Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia
Apresentação histórica/Historical introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Apresentação histórica
Historical introduction
Octavio Magalhães. Nova micose humana. Estudo sobre a morfologia e biologia do "Oidum brasiliense", n. sp., agente
etiológico de uma nova moléstia do homem. Memórias do Instituto
Oswaldo Cruz, t.X, fasc.I, p.20-64. Essa estampa (n.12),
parcialmente reproduzida na capa do presente livro, representa a
cultura do O. brasiliense em meio pobre (fig. 7); cultura do
Endomyces albicans (fig. 8); culturas do primeiro fungo em
Sabouraud maltado (figs. 9 e 10); em batata (fig. 11) e em cenoura
(fig. 12).
Octavio Magalhães. Nova micose humana. Estudo sobre a morfologia e biologia do "Oidum brasiliense", n. sp., agente
etiológico de uma nova moléstia do homem. Memórias do Instituto
Oswaldo Cruz, t.X, fasc.I, p.20-64. This image (n.12), partially
reproduced in the cover of the present volume, depicts a culture of
O. brasiliense in poor medium (fig. 7); culture of Endomyces allicans
(fig. 8); cultures of the first fungus in malted Sabouraud (figs. 9 e 10);
in potato (fig. 11) and in carrot (fig. 12).
Adolpho Lutz e a dermatologia em
perspectiva histórica
Jaime Benchimol
No primeiro semestre de 1882, Adolpho Lutz estabeleceu-se, como clínico, em Limeira, importante centro cafeeiro, canavieiro e cerealífero do interior do Estado de São Paulo, então com cerca de quatro mil habitantes e uma expressiva colônia suíço-alemã. De lá, escreveu ao periódico suíço ao qual já relatara a situação do ensino
e da prática médica no Brasil. 1 Preocupado em não perder o vínculo com a medicina européia, expunha, agora, o plano que tinha em mente, de estudo de questões que poderiam ser relevantes para seus pares no Velho Mundo.
Tinha em vista "contribuições à geografia médica" e estudos sobre parasitas, especialmente o Ancylostoma duodenale, "caso o interesse por esses parasitas já não esteja extinto em razão do término do túnel de São Gotardo". Em Limeira, Lutz (1883, p.30) encontrara material muito rico sobre malária e uns raros casos de beribéri:
Reuni, ainda, uma série de observações a respeito da influência
do clima e da raça humana sobre as diversas doenças; em meu
serviço atendo negros, brasileiros, imigrantes alemães,
portugueses e italianos, compondo uma diversidade bastante
grande, que, por conseqüência, proporciona material
comparativo muito interessante.
Embora as relações entre clima, raças e doenças fosse o tema que lhe parecia mais atraente aos europeus, durante o período em que viveu em Limeira – junho de 1882 a março de 1885 – Lutz voltou-se, sobretudo, para os parasitos que causavam males a sua heterogênea clientela, e para os animais com os quais ela convivia. Alargaria, assim, o repertório de patologias que Wucherer e outros membros da Escola Tropicalista da Bahia haviam começado a estudar (Coni, 1952; Peard, 1996), abrindo caminho, também, para o estudo das doenças veterinárias no Brasil.
Em 1885, começou a divulgar os resultados das investigações que viera realizando, com sua característica meticulosidade. Publicou, então, vasto estudo sobre a ancilostomíase – "Ueber Ankylostoma duodenale und Ankylostomiasis" – numa série de artigos veiculados na coleção de lições de clínica médica de Volkman, editada em Leipzig. Esses artigos seriam publicados em português em O Brazil-Medico (1888), na Gazeta Médica da Bahia (1887-1889) e em forma de livro (1888). Lutz examinava o helminto e a doença por ele ocasionada, sob os aspectos histórico e geográfico, morfológico, biológico, clínico, terapêutico e profilático (Deane, 1955). Havia controvérsias sobre o papel dos ancilóstomos na patologia que muitos ainda classificavam como hipoemia tropical (Edler, 1999, 1996), encarando os vermes como conseqüência da doença produzida por fatores climáticos associados à má alimentação, à dormida ao relento e à depressão física, entre outros motivos. Segundo Deane (1955, p.75-6), Lutz confirmou as verificações de Grassi, Leuckart e outros acerca do ciclo de vida livre do helminto, e estudou as condições que favoreciam a evolução do parasita, desde a fase de ovo, eliminado com as fezes do hospedeiro, até a fase de larva enquistada, identificando o hematofagismo do verme adulto, fato então controvertido entre os parasitologistas.
À mesma época (1885-1886), iniciou a publicação dos estudos concernentes ao ciclo do Rhabdonema strongyloides. A descrição (1885) dessa espécie de nematódeo encontrada no porco doméstico é considerada um dos trabalhos fundadores da veterinária no
Brasil,2 e o estudo da estrongiloidíase, a patologia que ocasionava nas comunidades humanas que utilizavam aquele animal como alimento, ainda não havia sido feito no Brasil.
Os artigos que Adolpho Lutz publicou no prestigioso Centralblatt für Bakterologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten, entre 1885 e 1888, a respeito das infestações por esse e outros nematódeos intestinais no homem – ancilostomíase, oxiuríase, ascaridíase e tricocefalose – mostravam que estava em dia com os trabalhos realizados contemporaneamente por Leuckart, Grassi e outros parasitologistas e, ademais, que possuía larga experiência pessoal
acerca dos problemas abordados. 3
Capa do periódico Klinischer Vorträge, editado por Richard von
Volkmann (1832-1892). BR, MN. Fundo Adolpho Lutz. Periódicos.
Em destaque, região de Limeira, Campinas e adjacências onde
Adolpho Lutz clinicou e realizou seus primeiros trabalhos ligados à
dermatologia, medicina veterinária e parasitologia. Carta geral do
Estado de São Paulo. Organizada pela Comissão Geográfica e
Geológica. Engenheiro chefe João Pedro Cardoso. Escala de
1:000000. São Paulo: Weiszflog irmãos, 1908.
Concomitantemente, Adolpho Lutz interagia com outra area emergente da medicina experimental europeia - a dermatologia -garantindo para si, ao faze-lo, a condição tambem de seu pioneiro no Brasil. lngressou no território das doenças de pele e, por conseqüência, dos fungos e bactérias patogênicos, por via principalmente da lepra, que investigaria até o fim de sua vida. Morreu convencido de que era transmitida por culicídeos, o que nos remete a mais uma vertente de sua prolífica carreira científica, a entomologia, tratada em outro livro desta coleção.
Em 1886, Lutz publicou seu primeiro trabalho sobre a doença em Monatshefte für Praktische Dermatologie, uma das mais importantes caixas de ressonância das experiências clínicas e laboratoriais concernentes àquela especialidade médica, na vanguarda da qual estavam os alemães. Lutz conectou-se a ela precisamente no momento em que se instituía como uma das primeiras especialidades médicas autônomas, em capitais de língua germânica e em cidades da França e da Inglaterra que disputavam com elas a hegemonia nessa vertente da medicina clínica e experimental.
