Amor Crioulo

Abel Botelho · Capítulo 6 de 12

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Amor Crioulo

Capítulo VI

 

Bem disposto e ávido por continuar o seu interessante exame objectivo da cidade, o Silveira no dia seguinte ergueu-se cedo e desceu pronto a rua. Andadas não mais de três cuadras, ei-lo de novo na Praça do Congresso. Dez horas da manhã. Fazia um dêstes claros, suaves e incomparáveis dias de outono de Buenos-Aires, em que do céu alto e límpido, de pura safíra desce uma luz de oiro vélho a acariciar tranqùilamente as coisas. Os raros relvados do centro da praça, com a sua rociada lanugem verde, formavam apetitosos ninhos, e a airosa cúpula do Parlamento, ao fundo, cortava-se na frescura opalína do ar em figuras de aguarela.—Mas agora o Silveira notou que logo ao primeiro ângulo do vasto recinto, à sua esquerda,—junto á base duma estátua que era a consagração ornitológica dalguma grada personagem, de matacões e labita, desta as abas dançantes brigando simbólicamente com as asas duma águia,—um joven de lunetas e gravata branca, desbarbado como um clergyman, trepado a um banco, acenava e arengava com entusiasmo a um hipotético auditório que não vinha.

Atraídos pelo colchete dos seus dedos suplicantes e pelos seus brados convictos, acodem primeiro alguns rotos canillitas, vendedores de jornais; vários cocheiros e chauffeurs em repouso vão depois até êle preguiçosamente arrastando-se; véem ainda, estimulados por êste comovedor desbarato de eloqùência no vácuo, os poucos desocupados que pelos bancos próximos amadornavam a sua indolência. Curioso e atento, o Silveira acercou-se tambêm.— Discreteava sobre política êste improvisado apóstolo da rua. Falava em civismo, em liberdade, em igualdade, em consciência, no sagrado exercício do sufrágio, nas inauferíveis regalías do povo. Figurava enfáticamente o concurso às urnas como a «benéfica corrente arterial» da vida colectiva, como a maior conquista e o mais grato dever moderno. A sua persuasiva parlenda rola sempre sôbre a mesma idéa, torturadamente exibida num laborioso acrobatismo de logares-comuns; dir-se-ia que êle prolonga deliberadamente o seu exórdio, a dar tempo a que a assembleia cresça. Agora há já mulheres tambêm entre os ouvintes. E o glabro orador então aquece, afervora no entusiasmo. Imagina-se compreendido e ala-se em conceitos galantes, em primores de frases, desbrida-se em raptos de baixa lisonja sôbre as reivindicações feministas e a sublime missão social da mulher. Gesticula como um energúmeno, os desmanes da inspiração e o tom da voz sobem de ponto, já com jupitereanas fulminações contra os abusos de caudilhismo, a influência despótica da riqueza e a corrupção sistemática dos «grandes satrapas» do poder,—inofensivas objurgações abrangidas entretanto pela alçada coerciva da polícia.—Porêm o Silveira acha êste mandado charlatão político menos interessante que os seus pitorescos competidores callejeros, os barafustantes pregoeiros de pomadas e elixires maravilhosos. E o assunto não o prende maiormente. Afasta-se com tédio.

Segue então percorrendo a pé a esplêndida rua Callao, num regalado vagar, saborosamente. Fareja com libidinoso apetite as morenas crioulitas que passam, em cabelo; esmiuça com a vista maravilhada e cativa tôda essa opulenta sucessão de magasins elegantes, luzidas étalages, soberbos hoteis e palácios sumptuosos. Mas eis que, ao desembocar na praça Rodriguez Peña,—oh! fastidiosa surprêsa!—mutatis mutandis, ele aí vem encontrar repetida a mesma scena de há pouco. Igualmente aqui um veemente e fogoso orador bólsa sôbre um auditório escasso e mesclado, por igual, a mesma encomendada torrente de diatribes e proclamas. Com a diferença que êste é trigueiro e barbado, de aspecto façanhudo, tem um taxiauto por pedestal, e à sua ilharga flameja com triunfante arrogância uma bandeira partidária. O pior foi que numa das mais impetuosas fugas da sua inflamada homília, um polícia aproxima-se, intervêm, exige-lhe a apresentação da licença; o interpelado titubeia, estaca, empalidece, busca em vão um papel salvador nas algibeiras... e por fim lança mão resoluta ao leme do auto, vôa e desaparece, entre os bonachões aplausos e as casquinadas trocistas dos assistentes.

O Silveira lembrou-se então de ter lido, ou lhe terem dito, que naquele momento a luta eleitoral battait son plein na grande capital porteña. Estava-se em pleno período eleiçoeiro, para a renovação parcial de senadores e deputados. Os socialistas, na impetuosidade juvenil da sua formação, tinham perante os vélhos partidos arreganhos nunca vistos. Êstes respondiam com uma animação e um calor igual. Daí a encarniçada vivacidade da luta, e a dispersiva abundância de tôdas essas arrebatadas prédicas de moral política, cuja copiosa fúria palreira o Silveira ligou naturalmente à profusão berrante de cartazes com muitos pontos de exclamação, e de anodínas efígies de bons burgueses, aspirantes a pais da pátria, que êle via por tôda a parte colados às paredes,—sôbre todos batendo o record da flamância e do réclame o busto implicante dum já maduro candidato a senador, de grande flor na lapela, no redondo carão sensual uns olhitos muito vivos e o grisalho bigode erguido.

Assim se explicava essa divertida e basta erupção de relâmpagos de civismo, por conta própria ou encomenda alheia, um pouco à maneira inglesa. Porêm nada disto podia maiormente interessar quem, como o Silveira, se expatriára de vontade, muito de indústria para furtar-se ao galimatías político e não mais ser parte nem presenciar, sequer, as sujas dissenções e as chinfrineiras brigas em que se esfacelava a sua querida terra. Tambêm, pelo momento, êle começava a sentir que já conhecia demasiado, para um hóspede de horas, como êle, os aspectos exteriores, o ambiente vulgar e comum de Buenos-Aires.—Isto só não lhe bastava, não era nada. Queria ir mais alêm...—Mordia-o o desejo veemente, picava-o o apetite agudo de transpôr essas portitas de sacristia, de franquear essa freirática barreira de inexoráveis persianas com que êle esbarrava por tôda a parte, tendidas herméticamente; queria, em suma, desvendar um pouco o pensamento, a alma da encantadora grande cidade que êle escolhera para refúgio, surpreendê-la nos castos mistérios do hogar, conhecer-lhe as características morais, penetrar-lhe a vida íntima,—o que êle de antemão sabia, pelo Azeredo, «ser algo difícil».

Entretanto nessa tarde, para aproveitar o tempo, e, como bom táctico do galanteio, para não perder o contacto com as áticas perfeições e as claras promessas de Mrs. Edith, decidiu ir de visita aos Di Paoli. Tinha-os ali assim cêrca do hotel, na mesma Praça do Congresso. Uma modesta pensão que lhes haviam agenciado, em casa duma «distinta camarada de arte»,—explicára-lhe o conde pomposamente. Era um simples rés-do-chão, como tôdas as antigas casas de Buenos-Aires, com a porta e a seguir duas janelas. No humbral da porta havia um singelo placard de metal brunido, onde em negros caractéres se lia: Lady Cowpel, miniaturista. Entrava-se, subiam-se três pequenos degraus, e passada uma estreita porta envidraçada, tinha-se o invariável e minúsculo vestíbulo, estiradamente continuado por um álgido corredor descoberto, que uma longa fieira de discretas portas flanqueava, e que era alto, fechado ao fundo por uma esguia charola de dois andares.—Uma mocita de touca e avental branco acudiu à entrada do Silveira, a inquirir:

—Qué desea, señor?

Os Améglio haviam tomado o primeiro compartimento, logo à direita, —o melhor da casa,—correspondente às duas únicas janelas dando sôbre a rua. A esperta mucamita adiantou-se e foi golpear à porta, melindrosamente blindada de persianas fixas de madeira, como tôdas as mais. O mesmo conde veio abrir; e logo com expansiva alegria, ao dar com os olhos no amigo:

—Ah, o meu caro Silveira! Que bela surpresa!—Abriu convidativo a tôda a largura o batente da porta:—Entre, entre... queira entrar.

O Silveira hesitou, ao ver o conde em mangas de camisa, e do mesmo passo surpreendendo num relance a atravancada desordem do aposento.

—Venho talvez incomodar...

—Quê! Incomodar?... De modo nenhum. Pelo contrário! Entre... Fez muito bem!—E para o interior, num altear imperativo da voz, anunciou afávelmente:—Edith! o snr. João da Silveira.

