Amor Crioulo
Capítulo V
água pelas penas dos cisnes. A nossa existência atropelada e incerta tem a allure constante duma carreira, é um film alucinativo e ardente, cuja precipitada mímica nem nos abonda à vontade, nem nos cumula o desejo. É uma hiperbólica e vertiginosa curva sem termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos incessantemente aos cotovelões à felicidade, sem saber vê-la, sem a apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.
...Quando, seguramente, a base mais sólida, mais coerente e mais lógica para a plena posse do futuro, seria, à maneira antiga, organizarmos o presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas delícias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos bem do valor intrínseco de cada dia,— como se o mundo fôsse a acabar nessa mesma noite.
V
Buenos-Aires, finalmente! O Almeria agora avançava à cautela, flanqueando devagar as sucessivas bóias distribuidas, como um rosário de lumes, ao longo do estreito canal que dragagens contínuas mantinham aberto, cavando um sinuoso sulco de lôdo na chata pastosidade daquele estuário imenso. Anoitecia. O céu conservava-se nublado, mas calmo, e nessa infinita tela gris o carvoamento confuso das linhas da costa adquiria transparência, tinha um encanto singular, banhava-o uma poética e vaga suavidade. Na bruma indecisa da noite já o Silveira podia descortinar, convidativa, avançando e crescendo do boleado mistério do horizonte, uma linha caprichosa de farolitos e de mastaréus, primeiro; depois uma complicada e imensa teia flutuante, a mais inextricável maranha de tôda a sorte de embarcações, trechos de docas, atributos náuticos, pontes-levadiças, guindastes, galpões, bandeiras; a seguir, a linha quebrada e geométrica, o viveiro apoplético das azoteas, das tôrres, das cúpulas; das agulhas, terraços, chaminés e cornijas rendilhadas, marcando por uma extensão sem limites, no seu pululamento proteiforme, o contôrno manso da cidade; e logo, já nítidos, já no primeiro plano, os alinhados globos eléctricos, a calçada embadornada e os pantagruélicos armazéns marginais da terra firme. Aí a tinha agora, a célebre, a grande cidade de trabalho e de esperança, de pensamento e de acção, de labuta e de prazer, de maravilha e de sonho. A Terra da Promissão actual, o Eldorado mais em voga, o símbolo da abundância paroxísmica, do homem próspero na terra magnânima! A metrópole ideal da magnificência e da fortuna, da opulência e da belêza! Emfim... Buenos-Aires!
O ar, pesado e espêsso, impedia a visão clara, e era como se todo o espaço se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja mucilagem que delia os contornos e comia o brilho às coisas; contudo, tanto quanto podia adivinhar-se das condições de desarolo e vida daquela planura intérmina, o âmbito dêste pôrto modelar era enorme e colossal o seu movimento. Um enxame, um delírio. Crescia grosso para o alto um como que resfolegar de opressão, a afirmação potente, a rebeldia sujeita de fortes energias represas, dessa floresta de chaminés fumarando, dêsse empilhamento marítimo de monstros de tôdas as idades, de máquinas de tôdas as formas, dimensões, feitios, côres, que latejavam e arfavam com veemência, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso embalava brincando, docemente, por uma extensão sem termo e sem medida. Pela carcassa formidável dêste báratro de enormidades os homens, iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos de metais do alto bôjo flamante dos grandes transatlânticos, havia roces de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na gorda pacificação do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaças fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora já, com o avanço lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a cada momento; aqui, alêm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando arruamentos, desvendando interiores, trémulas e brancas como estrêlas; ou eram os grandes rèclames luminosos que no seu relampaguear interesseiro chispavam súbito, como borboletas de fogo, estremando planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como gouaches lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambêm, a favor da molhada ressonância que lhe emprestava a proximidade das águas, vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidações da vida urbana,—o tlim nervoso dos tranvias, o lento arrasto das carroças, o pregão dos vendedores de diários, o buzinar dos automóveis, o trapejar das oficinas.
Atracado ao cais o Almeria, e enquanto a marinhagem ajustava a passerelle para o desembarque, João da Silveira buscava com afã em baixo, na multidão apinhoada cêrca, sob a marquise monstro da aduana, a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.— Um convicto monárquico tambêm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular dos Azeredos, senhores de Penamacôr e redondezas, alferes de cavalaria ao tempo da revolução, e que naturalmente, incompatível com o salafrário regímen da Rèpública, seis meses havia que viera para a Argentina, com licença ilimitada. —Lá estava êle,—via-o agora!—plantado bem na frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mão em pala sôbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultâneo brado de cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como pôde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impaciência da grossa onda cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abraço, no cais, de efusiva ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa revisão e entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automóvel, que, à indicação dada pelo Azeredo, partiu roncando.
—Então, como vais tu?...—rompeu êste, num claro riso, saltando e sacudindo a espalda ao amigo com a mão em leque, todo voltado para o recêm-vindo.
—E tu, meu alma do diabo?—acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado, o companheiro e premindo-lhe afável os joelhos.
—Menos mal, meu vélho. Ganha-se plata. Hei-de-te contar...—E com desdenhosa arrogância, atirando o palhinha para a nuca:— Bem melhor do que lá nessa pepineira de rèpública.
Mas o Silveira, que não cessava de mirar a um e outro lado, interessadamente:
—Parece-me uma grande cidade, esta?
—Como no!
—E bela, caramba!
—Grande, grande...—corrigiu com sentencioso ademan o Azeredo. —Sobretudo grande. Quanto a beleza, hay que distinguir. Com efeito, o Silveira achava tendido sôbre aquela vastidão sem termo um como que mortiço pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz. Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo triste.
O automóvel deixára a larga avenida marginal e subia agora uma pequena rampa, empedrada a paralelipípedos, sulcada de rails e tomada a todo um lado por um maciço casarão banal, atijolado e de balcões em arcaria, de comesinho aspecto colonial, sem vôo, sem majestade.