Dermatologia, marcos históricos
'Dermologia' e 'dermatologia' foram termos cunhados na segunda metade do século XVIII para designar a constituição da pele e de outras membranas do corpo como objetos de investigação de médicos que se dedicavam à anatomia e à patologia. Em 1792, Henry Seguin Jackson usou, pela primeira vez, as expressões "dermato-patologia" e "caquexiologia dermática e epidermática" para designar um ramo da medicina "por muito tempo e com muita freqüência considerado de importância apenas cirúrgica", e que julgava necessário aperfeiçoar com base numa patologia "artério-muscular", e em conformidade com uma das nosologias disponíveis, a de François Boissier de La Croix de Sauvages (1706-1767), botânico que se correspondia com Linnaeus, e médico que ensinava em Montpellier (Holubar, 1998; Carneiro, 2002, p.37).
Havia outras classificações de doenças, propostas por 'sistematas' da medicina com base em critérios sintomáticos e/ou morfológicos externos: a de Jean Riolan, ainda no século XVII; as do médico parisiense Antoine Charles Lorry (1726-1783) e do vienense Joseph Plenk (1732-1778); e a de Robert Willan (1757-1812), de Londres, que certos autores qualificam como o "fundador da dermatologia" (Carneiro, 2002, p.37).
Carl von Linnaeus, médico e botânico sueco, responsável pela introdução da nomenclatura binominal para designar nomes de
espécies de animais e plantas, e um dos primeiros sistematas do mundo natural. Pintura de Berttonier, acervo da Biblioteca do Museu
Nacional de História Natural de Paris. Grande Enciclopédia Delta
Larousse, 1971, p.4030.
Os tratados médicos publicados no final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX revelaram número crescente de aspectos anatômicos e fisiológicos de órgãos e tecidos, incluindo a pele, que deixava de ser encarada como mero envelope do corpo para tornar-se, também, sede de lesões capazes de explicar processos patológicos.
Marie-François-Xavier Bichat (1771-1802), por exemplo, um dos principais protagonistas do nascimento da medicina clínica, tratou extensamente da anatomia da derme e epiderme, descreveu a influência que sobre elas exerciam o frio, o calor e outros agentes externos, e diferenciou as doenças que penetravam a epiderme intacta (como a peste) das que necessitavam de lesões para fazê-lo, como a raiva. Mas tanto Bichat como outros médicos que estudaram a anatomia da pele e suas reações a variados estímulos consideravam que a maioria dos sinais patológicos aí visíveis eram apenas manifestações de processos orgânicos internos, mais profundos; as poucas doenças de pele atribuídas a agentes locais externos não constituíam uma área à parte no âmbito da medicina.
Os textos que tratam da transformação dessa área em especialidade médica alinhavam, sem muito critério, numerosas referências a personagens que desde a mais remota antiguidade descreveram, com maior ou menor acuidade, doenças visíveis na pele. No começo do século XIX, ganharam densidade as correlações estabelecidas entre essas condições clínicas, descritas, quase sempre, a olho desarmado, e processos patológicos gerais ou específicos.
Paris tornou-se, nesse período, o centro hegemônico da clínica, em geral, e da clínica das doenças de pele, em particular. Ainda que a dinâmica institucional e cognitiva de uma e outra estivessem inextricavelmente ligadas, a geração de conhecimentos relacionados às doenças dermatológicas adquiriu uma localização preponderante, o Hospital Saint-Louis, onde Jean-Louis Alibert (1768-1837) estabeleceu uma clínica voltada para esse tipo de doenças. Em suas aulas, apresentava a árvore genealógica das moléstias de pele, "um dos muitos conceitos, confiantes e complacentes, que caracterizavam a medicina dogmática dos começos do século XIX" (Calder, 1976, p.35, apud Carneiro, 2002, p.36).
O estabelecimento de relações entre a patologia cutânea e o organismo, e o esforço crescente de delimitação de fronteiras entre dermatoses decorrentes de causas externas e as de etiologia interna avançaram por obra dos clínicos contemporâneos a Antoine-Pierre-Ernest Bazin (1807-1878), que levaram ao auge a chamada "escola francesa", mas viveram o suficiente para testemunhar seu eclipse por outros centros médicos situados na Europa Central, onde a dermatologia impôs-se mais rapidamente como especialidade.
A liderança assumida nesse e em outros domínios da medicina por cidades germânicas enredadas na unificação política que daria origem à Alemanha, em 1870, ou que passavam à órbita do novo Estado, deveu-se, em larga medida, a um sistema educacional que favorecia a associação, no âmbito das universidades, da medicina com as ciências naturais, e a aplicação dos métodos de pesquisa desenvolvidos no âmbito destas ao estudo das doenças.
Em meados do século XIX, novos horizontes foram abertos às ciências da vida pela patologia celular e pelo desenvolvimento de métodos de precisão para o estudo, em laboratório, dos fenômenos e estruturas observáveis nesse plano do diminuto. Os conhecimentos adquiridos sobre a anatomia da pele articulam-se, assim, aos estudos histopatológicos, isto é, estudos em nível microscópico de lesões em tecidos. Particularmente importantes foram as técnicas de coloração desenvolvidas para a preparação das amostras de tecidos levadas ao microscópio. Associadas ao uso do micrótomo e aos aperfeiçoamentos da ótica e da microscopia, essas técnicas incrementaram a capacidade de visualizar e descrever, com precisão, os elementos que estruturavam os objetos nessa escala do minúsculo, e assim não apenas alargaram as fronteiras da histopatologia como criaram a necessidade de reexaminar e, às vezes, modificar radicalmente os conhecimentos produzidos até então pelos clínicos, anatomistas e fisiologistas. Tais sinergias favoreceram a eclosão de investigações relacionadas à microparasitologia das doenças de pele; elas precedem as descobertas de Pasteur e Koch, e sofrem tremendo impulso à época em que os caçadores de micróbios põem-se a explorar esse e outros domínios da etiologia das doenças humanas e animais. Segundo Pusey (1933, p.108-9), graças à histopatologia e à bacteriologia, vigas mestras da dermatologia nas últimas décadas do século XIX, os aspectos essenciais da anatomia e da patologia da pele encontravam-se já elucidados por volta de 1900. O conhecimento das doenças dermatológicas tornou-se, nesse período, tão extenso e técnico que a especialização foi imperativa.
A Escola de Viena e outros centros
dermatológicos germânicos
Em tratado publicado em 1844, Julius Rosenbaum (1807-1874) apresentou balanço bem documentado dos estudos publicados até então sobre a fisiopatologia da pele, e concluiu que o sistema Plenck-Willan de diagnóstico morfológico era inadequado para explicar as doenças dermatológicas. Pela primeira vez, Rosenbaum falou nos 'Dermatopathologen' que, por meio de estudos microscópicos, lograriam realizar o programa já proposto em 1839 pelo francês Gilbert Breschet (1794-1845): "si l'on pouvait, prenant pour guide l'anatomie, indiquer le siège de chaque maladie cutanée, ce serait un veritable progrès pour la médecine et pour l'anatomie pathologique" (apud Holubar, 1998).
