Amor Crioulo

Abel Botelho · Capítulo 7 de 12

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Amor Crioulo

Capítulo VII

 

 

Ás 7 horas precisas da manhã, o Silveira entrava na estação Constitución, com um moço carregando as suas duas ligeiras maletas de touriste e uma chapeleira de coiro; e em vão demandava agora, pelo imenso e sombrio hall, a presença do seu amigo Jorge, que chegou nos últimos momentos, correndo açodado à bilheteira e logo tomando de assalto um dos wagons de 1.ª, já de portinholas cerradas, justo ao tempo em que o silvo da locomotiva arquejante dava o sinal de partida. Cómodamente instalados os dois num compartimento que ia vazio, pronto acendiam os cigarros e, baixando a vidraça, seguiam despreocupadamente o manso e bucólico deslise da paìsagem, na fina aquatinta daquela deliciosa manhã, clara e tranqùila. Primeiro, o complicado e barôco bracejar, o espreguiçamento indefinido do arrabalde da cidade,—tiendas, conventillos, fábricas, riachos, poços, jardins, azoteas sôbre monturos, caliças entre arvoredos,—tudo isto cortado a cada instante pela paragem barulhenta nas estações, tudo riscado de vagos esboços de alinhamentos de ruas, abertas no sólo virgem, e que, longe a longe, raro marcavam apenas, como afoitas vedetas, umas fieiras de casitas sôltas, cada vez mais raras, mais sumárias e mais humildes. Depois, no progressivo despovoamento da planura, vinham os altos tufos desgarrados de eucaliptus, dominantes e protectores como guardiães do deserto, vinham os penachos sussurrantes dos álamos e dos salgueiros, os bosquetes, os telheiros, os ranchos, os sarçais, as lomas de areia; e, contidas na utilitária rêde de inúmeras vedações de arame, as primeiras manadas de gado pastando suavemente. A pastosidade atascadiça do terreno e a vizinhança do mar empapavam de humidade o espaço; a relva fumegava, e as esfumadas tintas do ambiente esbatiam-se numa mortiça e branda deliqùescência, feita de calma e de frescura; passada porêm a estação Ferrari, a linha férrea internava-se, inflectindo marcadamente ao sul, e então o ar ia

alimpando, aquecendo, já as linhas eram mais firmes, os contornos definiam-se, e por fim uma enxuta aleluia matinal realçava e doirava, a perder de vista, aquela rústica pacificação dos homens e das coisas.

O trem seguia sempre pelas suas implacáveis e vibrantes talas de aço, ferralhando, arfando... Ante a gostosa complacência e a interessada atenção do Silveira, o seu amigo, que conhecia naturalmente a região a palmos, ia de espaço apontando panoramas e desfiando pormenores, fazia o cadastro pitoresco do país, obsequiosamente. Até que, andadas assim cêrca de 2 e meia horas, atingiam a encantadora cidadesita de Chascomús. Aqui havia que deixar o trem de ferro para empreenderem caminho a oeste, hora e meia de auto até à estancia Amália, o apetecido termo da viagem. Jorge Saavedra julgou oportuno aproveitar esta mudança para fazerem, antes de seguir adiante, o circuito rápido da linda povoação, marginando a melancólica lagôa que a rodeia por oeste e pelo sul, depois passando frente ao Club de regatas, ao Hospital de São Vicente de Paulo, dando a volta da Praça Municipal, e tornando por fim à beira da lagôa, em piedosa visita ao desmantelado «cemitério vélho», dentro de cuja rocalha carcomida, e por entre a parada fúnebre de ciprestes, destacava a mancha ratada e lívida duma alvenaria simbólica.

Com um sobrecenho comovido e grave, o Saavedra explicou:

—É o moimento à memória dos chamados «bravos do sul», que aqui sucumbiram na famosa jornada de 7 de novembro de 1839, paladinos sublimes do engrandecimento pátrio, pela libertação da sua estremecida terra batendo-se como leões, dando de barato em holocausto a vida.

—Contra quem lutavam êles?

—Era um grande movimento insurrecional organizado contra o tirano Rosas, sabe?... Uma das páginas épicas da nossa história, quáse desconhecida, entretanto, apesar de haver sido escrita com sangue autêntico de heróis.

—E tiveram por cá muito tempo de guerra civil?

—Uns quinze anos, nada menos! Una barbaridad. Felizmente, já não é do meu tempo... Mas êste santo movimento emancipador, aqui, foi a brava seqùência do célebre pronunciamiento de Dolores, cinco dias antes. Tenho-o ouvido contar a papá centos de vezes. Diz êle que êste comovente episódio é dos que mais nos engrandecem, mais nos honram... e que deve ser magnificado como o precursor imortal dos dias gloriosos de Caseros.—E com progressivo e varonil entusiasmo:—Pelos modos, os revolucionários vieram por'í acima capitaneados por Castelli e concentrados primeiro em Dolores, o berço humilde dêste movimento redentor, como lhe disse. E havia um entusiasmo doido! tinha-se o triunfo como certo, contava-se com que as fôrças do temido caudilho Granada se passassem aos revoltosos, esperava-se o refôrço prestigioso de Lavalle,—que sei eu?... A gente de Rosas saltou-lhes ao encontro, mas cá os bravos do sul repeliram-na, apesar de constituir a vanguarda inimiga a famosa cavalaria de Catriel, uma indiada temível! Quando de repente... não sei bem como aquilo foi, parece que houve traição dum capitão... O certo é que, seguros já os revolucionários da vitória, de repente as coisas mudam, a gente de Rosas encurrála-os contra a lagôa, êles resistem, e um a um vão caíndo, raros tendo escapado à morte. Uma coisa bela!—Agora Jorge fremia de raiva, e indignadamente:—Pois, a seguir, êsses brutais vencedores, dignos servos do tirano, todo o dia levaram chacinando, degolando, lanceando a torto e a direito, por essas ruas. Inocentes, vélhos, mulheres, crianças, tudo a eito! Uma vertigem de canibais, macabra, horrível... E foi como ficou assegurado por catorze anos mais o domínio feroz do ditador!

Mas o automóvel deixára a calçada e breve reganhava o campo, internando-se, salteiro e ofegante, no majestoso encanto da solidão, investindo com o desconhecido. Pela carreteira mole e insegura, no seu rodar silencioso, aventurosamente se ia deixando envolver e perder-se no problema insondável da imensidade. Porque à sua ilharga e na sua frente, alargando, crescendo, agrandando sempre, inexorável, monótono, desdobrava agora a sua toalha de fertilidade inexgotável o maior celeiro do mundo,—inestimável manancial de produção e tesouro de abundância em que os nativos firmam a sua imprevidência, os colonos a sua esperança, os mercadores a sua codícia e os milionários a sua riqueza. Começava o desdobramento da interminável steppe argentina, a lendária pampa, essa famosa e imensa planura verde, dum verde característico e próprio, um verde que à fôrça de carregado e sombrio, é quáse azul; assim como, ao alto, o azul da abóbada celeste, a poder de claridade e leveza, é quáse branco; assim como, na sua fecundade palpitante, é quáse negro o sulco rasgado na crôsta húmida da terra. E não há suspensões, córtes, paragens, não há derivação nem termo, nesta avassaladora invasão do Infinito. Por essa divina manhã de outono e sôbre a suave pradaria sem fim, paira a carícia inefável duma poesia dulcíssima... e da luz a diáfana pureza esbate e aparta em cristalinas nuanças a tonalidade cambiante das coisas; aqui, em rústicos e tenros bouquets, as floritas púrpura da luzerna; logo, o verde gordo dos pastos, mosqueado da manchita grisácea ou bistre dos mansos gados, ruminando; mais alêm, definido pela lacrimosa fita dos sauces, o colear rumorejante e claro das ribeiras; ou a nódoa triste dos currais, dos ranchos, das taperas, dos celeiros; ou a imobilizada ondulação das dunas de areia, com a epiderme rugosa e árida estriada pelo vento; ou ainda a ponta lívida das míseras e frágeis carpas dos colonos, grupadas como as tendas dos beduinos no deserto. De raro em raro, sôbre a esmagadora rasoira da solidão virgulando ténues e mal perceptíveis, como infusórios, as cuadrillas minúsculas de peões cingem-se à terra e incessantes moirejam, como formigas,—uns colhendo o milho em sacos, outros acamando o rastolho, outros, mais previdentes, já rastreando, arando... E sôbre a gleba recêm-revôlta, nos ávidos mamilos dessa fresca terra virgem, a bênção gloriosa do sol, como querendo antecipar-se à fecunda labuta do homem, cái e entorna-se, palhetada, coruscante, em pródigas sementeiras de oiro.

No último limite da percepção visual, tam ao largo como pode alcançar a nossa vista cansada e extática, o esmalte pálido do céu e a linha fôsca do horizonte tocam-se, mas não se confundem. São dois antagonismos, são dois infinitos, duas grandes interrogações, tangentes mas opostas, raiando e barrando a tôda a volta a imensidade do espaço, como os dois batentes da incorruptível porta do Mistério. Ao mesmo tempo acontece que, na chata uniformidade dêste solo raso e sombrio, os mínimos acidentes topográficos, os contornos mais insignificantes, um ligeiro médano, uma leve saliência, qualquer ínfimo relêvo, como se projectam inteiros na despejada tela do horizonte, e pela sua mesma raridade, ganham assim valor, crescem, avolumam, assumem dimensões gigantes, e alçam-se e aprumam-se bruscamente, caprichosos, enormes, como solitários ilhéus no berço cavo das ondas. Tal imponente e vago mamelão que ao longe nos aparecia como um punhado ciclópico de rochedos, à medida como depois, fazendo caminho, dêle nos acercamos, vai apequenando, minguando, a aproximação desbasta-o, come-o a realidade, as suas linhas reduzem-se... a termos que, quando lhe passamos perto, temos que verificar por fim, desencantados e tristes, que essa miragem hiperbólica da solidão não era mais que uma modesta mêda de palha ou de feno, uma casota humilde, um pôço, um hangar ou um monte de estrume. Por igual, o ligeiro arcaboiço em ferro das bombas elevadoras de água, com o seu aéreo penacho rodiziando ao vento, figura-se-nos a maciça evocação dalguma lôbrega tôrre feudal, rasgada em seteiras, cingida em barbacãs, coroada de ameias. Há pequenas estancias que parecem cidades, toiças de mato que parecem florestas, simples lomas que parecem montanhas. E por vezes, sôbre o esfumado pedestal dalguma dessas perdidas cumieiras distantes, vinca-se e agranda súbito, monstruosa e negra na claridade sideral do ambiente, qualquer coisa como a mégalítica renovação de algum lendário animal sagrado, e que não é mais entretanto do que a pacífica silhueta dum cavalo ou dum toiro imóvel e sonhador na muda passividade do deserto.