O Azeredo aclarou:
—Aqui tens a chamada Casa do Govêrno... La Casa Rosada. Residência do Presidente e instalação de vários ministérios.
—Não vale o nosso Terreiro do Paço,—com impertinente fatuìdade o Silveira anotou.
—Foi feito noutra época, noutras condições. Não se comparam.
Seguia-se uma grande praça rectangular, definida pelas cimalhas caprichosas de imponentes palácios barôcos, e num dos extremos, longitudinalmente cortando-se, à direita, uma colunata helénica de templo.
—Ali é a Catedral, vês?—ciceronava entretanto o Azeredo.—Logo ao lado, a Municipalidade. Aqui à ilharga o Banco de la Nación, a Bôlsa. Tens pois aqui assim, logo por entrada, o coração, o índice político do país, o centro burocrático da cidade.
O vasto recinto, tirante as ruas periféricas, estava quase totalmente tomado por uma caótica profusão de materiais em osso, via-se coberto por um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, bárbaras, de coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,—montes de saibro, caliça, areia, pilhas de beton, caixas de latão, barricas, vagonetes, vigas de ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis, barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta barricada, ao centro, sôbre esta aluvião industrial monstruosa, de destroços de ruína e de tesas projecções suspensas, uma ingénua figurita, espécie de Palas, no vértice duma pirâmide de confiture, débil e só no espaço, assomava com tristeza.
—Tôda esta confusão é por causa das obras do ferrocarril subterrâneo,—tornou o Azeredo, solícito.—Como o Metro de Paris... Ou melhor! muito melhor! Ah, indubitávelmente é um grande melhoramento.—E enquanto o automóvel rodava à esquerda, passada a Catedral:—Eu queria levar-te pela Avenida de Maio, a principal artéria da cidade; mas creio que não será possível.
—Tambêm anda em obras?
—Tambêm... em parte. Mas não é por isso. É que estava defeso, e muito bem, estender hoje o côrso por aqui; mas, a despeito da proìbição municipal, a multidão agora à noite conseguiu invadir a Avenida e todo o campo é pouco para ela. Não ouves?...
Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pagão, o relincho orgíaco da multidão em febre, avassalando, acanalhando o espaço, tomando e prostituindo tôdas as direcções, sobrepujando e sujando todos os ruídos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios, gritos, risadas, fanfúrrias desafinadas, canções estúrdias, e a espaços buzinava áspero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delírio. Eram os últimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera travestida, que é o homem, se permite desdobrar à sôlta as suas inclinações e regressar à sua origem. Naquela noite dionisíaca, a pressão cálida do ambiente era engrossada pela onda impúdica dos desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volúpia sórdida, a fúria erótica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse asfixiante turbilhão animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por completo se houvessem delido tôda a luminosidade, todo o espiritual enlêvo, todo o fino ar, tôda a aristocrática leveza da magnífica cidade, paresiada neste momento por um espasmo vêsgo de loucura.
Na raíz mesmo da Avenida, ao fundo da praça, o automóvel teve que parar. Dois polícias a cavalo davam-se a pêrros para regular aquela desordem e facultar o trânsito aos veículos, positivamente bloqueados, na frente, pelo marulho compacto da multidão, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos prédios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo para o chauffeur:
—Bem, tome aí por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito. Apeâmo-nos em seguida.—E, com ar enfastiado, para o amigo:— Aqui, o entrudo é o que tu vês: é uma coisa antipática, vulgar, uma festa do populacho.
Depois, quando o automóvel, desandando lentamente, conseguiu retomar caminho:
—Mas que mania foi essa de hotel?
—É o mais prático, meu filho.
—Bem: se chegasses aqui só, absolutamente sem conhecimentos, de acôrdo. Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha pensão. Eu até falei à dona da casa... Estarias mais cómodo e mais barato. Como em família.
—São essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,—objectou num instintivo horror o Silveira.
—Tonto! Ao contrário, é delicioso...—insistiu o Azeredo; e, saltando sempre, com o seu riso escarninho:—Há lá um matrimónio sério, provincianos burgêssos, que convidam tôda a gente a jogar o quino. Quando não há plata p'ra gastar fora, compreendes, é excelente... Há mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de não receber visitas senão meia-noite passada. Há uma professora de tango, um estudantito de medicina, um caixeiro da Ciudad de Londres ... e então uma gaja chilena, menino!—aqui o Azeredo sublinhava o seu entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lúbricos,—uma viúva, morenucha, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente!
—Atiras-te?
—Ela parece-me amável, isso é... Tem um filho que é um pibe insuportável... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um ôlho. Ah, mas pelas celestiais delícias que se adivinham na mãe, aturam-se bem as diabruras do filho.
Prudencialmente, ao cabo duma pausa, João da Silveira mascou:
—Bem, tudo isso eu acho detestável... Quero estar independente, livre, absoluto senhor meu, entendes?—E como fazendo um exame de consciência:—Não que às vezes, sem querer, prendemo-nos, e é uma maçada depois para sacudir essas seresmas.
—Ora!—com um desdêm superior objectou o Azeredo.—A gente defende-se...—E voltando a insistir:—Vê lá, meu vélho, se preferes, anda. Ainda estás a tempo.
—Não, não... Prometo ir, mas de visita.
Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava o seu amigo no Cecil Hotel, onde lhe tomára alojamento. E, ao despedir-se:—que no dia seguinte não poderia vir logo de manhã, porque tinha o escritório; mas pela tarde, ás 4, viria buscá-lo para darem uma volta por Palermo e fazer em seguida a calle Florida.
—Vê lá não te constranjas...
—Qual! Se é o que eu faço habitualmente. É o chic...—E com o ôlho ladino:—Noblesse oblige.
—Bem, está direito. Depois jantas comigo.