Na Charité, o maior complexo hospitalar de Berlim até a Segunda Guerra Mundial, quando foi destruído, Gustav Simon (1810-1857) e Felix von Bärensprung (1822-1864) procuravam mapear a constituição da pele em diferentes doenças com o auxílio, ainda, do tosco ferramental anatomopatológico disponível. Trabalhando com seções feitas com faca, a mão, sem corantes nem técnicas de fixação adequadas, descreviam hipertrofias, neoplasmas e vesículas da derme e epiderme, assim como parasitas que as colonizavam.
A estrutura topográfica da pele era descrita com grande precisão por Voigt, Langar, Tomsa e outros médicos nas décadas de 1850 e 1860 (Pusey, 1933, p.108).
Rudolf Virchow, militante das causas social-democratas e da medicina social alemã, fundador da patologia celular, publicou à mesma época, em Berlim, muitos trabalhos relacionados à dermatologia: além de textos genéricos sobre a história e geografia da lepra (1860, 1881) e sobre sabões desinfetantes (1869), artigos específicos sobre pigmento patológico; anatomia dos folículos dos pêlos; pênfigo crônico (1855); anatomia normal e patológica das unhas (1857); mormo (1857); Onychomycosis (1860); lepra (1860); verrugas (1863); molluscum contagiosum (1865); células dos pruridos do epitélio (1865); tuberculose da pele (1865) e xantoma multiplex (1871) (Ibidem, p.108).
Por sua vez, desde a década de 1840, a geração de Carl Rokitansky (1804-1878), Carl Wedl (1815-1891) e Ferdinand Hebra (1816-1880) vinha transformando Viena, a capital do império austro-húngaro, não apenas no principal pólo de cristalização da dermatologia como especialidade clínica como num centro de ensino médico tão famoso quanto era Paris até 1850. Os alunos desses clínicos e patologistas formariam, no último quarto do século, a nata da dermatopatologia vienense: Isidor Neumann (1832-1906), Salomon Stricker (1834-1898), Heinrich Auspitz (1834-1885), Moritz Kaposi (1837-1902) e Salomon Ehrmann (1854-1926).
Aula prática de Rudolf Virchow (1821-1902) em Berlim. Acervo de
Ullstein Bilderdienst, Berlim. Johann & Junker (1970, p.53, fig. 66).
Ferdinand Ritter von Hebra (1816-1880). Disponível em
www.aeiou.at/aeiou.encyclop.h/h330927.
Viena em fins do século XIX. Grande Enciclopédia Delta Larousse,
1971, p.7018.
Desses personagens, o que granjeou maior nomeada foi Hebra, cuja carreira está ligada ao equivalente, no mundo germânico, do Hospital Saint-Louis: o Allgemeines Krankenhaus de Viena.
Depois de se doutorar, em 1841, Hebra tornou-se assistente de Skoda, um dos mestres da medicina clínica vienense, responsável pela seção de doenças do peito naquele hospital geral, seção à qual, curiosamente, estavam adjudicadas as doenças de pele.
Como Bazin, Hebra estudou primeiro a sarna, por circunstância quase fortuita: ninguém queria se ocupar daquele problema trivial que representava, porém, o grosso do serviço dermatológico. Imbuído das noções correntes da patologia humoral, supôs, a princípio, que fosse uma doença sistêmica, mas logo verificou que era causada por um ácaro e, em 1844, publicou trabalho que se tornou um clássico sobre o assunto (Über die Krätze). Experiências com outros irritantes, como o óleo de cróton, que, friccionado à pele normal, dava lugar a um eczema, levaram Hebra à conclusão de que qualquer sintoma de inflamação podia ser induzido por irritantes externos, e que havia alterações patológicas específicas à pele, não explicáveis à luz da patologia geral. Sem negar a existência de doenças sistêmicas, ligadas às discrasias constitucionais tão enfatizadas pela escola francesa, Hebra passou a atribuir grande importância aos fatores locais na produção das dermatopatologias. Tal ênfase facilitaria, em seguida, a compreensão do papel dos microrganismos na etiologia dessas doenças.
Aluno de Carl Rokitansky (1804-1878), e seu sucessor na presidência da Wiener Akademie der Wissenschften, Hebra soube aplicar o instrumental mais refinado da patologia à sua especialidade, e em 1845 propôs uma nova classificação das doenças de pele com doze categorias principais: hiperemias, anemias, anomalias secretoras das glândulas da pele, exsudações, hemorragias, hipertrofias, atrofias, neoplasmas, pseudoplasmas, úlceras, nevroses e parasitoses (Costa, 1945, p.275-6; Carneiro, 2002, p.38).
Não obstante fosse competente anatomopatologista, Hebra hauriu sua reputação principalmente da clínica. Reagiria até com frieza às novas concepções bacteriológicas (Pussey, 1933, p.103). Ele demonstrou o crescimento do fungo da tinha na epiderme; foi o primeiro a descrever o rinoscleroma (1872), o impetigo herpetiforme (1872), o lichen acuminatus, o lichen scrofulosorum e o prurido batizado com seu nome (prurido de Hebra); reuniu numa única síndrome – o eritema multiforme ou polimorfo – os vários eritemas tóxicos que eram descritos de maneira confusa; caracterizou melhor o eczema marginatum, descrito primeiramente por von Bärensprung em 1860; tornou igualmente claros os quadros dos xantomas e pênfigos, e a natureza da urticária e dos pruridos, como doenças internas. "Como disse Gaucher a propósito de Bazin, quase não há doença de pele cujo quadro não tenha se tornado mais claro graças à magistral descrição produzida por Hebra." (Pusey, 1933, p.105)
Hebra morreu em 5 de agosto de 1880, aos 64 anos de idade. Era procurado por doentes de todas as partes do mundo, e o curso que ministrava na Faculdade de Medicina de Viena era o mais popular entre os estudantes (Pusey, 1933, p.106); aí e em sua clínica formaram-se os líderes da geração seguinte de dermatologistas, na Alemanha e em outros países.
Seus dois trabalhos mais importantes foram o monumental Atlas der Hautkrankheiten, com belas estampas de Anton Elfinger (Viena), C. Gerold's Sohn, 1856-1876), e o Lehrbuch der Hautkrankheiten (Stuttgart, Enke, 1874-1876), completado pelo húngaro Moritz Kaposi (1837-1902), seu genro e sucessor na cadeira de
dermatologia, em Viena. 4
Dedicando-se, também, à dermatologia clínica, descreveu o xeroderma pigmentosum, o sarcoma pigmentado múltiplo e idiopático (sarcoma de Kaposi); o herpes-zoster gangrenosus hystericus, a dermatitis papillaris capillitii e o rinoscleroma, já estudado por Hebra. Seu livro Pathologie und Therapie der Hautkrankheiten in Vorlesungen für praktische Ärzte und Studirende (Viena, Urban & Schwarzenberg, 1880-1899), traduzido para o francês por Ernest Besnier e Adrien Doyen, e para o inglês por
James C. Johnston,5 foi, por muito tempo, uma das principais referências para quem se iniciava na especialidade, e seu Atlas das doenças de pele (3v., 1898, 1899, 1900) é considerado uma das mais extensas e valiosas coleções de ilustrações em dermatologia.