O recêm-vindo arriscou então alguns tímidos passos no baralhado pejamento do recinto. Era uma vasta peça, alta e triste, forrada a papel vulgar, esfarpado a trechos e comido junto ao teto por eczemas de humidade. Sôbre a lisura de bistre do soalho encerado, arrastavam-se um pouco por tôda a parte as maletas, as caixas de chapéus, os sacos de viagem, e havia pulverulências lineares de terra e lixo definindo geométricamente o bôjo de grossos caixotes de pinho, intactos uns e outros já eventrados, com as desprendidas tampas postas ao alto e eriçadas de grandes prégos, hostís e recurvos como garras.

Em meio da sala o conde, sempre convidativo e afável, e depois de haver cerrado a porta, apressou-se a explicar:

—Não repare neste desarranjo, meu amigo. Eu estava desenfardando e arrumando p'r'aí assim de qualquer forma os meus ricos quadros. Parece que não sofreram com a viagem.

—E são muitos?

—Ao contrário. Mas valem pela qualidade. Um tesouro!—E num convencional arrebite de vaidade:—Oh, que deslumbrante exposição eu vou fazer aqui!

Passou a mão nervosa pelas negras ondas do cabelo, moveu o tórax numa leve opressão de cansaço, e mesureiro, abundante, sempre inalterávelmente pálido, apontou desvanecido ao irracional exame do Silveira a atramochada distribuìção das suas telas, umas já penduradas, outras ainda provisóriamente postas de espalda contra o rodapé surramposo da parede. E tambêm junto a esta um petisito obreiro, arremangado e trepado a um escadós de tesoura, como que aguardava ordens, inexpressivo, imóvel, de braços pendentes e o pesado martelo da mão suspenso.

O Silveira julgou oportuno convidar polidamente:

—Bem, mas porque não continua?... Eu não quero que façam cerimónia comigo.

—Cerimónia, nenhuma. É muito amável... É que estou um pouco cansado,—obtemperou naturalmente o conde, enfiando o seu leve jaquetão cinzento. Fez um sinal ao mocito da escada, que desceu e saíu em seguida; e tranqùilamente, sentando-se, acendendo um cigarro:—Temos muito tempo.

Neste momento abria-se uma espécie de envidraçada porta de alcova, no mais escuso recanto da casa, e por ela fazia a sua apetecida aparição essa sonhada delícia de Mrs. Edith, singelamente vestida,—uma saia corrida de fina sarja negra, blusa branca de liberty,—e o mesmo liso penteado em bandós à Cléo, o mesmo divino perfil de Madona, o mesmo ar repousado e ingénuo, a mesma ateniense modelação das formas. Avançou sorridente ao Silveira, saùdaram-se familiarmente, como dois bons amigos. Logo ela recolheu pronto a mão, perturbada e esquiva ao beijo demasiado expressivo do seu admirador; e tudo era depois circunvagar, perante êle, os confrangidos olhos pela sala, e enconchar e alargar e mover com vivacidade os braços, em adoráveis gestos de escusa.

O marido solícitamente interveio:—que o seu nobre amigo já sabia... desculpava tudo. E para o Silveira continuou, desabusado e simples, aclarando:

—Obtivémos por muito favor esta pequena instalação, que está longe de ser decente... e muito mais longe de ser barata. Imagine: esta sala e dois pequenos quartos, interiores, escuros, nada mais... quinhentos pesos por mês. E a sêco. Uma barbaridade! Temos que ir comer ao restaurant Santini, que nos fica a cinco cuadras, na calle Paraná.—Aqui a condessa fêz notar com repulsivo enfado, que, demais, tôdas as manhãs a laboriosa preparação dos banhos e abluções «era uma tragédia». E no mesmo tom o Améglio confirmava:—Uma roubalheira! uma maçada! Conheço Londres, Viena, Berlim, S. Petersburgo... pois, senhores, já vejo que não há como Buenos-Aires para fundir dinheiro!

—Não é nada tranqùilizador êsse anúncio para mim.

—Aqui o pretexto para tam alta renda é que as peças estão mobiladas. Mobiladas!—comentou o conde, com uma desdenhosa mirada em tôrno, encolhendo os ombros.—Mas de que maneira!

Não se recomendava com efeito o mercenário recheio da vélha sala nem pelo confôrto nem pelo aceio. De reposteiros, cortinas ou alfombras, não havia vestígio. Ao meio da principal parede, um aparatoso e ratado grande contador japonês, ainda com preciosas incrustações de laca e marfim, mal amparava a poder de cunhas e remendos a sua ruina claudicante. Havia mais uma meia dúzia de desparelhadas cadeiras, tamboretes e fauteuils, com o estôfo esfiampado e sujo; uma étagère banal com conchas e búzios, um piano; e ao centro uma mesa redonda, coberta por um coçado e lustroso pano franjado, de lanujem verde, agora ciscado abominávelmente de pequenas ferramentas.

Com um novo lastimoso dar de ombros, tornou o conde para o Silveira:

—Nem uma chávena de chá lhe podemos oferecer!

—To morrow...—acudiu a mulher com adorável carinho.

E muito solícito o conde, interpretando:

—Àmanhan... Oh, àmanhã, certamente, com o maior prazer!—E obsequiosamente lembrava:—O que podemos agora é preparar-lhe um punch. Vai feito?

O Silveira recusou delicadamente.—Por modo nenhum! bastava-lhe gozar a sua amável companhia.—Mrs. Edith ofereceu-lhe bonbons, atalhando assim gentilmente o previsto fluxo de consabidas frases lisonjeiras que de seguro ia seguir-se. E levemente ruborizado, o Silveira, a derivar, com os lábios melados da guloseima e do desejo:

—Diga-me, conde... e a sua exposição onde a vai fazer?

—Ainda não sei... Sei apenas, isso sim! que vou épater tôda esta gente—rematou com a mais segura ufania, atirando fóra o cigarro, os olhos muito brilhantes.

E posto súbito em pé, tomando com decisão o braço ao amigo:

—Isto é um mostruário de puras maravilhas. Veja, veja... venha ver! Comecemos por o que está já aqui assim à vista. Aqui tem mesmo na sua frente um Hobbena, o maior paisagista holandês depois de Ruysdaelf; a seguir, um Corot, o grande psicólogo da paisagem; e agora em figura, note! um dêsses graves e aristocráticos retratos de Gainsboroug, que se pagam hoje a peso de oiro; outro, do seu émulo e contemporâneo Reynolds; ali, um belo estudo de Salomon Konink; mais alêm, vá anotando sempre! uma cabeça de Ticiano, de quem o Tintoreto dizia «que pintava com carne moída». E por último,—plantava-se com intimativa diante do Silveira boquiaberto, —por último, nada menos que um Velasquez! um genuino Velasquez, ouviu?... o maior, o mais assombroso pintor de todos os tempos.—A seguir, indicando pelo soalho os caixotes intactos:— Fóra o que está ainda p'r'aí assim...—E sempre na mesma teatral fatuìdade, dando um giro triunfante pela sala:—Não lhe dizia eu!?... É realmente uma dôr de alma ter de desfazer-me de coisas tam raras e tam belas... oh, mas ao menos encontro lenitivo na idéa de que o meu sacrifício há de dar brado! e de que ficará memorável na grata lembrança dêstes bons porteños a maravilhosa selecção de obras-primas cuja aquisição eu venho facilitar-lhes... um relicário de Arte como êles não viram nunca, como não teem nada que nem de longe se pareça sequér!

Mrs. Edith, que depois de cautelosa inspecção acabára por sentar-se no menos avariado dos tamboretes, seguia esta flamante parada estética, sorrindo vagamente, numa complacência tranqùila. E do fundo do seu obtuso espanto o Silveira, para o marido:

—Devem ser telas muito caras?

—Seguramente.

—Próprias talvez melhor para Museus.

—Ah, não... aqui todavia há riquíssimas colecções particulares. Duas ou três, pelo menos. Eu estou bem renseigné... Sei como hei-de manobrar.—E ladinamente, piscando o ôlho:—A coisa é segura!

Perante tanta soma de glória e de fortuna, uma instintiva dúvida chispou na pétrea ignorância do Silveira, que aventurou tímidamente:

—E, perdoe o meu amigo, são bem autênticos?

Um claro riso triunfal aqueceu a cínica face do charlatão.

—Ora eis aí precisamente a garantia do meu êxito, a chave do meu segrêdo! É o caso daquela minha invenção... Eis o ponto onde eu queria chegar.

Convidou o amigo a sentar-se, sentou-se defronte, e sentencioso, pausado, dobrando à frente o busto, os cotovelos sôbre os joelhos:

—Oiça... O amigo sabe que tem sido sempre um problema difícil poder constatar-se com segurança a paternidade dum quadro, especialmente dos antigos, recorrendo apenas aos meios indutivos e dedutivos até agora em uso. Vamos a ver...—Contava pelos dedos.—A análise química das côres empregadas não basta: primeiro, porque os discípulos dos grandes mestres ficam usando, geralmente, as mesmas pastas e as mesmas tintas, o que já estabelece confusão; segundo, porque, alêm disso, as melhores ou piores condições de conservação duma tela, a humidade, o calor, as tropelias dos vários retocadores e técnicos, e mil outros malefícios, chegam muitas vezes a pô-la em estado de não ser possível emitir uma opinião segura sôbre a sua idade e procedência. Bem, mas poderá então recorrer-se, dir-me hão, ao exame e confronto do estilo, da maneira do artista. Ora aqui igualmente o bom critério falha, falto de apoio sério, porque não só, para cada artista, essas variantes no processo pictural se produzem de ordinário caprichosamente, senão que ainda, quantas vezes! os adeptos e os continuadores duma escola acabam por apaixonar-se pelas características de execução do chefe e vão até assimilá-las maravilhosamente. Aí tem o meu amigo Perugino e Rafael: dois temperamentos artísticos de bem diversa índole, não é certo? E contudo, comparados em algumas das suas melhores obras, parecem idênticos.

