Amor Crioulo
Capítulo III
Na manhã seguinte, ao lunch, já ao lado de cada talher, no comedor, havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado of games and sports para durante a viagem. A primeira sessão,—jogos sôbre a tolda,—realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no Social Hall, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim caminhava.
A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:
—Como o nosso Euclides está hoje contente!
O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito, com um cocegante ar de mistério:
—Tenho uma grande novidade a dar-lhe!
—Coisa bôa?
—Bem agradável, creio, lhe deve ser...
—Homem, diga lá! desembuche,—comandou, já tambêm interessado, o Contreras dando um murro na mesa.
Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:
—Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode ser...
O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção, levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve impenetrável.
Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência, voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:
—Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!
—De-veras!?... Falou com êle?
—Sim! falei...
—E com as filhas?
—Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.
—Então? então?...
E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas em tôrno, espaçadamente,—que se tratava, não dum argentino de nascença, mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda, exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo, sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande proprietário no norte e homem de fortuna.
—Como diabo soube você tantas coisas?—exclamou, maravilhado, o Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.
—Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,—o Euclides aclarou singelamente.
—E que santo fez êsse milagre?
—Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos; conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.
E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o Silveira:
—E depois? e depois?...
Que, depois,—continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,— depois, a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo, escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle, Silveira, como um chavão na matéria.
—O quê!?—bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.
—Assim mesmo!—confirmou jubilosamente o amigo.—A estas horas você é considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...—E levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:— Agora, veja lá como se porta. Olhe que eu disse que você era um grande professor.
—Quere não que a fez fresca!—lamuriou, atarantado, o Silveira, rascando a testa.—Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que isso é! Estou bem aviado!
—Ande, vamos!
Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o escutavam.
Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar doutoral, num francês correctíssimo:
—Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente, racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.
—Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de tantos idiomas e dialectos?—aventurou, com timidez, um dos vélhos ouvintes.
—Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das latitudes, dos climas,—aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria pupila azul momentâneamente acesa.—Nada há aí de arbitrário. Tudo obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente diferenciados, na tessitura incomovível dos quais se vão manifestando e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o celta e o latim, entre o mosárabe e o português...—E aqui, enviando uma terna olhada ao Silveira:—É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.
O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.
Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal, que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:
—Poderias conceder-me um momento, papásinho?...—E logo, um pouco perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:—Ah, perdão... mas eu não queria desarranjá-los.
Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé, aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe interpusera no caminho.—Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora da casa»,—sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo, onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha, Dolores,— esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira, entre D. Catalina e Irene.—Que sorte!... nem de propósito... —E, trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.
O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família tout-à-fait distinguée como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha à outrance insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D. Catalina corroborava, explicava então, —que era argentina, aparentada ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de chacareiros sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.—E, a propósito, iam preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês, acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.—Que ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente lançado e superiormente belo.
—É certo. Até as mulheres...—arriscou, com instintivo acêrto, o Silveira.
—É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do mundo!—epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua tímida reserva habitual, singelamente:—Mas tambêm, a propósito de arte, deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado de savoir-faire em que os rasgos de génio são espontados como se castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá voltar a restituir-lhe.
—O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana, ché? —acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.
—Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.
O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna. E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre os mais entusiastas e ligeiros aficionados passou a pequenina e desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.
No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas, falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia, na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na mesma toada modesta e simples:
—Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.—E com a expressão sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:—Eu não sei... talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos invariáveis coups de théâtre e os mesmos cansados e gastos espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada passo.
D. Catalina, no íntimo desvanecida, julgou oportuno intervir:
—Lá volta esta minha filha às suas originalidades... Por mais que o pai a corrija...
—Mamita! original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem observar por igual?
—Os outros, não!—objectou Dolores, com mal contido azedume:— Eu pelo menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves alpinas e as escarpas sangrantes da Sicília.
Mas, na mesma dogmática singeleza, Irene, de mão estendida, fechando com o polegar o indicador e abatendo as pálpebras:
—Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o coração destroçado, essa corôa alvíssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O chamado esplendor do Mundo é tudo quanto há de mais convencional. Depende de nós... de nós exclusivamente. Êsse consagrado chavão do deslumbramento pagão das coisas não é, no fundo, mais que o espelho da nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.—A irmã e a mãe sorriam, com um ar incrédulo; e ela, persuasivamente:—É certo! Tal a sensibilidade no nosso íntimo braveja ou esplende, tal vemos de roda de nós a vida. São as mais das vezes as vibrações cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo êsse decantado brilho objectivo. É um esplendor de empréstimo. Sem nós não valeria nada.
