Amor Crioulo

Abel Botelho · Capítulo 8 de 12

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Amor Crioulo

Capítulo VIII

—Então, muito cansada?

—No... aunque fuera doble del camino,—murmurou Luísa docemente.

—Espero que nos tornaremos a ver...

—Quien sabe?—devagar ela suspirou, furtando os olhos, com um peganho vago de tristeza.

E dos dois as mãos trémulas e frias deslaçaram-se, houve um mútuo breve acêno de despedida e voltaram-se costas, num eloqùente mutismo, seguindo cada qual o seu caminho.

O Silveira, porêm, tam pronto deu no seu novo rumo os primeiros passos e sentiu que lhe faltava o que quere que fôsse... e contra o seu querer não despegava de pensar, apiedado, quente, com uma devoção enternecida, na misteriosa aparição dessa adorável e paradoxal criatura, tam sobranceira ao mal, tam pura em meio de tanto lôdo, tam segura da sua imunidade, tam resoluta diante do perigo. Quis vê-la uma vez mais.... parou, voltou-se. Mas, impelida por idêntico desejo, ela voltára-se tambêm... E nesta simultânea permuta de olhares, confusa ao ver-se surpreendida, a alvorotada criança deu logo rápida a espalda e disparou, correndo.

 

VIII

 

Longe, na estancia, a extraordinária demora do Silveira tinha tôda a família Saavedra em cuidado. Já eram as 9 horas passadas e ninguêm pensava em comer, polarizada e anciosa como todos tinham a atenção no pávido receio de que ao seu simpático hóspede houvesse sucedido alguma coisa... A conjurar os maus fados, a mística Célia não cessava de marmotar íntimamente rosários sôbre rosários de intercessoras preces. E já o irmão havia feito convocar uma dúzia de peões, para que montassem pronto a cavalo e batessem de roda os caminhos, quando finalmente, açodado e ofegante, o Silveira apareceu. Entre fatigado e confuso, desfazendo-se em implorativas frases, em instantes justificações, em escusas humildes, contou então à mesa a sua romanesca aventura. O pequeno círculo amigo escutava-o num pique de intêresse crescente, que subiu de ponto té assumir os contornos duma enternecida piedade, quando êle, tendo anotado por uma sacudida mímica a rápida e sumária exposição da luta, se comprazia depois, turbado e quente, na sentida descrição da sua pequena protegida. Então os aplausos choveram claros, abundantes, envolvendo o destemido galã no mais propício ambiente de favor, de agrado, de entusiasmo.—Uma acção de cavalheiro! Parecia mandado pela Providência ali... Fôra lindo!—E com uns grandes olhos pezarosos, as duas senhoras:—Pobre chica! essa... andar assim exposta... E é como muitos males acontecem... por'mor da necessidade, tantas vezes!—Sómente Jorge, fátuo e incrédulo, punha neste ingénuo círculo a nota discordante.—Qué chica! que perigos, que necessidades! Pura parada, zonceras, bromas ... Fôra um caso trivial aquilo. Êle estava farto de conhecer essas falsas virtudes do campo: eram umas sabidonas, umas impostoras, umas ratas sábias da moralidade, réles virgens de contrabando.—E como, santamente indignada, a irmã protestasse, com arrogante scepticismo, num risinho chocarreiro o impertérrito censor desafiava:—Mandassem-na p'ra êle, que logo a desmascararia!

No dia seguinte, de manhã, correio. Pai Saavedra aguardava com impaciência os jornais, que deviam já trazer o resultado das eleições em Buenos-Aires. Confirmava-se a vitória dos socialistas. E desgostado o bom vélho, depois de lêr os nomes dos novos deputados e a crescida cifra que haviam alcançado no sufrágio popular, disse para o filho e o hóspede, enquanto depunha as lunetas, abanando a cabeça com tristeza:

—Acho um mau sintoma... Isto é um contrasenso, um absurdo, fértil em resultados negativos que breve vão dar o seu pernicioso fruto, hão-de ver... Não faz sentido, não se compreende: uma sociedade minada pelo socialismo e tôda regida ainda por leis góticas e romanas.

Esperava tambêm notícias da família, de Paris, que havia já tempos que não vinham. E numa piedosa tristeza, encolhendo os ombros:

—Aquele meu neto! Só escreve quando precisa de dinheiro.

Igualmente o Silveira havia recebido correspondência da Europa, e que de Buenos-Aires obsequiosamente lhe remeteu o Azeredo. Primeiro, largas notícias dos seus primos de Tourais, informando-o que aquilo por'li ia mal... o Douro estava descontente. O vinho todo nas adegas, os preços arrastados e mesmo assim ninguêm comprava. Efeito em bôa parte da protecção escandalosa que o govêrno da Rèpública continuava dispensando aos vinhos do sul, que pelo Pôrto e Gaia entravam descaradamente. E que os lavradores estavam furiosos, os jornaleiros com fome, os povos na miséria. A continuarem assim as coisas, muito sangue ia correr! Falava-se em revolução, e, em último caso, o Norte saberia bem emancipar-se políticamente dêsses soberbos e egoístas mandões de Lisboa!—Todo êste inflamado rol de ameaças o Silveira leu breve e distraídamente, sem dar ao assunto maior atenção, como se se tratasse de remotas coisas passadas nalgum país desconhecido. Tinha agora uma carta do seu irmão Bernardo. Lamuriava a sua falta de trabalho, a ignorância rotineira dos lavradores, a descrença e a impiedade corrompendo tudo... e pedia-lhe dinheiro. Soltou-a das mãos com indiferença. A seguir, outra carta. E êle conhecia bem esta letrinha tortuosa e miúda, traslado flagrante do carácter mimalheiro e vibrátil da sua olvidada noiva.—Umas dúzias de linhas lacrimosas, desgrenhadas, lúgubres... bagoadas de nénias e lamentos, amargas recriminações líricamente contornando, como lianas de queixumes, todo um florilégio veemente de paixão. E exprobrava ao seu ingrato prometido essa evasiva hipócrita da «sua dignidade em briga com o seu amor»... e que tal amor por ela nunca êle sentira... por isso que o verdadeiro amor é um sentimento exclusivo, dominador absoluto, que com nenhum outro se compara, de nenhum pode aceitar limitações nem sofrer competências. Vinham ainda solenes protestos duma vida tôda de isolamento, de abstenção e renúncia, té que o seu amado voltasse. Aludia-se vagamente ao suicídio...—Porêm, ainda na mesma alheada e fria disposição de ânimo, a atenção do Silveira correu ligeira sôbre a enternecida página, desviando logo a vista indiferente e arrojando-a ao lado com tédio.

Agora, um exemplar de La Razón, de Buenos-Aires, com um longo artigo marcado a lápis azul e um bilhetito dentro. Era daquele seu peripatético sócio de viagem, o Ramón Alvarez, que com desbordante ufania lhe noticiava estar contratado para escrever nesse diário umas crónicas literárias semanais que firmaria com o seu pseudónimo de guerra,—Carrasco Bossa. E sessenta nacionaes por cada uma. Bem bom! Aí ia a primeira.—O Silveira nem uma linha leu sequér; e vá de tomar por fim a última carta,— esta sim! que o fez dobrar-se, nuns grandes olhos espectantes, e foi logo aberta com o maior interêsse. Vinha de Espanha, tinha o carimbo de Orense. Era um dos seus amigos da fracassada conspirata monárquica a participar-lhe—que as coisas iam bem agora... ali trabalhava-se mais à vontade, as autoridades faziam a vista grossa, êles tinham armamento, dinheiro, quantidade de gente instruida. Desta vez seria a valer! E que estava por pouco êsse pesadelo tôrpe da Rèpública!—E na sua confiada antevisão do termo breve do seu exílio, do advento vingador do seu triunfo, o Silveira lia e relia com demorado calor o sugerente papel acariciado entre os dedos, e um frémito de incontido júbilo vinha bailar-lhe na aresta dos lábios trémulos.

Mas seguramente aquele era o dia das novidades, porque à hora do mate um inesperado telegrama chegou, dirigido a D. Teresa.—Era Maria Mercedes que anunciava a sua visita, para a manhã seguinte. —Foi todo um gáudio, um encanto, um alvorôço, uma festa. Ao mágico influxo da prazenteira notícia, a arrastada e monótona vida habitual da estancia ganhou alento, alma, calor, transfigurou-se. Já um sôpro de cordial eflúvio vibratilizava o ambiente, e as fisionomias tinham um outro ar, as coisas brilhavam duma claridade nova. E tôda a tarde, depois, para êsses reservados aposentos do andar superior um carinhoso movimento convergiu, de solícitos mimos, previsões, atenções, cuidados. Os serviçaes arrumavam, espanavam, varriam, traziam lençóis e toalhas, faziam as camas; Célia foi incansável na condução de flores, em sábias instruções ao pessoal da cozinha; e de sua banda os dois Saavedras, pai e filho, à porfia volviam a desfiar, cada um por seu modo, os singulares atributos e as adoráveis perfeições da nova hóspeda, perante a picante emoção crescente do Silveira. À noite discutiu-se quem havia de ir à estação recebê-la. Célia e Jorge estavam indicados; porêm o Silveira desejaria acompanhá-los tambêm, e a dúvida era se teria logar. Porque a Miquêtas trazia seguramente a inseparável Dorita mail'a niñera: eram assim ao todo seis pessoas, e o auto não comportava mais que cinco. Contudo, a momentânea dificuldade compôs-se pela desprendida insistência de Jorge—em que seguiria ao lado do chauffeur.