Contrariado e aborrecido por êste giro erudito do diálogo, o Silveira esboçou um gesto de impaciência e mandou uma implorativa mirada a Mrs. Edith, que folheava uma revista ilustrada, distraídamente. O conde prosseguiu:

—Há ainda a considerar os testemunhos da época, os chamados documentos históricos, dum grande auxílio, seguramente. Mas tambêm êstes só por si não bastam. Porque é por igual freqùente deparar-se uma ou outra tela atribuida a qualquer dos grandes mestres da pintura, sob cujo nome tal ou tal quadro foi inscrito nos Catálogos, e afinal vir a averiguar-se que êle para semelhante obra não contribuira mais do que com a idéa e déra a firma, tudo o mais tendo sido feito por algum dos seus discípulos. Olhe, aí tem: o famoso Retrato do Rabbino, durante muito atribuido a Rembrandt, porque em tudo correspondia à maneira consagrada dêste genial pintor, hoje é catalogado como obra de Salomon Konink. E quantos exemplos mais!

Agora, sim, a condessa, condoída da mortificada expressão e a confrangida atitude do Silveira, tossicou, ergueu-se e veio de novo oferecer-lhe bonbons, piedosamente. Enquanto, palreiro e implacável, sempre sentado o marido:

—Esta deplorável deficiência de elementos de contrôle dá como resultado que a gente percorre os principais Museus da Europa e aí vai encontrar, ainda hoje, muitas das suas melhores obras registadas e inscritas sobre designações deficientes ou imprecisas. A célebre Visitação e a Ressurreição, do Museu de Berlim, ainda hoje se não sabe a que primacial pincel atribui-las. O mesmo acontece com duas Madonas, um São Lourenço, um quadro do Gólgota, um Retrato de Guerreiro e vários outros, todos peças de subido valor, no Museu de Budapesth. O Catálogo contenta-se em nos dizer que são «da Escola italiana». E semelhantemente em todos os grandes museus do mundo. Pois bem! amigo Silveira...— acentuou com jubiloso orgulho, abaritonando a voz, aprumando o busto,—para preencher tam lamentáveis lacunas achei eu o processo! Eureka! É a minha grande descoberta, a minha glória, o meu segrêdo. Todos cá virão ter... é infalível! E quere saber onde pela primeira vez ficou irrefragávelmente provada a eficácia, a importância, a utilidade mundial do meu invento?... Foi em Londres, na National Gallery. Conhece?... Há ali um grande quadro, The Old Grey Hunter, que andava catalogado como obra original de Paul Potter. Porêm, recentemente, o dr. Bredius formulára a êsse respeito dúvidas ponderosas, inclinando-se a atribuí-lo antes ao belga Verboeckoeven. Grande polémica nos jornais e revistas da especialidade, socorrendo-se cada um dos contendores às suas melhores razões e argumentos, numa renhida discussão sem fim... e sem resultado. Vai eu, que me achava então em Londres, aproveitei... a ocasião era formidável!... propus-lhe crânement resolver a dificuldade, pôr a limpo a questão, aplicando o meu processo microfotográfico. Acolheram-me a princípio com um scepticismo incrédulo, mas acederam por fim. E sabe o que aconteceu?...—E arrebatadamente, erguendo-se, num fogoso ímpeto de vaidade:—Provou-se, mas provou-se por uma forma insofismável, entende? que o quadro fôra realmente executado por Potter... porêm Verboeckoeven pintára o cavalo.

No manso rosto complacente de Mrs. Edith, e ante a estupefacção alarve do Silveira, perpassou o comentário burlão dum sorriso. Enquanto doutoralmente o Améglio, em pé diante do amigo:

—Porque êste meu processo não só nos dá a segurança absoluta de saber se um quadro é antigo ou moderno, mas qual artista, moderno ou antigo, foi o seu autor.—Sacudiu a cabeça e ergueu as mãos com encarecimento.—O que então se nos revela é portentoso! Tenho aí provas... hei-de-lhe mostrar.—E agora modestamente, encolhendo os ombros:—E contudo é um processo bem simples e ao alcance de qualquer que tenha uma certa prática de fotografia.—Voltou a sentar-se, e com dogmatismo pedante, feita uma pausa de importância:—A questão é esta: cada artista, quando pinta, e considerado êste acto sob o ponto de vista puramente mecânico, poisa as tintas na tábua ou na tela inconscientemente, tem um toque digital invariável, traça inadvertidamente uma grafia peculiar, que as centenas de pontas do seu pincel vão de improviso riscando, numa impressiva obediência ao automatismo nervoso, e naturalmente rítmico, da sua mão. É um movimento irreflectido, instantâneo, um rasto imperceptível, que ao mesmo artista escapa, que o seu espírito não dirige, que o seu ôlho não alcança... e contudo ficará marcando por uma forma incontrovertida, eterna, insofismável, a genuína autenticidade da sua obra. Qualquer coisa, —entende?—como o reconhecimento duma assinatura por um perito calígrafo, visto que a pena pode considerar-se como um pincel de duas pontas. O certo é que os trabalhos de qualquer pintor,—quere sejam as tentativas indecisas da primeira mocidade, quere os documentos fortes da idade madura, quere ainda as já cançadas produções da sua última maneira,—quando submetidos à prova microfotográfica, e basta ampliá-la oito a dez vezes, revelam todos um traço, um toque, uma característica idêntica. Em cada uma dessas minúsculas análises se apura sempre, invariávelmente, que as sêdas do pincel, uma por uma, vão deixando um fino sulco, ora retilíneo, ora quebrado, ora curvo, ora mixto, afectando infinitas formas, porêm idêntico sempre quando se trata do mesmo artista, e diverso se se comparam artistas diferentes.—E novamente posto em pé, sem pausa, sem piedade, no seu monopólio sem tréguas da enfriada atenção do Silveira, que debalde ensaiava um derivativo inocente da fugitiva contemplação da irlandesa:—Que me diz a isto, hein?

—Eu acho maravilhoso!—acudiu compenetradamente o Silveira, na sua ingénua credulidade; e erguendo-se tambêm:—Deve dar-lhe um dinheiral!

—Dinheiro e fama.

—Não precisava deixar a Europa. Tinha a sua fortuna feita.

—Alguma coisa se fez já por lá... Porêm a divulgação de benefícios dêstes deve estender-se e apregoar-se bem por todo o mundo. Havia que trazê-la a estas improvisadas organizações sociais da América.—Esfregava as mãos de contente:—Vou acabar com a perniciosa oligarquia, com a daninha praga dêsses falsos «peritos de arte», verdadeiros criminosos, que por tôdas as grandes cidades enxameiam e manobram impunemente! E, aqui em Buenos-Aires, conto limpar as galerias particulares de todos os falsos mamarrachos que uma cabotinagem sem escrúpulos tem sabido impingir-lhes, a pêso de oiro, como obras primas. Vai ver! vai ver!

—Uma tarefa benemérita...

—E lucrativa, pode dizer sem escrúpulos.

E os negros olhos ladinos do conde tinham a metalizada expressão duma voraz confiança, ao atribuir-se por êste modo, com o mais audaz desplante, o primado da invenção e o exclusivo da aplicação dum processo que, ao tempo, estava sendo praticado com êxito notável por Laurie nos Museus inglêses e por Thionville nas Pinacotécas da Bélgica e França.

Por fim o Silveira anunciou que ia retirar-se, desapontado galã, ante o fracasso formal da sua visita. E solícitamente o conde:

—Então já?...

—São horas.

—Bem, mas volta àmanhã, não é assim? Queremos muito vê-lo aqui.

—Without fault, to-morrow,—instou numa sublinha amável a condessa.

—Teremos já então a casa um pouco em ordem e as télas tôdas à vista,—tornou afável o marido; e persuasivamente, quáse ao ouvido, batendo-lhe no ombro:—Tenho aí um pequeno Boucher e um Bastien Lepage que lhe devem convir... Há-de gostar.