Outro brilhante sucessor de Hebra foi Heinrich Auspitz (1835-1886), também professor de dermatologia em Viena. Propôs nova classificação das doenças de pele em System der Hautkrankheiten (Viena, Wilhelm Braumuller, 1881), e, entre outros trabalhos, publicou "General pathology and therapeutics of the skin", no Handbook of diseases of the skin (Nova York, W. Wood and
Co.,1885), organizado por Hugo von Ziemssen. 6 Acantoma e Parakeratosis são alterações patológicas descritas e batizadas por Auspitz, que chamou atenção para o sinal característico da psoríase, os pontos que sangram após a remoção das escamas (sinal de Auspitz). Estudou ainda as vesículas e bolhas do pênfigo, e os efeitos da congestão venosa da pele. Foi um dos principais responsáveis pela disseminação do uso de sabões no tratamento das doenças dermatológicas (Pusey, 1933, p.110).
Isidor Neumann (1832-1906), autor, também, de importante tratado sobre doenças de pele, ficou conhecido sobretudo como estudioso da sífilis, tendo inaugurado a cadeira de dermatologia e sífilis em
Viena. 7
Filip Joseph Pick (1834-1910), outro discípulo de Hebra, transformou Praga num importante centro dermatológico. Estabeleceu experimentalmente a identidade entre o favo do homem e do rato, e provou a contagiosidade do moluscum contagiosum. Primeiro professor de dermatologia na Áustria a ter o título de catedrático, fundou, com Auspitz, em 1869, o Archiv für Dermatologie und Syphilis, do qual foi editor por muitos anos.
Artigo de Achille Breda sobre "Fambroesia Brasileira ou Boubas"
publicado no Archiv für Dermatologie und Syphilis, 1895. BR. MN.
Fundo Adolpho Lutz. Períodicos.
Nas últimas décadas do século XIX, Viena tornou-se uma meca para os médicos de várias nacionalidades que aspiravam a ser reconhecidos na especialidade de que Ferdinand Hebra era o emblema, sob a orientação de seus renomados sucessores ou dos assistentes destes. Em seu estudo, Pusey mapeia os centros dermatológicos que floresceram em diversas cidades da Alemanha e da Europa Central no último quarto do século XIX, por obra desses dermatologistas. Destacaremos aqui a trajetória de uma das crias da Escola de Viena que Holubar (1998) qualifica como o "pai da dermatopatologia alemã", e Herzberg e Korting (Holubar, 1987, p.128), como um dos "grandes fundadores internacionais da moderna dermatologia".
Paul Gerson Unna
Nascido em 8 de setembro de 1850, em Hamburgo, Paul Gerson Unna era filho de Moritz Adolph Unna, médico conceituado naquela movimentada cidade portuária. Vinculava-se a importante linhagem médica também pelo lado da mãe, Ida, nascida Gerson, filha única de um famoso cirurgião.
Dando continuidade a essa tradição, Paul iniciou seus estudos em Heidelberg, no começo de 1870, mas teve de interrompê-los quando eclodiu a guerra franco-prussiana, em agosto. Alistou-se como voluntário e foi gravemente ferido numa batalha travada nas cercanias de Le Mans. Quando a guerra terminou, em 1871, retomou os estudos de medicina em Heidelberg e freqüentou as universidades de Leipzig e Estrasburgo, completando sua educação médica nesta universidade, em 1875. Sua tese de doutoramento –
"Über die Entwicklung der Haut" (Sobre o desenvolvimento da pele) 8 – revelou fatos novos, de grande importância, sobre as diferentes partes e elementos da pele que Unna pôde observar graças ao uso do ácido ósmico e de outro corante, recém-desenvolvido por Ranvier, o picrocarmim. Unna mostrou que a epiderme compunha-se de estratos diferentes, cada um formado por outras camadas celulares, com contínua migração de células entre elas: estrato córneo, o mais externo, formado por células queratinizadas; estrato lúcido,em que prossegue a queratinização; estrato granuloso, onde começa o processo de cornificação; estrato espinoso, cujas camadas celulares sintetizam a queratina e, depois, o estrato basal, a camada celular mais profunda da epiderme. Unna conseguiu demonstrar que esta última camada era a responsável pela regeneração da epiderme, e que o estrato espinoso não participava desse processo.
Dermatologista Paul Gerson Unna (1850-1929). Olpp (1932, S401).
Aquelas descobertas, logo confirmadas por conceituados anatomistas e histologistas, tornaram conhecido o médico recém-formado. A pedido de von Ziemssen, Unna publicaria, em 1883, as conclusões mais significativas de sua tese no capítulo intitulado "Entwicklungsgeschichte und Anatomie der Haut" (Desenvolvimento e anatomia da pele), no já referido Handbuch der speziellen
Pathologie und Teraphie.9
Aos 27 anos, Unna foi para Viena para assistir às aulas e demonstrações clínicas de Ferdinand Hebra, de seu filho, Hans, de Moritz Kaposi e Heinrich Auspitz. Com prazer, aceitou o convite feito por este último para que colaborasse nos estudos microscópicos destinados a esclarecer a anatomia patológica do cancro sifilítico.
Em 1877, Auspitz e Unna publicariam dois artigos a esse respeito em Vierteljahresschrift für Dermatologie & Syphilis.
Em outubro de 1876, Unna assumiu o cargo de médico assistente na seção de sífilis do Hospital St. Georg, em Engel-Reimers. Em seguida, associou-se à movimentada clínica do pai, em Hamburgo, aliviando-o do encargo de atender pacientes à noite e de fazer visitas em locais de difícil acesso.
Como crescesse o número de pacientes com doenças dermatológicas, decidiu fundar sua própria clínica especializada em
doenças de pele. 10 No mesmo ano (1882), criou com Oscar Lassar e Hans Hebra, filho de Ferdinand Hebra, o Monatshefte für praktische Dermatologie, primeiro periódico de dermatologia da Alemanha, e, por muitos anos, um dos principais catalisadores da especialidade que começava a se cristalizar em outros países,
inclusive no Brasil, como veremos adiante. 11
A clínica de Unna, com apenas dois auxiliares, logo se tornou insuficiente para atender à crescente demanda, e ele então decidiu abandonar de vez a clínica geral para se dedicar exclusivamente à dermatologia, fato inédito na Alemanha de então. Em abril de 1884, num subúrbio de Hamburgo chamado Eimsbüttel, inaugurou as modernas instalações do novo instituto dermatológico, com bem equipados laboratórios para os médicos assistentes, três pavilhões para doentes e, ainda, a residência do proprietário.
Capa do periódico Monatshefte für Praktische Dermatologie, em
1910, quando era editado por Paul Gerson Unna e Paul Taenzer. Edição especial com artigo de Unna e Golodetz sobre a química da
pele.
Quadro representando parte da fachada do Dermatologicum (1884),
a famosa clínica fundada por Unna em Hamburgo. Crissey, Parish,
Holubar (2002, p.67).
Naquele tempo, não havia treinamento organizado ou obrigatório para as especialidades médicas em formação e, assim, o Dermatologicum de Unna começou a atrair um número crescente de
estudantes da Alemanha e do exterior. Em 1886,12 seu escopo foi ampliado e tiveram início os cursos de pós-graduação, que incluíam anatomia, histopatologia, bacteriologia, micologia, farmacologia, química e fotografia, aliados a intensa prática clínica com os doentes que afluíam, em grande número, à clínica hamburguense.