Na manhã seguinte, à hora justa do horário, o trem de ferro parava em Chascomús. E na obscura mancha gris dos raros viandantes que saltaram, vá de recortar-se, num forte e eurítmico destaque, a esbelta silhuêta duma mulher redondita e grande, os olhos negros, loira, aparatosa, avançando com lentidão, de cabeça erguida e sorriso aberto, na flexuosa molenta dos movimentos revelando todo um contôrno de divindade pagã, e ora amplificada em ademanes de raínha, ora quebrada em mimalhices de criança. Vestia um singelo traje tailleur, de miudito xadrez preto e branco, gorro de fazenda e côr igual, um tenuíssimo véu de foulard, preso em duas largas pontas sob a nuca, e luva e sapato branco. Trazia ao cólo um delicioso cãosito, de focinho afusado, os olhos como contas de azeviche e o friorento corpinho por completo forrado no esplêndido manchon natural do seu longo pêlo, côr de rato. Seguia-a uma criadita delgada e joven, vestida de negro, com uma menina dos seus 10 anos, pálida e frágil, pela mão.

Logo Célia e Jorge correram direitos a saùdá-la, e depois das primeiras acolhedoras demonstrações fizeram-lhe a apresentação amável do Silveira que Maria Mercedes acolheu com distraída indiferença. Poucos minutos andados, instalavam-se todos no auto; no logar de honra, é de saber, a formosa viúva, com um banquinho puxado aos pés e logo uma fôfa almofada trazida para sob a espalda; depois, ao lado, a pequena Dorita e Célia; e na frente, de costas ao chauffeur, a niñera mail'o Silveira, que gentilmente Jorge obrigou a tomar assento junto e vis-à-vis da sua tam encomiada prima. Breve, e uma vez o auto em marcha, o diálogo abriu-se, animado e impressivo, todo neste cortado e ávido travamento de monossílabos em girândolas, curtas frases sibilantes, simultâneas e bruscas exclamações, atoadas perguntas sem resposta e relâmpagos de inquirições em suspenso, que caracterizam, de ordinário o primeiro contacto afectivo de pessoas íntimas, há muito separadas pelo tempo ou a distância. Maria Mercedes, naturalmente, dirigia-se de preferência a Célia e quando muito, uma que outra vez, ao primo, não se dando conta absolutamente para nada da presença do Silveira, que frente a ela seguia apagado e mudo, numa vaga humilhação, o rosto invariávelmente paresiado numa lôrpa expressão de convencional agrado.

Vieram primeiro solícitas indagações sôbre a preciosa saúde dos tios Saavedras; e como corria o tempo na estancia, a peonada, as flores, a vizinhança, as colheitas. Depois, a maligna coscovilhice habitual sôbre o mundo imenso das amigas. Uma viperina reportagem verbal que fazia o regalo do feitio burlão de Jorge e com que os mesmos piedosos escrúpulos da irmã gostosamente se acomodavam.—Trazia-lhes um grande bouquet de novidades, um punhado de revelações inéditas, imprevistas... Incrível! no breve espaço de dois meses, que de coisas entre trágicas e patuscas, se haviam passado. E que imaginassem... A Pilarita Flores, sempre era certo! rompera o casamento... um compromisso tam antigo... e tam a fundo. E depois do que se dizia! Agora o noivo, furioso, ia-se fartando de dar à língua e o mal não era senão p'ra ela. O puro do escândalo! Porêm outra melhor: aquela sonsa da Marta Wilkinson, a casada, sabiam?... sempre afinal deixou o marido. Tendo um filhito de seis anos! onde é que se viu isto? E tudo p'ra juntar-se com êsse farabute de Sottardo... ordinário, feio, pobre, um réles aventureiro. Fugiram p'r'a Europa, crê-se; enquanto o marido, deixando o filhito à avó, se foi p'ra Córdoba esconder a vergonha. Porêm tam descarados os dois, que, antes de abalarem, ainda estiveram no Hotel Majestic uns quinze dias, sem recato, sem mêdo, sem pudor nenhum, fazendo público alarde da sua revoltante mancebia... Mas pelos modos aquela gentinha Wilkinson era uma bem triste família! A outra irmã de Marta, a mais nova, a morfinómana, lá estava no sanatório de Rivadávia... Apenas dezanove anos e doida de todo!

—Uma família cursi!—sentenceou Jorge com enfado.

E a prima, seguindo árdidamente o seu implacável relatório, acrescentava,—que sempre se confirmavam as escapadas furtivas da mulher do Santelmo Martinez à garçonnière do Avellanoso. E que, pelos modos, no hogar sem mácula dos Perez se descobrira recién um par de ilegitimos polluelos...

—Perdida gente!—lastimou Célia num compungido suspiro, baixando com beata compunção os olhos.

—Agora quanto a pequenas notas de ridículo,—continuou a viúva, mudando de tom, num ar mais ligeiro e mais facêto,—tenho tambêm uma cabazada cheia. Ai! se fôsse a desfiá-las tôdas... Basta só que vos diga: essa impostora da Anita Castex há mais dum ano que não paga à modista, porêm manda p'ra lá as amigas tôdas; as tolêtas das Molinas, apertadas pelo côbro de contas que lhes vieram da Europa, tiveram que vender o melhor das jóias e da mobília; o mais assim.—E ao cabo dêste regalado raid pelos meandrosos domínios da má-lingua, a aparatosa viúva balbuciou com ar enjoado:—Mas, em suma, sejamos tolerantes, deixar lá...—E logo, num imperceptível bocejo, com uma adorável depressão de fadiga:— Mas, ó meu Deus! esta horrível caminhada não tem fim. Sinto-me fatigada, sabem?

—Como fatigada, ché?—levemente trocista acudiu Jorge,—por uma viagem tam curta? Uma criatura que anda sempre dum lado p'r'o outro...

—Tambêm é verdade, sim, viajo muito.—E com um requebrado suspiro:—Ainda é a melhor maneira de iludir a triste vacuìdade da minha vida.

Durante tôda essa deliciada sarabanda de sociais mexericos, continuára a marcar zero para a assistência aquele anonimato humilhante do Silveira. Debalde êle a quando a quando demandava, a que lhe désse importância e valor, o generoso amparo da inocência, nalgum implorativo olhar despedido com um sorriso a Dorita, a qual, tôda ouvidos às perversas revelações da viúva, invariávelmente lhe voltava o rosto enfastiado. Lembrou-se o pobre então, como último recurso, da bondade infinita dos cães... e tratava, com timidez, de interessar em seu favor a enternecida atenção do lindo animalito ali enovelado diante dêle, mirando-o com familiaridade, pedindo-lhe a patita, esboçando no ar com a mão em concha vagos gestos de carinho.

Bateu certo, desta vez, porque Maria Mercedes, sensível a êsse timorato ensaio de irracional galanteio, já condescendia em envolver a figura suplicante do Silveira no amavioso círculo da sua atenção e dos seus conceitos. E coquetona e lânguida, um pouco teatral, continuava:

—Pareço alegre, muita vez... é certo. Das minhas abrumadoras crises de desânimo desperto súbito, e esqueço-me de mim mesma a inventar movimento, a organizar festas, diversões, prazeres... Oh, mas tudo puro engano! Não são coisas que brotem cá de dentro. É a maneira mundana de me aturdir... de iludir êste afrontoso tédio do meu viver, entre sentimentos que me enganam e pensamentos que me aborrecem.

E agora, num atencioso e directo relancear de olhos ao Silveira, com familiar singeleza:

—Mas eu sou uma criatura feita de contradições... não faça caso do que eu digo.

Porêm o extático Silveira nem a ouvira, todo preso e incendido na devoradora contemplação daqueles grandes e divinos olhos, que êle agora pela primeira vez surpreendeu em tôda a plenitude dos seus belos traços fulgurantes... uns olhos clássicamente distanciados, negros, profundos, e que eram como um ardente céu estival: com relâmpagos e sem nuvens.

Ao tempo, do assento da frente, Jorge debruçava-se, torcendo a espalda, para a prima, e ligeiramente irónico, apontando o cãosito:

—E que nova raridade é essa agora?

—Ah, e bem raridade, ya lo creo!—logo a viúva contestou, fazendo de agastada.—No lo diga Usted por broma..—E com intimativa:—É um autêntico Pomeranian. Talvez não haja mais quatro em todo o mundo!—Passou a mão caridosamente pelo felpudo cêrro do animalito.—Meu querido Riddle, verdad?...—Depois outra vez para Jorge, naturalmente:—Comprei-o agora, há meses, na minha passagem por Boston.

—Muito caro?

—Cinco mil dollars.

—Que coragem!

—Ah, mas fui prática...—apressou-se em aclarar com ladina expressão Maria Mercedes.—A emprêsa que mo vendeu, segurou-me ao mesmo tempo a vida dêle em igual quantia, por dez anos.