O Silveira sentiu frio na espinha e tomou pronto o chapéu, para despedir-se. Crescia-lhe agora na alma, contra a gananciosa estratégia dêste charlatão sem igual, um vivo movimento hostil, de tédio e de repulsa. Pensou vagamente em não voltar... Porêm quando, ao receber as ordens da condessa, sentiu nos lábios a carícia do veludo tépido daquela mão pequenina, todos os seus apetites ribaldos espertaram e o reganharam num instante. Rejubilou, aqueceu... e saíu, leve e ufano, todo já no fantasioso encanto das delícias da tarde seguinte.

 

Era uma quinta-feira, dia habitual de carreras. Um passeio ao Hipódromo estava indicado. Para poder obsequiosamente acompanhar o amigo, o Azeredo obtivera permissão de faltar nessa tarde ao escritório. À hora própria, tendo antes apalavrado um taxis, seguiram alegremente para Palermo os dois, e em breve se incorporavam e deliam na grossa e luzida queue interminável, de peões de tôdas as classes e matizes, de veículos de todos os preços, de meios de condução de tôda a espécie, que, naquele desapoderado côrso à favorita diversão bonaerense, de tôda a parte afluiam e acudiam avassaladoramente, bolsando gente a monte do estribo plebeu dos tramways, atirando de golpe as portinholas dos wagons na via-férrea, fazendo pomposamente buzinar e rodar a sua opulência pelo brunido asfalto das avenidas.

Considerava o Silveira com estranheza tam nutrida e animada concorrência a um dia de semana, um dia de trabalho. O Azeredo explicou-lhe:—que todo o mundo ali jogava, moços e vélhos, pobres e ricos, enfermos e sãos, mortos e vivos... as mulheres e as crianças. Era a tintineira geral. Quem não podia dar-se ao luxo de vir a Palermo, fazia obra pelos palpites alviçareiros das gazetas. É que o jôgo, a alicantina, a exploração, a fraude, o interêsse, a indústria da burla e o recurso ao azar, eram o vício, a paixão, o móbil dominante, o despótico nervo propulsor da vida da grande cidade. Os que não apostavam nas carreiras especulavam em terras, jogavam nas loterias ou na Bôlsa. E ainda havia os que tudo isto sabiam muito bem fazer, ao mesmo tempo. Da coisa mais inocente nos surdia um estafador, das mesmas pedras da calçada nos tomava de assalto, a cada passo, um ladrão ou um agiota.—E abrindo depreciativamente os braços, rematou:

—Uma grande banca ao ar livre, uma batota ao abrigo das leis, é o que é tudo isto.

—E tu?...—indagou o Silveira, num despreocupado sorriso.

—Ah, eu das corridas gosto. Bem vês... sou de cavalaria. Aos domingos sou infalível.

Cruzavam ao tempo a aparatosa grille de bronze, da entrada, e penetravam no largo e luminoso desafôgo do stand, que, com as suas luxuosas tribunas, rústicos palanques, pequeninos rondós, pelouses e minaretes, recordou ao Silveira Longchamps, porêm mais pobre de paìsagem e com menos perspectiva. E, de roda, em pintalgados grupos sôbre a escovada areia sôltamente ondeando e farandunando, a mesma concorrência habitual a êstes logares, em tôdas as grandes cidades; os homens, grandes, fortes, serenos, trajando com severa elegância, o tipo do espanhol com vontade, no inteiro domínio de si mesmos; as mulheres, desgarraditas e leves, numa harmonia de conjunto impecável aquatintadas finamente, a airosa silhueta cingida com meticuloso escrúpulo ao córte dos figurinos parisienses, mas sem afectação, numa tenue de bom-tom, num virtuosismo ponderado e honesto, a que faltava aqui a nota criarde das demi-mondaines lançando o estouvado pregão das últimas extravagâncias.

Era um pouco tarde. Já os primeiros números do Programa haviam passado, e estava-se num intervalo. Havia um grosso embate mundano junto aos vários guichets dos côbros e vendas. Cortava a suavidade pacífica do ar o zangarreio áspero, burlão, de dois aeroplanos. Cêrca do recinto da pesagem, um rijo mocetão trigueiro, desbarbado, gordote,—de gôrra, veston de presilha e polainas,—ao defrontar com o Azeredo exclamou familiarmente:

—Ó amigo Azeredo, como le va?

—Bem, gracias! meu caro Jorge. E Usted?—acudiu, com um cordeal apêrto de mão, o interpelado. E seguidamente, apontando ao lado o Silveira:—Permite-me que lhe apresente o meu querido compatriota e amigo João da Silveira?—E logo para êste, com insinuante expressão, completava:—O sr. Jorge Saavedra, argentino, cavalheiro muito distinto, um dos meus melhores amigos.

—Ah, tanto gusto...—mastigou entretanto Jorge, numa sublinha indiferente àquele shakehands banal a um desconhecido. Mas, tomado de súbita simpatia ao encarar melhor a figura aberta e varonil do Silveira, tornou com interêsse:—E há muito que se encontra em Buenos-Aires?

—Recêm-chegado apenas... há dias.

—E que impressões tem do meu país? Agrada-lhe?

—Enormemente! Uma linda cidade e um povo cultíssimo. Deve ser encantadora aqui a vida.

O Saavedra sorriu, num jubiloso estremecimento de vaidade. Enquanto, tocando-lhe na espalda, o Azeredo:

—E os seus favoritos hoje?... Agora, no handicap?

—Não corre nenhum produto de marca... ché, cá dos meus. Não me interessa.

—Bem, e a seguir, no clássico Montevideo?

—Oh, bem fácil... A vitória seguramente vai ser de Packoy.

—Tambêm vou por êle, sim. Linda estampa, elasticidade, nervos, magnífico sangue...

—E montado por Arturi. Não há que duvidar! Dá três quilos de vantagem; é porque está bem seguro da vitória.

Caminhavam agora de manso os três, marginando a pista e sem maior interêsse pela corrida, pronta e fácilmente acamaradados. Jorge Saavedra desfazia-se, a um e outro lado, galanteador, afável, em rebuscados cumprimentos, protectoras miradas e acenos abundantes. Os olhos espertos do Silveira perdiam-se nas côres berrantes dos jockeys, na vivacidade marulhenta do recinto, na perturbadora abundância de deliciosas figuras femininas. O Azeredo rejubilava, irrequieto, vivo, sempre aos saltinhos; e com familiar confiança tornou para o Saavedra:

—Diga-me, amigo Jorge, e para o clássico Chevalier que aposta fez?

—Isso nem se pergunta! Vou por Canora.

—Como Canora!? É vontade de perder plata... Eu aposto por Chaica.

—Chaica?...—atalhou por sua vez o Saavedra, parando, com um rir trocista.—Só por broma, vamos... Es una cabuleadora.

—É filha de Pearl Rivel!—redarguiu com intimativa o Azeredo, formalizado.—Ora essa! Cumpridora a mais não poder ser. A sua primeira prova foi a primeira vitória. Não se lembra? não viu que performance mais distinta?... No tréno desta manhã sei eu que fez os 700m em 41''.

—Não importa! não importa!—objectou Jorge, reatando a andar, implicativamente.—Canora é filha de Old Man e procede do haras San Jacinto, é bom não esquecer. É voluntariosa, por vezes, tem um jôgo irregular, é certo. Oh, mas não há aí uma competidora com más clase e melhor estampa!

—No domingo perdeu.

—Por meia cabeça, sómente.

—Pois hoje perderá por cabeça e meia.

—Ya lo veremos,—pontualizou o Saavedra com arrogância. E de repente, esperto e firme, agitando imperioso o braço:—O Montevideo, agora! Atenção! Se levantan las cintas... A partida! a partida!

Os seis pôtros da escolhida équipe para o clássico Montevideo haviam largado, com efeito, a tôda a rédea, imponderáveis, distensos, o pescoço em flecha, disparada a garupa, os jarretes flamejantes fazendo voar a terra. Com simultâneo gáudio do Saavedra e do Azeredo, Packoy iniciou galhardamente a direcção do movimento e nesse posto de honra se aguentou e cumpriu, durante os primeiros 600m; porêm depois, de tranco a tranco marcando cada vez mais curto, inexplicávelmente, foi-se deixando levar de vencida por forma que, ao desembocarem na grande recta final, o seu distanciamento era já sensível. Entretanto, Grey-Eyes, um enxuto e ágil potrito castanho que se estreava nesta corrida, atacando por fóra, ganhava o posto dianteiro, que manteve até final, vitorioso leader, ao passo que Packoy apenas em quarto logar alcançou a méta.

O Azeredo barafustava e erguia os punhos cerrados, em ganas contra o jockey duma arremetida justiceira, furioso, saltitando. Enquanto, numa concordante explosão de cólera, o Saavedra:

—Por culpa daquele imbécil de Arturi! Sempre com a mania de conter as montadas, a reservar-lhes o maior esfôrço, para efeitos teatrais, no momento decisivo. E depois dá destas planchas! Iam tam bem... O que êle precisava!

E golpeou desapontado com o chicote a sébe florida da vedação, deslocando-se em largas e violentas passadas, o ôlho minaz, as narinas aflantes.