Entre os primeiros médicos treinados ali figuram nomes reconhecidos como pioneiros da dermatologia em diversos países: Pollitzer de Nova York; Török de Budapeste; Tommasoli e Mibelli da Itália; Eddowes de Londres; Noyes de Melbourne; sir Norman Walker, que traduziu para o inglês Die Histopathologie der Hautkrankheiten (Berlim, A. Hirschwald, 1894), obra de Unna que constitui um marco na história da dermatologia; e ainda Buzzi; Santi; Ernst von Düring, Hodara; Engman e, por último mas não menos importante, o brasileiro Adolpho Lutz.
Adolpho Lutz em Hamburgo Segundo Olpp (1932), Unna e Lutz teriam se conhecido na 58a Reunião de Naturalistas e Médicos Alemães ocorrida em Estrasburgo, em 1885. Lutz apresentou aí curta comunicação sobre uma doença que observara em mais de duas dezenas de crianças nos arredores de Limeira, estranha doença que começava como afecção catarral e evoluía para uma dermatite 'singular': nas formas mais graves, as manchas na pele formavam grandes faixas confluentes, de cor violeta-escura, que descamavam grandes lascas. O curso da doença era lento e podia levar à morte. Como Lutz a observara apenas em crianças já desmamadas, ou que recebiam outro alimento junto com o leite materno, suspeitou principalmente da farinha de milho, muito consumida por elas:
A essa etiologia corresponde também o fato de que a doença
apresenta certa semelhança com a pelagra, que sabidamente
se relaciona ao consumo de milho estragado. Maior ainda é a
coincidência com o Erythema epidemicum ou com a acrodinia,
cuja etiologia ainda é desconhecida; entretanto, essa afecção
não pode ser identificada com as nossas, já que as descrições
até agora diferem em pontos essenciais.
Na verdade, o contato entre Unna e Lutz é anterior a esse congresso. O médico de Limeira, sempre atento às realizações da medicina experimental européia, provavelmente subscrevia o Monastsheffe für Praktische Dermatologie, em que saiu publicada, diga-se de passagem, a comunicação apresentada em Estrasburgo (Lutz, 1886a).
Lutz já havia publicado trabalhos importantes na Alemanha, que certamente eram do conhecimento de Unna: o estudo sobre o Rhabdonema do porco e sobre o diagnóstico do Rhabdonema strongyloides no ser humano saíra no Centralblatt für Klinische Medicin, em junho de 1885 (Lutz, 1885a). As páginas do Deutsche Zeitschrift für Thiermedizin acolheram, no mesmo ano, as observações feitas pelo médico brasileiro sobre os parasitas intestinais do porco e de outros animais domésticos, e sobre a ocorrência das mesmas espécies no homem (Lutz, 1885-1886). No mesmo ano (1885b), um trabalho de fôlego sobre o Ancylostoma duodenale e a ancilostomíase foi incluído entre as conhecidas lições de clínica médica (Sammlung Klinischer Vorträge) editadas por Richard von Volkmann, em Leipzig.
Tudo indica que foi a lepra que aproximou Adolpho Lutz e Paul Gerson Unna. Um dos prédios do Dermatologicum, inaugurado em 1884, destinava-se às vítimas da doença, que provinham principalmente da América do Sul (Hollander, 1987, p.85). O dermatologista de Hamburgo iniciou, então, estudos aprofundados sobre a bacteriologia, patologia e terapêutica do mal. Naquele mesmo ano, participou de um congresso de medicina em Copenhague, em que o tema esteve em pauta, e, em seguida, visitou leprosários noruegueses, estabelecendo proveitosa relação com Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), o descobridor do Bacillus leprae, e com Daniel Cornelius Danielssen (1815-1894) e Carl W. Boeck que, em 1848, haviam estabelecido, em bases
científicas, as características distintivas da doença. 13
Vista de Hamburgo, Alemanha, mostrando a ponte de Kehrwieder,
em Gesehen. Foto de G. Koppmann & Co., setembro de 1884.
Segundo Olpp (1932), em 1885 Unna teve a oportunidade de tratar uma paciente alemã que adquirira a lepra em viagem ao Brasil – terá sido enviada por Lutz? –, obtendo resultados satisfatórios com o pirogalol. Esse caso forneceu-lhe dados para o trabalho sobre a histologia e terapêutica da doença que apresentou em congresso de
medicina interna, em Wiesbaden.14
Pois foi em março de 1885 que Adolpho Lutz deixou Limeira para estagiar na clínica de Unna. Sob sua orientação, enveredou, também, pela bacteriologia da lepra e estudou a estrutura e biologia de germes relacionados a outras doenças, inclusive a tuberculose, cujo bacilo apresentava intrigantes analogias com o descrito por
Hansen.15 O trabalho que publicou em Monatshefte für Praktische Dermatologie sobre o bacilo de Hansen (Lutz, 1886b) alterava consideravelmente a representação que se tinha a respeito não apenas desse microrganismo como daquele descoberto por Koch. Lutz mostrava que possuíam em comum características discrepantes em relação aos bacilos, e propunha que fossem considerados espécies de um novo gênero.
Lutz e as controvérsias sobre o agente causal da
lepra
A lepra foi uma das primeiras doenças infecciosas a ser reestruturada à luz da microbiologia. Em 1848, Danielssen percebeu que certas células encontradas em tecidos leprosos eram características da lepra. Nas células de tubérculos cutâneos, grandes células redondas mononucleares que Virchow denominou "células leprosas", Hansen observou pequenos corpúsculos em forma de bastonete que denominou Bacillus leprae, suspeitando que fossem a causa da doença em razão de sua presença constante nas lesões examinadas. Em 1874, relatou à Sociedade Médica de Cristiânia sua suspeita, que logo foi confirmada por Theodor Albrecht Edwin Klebs (1834-1913) (Bulloch, 1938, p.9, 376).
Albert Neisser (1855-1916) produziu descrição mais consistente do bacilo em 1879, graças ao emprego de processos de coloração que vinham se tornando de importância capital para a observação deste e de outros microrganismos.
Quando saiu o trabalho, Hansen reagiu prontamente para assegurar sua prioridade, e publicou sua teoria em alemão, inglês e norueguês. Conquistou, assim, a eponímia, e o bacilo de Hansen "converteu-se num dos primeiros a ingressar no cenário dos microrganismos específicos patogênicos para o ser humano, que
faziam a glória da bacteriologia nascente". 16
À época em que Adolpho Lutz iniciou sua investigação, lavrava entre os bacteriologistas intensa controvérsia a respeito da localização do micróbio da lepra nos tecidos e líquidos humanos, controvérsia associada a outra questão problemática: a dificuldade de cultivar o microrganismo in vitro e de fazê-lo replicar nos tecidos de outros animais. A interpretação do que os especialistas enxergavam dependia, em larga medida, do que davam a ver as técnicas de corar e fixar usadas na preparação das amostras de tecido postas sob a lente de seus microscópios, técnicas que experimentavam, então, contínuas inovações.
Albert Neisser (1855-1916). (Olpp, 1932, S290).