E já ela novamente, com amável atenção para o Silveira:

—E, diga-me, meu caro, há quanto tempo se encontra na Argentina?

—Há apenas dias.

—E que impressões tem?

—Oh, as melhores do mundo, minha senhora! É um país encantador.

—Cale-se! cale-se!

—E porque hei-de eu calar-me, se digo a verdade?... se eu não vejo por tôda a parte senão a mais deslumbradora e magnífica expansão de cultura, de actividade, de progresso, de abundância e de beleza?

—Mau! mau!—tornou graciosa a viúva a atalhar, erguendo o braço com enfado, fransindo o nariz com tédio.—Aí temos nós que escutar uma vez mais êsse hipócrita e estafado cliché de quantos génios de exportação, eméritos vividores e fracassados sociólogos, nos visitam.

—São espécies zoológicas a que eu me orgulho de não pertencer.

—Faço-lhe essa justiça. Mas por isso mesmo lhe peço que, pelo amor de Deus! não me continue nesse tom incondicionalmente bajulador, que, à força de falso e gasto, em vez de nos desvanecer, nos irrita e nos desgosta... Busque antes ver as coisas como elas são realmente. Fale-nos da pobreza da nossa paìsagem, da monotonia e solidão do nosso campo, do nosso feitio desbaratador e indolente, da nossa vaidade insolente de parvenus, da nossa penúria de inventiva, a nossa fatuìdade, a nossa ignorância... a mal alinhavada pastiche da civilização europeia a que em última análise se reduz tudo isto.

—Como? como?...—acudiu Jorge, voltando-se brusco, num vivo rebate de orgulho, visivelmente contrariado.

—Parece-me severo em demasia o quadro,—urbanamente entendeu o Silveira dever contestar.—O que aí vai, minha senhora!

—Ó prima! isso tambêm agora...—ao mesmo tempo protestava Célia com indignação.

Porêm de sua banda a viúva, serêna, imperturbável, e seguindo na solícita catequese do Silveira:

—É que eu desejo que venhamos a ser dois bons amigos, e p'ra isso, condição imprescindível, terá que ser sempre franco comigo, há-de ter opiniões suas, pintar-me os homens e as coisas sinceramente. Terá que ser, sobretudo, original... Não lhe quero ouvir baboseiras.

Semierguido e dobrado numa vénia galante, exultante de prazer, com o seu mais fino sorriso o Silveira aventurou:

—Original?... Numa coisa seguramente eu não poderei sê-lo, minha senhora...

—E então?

—Na incondicional admiração por si.

Visívelmente lisonjeada, Maria Mercedes cambiou com a prima um expressivo olhar de agrado; enquanto, num risinho mordaz, o irmão:

—Sempre galantes êstes portugueses.

—Aprenda, aprenda...

—Ora! vélhos modismos piégas de há cem anos...—logo o moço argentino ripostou com desdêm; e com desenvolta petulância rematou:—E qual a mulher que os merece?

Nesta sôlta e frívola chalra foram rápido consumindo o tempo; a termos que já em breve, como de improviso, vinha cortar-se-lhes na frente, próxima e amiga na infinita rasoira semsabor do horizonte, a torcida e rugosa carcassa do vélho ombu da estancia. Pronto o auto parava junto ao gasto portão da entrada, onde, comovidamente acudindo, os dois vélhos Saavedras fizeram à sua hóspeda dilectíssima a mais efusiva e carinhosa acolhida. Não faltaram cá fóra os curiosos; bem como dentro, ao longo do jardim e seguindo pelo vestíbulo e pelo patio, o grosso dos serventuários e peões da casa, alviçareiros e contentes, cerimoniosamente alinhados. E por todo êsse alvoroçado cortejo Maria Mercedes passou num arrastamento de importância, meiga e solene, devagar, entornando graças, dadivando sorrisos, naquele seu ar a um tempo menineiro e senhoril, com aquele precioso dom de atracção a distância de que ela tinha o segrêdo.

Todo o almôço foi um encanto; e no seguimento festivo da tarde, depois, aí vinha uma incessante, interminável romaria de bons paisanos dos arredores, por onde correra boato da chegada da sua «grande e formosa amiga», e que enternecidamente lhe traziam a homenagem das suas saùdações humildes, concretamente afirmadas por adoráveis oferendas de pan dulce, ovos, mel, biscochuelos, cabritos, leitões, aves e flores. Sôbre o comer, à noite, naquele repousado salão da frente, recobrou desusada animação a familiar tertúlia. Nem D. Toríbio pensou no derivativo soporífero do xadrez, nem tam pouco ao filho acudiu o emancipador recurso de alguma das insalubres juergas nocturnas. Todos se sentiam bem, deliciadamente presos na atraente e dominadora presença de Maria Mercedes, a qual para o jantar fizera grande toilette,—com a farta e ondeada maranha do seu cabelo fulvo contornando-lhe a primor as têmporas, e contra a nuca aplicada e erguida em roscas petulantes; e aberto no mais indiscreto decote o ligeiro corpinho, de musselina negra com vidrilhos, que deixava livre o colo, os braços e as espáduas, sôbre cuja redonda nudez uma levíssima écharpe sôlta, e negra tambêm, movida ao artificioso capricho das mãos da viúva, realizava sua tentadora gimnástica de pecado... ao embevecido Silveira permitindo surpreender, nos deslumbradores claros dessa mímica perversa, a fluida solidez dos músculos escorregando, como numa baínha de sêda, sob a quente alvura da pele, suavemente... E quando não era a carícia ateniense do gesto, era a graça mórbida das atitudes, era a iluminada vivacidade da expressão, o enigmático ninho de promessas da bôca suculenta, a espiritual malícia dos olhos grandes e profundos, despedindo misteriosas flechas de fogo, que, quando as pálpebras baixavam, parecia que se partiam na aresta sensual das longas pestanas negras.

A pouco de entrarem no salão, a linda e aparatosa viúva, sentindo-se o alvo comovente das atenções, com marcada complacência arrastou uns poucos passos lânguidos, teatralmente, poisando de importância; e logo de arrojar-se com indolência sôbre um fauteuil, e num ar mimalheiro e infantil, a cabeça froixa, os olhos vagos, achegando ao flanco as almofadas:

—Ai, mas que bem que eu me sinto aqui! entre pessoas sinceramente amigas, sem fingimentos, sem peias... e sem cuidados. Como eu vou poder descansar!

—Ah! ah! Mas descansar de quê?...—cascalhou Jorge familiarmente.

—Com a vida que levas...—ainda a irmã dêste comentou, sorrindo.

—O quê? vocês pensam que eu na cidade não faço nada?

—Claro! Uma perfeita haragana.

—Pois enganam-se! Às 7 da manhã já eu estou a pé.—E ante o sorriso incrédulo da assistência confirmou com ardor:—Palavra de honra! Apesar de ter confiança na ama de llaves, passo logo revista à casa tôda. Depois, às 8, vem a massagista; ás 9 a cabeleireira e a manicura; às 10 tenho o desayuno e cuido um pouco da nena. A seguir, até ao almôço, encosto-me um pouco, isso sim... É uma grande regra de higiene: conserva o bom parecer e evita a magreza. Mas durante o resto do dia, naturalmente, depois, é o meu procurador, quantidade de coisas da beneficência e uma séca de voltas, compras e visitas. De sorte que assim à noite, quando acabo de comer, sinto-me fatigada... e aí pelas 10 ou 10 e meia, quáse invariávelmente, deito-me. Já vêem...

—Com efeito!—encareceu D. Teresa com agrado.

—Deito-me logo, é certo. Embora às vezes tenha convidados, que todavia ficam e me desculpam.—E na espontânea demanda do infalível testemunho da sua inocente afilhadita, que acabava de entrar, Maria Mercedes rematou:—Dorita, não é verdade?

A precoce e débil criança dobrou numa ponderosa afirmação a cabeça; e a seguir, abandonando a boneca sôbre uma cadeira, avançou vagarosamente a acercar-se da viúva, a cujo lado, tomando-lhe com ternura a mão, se enovelou, já com um ar composto e grave de pessoa adulta,—o seu rosto sério e os pequeninos olhos claros, muito abertos, revelando tôda a acuìdade mordente da atenção para apreender e quanto possível assimilar, no enunciado e na intenção, o desenho sinuoso do diálogo.

Entretanto, com burlona ironia tornou Jorge:

—Pois aqui, querida primita, já sabes... há tambêm que trabalhar.

—Pronto!—rompeu, saltando de ímpeto, a viúva.—Teem programa?

—Esperávamos por ti,—aclarou D. Teresa.

—O teu veredictum é essencial,—completou pai Saavedra com ternura.

—Bem, pois vamos então a ver... Já pensaram em algo?

De roda abriu-se um claro de silêncio hesitante, e houve um tiroteio mudo de olhares de incerteza. Apenas Célia ousou então docemente insinuar:

—Há aí um assunto, de magna importância, quanto a mim... Porêm todos me hacen burla, me pelean, opõem-se...