O silêncio é vasto, esmagador e solene como um crépe de olvido, como uma mortalha de sombra... apenas de longe em longe picada pela microscópica nota estrilante, encarnada ou azul, de algum raro saiote feminino. Nesta melancólica extensão sem fim, ténues nuvens grisáceas se desenrolam por vezes e vão correndo... é o penacho arquejante duma locomotiva, é a poeira erguida por uma tropeada abundante de vacas ou de cavalos; mas tudo isto sempre fugaz, miudito e distante, como imponderável, sem importância e sem ruído. E sôbre o domínio infinito da solidão paira um fundo imanente de tristeza. Há tímidos lamentos pelo ar, e os sulcos abertos pelo arado são como as crêspas vibrações duma resignada angústia, duma dôr enfreada e humilde... que é a dôr da própria terra. Porque esta é a terra maravilhosa das bárbaras lendas gauchas, terra de promissão, de paz e amor; terra de humildade e de sacrifício, a terra fatalista, a terra paciente, a terra mártir,— retalhada primeiro pelo aço dos conquistadores, que, empapada de sangue indígena, havia de mais tarde florir na assoberbante iniquidade dos latifúndios; hoje com não menos avassaladora impudência assolada e batida em tôdas as direcções e sentidos, pisoteada pela bota surramposa de tôda a sorte de colonos, violada pela torpe especulação material de tôdas as raças.

A pródiga, a inexgotável, a doce e lendária pampa...

 

Um momento veio em que, à direita e muito ao largo, sôbre uma ligeira ondulação como que assoprada na frialdade jacente da planura eterna, começou a definir-se, a crescer e a afirmar-se potente, na claridade vítrea do céu, uma ampla construção, tarraca e singela, hospitaleira a sorrir entre o arvoredo.

E logo Jorge, convidativo e alegre, alongando o braço:

—Lá está a nossa casa. Pronto vamos chegar. Bem situada, não acha?... Alcança-se a grandes distâncias. E ademais é fácil de reconhecer, por aquele grosso penacho verde-negro que se lhe ergue um pouco à frente, não vê?

—Sim... Distingo perfeitamente.

—É um vélho ombú, não sei quantas vezes secular... um dos raros exemplares que por'í ainda restam desses abomináveis veteranos do deserto.

O Silveira aprumava-se e movia-se a cada instante, buscando concretar impressões, progressivamente interessado; enquanto ao lado dele, Jorge, preguiceiro, indolente, com a sua ligeira ponta de fatuìdade, ia explicando:

—E, sabe o meu amigo? há muito que vamos já caminhando por terras nossas. Tudo isto em volta. Ao redor de seis mil hectares. Não é nada... Mas, em suma, p'ra passatempo chega bem.—E regaladamente, estirando-se mais, tirando o chapéu e com a mão suave acamando o cabelo negro e corredío:—Papá poderia já ter alargado a propriedade, mas não quere. Está contente com o que tem. É que êstes campos p'ra cria de gado são o que há de melhor, porque dão magnífica luzerna; e são igualmente imelhoráveis para tôda a casta de produção agrícola. Tambêm, por isso, reservâmos apenas uma terça parte para nós, e o mais anda tudo p'r'aí assim repartido por essa malta de gringos. O pior é que nem todos são pontuais na renda, há que ser-se duro com êles. Porêm dão vida a estas redondezas e precisamos dos seus braços no fim de contas. Formam uma família já bem numerosa... e por vezes bem incómoda.

Com efeito, para onde quere que o Silveira alongasse, cativado, a vista, invariávelmente ia encontrar, aquecendo o ambiente e salpicando de pitoresco o espaço, a nota viva, rude, impressiva, da utilitária obra do homem: a um lado, sempre a mesma basta e complicada rêde das vedações de arame a dividir os potreros travadas e geométricas como os alvéolos duma colmeia, disciplinados cárceres ao ar livre por onde os contemplativos rebanhos arrastam mansamente a sua vida vegetativa e incerta; ao outro, por igual a mesma intensiva e estreita parcelação da terra, aqui riscada em hortas, vicejando em pomares, vergada ao pêso das colheitas, ali eriçada ainda do rastolho, ou já limpa, revolvida, fresca e fumante, esperando as sementeiras novas. E por tôda a parte tambêm, ao acaso semeadas e dispersas, como tubérculos, rugosas e negras como concreções de tophus bretoejando na uniformidade epidérmica daquele sólo gordo e húmido, destacam as casotas sumárias dos colonos, míseras choças de barro amassado com palha e feno, tendo cavado na frente um pequeno pôço e à ilharga o inseparável forno,—redondo êste, enorme, dominador, como um zimbório, muito liso e claro.

Atingiam agora os dois amigos a gradaria singela de ferro que circunscrevia um tôsco e reduzido esbôço de jardim, frente à almejada estancia. Então o Silveira pôde notar de relance: esta era um grande edifício quadrangular, de modesta elevação e linhas simples, apenas um andar sôbre o térreo, e tudo em alvenaria escaiolada a côr de ervilha. Numerosas portas, tôdas de córte igual, ofereciam acesso ao andar térreo, à altura de cuja cornija uma espécie de farta cobertura de hangar, em zinco ondulado, avançava e corria a tôda a volta, protectoramente tendida sôbre o amplo pasillo, ladrilhado a mosaico e vindo à sua frente apoiar-se em colunas. Depois, transposto o largo portão do jardim, francamente aberto, e dados alguns passos mais, Jorge e o seu hóspede deixavam a espaldas a atormentada silhueta do vélho ombú; e agora, já junto à casa, a projecção aérea do hangar mascarava-lhes a visão do andar superior, e tinham ali ao seu alcance, em baixo, transposto apenas um degrau, o piso sombreado e confortável daquela espécie de garrida galeria andaluza, adornada por vélhos lampiões de cobre, enrediças, gaiolas de canários, faianças com plantas, cadeiras de hamaca e mesitas de vêrga.

Pai Saavedra estava com o mayordomo, no seu escritório,— informou o mucamo que acudiu solícito à entrada dos recêm-vindos. Era a primeira casa à direita do vestíbulo. Jorge pediu vénia por um momento ao amigo e entrou. O tempo suficiente para o Silveira, continuando o seu sucinto exame, notar a ática singeleza e o escrupuloso aceio do pequenino átrio, luminoso, arejado, o brunido soalho em pedra mosqueado de miuditos arabescos, e do estuque cinzento das paredes pendendo em simétrico arranjo cabides, petrechos de caça e armas gentílicas. A face oposta à entrada era tomada tôda por um grande vitral colorido, ocasionalmente aberto, e desvendando assim o risonho patio que no seu interior os sossegados muros da rústica habitação enquadravam ciosamente, —apenas com uma furtada aberta, ao fundo, para a vaga imensidão do campo. Devia ser a cozinha a casa que aí, interrompido o circuìto, formava ângulo, porque à sua porta uma mulher estava pelando aves, sôbre um balseiro fumegante. E não longe, junto ao pôço de gancho e roldana, um peão, arremangado e de lenço ao pescoço, brunia metais de arreios, com um balde entre os joelhos.

Mas já Jorge voltava, risonho, ligeiro, no momento justo em que tambêm o mucamo e um outro peão entravam do jardim, conduzindo as malas.

—Papá está só e morto por vê-lo, amigo. Pase! pase!

E daí a instantes o Silveira colhia o efusivo apêrto de mão dum bom vélho afável, rosado, pequenino, que com uma voz enternecida e confiada lhe dava as bôas vindas.

—Imenso gôsto em conhecê-lo... Que honra, que prazer nos dá! Que bem que fez em vir!

—O prazer, o encanto é todo meu. Estou imensamente reconhecido...

—Como, reconhecido?... Qual! Qué esperanza... Pelo contrário, a nossa gratidão é que é infinita p'ra todos quantos teem a complacente bondade de vir alegrar esta nossa solidão aqui. E quanto ao meu amigo, já sabe... recomendado por Jorge, considere-se da família.

—Isso é dos livros!—exclamou Jorge jovialmente, num aprovativo acêno da cabeça.

E o pai com a mais desafectada naturalidade para o Silveira, simples, insinuante:

—Perdoe-me se o fiz esperar... Este... estava aqui caturrando com o meu mayordomo. Coisas fastidiosas por vezes, mas inevitáveis... coisas práticas. Contas atrasadas que p'r'aí andam... E àmanhã é dia de abater gado.

—É cá p'r'o consumo da estancia,—acudiu obsequioso Jorge, interrompendo.—Dois dias por semana.

—É certo,—mansamente o pai confirmou.—Um serviço corriqueiro, trivial. Pois êstes capatazes são uns atorrantes e vingam-se, sempre que podem, da sua condição subalterna, sacrificando, p'ra nos fazerem dano, os melhores exemplares, ou então mandando abater rêses nocivas, enfêrmas. O demónio! Há que andar sempre em cima dêles. Mucho ojo!

—E um bom rebenque, não seria pior...—completou Jorge, ameaçador, com um gesto expressivo.

Calmo porêm e bonachão, o pai corrigiu suavemente:

—Cala-te! Não digas barbaridades.—Depois, amável e voltado para o Silveira, derivando:—Bem, mas isto não são coisas p'r'o nosso querido hóspede. Vamos ao que lhe interessa. A minha senhora não sei se está... minha filha Célia tampouco. Queria apresentá-lo... Porque,—e num mimalheiro sorriso, indicando Jorge—com êste gran bribón mais, somos aqui tôda a família.