—Está bem, está bem...—comentou D. Catarina, prolongando um risinho irónico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.
De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e não sabendo que contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabeça, idiotamente.
Assim, à medida que o diálogo ganhava interêsse, ia-o Irene esmaltando de notas originais, de impressões verídicas e frescas que ela extraía e desdobrava do íntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue, espontâneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num atolondrado mutismo, por serem coisas impenetráveis à sua ignorância e inacessíveis ao seu critério. Entretanto, o seu temperamento sensual, agora, acobardava-se... sofria a influência transcendente e dominadora daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferência para êle, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amáveis paradoxos, sempre com a mesma voz límpida e virginal, em frases breves como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas mãos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era como se na espiritualização crescente das frases e dos conceitos a sua indumenta animal gradualmente se fundisse. Tôda a impressão de matéria desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lábios eram tintas de emoção, os seus braços eram volutas de sonho; e um nimbo de harmonia dulcíssima emanava, como um fluído mágico, de todo o seu atenuado ser, simples e tranqùilo. Não obstante, junto dela o coração do Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia mais apressado.
Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do crepúsculo começaram a abater sôbre o barco o seu véu de tristeza, D. Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vénia para retirarem-se.—Aproximava-se a hora de comer.—Houve uma afectuosa saùdação de despedida,—para Irene a última,—e depois o Silveira, imóvel e em pé no mesmo logar à medida como ia vendo esta fina, longa e clara figura esfumar-se na luz fugacíssima da tarde e delir-se na distância, tinha a ilusão de que ela não era mais do que uma pura abstracção, imaterial, intangível, como êle se lembrava de ter uma vez lido de Pierrot,—que nascera da projecção de um raio de luar sôbre um muro branco...
Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volúpia dum vago e alado sonho, erguido nas espírulas de oiro dum alheamento alto e inefável. A ablução espiritual daquele curto diálogo com Irene afinára-lhe o sentir, infiltrára-se nas mais nobres e puras radículas do seu ser, e como que alimpára por momentos a sua alma fruste das escórias brutais do instinto. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que o Almeria ralentára a marcha, e que lhe montava ao coração e lhe toldava o cérebro o que quer que fôsse de opressivo e cálido. Ganhava-o a depressiva molenta do aproximar dos trópicos. Pela ventanilha, mesmo da cama, olhou ao largo e viu que barrava cêrca o horizonte uma espécie de ciclópico muro negro. Era o arquipélago de Cabo-Verde,—recordou. Lentamente, com uma delidora quebreira nos músculos dormentes, reagiu, ergueu-se.—Em cima, na tolda, não havia sol, e a luz diluia-se em grisáceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado da neblina, cortada como era por êsse formidável circuìto de montanhas áridas e a prumo, escalando sinistramente o espaço. Não se divisava em tôda esta imponente massa, de ruína e de sombra, uma nota clara, um cântico de luz, uma choupana, um rebanho, uma árvore, qualquer perdido oasis de frescura e de repouso. Era o repúdio formal da Natureza. Dentro dêste revôlto anfiteatro de maldição e de treva, o mar, fundo, plácido, dum tom uniforme de pêz com espelhamentos lívidos, parecia amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa paralização dum cataclismo. E tudo falava de desolação e de morte neste atormentado pórtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada, paìsagem de pesadelo tôda em pontas ásperas e hostis, em escarpas que davam vertigens, em agulhas topetando o céu, em rampas escalavradas e adustas; terra de abominação onde a vida parára por completo... arestas sôbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trágica insensibilidade o mar, com os seus mansos rolos, buscava em vão comover, mandando-lhe o acariciamento deslumbrante das suas franças de espuma.