Trouxe-lhe uma compensadora desforra a corrida seguinte, que resultou um verdadeiro match entre Chaica e Canora, a sua ardente favorita, a qual por mais de meio corpo atingiu primeiro o disco. Porêm desta vez Jorge, delicado e comedido, não querendo ferir os machucados brios do Azeredo como prático do turf, celebrou com moderado entusiasmo o seu triunfo.

Faltavam ainda duas corridas; porêm o Silveira de relógio na mão, tomado dum vago embaraço, arriscou—que não podia demorar-se. O Azeredo, que estava ao facto do compromisso galante por êle tomado na véspera, desculpou-o. Mas, sinceramente penalizado, o Saavedra, dando preguiçoso a mão a êste fulminante captador da sua simpatia:

—Retira já?... Qué lastima!

—Eu é que sinto imenso ver-me forçado a privar-me, assim de repente, de tam amável companhia. Mas... o Azeredo sabe...

—É certo, é... Precisa deixar-nos—confirmou pronto o amigo; e súbito com um jubiloso relâmpago na pupila insinuante:—Mas eu tenho uma idéa, amigos! Podemos comer hoje os três juntos. É uma compensação.—Premiu afávelmente o braço de Jorge:—Tiene Usted compromiso?

—Não... para hoje, não...

—Óptimo! Considere-se então convidado, hein?

—Convenido.

—Às 8, no Petit Salon.—E com vivacidade, para o Silveira:—Tu espera-me no hotel. Vou-te buscar.

Saùdando ligeiramente, o Silveira partiu logo. Pouco depois das 5 horas estava em casa dos Di Paoli, tendo antes comprado, na passagem por Callao, um fino ramo de muguet, a flor predilecta da condessa. Fez retinir fortemente o botão eléctrico. Ia decidido a «atirar-se de vez», a arriscar um resoluto golpe de audácia que pronto lhe assegurasse o triunfo definitivo.—E que auspiciosos prenúncios para o seu intento! Mrs. Edith estava só, e um verdadeiro apetite, arranjada lindamente. Pela abundância cálida do cabelo uns toques déstros de ferro haviam passado, ondeando-o ao de leve; não menos déstras pinceladas de kohl haviam engrossado a linha sensual dos cílios, haviam como que incendido num voluptuoso fogo latente a macerada sombra das olheiras; e daquela plástica impecável os movimentos rítmicos podiam íntegros surpreender-se e adivinhar-se, pelas indiscretas lisuras e os denunciadores refegos do precioso kimono de sêda grenat que os cingia apenas, sôltamente, deixando por inteiro a nu os antebraços e a alvura do colo deslumbrante, que nas suas linhas de contacto com a sêda adquiria reflexos duma rosada e fluida transparência, como se fôra carne feita de pérolas moídas.

Foi um verdadeiro coup de foudre para o Silveira a inopinada fortuna desta situação e o supernal encanto desta figura. Beijou a mão da condessa e entregou-lhe o ramo, tremendo ligeiramente, sem palavra ferir, a língua sêca e os lábios frios. Ela correspondeu deixando fugaz entrever, num sorriso discreto, a rociada frescura dos dentitos brancos. Agradeceu o mimo da lembrança em carinhosas palavras, para a rasa insuficiência linguista do Silveira arreliadoramente intraduzíveis. A seguir, muito naturalmente, prendeu sôbre o coração dois dêsses cachos de minúsculas caçoletas perfumadas, e sem perturbações nem pressas, o olhar vago e repousado, sempre tranqùila, foi acomodar os restantes com atento esmero numa enfusita de vélha faiança, que trouxe da alcova.—Veio ao tempo a mucama, trazendo numa bandeja o chá e dois pratitos mais, um com sandwiches, outro com bolos secos, sofrivelmente sédiços. Dispôs em silêncio o serviço sôbre o pano coçado da mesa e rodou num instante.

Na mente escandecida do Silveira o desejo, o ardor e a fúria erótica subiam de ponto. A sua incorrigível fatuìdade, os numerosos e fáceis triunfos que ilustravam a sua larga fôlha de conquistador, debruavam-lhe das falaciosas côres dum prisma demasiado optimista a singularidade algo problemática da situação; faziam-lhe tomar por claros propósitos de sedução, por um convite formal ao galanteio, o que não passava talvez dum ardiloso laço feminino. Pelo momento, a condessa convidára-o simplesmente a sentar-se e servia-lhe o chá, com adorável intimidade, era certo, num abandôno insinuante, avançando para êle o braço nu, enquanto as amplas prégas do kimono, dobrado à frente, desnudavam por igual, em perturbadores relances, a rósea maravilha do colo erguido em suaves ondas de pecado. E tentava explicar-lhe:—O conde não estava... não poderia talvez vir senão tarde.—Quando o Silveira tal chegou a compreender, sentiu nas orelhas um calor de evidência, e na noite ardente das pupilas relampeou-lhe um cântico de vitória... Mas aqui o seu grande embaraço! Queria mostrar-se um galã à altura, dominador seguro dêste lance de favor; urgia que iniciasse verbalmente o seu ataque; porêm como?... se êstes soberbões ingleses faziam gala em não manejar outra língua senão a sua! Como em nenhum idioma os dois podiam claramente entender-se, as suas abortadas tentativas de diálogo resultavam assim um desbarato de palavras, confuso e estéril, um titubeio divertido e por vezes cómico, um atabalhoado duelo de absurdos, desfechando sempre na mesma burlesca e formal impotência, cortado de suspensões, sublinhado a risadas. Havia que suprir a deficiência da frase pela abundância e a vivacidade do gesto, muitas vezes. E lascarinamente o Silveira aproveitava para desbordar-se em atrevidas manobras digitais, para arriscar sorrateiros toques sugestivos e ensaiar, como filhas do acaso, aproximações lascivas, —que Mrs. Edith acolhia entretanto com inalterável singeleza, como que sem dar-se conta, desprevenidamente, abotoada numa cega inconsciência infantil e numa frialdade desesperante.

Esta atitude inverosímil da condessa desconcertava o Silveira, punha-o doido de despeito, de raiva e de desejo.—Que demónio! Voltava a esbarrar com a mesma diva impassível, a mesma criatura calma, desentendida e ingénua do começo da viagem... Vão lá entender mulheres! Essa deliciosa, essa picante doidelas dos dias de Entrudo escapava-lhe outra vez!—E no desnorteado furor que o aquecia, êle já descia a processos de mau gôsto, cometia imprudências, roçava-a ombro com ombro, apertava-lhe o pulso, tocava-lhe o pé debaixo da mesa.—Então, súbitamente, e como que obedecendo a algum convencionado sinal, fez a sua inesperada aparição na salinha a dona da casa, Lady Cowper, sobraçando um paquetito.—Alguns dos trabalhos das suas discípulas, que ela vinha obsequiosamente mostrar ao recêm-vindo.—O Silveira teve ganas de lhe morder. Ela era uma quarentona repulsiva e obêsa, vestida de amarelo, pequena, ruiva, de olhos claros, marcada por abundantes sarapintas de bistre na face enlagostada. Mesureira, bajulando, adiantou-se a saùdar, com o seu sorriso verde de criatura falhada, e logo a sapuda concha das mãos sardentas a semear pela mesa uma parada de miúdas bugigangas. Eram rebuscadas miniaturitas, medalhas e iluminuras banais, camafeus, embrechados, pirogravuras e esmaltes, de péssimo desenho, duma execução vidriosa e dura como o aspecto paleolítico da professora. Esta porêm, importante e de pé, o ventre contra a mesa, não despegava de encarecer essas efémeras obritas de virtuosismo barato, mostrando-as com ufania, uma por uma.—Que visse bem... aquele finíssimo esmalte Luís XV... êsse delicioso retratinho com moldura Império... uma liseuse para um livrinho de Horas... esta preciosa moldura gótica em cobre rebatido. E aqui... e agora... e isto mais. Verdadeiras peças de arte, havia de convir. O que não admirava, feitas como eram tôdas por meninas da primeira sociedade.—Exprimia-se num mau castelhano, horrivelmente gutural, ora aspirado, ora cortante, como golpes de machado rasgando lenha. E passava sem cessar a aborrecida miuçalha às mãos do Silveira, que no propósito inocente de correr breve com a importuna, tomava fulo cada peça e logo a arrumava, após um exame sacudido, sumário, quáse agressivo.

Baldo estrategema, porêm, porquanto aquela empatadora inexorável tomava agora familiarmente assento ao lado dêle, e numa astuciosa derivante, erguendo a esborifada cabeça e passeando com admiração as pupilas deliquescentes pela sala:

—Soberba colecção! não haja dúvida. Um verdadeiro museu. Fazia a minha fortuna... Já reparou bem, sr. Silveira?—E num propósito de baixa adulação, com intimativa, alongando o braço:—E que fino, que lindo o retrato da senhora condessa! Que não está favorecida...

