Amor Crioulo

Abel Botelho · Capítulo 11 de 12

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Amor Crioulo

Nota Final

Esta quáse palpável evidência perturbava-o. Já perdia a noção exacta do rumo que levava. Entrou no vestíbulo do Royal, tomando-o por o Palace Théâtre; e por êste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de reconhecê-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o apiedado alarme da sua consciência e a farta repulsão do seu desejo......

 

NOTA FINAL

 

Abel Botelho, o artista ilustre que às letras do seu país legou tantas páginas de inspiração e de beleza, não teve tempo de concluir o romance Amor Crioulo, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com a imaginação e os olhos postos na Pátria distante. A morte colheu-o de súbito, paralisando para sempre a mão augusta que tam activamente lidou e a lúcida inteligência que nunca se fatigou de combater, durante meio século de esfôrço permanente e fecundo, para atingir um ideal de perfeição suprema.

Analista subtil do coração humano, psicólogo, moralista pelo castigo áspero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes exploradas antes dêle, tentando imprimir uma utilidade social à sua arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se perpetuará, tem de ser tomada como uma lição, mesmo nos seus aspectos de mais cru realismo e na sua mais cruel expressão—que fazem dela um flagrante documento da época e do meio em que foi elaborada. Vista em conjunto—que é como deve ser julgada pelos espíritos imparciais—há-de necessáriamente reconhecer-se-lhe um mérito estético e moral.

Os derradeiros capítulos que compôs, com tanta ternura e tanto relêvo artístico, foram estes do Amor Crioulo, que os seus Editores hoje lançam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa, onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde êle era o representante diplomático do Governo da Rèpública Portuguesa, foram infrutíferas. A doença inesperada interrompêra, certamente, o trabalho do escritor insigne, que a morte não tardaria a eliminar da comédia da existência. A acção do romance estava em pleno desenvolvimento quando o braço do seu autor caíu desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho do Amor Crioulo pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados episódios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito sentimental se estabelece.

Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com novos e valiosos subsídios para o estudo e para a crítica da individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre nós poucas figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida que à sua volta desenrolava maravilhosos scenários e que êle reproduzia com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos valores.

Foi, em todo o caso, lamentável que não terminasse êste volume póstumo— porventura aquele em que pôs mais devotado carinho, mais emoção, mais orgulho de raça, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como uma entidade representativa. Nem ao menos pôde corrigir as provas em que os escritores da sua rara estírpe dão sempre os últimos retoques de graça, de harmonia, de equilíbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa foi-me confiada a mim, procurando eu desempenhá-la o melhor que me foi possível e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em competência. Qualquer êrro que no texto apareça terá, portanto, de me ser imputado, e não ao escritor modelar que tanto dignificou a sua nacionalidade nos luminosos domínios do pensamento e da arte.

 

Pôrto, 28 de julho de 1919.

 

J G .