E carinhosamente Jorge, abraçando o pai sôbre os ombros, com uma liberdade e uma irreverência chocantes para os rígidos preconceitos educacionais dum europeu como o Silveira, ripostou:

—Qué rico tipo!

Os miuditos olhos garços do bom vélho molharam-se de ternura; e outra vez voltado para o hóspede, com a mesma acolhedora expressão, bondadoso, aberto:

—Em suma, daqui a um momento juntamo-nos todos à mesa. Vai ver: pouco e ruim... mas sabemos ser amigos, de todo o coração e co'a melhor vontade.

O vélho Saavedra dizia estas coisas com uma familiaridade calorosa e espontânea, com uma simpleza tocante. Era uma figura interessante e invulgar. Vestia todo de negro, tinha um ralo bigodito em escôva, a barbicha grisalha, aparada e têsa por igual, contornava-lhe a face de orelha a orelha, e à volta do imaculado colarinho sem goma enrodilhava-se um farto lenço de setim, como há sessenta anos, negro por igual e retido à frente por um nó com duas pontas. Dois fundos vincos entre os cilios, a clara testa repregada e vibrátil, o cránio mal guarnecido de longas e sedosas cãs, amplo e redondo, denunciavam o homem de pensamento e de sonho, um recto entendimento alumiado por uma ingénua alma. Flagrante espelho desta, os seus pequeninos olhos húmidos, dum verde atenuado e translúcido, eram fontes de doçura, palpitavam duma mobilidade inquieta, mantinham ainda essa fácil emotividade que é o apanágio das crianças. Vibrava pronto, ao sensitivo rodeio das impressões. Os seus lábios eram ungidos de bondade, e tinha o gesto acanhado e infantil das criaturas que menosprezam o mundo, que evitam o convívio social e deliberadamente se mantêem esquivas ao atrito deletério dos homens e das coisas.—Assim entrevisto na meia-tinta austera daquela casa mobilada parcamente, êste doce e pequenino vélho aparecia aos deliciados olhos do Silveira como uma encantadora quimera, um absurdo, uma anómala figura perdida... como algum anacrónico painel já lambido da patine veneranda do passado. Era o vivo e adorável pendant dêsse outro óleo de franco e rude batalhador que êle agora descobria sôbre a maciça secretária de roble, tomando a parede.

Então Jorge, que lhe surpreendeu o movimento, adiantou-se a explicar:

—É meu bisavô, o criador desta estancia.

—Um andaluz inteligente e trabalhador,—acudiu o pai quáse ao mesmo tempo,—mas pobre como Job, que veio p'r'aí assim sem um centavo.

—Felizmente, vejo,—o Silveira julgou oportuno observar,—aqui a fortuna sorriu-lhe.

—Ah, não há dúvida... e êle bem o merecia,—acudiu com desvanecimento o vélho. Depois, espontâneo sempre e afável:— Mas enquanto se não almoça, venha vendo a nossa casa.—Abriu a pequena porta à direita, e, tendo antes feito passar o Silveira:—Aqui tem... este... a nossa biblioteca.

Um severo e discreto compartimento, recebendo luz apenas do hangar exterior e totalmente vestido em volta por uma alta cinta de estantes de carvalho, em cujas prateleiras bambas um milhar de sonolentos volumes se alinhava gravemente. Do escasso trecho de parede sôbre uma das portas pendia uma litografia detestável de Domingo Sarmiento. Sôbre a estirada mesa de leitura havia desparramadas algumas pequenas estantes de dobradiça e um grande e aparatoso tinteiro, coroado por um Napoleão de bronze com um termómetro no tórax e um relógio no ventre.

Entretanto o bom vélho, complacente e palreiro:

—Não passa dum gabinete de leitura modesto, uma tentativa, um esbôço, um ensaio, como vê... Mas há aí de tudo um pouco: filosofia, literatura, jurisprudência, viagens. O agradável e o útil. E as melhores Revistas e alguns livros portuguezes. De sorte que, já sabe, quando esteja aborrecido de nós ou lhe apeteça isolar-se, é êste o cantinho que lhe convêm. Os livros é que nunca nos pregam lata; a gente larga-os sem cerimónia, quando muito bem quere. E ainda são os nossos melhores amigos.

Mas aqui Jorge interveio, e com vivacidade:

—Papá, lembra-te de que o nosso hóspede há-de querer lavar-se, mudar de roupa...

—Ah, sim... este... perdão! Vamos então levá-lo ao seu quarto. Fica-lhe aqui já, no seguimento para o interior. Aí à direita é o meu arquivo.

Abriu outra porta, à esquerda, e entrou com os dois amigos numa ampla peça, fresca e clara, tendida de cassas e cretonnes e mobilada a pinho de Flandres, com duas janelas abrindo para o campo e, fronteira, uma porta sôbre o patio interior.

—Veja se lhe agrada.

—Oh, sr. Saavedra...

—Tem que se contentar, melhor não lhe podemos oferecer. Mas, veja... comunicação directa com a biblioteca, e ali a seguir, toilette, banho e mais serviço. Creio que aqui assim na planta baja sempre fica mais em liberdade e mais cómodo. Mesmo nós no piso alto, que dispõe de menos espaço, não temos senão os quartos da família. Quere dizer, há uma única excepção: os aposentos dessa endiabrada Miquêtas... que, a bem dizer, família é tambêm.—E batendo com as mãos em concha e sorrindo, na lisonjeira evocação duma pessoa querida:—É o benjamin da casa. O que ela faz... o que aquilo diz, imagina e inventa! Um vivo demónio!

E logo Jorge no mesmo admirativo tom para o Silveira:

—É a prima Maria Mercedes. Não lhe dizia eu?...

Pouco depois do meio-dia, a grande sineta do pátio tangia para o almôço. Tendo acabado de ajustar a gravata e enfiar os anéis, e dada uma última casquilha mirada ao espelho, o Silveira abriu a porta do seu quarto e transpôs compassadamente os geométricos canteiros, debruados de buxo e salpicados de japoneiras, aucubas, pitcarnias, cravos, rosas e malmequeres, seguindo diagonalmente em direcção ao pôço, a cortar caminho para atingir o comedor, que lhe ficava no recanto em frente, a entestar com a cozinha. Dentro estavam já Toríbio Saavedra e a mulher, que recebeu o Silveira carinhosamente.—Era uma grande senhora adiposa e obêsa, um monolito ambulante, o crasso busto sumido na montanha enxundiosa dos quadris, os braços maciços e curtos, as mãos como palmoiras. Tinha uns longos lábios froixos, a face pendente, e o assetinado fulgor dos olhos castanhos perdia-se afogado na papugem abundante das olheiras. Tôda de negro, como o marido, com o volumoso espaldão dos ombros resguardado por uma capota ligeira de veludo. O seu ar era repousado e lânguido como o das criaturas que se sentem instaladas na vida cómodamente, sem alternativas, angústias, apetites, preocupações nem ódios. O seu aspecto desprendido e plácido apenas estava desmentido por um antitético resíduo de vélhos e irredutíveis coquetismos no colar de grossas pérolas que em vão tentava remoçar-lhe as pelhancosas estrias do pescoço, bem como na origem, claramente industrial, do loiro inalterável do cabelo.

Tomou ela a cabeceira da mesa, ao passo que, cerimonioso e lento, o Silveira entendeu dever manter-se a distância, apoiando maquinalmente as mãos sôbre o espaldar da cadeira que aí lhe correspondia, como no íntimo desígnio de quedar-se ali. Mas súbito, sorridente e num piedoso alarme, a dona da casa:

—Ah, não, não meu caro sr.... aí não! Êsse é o logar da Miquêtas. Conservamos-lho sempre... como se ela esteja. Queira tomar assento aqui.

E indicou-lhe o logar de honra, à sua direita, que o Silveira acudiu a ocupar, pressurosamente. Entrou neste momento, do pátio, Célia,— uma joven de aspecto bisonho e triste, o busto dobrado, os olhos baixos, flácida, delgada, ictérica. Vestia blusa branca e uma singela saia de côr indecisa, e da mesma indecisa e mortiça côr tinha a epiderme, os olhos, os lábios e o cabelo, lambido como um penteado de colegial e repuxado à nuca. Quando lhe apresentaram o Silveira, dobrou-se mais, baixando as pálpebras, cortejou a distância, sem lhe estender a mão e sentou-se logo à esquerda da mãe diante dêle.

Entretanto pai Saavedra vinha tomar logar ao lado do hóspede, e desdobrando o guardanapo com ímpeto, alegre, menineiro:

—Vamos a isto, que são horas!

Uma criadita começou servindo carnes frias; e para o Silveira, muito atenta, D. Teresa:

—Não lhe podemos aqui oferecer grandes mimos culinários... tem que desculpar... porêm um bom puchero, isso sim! como certamente não come na cidade.

Imediatamente o vélho Saavedra lhe pedia para avançar o copo, e vertia nêle com afectuosa solenidade um vélho Jerez «como não havia de encontrar muito». Só de casa tinha quarenta anos. E de passo explanou-se falando sôbre as apregoadas excelências e virtudes do Madeira—que êle apenas conhecia vagamente... um vinho de reputação mundial e ali na Argentina quáse desconhecido.

—Ah, é um vinho precioso, divino!—exclamou o Silveira com orgulho, dealbando os olhos.—P'ra mim é superior ao Jerez... ao mesmo Pôrto. É mais aromático, mais gordo, mais suave.

E prometeu presenteá-los com uma porção de garrafas, que ia já no primeiro correio pedir a um seu amigo.

—E de doce não gosta?—tornou solícita e voltando-se para êle, D. Teresa, entre duas garfadas.

—Bastante.

—Pois nesse particular é que poderemos ser-lhe agradáveis. Em doces de cozinha especialmente...—E com mimada ufania, apontando a filha:—Aqui tem uma especialista.

—Não digas isso, mamita!—gaguejou Célia ariscamente, retraíndo-se e como querendo anular-se sob a mesa.