Só agora o Silveira notou que, com efeito, uma aparatosa fileira de télas, em ricas molduras doiradas, remoçava e fazia viver dos brilhos da sua cantante policromia a tristura pelintra das paredes. A um canto havia, contrastando deplorávelmente, pela realização e pela factura, com todo êsse broslamento sábio de figuras, de planos e de tintas, um perfil a óleo da condessa.

Como já fazia escuro, Mrs. Edith dirigiu-se ao prendedor eléctrico, a soltar a luz; no momento justo em que o marido entrava e vivaracho, alegre, atirando o chapéu, seguiu direito ao Silveira, a apertar-lhe a mão. E logo, dando-se conta do ponto onde curiosa a sua atenção incidia:

—Aquilo é um modesto ensaio meu. Não vale nada.

—O modêlo não podia ser melhor...

O conde baixou a cabeça e dobrou-se, num grato desvanecimento.

—É que eu pinto tambêm um pouco, não sabia?... Tôdas as belas manifestações da arte teem em mim o mais insignificante dos seus cultores.

A seguir, desatou-se em prolixas e sabujonas desculpas por ter vindo assim em retard, faltando, bem a seu pezar, a um compromisso para êle tam apreciável. E esfregando as mãos com ruído:

—Mas estou contente! Parece-me que tenho já local para a exposição... e de graça. O salão dum compatriota meu, que é fotógrafo, na calle Viamonte,—a fotografia mais elegante, mais smart, mais select de Buenos-Aires.

Lady Cowper, sentindo agora a sua presença dispensável, havia deslizado ignoradamente. Entretanto o Améglio, com o olhar vivo e matreiro, em presunçosas atitudes tomando a sala tôda:

—E então, agora, vê bem como são preciosas as minhas télas! Que grande lição estética eu venho trazer a esta gente, que colecção rara, que magnífico conjunto!—Depois, cabotino, insinuante, travando confiado o braço do Silveira e pondo-o na frente dum pequeno estudo de paìsagem, onde uma figurita banal de aldeã se esboçava, perdida numa aleluia primaveril de papoilas e malmequeres:—Aqui tem o seu Bastien Lepage.

—O meu quê?...

—O quadrito, sim, que lhe destino. Uma pequena maravilha, como vê... Note como ali assim a figura poisa singelamente e sem ficelles de destaque, tocada simplesmente, com o mesmo valor de todos os mais acessórios do quadro. Era, como sabe, a característica dominante dêste grande mestre naturalista.—Encarecia sugestivo a expressão:—Uma tentação, não é?...—E suasivo, assentando-lhe a mão sôbre o ombro:—Que me diz?

Cabisbaixo e mudo, vergado ao pêso do fulmíneo ataque, o Silveira interrogou numa mirada suplicante Mrs. Edith, cujos olhos doces esboçaram uma solicitação de anuência, irresistível... E êle então, pávido e submisso:

—Bem... mas por quanto?

—Oh, meu caro amigo! Isso é uma questão puramente secundária. Entre nós, já vê... Qualquer coisa... Nem vale a pena falar... Se as coisas me correrem bem, terei até muito prazer em lhe fazer presente dêle.

—Não, mas eu é que não quero...

—Depois! depois!

Súbito, numa bem marcada simulação de desinteresse, o conde sentou-se ao piano, e sôltamente:

—Quere ouvir uma valsa que improvisei esta manhã? Vou tambêm dedicar-lha.

E, com um ar boémio impagável, bamboando o busto, os olhos em branco e a cabeça sôbre a nuca, fazia gemer numa batida monótona de compassos triviais as cordas desafinadas.

Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da véspera, agora mais áspero Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da véspera, agora mais áspero, mais persistente... subsistindo ainda e vibratilizando-o, minutos depois, já rua fóra, junto com o exaspêro íntimo pela sua passividade, a sua indecisão, o seu acobardamento estúpido ante aquele descarado assalto à integridade da sua algibeira.

Numa vergonha instintiva, absteve-se de contar o humilhante episódio ao Azeredo, que pouco antes das 8 veio demandá-lo ao hotel, conforme se combinára. Saíram logo depois, a pé, a tomar a calle Esmeralda, e por esta se internaram até ao ponto onde uns mocitos de libré encarnada lidavam à porta dum grande barracão, murado de espelhos.

—É aqui, meu vélho. Espera um instante.

Dizendo, o Azeredo entrou ligeiro e atento, a buscar se acaso o Saavedra já estaria, e a marcar uma mesa; enquanto cá fóra o Silveira seguia alheadamente o taquinar miudito das muchachas que entravam para o cinema defronte.

O Saavedra apareceu por fim, às 8 e meia.—Vinha um pouco em atraso... mas era muito bôa hora, verdad?—Acolhido pelo festivo aplauso dos dois amigos, e num momento estavam todos à mesa. Jorge vestia agora um jaqué negro irrepreensível, fechando por um só botão e extremamente cintado, colete de bandas brancas, folgado e muito aberto, uma linda pérola a prender o nó esguio da gravata, calça raiada de fantasia e bota de polimento. Foi êle o investido das graves funções da escolha do menu.—Petits canapés de caviar para hors d'oeuvre, uma rica croûte au pot, filetes de linguado com môlho de ostras, depois uma entrada, espargos, e por fim um prato crioulo, o coireáceo churrasco, especialidade da casa. —A questão das bebidas foi árdua, pouco menos de insolúvel. O Silveira lembrou tímidamente o Colares, que não constava da lista, não havia; então Jorge patrióticamente insistiu que provassem Trapiche: porêm o Azeredo opôs-se, com um depreciativo distender do lábio, e optou-se afinal por um qualquer Borgonha de duvidosa procedência.

Jorge iniciou a comida com apetite, e agitava-se petulante, ufano, folgazão, todo ainda no vibrante estímulo das emoções hípicas da tarde.

—Oh, aquela impagável Canora! que preciosura! Viram bem?... Correu os 1:400 metros em 1',22. É verdadeiramente o record mundial da velocidade, jámais registado nos anais do turf. Eu esperava muito dela, mas não tanto, palavra! Vale o seu pêso de oiro.

—De quantos quilates?—amolou, trocista, o Azeredo.

—Oiro português, antigo... do tempo dos vossos Brasís,—soube ripostar pronto o Saavedra, numa lisonjeira evocação que os dois acolheram com um quebrado sorriso. E sempre contente:—O certo é que esta vitória não só exaltou os meus brios, como trouxe a mais agradável compensação aos meus desastres anteriores. Porque, meus caros amigos...—E numa aberta de intimidade, abatendo a voz, dobrado sôbre a mesa:—Nestas duas semanas últimas de carreras saíram-me da algibeira ao redor de três mil pesos. Un clavo... Mas a papá direi que perdi trezentos.—Depois, atencioso e outra vez natural, para o Silveira:—E em Portugal há aficionamiento pelo sport hípico?

—Um pouco...

—Bastante! bastante!—acudiu o Azeredo, num saltinho convicto.— Há muito bons calções. Tem agora havido, no hipódromo de Palhavã, uns concursos internacionais muito brilhantes.

—Ah, eu recordo-me de ter visto no Palace Théâtre,—obtemperou Jorge, complacente, atacando a sopa,—um film intitulado Os Centauros portugueses, que era realmente admirável.

—Sim! sim! trabalhos da nossa escola de Cavalaria.

—Que raids! que saltos... que segurança, que destreza! Não se pode exigir mais.

—E pode o amigo dizê-lo sem favor. Superior aos italianos!— jactancioso o Azeredo rematou.

E serviu cordialmente vinho ao Saavedra, que, daí a momentos:

—Eu p'r'a semana volto ao campo. Tenho tôda a família lá, aqui já tratei do que tinha a tratar, e papá não abona mais plata.—Encarou numa penhorante afabilidade o Azeredo:—O amigo, já sei, não pode vir... qué lastima!—E para o Silveira, abruptamente:—Porque não vem comigo?

Ante a inesperada oferta, os olhos ladinos do Azeredo dilataram-se de espanto, quáse incrédulos, e o deslumbrado Silveira aprumou-se, num estremecimento de grata surprêsa. Com sincera espontaneidade Jorge insistiu:

—Venha! Digo-lhe isto de vontade.

—Muitíssimo agradecido.

—Não conhece ainda papá nem a minha família. Mas não importa! Fóra da cidade não há protocolo nem cerimónias. E eu posso levar as pessoas que me apeteça. Tenho carta branca, ché... faço o que quero.

—Vai, vai, meu rapaz!—estimulou, crepitante de júbilo, o Azeredo.

—Bem vê, Buenos-Aires neste tempo é detestável!—tornava entretanto, com enfatuado ar, o Saavedra.—Não há ninguem, morre-se de tédio. As famílias com quem se pode tratar, la gente bien, está tudo fóra... veraneiam pelas estancias, como nós, pelo Tigre, Montevideo e Mar del Plata. Bastantes deitam té à Europa. E quem não tem mosca, ché... para dar-se qualquer dêstes inocentes regalos, encurrala-se herméticamente em casa.