E aquela esquiva e insípida figura desfiou com vivacidade crescente, perante a atenção tolerante da prima, tôda essa magoada história do seu desgôsto pelo industrialismo, a irreligiosidade, a chateza, a afrontosa materialidade pagã que pesava sôbre a estancia; e como era vivo, alado e ardente o seu desejo de ver por fim êste adorado ninho da família posto sob a invocação duma santa padroeira qualquer, ao místico abrigo tutelar da divindade. E ainda, por último, esboçou e enalteceu, como o seu único apoio, a poética idéa do Silveira.

—Ah, mas eu acho óptimo!—acudiu com palpitante animação Maria Mercedes, avançando o busto com graça e juntando e batendo as mãos, crêspos de decisão os lábios, os grandes olhos faiscando.—É certo, sim... Abundo no pensamento do sr. Silveira. Excelente, não há dúvida... Tens razão, Célia! Tens-me a teu lado.

Num perturbador lume de vaidade, logo o Silveira, dobrado em afável reverência:

—Sinto-me deveras ufano por essa sua espontânea conformidade de pensar, minha senhora.

—Ah, mas não vá desvanecer-se demasiado, meu caro amigo! A minha conformidade não é completa. Um ponto há em que eu peço licença para divergir...

—E então?

—É nessa coisa gasta e trivial de azulejos pelas paredes e retábulos pelas esquinas,—no seu expressivo fransir do nariz respondeu morosa a viúva:—Nada, nada... temos muito melhor!—E ante a suspensa atenção do pequeno grupo, sacudindo iluminada a cabeça, batendo com fôrça no joelho:—A santa imagem propiciatória dêste logar hemos de a colocar lá fóra, no jardim, debaixo do vélho ombú.

Um eloqùente alarme de protesto, um calafrio de indignado horror, acolheu a herética audácia da proposta.

—Ó Miquêtas, por favor!—censurou, a primeira, D. Tereza.

—Uma árvore condenada, ôca, podrida, inútil...—comentou o filho com asco.—Um símbolo de mau agoiro.

—Por isso mesmo!

—A que extremos o prurido da originalidade arrasta por vezes esta minha bôa sobrinha!—com o seu ar mais bonacheirão interveio, sorridente, D. Toríbio, e conciliadoramente:—Este... Pois tu não conheces o vélho adágio crioulo: rancho con ombú acaba en tapera?... Sabes muito bem que a gauchada odeia, por tradição e por instinto, quantos raros exemplares por'í ainda acaso existem dêste torturado e solitário representante da nossa grande flora secular. Êles teem o ombú por uma árvore presága, abominável, a cuja sombra sinistra parecem germinar e medrar a ruína, a desgraça e tantas vezes o crime.

—Uma crendice estúpida.

—Que em todo o caso existe. Quantas dessas vélhas árvores o nosso paisano pode impunemente alcançar, sabes que as abate logo a machado.

—E fazem muito bem!—implicativo tornou Jorge.—Se é lenha que nem para o fogo lhes serve!

—Essa antiga sentinela do nosso jardim deve seguramente a vida ao seu resguardo,—continuou afávelmente D. Toríbio; e com suasiva mansidão para a sobrinha:—De sorte que... este... já vês, se nós vamos agora a pretender nobilitar, a deificar em certo modo, pela tua peregrina idéa, êsse precário foragido do deserto, muito possível é que então a bruta peonada dos arredores, conseqùente no seu ódio medular, seja capaz de, por extensão, tomar tambêm em aversão toda a estancia. Vê lá...

—Certo, certo...—cabecearam Célia e a mãe, num passivo assentimento.

Porêm, serena e insensível, sem se desconcertar, no mesmo convicto ardor teimou a viúva:

—Pelo contrário!... Essa pobre gente pensa mal? é vítima inconsciente de íniquos preconceitos e crendices absurdas? Pois o nosso dever é ensiná-los, educá-los, esclarecê-los... varrer-lhes o intelecto e aclarar-lhes a consciência.

—Estás bem aviada!

—Claro que sim! Temos a santa obrigação de abrir-lhes os olhos, de fazer-lhes bem sentir tôda a cega extensão da sua ignorância e o bárbaro desvio do seu êrro.

—Querem lá saber!

—Em vez de ser um tema de abominação, o vélho ombú argentino merece bem ser antes um objecto de carinho. Há que reabilitar êsse veterano simpático do nosso campo, essa relíquia veneranda do passado, testemunha muda e inocente de tanto sucesso lendário...

—Eu logo vi...—atalhou Jorge com o seu incorrigível ar trocista.— Está sabido. Todos os ombús são lendáríos.

—Quando não são históricos!—corrigiu pronto, com firme severidade, a viúva. E posta súbito em pé, sempre com a mesma incisiva veemência levando de vencida a já froixa resistência do auditório:—Ora imaginem! Improvisa-se uma peanha, em cima um nicho a carácter, instala-se dentro o santo ou a santa... e aí temos nós o pretexto para uma interessante festa nocturna. Verão o efeito. Cai aí tudo... vai ser lindo!

E como de roda todos, vagamente sorrindo, se fechassem num silêncio que era uma aquiescência, ela comandou com alegria:

—Bem! bem! está combinado. Daqui não há que sair. Amanhã veremos os detalhes...—E rematou com decisão, segura já do seu triunfo:—Meus caros amigos, não há tempo a perder! porque a minha demora aqui vai ser curta.

Uma aluvião de subitâneos protestos choveu da assistência, entre os quais era de notar a calorosa insistência do Silveira.—Que não! não podia ser! tinha por fôrça que demorar-se. Adorada por todos como ela era ali assim! O contrário seria uma crueldade, seria um crime. Nada! não a deixariam partir...—Mas a despeito de todo êste adulador incenso, a mimada viúva, com bem dissimulado desgôsto, aventurou—que, emfim, era forçoso... A estação ia adiantada, e ela tinha ainda forçosamente que visitar Córdoba, Montevideo, Bahia-Blanca, Mar del Plata.—E bruscamente, passando a recostar-se numa convidativa e ampla dormeuse, frente a uma janela aberta, e agitando a mão com angústia, queixou-se de que sentia imenso calor e tinha sêde... queria beber alguma coisa.

Logo de roda o pequeno círculo em solícito movimento. Dorita partiu a correr, a buscar um leque; Jorge improvisou uma ventarola de papel; pai Saavedra foi estabelecer corrente de ar, abrindo a porta, enquanto o Silveira abria tambêm mais a janela; e D. Teresa e a filha, açodadas e inquietas, batiam, acamavam o estôfo da dormeuse, ageitavam a cabeceira, arredavam as almofadas. Depois, mal o criado de mesa entrava, trazendo uma bandeja com refrescos, e já era a imediata presença da niñera que a insatisfeita viúva imperiosamente reclamava, para que lhe trouxesse o seu little Riddle, que ela sôfregamente aninhou no colo, deliciada a coçar-lhe a nuca e a dar-lhe guloseimas.

Ainda a conversa se prolongou por um tempo mais, bordada sôbre coisas vazias de interêsse, a termos que por fim Maria Mercedes, erguendo-se e aconchegando a écharpe, pediu licença para retirar-se, com Dorita, dizendo agora que sentia frio. Todos obsequiosamente a acompanharam, ao longo do patio, té à porta da escada para o andar superior. E aí, na carinhosa cauda das despedidas, ela disse afectuosamente ao Silveira, estendendo o braço:

—Então, bons amigos, não é assim?

—E aliados!—confirmou êle, radiante, beijando aquela mão divina.

E, tôda a noite, êste autêntico produto da singela e bronca região duriense quáse não dormiu. A impressão vincada por Maria Mercedes no seu temperamento cálido, na sua apoucada inteligência, no seu impetuoso e límpido carácter, marcára fundo bastante para espancar-lhe o sono e atear numa viva espertina a arrastada sucessão das horas. Não o fascinára sómente o deslumbrador cortejo dos encantos físicos da recêm-vinda, mas tambêm, e de preferência, a linha sinuosa e complexa do seu perfil moral. Organismo rico de sangue e pobre de nervos, afeito às aventuras fáceis, esperto e fanfarrão batedor na caça dos simples amores campesinos, o impressivo desenho desta figura requintada e esfíngica desnorteava-o. Até àquele momento êle não lidára, mais ou menos, senão com mulheres dum córte definido, compreensíveis, sinceras, claras como o azul matutino do céu e a água cantante das ribeiras. Ainda agora aqueles seus dois últimos conhecimentos, durante a viagem,—a esquiva Irene dentro do seu espiritual alheamento, a provocante Mrs. Edith embiocada na sua sábia impostura,—mostraram contudo logo o que eram, foram sempre lisas, coerentes, lógicas consigo mesmas. Porêm Maria Mercedes, não! Era uma criatura embricada, enigmática, temível... estava a ver. Cheia de mimalhices, caprichos, alternâncias, brusquerias, entusiasmos, tédios. Um diabólico e indecifrável novelo, um problema estonteante. Queria investir com ela e tinha-lhe mêdo! Era um abismo de seduções e um torvelinho de mistério, que ora lhe inflamava o instinto ora lhe acobardava o desejo. E— coisa interessante, rara tambêm e para êle inexplicável,—a cada momento, a cortar suavemente a angustiosa dúvida do seu querer, nos mais agudos instantes desta sua obstinada devassa interior e pelo mais adorável dos contrastes, vinha e debuxava-se-lhe na vaga penumbra do aposento, sobrepondo-se à turbadora imagem da viúva, em claros benéficos de repouso, a figura mansa e rústica da sua confiada amiguita da antevéspera, Luísa, a linda morenita, na mesma apostura silenciosa e humilde, na mesma inércia contemplativa, na mesma frescura moral de clara fonte, iluminada de ternura ingénua... e na amaviosa concha do seu olhar, cheio de fogo latente, envolvendo-o, calmando-o, dominando-o... mercê dêsse irresistível poder das mulheres suaves e tristes, quando rogam mansamente.

