Amor Crioulo
Capítulo IX
Um escasso dia volvido apenas sôbre a festa, Belisário regressou à metrópole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja existência ali, depois do seu assinalado triunfo hípico, nas últimas semanas, decorrera tôda batida em alternâncias de cruel incerteza, assaltada de imprevistas dúvidas, cortada em antíteses absurdas, numa espectativa mortificante. As flutuações coquetas, incessantes, da sua «bôa amiga» Maria Mercedes, cujas típicas excelências tam vivamente haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carácter mulherengo; êsse jôgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a exaltação, entre o espanto e o desdêm, entre o enfado e o carinho, desconcertavam-no. Inelutávelmente, corrido de vaga humilhação, êle reconhecia em Belisário um primaz competidor. Por sôbre aquele aspecto derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dêsse físico todo escórias e ruína, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e exuberante, achava-lhe superioridades: era déstro no diálogo, fino e leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais elegância. Por isso a sua obrigada e constante freqùentação, ali, com êsse émulo temido, e frente a frente os dois do ídolo do seu comum cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por vezes intolerável. Contudo, retirar antes dêle seria uma deserção, uma cobardia. Foi suportando... Logo porêm que o afastamento voluntário do rival arredou a emergência dessa hipótese deprimente, o Silveira abalou tambêm, na sua incontida ânsia de emancipar-se duma situação por demais incómoda, violenta, e, perante a pungente ampliação do seu despeito... porventura ridicula.
Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel, jantou e nessa noite não saíu. Apreensivo e triste, sentia uma grande necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se à tortura voluptuosa das suas íntimas cogitações, cujas mórbidas volutas o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na manhã seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porêm, apenas terminado o almôço, picou-o um vivo apetite de expansão, de arejo, de movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompôr alguêm, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapéu e saíu logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudára de pensão e residia agora ali perto do hotel, na calle Libertad, a não mais de quatro cuadras.—Era um pequeno prédio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O Silveira teve que subir uma extensa escada de mármore, em caracól, quáse às escuras, e encontrou-se súbito num modesto e exíguo hall, pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vélha mobília de vêrga, globos de vidro estanhado, missangas, crochets, enredadeiras e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso andaluz, de alentada envergadura, loiro e obêso, o pijama e calça de riscado vestidos sumáriamente sôbre a pele, e os felpudos pés nus mal contidos nas babuchas.
—O sr. Azeredo ainda estava à mesa. Quiere Usted pasar?...
Acedendo curioso ao afável convite, o Silveira seguiu o solícito introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de zinco sôbre o saguão, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular peça oblonga, tomada quáse totalmente pela mesa, em tôrno da qual, havendo cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra, familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de salto a abraçou-o efusivamente.
—Oh, João! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por lá...—E numa palmada cordeal sôbre o ombro, indicando a cadeira que, ao lado dêle, a mucama havia pronto achegado:— Senta-te... Que magnífico que vens!
Em seguida, com aquele seu invariável ar salteiro e risonho, o Azeredo fez em globo a apresentação do amigo aos outros comensais, com uma sublinha especial, é de saber, perante a dona da casa, à direita da qual êle tinha o honroso privilégio de sentar-se, —e que era uma grossa e bem fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viúva havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por conveniências domésticas. À direita do Azeredo sentava-se uma joven corista do Avenida, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar, os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez cansada da expressão saltando em contraste provocador o narizito petulante. O nariz era tambêm a única feição acentuadamente vincada, nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar à mesa em frente dêle, à esquerda da dona da casa,—um incompreendido violinista de café-concerto, a pele como pergaminho, os músculos como arame, rechupado, lívido, transparente. Mais à esquerda, havia um acomodatício e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho posta, e sentada como por demais, entre êstes dois últimos, aparecia uma gorda e casquilha quarentona, com o ar presunçoso e taful, pastosa, feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificação do burlesco; vestia uma curiosa bata ornitológica, tôda carregada de passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em côres de papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados laivos de água oxigenada sarapintavam cómicamente a maranha abstrusa do cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por igual, às dedadas, a lambugem clara dos cosméticos; e à raíz da face opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apáticos, na sua vítrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de sáurio, uma credulidade estúpida.