Na manhã seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o desayuno, foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em balcão sôbre a rua. Era no último andar do hotel, a uma altura onde chegavam já mortiças num adormecimento lânguido as pulsações fortes do exterior.—Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das vagas figurações da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem, da passada noite.— Saíu ao ar livre e avançou o busto com avidez, a mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe oferecia, em baixo, o traço imponente da Avenida de Maio. Era um golpe de vista bem digno duma grande metrópole, não havia dúvida, essa formosa e ampla linha correndo dum jacto, inflexívelmente, limpa e direita, da pirâmide rudimentar da Praça de Maio à esbelta cúpula monumental do Palácio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prédios marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogância para o espaço: Traziam-lhe reminiscências de Paris na sua patine cinzenta e monótona, nos seus rendados balcões floridos: e de Paris eram tambêm a atmosfera velada, o asfalto luzidío, o ar discreto, as filas de mesitas redondas acaparadas sob os tôldos dos cafés e restaurants, a entestarem, numa disciplina idílica perfeita, com os renques de plátanos muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao longo dos passeios.
Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artéria resultava estreita em relação com o vôo possante, com as maciças dimensões da casaria; das franças das árvores, dos postes telefónicos, dos colunelos da luz eléctrica, de tôdas as arestas, de todos os ângulos, de tôdas as curvas e ressaltos daquela floresta arquitectónica, restos ignóbeis de serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambêm, a intervalos, tomando por vezes a extensão de quarteirões inteiros, voltava o Silveira a ver com desgôsto o mesmo pejamento industrial com que, durante o seu breve percurso, esbarrára na véspera,—havia trechos largos de calçada esventrados de lés a lés, fundidos em abismos de tréva, rasgados e cavados em boqueirões hiantes, como chagas, que geométricas vedações de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de purulências de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro ventre revôlto subia incessante um bater ciclópico de picaretas e ferragens, na mais irritante dissonância com a gritada fúria dos pregões, o compassado chouto das tipóias, todo êsse marulho vago das ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma peonagem atarefada e compacta, de tôdas as origens, de tôdas as idades, feitios, tamanhos, côres,—o mostruário ofegante do universo, o resíduo aventureiro de tôdas as raças, sôbre cujo movediço plasma, salvando a onda banal dos jaquetões e dos chapéus de palha, se afirmavam, aqui e ali, exóticamente, figuritas nervosas e amarelas de nipons, o tudesco sólido e arrogante, képis, turbantes, chimarras, ponchos; grupos de homens espadaúdos e arremangados, de avental, a cabeça de boina e o grosso artelho nu sob o farto calcetin branco; tipos refeitos de mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e extático, a saia muito farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfíngicamente, à frente das orelhas, em duas tranças negras. Correndo a parte central da Avenida que se mantinha viável, pelas suas porções livres, uma dupla fila de côches e automóveis subia, e outra descia, infindáveis, incessantes, sem claros e sem trégua, aglomerados e suspensos por vezes, em nódos de embaraço, ao cruzarem as ruas transversais, donde perpendicularmente golfavam a jôrro mais automóveis, mais côches, mais ciclistas, mais cavaleiros, mais pregões, tôda a ordem de obstáculos, na sua invasão resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das galeras, dos camions, das carroças e tranvias. E desta forte trepidação material e espêsso escoamento, o fluxo e refluxo interminável, era regulado, às esquinas, numa sorte de automatismo consciente, pelo bastão vigilante dos polícias.
O comedor do hotel era na planta baja, furtado às vistas do público por brancas e discretas brise-bise, mas invadido em cheio pelo marulho atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada atenção do Silveira, que, apenas findou de almoçar, subiu a tomar a bengala, o chapéu e as luvas; e num momento aí o temos no pequeno vestíbulo outra vez esperando que o porteiro lhe tomasse um taxi, onde a asa pitoresca do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe désse pasto ao interêsse. Não tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao acaso, puramente ao arbítrio do chauffeur e ao sabor do imprevisto. Mesmo que outra coisa podia êle querer, por agora, não conhecendo nada da cidade?... Apenas recomendou à silhueta automática do condutor, que, de mãos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,— que não queria estar a parar constantemente... e então que fôsse por onde houvesse menos confusão, menos movimento.
O vélho auto partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa praça amplíssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensível as suas largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que provisóriamente, de casitas abarracadas e construções mesquinhas, na cimalha tape à l'oeil duma das quais, espécie de mercenário frontespício de instalação de feira, mugia a toada populacheira e aldeã dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o alto, no seu deslumbramento marmóreo, o Palácio monumental do Congresso, vaidoso e lindo no estadeamento olímpico das suas colunatas, nos seus astragalos e florões clássicos, nos seus génios de bronze, nos seus grupos alegóricos, na linha puríssima e alada da sua cúpula sem par, traçando suavemente, na mansa tela lilás do céu, uma grande parábola de arrogância e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, não suportava a vastidão da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente do recinto. E êste aparecia-nos tambêm inexoravelmente tomado pela mesma grossa e incómoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava tudo; por tôda a sorte de vedações, de máquinas, de materiais, de esboços de construção e montes de escórias. Uma como que subversão de terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos Atlas de ferro e aço, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama. Apenas, neste estrangulamento de sórdidas durezas, algum triste e anémico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma acariciadora mancha de frescura; e num dêsses perdidos oásis de plácida harmonia debuxava-se, solitário e nostálgico, o bronze do atlético Penseur, de Rodin, na sua acefalía paradoxal, na sua absurda corpulência. O mesmo edifício do Congresso, que o Silveira deixára agora à sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme, amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas descarnadas e o tijolo ennegrecido.