Mal tinha o barco lançado ferro e já era simultâneamente invadido, a bombordo e a estibordo, por um duplo cordão de negros,—puros bronzes vivos,—ágeis, luzentes, hercúleos, a maior parte vestidos apenas dum pó ainda mais negro do que êles, e que trepavam lestos à amurada ou marinhavam pelas cordas como símeos, para deixar-se escorregar depois sôbre as várias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecável marfim dos dentes. Eram os carregadores de carvão que acudiam à faina. Porêm, seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-número de pequeninas embarcações rodeando, em baixo, o vapor, um outro impúdico enxame de simiescos truões agora surdia, igualmente ágeis e negros, igualmente nus, mas êstes na maior parte ainda impúberes, limpos e de formas delgadas, desdobrando na sua exótica invasão adoráveis linhas de graça gentílica,—e todos na vibrante impaciência de disputar pelo mergulho a caça das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam, por divertir-se. Uns da casca frágil dos botes, outros pelas enxárcias e mastaréus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava sôfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura, erguendo os joelhos, batendo as mãos, desmanchadas nas mais inverosímeis atitudes, zurrando tôda a classe de ruídos bárbaros; depois, quando a tentadora rodelita de prata ou de oiro traçava o seu meteórico brilho pelo espaço, êles atiravam-se a nado, de braços em ponta, como flechas, havia um abundante chapinhar nas águas, e daí a segundos um dêles reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho triunfante.
Com tôda a sua abominável selvajeria, o espectáculo tinha um impressionante sabor pagão a que o Silveira não pôde manter-se alheio. Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estímulo daquele torneio brutal de agilidade e de fôrça; e apenas, uma que outra vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em tôrno, tomado por ela dum instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato por aquela impudente exibição animal se sentiria ofendido.
Nem ela, nem ninguêm dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira descortinou porêm, não sem uma certa surprêsa, gozando muito compadres aquele sport bárbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenções no mais escuso ângulo da ré, em cima, sôbre a última coberta.
Um vélho negro, derreado e esquelético, se lhe acercou entretanto, ofertando produtos da indústria rudimentar do país: colares, anéis e broches de coral, saquitos de junco, bôlsas de sementes luzidías e duras como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de corais, de pedras polidas, de caroços de plantas indígenas e gomas aromáticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num galimatias gutural todo em monossílabos, adulteração burda do português, cortada, áspera, intraduzível. De roda, uns tantos mais mercadores mendigos, como êste, circulavam tambêm, oferecendo laranjas, bananas, côcos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam suavemente comover a esquiva indiferença dos clientes, em gestos não isentos de docilidade, dobravam-se tímidos, humildes, e apenas se lhes traía a braveza inculta da condição no ávido dilatar das chatas narinas, na escrutadora dureza do olhar astuto.
Entretanto, por efeito do transbôrdo do carvão, ganhava mais e mais a imobilidade gorda do ar um pó negro finíssimo, imponderável, que tudo inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa fuliginosa do seu irresistível poder emporcalhante, não havia brilho que êle não apagasse, não havia limpa claridade que êle não pontilhasse de sombra. Então o Silveira, que começava a ver o seu rico fatinho claro salpicado e mordido de minúsculas lâminas negras, como coleopteros daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximação de Helena e do marquês, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salão, seguindo o exemplo do maior número. Mas aí logo, do canto duma mesa, o pequenino Ramón Alvarez a chamá-lo em grandes gestos, com uma intimativa insistente, quáse aflita.—Queria em primeiro logar felicitá-lo... Que bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Júlio César... Maganão!—Depois, ao notar a expressão de desagrado do Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez aflito:—Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo demónio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E êle, embaraçado na escolha, não sabia bem por que decidir-se...
—Tenho aqui tantas, tantas coisas!
E estrangulava nas mãos nodosas a cabeça descomunal, nesta hora crítica por fôrça ardendo em plena gestação de baboseiras.
Daí a umas horas, no bar, juntavam-se os parceiros habituais do bridge, faltando apenas o marquês, que num estranhável desmentido à sua habitual correcção, já ia tardando. Faltava tambêm me M. d'Ellery, e o seu imprescindível assessor, o vélho bonzo, fazia maçaneta com as mãos sôbre o paninho verde e franzia a bôca exangue, em mal reprimidos sinais de impaciência.
Então, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um risinho cheio de reticências, cujo significado exacto êste não podia apreender, perguntou-lhe «como ia a coisa?» E logo, todo jactancioso, o outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...