O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca marafona era naquele momento o centro burlão das atenções e o tema desopilante da conversa. Com efeito, não tardou que o amigo lhe não dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa irónica reverência:
—Chegas na melhor ocasião. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a señorita Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, próxima debutante no Colón...—E com um patente ar zombeteiro, num gesto de solícito apoio aos circunstantes, acentuou:—Em plena primavera da vida, como vês... Vinte e cinco anos, no mas. Um flamante embrião de artista e um coração inabordável! Não é certo?...
De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuência, enquanto a embaída vítima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do côro hilariante da assistência. E para ela agora com a mesma urbana solenidade, o Azeredo, indicando o amigo:
—O meu amigo e patrício João da Silveira, solteiro, rico, poeta... O homem que lhe convêm... Um grande fidalgo e um grande enamorado.
No mais caricato arremêdo de êxtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a apática inexpressão dos olhos, mordia o lenço, parodiava atitudes infantís e motêtes ingénuos. Entretanto, na sua apologética parlenda o Azeredo tornou:
—Uma voz de oiro!
—Dito por todos os mestres,—confirmou Calliope com fatuìdade.
—Cinco anos de Conservatório e dez de lições particulares.
A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista, coçando deliciado a nuca, piscando um ôlho:
—Não se pode dizer um talento muito espontâneo...
Porêm, vagamente apiedado, o Silveira:
—Deve ter começado de muito criança.
—Era tudo fôrça da vocação...—aclarou o Azeredo, no mesmo tom escarninho:—Quando largou o biberon, já solfejava.
Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuço. E o avantajado andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o giro atento da casa.
Mas de repente o Azeredo, consultando o relógio, ergueu-se.— Eram horas de voltar ao escritório:—E saíu rápido, com o amigo, conduzindo-o familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sôbre a rua. Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na préga trocista dos lábios apagando-se-lhe as derradeiras vibrações por êsse jôgo desopilante com a señorita Cernadas. O Silveira perguntou-lhe—que bolha fôra aquela de mudar de pensão? E com ar enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou:
—Aquilo lá era uma maçada, menino! Imagina: a tal viúva chilena dava-me uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insaciável! Porêm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiçado por ela e sem sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio... um riso! fazia-me arremessos... E à sua arisca Dulcineia escrevia então umas cartas lacrimosas e tétricas, tresandando bafio romântico, nas quais havia desgrenhados apelos ao refúgio amargo da morte, e por entre cujos rábidos arrancos tremeluziam ameaças de vingança.
—Que te importava a ti?
—Não, mas é que ao mesmo tempo essa pobre rapariga tanguista, que era uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e daí seringava-me a todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura, espiava-me, com scenas de ciúmes... Uma carraça, uma cataplasma, um tédio! Uma noite, comeu as cabeças tôdas duma caixa de fósforos e foi naquela casa um reboliço... vomitórios, fricções, prantos, desmaios... tivemos que levá-la à Assistência.
—És o terror das pensões baratas.
—De sorte que eu então, p'ra evitar uma dupla tragédia, tive um iluminado rasgo de prudente decisão e raspei-me. E aqui, estou bem. E uma casa reinadía... O diabo da patroa joga como uma danada nas carreiras, e de cada vez que ganha, é um deboche de champagne com os hóspedes e as amigas.—E logo num tom de desafectada cordealidade, todo dobrado para o amigo:—E tu por lá, meu maganão?...
O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e louçã da sua breve estada no campo,—a imensidade lendária da pampa, a luz, a côr, a paìsagem, o inéditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos costumes. Espraiou-se em gratas referências ao hospitaleiro carinho dos Saavedras, enaltecendo de preferência, em enternecidas frases, essa doce e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua bondade inverosímil.
Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou:
—Sim, sim... Ainda tu não sabes quanto ela é de boa!
—Então?...
—É uma sogra rara, única, paradoxal.
—Como assim?
—Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu já um netito, êsse guapo muchacho, o Eduardo, que é a exclusiva adoração do avô. Ora o pai do pequeno é um perdulário, um sem vergonha, um sensualão, um estroinaço impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca dedicação pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao genro só p'ra que êle, com as suas calaveradas, não dê desgostos à mulher.
—É bôa! Era uma sogra assim que me servia.
—Não haverá duas na terra.
A seguir, o Silveira, depois duma pausa,—e como quem tímidamente retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a fruìção dum prazer,—referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza física, apontou em vagas e trémulas linhas de incerteza a complicação desconcertante do seu perfil moral. E nesta empolgante análise retrospectiva, a despeito do tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoção traía-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um sôpro de íntimo incêndio trazia-lhe a alma aos lábios, ao ensaiar a turbadora evocação dêsses formidáveis episódios, dessas horas atormentadas e profundas, relâmpagos de enlêvo, eternidades de dôr, delícias dum instante.
O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situação, escutava-o em silêncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com quesília, com desgôsto. E por fim, tomando o chapéu para sair, com a bôca severa e os cílios graves, aconselhou:
—Tem-me conta com essa gaja... Começa por te derreter os miolos e acaba por te fundir a algibeira.
—É rica.
—Não importa. A esta gente aqui está-lhes na massa do sangue: estafarem o seu e o alheio.
Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram na Rôtisserie Sporstman, e foram ao teatro San Martin, desemborrar um pouco os nervos na contemplação da mímica petulante e lúbrica da Pastora Império. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde já sob a claridade molhada do ar, na renovação da temporada elegante, um cordão de deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das pelouses, e a envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla e fácil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava raízes, a sua galharda juventude frondejava em ímpetos, sentia o pensamento inerte, embevecida a alma, o coração cativo.—Buenos-Aires, bem se dizia... era o Paris da América, seguramente!—Vinha-lhe o dulceroso apetite de quedar-se esquecidamente ali, nesse adorável ninho da felicidade, essa esplendorosa sucursal do Paraíso, deslumbrante e imensa caravançara onde à compita, vinha estrelar-se o escol das civilizações, onde émulos se davam cita os génios de tôdas as raças, o melhor dos progressos, das grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o privilegiado solar da fortuna, da abundância e da harmonia, a terra das mulheres de lindas bôcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas com nobreza.
Duma das vezes, ao desembocar na Avenida das Palmeiras, cêrca do lago, pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da quádrupla fita de veículos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso Peugeot, e mal que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a êle, importante mas afável, a oferecer-lhe as duas mãos e a perguntar-lhe—como ia. Cortês e solícito por igual, pediu-lhe tambêm o Silveira informações dos seus negócios. O marquês estava remoçado, parecia feliz. Os olhos flácidos tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuviára, e tôda a face rosada e redonda florescia, erguida pela saúde ou dilatada pelo prazer. Às interessadas perguntas do amigo, êle sorriu.—Bem! muito bem!—E com a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,—que aquela forçada abdicação dos seus fóros nobiliárquicos trouxéra-lhe sorte, afinal. Estava fazendo bastante negócio. Fizera uma bôa venda aos Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tôda dos Arriola,—um palácio!—e tinha uma grande encomenda para o Jockey-Club.
E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irónico desdêm a encrespar-lhe os lábios:
—A esta hora, já as venerandas ossadas dos meus maiores hão-de haver estremecido, várias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausoléus lavrados. Uma indignação de mau gôsto, no fim de contas... Porque outra coisa não há a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo pedantismo não passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se negoceia aqui: é uma questão de rótulo. O segrêdo está na arte de embair o freguês a encarecer a fazenda.