Os métodos de coloração começaram a ser usados em histologia antes de migrarem para o estudo das bactérias. Tinham em mira fixar substâncias corantes eletivamente em tais ou quais elementos do tecido ou organismo, de modo a facilitar a observação de sua forma e estrutura. Goeppert e Cohn (1849) foram os primeiros a trabalhar com preparações de fucsina, mais tarde aperfeiçoadas por Hartig (1854) e Gerlach (1858). O fisiologista boêmio Jan Evangelista Purkinje (1787-1869) introduziu o uso do bálsamo-do-canadá, do ácido acético glacial e do bicromato de potássio, e foi, também, o primeiro a fazer cortes em tecidos para estudá-los ao microscópio. O extrato de pau-campeche ou pau-da-índia
(Haematoxylum campechianum)17 foi utilizado por Waldeyer (1863), e Böhmer (1865) aperfeiçoou a técnica ao adicionar alume à substância. As tinturas de anilina ou coltar (alcatrão de hulha) entraram em circulação a partir de 1856, disseminando-se em seguida nas práticas cotidianas ou industriais de tingimento de tecidos e roupas. O primeiro a recorrer à coloração de bactérias foi Hermann Hoffmann (1819-1891), professor de botânica em Giessen; pouco tempo depois, Weigert (1871) demonstrou que o carmim pigmentava cocos e, em 1875, descobriu que a alquila dava resultados surpreendentes também no tingimento de tecidos e bactérias. Em 1877, C. J. Salomonsen (1847-1924) conseguiu corá-las em solução aquosa de fucsina.
Koch (1877) aperfeiçoou os métodos de coloração, diferenciando-os conforme o pH ácido, básico ou neutro da substância empregada. Para imobilizar as bactérias, desenvolveu um engenhoso processo de secagem que não interferia em sua forma primitiva. Seu método de fixação de bactérias requeria o uso do álcool para interromper as atividades metabólicas dos organismos, embebendo- se os cortes microscópicos e as preparações em vários tipos de corantes, o metil violeta 5 B, a fucsina, a anilina marrom e principalmente a violeta de genciana. As amostras eram colocadas numa solução aquosa de acetato de potássio ou bálsamo-do-canadá. Esses procedimentos o ajudaram a descobrir, em 1882, o bacilo que leva seu nome, agente da tuberculose.
Nos anos seguintes, outros métodos de coloração disseminaram-se pelos laboratórios e pela prolífera literatura especializada que engendravam, até mesmo métodos específicos para pigmentação de esporos, cílios e cápsulas de microrganismos. Algumas fórmulas acabaram por se decantar nos tratados que começavam a constituir a bacteriologia como ciência 'normal', no sentido que Thomas Kuhn (1970) deu à palavra. Nas ótimas páginas que dedica ao assunto, Bulloch, (1938, p.213-30) refere-se ainda ao aperfeiçoamento da pigmentação dos bacilos da tuberculose por Ehrlich, em 1882; ao emprego do álcali e do azul-de-metileno por Loeffler (1884); do ácido carbólico (fenol) em lugar de anilina por F. Ziehl (1857-1926); e de ácido sulfúrico em substituição ao ácido nítrico por F. Neelsen (1854-1894). Não se deve esquecer o dinamarquês Christian Gram (1884), que desenvolveu, em Berlim, o método hoje universalmente conhecido, e que consiste no uso da fucsina amoniacal e na divisão das bactérias em gram-positivas e gram-negativas conforme fixem ou não o corante.
Podemos ter um vislumbre do estado-da-arte na matéria que nos levou a essa digressão – as noções conflitantes sobre o bacilo da lepra associadas às diferentes técnicas empregadas em seu estudo – se consultarmos algumas das publicações médicas que repercutiram o artigo de Adolpho Lutz à época em que veio a lume, especialmente a publicação anual recém-criada pelo dr. Paul Clemens von Baumgarten (1848-1928), professor de anatomia
patológica em Königsberg 18 – Jahresbericht über due Fortschritte in der Lehre von den pathogenen Mikroorganismen (1885-1911).
Em 1885, Unna sustentou a tese de que as células da lepra descritas por Virchow em tempos pré-bacteriológicos, células que Neisser considerara específicas à doença por se acharem repletas de bacilos, não eram células mas conglomerados de bacilos livres encravados em mucina e rodeados por células de tecido conectivo atrofiadas. Os bacilos da lepra não eram encontrados nas células dos tecidos – afirmou Unna em 1885-1886 –, e sim no curso da linfa. Suas observações haviam revelado, ademais, que aglomerados bacilares distribuíam-se de maneira uniforme e circulavam livremente na túnica íntima de veias e artérias, o que fazia crer que o corpo dos doentes – especialmente dos que padeciam da forma tuberosa – era percorrido por milhões de bacilos.
As polêmicas observações de Unna estavam ligadas a um novo método de coloração que desenvolvera para neutralizar uma falha observada nos que eram habitualmente empregados no estudo daquele microrganismo. Segundo o dermatologista de Hamburgo, os corantes e bálsamos não apresentavam resultados duradouros, e as substâncias presentes nos descolorantes e fixadores afetavam o resultado das pigmentações em razão de sua 'oxigenofilia', isto é, sua tendência a roubar oxigênio. Para resolver o problema, desenvolveu o "método seco": a amostra, depois de passar pelas etapas de pigmentação, descoloração por ácido e, eventualmente, por uma segunda pigmentação, era transportada diretamente da água para a lâmina, sendo estendida aí com cuidado; retirava-se o excesso de água com papel de seda; depois, punha-se a lâmina delicadamente sobre a chama de espiriteira até que estivesse seca. Adicionava-se, então, uma gota do bálsamo escolhido como fixador ao corte completamente seco, com a lâmina ainda quente. Além de ser mais prática e mais barata, essa técnica revelaria mais claramente as relações do microrganismo com os tecidos
circundantes.19
A julgarmos pelas resenhas publicadas nos volumes editados por Baumgarten em 1886-1889, o dermatologista de Hamburgo enfrentou cerradas críticas da parte de renomados especialistas na matéria.
Desenho do Mycobacterium leprae (Arm. Hansen) Lehmann et
Neumann (bacilo da lepra). I. Preparado microscópico de muco
nasal. II. Corte histológico: gânglio linfático; pequeno aumento; os
bacilos não se acham em células gigantes, como na tuberculose, e
sim aglomerados. III. Corte histológico: gânglio linfático; grande
aumento. Lehmann & Neumann (1910, prancha 68).
Desenho do Mycobacterium tuberculosis (Koch) Lehmann et
Neumann (bacilo da tuberculose). V. Cultura de batata. VI.
Preparado microscópico: esputo; coloração de Ziehl. VII. Preparado
microscópico de esputo: formas plasmolíticas, "typus humanus".
VIII. Preparado microscópico do pus caseoso de uma tuberculose
uterina bovina. IX. Aglomerados de tamanhos variados de bacilos
decompostos de tuberculose; preparado de esputo humano. X.
Preparado microscópico de esputo humano: colônias de bacilos de
tuberculose. XI. Corte histológico: gânglio linfático humano; no
tecido necrosado vêem-se células gigantes. XII. Corte histológico:
gânglio linfático humano; duas células gigantes circundadas por
tecido necrosado. Lehmann & Neumann (1910, prancha 67).