—Pouco mais ou menos como em tôdas as grandes cidades.

—Si pues... Porêm o sr. escolheu realmente para a sua digressão à America uma época aborrecida. Não há recibos, festas, não ha Colón... Nada ni nadie. Que va uno á hacer?...—Encolhia os ombros com enfado; e a seguir, alegre, fanfarrão, abanando promissoramente a cabeça:—Mais tarde, no inverno, sim! é a grande animação... teatros, bailes farras, clubs...—Franzia brèjeiro os olhos:—E há então por'í assim umas tertulias de concorrência mesclada, que são deliciosas... onde uno afila à vontade e onde não faltam mujeres guapas entre as quais se pode mesmo, manobrando com discrição, sacar una bolita...

Passava junto dos três, neste momento, um curioso tipo de vélho precoce,—desbarbado, pequeno, os lábios sensuais, longo nariz rebatido, na préga froixa das pálpebras a marca lívida das vigílias. O Saavedra premiu-lhe familiar o antebraço:

—Meu caro Belisário, como vais tu?... Senta-te um pouco. Queres comer?

—Ainda agora eu almocei...

E com um arrastado ar blasé, sem mesmo olhar os convivas, molemente, afastou-se, dandinando. Jorge aclarou:

—É Belisário Ruíz, grande amigo meu... um incorrigível guarango, um picaro redomado. Aparece lá pela estancia, algumas vezes.

Depois, na mesma cativante afabilidade para o Silveira, reatando:

—Espero que se resolva e me dê o prazer de acompanhar-me.— Que eu nada mais posso oferecer-lhe, lá baixo, que uma casa de campo modesta e mais modesta ainda a companhia. Papá, mamã e mi hermana mayor... Nadie más... Que eu tenho uma outra irmã, casada; porêm vive em Paris. Tem um filho, de 16 anos, que é um rico amor de sobrinho. São os encantos de papá... Mas, já digo, estão longe. Aqui na estancia o amigo sentir-se há um pouco só... porêm o que lhe vai faltar em atracções de convívio caseiro, sobrar-lhe há em hospitaleira franqueza, em pitoresco, em inédito, em sol, em liberdade.

—Estou positivamente encantado...

—Mamã é uma santa.

—É certo,—corroborou com amável convicção o Azeredo.

—Passa os dias pelos ranchos da redondeza, a mitigar dores e adoçar misérias... Agora minha rabugenta irmã, a pobre Célia— tornou Jorge com uma afectuosidade tolerante,—essa aparece pouco e anda sempre de mau humor, porque lhe faltam as igrejas.— Depois, com mal contida ternura:—Resta papá... Êste é um caturra adorável, um moralista, um filósofo, um sonhador... mas à moda antiga. E então que morre por conversar! Em êle apanhando uma vítima a geito, nunca mais acaba. Um latero muito sofrível, já o sr. fica sabendo... Mas há que desculpá-lo: é homem doutra época, conhece a história com'os seus dedos, foi contemporâneo de tôdas as grandes figuras da nossa brilhante renovação social e intelectual, de há quarenta anos. De sorte que, assim, na sua ronceira opinião, tudo o actual é mau... não há nada como os homens, os sentimentos, os costumes e as coisas do seu tempo. Até a nossa mesma casa aqui em Buenos-Aires, há-de ver... é como que uma flagrante exumação do passado. Escura, desconfortável, triste, cheia de coisas vélhas... parece um túmulo.

E imediatamente, a desvanecer a impressão de enfriamento que por ventura a sinceridade juvenil da sua exposição houvera feito alastrar no simpatismo espectante do amigo:

—Agora tambêm devo dizer-lhe: se acaso a minha prima Maria Mercedes se resolve a aparecer, como prometeu, então tudo aquilo toma outra vida, outra animação... é como a passagem da noite ao dia, torna-se a estancia um paraíso.

—Com efeito!

—Ela é uma criatura preciosa, rara, singular! dito por todos... deslumbrante como uma deusa e perigosa como um demónio.

—Não tenho a honra de a conhecer,—acudiu ladino o Azeredo; e todo vibrante, num gesto cómico de defesa:—Nem quero!

Jorge sorriu; e com intimativa crescente, comprazendo-se na sua galante e calorosa apologia:

—P'ra mim não, que temos demasiada intimidade, mas p'r'a grande maioria dos homens esta minha prima é o que se pode dizer uma verdadeira tentação.—E insinuante, jovial, quáse orgulhoso, detalhava:—Viúva, rica, com 25 anos e sem filhos, fresca, novinha em fôlha; pode dizer-se... apetitosa; e numa terra como os srs. dizem que é esta nossa, de mulheres bonitas, passando por ser das mais formosas. Imaginem! una monada.

O Silveira escutava, silencioso e cabisbaixo, sob a tirania voluptuosa dos sentidos. Jorge completou:

—Depois, ilustrada, viva, inteligente. Que ditos finos, que conceitos subtís, que mordacidade, que espírito, que respostas a tempo! E o que aquilo vai buscar p'ra têma de conversa! Só ouvindo-a... Aqui há uns dias, o dr. Farmin Gonzáles, um dos nossos homens de mais verve e maior prestígio intelectual, quis medir fôrças com ela. Pois, senhores! a fôlhas tantas declarava-se vencido.

—Nessa contingência me não verei eu... juro!—tornou o Azeredo, no seu gesto gaiato.

De sua banda o Silveira, estimulado, baboso, aventurou:

—Deve ter muitos admiradores?

—Seguramente! São aos centos. Como por exemplo, êste imbécil Belisário. Porêm, ela no les lleva el apunte, ché... Não há um que se possa gabar! É mais indomável e arisca que uma potranca perdedora. Terá ocasião de ver...

Servia o moço, ao tempo, o clássico churrasco,—uma pantagruélica montanha, cebácea e sangrante, de carnes laceradas em bruto, de gorduras, ossos, tendões, coirama chamuscada e encorreadas fêveras. Numa instintiva náusea, o Silveira arredou a travessa, desviando os olhos.

—Deus me livre! Isto é alimento para estômagos blindados.

—Tudo vai do hábito...—compôs o Azeredo docemente.

Ao passo que Jorge, com um ademan desdenhoso e implicante, voraz, servindo-se com abundância:

—Eu acho delicioso!

E uns breves minutos mais passaram os três amigos nesta charla despreocupada e alegre, espontânea exteriorização da mútua simpatia, da íntima conformidade de sentir que tam auspiciosamente parecia ligá-los, e que a esticada munificência do Azeredo quis que fôsse selada a Champagne. À despedida, depois, por seu turno Jorge intimou que voltassem a reùnir-se, domingo próximo, no Hipódromo.—E que nessa noite comeriam com êle no grill-room do Plaza.

—Será a despedida. Retiro terça ou quarta-feira; porêm não descanso sem colhêr a certeza de que não irei sòzinho...

E, na solicitação gentil duma anuência, cravava os olhos expressivos no Silveira, que, gulosamente, com a perturbadora visão dessa misteriosa prima a incender-lhe a fantasia e a arranhar-lhe o desejo:

—Estou quáse resolvido...

 

No domingo seguinte, pela tarde, ao entrar o Azeredo, no hotel, pelo quarto do Silveira, encontrou-o de mau humor. Amadornado no fauteuil, junto à janela, lia distraídamente um jornal, que atirou longe, mal sentiu o amigo, num movimento brusco e fransindo a testa.

—Que tens, amigo João, que é isso?...

—Nada...

—Não... algo tens que te contraria ou aborrece.

O Silveira permanecia bisonhamente mudo. Até que, a novas instâncias do amigo, e com mal contido despeito, num sacudido gesto de desgôsto:

—É que, francamente, não compreendo esta gente!

O Azeredo sentou-se-lhe defronte, e meio curioso, meio trocista:

—Que mal te fizeram?... conta lá.

—Por várias vezes te tenho falado no meu delicioso convívio a bordo com os Wimeyer, sabes?... Eu ingénuamente supus que se tratava duma espontânea e lial amizade, que nos ligaria o que quere que fôsse de sincero, de íntimo, de cordeal, não é verdade?... alguma coisa mais do que essas mentidas e efémeras relações contraídas em viagem, e que, uma vez terminada esta, logo esquecem, como se largam as malas. Pois imagina tu que ontem, como era natural, fui visitá-los. Vem-me à porta uma criadita espevitada e com cara de fastío, que me recebe desconfiada, arisca, quáse hostil, mal amostrando a cabeça pela porta entreaberta. Depois, apenas eu declino o meu nome e anuncio ao que ia, retruca-me logo com uma grande secatura:—As senhoras não recebem.—E, zás! tam pronto colheu na mão os meus cartões de visita, sem dar mais cavaco, dá-me com a porta na cara.

O Azeredo torcia-se em esgares trocistas e ria, ria, gaiatamente.

—Ah! ah! É então por isso tanta arrelía?

—Tu ris?...

—Sem dúvida.

—Achas pouco?