Depois, num gesto de paternal incitamento:
—Porque não faz o mesmo, meu amigo...?
Súbito, como na onda vaga da multidão descortinasse algo que o interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e rematando amável:
—Eu continuo no Plaza. Venha um dia almoçar comigo.
E êle que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira, de idade à primeira vista inclassificável, artista lírica em disponibilidade ou demi-mondaine em decadência.
Certo foi que a prática significação daquele seu conselho calou suasiva e funda no ânimo inconsistente do Silveira.—Seria realmente uma coisa acertada, sensata, oportuna, tentar um negóciosito. Porque não?... Já várias vezes êle o havia pensado: fazer como tôda a gente. Êle trouxéra consigo uns contitos de réis, p'r'ó que désse e viésse... e porque não procurar engrossá-los? de preferência a desbaratá-los p'r'aí estúpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando à tôa na roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupação dos interêsses monetários poderia ser quiçá um derivativo salutar, e ter a virtude de pelo seu áureo deslumbramento dissipar moles inclinações piégas e furtá-lo a exaltações perigosas, como essa agora da diabólica Miquêtas... Vá feito! Era o caminho a seguir.
Desta forma, o Silveira, sensível ao contágio do mercantilismo ambiente, perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento rápido e retumbante, nos dias subseqùentes dava-se com afinco à leitura dos anúncios comerciais dos diários, concorria aos leilões, era um assíduo freqùentador das vitrines dos corretores, onde em taboletas relumbrantes de emissões de títulos, vendas de lotes de terras e quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A intervalos, as venusinas predilecções do seu carácter reganhavam o natural ascendente, e êle então pensava em visitar os Wimeyer, que contudo ainda não haviam regressado do campo. Queria tambêm voltar a ver os Améglio; porêm aquela cavilosa duplicidade de Mrs. Edith irritava-o... Era porêm evidente que, por momentos, a branca crôsta da sua alma metalizava-se. Já jogava em fundos e entrára com capital para a fundação duma Sociedade Internacional de Seguros. Êle era o primeiro a fazer troça de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandôno comentava, perante o Azeredo:
—Tem graça! eu tam influido agora com negócios... coisa que não é nada o meu feitio.
E meio incrédulo, o amigo:
—Não te dura muito!
Contudo, o Azeredo, vagamente scéptico mas no fundo de acôrdo, entendia que sim, que fazia muito bem! porêm tinha que precaver-se e ter muito ôlho contra essa imensa praga de estafadores e meliantes... Ao mais pintado êles faziam o conto do vigario, a cada instante! Por isso, que não tratasse senão com gente bem conhecida. Havia de apresentá-lo no Club Progresso, onde teria ocasião de relacionar-se com importantes financeiros e industriais, com grandes e autênticos terratenientes, com fazendeiros honestos e firmas garantidas.
Entretanto, tôdas as manhãs, com uma pontualidade de amanuense, o endurecido Silveira subia a Avenida de Mayo para ir ver as cotações da Bôlsa e em seguida fazer, por San Martin e Reconquista, o interessado giro do bairro clássico dos negócios, dando-se a acariciadora ilusão de ser já um grande capitalista ou proprietário. E ao mesmo tempo alguêm havia que, com solícita antecedência e uma pontualidade igual, em face mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua, aguardava em suspenso a sua aparição e espiava afincadamente a realização quotidiana dêste acto banal da sua vida exterior.—Uma simples e adorável rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto, miudita, morena, bem calçada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha férvidamente posta a vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos negros, incansavelmente apontados ao portão espelhento do hotel; e, fechada no exclusivismo da sua mordente inquirição, como que buscava anular-se para tudo o mais, tímida e pequena ante o roce brutal da multidão, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as propostas equívocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura do Silveira assomava à porta e saía, passeio fóra, a caminhar distraídamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao imperceptível estímulo dum inefável júbilo interior e seguia-lhe humilde na peugada, durante uma ou duas cuadras, paralelamente; e por fim, quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno, à primeira esquina, dobrava e desaparecia tambêm num relance.