 

Na rápida sucessão dos dias, depois, não perdia o nosso atolambado galã o mínimo ensejo em que acercar-se pudésse da viúva, a procurar tornar-se insinuante, familiar, prendê-la ao seu convívio. E buscava ardilosamente captar-lhe a atenção, na impossibilidade manifesta de lhe falar ao desejo. Ao mesmo tempo arriscava tôda a sorte de tímidas, de insidiosas inquirições sôbre o problema mordente do seu passado.—Uma mulher assim devia ter crónica!—A cada momento esboçava interrogações e bordava conjecturas sôbre os ignorados antecedentes, sem dúvida invulgares, daquela vida. Preocupava-o árdidamente o mistério desta estrangeira nascida tam longe dêle, e cuja existência,— estava-se a ver,—teria porventura sido demasiado vaga e errante para que êle jámais pudésse bem conhecê-la.

Algumas vezes D. Tereza veladamente lhe insinuára,—que a sua pobre Miquêtas não fôra nada feliz com o casamento. O deslumbrado Silveira não queria crêr... Jorge, o seu confidente natural, discretamente e de pausa lhe ia tambêm relatando um que outro pormenor, avançando um detalhe, sublinhando uma anecdota; e, na crédula cegueira da sua admiração lamecha, cada nova revelação sempre o Silveira aproveitava para desatar-se em hiperbólicas fantasias, cuja asa de oiro logo o amigo prosaicamente lhe cortava, por um episódio trivial ou um comentário trocista. Foi assim que, uma tarde, sentados os dois naquele aconchegado rincão do patio, junto ao comedor,—e porque, incorrigível, o Silveira voltasse ao seu panegírico optimista sôbre as sublimadas perfeições dessa criatura de deslumbramento e de sonho, que merecia mais que um trono... um altar,—ainda uma vez com inflexível frialdade tornou a frisar-lhe o amigo:—que todavia ela não era, nem fôra nunca, feliz. E que poderia bem tê-lo sido... com as paixões loucas que inspirou, com os belos pretendentes que teve! Pelo desespêro uns levados ao suicídio, outros à loucura, outros à ruina. Ele já sabia. E que afinal...

—Afinal...—recalcou o Silveira com ardor,—sempre teria sabido escolher um marido digno dela. Se é que semelhante prodígio era possível!

—Que prodígio! Nada disso! Pelo contrário... Muito mais vélho... camorrista, devasso e jogador. Comparado com ela, um perfeito estafermo!

—Bem! mas ao menos morreu... Está livre dêle!

—Morreu... E por que forma?—balbuciou Jorge, fazendo uns olhos de piedade, com uma cáustica expressão de enfado. E por fim, ante a suspensa e mortificada atenção do amigo:—Em casa duma amante... duma apoplexia.

O Silveira fez-se pálido, corrido por um frio interior de nôjo e de revolta. Porêm Maria Mercedes, que passava na ocasião e aprendera esta pequena aresta de diálogo, acercou-se, mansa e familiar, dos dois amigos, e com uma adorável resignação, quáse infantilmente:

—Ah, mas por'mor de Deus! Meu caro amigo, não me lastime. Eu relativamente estimei... Poupou-me o desgôsto de o ver morrer.—E logo com desenfastiada naturalidade, derivando:—Mas dispensem-me, sim?... Vou escrever p'r'a capital, quero ainda aproveitar o correio de hoje. Vou mandar uma carta cheia de minuciosas instruções a êsse santeiro de calle Suipacha, sabem?... É a encomendar-lhe uma grande imagem da nossa futura padroeira, a Senhora da Conceição. Escolhi bem, não lhes parece?... Ela é o santo símbolo da fecundidade e da pureza, e portanto o mais condizente escudo e o mais fiel espelho desta mansão exemplar da abundância e da virtude.

E, feita uma ligeira vénia, ei-la que retoma a andar, naquele seu estudado ademan de requebrada e ondeante majestade, a fugidía asa dum sorriso a encrespar-lhe os grandes olhos côr da noite e a adejar nos lábios nacarinos.

—Divinal mulher!—murmurou, posto em cómico êxtase, o Silveira.— Como diabo foi ela tomar um animal dêsses p'ra marido!?

—Sei lá!—redarguiu Jorge, num risinho scéptico.—Coisas de mulheres... Ela diz que foi por amor ao paradoxo e umas tantas pavadas por êste teor. Mas não! quanto a mim, foi pura questão de vaidade. Se le ha puesto entre cojas dominar, moralizar, regenerar êsse salafrário. Pero se ha embromado.

—Com o que nada perdeu, no fim de contas.

—Ah, não seguramente! Ao contrário, com mais êsse pequeno escândalo o seu nome não fez senão ganhar em fascinação, em poder, em comovido interêsse e mundanal prestígio.

Abroquelada na sua individualidade melindrosa e rebelde, Maria Mercedes nem a todos os preceitos se amoldava daquele salutar e primitivo viver da estancia. Não lhe importavam passeios, temia as caminhadas, envolvia no mesmo abandôno de fastidiento desdêm a barulhenta bisarma das instalações industriais e o manadio disperso da riqueza pecuária. Substancialmente, a rude movimentação, o giro áspero e forte da vida do campo, repugnavam-lhe. No seu temperamento subtilizado e mórbido essas cruas batidas de ar e de luz feriam reacções bruscas, violentas, quáse dolorosas. Despertava, erguia-se cedo; porêm de ordinário, antes do meio-dia, ninguêm conseguia vê-la fóra do quarto, sucedendo-lhe repetir amiúde «que de manhã não era mulher p'ra nada». Antes daquela hora apenas condescendia em sair dêsse inviolável reduto, quando muito, a niñera, a arejar o Riddle e a passear Dorita. Maria Mercedes apenas uma vez acedeu a dar um passeio matinal, a cavalo, na companhia de Jorge e do Silveira. Mas baldadamente êste depois, em várias dulcerosas investidas, tentou persuadi-la a que lhe fizesse a fineza de repetir, e desta vez com êle só, o sacrifício... todo na saborida antevisão dum aventuroso idílio. Nada alcançou. Fôra uma façanha sem exemplo.

Pelas tardes, sim, era a bela viúva a primeira na actividade, no bom-humor, na alegria. Fazia largos e piedosos percursos, então de ordinário companheira inseparável e gostosa de D. Tereza no seu esmolátorio desporte pelas redondezas. E em seguida, às noites, no salão,—aonde sempre acudia uma ou outra família vizinha,—era ainda ela o prestigioso centro das atenções, o fulcro espiritual do diálogo, neste môrno e sossegado ambiente, sentindo-se na posse plena dos seus nervos e em todo o facetado fulgor do seu espírito.

Ao cabo duma semana, por uma nublada manhã, pesada e ardente, chegou Belisário Ruiz. Exceptuando por parte de Célia, teve sua consabida recepção de agrado. Maria Mercedes acolheu-o com afabilidade e festejava-o, judiava-o, apurava-o muito, mercê desta liberdade inocente que a intimidade nos traz e um largo conhecimento. De sua banda porêm o Silveira entristeceu e alarmou-se, por uma apreensiva retracção do instinto.—Ganharam então em colorido e interêsse as familiares tertúlias da noite, agora de ordinário bordadas sôbre assuntos mundanos, em que a desabusada verve do recêm-vindo, no seu arrastado ar blasé, intercalava amiúde a nota picaresca ou o comentário equívoco. Era sem fim o rol que, a propósito, este pândego contumaz se comprazia em desfiar, de casos escuros, anecdotas picantes e grotescas aventuras, fruto da própria experiência umas, outras colhidas naquele seu fácil e sôlto passo pela vida fóra. Então não raro aconteceu, quando o diálogo assumia um cariz algo verde, a meticulosa Célia erguer-se e sair, dissimuladamente. E uma noite pai Saavedra, bonachão alegre, no seu adorável espanto infantil, exclamou para Belisário, batendo galhofeiro os braços, os pequeninos olhos verdes húmidos de riso:

—Mas que coisas com que êste homem nos vem! Chacotón! Onde demónio vai você saber tudo isso?

—Aí teem!—acudiu com intimativa a viúva, súbito erguida da sua apostura indolente.—É o que se ganha com as viagens. Êste senhor tem viajado muito, como eu. Faz bem... O que a gente vê, ouve, sente, adivinha, ausculta e aprende!... São um grande e divertido ensinamento.—E num suspiro lânguido, recumbida e mole novamente:—Quem me déra ir já por'í fóra outra vez!

O Silveira esboçou um convicto e mudo assentimento; e carinhosamente D. Toríbio:

—Sempre viajar! sempre viajar! Nunca te fartas...

