versos ainda mostrassem características
neoclássicas. Depois viriam, além das produções regionalistas
de Galeno, os poemas byronianos de Joaquim de Sousa e de
Barbosa de Freitas magnificados por um sopro condoreiro, além
do legítimo Condoreirismo dos chamados Poetas de Abolição
(Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa e Antônio Martins).
Dois tipos de literatura, portanto, ainda que ambos sejam românticos, se conformaram de modo diferentes pela postura de seus autores na fala da personagem de Caminha. Lembremos também que o poeta francês Victor Hugo já fora citado na análise de livros anteriores de Adolfo Caminha. O fato de estar presente em A normalista reforça, de certo modo, a permanência do resultado da leitura de sua obra por Adolfo Caminha. Mas não foi essa a única vez que Victor Hugo foi citado no romance em causa. Sempre o poeta é retomado com o fim de comparar-se a ele uma personagem que se lançava nas letras locais como foi o caso do Castrinho, como podemos constatar no trecho a seguir, parte de uma conversa desse com a personagem José Pereira: "Tens talento como um bruto, menino. Olha que quem escreveu isto vale o que escreveu, caramba! Continua, Castrinho, continua, que ainda há de vir a ser um grande poeta. Desta massa é que se fazem os Byron e os V. Hugo..." (ibidem, p.77).
Vemos pela citação desse trecho do romance que são apresentados como modelos de poesia os poetas George Gordon Byron, um dos nomes mais importantes do romantismo inglês, e o igualmente romântico, porém francês, Victor Hugo. Obviamente que há nessas comparações e modelos uma certa ironia, uma vez que o romance de estreia de Adolfo Caminha é marcadamente naturalista, o que se não o coloca como opositor do romantismo de modo programático, ao menos o expõe a uma situação conflitante entre as diversas estéticas reinantes naquele período como já bem o afirmara Afrânio Coutinho.
Também da galeria dos poetas românticos encontramos citado em A normalista o poeta Álvares de Azevedo, a ele fora comparado novamente o já citado poeta Barbosa de Freitas: "Os Álvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas são gênios que aparecem de século em século, como certos cometas no céu da literatura!" (Caminha, 1998, p.56). Antes, Barbosa de Freitas fora comparado a Luís de Camões: "– Pois é isto, continuou o Perneta. O pobre Barbosa de Freiras acabou como o grande Luís de Camões na enxerga dum hospital, e nisto, penso eu, está a sua maior glória" (ibidem). Em ambos os casos, vemos que Barbosa de Freitas está, na economia da narrativa de A normalista, entre os grandes nomes da poesia de língua portuguesa. Entre a poesia portuguesa, representada pelo seu maior nome, e a poesia brasileira, representada por Álvares de Azevedo.
Jules Verne, que já o encontramos citado em No país dos ianques, de forma indireta, agora, em A normalista, o encontramos nomeado diretamente em uma situação da vida escolar de Maria do Carmo. A leitura de sua obra fora recomendada às alunas da Escola Normal pelo professor Berredo, de Geografia:
E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a
pregar a moral, explicando a vida e costumes dos selvagens da
Nova Zelândia, citando JúlioVerne, cujas obras recomendava às
normalistas como um "precioso tesouro de conhecimentos úteis
e agradáveis". – Lessem Júlio Verne nas horas de ócio; era
sempre melhor do que perder tempo com leituras sem proveito,
muitas vezes impróprias de uma moça de família.
Vá esperando... murmurou a Lídia.
Eu estou certo – dizia o Berredo, convicto – de que as senhoras
não lêem livros obscenos, mas refiro-me a esses romances
sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas
historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam
absolutamente cousa alguma e só servem de transformar o
espírito às incautas... Aposto em como quase todas as
senhoras conhecem a Dama das camélias, a Lucíola...
Quase todas conheciam.
...Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos...