Internou-se a seguir o automóvel por uma rua espaçosa e clara, espécie de boulevard, no seu arranjo cuidado e simétrico, na sua dupla fiada de árvores, no delírio policromo das taboletas, nas artísticas vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na sua orla barulhenta as étalages comerciais e os tôldos dos restaurants sucediam-se e disputavam primazias em alternâncias coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu lêr—Rivadavia; e então recordou que esta era talvez a principal artéria porteña, e decerto a mais extensa, a de maior tradição, como que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortuìtamente e a intervalos, consoante o giro caprichoso do veículo, o Silveira deu-se conta de passar por uma rua Andes, cruzar aí com um grande edifício pesado e austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos, quáse iguais, todos com lacónicas designações,—Córdoba, Triunvirato, Santa-Fé, Las Heras, Montevideo... por fim já nem tomava tento por onde ia e abandonava-se, alheadamente, à incerteza voluptuosa do desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindáveis, riscadas a cordel, invariávelmente chatas e implacávelmente direitas. Em vão se buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoçar-lhe a hirta algidez sem termo, o desafôgo verde e livre dum square, o perfume sorridente dum jardim, um refúgio amigo de sombra, a carícia duma curva, o boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas plazuelas se riscavam, é certo, porêm submetidas por igual à mesma implacável esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prédios, e na sua tímida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E por tôda a parte tambêm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas tôscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovação: ou era a calçada, esburacada em longos trechos e o trânsito impossibilitado pela aglomeração impertinente de paralelipípedos, em monte, de tubagens em linha, de rolos de cabos, de maçaricos, paz, alviões, lanternas; ou eram os primeiros ensaios de rascacielos, com seu rodapé de tapumes lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vácuo os seus esqueletos de tijolo e de ferro.—Uma cidade colhida em gestação flagrante, sacudida num estremeção apoplético de vida, onde tudo estava por fazer, onde nada se concluíra ainda. No seu subsolo esfarrapado e arfante, sob a sua carapaça movediça e áspera como o dôrso dum monstro antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no mistério a química formidável dos interesses e a impetuosidade brutal dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno ponto de interrogação suspenso sôbre o seu arranjo definitivo, não se atinava com o termo a esta sua cavalgada frenética na conquista delirante do progresso e da fortuna.
Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e profundamente esticadas, não tinham, pelo geral, mais que o andar térreo. A lisura convidativa da pampa, deserta e sem obstáculos, incitava a esta expansão libérrima, o que explica que Buenos-Aires abranja hoje uma área superior à de Londres. Alêm disso, como o valor da terra nas zonas de vida mais intensa sóbe vertiginosamente, por isso tambêm, na economia do seu lógico desdobramento, as sucessivas construções tendem a irradiar para a perifería, como os tentáculos dum aracnídeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida. À proporção que se distanceiam do centro, as edificações apequenam-se, rustificam-se, vão gradualmente despindo o carácter urbano, solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construção é mais e mais simples, até descerem às combinações rudimentares do tijolo, da taipa e do adôbe. E não é fácil fixar o limite a êste encurralamento galopante para o Infinito.
O Silveira considerava com particular interêsse a fisionomia, tôda peculiar, das construções principais,—essas altas bisarmas que rompiam desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordão habitual da casaria, e que assim desdobravam no espaço livremente os seus flancos, não impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porêm abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no escalonamento paralelo dos vários andares sobrepostos, e, em cada andar, na sucessão linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos pasillos. Tambêm lhe chamou a atenção o decorativo luxo exterior, o rebuscado adôrno das fachadas. E êste vicio era geral; nos palácios mais opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava inalterável uma indumenta excessiva da pâtisserie italiana; em todos havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma ânsia eruptiva de contornos, um espolinhamento doido de torcicólos barôcos, de emblemas, de florões, de amorinhos, cariátides e quimeras. As paredes mais modestas não dispensavam alguma máscara de fauno ou uma lira entre malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundâncias sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que retinham a luz, que arranhavam o gôsto e varriam tôda a sobriedade e pureza de linhas. Não havia arquitectura, mas apenas albañilería.
Contudo, esta pesada obsessão do relêvo era vantajosamente resgatada pela nobre linha geral das construções, elançadas sempre e escalando a altura com brio, num soberbo arranque de abastança e de fôrça. As janelas não prescindiam, em geral, do confortável resguardo das persianas, de madeira ou de ferro, e adiantavam-se em amplos balcões rendados, muitos dêles picados garridamente de floritas rubras e com finas enrediças verdes colgando. Mas nem uma vaga silhueta de mulher neles vinha debruçar-se, ninguêm se via às janelas, cujas persianas impertinentes, inexoráveis, se mantinham, de alto a baixo, herméticamente cerradas. E as portas, estreitas, igualmente impenetráveis, sentinelas fieis da felicidade e do amor... Impossível surpreender a mais fugidía nuança da vida interior destas esquivas bocetas, furtadas tam melindrosamente ao róce brutal do mundo. Isto dava-lhes um tom singular, um ar recatado e discreto, o que quere que fôsse de aristocrático e isento, contrastando afinadoramente com o grosso industrialismo plebeu que lhes marulhava em tôrno. E um outro mundo se adivinhava, com efeito, tecendo o seu manso ambiente inefável adentro dêstes misteriosos ninhos da paz e da virtude. Como se o carácter argentino, carinhoso, manso e precavido, cavasse um deliberado abismo de meticulosa defesa entre a rude guerra aberta dos negócios e a macieza impenetrável do seu ninho! Como se a feição e o cálculo, numa trégua prudente do seu antagonismo, o levassem a lançar uma barreira irredutível entre as doçuras plácidas do home e os atrictos desgarradores do interêsse, entre o coração e a banca, entre o lar e a rua! Cá fóra um balcão, ali dentro um altar.—Seria assim?...—A verdade era que, com tôda a sua pacotilha ornamental, o seu aspecto provisório e o seu precário arranjo, a grande cidade voltava agora a oferecer e como que confirmava, ante a sensibilidade esperta do recêm-vindo, o mesmo inédito e especial encanto, a mesma poética e vaga suavidade daquele esquissado carvoamento das suas primeiras linhas na calma téla gris do céu, na passada noite... Um não sei quê de atraente e aprazível, de afávelmente acolhedor, de harmonioso, de limpo, de fidalgo, que êle, um hóspede de horas, não sabia ainda se atribuir à claridade essencial das almas, se ao respiro salutar das coisas.