—Acho que não tens motivo nenhum para tam saloia indignação, e que o que te aconteceu é tudo quanto há de mais natural.—E doutoralmente explanou:—Pois então tu pensas que isto aqui assim é como lá na nossa parvónia, onde estamos sempre de braços abertos para acolher quanto importuno se lembre de nos ir moer a paciência e estragar as horas?... Annh! aqui fia mais fino... Aqui tudo anda cerimoniosamente regulado, pautado e medido; as relações e os negócios, os ódios e as afeições, o sentimento e o interêsse.

—Um pouco como em tôda a parte.

—Aqui mais do que em parte nenhuma... Cultiva-se a sociabilidade a distância. Famílias que se dizem íntimas, vêem-se duas vezes por ano. Olha, sabes que mais? tens que comprar um livrinho que aí há, de marroquim azul e fôlhas doiradas,—custa-te dez pesos, o equivalente a quatro escudos,—barato não é... mas, alma piedosa como tu és, deves dá-los por muito bem empregados, porque essa massa destina-se ao custeio duma obra pia qualquer, privativa função do high-life: a Associação del Divino Rostro. É uma coisa do tom.—E, reatando:—Ora nessa espécie de mundano florilégio tu vais encontrar, metódicamente distribuidos por ordem alfabética e púdicamente apartados segundo os sexos, todos os nomes, sobrenomes, apelidos, moradas, e a direcção telefónica mail'a indicação dos dias de receber, das famílias que se prézam, tôda a graúda gente. É um código inviolável, sabes? um índice de elegância, um complicado e melindroso calendário social, cujas efemérides são infalíveis... São dogmas, são escrituras. Por isso o seu conhecimento, o seu uso se torna imprescindível à los muchachos distinguidos como tu.—Ao ameno afago destas leves humoradas, o rosto cenhudo do Silveira desanuviára; e prazenteiro e cáustico, o amigo:—Já sabes pois que fóra de tais prazos rituais da etiqueta, nenhuma dessas meticulosas figuras é acessível. Não são criaturas reais, são abstracções, são símbolos... sobretudo agora. De sorte que, realmente, demandá-los nos dias dos seus convencionais eclipses, conforme tu fizeste, é um triste documento de plebeismo, uma gaffe imperdoável.

—Quéro lá saber!—atalhou de ímpeto o Silveira, num sobranceiro dar de ombros, mas no íntimo vèxado, erguendo-se.

—Que remédio tens tu! se quiseres tratar com gente limpa,— contestou, numa ironia amável, o amigo; e rápidamente, tendo consultado o relógio, erguendo-se tambêm:—Vamos, que são horas.

Depois, já fóra no hall os dois, e enquanto esperavam o descensor:

—Tu deves mas é aproveitar e ir até ao campo. Repara bem que êste convite do Saavedra foi um rasgo positivamente imprevisto, raro, excepcional... eu ainda não quero crêr. És um burro de sorte! Porque não está nada isto no carácter argentino. São amáveis e hospitaleiros êstes bons porteños, é certo... porêm morosos sempre e difíceis na exteriorização do seu agrado.—Bateu-lhe no ombro com entusiasmo:—Caíste-lhe em graça, não há duvida!

—Sei lá...

—E depois, êstes Saavedras são das poucas famílias autênticas de antiga linhagem, que, com os Vicente Lopez, os Lastra, os Alvear ou os Acosta, ainda aí figuram e manteem as nobres tradições do vélho tempo colonial. São óptimas relações, já vês... e a melhor chave pr'a te franquear no inverno o ingresso à bôa sociedade, como desejas.

Atingiam, em baixo, a rua; e então o Silveira com os lábios crêspos e uma vaga onda lúbrica a empanar-lhe o esmalte dominador dos olhos, aventurou docemente:

—Aquela prima...

—Aí está! P'ra mais, com o lascivo apetite da prima já a aquecer-te os miolos... E mais, quem sabe? talvez que a ela lhe quadres. Marcha! marcha, homem! Que mais queres?

O Silveira atirou-se de golpe, apreensivo, sonhador, para o fôfo recanto do taxi que haviam tomado, e enquanto faziam o caminho de Palermo, poucas palavras trocou com o amigo. Ia alheadamente escrutando os indecisos aspectos morais da sua situação. Repugnava-lhe aquela fria subalternisação, aquele anonimato estéril do presente; vinham vagamente acariciar-lhe a fantasia miragens promissoras do futuro.—A coisa afinal estava bem clara: essa ideal Irene aparecia-lhe uma criatura inabordável... a amizade desbordante dos Améglio não passava do verniz caviloso duma descarada exploração. E dos mais... disse! Nem conhecimentos, nem apetites. Que demónio fazia êle então com tal gente, ali assim?... Seria perder o seu rico tempo. Pouco menos que um achincalho. Soberanamente ridículo... Não era p'r'o seu feitio!— Assim, quando os três, já noite feita, regressaram do Hipódromo, estava justo que o Silveira acompanharia Jorge à estancia Amália. Belisário Ruiz tambêm por lá devia aparecer. Lialmente, o Azeredo lamentava não poder «fazer parte do rancho», e aplaudia-se de haver sido o espontâneo e gostoso interventor daquelas duas abertas simpatias juvenís. E numa efusiva e sincera mutuação de impressões, os três foram seguindo, chalrando à compita, deblaterando anecdotas, concertando planos, visionando fortunas, soprando projectos irisados dos cambiantes esplendores da mocidade.

Passada porêm a avenida Santa Fé, o auto teve que ralentar súbito a marcha, e qualquer coisa de anormalmente pejorativo e tumultuário lhes travou com fôrça a atenção.

É que na sua frente, agora, uma formidável e pesada barreira, uma barricada estrepitosa e farfalhante, se fechava, de tramways, de cavaleiros, ciclistas, coches e autos; de meios de condução de tôda a casta, cada um vibrante e álerte na ância de adiantar-se aos demais, e o seu arrastado travamento paralisando o trânsito, tomando de lés a lés a rua tôda. Não era sómente a luzida afluência dos que de Palermo regressavam, como êles; era algo mais que o grosso movimento domingueiro, habitual da rua: era qualquer coisa de deliberadamente chocarreiro, de impetuoso, de trocista, de hilare e audaz ao mesmo tempo, cujo atropelado escoamento se fazia com dificuldade e de cuja turbulenta acumulação expluiam risos, motejos, apupos, estraladas fulvas de ridículo.

Quando, a poder de paciência e tempo, os três amigos conseguiram atingir a praça Rodriguez Peña, tiveram por fim a noção clara da grotesca realidade.—O amplo recinto estava tomado e abarbado literalmente pela multidão, que, parada e compacta, desbordando a areia rubra das alamedas, pendurada das árvores em cachos, posta em pinha sôbre as tenras pelouses machucadas, escutava e recolhia em êxtase a torrentuosa eloqùência dos vários oradores fantochando de riba dos bancos a sua mímica redentora.

Jorge avançou, impaciente, a cabeça, despediu o seu inquiritivo olhar ao largo, e logo, retraíndo-se novamente e com mal contido desdêm:

—Negócio de eleições... logo vi. É um comício dos radicais.

Ao mesmo tempo, porêm, e fazendo o ruidoso circuìto da praça, uma

queue por igual cerrada de veículos se lhe enrolava em tôrno, atulhados por uma turbamulta de rapazolas que, chinfrineiros, implicantes, chasqueando, assobiando, berrando, buscavam por meio dum alarido infernal amesquinhar e abafar as iluminadas vozes cívicas dos apóstolos do centro.

—Êstes são os socialistas,—tornou aclarando Jorge; e num crescente mau humor:—O alargamento do sufrágio deu nisto!

De roda crescia tambêm naturalmente a onda dos mirones, atraídos pelo inéditismo do espectáculo. Porque parecia uma esporádica prolongação do Entrudo, formava o mais canalhesco e adorável dos contrastes, esta palinódia colossal,—a solene gravidade e a impertérrita coragem dos meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto, com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrários, afogando-os numa implacável cinta de arruaças, de burlonas apóstrofes, vaias, chistes plebeus e guisalhadas de tr, atraídos pelo inéditismo do espectáculo. Porque parecia uma esporádica prolongação do Entrudo, formava o mais canalhesco e adorável dos contrastes, esta palinódia colossal,—a solene gravidade e a impertérrita coragem dos meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto, com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrários, afogando-os numa implacável cinta de arruaças, de burlonas apóstrofes, vaias, chistes plebeus e guisalhadas de troca. E nenhum dos dois bravos campos se dava por intimidado ou vencido, nenhum queria ceder. Nesta inofensiva e gritada briga mantinham-se testarudamente rivais; os de fora na sua truanesca assuada, os de dentro na sua caturra perseverança.

O Silveira e o Azeredo seguiam a scena sorridentes, num maligno regalo; ao passo que Jorge, sem perder a sua linha de pretenso aristocrata, enfastiado e severo:

—Parece um bando de patoteros! Súcia de gringos... A culpa é da polícia.