O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na conversa, tossicou, amolou, coçou as barbas, incrédulo. E, com ar ofendido, o chileno:
—Parece que o amigo duvida?
—É que o vejo tornar as coisas fáceis... Não se caminha assim. Devagar, devagar... Entre o pensar e o fazer, hay que tomar el tranvia.
—Se queria apostar?
Porêm o Silveira, que tinha dançando-lhe pícaramente diante dos olhos o inopinado grupo do tópe da ré, naquela manhã, encolheu os ombros numa ironia mansa:
—Eu já não digo nada...
Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar terra firme. Uma larguíssima sucessão de horas, sempre as mesmas, que seriam vividas inevitávelmente sôbre a cálida opressão daquela atmosfera pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre o proceloso encapotamento do céu e a opacidade revôlta das águas. Então, tôda esta grande família que o acaso improvisára ali, sôbre o piso encerado das várias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a anestesia morna do tédio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada momento pretextos novos de aproximação, lances de mútua intimidade; teciam-se correntes súbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de galanteios, atenções, franquezas; concertavam-se negócios e associavam-se interêsses;—como se no precário âmbito daquela enorme jaula ambulante êles constituissem um universo novo, como se dentro dêsse frágil circuìto de madeira e aço coubessem tôdas as suas preocupações, planos, sonhos, febres, ambições, desejos... o concêrto do seu futuro e a incógnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a irresistível sugestão dêste acercamento crescente de relações e intimidades, o Silveira teve ocasião de notar que as senhoras Wimeyer, coerentes e imutáveis na sua linha de inviolada isenção, não se davam senão com êle.
Mrs. Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade senhoril, andava agora tôda entregue à divertida seriação dos jogos. O ardente sôpro panteísta da desgarrada vida de bordo acendêra-lhe a repousada candura infantil em espontâneos ímpetos; e a cada passo ela vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de membro do Committee, sôbre horas, datas e mais circunstâncias e pormenores, que a redonda ignorância do interpelado tinha que deixar invariávelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos chistes e coquetonas burlas, a que servia de intérprete a complacência cínica do marido.— Estranhava realmente não o ver inscrito em nenhum dos números do Programa. Já não dizia, em suma, no Passo entre as garrafas ou na Luta dos travesseiros, que requeriam predicados especiais de agilidade e de fôrça; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na Corrida das batatas, tam fácil... ou então no Combate dos galos.— Ao desenho grotesco desta idea, tôda a patrícia figura da irlandesa estremeceu num júbilo: e arrebatadamente, batendo as mãos:
—Ah, sim! sim! aí está... Queria vê-lo de galo... Seria tam interessante!
Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela então, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de promessas:
—Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no Enfiar da agulha. É fino! é lindo!
E com um risinho provocador a erguer-lhe a púrpura sensual dos lábios:—Que fôsse, que fôsse... que ela lhe procuraria a vitória.
Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um grande baile de fantasia, antecipação muito a propósito do Carnaval, que vinha próximo, pois terça-feira gorda era já cinco dias depois da «passagem da linha», por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser êste Baile o número mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias antes, já a população feminina de bordo quáse se não preocupava de outra coisa. Haveria prémios, adjudicados por votação geral; e admitiam-se duas classes de trajes de disfarce,—os improvisados a bordo e os trazidos já entre a bagagem. De família para família, de grupo para grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogações cruzavam-se; porêm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e então as mais aventurosas hipóteses, as mais abstrusas e sôltas imaginações cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de roda dêste fechado círculo de mistério. Boquejava-se apenas que o Alvarez preparava um número de sensação; que Pilarita Gomez, a desenvolta morenucha que êle cortejava, figuraria, a conselho seu, num travesti algo picante; Mrs. Edith resistia inflexível às inquirições dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovação freqùente das conferências dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal que, como ela, uma noite, na pequenina tertúlia habitual do bar, se lastimasse de que lhe faltava um adôrno a condizer, para a cabeça, logo todo solícito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda peça a propósito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer coisa de abracadabrante, de sumamente artístico e grandemente extraordinário. E o caso foi que, na manhã seguinte, êle aí vinha instalar-se afanoso a uma das mesas do salão, munido de tesoura, compasso, régua, esquadro e um frasco de cola, e sobraçando um volumoso fardo; e convertia abusivamente êste liso rincão do Social Hall em oficina, logo extraíndo dessa boceta de Pandora pelintra a mais desconcertante, a mais imprevista miuçalha, rodeando-se por um abundoso aparato de fôlhas de lata, de cartão, de vélhos retalhos de cachemiras, sêdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodão e tiras de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando, talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prègas, chumaçando relevos... enquanto limpava açodado o suor e arredava a melena, nos intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminação febril dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de trapos, de escórias fulvas, perante a admiração trocista dos passageiros e a muda indignação do steward da sala, chocado por esta suja infracção dos regulamentos.