E sentia-se bem, afinal. Tendo voltado ao hotel, e agora reclinado molemente numa poltrona modesta do seu quarto, o desabusado morgado de Mosteirô repassava mentalmente o seu expatriamento voluntário e iludia o tempo numa saborida evocação retrospectiva de gratas lembranças, de projectos, de sonhos, de scenas vividas, de prazeres, de desejos suspensos. Primeiro a Pátria; mas o intervalo ainda curto do seu distanciamento e o torvelinho de ineditismos ofuscantes que, desde a partida, o vinham assediando, não permitiam que o vinco nostálgico por enquanto se afirmasse na vibratilidade demasiado inquieta da sua alma; depois, aqueles tantos dias de bordo, essa deliciosa bambocha de pequeninas audácias, desilusões, surprêsas, flirts, intrigas, tédios e ridículos de raiva que era brisas e de gozos que eram espuma, correra-lhe um pano de olvído sôbre o passado; entre o que êle fôra, e o que era, haviam marcado uma eternidade e cavado um infinito.—De Portugal, agora, queria lá saber!—Apenas recordava, num desdêm superior,—que aquilo lá devia ser uma maçada, com os carbonários a ditarem a lei, os conventos feitos quarteis, os novos sem religião, os vélhos sem garantias, e uma mania de escolas por tôda a parte, tudo muito malcriado e ninguêm conhecido. A seguir, recordou vagamente os dois irmãos.—O que fariam êles?...—Ainda o mais vélho, o José, advogadote rábula e manhoso, saberia tirar proveito dos conflitos jurídicos que, com a Rèpública, eram agora bastos como os cogumelos depois da chuva; mas o Bernardo, o mais moço, um pateta feito agrónomo à fôrça de empenhos, um come-santos sempre metido por lausperenes e romarias, como se aguentaria, agora que o Afonso déra com os santos em terra?...— Ora! não fôsse tanso.—Por fim, ao evocar a visagem chorona e os ademanes trágicos da noiva quando lêsse a sua carta de despedida, o lábio varonil ergueu-se-lhe num leve sorriso, entre comiserativo e trocista, e os olhos fátuos, erguidos ao teto, semicerraram-se, a seguir a indecisa imagem da pobre Laurita, que em espiralamentos caricaturaes êle via subir, envôlta na fumarada ténue do charuto, seguida pela ronda desolada e grotesca da família.
O derivativo patusco da viagem, isso sim... tinha sido bom a valer!— E já de repente voltava a dançar-lhe, efémera e jovial, pela retina tôda a divertida sucessão de episódios que durante êsses deliciosos vinte dias haviam marcado um dos capítulos mais saborosos e interessantes da sua vida. De tudo um pouco êle havia logrado provar nesses adoráveis instantâneos breves, e fugazes como fogos-fátuos, feitos de saltantes contradições e antíteses súbitas. De tudo,—desde os trágicos pavores da tempestade té aos desmanes hilares do ridículo.—Que rico tipo aquele pedinchão Contreras, com as suas intrujonas promessas e os seus apetites decorativos... e a cabeça e as piugas do Alvarez, as fanfarronadas postiças do conde, as doutas madurezas do Wimeyer... o Mackenna com a sua pomposa inépcia, o Mafiori com a sua astúcia mansa. E, das mulheres, quanto não valia essa esnalgada e insípida Nora, a querer teimosamente enredá-lo na tentação paradoxal dos decotes... e que apetite de formas, que rico amor, a irlandesa... e a formosura alada, o requintado espírito, a indecifrável isenção de Irene! Esta, sim, que dava que pensar...—Por uma natural associação de idéas, o Silveira conjugou mentalmente a púdica absténção, o carácter retraído e tímido da linda argentina, com o ar recatado e discreto que êle de passagem surpreendera, por igual, na fisionomia atraente da cidade. E todo êste ambiente embocetado e austero, longe de o acobardar, estimulava-o, era um desafio picante ao seu génio enamorado e volteiro, acendia-lhe os brios varonís em tonadas ardentes de desejo. Na segura antevisão dos mais belos triunfos, dilatava guloso as pálpebras, movia numa pregustação sensual os lábios gordos.—Ah, que o seu instinto adivinhára! Devia por ali assim vir a passar bem bons bocados...
E aplaudia-se de ter vindo.