Mas, sem dar tento de ouvi-la, sempre no mesmo tom mimalheiro a mãe a insistir:

—Quando está de maré faz um dulce de leche, uns huevos quimbos, como não é possível imaginar melhor.—E ante a modesta esquivança da filha:—Verdad!—Depois, mirando-a amorávelmente: —Quem te não fez freira!

Mas agora D. Toríbio, que não cessava de, a curtos intervalos, olhar com impaciência a porta em frente dêle, murmurou contrariado:

—Que haverá passado a êsse Jorge, que não aparece?

Grande algarada entretanto no exterior. A terra estremecia ligeiramente, como sacudida pelas atenuadas vibrações dalgum terremoto distante, e de envolta com a trémula comoção dêsse largo abalo, montava, crescia e espirulava grossa pelo ar uma difusa e vaga ressonância, que parecia feita de vozes humanas, saltos, roncos, mugidos, tropeadas brutas de animais, e choques bruscos de ferragens.

Poucos minutos depois, entrou finalmente Jorge ao comedor, e vivo e cortês, enquanto se sentava ao lado da irmã:

—Peço perdão se venho em atraso... Demorei-me a ver passar essa tropilla que se va al rodeo. Não ouvem?...

—Ouvimos, ouvimos, sim...—contestou D. Toríbio, já tranqùilo.—E então?...

—Não sei... vi só de relance. Porêm tenho o ôlho bem experimentado... havia ali grandes falhas.

—Estás sempre imaginando o pior.

—Muito roubada ia, papá... podes crêr! Por exemplo, das nossas vaquillonas Shorthorn não vi nem meia! E eu sei donde nos vem o dano...

—Bem, bem...—conciliadora a mãe rematou.—Senta-te e come. Seja que não seja, não é ocasião agora p'ra nos azedarmos com retaliações e suspeitas; estamos à mesa.

Terminada a frugal refeição, Jorge opinou irem tomar o café ao ar livre. Breve vinham buscar logar fóra, naquele aconchegado e tranqùilo recanto ao abrigo do ressalto da azotea, entre o pequeno pôço e a cozinha. Meia dúzia de cadeiras de vêrga de ferro, pintadas a verde, rodeavam uma tôsca mesa de eucaliptus, em volta da qual os cinco se sentaram indiferentemente. O Silveira, porêm, para melhor poder observar o recinto, postára-se de costas junto à parede; e então pôde notar que, à sua ilharga e um pouco arredada, u, entre o pequeno pôço e a cozinha. Meia dúzia de cadeiras de vêrga de ferro, pintadas a verde, rodeavam uma tôsca mesa de eucaliptus, em volta da qual os cinco se sentaram indiferentemente. O Silveira, porêm, para melhor poder observar o recinto, postára-se de costas junto à parede; e então pôde notar que, à sua ilharga e um pouco arredada, uma outra cadeira havia, porêm esta mais confortável, ampla e de aparatoso espaldar com a cabeceira acolxoada, e tendo mais, na protectora concha dos braços, duas almofadas de setineta azul guarnecidas com renda de bilros, molemente adormecidas.

—É a cadeira da nossa Miquêtas...—murmurou D. Teresa com meiguice—Todo aquele preparo, veja... Chamamos-lhe a menina das almofadas. É uma comodista!

Pairava um suave e acariciador ambiente, uma lisa atmosfera de sonho, de calma e de beatitude. Aquele quadradito horto, fechado por espêssas e mudas paredes, matizado de flores quietas e tristes, parecia a remota e nostálgica evocação dalgum claustro, furtando o espírito à realidade, transportando-o a um outro mundo... Nessa embaladora hora de sésta, a majestade do silêncio amigo apenas era cortada pelos vagos sussurros tilintantes que vinham da cópa e da cozinha. E, oposta a esta, via agora o Silveira a caixa da escada para o andar superior, o qual, em cima, acanhadito e modesto se desenhava, mas tomando apenas parte da casa, pouco mais do que a frente. Rodeava-o a tôda a volta uma garrida varanda, de grades de madeira, em profusão festoada de arbustos, e vestida e enredada de trepadeiras, por entre cuja engalanada opulência as floritas maceradas da balsamina, embebedando o ar, rompiam abundantes, e onde alegre e crepitante saltava a mancha escarlate das estrelas federales, grandes como girasóis, com os seus estames de oiro, e as longas pétalas aveludadas e sangrantes como tiras de púrpura.

Então com repousada familiaridade D. Teresa aventurou:

—Que tal encontra o nosso refúgio?

—Delicioso, minha senhora. A mim parece-me completo.

Mas logo Célia, com uma mansidão em certo modo implicante, tomando a chávena da bandeja que a serva lhe oferecia:

—Ah, isso é que não! Peço desculpa, mas não estou conforme. P'ra completo falta-lhe alguma coisa.

—Vossa excelência dirá...

—Pois então não salta aos olhos? Esta casa, tal como é, quero-lhe muito... é claro. Mas nem por isso deixo de convir que ela não passa duma acumulação semsabor de enojosas coisas materiais. Nada que nos fale à alma, que nos aqueça o coração, que nos eleve o espírito... Não há uma nota de ídeal, um qualquer motivo religioso... um painel, uma cruz, uma capela.

—Onde vês tu por'í capelas ? - observou D. Toríbio, sorrindo burlonamente.

—Ó papá! por tôda a parte... menos aqui. Não vês aí, a não mais de oitenta quadras, na colónia Esperanza? E na estancia das Argerich, e na das Moreno?... Dize antes que não queres.

—Tem paciência, minha filha, mas eu sou um grande cultor do passado: o que quero é conservar íntegro e singelo, tal como recebi, êsse nosso ninho. P'ra que deturpá-lo agora com enxertos?

—Meu pai, que profanação!

—Profanação seria desfigurarmos com excrescências dispensáveis a amiga pureza tradicional de coisas com que fomos criados.

—E de muito mau gôsto,—sublinhou Jorge com impertinência, traçando as pernas.

—Todavia teem-se farto de construir p'r'aí assim tôdas essas bisarmas de cabañas, depósitos, armazêns e celeiros.

—É lá ao largo, filha. E são coisas precisas.

—A religião não o é menos,—acudiu pronto Célia; e como que logo arrependida dêste súbito ímpeto de vivacidade, suasiva e mansa reatou:—Pois então, por exemplo, aqui ao fundo e do lado de lá, formando esquina, uma simples ermidita não ficava tam bem?

—Cortava o trânsito.

—Ainda ficava espaço bastante. Sr. Silveira, que lhe parece?

Colhido de golpe por esta interrogação, que era uma evidente demanda de auxílio, o Silveira titubeou um instante; mas logo, afável e galante, recobrando-se:

—Eu em assunto de tamanha transcendência não sei, realmente... não queria atrever-me a emitir opinião. Parece-me entretanto que se poderia... sem nada quitar ao carácter desta adorável construção...

—Como? como?...—fez Célia, muito interessada, adiantando-se e abandonando a chávena sôbre a mesa.

—Fazer um pouco como na Europa... lá pelas nossas terras. O traço da conciliação seria talvez erigir por'í assim um retábulo em azulejo, figurando a divindade de sua maior devoção, e que saltasse, nada mais, da esquina dum muro ou embutido na parede.

—É certo!

—E então com uma lampadasinha à frente, tôda a noite acêsa, até teria um certo cachet.

—Como compreendeu bem o meu pensamento!—exclamou Célia, erguendo as mãos em êxtase, enternecidamente, os olhos húmidos, e a um e outro lado movendo-se com presteza, alegre, triunfante:— Valeu, papá?... Mamita, ouviste?...—E batendo palmas:—Seria lindo!

Depois, vibrando ainda na exultante comoção e notando a tímida bandada de avesitas que manso e manso de roda dela vinham abatendo-se:

—Ai, que já me esquecia das minhas inocentes amiguinhas! Dispensem-me, sim?

Atravessando o pátio, subiu num relance ao primeiro andar; e daí a instantes esta apagada e ascética figura reaparecia ao alto momentâneamente aquecida e chegando a parecer formosa, no enquadramento rústico da varanda, donde o seu braço amorável começou espargindo bagoadas de arroz e punhados de milho sôbre a graciosa farândola de chuños, viuvitas, tarambolas, flamingos e pombas, que pedinchonas e ávidas se abatiam sôbre o terreiro, patitando, volitando, ruflando...

Havia que organizar o programa da tarde. Mas de repente o céu encapotára e o vento forte de oeste presagiava tormenta. Sinalou D. Toríbio o fenómeno com desgôsto, bordando lástimas sôbre aquela tremenda instabilidade do clima regional, em que não havia nunca que ter confiança, «nem mesmo no outono, a melhor quadra do ano». Assim, embora Jorge tivesse até já mandado aparelhar dois cavalos para uma saltada ao campo, foi julgado como de mais prudente aviso não saírem e entreter o resto do dia num exame mais detido à estancia.

Tomados os chapéus, e tendo pedido vénia às senhoras, D. Toríbio e os dois jovens encaminharam-se então à suave atracção do campo, tomando aquela aberta posterior do pátio e dando o flanco à cozinha. E logo aí havia a notar, entestando com esta diagonalmente, uma espécie de longo e raso aqueduto, em tijolo, que disparava depois rectilíneo e rasteiro pela lisa planura sem termo, até ir mergulhar e perder-se por fim num fechado penacho de eucaliptus, longe, muito longe, já no esfumaçamento vago da distância.—Era o encanamento que trazia a água para toda a sorte de usos domésticos. O vélho pôço do pátio para pouco mais servia do que para regas... estava condenado.