Por fim, naquela «quinta-feira de compadres», logo na antemanhã, o amplo convés de bombordo sofria uma transformação completa. As cadeiras de repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia àquele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em tôrno bandeiras e flâmulas de tôdas as nações, sujeitas de alto a baixo por argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. Até aconteceu que, por um lapso aliás fácil de explicar, dada a mudança tam recente das instituìções portuguesas, a respectiva insígnia que aparecia desdobrada ao contôrno drapejante do improvisado salão, era ainda a bandeira monárquica. Não escapou êste inocente anacronismo ao Silveira, que, radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mãos num raivoso júbilo, felicitando-se no íntimo por êste como que público e espontâneo desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente lhe oferecia. Mas o pior foi que daí a instantes passaram tambêm dois outros compatriotas seus,—um caixeiro da firma Brandão Gomes, de Espinho, e um agente da «Camisaria Confiança», do Pôrto—adoradores incondicionais do Basílio Teles e antigos revolucionários do 31 de Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional aquela inofensiva exibição da bandeira azul e branca, logo protestaram indignados e, de caminho passando palavra aos correligionários que iam encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissário de bordo a expressão do seu veto colectivo, em termos que o escandaloso símbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrénuos zeladores da verdade histórica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a pupila triunfante. E êste então, como não havia a nova bandeira rèpublicana a bordo, monogolava com tristeza:—Afinal, aí se fica o meu pobre país sem representação!—E depois, num soberano ar de desdêm, com um risinho perverso:—Que realmente era como estava bem... que aquilo agora, com a rèpublica, não era nação, não era nada.
Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em abundância de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a iluminação, pêras eléctricas policromas. Por último, o piso encerado foi passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convés se resumiu o melhor da vida de bordo. Os que não trabalhavam, vinham ver. A certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amávelmente o andamento dos preparativos, a sêcca figura esquiva do comandante. Tambêm os Wimeyer vieram, num rápido giro, ver todo aquele arranjo, ao que êles chamavam uma diversão cursi, mantendo-se altivamente alheios. Ao almôço, no comedor, foi sensível a ausência das senhoras. E, fechados como se mantinham nas respectivas cabines, uma bôa parte dos passageiros, no vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim que, por momentos, e a não ser a mancha arrogante de um ou outro contumaz grupo sportivo, o dilatado stand do tombadilho aparecia deserto.
Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como até àquela noite, em tôda a viagem, não havia memória. É que a direcção do Committee rogára aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer, trajando já os seus disfarces; e assim os simples mirones davam-se pressa em ir ocupar os seus postos de observação, na ânsia natural de gozarem bem, desde o começo, a aparição picante das figuras. Daí a minutos, os primeiros máscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros, aquecendo de passo o ambiente do salão, que estimulado por esta ronda bufona de côres estrídulas, de silhuetas, formas, gestos, símbolos e brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de comentários patuscos, de aplausos, vaias, interjeições, pilhérias, burletas e volatas de risos. E é que havia de tudo nesse desfile bigarrado e inédito: traços ingénuos e arripios bárbaros, a trivialidade e o inédito, a brutalidade e a elegância. Ora, eram selvagens negruscos que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e boy-scouts, zuavos, marujos, pierrots, fazendeiros, gauchos, tangedores de gaita de foles; ora, insulsas meninas de bôas famílias, que, ao amparo discreto de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de Fada, de Noite, de Minerva, de cigana ou ledora da buena-dicha.