Hansen declarou que os "preparados secos" alteravam a morfologia das células, fazendo que as da lepra desaparecessem e deixando visíveis apenas as células dos tecidos. Argumentou ainda que, se circulassem livremente pelos vasos linfáticos, os bacilos penetrariam no sangue e causariam estados patogênicos agudos. A doença, porém, tinha sempre um caráter crônico e por isso os bacilos
deviam estar "aprisionados" nas células.20
Neisser, por sua vez, considerou que o método seco de Unna podia se prestar ao estudo da morfologia celular, mas não era apropriado
à investigação da localização (topografia) dos bacilos. 21
Outro crítico, Karl Touton (1858-1934), afirmou peremptoriamente: "Os bacilos da lepra estão em sua maior parte localizados nos tecidos lepróticos, como tem sido aceito geralmente até agora, encerrados nas células em aglomerados maiores ou menores. Esses aglomerados bacilares não são, portanto, células, porém partes ou habitantes delas. De maneira geral, os aglomerados 'livres' provêm do interior das células".
O dermatologista alemão atribuía o erro de Unna a seu método: o vapor d'água empregado durante o processo faria "explodir" as membranas celulares, dando a impressão de que os bacilos estavam livres na linfa. Além disso, a secagem por meio do fogo diminuía a espessura mas não a área das amostras de tecido, e assim as suas várias camadas sobrepostas ficavam reduzidas a uma única superfície, dificultando o exame do material. Não tinha dúvida de que o método de Unna alterava a ordem natural das
coisas e dava origem a 'artefatos', com resultados não-confiáveis. 22
Dois outros críticos do dermatologista de Hamburgo foram Beaven Rake e Sudakewitsch. Em material extraído de um nódulo de lepra, o primeiro vira bacilos tão próximos ao núcleo das células que sua localização tornara-se, para ele, inegável. Sudakewitsch, do Instituto von Münch, em Kiev, estudara casos de "forma nervosa secundária" (isto é, casos nos quais a pele apresentava apenas restos de infiltrados leprosos extintos) com a intenção de conhecer a relação dos bacilos com o sistema nervoso, e as modificações sofridas pelos gânglios no curso da doença. O dermatologista russo comprovara que havia bacilos no interior das células ganglionares. Por vezes, eram encontrados dentro dos controversos vacúolos, que o autor chamou de "parasitários", pois julgava serem resultado de processos de "digestão intracelular". De seu ponto de vista, tanto os bacilos degenerados como as células nervosas destruídas deviam-
se à luta entre bacilos e células. 23
Além da localização extracelular dos bacilos de Hansen, contestada
também por Bidenkap e Campana, mas comprovada por Kühne, 24 outros aspectos do agente etiológico da lepra eram debatidos. Unna encontrara os vacúolos descritos originalmente por Virchow, mas na opinião de Neisser eram apenas resultados artificiais de seu método seco. Segundo o dermatologista de Hamburgo, parte dessas massas vítreas observadas nas preparações eram áreas preenchidas por muco bacilar, e o restante, o lúmen dos vasos linfáticos, livre de bacilos. Para Touton, eram produto da degeneração hidrópica do protoplasma celular. Em seu modo de ver, os bacilos que entravam em contato com uma lesão na pele do indivíduo chegavam às suas células pelas vias linfáticas e desenvolviam grandes colônias no protoplasma. Os vacúolos seriam o índice da degenerescência do protoplasma, provocado pelo desenvolvimento do parasita. Pouco a pouco, os vacúolos cresciam e se multiplicavam, a célula inchava até arrebentar e os bacilos, agora livres, invadiam as fendas linfáticas, os vasos sanguíneos, as glândulas sudoríparas e outros tecidos e cavidades (Doyon, 1887, p.429-30).
Outro ponto litigioso eram os esporos que alguns bacteriologistas às vezes discerniam no interior dos bacilos. Colorações descontínuas e formações granulares já haviam sido observadas nesses bastonetes, mesmo nos da tuberculose. Por algum tempo, Koch supôs que fossem esporos, e Neisser chegara a conclusão parecida com relação ao bacilo da lepra.
No trabalho publicado em 1886, Adolpho Lutz (1886b) forneceu detalhadas evidências em apoio à tese de Unna e foi além: as massas que Touton considerava como aglomerados bacilares alojados no interior das células da lepra não apenas não estavam aí
como não eram constituídas por bacilos.25
Graças a um novo método de coloração que desenvolvera com Unna, Lutz viu e descreveu, sob nova luz, coisas que a outros observadores tinham parecido anomalias ou acidentes esporádicos.
De acordo com o médico brasileiro, os micróbios da lepra eram encontrados na linfa, no pus e em cortes dos órgãos doentes, isolados ou agrupados dentro de um envelope gelatinoso ou mucoso. Mesmo os bacilos isolados exibiam, muitas vezes, a substância envolvente que, na opinião de Lutz, desempenhava papel importante na formação das neoplasias leprosas. As formas desprovidas desse envoltório constituiriam um "estágio primitivo" do microrganismo.
Quando o envelope ultrapassava certo volume, desapareciam os tênues contornos dos bastonetes e o observador precisava recorrer a outro método para reconhecer a natureza daqueles conglomerados. Os envelopes pareciam ter grande semelhança com as massas gelatinosas encontradas, com freqüência, entre algas e fungos. E a coloração pela genciana mostrava que sua composição era análoga à dos cocos da pneumonia descritos por Friedländer.
Como afirmara Unna, essas massas não eram células nem estavam situadas dentro de células.
Lutz descrevia, então, minuciosamente, as técnicas que lhe tinham permitido decifrar a natureza dos claros que interrompiam a continuidade dos bastonetes, tornando-os, como se dizia, não homogêneos. Para Neisser, eram lugares onde se formavam esporos intersticiais. Empregando o método de Gram e a descoloração por meio do álcool acidificado, Lutz obteve nítidas imagens de micrococos dispostos em fileiras regulares e ligados por finos filamentos.
Chegou, assim, à conclusão de que a parte constitutiva elementar do suposto bacilo da lepra era a pequena célula redonda semelhante a um coco, dotada de membrana a princípio fina que ia se tornando espessa e colóide. A célula contida nessa membrana desdobrava-se em duas novas células que se afastavam, pouco a pouco, e adquiriam envelope novo, sem deixar de permanecer inclusas no antigo. Entre as células observavam-se interstícios maiores que seu diâmetro. O desdobramento delas fazia-se sempre na mesma direção, em séries lineares cujo desenho assemelhava-se a colares de pérolas ou a bastonetes, aumentando cada vez mais o envoltório gelatinoso à medida que ganhava novas camadas. Esse aglomerado gelatinoso podia fundir-se com os vizinhos numa massa comum.