Depois a seguir prolongava-se paralelamente, a um e outro lado, uma dupla fita de leves, sàdias, frescas e arrogantes construções, dando a nota actual, porêm mantidas tôdas, no mesmo enfiamento das paredes da casa primitiva. Eram a carapaça industrial da estancia, o seu fecundo traço de união com o utilitário credo do presente, os maravilhosos instrumentos, ali, desta subjugante caudal de energias duma nova raça, que são o segrêdo do portentoso milagre da prosperidade argentina. Era o hino fulvo da riqueza, o allegreto vivace da abundância. À esquerda, sorriam os rubros tôldos e as alvenarias deslumbrantes das cavalariças, estábulos e curralões para gado, erguiam-se as afusadas torricellas e mirantes da fábrica de lacticínios, das várias cabañas, tambos e celeiros. Vinham de dentro perfumadas, tépidas emanações de feno e de amôjo, um genésico alento, um ar criador, um bafo gordo e tenro acusando o protéico germinar da vida. Quando os três passavam, do brunido tejadilho dum haras surdiu e avançou para êles, coquetona, mimalheira, familiar, uma linda e enxuta cabeça de cavalo castanho. Jorge acudiu desvanecido:

—É o meu rico Emir... um autêntico meio-sangue, um corredor de primeira. Que dizes, mi valiente?

E do lindo animal acariciou o focinho brincalhão, vibrátil, em curtas pancaditas, suavemente.

Passando ao lado fronteiro, aí as instalações novas, nas suas apagadas côres, na sua arquitectura sumária e rude, tinham o que quere que fôsse de mais poderoso e mais severo. Singelos e amplos armazêns, por vezes simples hangars cobertos de zinco e telha de Marselha, eram contudo o centro propulsor, a potente fonte dinâmica de tôda aquela parada enorme de trabalho. Ali se alinhavam por dezenas as carretas de mão, os grandes camions, as zôrras e as locomotoras, brunidas, scintilantes; depois havia os grandes aparelhos geradores da energia eléctrica, duas máquinas desgranadoras para descascar o milho, uma esquiladora para a tosquia de lãs, três trilladoras para apartar o trigo, a luzerna e o linho; e, a seguir, os intermináveis depósitos dos produtos habituais do país,—o milho em pirâmides colossais, o trigo empilhado em sacos, a luzerna e o linho acamados sôbre a lisa sucessão dos mostradores, esperando a secagem definitiva.—O vélho Saavedra, passando orgulhoso em revista êste formidável organismo industrial, parecia remoçado, ia acumulando detalhes, multiplicava as instruções, fazia pôr a seu tempo cada peça em movimento; extasiava-se e como que se identificava com tôda aquela batida vibrante de luz e de ruídos, com o engrenar suave das rodagens, a galopada arfante dos metais, o alucinado sôpro das turbinas. E então, fatigado a espaços mas não vencido, parava e encolhia os ombros, sorridente:

—Isto já não são coisas pr'a mim... Mas, que remédio! se êste meu filho de nada quere saber...

—Eu nunca, papá, poderia substituir-te capazmente,—advertiu Jorge, num parêntesis hipócrita de modéstia.

Mas logo o pai com carinhoso desdêm:

—Vós, os rapazes de hoje, não valeis nada!

Porêm a atenção do Silveira fatigava-se e ao seu carácter volteiro e indócil êste rígido e automático aparato industrial interessava-o mediocremente.

Às 5 horas, outra vez no mesmo aconchegado recanto do pátio, reùniam-se a tomar mate. Desta vez, por uma atenção especial para com o novo hóspede, a tradicional bebida foi servida, não na lisa concha habitual, porêm numa antiga cabacita de prata, vélha não mais de cincoenta anos, modesta data que entretanto, perante o ingénuo critério dêste país nascente, assumia fóros dum raro valor arqueológico. Foi a preciosa peça trazida da étagère envidraçada do salão, onde em religioso recato era conservada com outros mimos mais e saùdosas relíquias de família. Era duma cinzeladura rudimentar. O seu redondito bôjo assentava sôbre um tripé de cabeças de grifos estilizadas, e ostentava no anverso, emergindo triunfal dum entrelaçamento gordo de folhagens, o suave escudo argentino.—Depois de cuidadosamente escaldada, D. Tereza verteu-lhe pelo afunilado gargalo a rica infusão do mate a ferver, introduziu-lhe uma cânula tambêm de prata com o fundo em crivo,— a clássica bombilla,—e logo de oferecer obsequiosamente o inédito aparelho ao Silveira, que, na sua titubeante inexperiência de sucção da bombilla, queimou a língua, apressando-se a passar o bárbaro instrumento à dona da casa. Os circunstantes sorriram ao observar o cómico efeito, por demais esperado, da desastrada iniciação do recêm-vindo. Mas logo se repuseram. E agora a preciosa tacita foi passando de mão em mão, e lábios após lábios foram sucessivamente abocando sem escrúpulo o mesmo tubo aspirador como quem se desobriga dum rito sagrado, num recolhimento quáse solene, num inalterável silêncio, de longe e apenas vagamente cortado pelo mugido das vacas e o balar dos cordeiritos que vinham dos curralões distantes.

A seguir, por uma natural expansão neste ambiente de pacificação cordeal que a familiar cerimónia desdobrára, a bisarmal D. Teresa deu conta do seu piedoso giro de manhã. E naquele bondadoso ar habitual, repousado e manso, convictamente impôs ao marido:

—Já outro dia to disse, tem paciência... mas há que perdoar a renda a êsse pobre Juan Valério. Que desgraçada gente! Se tu visses...

—Mais outro?—balbuciou o vélho Saavedra com fastio.

—Êle está com um antraz, tolhido, roído de febre... bem sabes.

—Então não lho queimaram?—atalhou Jorge, numa ligeira impaciência.

—Sim, porêm já tarde, infelizmente! Parece que não escapa. Que vai a pobre da mulher fazer?

—Tem os filhos.

—Que filhos? Não blasfémes. O mais vélho, depois daquele desastre na via-férrea, ficou sem uma perna. E nem um centavo lhe deram de indemnização. A filha desarvorou com uno tal por cual... O mais moço foi de conscrito.

—Há-de voltar.

—E enquanto não volta?—acudiu Célia com carinho.

Seguiu-se uma breve pausa de embaraço. D. Toríbio, agora silencioso, bamboava o busto hesitante, e os seus pequeninos olhos verdes adoçavam, molhavam-se de ternura. Por fim, com maligno sarcasmo, Jorge:

—Bem, bem, mamita... perdôa-me que te diga... mas o certo é que estamos aqui à mercê da ganância de todo o gaucho vividor. Por êste andar, daqui a pouco seremos nós que teremos que pedir por esmola aos nossos colonos que nos dêem algo com que viver!

E levantou-se sacudidamente.

Um novo silêncio se abriu, arreliativo, apremiante, o qual Jorge aproveitou para senhorear-se do Silveira e levá-lo consigo, atravessando pronto o pátio e logo alcançando a desafogada galeria da entrada, onde êle se atirou aborrecido para uma cadeira de hamaca e acendeu um cigarro. Das nuvens grisáceas e rasteiras caíam os primeiros salpicos de água, e o joven Saavedra lamentou que o tempo os embromase por aquela forma, impedindo-os de sair, logo no dia da chegada. Lamentou-se igualmente da insuportável monotonia e da extensão sem termo, ali, das noites. Bocejou e alongou preguiceiramente os braços, numa mole distensão de tédio. Mas logo, insinuante, gaiato, aprumando-se e assentando familiar a palma da mão sôbre a coxa do amigo:—Que não lhe désse cuidado! êle sabia bem como e aonde amenizar um pouco a coisa... Os vélhos recolhiam cedo, ficavam os dois em liberdade; e então nada os impedia de irem por'í onde melhor quadrasse... Tambêm havia meio de farrear pelo campo, correndo essa chinería em roda.—E, como antecipado aperitivo, já o inflamado mocetão deblaterava e fazia correr a visão de vários episódios patuscos, ante o ôlho lúbrico do amigo.

À noite, sôbre o jantar, passou o pequeno grupo ao salão de recibo, —o primeiro compartimento à esquerda do vestíbulo, na frente da casa.—Uma arcaica mobília estofada, envôlta em protectoras lonas; fogão de aparatoso friso em escaiola, simulando mármore, com relógio e castiçaes de prata; fronteiro, sôbre o sofá, um grande espelho com a moldura ratada; quadritos a missanga pelas paredes, e, sôbre dois singelos tremós doirados, vasos barôcos de antiga porcelana, com flores de cera sob redomas de vidro.—Logo de entrada o vélho Saavedra, correndo a um armário e com os olhitos codiciosos, invitou para uma partida de xadrez o Silveira, que declinou com mal dissimulado horror a iminente estopada. Entretanto, D. Teresa vinha abater-se em pêso sôbre o queixoso sofá, que se enrugou, gemendo; e chamava para o fauteuil ao lado o hóspede, a interrogá-lo sôbre coisas de Portugal. Da mesma forma, Célia, jucundamente posto agora de parte o seu aspecto bisonho e arisco, tomada de súbita e grata simpatia por êste galhardo advogado, ao almôço, do seu desejo, interpelava-o com piedoso interêsse sôbre os lindos templos que lá devia haver, na sua terra... e preciosíssimas alfaias religiosas, relíquias autênticas, oiros, pratas, pedrarias, magníficos tesouros.—Desvanecido e importante, o Silveira fazia acenos aprovativos de cabeça: falou na custódia dos Jerónimos, nos retábulos da Madre de Deus, nos paramentos de Mafra, nas riquezas de S. Roque. E íntimamente maravilhava-se daquela sua esporádica explosão de patriótica sciência.

Por seu turno então D. Toríbio, espontâneo, afável, acudindo gostoso à deixa:

—Ah, não há dúvida, Lisboa é uma linda cidade, e é um admirável povo, o português!

O Silveira soergueu-se e dobrou-se numa lambida mesura. E o bravo pai Saavedra, confirmando:

—É certo! Os senhores, sonhadores e plácidos como são, teem um grande espírito de iniciativa. Eu sou insuspeito. Este... Veja o meu amigo... Eu descendo de espanhóis, tenho algo dêsse sangue impetuoso e ardente da terra que é o símbolo vivo da bravura, o berço esplendente da alegria, da arte e da beleza. Sou um admirador incondicional e formo ainda um rebento distante dessa formidável, cavalheiresca e valente Espanha, pátria do amor, filha do sol, senhora do mar, nodriza de mundos! Contudo sou o primeiro a reconhecer, e tenho o maior prazer em dar disso público testemunho, que o progresso social da nação lusitana leva bem um século de dianteira ao dos outros povos ibéricos.