Mais de uma semana, com inalterável precisão, dia por dia, se prolongou e repetiu êste jôgo inocente para o inadvertido ânimo do Silveira absolutamente despercebido. Té que, duma vez, como êle tivesse que dirigir-se à calle Vitória, apenas saíu do hotel cortou direito a Avenida e veio assim a cruzar-se, quáse ombro com ombro, com a interessante figurita anónima que o espiava, e que na sua deliciada confusão, ao primeiro instante, queria evitá-lo, eliminar-se, fugir... Impossível deixar de notá-la. E logo súbito, numa expansão de grata surprêsa, reconhecendo-a:
—Ó Luísa! tu aqui?...
Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mãos, baixou os olhos, enquanto a frescura virginal da face tôda se conflagrava em tintas de incêndio.
Abrindo acolhedor os braços, o Silveira interrogou:
—Então? deixaste a chacra onde trabalhavas?
—No me pagaban.
—E teu irmão?
—Me pegaba.
—Pobrezita! bem digo eu...—bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado interêsse, a seguir:—Fugiste então e vieste p'ra Buenos-Aires governar a vida?
Numa tácita aquiescência, muda e indecisa, Luísa sorria vagamente.
—E gostas?—indagou o Silveira, muito afável; e como a sua linda desconhecida abanasse afirmativamente a cabeça, com o vago sorriso de há um momento aquecido agora por uma adorável expressão convicta:—E porquê?
Luísa teve uns segundos de comovido silêncio e por fim, dobrando humilde o busto, com as abatidas pálpebras seguindo, em baixo, o movimento dos pés, que em taramelados giros raspavam trémulos na orla do passeio, murmurou:
—Porque aqui estoy mas cerca de Usted...
Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoção correu, mixto fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingénua confissão, a doçura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma reùnião de acionistas da tal Sociedade Internacional de Seguros, e êle ia agora à calle Vitória para ter uma conferência prévia com um dos membros da Comissão Directiva, pois sobravam razões para desconfiar que semelhante Sociedade não passava duma audaz mistificação, duma burla descaradíssima, na qual êle via já infelizmente a arder o seu rico dinheiro! Porêm, num pronto, a aparição de Luísa, ante a inefável magia daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqùência duma confissão tam espontânea e tam formal, tôda a sua grande preocupação financeira,—uma preocupação de enxêrto,—se lhe varreu do sentido... Ao mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo da sua figura, a miséria do seu arranjo... e sentia-se vèxado; via-se que não podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, às claras, nesse comprometedor tête-à-tête num logar tam público, nem tampouco acompanhar com ela. Mas tambêm,— que demónio!—esquivar-se agora e deixá-la, retribuir êsse infantil abandono com a indiferença, seria a maior das ingratidões, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso êle, de repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para Luísa, olhando-a com carinho:
—Já almoçaste? queres comer?
Por seu turno, Luísa, sem ousar encará-lo, as mãos juntas erguidas aos lábios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monossílabos de embaraço. E o Silveira então, adivinhando-a, tomou-lhe do braço, e com afectuosa decisão, familiarmente:
—Anda daí!
Internou-se com ela em Vitória, mandou-a seguir rua abaixo, na sua frente, um pouco a distância, em direcção ao Congresso; e aí dobraram rápido para Entre Rios, onde entraram num bar-restaurant de ínfima classe, velhacouto barato de menesterosos, rufiões, cocheiros, chauffeurs, caixeiros sem patrão e redobloneros sem clientela.
Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta penumbra, e, à aproximação solícita do moço, dobrado em interrogativa atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sôbre a tábua encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse—o que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitação, com a face incendida e os olhos húmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, não atinava igualmente com o que havia de escolher.—Não queria comer. Passára-lhe a vontade...— Contudo, após uma laboriosa inquirição pela hipertrófica lista dos ágapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate liviano e sandwiches. Êle pediu um Bilz. E com familiar naturalidade, num singelo abandôno, algareira, feliz, Luísa foi então contando:—Ela não andava por'li assim tam perdida como o seu querido nenito imaginava. Já estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a última, quando foi do centenário. Tinha mesmo aqui uma irmã... E que lá no campo moíam-na com trabalho e ainda em cima não lhe pagavam. Guilherme, o irmão, era um desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo... mas, em suma, como não sabia o que era mundo e não alcançava a mais, ia-se conformando... A vélha adivinha de Castelli lá dizia: que cada um nasce com o seu destino já talhado. Que lhe havia de fazer?... Porêm que depois, de repente, nessa terrível tarde que afinal se volveu p'ra ela numa aurora, ao vê-lo surgir tam milagrosamente e salvá-la, sentiu que se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela não sabia explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma, compreendia como podia quererse a alguêm... e que a sua verdadeira existência começara naquele momento, que não mais poderia quedar-se ali onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o momento, infiltrada de saùdade, reclamando-a com império.
Premindo-lhe a mão com doçura, o Silveira interrogou:
—Mas que te importa a ti?...
E ela, num profundo acento, gravemente:
—Nada mas me importa en el mundo!
A seguir, por entre as freqùentes olhadas oblíquas da freguesia equívoca do bar, intrigada pelo estranho accouplement daquele rico mozalbete com uma tam ordinária piba, Luísa continuou desfiando, —que, resolvida a partir, fôra a socorrer-se com aquela santa senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de recomendação para êsse gran comercio de imagenes que havia na calle Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graça! todo o dia agora a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na sua vida.
—Conféssas-te agora a mim.
—Es que el señor es mi santo preferido. El señor y San Antonio.
—Mas então, estando aí empregada, como é que?...
—A las once salgo á almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia en acecho, ya sabe, frente mismo á su hotel. Por suerte algunas veces mi amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada á la tienda, sin comer.
—Que disparate!
—Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer.
—E aqui onde vives?
—En la calle Tucumán, en una pensión muy cómoda e barata, dirijida por una espécie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indicó. La casa es solo para señoras y señoritas. Tengo un lindo cuarto, con el piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien à la gente. Pero tiene una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la noche ya nadie puede salir.
—Se precisares de alguma coisa...
E com crescente animação Luísa, num progressivo abandôno de todo o seu ser confiado e vibrante:
—Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo aspirar á su cariño. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir! Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el señor vise como yo, allá afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy a ser!... No se acuerda el señor de aquella noche en que la siniestra lechuza nos seguia todo el camino?... Nos ligó en la vida y en la muerte. Es la suerte ya vê... Y yo confio en ella y á ella me entrego, y estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria, que cuando la felicidad se pone delante de nosotros á abrirnos un camino, es como la desgracia,—es por mucho tiempo.
Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira murmurou:
—Bem, está bem...
Luísa agora mudára de expressão, e com adorável infantilidade, tristemente, olhando-se com desprêzo:
—Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo... si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!—Mas logo, numa coqueteria ingénua, recobrando-se:— Ah! pero tambien yo sé vestirme como las señoritas de la ciudad. Y tengo com qué, gracias al Señor!
—Não tens um chapéu?
—Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de oro.—Atirava com decisão o guardanapo:—Vá a ver!
O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrédulo; e após uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mão sôbre a mesa, suavemente:
—Mas, dize-me: então, sério, sério, não te lembra o campo?
—Que me voy a acordar?
—Não deixaste por lá nenhuma inclinação? não tens saùdades?
—Inclinación?... Acaso sé lo que es eso!
—Era natural...
—Nadie! nadie!—E com um sincero calor, beijando os dois indicadores postos em cruz:—Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi?...— Depois, comovidamente, com os antebraços ao alto, as mãos postas em súplica e as pupilas ardentes num amoroso enlêvo despedidas ao busto atónito do Silveira:—Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razón y el fin de mi vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!
Súbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Luísa se fixassem no grande mostrador circular do relógio da sala, a timorata rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho:
—Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy á dar en la tienda, valgame Dios?—E pondo-se de salto em pé, apressurada, inquieta: —Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy á tomar el tranvia.
Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar por êle, partiu precipitadamente.
O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pêso dum inconfessável cuidado. Acendeu um cigarro, saíu morosamente... e longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a pé a praça do Congresso.—Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado, porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episódio callejero. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaças ao desejo; mas simultâneamente, perante a turbadora ameaça do contubernal convívio com essa criatura delicada e simples, o seu epicúrio egoísmo revoltava-se. E como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso plano ou houvesse cometido alguma acção indigna, guardou-se de contar qualquer coisa ao Azeredo.
Curioso foi que à hora habitual, na manhã seguinte,—e embora não houvessem feito nenhum acôrdo prévio,—lá estavam os dois outra vez cada um no seu posto; dando-se até o caso singular de ser o Silveira quem apareceu primeiro. Pronto êle havia baixado ao salãosinho de leitura do hotel e daí, sem mesmo pensar em almoçar, recostado com indolência num fauteuil, junto à janela, seguia espiando em disfarce a aparição, na esquina defronte, da sua linda e suave companheira.—Nada tinham combinado, mas de seguro que ela havia de vir!—E, forte nesta acariciadora evidência, a curtos intervalos êle não despegava de apontar os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito não tardou que a sua femieira impaciência não fôsse satisfeita. E então, mal que o insofrido galã viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multidão a fina silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapéu, correu à porta... num momento estava junto dela.—Vinha outra, com efeito, naquela manhã, conforme anunciára. Já parecia alguêm... Cómicamente travestida em señorita, trajava uma singela blusa em soyau crême, decotada, com largo cabeção à Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito curta, com sobre-saia plissée, da mesma côr; bota de pelica e verniz, e meia branca; ao colo um ténue fio de oiro; na cabeça um barato chapéusito panier, de palha castanha, rebatido sôbre os olhos e atrás em sôlta curva erguido sôbre a mòlhada luzidía do cabelo, pregado à nuca; e umas luvas triviais de algodão branco, pospontadas de negro, sujeitavam a rústica aspereza das mãos, donde pendia uma bolsinha de sêda.
Entalada nesta convencional, e para ela quáse inédita, indumenta urbana, Luísa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernação havia o que quere que fôsse de contrafeito e exótico, que a desfavorecia. Ela mesmo não se sentia à vontade... os movimentos eram hirtos, a expressão estranha, não sabia que fazer dos braços. Estava adorável de embaraço e de ridículo. Mas a tudo sobrelevava sem esfôrço o contôrno picante da sua figura, e dessa contrafacção irrisória zombava triunfal a sua mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graça nativa, a sua confiança ingénua, o seu viço exuberante.
Saùdaram-se por um cordeal apêrto de mão, e de roda dela o Silveira tudo era mirá-la de gôsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a encantadora. Porque de todo aquele ingénuo esfôrço ressaltava a exclusiva, a ardente preocupação de interessá-lo; todo êsse preparo coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia... Do mesmo passo, a confusa e tímida criança, no íntimo lisonjeada, pedia mimadamente—que no le hiciese burla...-e trejeiteava umas infantís e humildes expressões que, eram a demanda subtil do seu agrado.
Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fôsse de penoso e molesto lhe ensombrava a expressão, lhe pesava nos lábios e abatia o vôo sonhador das pálpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre no mesmo silêncio embaraçoso e difícil; té que por fim, por muito instada, balbuciou a custo:—que ao entrar na loja, na véspera, como chegasse uma hora mais tarde, não quiserem saber de razões nem desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na.
Tomado dum indominável frio egoísta, o Silveira exclamou:
—E agora?...