Pouco depois das 4, fiel ao seu compromisso da véspera, chegou o Azeredo. A tarde estava um encanto. A luz esbatia-se suavemente na mole carícia do ar, húmido e tranqùilo. Tomaram pronto um auto os dois amigos e dirigiram-se ao parque famoso de Palermo, anunciado nobremente, ao começo da avenida Alvear, pelas faustosas decorações da Recolêta, em cujo preguiçoso declive majestosas linhas arquitetónicas enquadram harmoniosamente rasos e amplos taboleiros verdes, mosqueados de tintas policromas, um precioso bouquet de frescos relvados, de minúsculos jardins, de bosquetes, sébes floridas e tosquiadas sombras. É aristocrático e é lindo. E a seguir, descendo sempre suavemente, a mesma sumptuosa e ampla artéria se continua, atirada com arrogância numa dilatada conquista de espaço, numa extensa projecção rectilínea sôbre cujo asfalto polido deslizam, rodam e se cruzam alegremente as equipagens luxuosas e os automóveis de preço. Definindo a todo o comprimento o eixo da bela avenida, acompanha-a e ergue-se a perder de vista, no seu fino recorte aéreo, uma floresta linear de esbeltas lâmpadas ornamentais, da renda brônzea dos braços tendo suspensos grandes pomos brancos, e a lavrada raíz mergulhando na macieza de esguias e escovadas pelouses, picadas de estatuetas decorativas. Depois, naturalmente, e fiel aos consabidos dogmas triviais da estética urbana, o formoso côrso, deixando o largo aprumo inicial, passa a desdobrar-se e a colear em mesurados lacetes de roda do grande lago, ao qual por seu turno não faltam as casotas, pontes rústicas, lilipucinas cascatas, esguichos anémicos, barquinhos, grutas do estilo, e o gongórico restaurant de rigor. Agora, neste consagrado circuìto da moda, é de-veras embaraçante, pejorativa, enorme, a afluência de veículos, cuja marcha se torna grave e cheia de importância. Há um refinado propósito de ostentação, uma patente fúria exibitiva; a cada passo, neste afluir compacto da assistência, produzem-se engorgitamentos, empastes, nódos, que obrigam a paragens sucessivas; tudo servindo de pretexto amável à mutuação de sorrisos, acenos, agrados, câmbios de frases familiares entre as pessoas conhecidas. Há vida, há movimento, há opulência, há ruído; mas tudo cerimoniosamente espontado, sem espontaneidade e sem brio. De família para família, de curva para curva, a cada novo cruzamento neste mostruário ambulante de vaidades, as vêsgas miradas perscrutadoras, os desapontados gestos, a raivosa estupefacção, as bôcas sumidas de inveja, impõem-se ao brando rodar das equipagens e ao bisbisoteio da chalra sobrenadante. E em tam pomposa parada de atrelagens, alguns vélhos fiacres vão ainda derivando de escape, ao largo, num repúdio de instinto, humildemente, como que vèxados no seu anonimato de miséria.
Ao mesmo tempo, uma afluência enorme, desbordante e luzida por igual, circula e galreja a pé, bordejando abundante as aceras laterais, taquinando com airosa presteza a areia fulva dos passeios. Com saltitante orgulho o Azeredo vai mostrando ali ao amigo uma que outra figura conhecida. O Silveira, todo na hora presente intercala com gulosa vivacidade as sôltas interrogações que lhe acodem a propósito, no impressivo relato da sua excursão da manhã. Nota com espanto como, aqui, adoráveis grupos de señoritas se permitem deambular, rir, volitar livremente, fóra do ôlho suspicaz das mamãs, desenvôltas, seguras, num confiado aprumo e em plena independência. Nota igualmente que os homens vestem em geral com desafectada elegância, e que as mulheres teem uma allure cheia de graça, uma linha de conjunto harmoniosa e fina.— Mas a moldura que a Natureza oferece a êste palpitante quadro social é tristemente desataviada e mesquinha. A vegetação é pobre. Abunda a mancha verde-sujo dos eucaliptus, formando por vezes tufos gigantescos, e avultam alguns maciços mais de chorões, de plátanos, de cedros, de salgueiros; porêm a maior extensão dêste chato parque embrionário,—meio square, meio pântano,—é povoada por uma fruste vegetação arbustiva, sem brilho, froixa, mal cuidada; e há avenidas inteiras orladas por pobres palmeiras dépaysées, o tronco anão, a folhagem esfarrapada e lívida, que na sua enfermiça invalidez são um eloqùente protesto mudo contra a incongruência edílica, arrefecem o ambiente e tornam a perspectiva dolorosa. E ainda é de notar que, para alêm dum reduzido perímetro, neste arremêdo incipiente do Bois, o traçado pretencioso dos bons caminhos de rodado, das áleas luxuosas, se interrompe súbito a cada momento, cortado por tôda a sorte de obstáculos. Se em qualquer direcção o desprevenido turista pretende um pouco mais ao largo aventurar-se, logo aí lhe barra arreliativamente a marcha uma passagem de nível de ferro-carril, a armatura bisarmal de alguma grande construção em osso, ou os intransponíveis valeiramentos de charcos, barrancos e atoleiros de tôda a espécie. As rodas dos veículos afundam-se e peganham impotentes na revôlta viscosidade das argilas empapadas. Não há continuìdade nem segurança de trânsito nesta desarticulada rêde de aberturas. E debalde alongamos interrogativamente, a um e outro lado, a vista morosa e cansada. Por tôda essa monótona extensão de rústicas parterres, a luz rasante do crepúsculo apenas faz agora saltar o estagnado espelho dos lameiros e aguaçais, que salpicam bastos, com as suas placas corrosivas, como pústulas, a inevitável sucessão das lamas de mato ruço e rasteiro estranguladas entre a via-férrea e o Plata, onde a luz falta e a humidade abunda. Na volta, já noite fechada, o boulevard aparatoso de Callao flambeava de côr e regorgitava de vida. Outra das grandes e opulentas nervuras da cidade. Tudo brilha, tudo vibra, tudo reluz neste largo e inquieto diorama. Na mesma sombra há movimento. Sôbre o piso esmerado, de madeira em paralelipípedos, os numerosos veículos teem um rodar suave e acariciador, sem estrépitos e sem sobressaltos, como se corressem sôbre alfombras. Pelos largos passeios marginais, na onda ronronante da multidão, saltam vivas as arestas e as figuras cortam-se com violência, surpreendidas em flagrante e trazidas ao máximo relêvo pela modelação crua em que, do mesmo passo, as envolve o grande jôrro de luz branca, dos candelabros do alto, e as espadanas de luz doirada golfando dos escaparátes scintilantes.
O Silveira seguia interessadamente o inédito desdobrar desta cinta magnífica, com a alma tôda nos olhos e a ventoínheira cabeça passando, em súbitas e incansáveis alternâncias, dos florões repolhudos dos palácios à toalha esplendente da rua; quando, de repente, imperativo, nervoso, arpoando forte o braço ao amigo:
—Ah, ó menino! pronto, pronto... ali! manda parar.
