Água e bacias hidrográficas: planejamento, gestão e manejo para enfrentamento das crises hídricas
4. Aptidão de bacias hidrográficas
4. Aptidão de bacias
hidrográficas
A identificação da aptidão das bacias hidrográficas é importante para definir os potenciais de uso econômico e/ou ambiental, visando a potencialização dos resultados positivos, com redução dos impactos negativos e manutenção da capacidade produtiva e da qualidade ambiental. A partir dessa identificação é possível definir políticas de planejamento do uso e da ocupação da área, para a melhor gestão das decisões e a adoção de técnicas adequadas de manejo integrado. A definição da aptidão pode ser usada tanto para as grandes bacias como para as pequenas. Uma estratégia recomendável é a divisão da bacia hidrográfica em sub-bacias e microbacias, identificando a aptidão ou aptidões principais em cada um desses níveis.
Embora a gestão ideal deva considerar os usos múltiplos da água, a definição de aptidão para cada área pode contribuir para o planejamento mais eficiente e para obtenção de resultados melhores.
A seguir, apresentamos em termos gerais as principais aptidões.
Abastecimento de água potável
Nesse caso, o recurso natural fundamental é a água, que precisa ter disponibilidade em quantidade e boa qualidade. Os corpos de água precisam ter vazões permanentes e condições adequadas para sua coleta e seu armazenamento. Para que essa aptidão seja mantida ao longo do tempo, a área da bacia precisa ser manejada adequadamente, visando ao aproveitamento máximo das águas pluviais, tanto no que se refere ao armazenamento superficial, quanto em termos de infiltração no solo, para que a água esteja disponível para a recarga das nascentes em períodos com chuvas reduzidas.
Irrigação
Para uma bacia ter essa aptidão, além de dispor de água com qualidade adequada e em volumes suficientes para atendimento da demanda, é preciso que o acesso às águas seja facilitado e que os solos da área sejam férteis, profundos e planos. É necessário ainda que o clima seja favorável às culturas implantadas, que haja infraestrutura de acesso e escoamento das produções e disponibilidade de tecnologias que permitam a irrigação.
Produção agropecuária
Para que uma área tenha essa aptidão, é necessário que apresente solos férteis, profundos e planos (no caso de criações, não precisam necessariamente ser profundos nem planos), condições climáticas adequadas às culturas a serem implantadas ou às criações a serem desenvolvidas, distribuição regular de chuvas, especialmente nas épocas de maior intensidade da produção, ou condições adequadas para irrigação.
Produção florestal
Para que a aptidão de uma área seja definida para implantação de cultivos florestais, ela precisa ter solos férteis, profundos ou com pouca profundidade (nesse caso é preciso definir espécies que se adaptem a essa condição), declividades adequadas (embora aqui possam ser maiores do que aquelas necessárias para produção agrícola) e clima favorável, com distribuição de chuvas adequada.
Aqui cabe destacar que em áreas onde haja mão de obra suficiente e condições para comercialização, podem ser implantados projetos agroflorestais, silvipastoris ou agrossilvipastoris, buscando potencializar o uso do solo e a obtenção de produtos diversificados.
Hidroenergia
Embora no Brasil a geração de energia hidroelétrica seja normalmente feita em rios de bacias hidrográficas que contemplam os mais diversos usos, é possível definir áreas com essa aptidão onde a gestão considere a hidroenergia como a principal atividade. Nesse caso, a bacia precisa ter disponibilidade de água suficiente para essa demanda (e outras, se for o caso), cobertura vegetal adequada (principalmente a nativa), boa distribuição de chuvas ao longo do ano e solos estáveis, especialmente nas áreas onde forem implantados reservatórios.
Ecoturismo
Para essa aptidão, é fundamental que a área tenha recursos naturais ímpares, beleza cênica e/ou patrimônios culturais, sítios históricos e/ou arqueológicos e facilidade de acesso. Os atrativos podem variar, mas, via de regra, o que mais atrai nessa questão é a água. Podemos citar como exemplos brasileiros onde o ecoturismo tem grande importância a bacia do rio Formoso, em Bonito (MS)
(Figura 4.1), a bacia do rio Jacarepepira em Brotas (SP), os rios da Chapada dos Veadeiros (GO) e do cânion do Itaimbezinho (RS).
Figura 4.1 – Rio Formoso no Balneário Municipal de Bonito
(MS)
Fonte: acervo pessoal
Preservação e/ou conservação da
natureza
A definição de uma área com aptidão para preservação necessita que essa esteja ainda com seus recursos naturais intocados ou pouco alterados. Para a conservação, pode haver alguns ajustes em termos de uso da terra, sem, no entanto, alterar as condições naturais da área. Nesses casos, os recursos naturais estratégicos são a flora, a fauna, os solos, as águas, o relevo e as rochas e minerais existentes na área. A manutenção de áreas preservadas e a conservação adequada dos recursos naturais são fundamentais para o equilíbrio dos ciclos hidrogeoquímicos, especialmente o da água.
Para qualquer uma das aptidões descritas é fundamental considerar a importância do manejo integrado, dos usos múltiplos, incluindo a navegação nos corpos de água. É importante também considerar a necessidade de acesso às áreas e os meios para escoamento das produções nas regiões de plantio e criação.