—Ahora que sé yo?—murmurou Luísa mansamente; e na sua resignação fatalista, encolhendo os ombros:—Busco otra casa.
Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora já sem esquivanças, sem hesitações nem dúvidas, mano a mano, como dois iguais, como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e graves, a par um do outro e distanciados pela interposição dêsse arreliador problema económico, filosofando em comum sôbre a dura incerteza do futuro. Porêm, súbito, um outro problema bem mais grave formularam as exigências fisiológicas do Silveira,—a necessidade de almoçar. E êste era de solução imperativa, imediata. Fez sinal ao primeiro taxi fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e, de mão à portinhola e pé no estribo, ordenou ao chauffeur que tomasse em direcção ao arrabalde, aí para Flores ou Olivos, e que aterrasse nalgum pequeno restaurant, aceado e cómodo, onde pudesse almoçar-se bem e a bom recato.
E nesse acomodatício bucolismo de fóra de portas foi onde gozaram o seu primeiro idílio,—breves, fugazes horas de paz e de enlêvo, vividas ao acalentador abrigo dos muros dum exíguo patio colgado de trepadeiras, em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se, dançando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente aquecendo, o Silveira, profissional emérito nas práticas da sedução, envolvia-a em cariciosas espírulas de encantamento e de sonho, acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada criança recolhia inteiras, num embevecimento ingénuo, com os grandes e lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Luísa tambêm, no progressivo alento da confiança e pelo eflúvio excitante da comida, tornava-se ligeira, expansiva, fácil, tagarela, e com a sua vozita límpida e vibrátil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido relato do seu passado, da sua vida de desamparo e miséria... e como agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico amor... desnudava as mais íntimas prégas do seu sentir, punha da mais comovedora evidência a intacta virgindade da sua carne e a nívea pureza da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra vez, êle cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sôfregamente... e ela abandonava-se, poisando-lhe em delíquio a cabeça contra o peito, encolhidita, humilde, gozando o prazer inefável de sentir-se pequena junto ao homem que adorava.
Nos dias subseqùentes, é de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em buscar nova colocação, nem tampouco êle se interessava demasiado pelos negócios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os, adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa despótica e mútua sedução, dias pós dias, foram indominávelmente consumindo o tempo e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na quietude vaga e balsâmica do campo. E êste delicioso parêntesis de sonho engrinaldava-o Luísa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de carícias tam espontâneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira não sabia por vezes a que sobreùmanas fôrças socorrer-se para enfrear a violência do desejo. Eram as consabidas étapas duma capitulação moral, gostosa, inevitável, em que a alucinada criança ia deixando a pedaços o pudor,—essa epiderme da alma,—como antes, pelo campo, a fímbria da rústica saia esgarçada nas balsas dos caminhos.
Debalde prudencialmente o Azeredo, já ao tempo conhecedor da situação, buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dêsse resvalo inobre em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alçapões, os tédios... porventura os perigos.—Que precisão tinha êle? com tanta mulher por'í e noutras condições, e mais educadas, mais lindas, melhores, seguramente!—A nada porêm cedia a libidinosa querença do Silveira. Se êle a princípio hesitára, agora, mercê da garra mansa do convívio, o domínio, o gôzo, a plena posse de Luísa tornára-se para êle uma idéa obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradição como do seu agrado. Por fim, lógicamente, amaram-se na cumplicidade mercenária duma casa amueblada. E logo nessa noite o Silveira, quando a sós, no hotel, com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio de vaga e presága angústia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado agora, com a posse, o encanto, o devassado mistério dessa criatura confiada e simples, uma sorte de áspero cuidado espancava-lhe o sono... remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para êle desconhecido. Tinha supersticiosas apreensões e vinha-lhe uma tristeza. Quereria retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausível e tam humano dêsse vulgar lance de amor, a sua consciência em alarme futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar no seu destino.