Tomou um gole d'água e continuando:
– Nada! As moças devem ler somente o grande JúlioVerne, o
propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao centro da
Terra, Os filhos do capitão Grant e tantos outros romances úteis
e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de
conhecimento práticos... (ibidem, p.65-6)
Nessa citação, vemos que a leitura de JulesVerne é sobreposta à leitura dos românticos, cujos exemplos citados são Lucíola e A Dama das Camélias, que já encontramos outras vezes nos livros de Caminha, quando ele citara, por exemplo, as leituras de Hector Malot e Alencar, feitas, ambas, por Maria do Carmo. Assim, entre mudança e permanência, vamos tendo uma ideia do que pode ter sido a biblioteca de Caminha; ora os livros românticos constituem uma personagem, conformam a sua presença na narrativa ficcional, ora esses mesmos romances servem para exemplificar o embate entre estéticas que eram então vigentes naquele período. Destacamos o fato de esses títulos serem citados em uma cena escolar, o que evidencia a necessidade de uma nova aprendizagem a partir da leitura. Como bem lembra Sânzio de Azevedo, nas notas que escrevera para a 13ª edição de A normalista, em ambos os romances – Lucíola e A Dama das camélias – a protagonista é uma meretriz. Esse fato é também o indício de que algo estaria por acontecer com alguma das alunas presentes na sala de aula do professor Berredo.
É notório o tom de recomendação e reprovação moral que aqueles romances podiam suscitar nas suas leitoras. A fala implícita do narrador onisciente: "Quase todas conheciam", permeando a relação entre as alunas, o professor e os leitores do romance, demonstra que a leitura daqueles títulos citados por Berredo era mais comum do que se imaginava ou ainda era tão comum que até o próprio professor, dado ao tom de ironia da sua fala –" Estou certo – dizia o Berredo, convicto – de que as senhoras não lêem livros obscenos..." – o sabia. Mas é notória, também, a presença da ciência como nova formadora da educação das jovens. A leitura de Jules Vernes indicava como que esse novo caminho, essa nova possibilidade: a ciência governaria a formação dos sentidos e do comportamento, por isso o destaque da funcionalidade daquelas leituras para a vida das personagens. Quanto à presença de Jules Vernes nas leituras de Caminha, afirmou Maria Letícia Guedes Alcoforado (1982, p.65):" É o espírito da época que se reflete aí, a preocupação cientifica que dominava o século XIX e que se traduz na admiração por aquele escritor".
Aos romances a que chama de obscenos ele opõe como alternativa, mas também reprovável segundo os seus critérios, os romances que chamou de "história fúteis de amores galantes", talvez referindo-se a um subgrupo de romances que circulavam com mais espontaneidade entre as jovens que não aqueles saídos de mãos de autores distinguidos pelo valor artístico alcançado, mas pela longas tiragens de suas edições. Talvez fosse o caso de lembrar aqui de romances como Elzira, a morta virgem, de Pedro Ribeiro Viana, cuja primeira edição é de 1883, ou Maria, a desgraçada, de Alfredo Elisiário da Silva. Ambos alcançaram um grande número de edições. Em 1898, Maria, a desgraçada alcançava a oitava edição e era mais um dos sucessos do editor Pedro Quaresma da Silva. Eram esses exemplos de "romances de sensações" como os classificou Alessandra El Far (2004).
Talvez o professor Berredo estivesse mesmo referindo-se a títulos como O primo Basílio que figurava nos jornais cariocas na seção dita" Leitura para homens", como encontramos no anúncio da Livraria Cruz Coutinho, publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, no dia 17 de julho de 1894. Junto com aquele romance de Eça de Queiroz encontramos os seguintes títulos: Gotas de amor; Sensuaes; A amante de Jesus; Coccotes e conselheiros; Colleção da biblioteca picante; A carne, de Júlio Ribeiro, que já o vimos citado por Caminha, em No país dos ianques; Thereza Philosopha; Amar, gozar e morrer e tantos outros do tipo.
A construção das personagens de Caminha sempre pareceu exigir de suas leituras. É o caso, por exemplo, do já aludido José Pereira, comparado com a rã de uma das fábulas de La Fontaine:
Cedo José Pereira começou a inchar como a rã de La Fontaine
e a julgar-se, com efeito, um grande escritor, "um talento"
capaz, olá! muitíssimo capaz de fazer as delícias de qualquer
sociedade inteligente e ilustrada. Daí certo ar autoritário, certa
prosápia que ele afetava em toda a parte, dizendo-se
contemporâneo de Rocha Lima"," amigo de Capistrano de
Abreu"; certo aprumo pedante que não condizia com a sua
velha sobrecasaca de diagonal cujo estado incomodava
deveras a sociedade cearense. (Caminha, 1998, p.71)
A rã a que se refere o narrador do romance A normalista é a da fábula "A rã que quer ser gorda como o boi", de Fábulas, de 1668, de La Fontaine. Assim caracterizado, José Pereira queria ser mais do que o que era de fato. E, para melhor caracterizá-lo, não faltam a própria personagem recorrer a Rocha Lima e a Capistrano de Abreu, ambos daquela geração que ficou conhecida como a Geração de 1870 e da qual já no ocupamos.Vale destacar também o fato de que o narrador comparar José Pereira a um animal, mais precisamente um anfíbio, de aspecto não agradável. Já a própria personagem compara-se a pessoas, mas não a pessoas da ficção como as demais personagens, mas a pessoas que existiam de fato, dando, assim, o efeito da referencialidade para conceituar-se como escritor e homem de letras do mesmo peso que aqueles citados: o historiador Capistrano de Abreu e o crítico literário Raimundo Antônio da Rocha Lima. Trata-se de um recurso de alinhamento entre ficção e realidade ou de mais uma representação a título de comparação do que existia na realidade com o que existia na ficção.
