Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Adolpho Lutz · Capítulo 9 de 32

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Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Sobre uma nova doença observada no Brasil

Sobre uma nova doença observada

no Brasil *

 

Dr. Lutz, Brasil. Exposição resumida

O autor teve a oportunidade de observar, na província brasileira de São Paulo (arredores de Limeira), 23 casos de uma doença não identificada com nenhuma até agora descrita. Dois desses casos diziam respeito a meninas de 13 e 7 anos, os demais a crianças pequenas, entre 1 e 5 anos de vida, tanto de raça branca como negra; os casos ocorreram quer esporadicamente quer em pequenos grupos. Os sintomas consistem em afecção catarral da mucosa gastrintestinal, que se manifesta sob a forma de vômitos e diarréias; adoecimento análogo dos órgãos respiratórios, que leva a rouquidão e tosse e que se combina freqüentemente com coriza e conjuntivite catarral; edema cutâneo, ao qual se pode associar ascite; e, finalmente, uma singular dermatite. Esta surge em forma de eritema, que atinge, de preferência, as partes relativamente mais dependentes, mas que pode, pouco a pouco, atingir o corpo inteiro, ora formando apenas pequenas manchas ora cobrindo grandes faixas contínuas da pele. A pele adoecida apresenta inicialmente uma intensa coloração vermelha que desaparece sob pressão; mais tarde, essa coloração torna-se lívida e não some mais quando pressionada; finalmente, a pele adquire uma nuança violeta-escura, marrom ou negra, que é nitidamente perceptível mesmo na pele de negros. Ocorre, então, uma descamação, na maioria das vezes em grandes lascas, mais raramente em escamas menores; a nova epiderme é sensível, sem pigmentação nos negros, e ora reage de forma normal, ora volta a adoecer da mesma maneira. Mais raramente formam-se bolhas, cuja superfície apresenta a mesma coloração; o eritema também pode desaparecer sem que ocorra pigmentação e escamação. Esses processos são acompanhados por elevação da temperatura e podem levar a uma anemia e uma atrofia de alto grau. Não se constata o adoecimento de outros órgãos; a urina permanece sempre isenta de albumina.

Nos casos pronunciados (13 dos 23), foram observados, além da afecção característica da pele, todos ou quase todos os sintomas mencionados; nos dez restantes não se constatou nenhum eritema, tendo sido incluídos aqui em razão da coincidência de local e ocasião da ocorrência, bem como pela semelhança dos outros sintomas.

O curso da doença é lento, estendendo-se por vários meses. Em geral, inicia-se com gastrenterite ou laringobronquite, que nada possuem de singular afora sua persistência. Os edemas costumam surgir somente depois de algumas semanas, e raramente são acompanhados pelo eritema, mas em geral decorrem algumas outras semanas até que ocorra sua erupção.

Por gradativa extenuação, a doença freqüentemente leva à morte, e esta em geral é antecedida por prolongada agonia. Dos 23 doentes mencionados, 10 morreram e 7 seguramente se recuperaram; faltam notícias sobre o desfecho final dos 6 restantes, mas é provável que também estejam curados. É digno de nota os casos de morte terem prevalecido entre as crianças com menos de 2 anos, e os de cura, entre as restantes.

Apesar de a doença aparecer preferencialmente nos primeiros anos de vida, foi observada apenas em crianças que já estavam desmamadas ou recebiam outro alimento junto com o leite materno. Isso indica que a doença tem como causa uma carência alimentar, e a farinha de milho parece ser o alimento mais suspeito, uma vez que se deteriora facilmente. Além disso, esse produto é consumido muitas vezes pelas crianças, em quantidades relativamente maiores que pelos adultos.

Com essa etiologia condiz também o fato de que a doença apresenta razoável semelhança com a pelagra, que sabidamente é causada por consumo de milho estragado. Maior ainda é a coincidência com o Erythema epidemicum ou com a acrodinia, cuja etiologia ainda é desconhecida; entretanto, essa afecção tampouco pode ser identificada com as nossas, já que, até agora, as descrições diferem em pontos essenciais.

* Traduzido de "Über eine neue, in Brasilien beobachtete Krankheit", Monastshefte für Praktische Dermatologie, 1886, v. 5, n. 1, p. 32-3. O trabalho de Lutz foi publicado, junto com outros trabalhos, na seção intitulada "58. Versammlung deutscher Naturforscher und Ärtze in Straßburg 1885" (58a Reunião de Naturalistas e Médicos Alemães em Estrasburgo – 1885). [N.E.]