—Que querem? sou assim... É da baralhada essência do meu sangue. Imaginem; minha mãe era uruguaiana, minha avó italiana, meu avô alemão, meu bisavô norte-americano... Com uma ascendência assim, que outra coisa poderia eu ser senão uma incorrigível vagabunda?

—Deves ter amor à tua terra.

—A minha terra?... Sei lá qual é!

—Não digas isso!—acudiu a gorda e maciça D. Teresa, estremecendo e erguendo com horror as grossas palmoiras à tinta industrial do cabelo.

Porêm a viúva, quente, imperturbável:

—Ah, isso é que eu digo, minha querida tia! perdoa-me... Porque não há razão nenhuma, porque eu não sinto o menor movimento de alma, nem conheço qualquer forte fundamento exterior que me leve a prender-me ao torrão onde acidentalmente nasci.

—Deves querer mais do que tudo à tua pátria—severo reprimendou Jorge.

—Lá vem, lá vem o consagrado chavão! a linda e convencional mentira!—pronto a viúva contestou num alto desdêm burlão; e a seguir, fransindo o nariz, doutoralmente:—Isso de pátria é uma antiga invenção dos ambiciosos e dos déspotas, para por meio dela escravizarem ainda mais a récua desprezível dos humildes; para fazê-los pelo coração tributários dos seus domínios, e cegos no deslumbramento dessa patranha sublime, jungi-los e arrastá-los então irracionalmente, como máquinas, no carro devastador das suas conquistas, aos grandes actos de heroísmo colectivo e anónimo, à abnegação, à intrepidez, ao sacrifício, à morte. Sempre assim foi... Neste ponto a estratégia dos grandes mandões é invariável assim como a passiva estupidez dos que lhes obedecem é infinita.

—Estás-te excedendo, filha!—atalhou com sincera indignação D. Toríbio.—Nem pareces argentina!

—Não sei o que pareço, nem me importa! O que eu sei, o que eu sinto muito bem, é que a noção de pátria é uma concepção tacanha e absurda. Os mais, num blóco unânime, protestavam; e ela, com vivacidade persuadente:—Pois se a terra, na origem, na essência e no destino, é tôda igual! Então os senhores não vêem que tudo quanto há de perdurável e transcendente neste mundo, as grandes invenções, os grandes ideais, os grandes sentimentos, são de carácter universal? Pois não é certo, que para que uma obra da literatura ou da arte alcance a consagração eterna, ela há-de romper o âmbito estreito do regionalismo e alar-se à objetivação sintética de algum dos grandes movimentos comuns a tôda a humanidade?

—Diz muito bem, minha senhora!—apoiou com irónica veemência o pequenino e glabro Belisário.—A pátria de cada um é onde melhor se encontre e melhor possa governar a vida.—E logo, com um ar ligeiro e brincão, a desfazer a chocante heresia do conceito:—Eu cá, por temperamento e por inclinação... seria turco.

A seguir, volveu a informar-se com mais detalhe das diversões que havia planeadas. Queria, em suma, saber o que a esperta inventiva de tam preclara gente havia concertado para colmar um pouco o tedioso vácuo da prosaica vida do campo. Falaram-lhe na projectada festa ao ombú; na benta iniciação da estancia: achou plebeu, pueril, ingénuo. Para o dia seguinte havia uma doma de potros, aguardada com impaciência pelo Silveira; porêm seguramente as senhoras não iriam. Maria Mercedes não se conformava, não podia suportar esse espectáculo, que ela reputava em extremo repugnante e bárbaro, bestial. Redondamente opunha-se. Belisário pediu licença para discordar,—pois, pelo contrário, essa primeira brusca e sábia investida do homem com o irracional era a mais linda lição de coragem, de inteligência, de destreza e de fôrça; era um belo torneio para cujo completo realce, como em Espanha nas toiradas, se tornava indispensável a presença e o aplauso da mulher, que é a suprema encarnação da beleza. E a poder de dulcerosas instâncias, de ardilosas lisonjas e vivas frases sugerentes, o meliante conseguiu o assinalado triunfo de conquistar a aquiescência difícil da viúva, a qual por fim, reptada a que declarasse formalmente se estava, ou não, disposta a acompanhá-los, prometeu que sim!

No dia seguinte, às primeiras horas da tarde, a alegre caravana em movimento. Houve que fazer uma longa hora de caminho, sob a pantalha de oiro do sol, delidos na rasa imensidão implacável da planura. Pela angosta e rudimentar carreteira, ou triturando aquela imensa alfombra verde, o auto seguia tombeando e oscilando, numa cautelosa marcha de incerteza, moderadamente, erguendo rolos de poeira ofegante, ladeado pelas donairosas figuras do Silveira e Jorge, que galopavam à estribeira. E agora alcançavam uma larga mancha de terreno pastoso e lamacento, onde, a um lado, se aglomerava uma encantadora mólhada de eqùídeos, bravos, garbosos, finos, com o ar surprêso e selvagem, a sua insofrida dispersão contida pelo disciplinário esfôrço de meia dúzia de gauchos montados, ásperos e duros de roda circulando. Um outro grupo interessante se notava, de bruta peonada, de chinerio nativo, de carripanas, cavaleiros, de rotos, mulheres e crianças, todos num empilhamento do interêsse contornando daquela arena de acaso o piso brando e revôlto, o vago e amplo recinto. Fóra, na lisa nudez da campina e a pequena distância, uma bôa fogueira ardia, chispando estabaredas. Preparava-se nesta improvisada cozinha rústica o clássico e delicioso acepipe de asado con cuero. À míngua de lenha, o fogo era alimentado por tôda a sorte de detritos orgânicos: destroços de mobília, fôlhas sêcas, farrapos, palha, ossos. Pelo espiralado intervalo entre duas línguas de lume apercebia-se uma caveira oblonga, na rubra ardência do braseiro luzindo a sua álgida alvura, macabramente. E naquele justo momento um vélho peão surdia, ajoujado ao pêso duma perna de cavalo, já em parte putrefeita, e que ao ser arrojada ao fogo, dêsse calcinado monte de impurezas fez erguer uma labareda de fumo gordo, negro e nauseante.

Na parte reservada do recinto, havia sido batida à pressa uma tôsca bancada de honra, destinada aos recêm-vindos. Mas dêste primitivo instrumento de relativa comodidade apenas Belisário e o vélho Saavedra se utilizaram. As senhoras preferiram manter-se furtadamente a distância, empalancadas no seu auto. Jorge e o Silveira haviam-se logo apeado, e acercaram-se ligeiros da manada. —E já agora a um sinal dado, um galhardo mocetão no mesmo sentido avança, e, despedindo certeiro o laço, colhe pelo pescoço e arrasta até meio do terreiro um dos pobres animais, que daí a instantes, enfurecido e trémulo de espanto, sente tambêm, por meio de novas voltas de laço, irremissivelmente presos em nós de cordas os quatro membros. Então, um simples esticão dado às prisões, sacudido e forte, rompe com o precário equilíbrio da vítima, que tomba em pêso sôbre o sólo, em risco de se lhe deslocarem as articulações ou partirem os ossos. E aí se precipitam logo sôbre o assombrado pôtro, que, louco de terror, se debate froixamente, quatro espertos matulões, a segurá-lo e a enleá-lo mais forte, por meio de consabidas travas, té que o imobilizam por completo. Outros lhe sucedem neste anacrónico e despiedado exercício, e que, ajoelhando e abatendo-se contra o indefeso quadrúpede, encapuzam-lhe a cabeça, passam-lhe o bridão e aplicam-lhe num momento a sela (el recado) cilhada déstramente. Já não há receio agora de que o abatido animal possa escapar-se; a complicada rêde de cordagens desembrulha-se, escorrega, afroixa e deslaça mansamente; e o pôtro pode, emfim, cego e aturdido, erguer-se, mal conseguindo firmar os pés naquele terreno falso e mole, adrede escolhido, e com as duas mãos, à cautela, tomadas ainda por uma última laçada. E quando o peão destinado a montá-lo intervêm, num pulo salta para a sela, a derradeira prisão desata-se, e êle aí larga a montada na sua frente a correr e a coucear desapoderadamente, colado e cingido com ela como um centauro, tendido o busto em flecha, os olhos em fogo, e incansável e duro o braço fazendo rodopiar o rebenque em círculos de ameaça. Flanqueiam-no, a enquadrar a corrida, dois outros cavaleiros brandindo tambêm chicotes. E os três aventuram-se nessa desenfreada carreira buzinando uma gritaria doida, descompostos em pragas, urros, vociferações, soltando uivos de bêstas-feras, que põem o pêlo em pé aos atónitos poldros da manada e que a rôta chusma dos assistentes acompanha, delirando, num concertante infernal, num alto côro selvagem. Corridas assim umas centenas de metros, o estupefacto cavalo estava cansado. Tolhido de assombro e de pavor, apequenava, submetia-se. E estacava a intervalos, colhido todo numa atitude de abandôno e doçura que tímidamente exteriorizava a sua veemente solicitação de, emfim, parar... Trazido então ao ponto de partida e renovada a brutal carreira, já êle pronta e resignadamente obedece, abdica da vontade e está rendido à discrição do algoz.