Não foram, porém, somente esses os elementos usados para construir a personagem José Pereira. As suas leituras também são trazidas à cena:
Nesse tempo o redator da Província ainda era calouro em
política. Dava seu voto e mais nada. A literatura é que o
absorvia. Um livro novo era para ele a melhor novidade; caísse
embora o ministério, rebentasse uma revolução, ele
conservava-se a ler, virando páginas, devorando a obra como
um alucinado, defronte do abajur de papelão, no seu modesto
gabinete de escritor pobre. Conhecia Dumas pai de cor e
salteado; fora o seu primeiro "mestre". Depois entregou-se a ler
Os miseráveis, declarando-se hugólatra incondicional em uma
apreciação que fizera do grande poeta. O artigo concluía desse
modo:
"Victor Hugo é o Cristo da legenda transfigurado em profeta
moderno. Ele é todo o século. Tudo nele é grande como a
natureza. Os miseráveis são a apoteose de todas as misérias
humanas. Victor Hugo, o Mestre, é o Sol da Humanidade.
Amemo-lo como a um Deus!"
Vemos que a leitura de José Pereira transborda para a escrita, e mais uma vez Victor Hugo foi citado na obra de Caminha. Já o encontramos em Voos incertos (primeiras páginas) a quem Caminha dedicara um poema por ocasião de seu falecimento. Essa é, portanto, mais um indício de permanência do conjunto de leituras que parece ter realizado o autor em causa. O exagero como marca de caracterização da personagem José Pereira também transbordou da leitura para a escrita. A conclusão a que chegou em seu artigo sobre Victor Hugo e Os miseráveis é um exemplo do que afirmamos.
Ainda como exemplo de indício de permanência de leitura encontramos mais duas referências à obra de Balzac. A primeira é uma referência indireta, quando numa conversa entre o Zuza e o José Pereira, esse o aconselha a namorar a Maria do Carmo sem a intenção de casar, afinal ela era, nas palavras do editor da Província," uma pobretona":
– Mas é uma pobretona, filho. Aquilo é para a gente namorar,
encher de beijos e – pernas pra que te quero! És muito calouro
ainda nisso de amores. Aproveita a tua mocidade, deixa-te de
pieguismo, menino. A vida é uma comédia, como lá disse o
outro... (Caminha, 1998, p.74, grifo nosso)
Essa parece-nos ser uma referência indireta a A comédia humana, de Balzac, nomeada na citação acima como "o outro". Encontraremos Balzac uma outra vez, logo no parágrafo seguinte a esse, no entanto ele está nomeado diretamente:
Então o Zuza, acendendo um cigarro, disse que estava
aborrecido de mulheres que se entregam facilmente. Em
Pernambuco namorara a filha de um barão e, se não fosse
esperto, àquelas horas talvez estaria às voltas com o minotauro
de que fala Balzac. Era uma rapariga esplêndida, mas tão
depravada, tão impoluta que acabou fugindo com um jóquei do
Prado Pernambucano, um negro! (ibidem, grifo nosso)
Para Maria Letícia Guedes Alcoforado (1982, p.67), "A obra do escritor francês [Balzac] que sugeriu a Caminha essa comparação é La physiologie du marriage na qual é analisado o problema do marido enganado pela mulher". Segundo o Dicionário de mitos literários, o mito do Minotauro foi aos poucos, nos séculos XIX e XX, assumindo conotações diversas entre elas destaca-se a traição conjugal:
Na França, o registro seria de preferência o da licenciosidade
vaudevillesque; criou-se um curioso verbo "minautorizar" no
sentido de "chifrar", passar para trás o marido; como se na
história toda o personagem mais envolvido e mais importante
fosse finalmente Minos. Dessa maneira, o adultério não parece
inteiramente estranho à monstruosidade, tendo-se mesmo a
impressão de que sob a capa mitológica esconde-se um
sentimento mais geral de uma espécie de culpa animal ligada à
sexualidade, especialmente à sexualidade feminina.