—Demasiada amabilidade...

—Quere ver?... Max Nordau tem razão... Ainda durante dois séculos o muezzin havia de continuar a evocar os crentes maometanos em Sevilha, em Granada, em Córdoba, quando já o vosso Afonso III repelira dos Algarves o último rei moiro. Meio século antes que Colombo, de país para país correndo, como um mendigo, obtivesse dos reis católicos as caravelas com que veio descobrir a América, já o Infante D. Henrique descobrira as costas de África té muito alêm do Equador. Muito antes que Carlos V levasse a bandeira espanhola para alêm do Mediterrâneo, Portugal conquistava Ceuta. Pombal expulsou de Portugal os jesuítas, quando ainda em Espanha luziriam sinistras por muito tempo as fogueiras dos autos de fé. Portugal foi dos primeiros países a repudiar a pena de morte, a abolir a escravatura; e últimamente, renegando os vélhos dogmas centralistas de tôda essa Europa rígida e feudal, adiantou-se a formar com a Suíça e a França uma valente trilogia democrática. Não é tudo isto verdade?... Aqui tem, meu caro amigo... este... porque eu tanto os aprecio e admiro!

Não foi muito do agrado do Silveira êste fecho revolucionário da apologética parlenda; contudo, como réplica obrigada, espraiou-se êle então em lisongeiros encarecimentos bordados sôbre a formidável exuberância e o vertiginoso progresso «da admirável nação argentina». Entretanto, êsse bom calavera de Jorge aproveitára o giro erudito da palestra para escapulir-se. E aí estava agora Célia de novo a contas com o pai, litigiando a favor da sua litúrgica birra.—Que tinha um nome demasiado profano a estancia. Era até um repto de orgulho feito ao céu. Forçoso baptizá-la.—O pai torcia-se contrariado, desfiava perante a piedosa querença da filha todo um rosário de ponderosas objecções, mastigava, opunha-se.

—Não, filha, que idéa! Bem vês, não pode ser. Sabes que êste grande nome, Amália, justamente consagrado aqui como em tôda a rèpública, não é o caso dum nome banal, não é uma designação anodina, arbitrária, familiar, pueril, não! Tem a sua santidade tambêm... é um símbolo de dedicação e heroísmo, evoca uma das páginas mais impressionantes da nossa história.

Porêm já mãe e filha, sem darem maior tento à resistência formalista do bom vélho, com cuja doce aquiescência, contavam, afinal, tudo era discutirem agora e esmiuçarem meticulosamente qual dos cerúleos habitantes deveria como futuro patrono da estancia merecer-lhes a preferência. E tinham dúvidas, hesitações, receios. —Talvez a adorável Virgen del Pilar, duma lenda tam popular e tam poética... Contudo, a Virgen del Carmen tinha mais tradição crioula. Ou então seria melhor San Lorenzo, protector das bôas colheitas. E porque não Santa Bárbara, advogada contra as tormentas?

Ao que, trocista e afável, o bom vélho Saavedra:

—Este... já agora, p'ra que ninguêm lá no céu fique descontente, chamem-lhe—De todos los Santos.

Por fim, a cortar cérce a dificuldade, os três foram unânimes em convir que a Miquêtas decidiria.

E sôbre êste ditame conciliador a patriarcal tertulia fechou, por aquela noite. D. Teresa ergueu-se pesadamente, com austera gravidade obtemperando—que já eram as dez passadas... havia que despertar cedo, ali: ela para os seus pobres, o marido para a peonada do campo.—Depois, já fóra, no vestíbulo, e como última das solícitas indicações com que a bondadosa senhora despediu o Silveira, aconselhou com carinho—que, em suma, a estação já ia avançada... mas em todo o caso, pelo sim, pelo não, que não se esquecesse de cerrar o mosquiteiro.

 

Neste acolhedor ambiente de límpida cordealidade e benéfico repouso foram decorrendo para o Silveira deliciosamente os dias. Ali êle encontrava uma íntima e perfeita conformidade entre a amiga efusão das almas e o afago tranqùilo das coisas. Embalavam-no na mesma onda de beatitude e carinho, o sorriso afável das figuras e a placidez infinita da paìsagem,—aqui tam diversa das fragoeiras e montanhosas agruras dos cêrros da sua terra. Tinha uma vida leve, encantadora, fácil, vida de confiança e olvido. E todo êste suave meio, abundante em agrados e repassado de inédito, trazia ao seu ser moral e físico um salutar estímulo.

Assim, logo em cada antemanhã, aí estava êle a cavalo e partia, de ordinário com Jorge, ou com o mayordomo, a surpreender na sua complexidade pitoresca, na sua poesia sádia e rústica, a labuta áspera do campo. Pelas manhãs limpas e claras, ainda mal o oriente aquecia da carícia auroral do sol, e já êle seguia com algum capataz a verificar o estado dos alambrados, a revizar e contar o gado. Assistia ao apartar das rêses, aprendia a ferrar, a castrar, a carnear, a investir, a atirar o laço. Muita vez então êle estacava, e, com mal contida inveja, quedava-se em admirativa contemplação perante a nobre silhueta dalgum paisano montado que passava arrogante e viril a aprumar-se e a crescer na lisura uniforme da planície. Encontrava realmente belas, impressivas, soberbas de linha, de ímpeto e de carácter, cada uma destas rudes e íntegras figuras, curtidas pelo ar, tisnadas pelo sol,—mescla de oiro e bronze, e como o mesmo bronze duras e indobráveis,— envaginadas toscamente na sua singela blusa e na bombacha ou enfiando o poncho; ao pescoço, com um nó à frente, o indispensável lenço enrolado; protectoramente a cabeça envôlta nas grandes abas do clássico chambergo; do cinturão, sôbre os rins, o inseparável cuchillo colgado, e o laço e as boleadoras na garupa; as retêsas botas coladas e firmes sôbre os aparatosos estribos, de tábua ou de coiro, profusamente rendados de guarnições de prata. E então, naturalmente, ao vêl-lo assim contemplativo e atento, Jorge orgulhava-se e compartia daquela admiração complacente do amigo. Logo, comprazia-se na exaltada apologia dêsses centauros errantes da planura, completava-lhes a fisionomia moral, enaltecia a sua bravura, a sua generosidade, a sua altivez, o seu desprendimento, o seu desprêzo estóico pelo dinheiro, a sua resignada submissão ao destino. Galopando eram um turbilhão, parados eram estátuas. E acumulava pormenores, desfiava anecdotas.—Jàmais consentem que les pisen el poncho. Eram de sua natureza altercadores e brigões, cultivando apaixonadamente, como um sport, tôdas as várias formas da luta, porêm nunca a sua lisa alma abrigava o rancor e poucos baixavam ao crime. Cada um dêstes bravos senhores do deserto poderá dar um herói, raro um facínora. Uma vez vencedor desinteressa-se pronto do vencido, que desdenhoso se limita, quando muito, a marcar com o estigma cortante dalgum tajo en el rostro, um simples barbijo.

Mas, breve, com o glorioso avançar do dia apertava o calor, e então quáse certo era irem os dois amigos demandar por um instante o confortável refúgio de algum dêsses humildes ranchos dos colonos agrícolas, sumaríssimas construções de palha e barro, tímidas e míseras palhoças que abrigavam sob o teto, raso e intonso, uma vida tam elementar como as suas paredes eram primitivas. Ausência quáse total de mobília, reduzida a alguns polidos cránios de vaca servindo de assento, e a raros catres ou esteiras sôltas sôbre a terra nua. A alimentação parca e simples, por igual: carne, pão, mate, açúcar, e mais um pouco de arroz nos dias de festa. Um campo rudimentar de acção e um reduzido vôo de desejos. O miudito espaço fechado por estas ingénuas tócas à flor da terra, parecia entretanto naqueles depressivos momentos, ao quebrantado ânimo dos dois jovens, um delicioso rincão do Paraíso. No que ia tambêm um pouco de sugestivo encómio feito convictamente pelo colono ao próprio ninho.

—Passa-se aqui melhor que na cidade, senhores... O rancho é fresco no verão e quente no inverno.

Na Argentina corre geralmente despreciada e ignorada a obra, sôbre tôdas fecunda, do colono, do emigrante, mercê do anonimato iníquo a que a relega ainda a persistência tenaz da tradição romântica do gaucho. E contudo, aqui, as flutuações na produção da terra dependem essencialmente e são inseparáveis das vicissitudes da vida do colono estrangeiro, progressivamente vinculado pelo

mortificado plasma do próprio suor à mesma terra. E é em primeiro termo à beneficiosa influência e ao pastoso esfôrço dessas protéicas aluviões humanas que êste privilegiado torrão, de flancos sangrantes, deve a maravilha da sua abundância e o milagre da sua riqueza.

Pela tarde, depois de uma breve sésta, novo giro. E, nesta vagabundagem de acaso dos dois amigos, vinham a ser estases de obrigado repouso as várias pulperias (casas de venda) com que êles deparavam no caminho, umas rodeadas de meia dúzia de casotas mais, outras singelas e sós aflorando tímidamente, como incrustadas na monotonia imensa da paìsagem. A pulperia participa simultâneamente do carácter de taberna, centro de reùnião, estação postal e loja de comércio,—um comércio sem especialização e sem limite, extravagante e imundo bric-à-brac de objectos para todos os usos, de utensílios para tôdas as necessidades, de produtos de todos os países, de farrapos de tôdas as épocas. Na primeira casa dêste género em que o Silveira entrou, surpreendeu-o a confusa variedade, a atropelada profusão e o baralhamento infinito das coisas disparatadas e antitéticas que dêste caótico mostruário formavam o recheio. A um canto, ao lado do mostrador e tomando tôda a parede, havia um desordenado empilhamento de atributos hípicos,—cabeçadas, rédeas, freios, selins, açoites,—crestados já uns pelo uso, novinhos em fôlha os outros. Ao lado oposto, era uma bárbara inundação de ferragens de tôda a sorte, de cilindros e novelos de fio de ferro, de fusis e petrechos de caça, ferraduras, martelos, cravos, navalhas, facalhões, tesouras, tudo isto alternado com prateleiras cheias de produtos de drogaria e especialidades farmacêuticas. Ou eram fieiras de lâmpadas de petróleo suspensas sôbre sacos de milho, feijão e arroz; ou ainda, um pouco alêm, os mais tôrpes especimens de calçado vélho pendurados à mistura com résteas de alhos e mólhos de cebolas; ou a tentadora bateria de cervejas, do brandy, do whisky, dos licores, nos seus frascos rutilantes; ou, emfim, as cabacitas de mate e as peças de algodão de côres berrantes, infalível engôdo às predilecções louçãs das raparigas.