Entretanto o Silveira, que seguira êste bárbaro entremez com empolgador interêsse, movia-se nervosamente e dava rebarbativas mostras de impaciência, de desagrado, quáse de indignação, as quais pela estranheza alarmaram a atenção de Jorge. Aquele, porêm, rasgadamente explicou-lhe,—que achava excessivo, desnecessário, estúpido! Animais nobres e inteligentes como aqueles não se tratavam assim. Não podia ver semelhante coisa!— E enquanto o amigo, com um risinho azêdo, procurava aplacá-lo, foi o segundo pôtro trazido ao castigo. Este porêm, altaneiro e vibrátil, saíu mais rebelde: só ao cabo de quatro corridas se deu por vencido. Veio depois o terceiro, que teve que ser logo retirado da arena, porque, abatido sôbre o lôdo desastradamente, rompeu um quadril. O Silveira não teve mais mão em si. Avançou com decisão e reclamou alto que lhe permitissem domar êle o pôtro a seguir.— Havia uma outra maneira de fazer aquilo, mais suave, mais racional, mais humana. Iam ver!—De roda foi um espanto. Pela grossa corda do populacho passou uma oscilação de pasmo e de surprêsa; havia burdas interrogações em suspenso, esboçavam-se atitudes de achincalho, de desdêm, de irritante desafio, de malícia perversa, e a sua bronca expressão abria-se em risinhos alvarmente incrédulos. Belisário pôs-se de salto em pé. Pai Saavedra protestava, em repetidos gestos de negação, agitando com veemência os braços. Da apartada altura do seu reduto, D. Teresa impava ofegante, Célia e Maria Mercedes taparam o rosto com os leques, aflitivamente. Apenas Jorge, por um simpatismo viril, apoiou a atrevida solicitação do amigo.

E foi o bastante.—O quarto paciente veio então, e, em meio da ansiedade geral, os peões da manobra permaneciam quietos e a distância, esperando instruções, de olhos fitos no Silveira, o qual lhes ordenou que, mantendo por enquanto o prisioneiro enlaçado, apenas, mais, lhe prendessem as mãos. A seguir, êle mesmo se acercou e investiu, entre duro e afável, com o animal, que todo ruflando de temor, assombrado e arisco, reagia a patadas. Ágil e precavido, porêm, o Silveira furtava-se a tempo e logo voltava, numa polarização empolgante de todo o seu ser, a defrontar-se com êsse trecho vivo de natureza em bruto; olhava-o firme, rodeava-o e cingia-o, déstro, incansável, ameaçando, bradando, rojando-se, saltitando; envolvia-o num mágico círculo de dominadora astúcia, ora atraíndo-o por interjeições familiares, ora de escape afagando-lhe o pescoço, ora tocando-lhe a garupa com o chicote levemente. Feito assim um pouco o conhecimento com a sua indómita montada, foi êle ainda quem lhe vendou os olhos, o enfreou e lhe atirou pronto a sela para sôbre os rins, afivelada num relance. Novos afagos agora, mais permitidos, mais claros, mais seguros; em seguida faz sinal à peonada que solte as prisões; e num intrépido salto ei-lo arçonado sólidamente contra o espavorido dôrso do animal em fúria. Há então uns breves, absorventes minutos de ansiedade e de luta: é a consumada maestria, a serenidade, a destreza, a forte musculatura e a vontade indomável do cavaleiro, em decisivo duelo com o desordenado furor do ginete, que, sob a pressão exasperante daquela formidável tenalha de aço, se dispersa em esforços inúteis, encabrita-se, escouceia, escarva, atira upas, sacode a espinha, curveteia, bufa, geme e tressua, inelutávelmente. Depois, quando o Silveira teve o seu domínio eqùestre por assegurado, despediu tambêm o pôtro a galope, mas não cega e irracionalmente, como os dois anteriores, antes forçando-o a seguir, no mesmo andamento sempre, em dadas direcções, manejando-o e dominando-o a seu bel-prazer, obrigando-o até ao cansaço... e assim conseguindo por fim trazê-lo a fazer o vitorioso circuìto do terreiro, ante a estarrecida imobilidade da assistência. Então, tranqùilamente, apeou-se e abandonou as rédeas ao cavalo, que, sem o mínimo assômo já de emancipação ou de revolta, pelo contrário, deu em seguir espontâneamente na esteira do seu hábil domador, manso e humilde como um podengo, os flancos molhados, estirado e murcho o pescoço, e o focinho arquejante a acariciar-lhe a espalda, que ia deixando mosqueada de baba sanguinolenta.

A tôda a volta estrondeou uma tropeada de aplausos delirantes, que o Silveira, altaneiro e frio,—e enquanto, tirado o chambergo, enxugava o suor,—agradeceu escassamente. Correu a abraçá-lo com admirativa efusão o reduzido grupo dos amigos. E, como lídimo arauto da multidão, um veterano gaucho se adiantou gravemente, batendo os esporões farfalhantes, de rosetas como sóis, e depois duma rotunda saùdação estendeu-lhe com solenidade aos pés o poncho, por esta rústica homenagem fiel intérprete da consagração indígena ao seu triunfo. Neste fremente e alto côro apoteótico Maria Mercedes sómente fez excepção. Quando, na quente raçaga ainda das últimas ovações, o Silveira demandava com ingénuo alvorôço o seu aplauso, ela acolheu-o com reserva e festejou-o parcamente; e insensível a tanto prestígio, num deliberado propósito de afastamento, de frialdade, de indiferença, todo o resto da tarde, depois, e ainda ao jantar, e pela noite adiante, foi para o burlado vencedor, de poucas horas antes, dum cerimonioso alheamento e duma secatura implacável, naquele seu ar distraído e enfadado mantendo-o a inexorável distância... Ao passo que, com uma coquetuela vulgar, se desentranhava em atenções, galanteios, donaires, mímicas de sedução e adoráveis preferências para com o atónito Belisário, que, exultante e feliz, na inverosímil radiação do seu espanto, tinha a préga lívida das pálpebras aquecida por um riso desvanecido e amiúde passava ufano pela calva precoce os dedos trémulos.

 

Na breve e jocunda sucessão dos dias, depois, foi preocupação dominante a preparação dêsse festivo programa para o baptismo religioso da estancia. Maria Mercedes era a incontestada Egéria do movimento. Tomada de iluminado e impressivo entusiasmo pela realização da sua grande idéa simbólica, tudo ela ardida e metódicamente concertava, planizava, distribuía, tudo ordenava e impunha, no inflexível dogmatismo derivante do seu prestígio, com uma impetuosa tenacidade que fazia o seu próprio espanto e era o acendrado regosijo do séquito amigo. Invariávelmente ela agora, com uma pontualidade burocrática, logo às primeiras horas da manhã descia ao seu escritório de ocasião, instalado na biblioteca, e aí, mais ou menos, trabalhava indefêssamente o dia inteiro. Sob a sua imediata inspiração, em grandes fôlhas de cartolina, Belisário riscava escalas, fazia alçados, córtes, projecções, esquissava planos. De funções mais modestas, o Silveira secretariava, anotava o rol das despesas, expedia as requisições, fazia a correspondência. Jorge comunicava as ordens e distribuía o serviço directamente pela famulagem, e era a pessoa indigitada para trasladar-se à capital, dada a hipótese de alguma missão de confiança. Por sua banda pai Saavedra, atenta a relativa invalidez própria da idade, e bem assim a mulher e a filha, tinham a incumbência de fazer da estranha e inusitada festa, pelo bronco populacho dos arredores, uma elucidativa e suave propaganda. E ao auspicioso gesto e sob o alado impulso dessa fada irresistível, todos trabalhavam com ardor, acêrto, decisão e entusiasmo igual. E era de ver como esta imprevista intromissão de trabalho ligeiro e jovial na grossa labuta habitual da estancia, longe de destoar, por inecessária e fútil, em vez de lhe trazer qualquer ralento dispersivo, antes ao contrário com ela se enquadrava idealmente, e como que insuflava um protector alento de consagração espiritual a todo êsse utilitário e rasteiro desparramar de produção e de vida.

Ficou assente que, na manhã do santo dia aprazado,—um domingo, —se procederia à bênção da imagem votiva da Virgem, padroeira futura da estancia; pela tarde seria a sua condução processional té ao estilisado nicho erguido ao abrigo da umbela majestosa do venerando ombú; à noite, iluminações, fogos de artifício, arraial e grande concurso cosmopolita de canções e danças populares, com prémios em dinheiro, instrumentos agrícolas, registo, verónicas, viandas e guloseimas. A primeira notícia da sagração da estancia tropeçou naturalmente num ambiente hostil, quando começou de circular pela redondeza. Contra a sua realização o cego rotineirismo e os atávicos preconceitos dos naturais ergueram-se em alvorôço, por um supersticioso alarme sacudidos no seu torpôr de séculos.— Que peregrina idéa era esta agora de trazer santos de igreja p'r'ali? e pô-los, p'ra mais, ao abrigo dessa odiosa árvore de desgraça e de ruína? Era uma heresia, um absurdo, um desafio sacrílego ao Céu. Podia redundar em azar p'ra todo o campo em roda... Era uma iniqùidade mais dêsses abominados senhores do vélho tempo, que não podendo já privá-los da liberdade, vinham afrontosos a derrumbar-lhes as crenças. Seria uma calamidade.—Era assim como às tardes pelas pulperias, nas recolhidas horas da sésta, à roda vinolenta do balcão e de mesa para mesa, de grupo para grupo cortando a cada instante o giro vago da conversa, chispavam vivas e inflamadas, quáse unânimes, as frases de acre censura, os votos de protesto, os conclamas de revolta. E tambêm pela calada cúmplice da noite, no ignorado mistério de alguma tapera distante, maus elementos campesinos havia que, incitados pelos raros montoneros e churriadores, corriam a reùnir-se em clandestinas conspiratas, e ferozes e estúpidos, o pulso peludo apertando o machete vingador, aí tramavam desforços violentos, represálias subversivas; por fim, concordes em que uma solução radical seria assaltarem de golpe o jardim da estancia e abater pela raíz, destroçar, fazer em fanicos o fatídico e arrogante ombú... redonda, rasamente.