Encontramos este verbo na pena de Balzac e de Baudelaire.
(Brunel, 2000, p.647)
Vemos, assim, que Zuza referia-se claramente ao fato de ser traído pelas mulheres que ele chamou de depravadas, aquelas que se entregavam fácil, no seu dizer.Vemos que a sua namorada pernambucana era uma mulher rica, filha de barão, o que justificaria a sua escolha por Maria do Carmo, uma vez que, para ele, era preciso casar, "mas, casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira" (Caminha, 1998, p.74). Logo, Zuza foi advertido pelo José Pereira:
É o que tu pensas, retorquiu o outro. Hoje não há que fiar em
moças, pobres ou ricas. Todas elas sabem mais do que nós
outros. Lêem Zola, estudam anatomia humana e tomam cerveja
nos cafés. Então as tais normalistas, benza-as Deus, são
verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócios de
namoros. Sei de uma que foi encontrada pelo professor de
história natural a debuxar um grandíssimo falo com todos os
seus petrechos. (ibidem, grifo nosso)
Vemos que, para José Pereira, a leitura de Zola faz parte de sua definição de mundo, que também já havia sido citado em Judith, mais especificamente quando o narrador se referiu à personagem Edmundo, leitor de Nana, também de Émile Zola. Em ambos os casos, a leitura conforma as personagens, atuam na sua criação, que não se dá de todo no princípio da narrativa, mas no seu desenvolvimento.Vemos, desse modo, que, aos poucos, Zola começa a aparecer na ficção de Caminha, o que já encontramos em seus artigos de crítica literária como veremos adiante.
Em A normalista, encontramos mais referências a poetas, aos principais poetas do parnasianismo, como o foram Olavo Bilac e Raimundo Correia. Ambos, ao lado de Alberto Oliveira, formaram a tríade de melhores poetas dessa estética literária no Brasil. Mas por que os dois poetas foram citados no romance em causa? Mais uma vez o objetivo é conformar a personagem Castrinho, mais um escritor a constar na narrativa do romance que ora analisamos: "Um jornal do Sul – O Cometa – comparara-o até a Olavo Bilac e a Raimundo Correia" (ibidem, p.76).
Assim, são recorrentes as vezes que os escritores da província e da capital são comparados. Desse modo, temos o exemplo de como a capital do Império, pois ainda nesse ponto do romance não havíamos chegado à República, era o centro para o qual, de algum modo, se voltavam os escritores do país e, notadamente nesse caso, os cearenses, a maioria deles insulados na província. Vemos que, no meio dessa citação, há a referência a um jornal do Sul do país como mais um exemplo de que era preciso ser reconhecido não somente no local, mas na outra região, uma vez que a separação do Brasil em Norte e Sul era bastante recorrente.
Ombreado aos dois parnasianos, Castrinho sentiu-se à vontade para atacar o seu adversário, que o acusara de plagiador, conceituando-o como copiador de um poeta romântico, Lamartine, já aqui citado quando analisamos o conto "Lágrima de um crente", em que a personagem cita o seu romance Raphaël. Disse o Castrinho: "Hei de convencer ao zoilo do Cearense, por a+b, que ele é quem é o plagiador, o invejoso, o ignorante, a besta, e eu o poeta, consciencioso e moderno que não se limita a cantar Elviras e a copiar Lamartine" (ibidem). Segundo Sânzio de Azevedo, em notas que preparou para a 13ª edição do romance de Caminha, vemos nessa citação uma referência ao livro Meditações poéticas, de Lamartine, publicado em 1820, em que o poeta francês dirigia os seus versos a uma mulher chamada Elvira, daí a referência a seu nome.