—Aonde?
—Ali! ali!—insistiu, na mesma imperiosa querença, o Silveira.
E apontava um grande letreiro, projectado, à altura dum 2.º andar, perpendicular sôbre a rua, onde em fla E apontava um grande letreiro, projectado, à altura dum 2.º andar, perpendicular sôbre a rua, onde em flamantes caractéres sucessivamente brancos e rubros, se lia—Idiomas Berlitz.
Mas, incommovível e suspenso, o Azeredo, sem perceber:
—Ora essa! e porquê? Estás doido?...
—Não, filho! manda parar, já te disse... Preciso adestrar-me no inglês, p'ra me entender com uma criatura deliciosa que conheci a bordo. Se tu a visses!
Agora o Azeredo ria a perder, sacudindo esperto o busto, espalmando as mãos sôbre os joelhos.
—Ah! ah! ah! Essa nem parece tua.
—E então?—retrucou, fazendo um mômo de sério, o Silveira, quáse ofendido.
—Pois tu não vês?... Por mais apurado que quizesses andar, nunca lograrias arranhar algo, e bem pouco, do inglês, senão passados dois ou três meses.
—Tanto tempo?
—Seguramente. E entretanto a mulhersinha teria sabido arranjar... quem melhor a entendesse.
Cabisbaixo e um pouco triste, o Silveira ruminava mentalmente uma aquiescência. E com o ôlho ladino, o amigo:
—Não me sejas zonzo, rapaz! Em matéria de amor as mulheres não querem saber de palavreado. Obras, obras...—E com um desprezivel dar de ombros:—Que diabo! nem pareces português.
O auto seguia sempre, mole e suavemente. Deixada para trás a falaciosa esperança dêsse letreiro redentor, já os dois amigos atingiam de novo a Praça do Congresso e seguiam ao longo de Rivadavia, a internar-se no chamado centro da cidade.—Infindáveis ruas estreitas e banais, perpendicularmente enastradas, no seu hirto paralelismo e na sua esquadria inflexível riscadas sempre indefinidamente. A esta hora ruidosa e opressiva da noite, elas são como que meteóricas fendas lineares talhadas a prumo, num rectilíneo enfiamento sem termo, ao longo do ferro e o cimento recocó dos grandes quarteirões maciços. Não há um desafôgo, uma abertura, uma fuga de espaço livre ou um claro de benéfico repouso, neste atropelado escoamento de coisas bárbaras e difusas. Foram ruas bastantemente espaçosas e amplas, há quarenta anos, para suprirem então ao movimento de duzentos ou trezentos mil habitantes; porêm hoje, deplorávelmente adstringindo ainda o coração duma cidade cuja população quintuplicou, tornadas duma lamentável e nociva insuficiência. No seu estrangulamento arcaico chocam-se, cruzam-se e baralham-se delirantes tôda a casta de obstáculos e de ruídos. A cada momento há que parar. De quarteirão para quarteirão, a cada passo o moroso avanço é cortado por embaraçosas suspensões, em inalteráveis sucessões de minutos que parecem séculos. Enfastiado e impaciente, o Silveira propôs ao amigo apearem-se.—Não podia aturar mais aquela maçada! A pé sempre girariam melhor.—Mas nem por isso a mudança de instrumento locomotor lhe trouxe a ambicionada largueza de movimentos. Pior agora, talvez... Pelos passeios laterais, mancos e exiguos, mal podem caminhar duas pessoas a par; e ainda há que seguir com invariável aprumo e a maior cautela, afim de evitar o róce brusco dalgum dêsses tilintantes e monstruosos tramways que teimosos e incessantes lhes passam, com estrepitoso fragor, rasos mesmo pela aresta, em risco de nos levarem um braço ou estriçarem uma perna.
Debalde no cruzamento das ruas a polícia, numerosa e atenta, faz cabalísticas manobras com o seu bastão providencial, no honesto esfôrço de regular os detalhes da circulação. Resulta sempre uma empresa árdua, por vezes heróica, a ordenada canalização da túrbida torrente, do atrito cosmopolita dessas grossas mangas humanas, jorrando em sujas golfadas por um afunilado labirinto a sua hipertrófica exuberância. Bem queria, uma por outra vez, o Silveira deter-se um pouco, a analisar uma figura, a sondar uma perspectiva, a anotar um pormenor, a observar as montras... breve reconhecia ser, ali, tam singelo acto um cometimento defeso à maior destreza humana; e tinha que arrancar brusco e retomar caminho, entalado, enovelado entre os cotovelões nervosos do amigo e a congestiva onda da multidão que o levava por diante. Depois, se êle por acaso, inadvertido, voltava a abandonar a sua posição de equilíbrio periclitante para contornar o arreliativo tapume dalgum prédio em obras, para dar o passo a uma dama, para alcançar o amigo, para atravessar a rua, logo de chamá-lo à brutal realidade,— e por vezes simultâneamente,—a busina dum auto, as campaínhas das bicicletas ou o timbre estridente de mais um grande tramway, cuja massa atravancadora, farfalhante, enorme lhe cortava súbito a frente, ringindo, pesadamente, com a esmagadora fúria dum mastodonte a abrir caminho pela selva.
O Silveira sentia-se enervado, aturdido. Aquele caminhar fatigante à fôrça de opressivo, o grosso marulho sobrenadante, a profusa luz dos cafés, dos teatros, tiendas e cinemas, entontecia-o. Entretanto, prendia-lhe a atenção a étalage caprichosa e berrante das numerosas lojas de engraxador,—peculiares de Buenos-Aires,— com as suas estravagantes decorações, o seu afanoso saracoteio, e o imprescindível fonógrafo, ao fundo, sob o relogio, entre arbustos anémicos e hilariantes cartazes, roncando alegremente. Mas nem aí lhe era permitido o gôzo inocente dum pouco de exame tranqùilo; porque, se um instante êle parava à porta dum dêstes interesseiros especímens da fantasia napolitana, logo de assalto, à altura do ouvido, lhe rompia o tímpano, fazendo-o estremecer e fugir, a estentórica voz do pregoeiro, tam nasalada e estrídula como as vibrações do fonógrafo do fundo, para a rua a sibilar clamorosamente:
—Gay ass...