À medida porêm que, na estancia metamorfoseada como por encanto, as linhas ornamentais se erguiam e no ar doirado se debuxava o anúncio jovial da próxima festa, paralelamente, todo aquele fermento de rebelião latente se apagava e se sumia. Vinham os bravios conspiradores da véspera, e, ante a evidência promissora do facto, grado a grado capitulavam, imobilizados primeiro numa paspalhice alvar, curiosos e interessados a seguir, e por fim levados de vencida nessa onda estonteante de alegria. A realidade sugerente do prazer tinha nas suas almas rudimentares e famintas maior efeito que a catequese teórica dos Saavedras. O certo foi que, por virtude do capricho inventivo de Maria Mercedes, a patriarcal estancia agora perdera todo o seu ordenado e pacato aspecto antigo. A cada momento ali um afadigado enxame de obreiros voluteava incessante, não só fóra, pelas imediações, formigando em manchas de atento e aplicado ardor, como tambêm, do gradeado a dentro, pisoteando os tenros canteiros do jardim, revolvendo do patio a lisa areia, invadindo os quartos, encostando escadas, verrumando, parafusando, martelando, encavalados pelas paredes, debruçados da azotea. Esta sua dispersiva ânsia de movimento a cada passo era cortada pelo pejamento inerte duma abundante farfalha industrial: tubagens, cordas, arames, pás, alviões, pêras eléctricas, chumbo em blóco, ferros em brasa, metais luzentes, destroçadas rumas de barricas e caixas de lata estripadas. Sobrelevando aos prosaicos ruídos habituais do recinto, de tôda esta batida sonora soltava-se o ritmo sadio e folgazão dum como cântico de vitória. E do mesmo passo a mãe-terra aparecia tôda fendida e revôlta, cortada em tôdas as direcções por uma anastomose de sulcos ridentes e húmidos, aberta com prodigalidade em ruturas serpeantes,—o que fazia o infantil regalo de Dorita, todo o dia rojada sôbre a frescura plástica do sólo, embodegada e suja, a «fazer casitas».

Para a limpa execução dêsse trabalho delicado e novo, tinham vindo da cidade carpinteiros, sambladores, polidores, torneiros, electricistas. E a favor do tempo se foi a garrida e abundante decoração gradualmente definindo.—Uma cerrada fieira de lâmpadas contornava nas suas linhas essenciais a arquitectura sóbria da residência, correndo em dupla fita ao longo da cornija, cingida aos relevos terminais do hangar, marinhando em hélice pelas colunas. Uma espelhada cinta idêntica de vidros coloridos rodeava por inteiro o gradeamento alto do jardim, e pelo interior dêste, depois, em caprichosa profusão seguia a circuìtar e a derramar-se em lacetes numerosos, riscando troncos de árvores, desenhando globos, estrêlas, rendados, franjas, vestindo e pintalgando o ripado fresco dessoutra floresta de gongóricas pirâmides que em farta sementeira se escalonavam pelo recinto. Havia mais, ali, de árvore para árvore, de poste para poste lançados com elegância, grossos festões de buxo e sanefas berrantes de papel de côr; e na inefável palpitação do ar batia uma alacre trepidação, compacta e esplendente, de emblemas religiosos, de laços, flores, pompons e bandeiras. Fóra, pela intérmina expansão do campo, alinhavam-se extensas fiadas de tarimas tôscas, feitas em madeira clara e resinosa, adrede improvisadas para que à epicúrea onda da multidão elas pudéssem ser, cumulativamente, fácil estendal para a comida e cómoda estância de repouso. E no ponto culminante, ao alto, protegida pela enramalhada concha, tôda em torcicólos gigantes, dessa atormentada árvore secular, já nos últimos dias luzia suas inéditas galas um lindo nicho baldaquinado, em equilíbrio sôbre um alto lenho prismático, tombado ligeiramente, à moda veneziana, e entalhado em duro roble, com porta de cristal e um rico lampadário de bronze à frente suspenso.

Esse aprazado domingo amanheceu, por sorte, um encanto. No azul puro e diáfano do céu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma alvorada de bênçãos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que, algarreira e abundante, a multidão começou afluíndo, todos em salteiros grupos endomingados,—con sus trapitos de cristianar,—fundidos no guloso ímpeto do mesmo apetite místico e folião, porêm distanciados pelo traço diorâmico dos costumes e pelo desenho ideal das crenças. Vinham em alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns após outros vitoriando, cantando e dançando, como se nesse dia de glória a amplidão ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra cosmopolita, realçada em matizes de tôdas as latitudes, de todos os países, de tôdas as religiões, de tôdas as raças. Assim decorreram entre festivas e ingénuas pompas as anunciadas cerimónias do dia, cingidas no atropelado abraço de tôda essa grossa onde espectante. A bênção comovedora da Santa e a sua processional trasladação, depois, àquele improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias de movimento e de côr, e duas tocantes demonstrações de lisa fé e piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminação da festa estava porêm reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando, faíscando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, começaram de acender de roda a sua aleluia policróma. Um outro dia apontava agora, suave e discreto, não cortado já na prosaica nitidez das evidenciadoras flamas do astro-rei, porêm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de minúsculos sóis arredondado em claridades de sonho, sôlto e ideal campo aberto, agora, às fugas da imaginação, aos arroubos do amor e aos vôos da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa estonteadora profusão de lumes caprichosos, que definem linhas arquitecturais, que festoam silhuetas de árvores, que espirram para o espaço, que da relva rompem ou no ar se baloiçam em largas figurações de fantasia, e em que o uso das novas lâmpadas de fio metálico multiculôr dá motivo às mais deliciosas projecções de côr, às nuanças mais fantásticas e imprevistas. E por sôbre tôda essa orquestração lampejante é ainda e sempre a carcassa mégaloide do vélho ombú que mais destaca e mais realça, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoçado agora e como que ufano do seu destino, iluminando afável e protector a passividade muda do deserto,—o polipo colossal das raízes, que poderosas esgarçam a terra, mosqueado de tijelinhas de côr, como tentáculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo bracejar da ramaria o múltiplo rosário das lâmpadas pingendo, facetadas, límpidas, fulgurantes como lágrimas de alegria.

Entretanto pela ampla e redonda extensão que êste luaceiro de festa abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia, amontoava-se... o vago marulho da sua agitação fanfurriava em ritmos bárbaros, vibrava em cânticos, era avivado em singelas dolências pela sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a estralada esfusiante dos fogos de artifício, à flor dêsse revôlto mar, reverberava então cá em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a floresta alvar das suas cabeças em delírio.—Fazia aprazívelmente o Silveira o interessado circuìto do recinto, quando súbito, na compacta maré montante de figuras que do exterior vinham ávidas colar-se à grade do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido. Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Luísa, a linda e fresca morenita, que na sua adorável rusticidade ali viera poisar, e que enlevada e imóvel, por um alheamento de indizível beatitude os sentidos presos e a atenção suspensa, no perfil garboso e enérgico do seu bravo defensor cravava encantada os grandes olhos negros.

Então o Silveira, entre lisonjeado e surprêso, com uma doçura cantante na expressão aproximou-se.

—Ó Luísa! A minha querida amiguita tambêm por aqui?... Como vais tu?

Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou:

—Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?

Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude retraída e humilde.

—Anda!—carinhoso e afável o Silveira insistiu.—Não queres comer?... não vens dançar?

Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia contemplativa, sem romper o seu mutismo.

—P'ra que vieste então?

Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:

—Para verlo...

O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.

E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados que insofrida se achava a postos, começou montando a ladeira suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao estrado posto a meio da galeria,—ante a mirada crítica de Maria Mercedes, tôda de branco,—e seguindo num grosso e infindável coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido fresco pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o tango, êsse gracioso hino da lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras vidalitas, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a seguir, os tristes, lembrando os nossos fados, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do mistério, da solidão, do infinito; as jotas e sevillanas no seu saracotear febricitante, a tarantela no seu académico balanceio, o trepák no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto gato, o mesurado pericón; as baturras, soleares, farandolas, chulas, fandangos... e quantos mais.—Durante horas seguidas, assim na calma benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a rabejar pelos caminhos.