Com a mesma ideia de conformar o retrato da personagem, tornando-a bastante nítida, como era o objetivo do naturalismo a partir do ideal de verdade que professava, encontramos semelhante recurso, isto é, o uso de autores e leituras realizadas pelas personagens, no caso de Zuza. Há nas narrativas ficcionais de Adolfo Caminha certa obsessão por descrever o quarto das suas personagens, como já o vimos, por exemplo, no conto" Lágrimas de um crente" no caso da personagem Edmundo. É sempre nesses lugares mais privados das casas onde moram as suas personagens que as encontramos lendo ou de algum modo convivendo com a literatura ou figuras a ela relacionadas. Assim também sucedeu com o Zuza, assim sucedeu com Amaro, do Bom-Crioulo, que convivia no seu pequeno quarto nos altos da casa de Dona Carolina com o retrato do imperador D. Pedro II. Assim também o fora com Maria do Carmo, que no seu pequeno quarto lia às escondidas O primo Basílio.
Fiquemos, porém, por ora, em companhia do Zuza e do seus livros e retratos. Na sua cabine à coucher, como diz o narrador do romance, na casa do coronel Souza Nunes, encontramos:
litografias encaixilhadas de homens célebres e o retrato de
Gambetta na postura habitual em que o grande orador falava ao
povo. Em política era o seu ídolo, dizia o estudante, e no auge
do entusiasmo colocava-o acima de Mirabeau. Em cima da
mesa números avulsos da Revista Jurídica confundindo-se com
jornais ilustrados [...]. Tal o" gabinete" do Zuza, o seu remanso
de estudante cuidadoso. (ibidem, p.79)
Nessa citação temos duas referência a políticos franceses. O primeiro é Léon Gambetta, que participou de alguns dos acontecimentos da vida política francesa na segunda metade do século XIX, entre eles a queda do imperador e a o início da III República. O Dicionário crítico da Revolução Francesa o registra ao lado de Ferry como um dos fundadores da citada III República (Furet & Azouf, 1989, p.971). O outro político é Mirabeau, na verdade, o conde Honoré Gabriel Riqueti Mirabeau, que inicialmente fora um escritor de obras consideradas licenciosas como Erotika Biblion e Ma conversion, ambas de 1782, além de inúmeros volumes de cartas. Destacou-se no cenário político francês da época pelo seu talento oratório e sua inteligência política. No Dictionnaire des littératures de langue française lemos a respeito da oratória de Mirabeau:" Il est généralement admis qu'il fut le plus
grand orateur d'une période riche em talents oratoires 18 ". Vemos que são exatamente a capacidade política e a oratória as características que Zuza sobressalta dos dois políticos franceses. Há ainda uma referência à leitura de um periódico da área de Direito: a Revista Jurídica, que não sabemos se de fato existia com esse nome ou se fora "criada" para o romance.
Os indícios de leitura de Zuza, porém, não são apenas esses. Ao lado deles, encontramos o jovem estudante de Direito lendo Casa de pensão, romance de Aluísio Azevedo, publicado em 1884 e considerado um dos títulos importantes do naturalismo brasileiro. À leitura desse romance pela personagem Zuza ainda se fará referência em mais duas ocasiões. Ainda da personagem Zuza, vale destacar a sua aversão à literatura portuguesa, mesmo no caso dos escritores naturalistas ou dos nomes daqueles que fizeram parte da chamada Geração de 1870 em Portugal, como deu a entender o narrador de A normalista: "O estudante, porém, nunca passara a vista sequer num romance de Eça ou numa crítica de Ramalho" (Caminha, 1998, p.80). Nesse caso, o narrador parece demonstrar a inconsistência da opinião de Zuza que assim se expressou a respeito da literatura portuguesa:
Preferia um churrasco à baiana ao tal Sr. Camilo Castelo
Branco, um sujeito inimigo do Brasil, que não perdia ocasião de
nos ridicularizar. De Portugal, Camões exclusivamente, isso Assim, Maria do Carmo, que tinha consigo "a certeza que estava para ser mãe" (idem), só desejava que o pequeno, menino ou menina, se pareça com o presidente da província. Ainda no último baile em palácio não tirei os olhos deles" (ibidem). Sabendo que o filho não era do Zuza e sim de João da Mata, a protagonista desejava que o rebento parecesse com um outro, certamente por ser esse bonito e bem posicionado socialmente como vimos. No caso, o presidente da província era o paulista Dr. Castro, que, segundo Sânzio de Azevedo (1999, p.81), "na época em que se desenrola o enredo do romance, era o paulista Caio Prado". Do Dr. Castro, de quem Zuza era amigo íntimo, dizia-se "que também pertencia a uma alta linhagem de fidalgos de São Paulo e fora educado na Europa: um rapagão alegre, amador de cavalos de raça, ilustrado e amigo das mulheres" (Caminha, 1998, p.44).