—Gay asiento, cabayero!
Teriam os dois caminhado assim pouco mais dum quilómetro, quando muito prazenteiro o Azeredo, sustando o passo ao amigo:
—Cá estamos em Florida. Uff! Aqui não há trânsito de veículos a esta hora. É tudo para o belo flirting...—E todo aos saltinhos, tomando-lhe do braço:—Anda ver o chic, meu rapaz!
O mesmo alinhamento angosto e banal das demais ruas em tôrno, cujo inflexível e cerrado travamento forma o clássico sistema vascular desta parte da cidade. A mesma congestiva afluência, o mesmo côrso embaraçoso e difícil, o mesmo movimento, o mesmo ruído tambêm; mas tudo isto aqui constituido apenas pela dissonância de vozes, o afanoso giro e o formigueiro sussurrante da multidão a pé, que, livre do tropêço aplastante dos veículos, em plena alegria e em plena expansão, revoluteia, aflúi, chalra, insinua-se, resvala e afirma-se prepotente, tomando à vontade a rua tôda, as suas impressivas silhuetas saltando nítidas e as sombras mordendo em vincos de agua-forte a espelhada fluìdez do asfalto reluzente. É a hora elegante, a hora preferida. Sente-se e sôa brando o peganho abundante das passadas, ao longo dêste grande salão a céu aberto. Ao alto, pela noite nevoenta do céu, superando o estrangulado limite dos prédios, recortam-se, penduram-se, cruzam-se e dançam em profusão tôda a sorte de rèclames e adornos luminosos, formando por vezes, de lado a lado, caprichosos viadutos, ou suspensos em esplendentes rosários que entornam a sua luz gloriosa sôbre o boleamento arquejante e febríl desta grande feira gentílica. Em baixo, a sucessão dos estabelecimentos luxuosos é interminável: é uma dupla feira, magnífica, deslumbrante, de grandes magasins de modas, livrarias, floreiros, bibelotages, tea-rooms, étalages industriais, armazêns de música, adoráveis pequenos salões artísticos, rijos mostruários de artigos de sport que prendem um momento a atenção dos homens, cristais de ourivezarias faiscantes que incendem em pecaminosas tentações o perdido olhar das raparigas.—Qualquer coisa como a Rue de la Paix ou Bond Street, porêm com mais ímpeto, mais côr, uma vida mais compacta e mais intensa, e sobretudo com uma percentagem muito superior de mulheres bonitas.
É ver a harmoniosa graça com que elas caminham, no seu passo miudito e firme, airosas, leves, naturalmente distintas, requintados exemplares da espécie, felizes pelo segrêdo dêste seu donaire especial, feito de nobreza, de doçura, de confiança e de vaidade. Os homens marcham com uma tonada, uma segurança e um garbo igual, pisando ademais como senhores, no convicto orgulho de si mesmos, incompatíveis, vê-se, com o instinto da economia, altaneiros e certos na generosidade sem fim do seu torrão bemdito. E todo o mundo anda ligeiro. Claro que no corriqueiro programa dêste obrigado passeio elegante, de cada dia, a melhor e mais grata função é consagrada ao galanteio feminino. À pinturilada porta da confeitaria L'Aiglon estacionavam grupos de mirones, a cada momento renovados, tam de-pressa sumidos no grosso embate da onda, como logo refeitos galhardamente; por tôda a parte se disparam frases amáveis e se despedem olhares gulosos ao venusino apetite das lindas señoritas que por entre o deslumbramento mágico das lojas desfilam incessantes,—mais claras que as luzes, mais adoráveis que os bibelots, de maior preço que as jóias; mas tudo isto é expedito, fugaz e feito com sôlta decisão varonil, em breves pausas de cavalheiresca excepção abertas na febre geral do movimento, deixando a perder de vista e afundando num abismo de ridículo a pasmaceira lamecha habitual da nossa Rua Áurea e do Chiado.
—Que tal achas, ché?!—indagou o Azeredo vivamente.
E com os olhos extraviados de júbilo, o Silveira:
—É encantador, é divino! Esta é a minha terra!
Assim fizeram os dois o percurso total da formosa rua, desde as aristocráticas instalações de Harrods, passando pela arte postiça da London Gallery, a arcaria pedante do Jockey-Club, a branca portada do Charpentier, as montras suculentas da Rotîsserie Sportsman, té ao grosso amontoamento burguês dos armazens de Gath & Chaves. Ao cabo, já sôbre a Avenida de Maio, o Azeredo assinalou trocista à curiosidade ávida do amigo a chamada esquina de los otarios,— pascácia aresta de voluntário suplício onde o amor pelintra dos caixeiros e amanuenses vem baboso e marruaz aguardar a saída das costureiras. E aqui nêste estrepitoso cruzamento de duas das suas principais artérias, atinge o máximo da intensidade e da côr a agitação resfolegante da cidade. Dêsse compacto torvelinho, da baralhada onda de tôda essa grossa turba em delírio, ergue-se em quentes lufadas e toma e embebeda o ar uma clamorosa ressonância, que é a evidenciação triunfante do bem-estar físico, da fecunda actividade, da pletóra de fortuna e de riqueza desta moderna Cartago,—a vontade feita moeda, um dos grandes fócos da capacidade potencial do homem sôbre a terra, portentoso centro de atracção, empório colossal do trabalho fascinante e criador, caldeado na protéica ardência das mais válidas esperanças e as energias mais potentes das raças de todo o mundo.