Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia
Zur kenntniss der sogenannten Blastomycosen von Typus Posada –Wernicke
Para o conhecimento da chamada
blastomicose do tipo Posadas-
Wernicke *
No ano de 1901, 1 Wernicke e Posadas descreveram um caso considerado como de Mycosis fungoides, do ponto de vista clínico, mas que, ao microscópio, apresentava singularidades que levaram a um diagnóstico inédito. Foram encontrados, no tecido afetado, conspícuos corpos arredondados, vistos pelos autores como psorospermas, o que os levou a classificar a afecção como psorospermose. (Essa nomenclatura foi substituída, de acordo com a denominação corrente, por coccídeos e coccidiose.) Experiências de transmissão da doença para animais foram bem sucedidas, apresentando diagnóstico microscópico condizente. No decorrer de uma viagem a Buenos Aires, tive a oportunidade de examinar o caso original durante uma recidiva, graças à gentileza do Prof. Wernicke. Pude, também, observar preparados microscópicos nos quais os referidos corpúsculos eram claramente visíveis. A semelhança com coccídeos arredondados era, à primeira vista, surpreendente; no entanto, sob um exame mais minucioso, não era possível encontrar as formas de desenvolvimento típicas dos coccídeos. A semelhança restringia-se, portanto, a uma fase deles, determinada pela estrutura exterior e condicionada pela forma arredondada, de seixo. Além do mais, tais formas parasitárias eram transmitidas a animais, onde se propagavam profusamente, sem qualquer período de incubação, o que contrariava os conhecimentos que tínhamos então sobre os esporozoários.
Duvidei, já naquela época, da possibilidade de classificar esses corpúsculos como coccídeos, mas não foi possível encontrar outra denominação plausível. Durante muitos anos, mantive, em vão, a esperança de poder observar, em São Paulo, algum caso similar. Só muito tempo depois encontrei uma ocorrência que identifiquei de maneira positiva e imediata ao microscópio, ainda que apresentasse poucas semelhanças clínicas com o caso descrito por Wernicke e Posadas.
Apesar dos vários estudos pormenorizados que foram publicados sobre o caso de Buenos Aires, este permaneceu ímpar durante algum tempo, uma verdadeira curiosidade patológica, até que, em 1895, Rixford e Gilchrist publicaram dois casos semelhantes sob o nome de "Protozoan (coccideal) infection of the skin and other organs". Tentativas de cultura e de transmissão resultaram infrutíferas.
A verdadeira natureza da doença foi determinada somente anos mais tarde, quando Ophüls e Moffit, a partir de um caso que apresentava alguma semelhança microscópica, conseguiram isolar, num tecido atingido, um hifomiceto com o qual foi possível provocar, em animais, uma afecção com as mesmas características microscóspicas da doença em questão.
Os três casos mencionados provieram da Califórnia, onde a doença foi observada com freqüência; os atingidos, no entanto, eram estrangeiros.
Depois de despertada a atenção dos dermatologistas norte-americanos, sucederam-se rapidamente, nesse país, diversas publicações sobre a doença; como notou Buschke num trabalho de 1894, o número de casos, após a observação de Gilchrist, subiu rapidamente a 33. Embora Buschke coloque em dúvida certos casos, os quais, suspeita-se, sejam complicações decorrentes de sífilis ou tuberculose, e ainda que, o que duvido, possamos responsabilizar tal circunstância por uma parte dos casos, restariam todavia ocorrências suficientes para demonstrar que se trata não apenas de uma curiosidade patológica, mas de uma doença que merece estudo mais detalhado. Eu mesmo pude rever apenas parte da literatura e, desde então, certamente surgiram novas informações. Não tenho, no entanto, a intenção de acrescentar às observações efetuadas (aos casos descritos) nada além do necessário para a compreensão de minhas próprias observações. Recomendo, por conseguinte [aos interessados], a leitura do material em questão.
Até onde posso depreender da literatura, todos os casos citados surgiram em território americano, o que nos permite concluir serem essas micoses mais numerosas aí do que em outros continentes, onde serão encontradas mais cedo ou mais tarde. De qualquer maneira, estamos autorizados, nem que seja por razões meramente históricas, a denominar essas micoses estudadas unicamente na América como Hyphoblastomycosis americana, aproveitando-nos da classificação e denominação ainda hoje incertas dos parasitas.
Em relação aos casos obtidos através de leveduras puras, como por exemplo as observadas por von Curtis e von Busse na Europa, sugiro substituir a denominação usual de Blastomicosys por Hyphoblastomycosis pois as formas hifo surgem regularmente nas culturas com agentes patogênicos similares aos sacaromicetos.
Os casos da enfermidade observados na América provieram, por um lado, da Califórnia, por outro, principalmente de Chicago. Eram formas benignas, restritas à pele, por isso mesmo observadas, em sua maioria, por dermatologistas; ou então, formas malignas que atingem os órgãos internos, onde surgem antes ou ao mesmo tempo que as formas cutâneas. Na literatura disponível até o presente, descrições de afecções primárias das mucosas surgem apenas raramente. Alguns autores argumentam que as ocorrências de Chicago não se enquadram na mesma categoria dos primeiros casos descritos na Califórnia, pois, além de apresentarem malignidade bastante reduzida, as culturas obtidas a partir delas apresentam características diferentes, o que, por sua vez, é dificilmente admissível.
* Manuscrito inédito, sem data, que parece ser uma nota de pesquisa esboçada por volta de 1908, quando Lutz publicou "Uma micose pseudococcídica localizada na boca e observada no Brasil. Contribuição ao conhecimento das hifoblastomicoses americanas". BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 7, maço 2. [N.E.]
1 A doença, na verdade, foi descrita por ambos os autores, em publicações separadas, em 1892: Alejandro Posadas publicou "Un nuovo caso de micosis fungoides com psorospermias", em Anales dell Circulo Médico Argentino, Buenos Aires, v.15, p.585; Robert Johann Wernicke, por sua vez, publicou, na Alemanha, "Ueber einen Protozoenbefund bei mycosis fungoides" em Centralblatt fur Bakteriologie und Parasitekunde, v.12, p.859-61. Ver a esse respeito ver o glossário no fim deste volume. [N.E.]