mesmo isso mesmo porque o grande épico era uma glória
universal". (ibidem)
Encontramos em A normalista mais indícios das leituras que Adolfo Caminha teria feito dos poetas românticos. De uma só vez, são feitas referências aos poetas Castro Alves, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. Novamente esses nomes são mencionados em razão de compor a personagem do próprio romance de Caminha: o alferes Coutinho, ele mesmo que, como já o sabemos, irá noivar com Maria do Carmo. É o alferes que se diz "pertencer à falange de Castro Alves, Casimiro de Abreu eVarela e tantos outros astros de primeira grandeza que brilham no firmamento da poesia brasileira" (ibidem, p.113). Modéstia à parte, nessa cena o alferes recita de sua lavra um poema intitulado Noite de núpcias, cabível para a situação, pois estava na cerimônia de casamento da Campelinho com o Loureiro. Trata-se, portanto, de mais uma personagem escritora.
Assim como a indicação feita pelo professor Berredo das obras de JulesVerne para as alunas da Escola Normal significava uma preocupação com a ciência, encontramos em A normalista mais outros indícios de leitura que reforçam essa ideia. Trata-se da referência a uma obra a respeito do casamento, para o qual já não bastavam mais os valores românticos, mas era necessária uma formação científica a fim de dar aos nubentes e futuros cônjuges melhor conhecimento para a procriação filhos saudáveis. Assim, foi citada a obra: Fisiologia do matrimônio, de August Debay, e mais precisamente o seu capítulo "Da calipedia ou arte de procriar filhos", que Lídia Campelo, a melhor amiga de Maria do Carmo, lia em companhia dessa:
Lídia explicou tudo minuciosamente: a suspensão das regras,
os antojos, as dores na madre e, finalmente, os primeiros
movimentos do feto no útero. Depois leram junto a Fisiologia do
matrimônio, de Debay, que o Loureiro tivera o cuidado de
comprar, especialmente o capítulo – Da calipedia ou arte de
procriar filhos, o mais importante na opinião da esposa do
guarda-livros. (ibidem, p.134)
É preciso também considerar que a citação dessas obras de cunho científico a respeito da vida conjugal e da formação da família alinhava o romance de Caminha com os pressupostos defendidos por Émile Zola ao transpor do conhecimento científico para a literatura, e em especial para o romance, os conceitos e compreensão que naquela área passava-se a fazer corrente. Assim, é preciso lembrar aqui do Romance experimental, escrito por Zola e publicado em 1880, no qual ele já trazia clara a sua adesão às ideias de Claude Bernard e a crença na atuação da fisiologia como um elemento importante na constituição dos indivíduos e das personagens, atuação essa que, por meio da hereditariedade, era dada como de herança de um a outro da mesma família. Os casos de exceção eram aqueles em que entravam em cena as interferências do meio e do momento, conceitos que também atravessavam a compreensão dos homens de letras naquele final de século no Brasil.
A transmissão genealógica do comportamento a encontraremos em um trecho do romance A normalista, justamente no capítulo em que Zuza é apresentado aos leitores:
"Cada qual com o seu igual", doutrinava o coronel. O que não
admitia é que o filho se metesse com gente de laia ruim, que
ele coronel, nunca descera de sua dignidade para tirar o
chapéu ou apertar a mão de indivíduos que não tivessem uma
posição social definida. Aprendera isso em pequeno com o pai,
o finado desembargador Souza Nunes, homem de costumes
severos que sabia dar aos filhos uma educação esmerada,
quase principesca. O Zuza, dizia ele, não era mais do que uma
vergôntea digna desse belo tronco genealógico dos legítimos
Souza Nunes, tão nobres quanto respeitados no Ceará.