Na mesa do Silveira, só se mascarava o Mafiori, que não acabava de aparecer. Não aparecia tambêm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada Pilarita, numa louche figuração de apache, estava lindamente, adorável de canalhismo galante e desinvôlta graça. M.me d'Ellery ostentava uma riquíssima túnica oriental, tôda oiros e sêdas, a cabeça sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo braço passivo e solene do seu derreado protector, de laço branco e frac, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambêm vinha em grande toilette, com a espalda provocadoramente nua e altos tacões doirados, a jovem multimilionária Nora Scott, uma histérica mordida de zelos pela irredutível esquivança do Silveira. Mrs. Edith foi das últimas a descer, tôda grave e senhoril, a par com a complacência orgulhosa do marido. Trajava um elegantíssimo costume Pompadour, que como que a aligeirava, lhe adelgaçava a redondeza helénica das formas e lhe punha asas na figura,—e que era todo êle do mais puro bom-gôsto e do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde as miuditas flores e as prèguinhas leves da saia e corset, até às leves mouches do rosto, à fina pinturilha do leque picado de oiro, e à ténue e espumosa renda do lenço minúsculo, amarrotado entre os dedos.—Oh, que esplêndida!—rompeu extático, sacudido de admirativa gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:—Bravo! bravo! Aquilo sim!...—E com a face congestionada, num cotovelão persuasivo ao Contreras:—Há-de ter o primeiro prémio!
Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos súbito em pé, aclamaram-na num brado unísono, ao tempo que de todos os pontos da sala os aplausos estrugiam com delírio. E no atropelado desdobramento desta sôlta feira animal, o vasto recinto perdera o seu frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenança um tolerante parêntesis folião se abrira. Por entre o estrilante chocalhar das loiças e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os moços cessavam de servir, cortados e suspensos no contágio truanesco dêste concertante bárbaro, fustigado a espaços por frémitos de loucura. Pouco depois, em cima, ao compasso dum two-step sofrivelmente semsaborão, a quêu cabriolante dos máscaras, desfilando marcialmente, fez o circuìto do tarraco salão de baile. Apareceu então o Mafiori, que vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porêm agora o grande êxito da noite foi para Ramón Alvarez, que ideára realmente uma improvisação feliz,—montado em andas e rodeado por uma espécie de grande roca cilíndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma túnica de chita roçagante, à maneira dos santos de aldeia, na sua terra. Assim realizava um picaresco gigantón, que êle animava procazmente, ao alto, com a autêntica enormidade da cabeça, prazenteira e afável oscilando, tôda em mesuras. E nenhuma sorte de máscara ou atenuador disfarce nesta estadeação impudente da figura. Apenas êle avivára a sépia e nankin a dura projecção das feições, e asperisára a poder de caio e zarcão a macieza juvenil da face, tornada assim a raíz lógica, natural, da adusta rubefacção do cránio. Era um prodígio de bom humor esta valente ampliação caricatural, êste autocomentário alegre à própria disformidade.
Entretanto, de roda, à parede drapejante das bandeiras viera cingido e compacto inscrever-se o muralhão dos curiosos. Grupos surrateiros conseguiam vir de fóra e insinuar-se, impávidos e de pé, avivados pelos rostitos frescos das midinettes da 2.ª classe, trazidas arteiramente pelos oficiais de bordo a gozar o espectáculo. O Silveira não teve descanço enquanto não abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa mímica eloqùente a impecável distinção da toilette. E ela, infantilmente:
—You like?
Êle, incendido e vibrante, confirmava,—que sim,—e sentindo um desvanecimento ingénuo em acompanhá-la, procurava fazer-se compreender, num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vénias e lisonjas, que só cessaram quando o impróvido galã notou que as Wimeyer tinham vindo plácidamente tomar, num reservado cantinho, as suas cadeiras. Êle então desligou-se da irlandeza, e mudando de tática, forte no seu propósito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realização dum Boucher ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenções, encarecer-lhe a propriedade impecável do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde quer que êle visse alguma pessoa do seu trato, na disposição de preencher a respectiva lista,—fôsse embora um quáse desconhecido,—aí corria logo a tentar persuadi-lo, a pressioná-lo com vivacidade, a suborná-lo pela lisonja, no implacável desígnio de fazer vingar o seu desejo.