Abancavam os dois amigos a alguma das mesas livres e pediam cerveja, flanqueados de cêrca por outras mesas, de roda das quais pacíficos grupos, de gente rude e simples, bebiam cana, jogavam as cartas ou concertavam transacções comerciais, dilatadamente. De quando em quando, algum novo freguês entrava, saùdava com gravidade, despedia um vago olhar em tôrno, depois ia sentar-se e ficava-se indefinidamente silencioso, esquecido, quáse imóvel, enrolando o cigarro, antes que exteriorizasse a sua intenção ou manifestasse o seu desejo. Porque o gaucho nunca tem pressa. Habituado como êle anda a medir o tempo segundo a declinação do sol, assim perante o seu modo desprendido e calmo de encarar a vida, uma hora a mais ou a menos não conta uma apreciável diferença. A pulperia é, para êste dominador lendário da pampa argentina, mais que um vicioso centro de atracção: é um inviolável asilo de meditação e de repouso. Casa-se íntimamente com a sua inata altivez, com a sua natureza indolente e agreste, a soberana e apartada independência, o calmo e tépido ambiente dêstes baratos oasis industriais, onde êle em pleno olvido dormita e sonha, enquanto, fóra, por essa extensão sem fim, dardeja fogo o gládio em brasa do sol ou fustiga o ar a asa revôlta da tormenta.

Por vezes havia na taberna um guitarrista; e então os preguiceiros gauchos desentorpeciam, chalravam mais alto e bebiam mais forte, estimulados pelo zangarreio mole e sensual dos tristes, vidalitas e outras corridas árias crioulas. E tambêm, a espaços, uma que outra vaca ou bezerro, metendo a cabeça, vinham mugir familiarmente à porta; enquanto os gafanhotos e as borboletas a cada momento entram e sáem volitando, zombeteiros e livres, num como que desdêm trocista por êsse mesquinho produto da indústria humana que se permitira a ousadia de vir ali ridículamente enxertar-se na majestade soberana do deserto.

Porêm para o feitio mulherengo e ribaldo do Silveira, as mais saboridas horas nesta folgada digressão campestre, eram sem dúvida as noites. Inalterávelmente Jorge, com o seu faro infalível de vélho garanhão regional e fiel às baixas solicitações do seu instinto, conduzia então o amigo às estações galantes da redondeza, a essas abscônditas e errantes pulperias do amor, asquerosas e imundas madrigueras, cheias de mugre, o ar afrontoso e envenenado, crasso de emanações carnais, nublado de fumo de tabaco, onde sôstros e descompostos grupos de chinas da ínfima espécie se deslocavam nas lúbricas contorsões de algum acanalhado tango arrabalero, e no mais tôrpe delírio de gestos e visagens porfiavam em inflamar o apetite mórbido dos visitantes, desmanchadas em bailuchos desonestos, abertas em risos que davam tristeza, dobradas em carícias que infundiam asco, sôltas em requebros que faziam mêdo. O Silveira não descia a misturar-se na agitação insalubre do torvelinho; porêm mentalmente embebedava-se na contemplação desta dionisíaca paródia, comprazia-se no exame de tam ignóbil espectáculo. A exsudante coreia animal enardecia-o. Ao passo que o seu amigo Jorge, menos isento e mais frascário, por vezes se emborrachava a perder, apostado no clássico tomo y obligo e confundido com a ronda esborifada e bestial do mulherio.

 

Por fim, andados uns dias mais, o Silveira, reputando-se um esperto conhecedor já da região, emancipou-se. Agradava-lhe agora de preferência, uma ou outra vez, sair êle só e aventurar-se em soltos rumbos pelos dilatados panoramas da redondeza. As fragoeiras qualidades do seu génio requeriam esta expansão libérrima. O aguilhão vago da incerteza era um estímulo mais a acicatar-lhe o vivo apetite do inédito, neste seu investimento solitário do Desconhecido.—Assim aconteceu que, uma tarde, depois de haver gozado algumas horas andando às inculcas, sòzinho e à tôa, pelos campos, quando pensou em regressar à estancia, pela primeira vez hesitou na direcção a seguir e começou a dar-se conta, com arreliador desagrado, de que pisava um país ignorado, alheio, hostil... compreendeu que se havia perdido. A sua ilusória presunção de infalível batedor do campo atraiçoára-o. Não sabia onde estava. Debalde interrogava e buscava ansioso profundar o mudo enigma do espaço. Na inquieta demanda do rumo perdido, ensaiava ao acaso veredas e trilhos novos ou fazia longas e fatigantes caminhadas, que, como num circuìto infernal, o traziam invariávelmente ao mesmo ponto de partida. Já a noite vinha próxima e os pontos de referência conhecidos falhavam-lhe. Olhava ao largo e respondia-lhe o desdêm burlão da imensidade. O mesmo dócil animal que êle montava, parecia tomado tambêm,—caso raro, —duma indecisão, duma ignorância, dum receio igual, e a cada momento estacava, fitando as orelhas, e num interrogativo ruflar, nervoso e álerte, alongava as narinas fumegantes.—E não aparecia viv'alma!—Teriam que ficar p'r'aí assim, Deus sabe como, aonde e por quanto tempo... Nem um ente vivo que os encaminhasse! não apontava um sinal, não alvejava uma casa. Não surdia por acaso algum dêsses vélhos e graves rastreadores que,—êle ouvia contar, —seria capaz de metê-lo a direito, descobrindo e estremando-lhe o decalque do passo da montada no piso batido e poeirento da planura. Nem tampouco se fazia o milagre de êle encontrar um dêsses subtís baquianos, inverosímeis topógrafos, que sabem o curso de todos os mananciais, conhecem os vaus de tôdas as ribeiras e são peritos em discernir, um por um, entre milhares de caminhos...

Então, na sua insistente e miúda inquirição do ambiente, o Silveira notou súbito, e ali bem perto, uma sébe de arbustos bravos para lá da qual havia seguramente alguêm. Sim, porque, não obstante a calma paradisíaca do ar, as suas fôlhas tinham róces metálicos, e os ramos abanavam, estalidavam, dobravam-se e erguiam-se em choques rumorejantes. Dirigiu para ali o cavalo e breve distinguiu através da folhagem as indecisas linhas dum grupo: duas figuras, mas evidentemente em briga, porque, ao seu impulso, a trama verde da precária vedação tinha deslocações violentas, crispava-se em bruscos sacudimentos, e de envolta com a sua arrepelada flutuação vinha o resfolegar opressivo e anelante de pessoas que lutam ardidamente... Curioso, o Silveira apeou-se de golpe e deu volta. E viu que um sujo e intonso labroste estrangulava nos braços brutais o corpito espavorido e vibrátil duma joven aldeã, que se debatia exasperadamente, e que aquele animal queria à viva fôrça sujeitar ao cevo do seu desejo.

O coração do Silveira teve uma retracção de generosa angústia, um lume vingador lhe passou diante dos olhos e atirou-se, de salto, contra o cobardíssimo sátiro, aplicando-lhe bruscamente um formidável murro contra a nuca, e logo, cingido cerce com êle, afogando-lhe o pescoço com as mãos tirantes, duras, implacáveis como duas tenalhas de aço. Subjugado pela inopinada e valente agressão, o imundo labrego não teve mais remédio senão deslaçar os braços, largando a presa; e queria voltar-se e defrontar duramente o adversário; porêm antes, cedendo ao garrote aniquilador da asfixia, cambaleou e tombou desfalecido na mesma terra revôlta pela sua bestial investida. Dominador e soberbo, com o revólver pronto assestado, o Silveira ameaçou:

—Se te mexes, cão! faço-te saltar os miolos.

O contricto matulão, estendido e inerte, esboçou um esgar implorativo, sem palavra ferir, erguendo os braços suplicantes.

Aproveitou o Silveira êste favorável instante para lançar um olhar de piedoso interêsse sôbre essa ignorada flor da selva que êle providencialmente acabava de salvar, a sua pequena desconhecida. E logo o vencido rústico, surpreendendo a momentânea distracção, saltava lésto em pé e pronto a arremeter como um toiro, lívido de raiva, com uns olhos de morte, contra o seu garboso rival, brandindo o traiçoeiro cuchillo no braço homicida. Porêm acudiu a tempo, de sua banda, a rapariga, alcançando-o animosa pela espalda e pendurando-se-lhe do braço em pêso, a segurar-lhe o pulso. Foi um momento, o bastante para o Silveira, de revólver sempre assestado, retomar o seu ascendente e obrigar o meliante a largar o ferro. E vá de zurzi-lo depois com o chicote desapiedadamente, cobrindo-o de impropérios, fazendo-o rodopiar sôbre os rins, arregoando-lhe a face, varejando-lhe os quadrís, e cortando-lhe os joelhos. E o confuso marmanjo, outra vez de braços ao alto, não fazia agora mais que recuar, recuar passivamente... té desaparecer por fim na sombra, derreado, aturdido, cego e vagamente ameaçador, rugindo.