(ibidem)
Já a expressão "Cada qual com seu igual", pronunciada pelo pai de Zuza, deixa clara a crença na separação de classes por ordenação genealógica, crença que se torna mais presente na última frase do parágrafo em que Zuza é considerado uma vergôntea daquele tronco genealógico, isto é, o filho mais jovem, o descendente de menor idade. Não parece ser acaso o uso dessa palavra – vergôntea –, uma vez que ela também é usada na linguagem das ciências botânicas e da Marinha. No caso da primeira, designa o ramo mais fino de uma árvore ou arbusto, o equivalente a broto; no caso da segunda, é a peça de madeira de formato próprio para dela fazerem-se mastros e vergas, ou seja, uma das partes principais das embarcações sem a qual é impossível navegar. Assim, Adolfo Caminha traz do léxico da ciência e da sua própria experiência de trabalho o vocabulário específico para a situação em cena. Não parece ser também acaso que em parágrafos após esse leremos a respeito de Maria do Carmo e, em seguida, a respeito do seu relacionamento com o Zuza:
O Zuza era incapaz de semelhante criancice; um rapaz de certa
categoria não se deixa iludir por um simples normalista sem eira
nem ramo de figueira, uma rapariga sem juízo, filha de pais
incógnitos, educada em casa de um amanuense reles. Quem, o
Zuza? Pois não viam logo a monstruosidade do absurdo? Era
uma calúnia levantada ao filho. Que esta! Não faltava mais
nada senão ver o nome do rapaz em letra redonda estampado
na Matraca, um jornaleco imundo como uma cloaca! (ibidem,
p.45)
Assim, não parece ser coincidência que Adolfo Caminha não faça uso de uma forma mais corrente daquele ditado – sem eira nem beira – como, aliás, consta na edição do seu romance organizada por Sabóia Ribeiro, como o afirmou Sânzio de Azevedo em nota que fizera na edição que organizou do romance, que vai aparecer nos capítulos VIII e XII, ou seja, trata-se aqui de um uso bastante funcional para o sentido que Adolfo Caminha deu à cena em que ocorre a não aceitação do namoro de Zuza e Maria do Carmo por parte do coronel Souza Nunes. Assim, parece-nos que o vocábulo não foi usado ao acaso, o que exige uma acurada atenção de quem se dedique a fazer esse tipo de investigação do texto literário.
Podemos afirmar, então, que são das leituras de Adolfo Caminha e da sua experiência na Marinha que surgem não somente o vocabulário de seus romances, ele também, é claro, pois é o modo próprio da literatura de dizer-se, mas surge das leituras os conceitos que usa, e usar, nesse caso, significa escrever, significa entremear leitura e escrita, ações tão necessárias para o autor e em especial para o autor polígrafo como o defendemos; surgem das suas leituras os conceitos que estão nos seus livros, seja de forma clara, transparente, nomeada, referenciada, e aqui estamos falando mesmo do referente, essa parte dura da palavra que se encontra grafada na página, essa parte agora lemos, seja de forma trabalhada e nesse trabalhar vai toda a sua atuação como autor, por esse motivo o tratamos aqui como um autor-leitor ou por que não dizer um leitor-autor.
Também destacamos o fato de que a leitura de títulos como a Fisiologia do matrimônio deu aos autores a possibilidade de instaurar a representação de um novo modo de vida. Como já dissemos, não bastava amar e casar por amor, como o defendiam os românticos, José de Alencar um deles, quando, por exemplo, encontramos em romances como Lucíola e Senhora a reprovação das uniões por interesses outros que não o amor romântico ou cortês, também já não era preciso somente educar os sentimentos, numa alusão nossa à Educação sentimental, de Flaubert. Era preciso educar os corpos, destiná-los a melhor procriação possível, mas não aquela ditada pelos moldes da religião, mas pelos novos moldes da ciência como também já se defendera, no romance em causa, os novos moldes da educação, de preferência a educação laica à religiosa.
Ainda sobre a presença do livro A fisiologia do matrimônio no romance A normalista, já vimos que Maria Letícia Guedes Alcoforado (1982) o dá como sendo não de Debay, mas de Balzac, porém, é ainda Maria Letícia que aponta a solução para talvez esse engano de Caminha ao ter possivelmente trocado um autor pelo outro. Diz-nos ela:
Entretanto, acreditamos que seria mesmo a uma obra de Debay
que ele [Caminha] queria referir-se. Médico francês. Auguste
Debay tornou-se conhecido por algumas obras de vulgarização,
relativas à higiene, ao magnetismo, etc. Entre elas está Hygiène
du mariage que também se adaptaria à situação criada por
Caminha. (ibidem, p.66)
Foi também Maria Letícia Guedes Alcoforado que nos deu a certeza de que Caminha conhecia aquele livro de Balzac, e que possivelmente se enganara trocando os nomes dos autores e obras, dando como fonte dessa sua leitura o seu conto "O Minotauro". Nas três versões existentes do conto, às quais aqui já aludimos rapidamente, é clara essa indicação. As versões que citaremos aqui, na ordem em que foram dispostas no volume intitulado Contos, são as seguintes: 1 Publicada em A Revista do Norte, anoV, n.4, dezembro de1905; 2 Publicada em O Album, Ano 1, n.27, Segunda Série, de julho de 1893, páginas 212-213; 3 Publicada na Gazeta de Notícias, de 27 de janeiro de 1894, página 1. Em todas essas versões lemos que A fisiologia do casamento é de Balzac. Também lembramos que, antes de falecer, Caminha estava traduzindo o teatro de Balzac, como deu a entender nas páginas pretextuais da primeira edição em livro de suas Cartas literárias nas quais lemos após o rol de suas obras já publicadas o títulos daquelas que estaria a preparar ou estariam no prelo: "A SEGUIR Pequenos contos. O Theatro de Balsac. Duas história".
Os indícios de leitura de obras não ficcionais, porém de importante valor para a constituição da trama narrativa, são encontrados no romance A normalista. Para concluir a abertura deste pacote da biblioteca de Caminha, citamos os nomes de Herbert Spencer e Johann Heinrich Pestalozzi. O primeiro foi um dos principais nomes do evolucionismo, filosofia que marcou fortemente os homens de letras no Brasil do final do século XIX. Já o segundo, suíço de nascimento, influenciou fortemente o ensino criando um método que ficou conhecido pelo seu sobrenome. São de Pestalozzi os seguintes títulos: As horas noturnas de um ermitão, de 1780; Leonardo e Gertrudes, de 1781, com o qual saiu do anonimato, e Como Gertrudes ensina suas crianças, de 1801, no qual expôs o seu método de ensino.
Foram das ideias de Spencer e Pestalozzi que a Escola Normal, para onde Maria do Carmo voltou após perder o seu filho, se valeu para renovar-se:
O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em educação física, educação intelectual, educação nacional ou cívica, educação religiosa... pelos moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o horário das aulas tinha sido alterado, havia uma escola anexa de aplicação, estava tudo mudado! (Caminha, 1998, p.174)
Vemos, desse modo, que mais uma permanência pode ser constatada nesse arrolamento dos indícios de leitura de Adolfo Caminha presentes no conjunto de sua obra e, mais especificamente, no caso do romance em causa: trata-se da sua preocupação em alinhar a sua ficção ao conteúdo norteador das ideias naturalista, ou seja, no centro de suas preocupações parece estar a relação tecida pelos naturalistas entre literatura e ciência, relação essa que melhor diferenciou essa estética literária das demais então correntes. A preocupação sempre presente com o método, um novo modo de fazer associado a um novo modo de vida, de ser e de estar parece atravessar toda a trama narrativa do romance A normalista. Esse novo modelo fora então fundamentado na ciência e já não mais somente nos valores românticos até então vigentes.
Assim, concluímos a abertura de mais este pacote da biblioteca de Caminha, ou melhor, daquilo que dela é possível conhecer a partir da recolha dos indícios de leitura que na sua obra ele foi deixando à medida que escrevia. Assim, voltamos a defender a ideia de que na constituição do conceito do autor polígrafo como aqui o temos compreendido consideramos também as leituras que Caminha realizou ou pareceu realizar.
Quinto pacote
Passamos, então, a conhecer o conteúdo de mais um pacote da biblioteca de Adolfo Caminha. Este traz na etiqueta o título do segundo romance do autor: Bom-Crioulo, de 1895. Achamos sempre bom, antes de desatar os fios que enlaçam o conteúdo de cada pacote, sabermos do que se trata, o que nos diz o nome sobre a sua etiqueta de identificação. Bom-Crioulo narra a história de amor entre dois homens. É, portanto, um dos primeiros romances a tratar abertamente do homoerotismo masculino na literatura de língua portuguesa. Antes de sua publicação só encontramos referência a esse tema em O barão de Lavos, do português Abel Botelho, publicado em 1891. No Brasil, já temos a representação do homoerotismo feminino nos romances O cortiço, de Aluísio Azevedo, com o caso entre Léonie e Pombinha, e em A normalista, do próprio Adolfo Caminha, em cena na qual a Lídia Campelo ensina à normalista como Luísa e Basílio, personagens de O primo Basílio, tomavam champagne.