Lutz identificou um terceiro elemento que tampouco se enquadrava nas descrições habituais: na extremidade dos bastonetes encontrara células ovais, de duplo contorno, que se distinguiam das outras pelo volume, a intensa coloração e sua forma alongada, com um ou dois prolongamentos filiformes que lembravam a cauda de uma nota musical. Essas células constituiriam uma "forma especial" que devia
desempenhar algum papel na reprodução do microrganismo. 26
Se a descrição é exata – escreve Adrien Doyon (1886, p.427) em Annales de Dermatologie et de Syphiligraphie –, resulta que o nome bacilo é impróprio, propondo o médico brasileiro que a bactéria da lepra seja alojada numa divisão do gênero Coccothrix, no qual "colocaria, sem hesitar, o parasita ... da tuberculose".
Em outro artigo publicado no periódico editado por Unna, Adopho Lutz (1886c) procurou detalhar as características dos microrganismos que poderiam ser agrupados sob o novo gênero que julgava necessário criar, não apenas o de Hansen mas também os supostos agentes da sífilis e da malária: o bacilo recentemente descrito por Matterstock e o Bacillus malariae de Klebs e Tommasi Crudelli.
Sobre o primeiro, quase não há informação.27 Klebs foi, como vimos, o primeiro a comprovar a existência do bacilo de Hansen. Em 1883, descobriu o da difteria, que foi cultivado, no ano seguinte, por Friedrich Löffler, da equipe de Koch, ficando, então, conhecido como bacilo de Klebs-Löffler (atual Corynebacterium diphtheriae). Em 1878, Klebs começou a pesquisar com Crudelli o germe da malária, que era endêmica na campanha romana. O norte-americano J. H. Salisbury, os italianos Lanzi e Terrigi e, ainda, Pietro Balestra já haviam incriminado algas microscópicas que vegetariam nos pântanos (Busvine, 1993, p.18). No sangue de pacientes febris, Klebs e Tommasi Crudelli encontraram o Bacillus malariae, vegetal microscópico que teria afinidades com o bacilo do antraz, cujos esporos Koch acabara de localizar na terra onde os animais eram sepultados: os da malária residiriam, também, no solo e flutuariam no ar. A descoberta logo foi confirmada por diversos investigadores
italianos e franceses. 28
O esforço que faz Lutz (1886c) em "Ueber die Beziehungen zwischen Stäbchen und Coccen" para adequar à sua teoria as descrições dos supostos bacilos da malária e da sífilis remete-nos a outro caldo de controvérsias concernentes a aspectos basilares da ciência dos micróbios, em formação.
As grandes polêmicas sobre o mundo
microbiano
A divisão dos seres vivos em dois reinos constituía axioma basilar da história natural. O sueco Carl von Linnaeus (1707-1778), publicou em 1735 sua obra fundamental, Systema naturae, e, no ano seguinte, Fundamenta botanica. Batizou em latim as espécies animais e vegetais, inaugurando a nomenclatura binária. Embora tratasse sobretudo das plantas, deu nova classificação aos animais.
As descrições de seres vivos invisíveis ao olhar desarmado do homem remontam ao final do século XVII, aos relatos escritos por aquela espécie particular de naturalistas – os microscopistas –, que se compraziam em permanecer longas horas com o olho colado ao instrumento aperfeiçoado por Anton van Leeuwenhoek a observar os animálculos que povoavam os objetos mais familiares aos humanos. Durante século e meio, o mundo microbiano foi "objeto de encantamento e uma diversão para os microscopistas amadores" (Stanier & Lwoff, 1973, p.1191).
Para classificar os microrganismos29 usou-se, a princípio, um critério de fácil visualização: a mobilidade. O que se mexia era animal; o imóvel, planta. A primeira tentativa de organizar os animálculos num sistema de classificação similar ao de Lineu partiu do dinamarquês Otto Friederich Müller (1730-1784). Em Animalcula infusoria et marina (1786), delimitou dois grupos que se diferenciavam pela posse ou carência de órgãos externos (Membranaceae e Crassiuscula). C. G. Ehrenberg (1795-1876) denominou os animálculos Polygastrica, por supor que tinham estômagos, e os distribuiu por 22 famílias em Die Infusionsthierchen als volkommence Organismen (1838).
Sob a influência das teorias celulares formuladas pelo médico René Joachim Henri Dutrochet (1824), pelo botânico Matthias Jakob Schleiden (1838), pelo zoólogo Theodor Schwann (1839) e pelo patologista Rudolph Virchow (1858), os microscopistas começaram a criar categorias para distinguir os microrganismos formados por numerosas células dos infusórios unicelulares. Félix Dujardin (1801-1860) foi o primeiro a separar, em Histoire naturelle des zoophytes (1841), os unicelulares que exibiam célula diferenciada e relativamente grande (protozoários) dos vibrionianos, animais filiformes bem menores, aparentemente sem diferenciação interna e sem órgãos locomotores visíveis, abrangendo os gêneros Bacterium, Vibrio e Spirillum.
A fronteira entre animal e vegetal foi se tornando cada vez mais obscura nesse plano de observação. O critério da motilidade perdia o sentido: algas e cogumelos reproduziam-se por meio de esporos que se movimentavam no campo do microscópio; por sua vez, os estudos de Casimir-Joseph Davaine sobre o antraz indicavam que seu 'animálculo' se conservava na mais absoluta imobilidade durante parte de seu ciclo vital. Verificou-se, ademais, que certos protozoários continham pigmento clorofiliano, o que levou Maximilian Perty (1852) a criar a categoria dos animais-plantas, ou Phytozoidia, para acomodar tais anomalias.
Alinhadas, a princípio, com os protozoários no reino animal, as bactérias tornaram-se objeto de controvérsia entre os botânicos, que não sabiam que posição atribuir a elas no reino vegetal. Carl Wilhelm von Nägeli (1817-1891), botânico de Munique, reuniu diversos gêneros num grupo que denominou esquizomicetos, pondo-o junto às plantas primitivas incolores, os cogumelos (1857).
Inspirando-se em Darwin, Ernst Heinrich Haeckel afirmou, em 1866, que planta e animal só faziam sentido enquanto linhagens evolutivas que conduziam às plantas vasculares, de um lado, e aos metazoários, de outro. Sendo formado por linhagens evolutivas mais antigas, o mundo microbiano teria de ser acomodado num terceiro reino, o dos protistas. Mas essa solução foi rejeitada pela maioria dos botânicos e zoólogos, persistindo os debates sobre o
enquadramento dos microrganismos. 30
As bactérias foram associadas a um grupo particular das algas, as cianofíceas, por um botânico da Universidade de Breslau, Ferdinand Cohn, autor do sistema de classificação que se tornaria a pedra angular dos sistemas adotados por todos os tratados de bacteriologia e de medicina do final do século XIX em diante. William Bulloch atribui a ele a invenção da palavra 'micróbio', que foi usada por Sédillot e sancionada por Littré, tendo em mira, justamente, instaurar alguma ordem na selva vocabular que
vegetava nos textos científicos da época. 31 Enquanto a palavra cumpria sua importante função de veículo para a exportação das idéias fabricadas nos laboratórios a outras esferas da prática médica e aos profanos, que as disseminavam em crônicas de jornal e nas páginas literárias, os microscopistas, fossem eles botânicos, zoólogos ou médicos, travavam candentes disputas a propósito dos termos e conceitos que o cirurgião Sédillot afastara de seu caminho. A principal dificuldade consistia em estabelecer caracteres discriminatórios consensuais para separar bactérias, algas, protozoários e fungos.