Grado e grado, porêm, a pressão sufocante do ar, a aglomeração, o calor, o contágio erótico das danças, iam determinando na foliona turba um começo de enervamento que se exteriorizava em sensíveis mostras de enfado, em estases mórbidos de cansaço. Já os homens passavam os lenços pelo pescoço, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os leques andavam abundantes de mão em mão, sempre na sua palpitação tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. me M. d'Ellery tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica túnica oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe oprimia a cabeça, —uma obstrusa composição da qual, para mais, ela notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque nesta criação infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas, realizara, não o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o voluptuoso coleamento e as lânguidas suavidades daquele traje magnífico de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme tôrre de pesadelo, tôda em ásperas e duras linhas, em rasos planos, em projecções maciças, em cruas e vivas oposições, em ângulos que se penetravam, em pontas que se hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabeça do Alvarez estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ângulo da muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipação, a insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trás do piano, despiu a túnica, e provocadora e ardente, com a frescura roliça do busto bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o Alvarez,—que tambêm se desembaraçara do rodapé de chita e das andas, ficando em mangas de camisa,—travou-lhe súbito do braço e rompeu com êle num desenfreado can-can, que foi um escândalo para a porção grave e burguesa da assistência.
As Wimeyer haviam-se retirado antes; propícia eventualidade que o Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o momento das votações se aproximava, ei-lo aí de volta na sua furiosa, na sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando adesões, forçando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido êxito; o primeiro prémio para os trajes já de antemão preparados foi com efeito conferido a Mrs. Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcançaram naturalmente a primeira votação o Mafiori e o Alvarez. O prémio para o melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, fê-lo adjudicar a colónia dos saxões e yankees, por um sufrágio esmagador, a uma inglesa esnalgada e longa como uma chaminé de fábrica, a qual tivera a suculenta idéa de se mascarar, figurando uma espécie de cozinha ambulante,— para o que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar pródigamente, doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa sarapilheira, uma heteroclita profusão de caçarolas, tachos, cafeteiras, abanos, tenazes, pás, colheres, ramos de cebolas, toros de couves, mólhos de rabanetes, nabos e cenouras.
Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situação, havia passado com Mrs. Edith ao restaurant improvisado no convés de estibordo, para celebrar com ela, a champagne, o seu triunfo. Breve apareceu porêm o conde a cortar-lhes a efusiva comunhão dos toasts, ponderando—que era tarde, tinha sono... e ela tambêm devia estar fatigada.—Bebeu ainda uma taça de champagne, brindando pelo Silveira, e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pêso ao busto airoso e leve da mulher.
Os outros comensais, de momento ali, foram tambêm passo e passo desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se quáse só e como que restando o único assistente ainda aos últimos acordes da festa agonizante. Sem embargo, não se sentia em disposição de descer à cabine. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia do róce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a mordente excitação, derivada das múltìplas e opostas comoções da noite. Fazendo então o giro distraído do barco e erguendo ao alto a espertinada cabeça, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do céu e da sua eterna abóbada constelada. Liberta por agora da forte evaporação do dia, a atmosfera alimpára e despojára-se do véu cendrado da neblina. Apenas a diafaneidade imponderável do éter se baloiçava entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre as mesmas constelações fulgurantes, a mesma pregaría de fogo, o mesmo brilho orgíaco, aqui semeado ao acaso por entre flócos de neve ardente, ali afirmando aladamente no espaço o seu fulgor solitário. Contudo, era êste um céu diferente do que êle estava habituado a ver na sua terra, era um céu menos povoado, menos esplendente, menos loução, e que por isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais profundo. Não tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontável poalha sideral, esparsa pelo espaço. Seguramente era êste o cósmico scenário próprio, a divina cúpula de protecção adequada às ignoradas regiões aonde êle se dirigia, de mudas solidões intérminas e imensas extensões desertas.
Dentro, porêm, da relativa parcimónia e o discreto brilho dêsse caminho dos deuses, alguns sóis se afirmavam potencialmente em fulgurações vibrantes. Um dêles, principalmente, que bastante acima do horisonte se erguia tremulante, faíscando, ardendo... Um grande diamante azul, prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais incoercíveis da Via Láctea,— suspenso pomo de luz viva, como que prestes a desprender-se da abóbada celeste, atraído pela noite insondável do mar e ancioso por descer a traspassá-la com o dardo deslumbrante da sua claridade, para decifrar-lhe o mistério e desvendar-lhe os segredos.