Podia agora enfim o Silveira contemplar mais em sossêgo a curiosa figurinha que tinha ali assim a seu lado, retraída e tímida, tôda tremulante e magoada ainda da repelente luta de há pouco. A estúpida scena fôra tam breve que a êle nem déra mais tempo que para fixar-se bem nos gestos e atitudes do seu caviloso contendor. Da indefêsa vítima dêste não chegára a lograr formar-se uma noção definida e clara. Agora, sim... Era uma linda e adorável morenucha, pouco mais de nubil, delgadita e enxuta, dum moreno de bom tom, um moreno atenuado e lânguido, apenas mais vigorosamente mordido na macieza tostada da nuca, no nankin macerado das olheiras. Calçava uma espécie de tôscas alpercatas brancas e grosseiras meias negras, de lã; sôbre a saia, muito curta, negra e rústica por igual, e em cujos tupidos refêgos a estreiteza anadioménica dos quadrís se perdia inteiramente, abatia-se a fímbria sôlta duma blusa clara, de riscado; e pela colina apolínea dos ombros, firmes e redondos, uma floresta de fartos cabelos negros, naturalmente ondeados, desparramava-se em desalinho. O fresco e apetitoso dasabrochar duma esplêndida flor do campo. Tinha uma expressão singular, entre menineira e selvática, uma como frescura moral de clara fonte. A mais pura linha de contôrno ovalava o seu rosto cheio e singelo, côr de trigo maduro, animado por uma bôca que era um alçapão de desejos, aquecido por uns deliciosos olhos negros, cheios de fogo, olhos que se não fossem tam puros seriam a perdição da sua alma. E a cálida veemência do temperamento, as demasias do sentir latente, a flama espirrante da sua vida interior, denunciava-as bem a tinta mate da epiderme,— essa côr hepatizada e ardente das loucas depositárias da paixão.

Com paternal carinho o Silveira, adiantando-se, preguntou-lhe— como tinha sido aquilo? que se havia passado?—E ela, cândidamente, com um pêso de vergonhoso embaraço a velar-lhe as palavras e a abater-lhe as pálpebras:

—Yo andaba buscando una tropilla de cabras que se me ha extraviado, cuando ese gringo...

—Pobresita!

A esta sincera exteriorização de piedosa ternura não teve a suave rapariga uma palavra de comentário... porêm a comoção empanou-lhe os olhos e um sôpro de enternecida gratidão lhe fundiu a alma.

—Como te chamas?—familiar o Silveira tornou.

—Luisa, servidora de Usted.

—E então agora vais p'r'á tua casa?

—Si, pues.

—Muito distante?

—Sesenta cuadras, no más.

—Se queres, eu te acompanho.

—Bueno, señor.

Numa instintiva e afável confiança, ela avançou dois passos, o Silveira tomou-lhe a mão esquiva, e os dois acercaram-se então do cavalo, a que o dono tomou a rédea. E queria que a pequena montasse, e cortêsmente insistia, para furtá-la à fadiga molesta de tam longa caminhada. Porêm a gentil rapariga, tenazmente, escusava-se.—Que no, qué esperanza!—E por seu turno, desprendida e solícita, teimava em que êle é que tinha de aproveitar a montada. Era o natural... Um senhor da cidade, tam fino, tam delicado!—Por fim, a rodear amigávelmente a dificuldade, resolveram por mútuo acôrdo seguirem, já agora, ambos a pé.— Passariam trabalhos iguais... assim, nem um nem outro teriam que dizer.—E foi como alegremente iniciaram então a penosa jornada, pronta e infantilmente acamaradados, com o cavalo à mão e marchando a par e passo os dois,—ela mocanqueira e feliz por tam fidalga companhia, vaidoso êle e arrogante por ver-se o depositário ocasional daquele tesouro,—mano e mano divagando, mansos e graves, na luz indecisa do crepúsculo, pela orla sinuosa dos caminhos.

Nesta hora recolhida e melancólica, já o sol baixava a rasar a purpurina fímbria do horizonte, envolto numa conflagração de nuvens que o toucavam, redondas e infladas, como o penacho dum elmo rutilante. E o seu estirado reflexo incendia o imenso lençol pampeano em fulvas reverberações, como um vasto clarão de incêndio, no mais puro e mordente contraste com a leveza espelhada do céu, infinitamente calmo, fundo e diáfano, cuspido apenas ao alto de breves nuvens policromas.—Andando sempre, amavelmente o Silveira ensaiava, a curtos intervalos, travar diálogo e entabolar conversa, a fazer um pouco o conhecimento da sua misteriosa companheira. Luísa porêm tinha dificuldade em compreendê-lo, fazia-o a miúdo repetir as frases; e apenas se ela consentia depois em deixar escapar alguns raros, intervalados, curtos e soltos monossílabos, como gotas de água reçumando num subterrâneo. E a seguir logo ela recaía no mesmo mutismo concentrado e apático, fechava-se na sua invariável reserva, na sua tímida esquivança, marchando silenciosa e humilde, ao lado do seu generoso amigo, com a repousada majestade da paìsagem nua do deserto.

Contudo, a poder de paciência e mimo, o Silveira conseguiu inteirar-se de que ela vivia separada e longe do pai e da mãe, por contendas de família; e que trabalhava a jornal, mais um irmão, na fazenda dum dos mais acaudalados chacareiros da redondeza. Igualmente conseguiu torná-la sabedora do motivo da acidental aparição dêle por ali. E então era de ver como a graciosa morochita vivamente se interessava.—Ah, a estancia Amália?... Conhecia muito bem: una ricura! Qué buena señora a D. Teresa! Señorita Célia, una santa... Por sorte, era p'r'os mesmos lados da sua chácara. Não havia dúvida, ela lhe ensinaria... E tudo mais que êle quisesse... Não havia por'li assim rincão nem caminho que ela no supiera al dedillo. Conhecia-os com'os os seus dedos.—E, dizendo, tornava-se comunicativa, e afogueada, risonha, saltitava de prazer, tôda na vibração exultante de poder ser útil a êste bravo e loução desconhecido a quem ela devia mais que a vida.

Porêm, súbito, a atraente campesina estremeceu, e, dando um salto, atirou-se contra o flanco protector do amigo.

—La lechuza! la lechuza!—murmurou com supersticioso terror a timorata rapariga.

E apontava um pequeno ponto escuro sôbre um poste telegráfico, à ilharga do caminho.

Ergueu o Silveira, alarmado, na mesma direcção os olhos e pôde distinguir uma pequena ave, de côr àquela hora indecisa, e que lhe pareceu um pouco mais volumosa que os tordos que êle sabia tam bem caçar, na sua terra; porêm com uma grande cabeça chata, solene e doutoral, vagamente humana, e poisado com uma gravidade que lhe dava o mais estranho ar, uma bizarra mescla de ridículo e de mistério. Confrangida e de cabeça baixa, apertando os braços, a pobre Luísa entaramelava,—que aquilo era uma ave má, agoireira, sinistra! Mal ia aos que la lechuza fitava assim... como a ela estava fazendo agora! Era o mais temido avejão do campo, o mensageiro da fatalidade, um prenúncio certo de desgraça.— Animoso e incrédulo, o Silveira buscava tranqùilizá-la.—Que não désse fé a essas estúpidas crendices dos vélhos tempos. Quem cria agora em agoiros?... Tonterias! Era um pobre animal inofensivo e simples, como tantos outros.—Luísa porêm convictamente protestava.—Que não! todos os dias se estava a ver... Ainda não havia muito tempo que um tio dela caíra e morrêra afogado num pôço, por ir perdido a querer furtar-se à perseguição duma aventesma destas, por uma noite assim... E a amásia última do patrão? E a filhinha do sr. juiz de paz?... Não havia nada peor! Tinha a sua vida cortada...

E, num mixto de ansiedade e horror, de quando em quando ela indagava a presença, pelo espaço, dessa azarenta mancha indecisa... a qual por seu turno, de poste para poste, de bouça para bouça, surda e fantástica, avoejando, implacávelmente os ia seguindo sempre,—na sua grande cabeça redonda, invariávelmente sôbre os dois apontada e fixa, luzindo ameaçadores e preságos dois pontos fosforecentes.

Sentindo contra o seu flanco a palpitação do corpinho fresco e tremulante da rapariga, o Silveira aquecia. Dirigia-lhe palavras de carinho, cingia-a pelos ombros, afagava-lhe paternalmente o cabelo. Neste delicado momento, senhoreava-o uma ácida perturbação, desdobrava-se-lhe a alma numa inquietante duplicação de sentimentos, participando a um tempo da piedade e do orgulho, da vaidade e do desejo. Quando considerava a justa oportunidade, o êxito feliz da sua cavalheiresca aventura, isento e honesto o coração alargava-se-lhe; e, ao mesmo tempo, por todo o seu ser em alvoroço despertava uma sensação de terna e estranha voluptuosidade,—o apetite vago de possuir a sua linda e frágil tutelada para continuar a protegê-la...

Assim foram longamente caminhando, na progressiva invasão da tréva e do silêncio, minúsculos e sós os dois na imensidade, alumiados já pelo sonambulismo errante das estrêlas. Por aquela agonia dulcíssima de tarde, o crepúsculo da luz e o crepúsculo da tradição fundiam-se. Era o charro e vazio esbatimento, era a definitiva eliminação de todo êsse mundo de encantadoras e imaginosas ficções que, antes, volitando irisadas e leves, como borboletas, esmaltavam de poesia a esfumada atmosfera dêste país fantasista e ingénuo,—hoje irremissívelmente dispersas, trituradas e desfeitas pelo industrialismo feroz da hora presente. Não mais serenatas, encantamentos, fadas, demónios surdindo dos poços, virgens penteando-se ao luar, bruxas alucinando donzelas, sereias a adormecer gigantes... No repouso letárgico da planura, o único ruído perceptível era por acaso o rouco soluço de alguma locomotiva, raspando ao longe. E neste apaziguamento sem termo, na absoluta desolação desta soledade infinita, a monotonia sem fim da pampa alastrava como uma imensa mortalha,—era um mar morto num país de olvido.

Haviam atingido o ponto obrigado da separação, o teimo fatal à deliciosa e imprevista caminhada. Foi quando gravemente o Silveira estacou frente à sua linda sócia de jornada, e tomando-lhe as duas mãos, encarando-a bem nos olhos, suasivo e meigo: