Amor Crioulo

Abel Botelho · Capítulo 4 de 12

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Amor Crioulo

Capítulo IV

 

Com a atenção dispersa e a alma prendida nesta viva e inédita sucessão de impressões, dos últimos dias, o Silveira esquecera fácilmente os seus humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essência, de palpar mais de perto, os sentimentos, opiniões, tristezas, projectos, angústias, condições e desígnios daquela corda fruste dos seus presumíveis correligionários, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado, promíscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento sórdido da desgraça. Agora, porêm, o vago amadornamento em que a temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqùilas solicitações que à batida brava dos vários jogos e diversões naturalmente se seguiam, déram azo a que na alma dolente do Silveira a imagem saùdosa da Pátria esfumadamente esvoaçasse, e, junto, a sacudisse o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmãos seus, atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traiçoeiro baloiço da Fortuna.

Por isso, numa linda manhã serena e cálida, logo a seguir ao lunch, ei-lo que transpõe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se aventura curioso pela suja e triste coberta da prôa.—O mesmo mesquinho e sórdido espectáculo de sempre. No seu passivo abandôno às ignotas flutuações do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da Dôr ia e vinha, anudava-se e distribuía-se em formações de acaso, era como um grosso formigueiro humano, incansávelmente montando e sumindo-se pelo negro óculo que dava ao porão, cavado a um canto, fundo e insondável como um abismo.—Porêm a inesperada aparição do Silveira causou ali geral estranheza. A descida dêste importante, dêste flamante e feliz desconhecido, té as patentes e repulsivas angústias daquela densa colónia eventual do infortúnio, fazia que as suas desprotegidas camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,—uns por uma vaga e hostil desconfiança, outros como que pelo pejo da própria miséria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e afável, nos forçados torcicólos a que o obrigava o atravancamento pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo, atento, os cortados trechos do diálogo, com o olhar mirando fito o desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo das atenções, no íntimo contente. Até que, por fim, se acercou familiarmente dum reduzido círculo de rudes gentes do campo, quáse todos de pés nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes, pela expressão, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingénuo. Eram patrícios seus, com efeito. E êle então, protector, insinuante:—Que era tambêm português e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhecê-los... E àqueles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em vê-los e servi-los por lá...

—Agardecido, muito agardecido, senhor!—balbuciou, de lábios confusos, um meio ancião vestido de saragoça, rapado e calvo, descobrindo-se.

Dulcerosamente o Silveira completou:

—Em fazer-lhes todo o bem que possa.

—Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!—exclamou, com a voz molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de fólhos, cabeção de morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face enrugada e curtida. E num cotovelão entusiasta ao companheiro:—Ouviste?

Êste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma banana:

—Não faltará ocasião.

Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou:

—Vêem então procurar fortuna?

—Se aquilo por lá está tam mau... senhor!

—Então?—o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:—É o que vocês ganharam com a rèpública.

—Eu cá nisso, senhor, não sei falar...

—Êle a coisa já lá vinha detrás...—aqui se permitiu arteiro observar, adiantando-se um rapagão amplo e forte, de calça de bombasina, camisola e grande chapéu cinzento, enquanto raspava um fósforo no quadril, para acender o cachimbo.

O Silveira teve uma azêda, imperceptível contracção dos labios.

—Parece-te?

—Sim, que isto é com'o outro que diz...—retrucou, sempre no mesmo ar intencional e altivo, o marmanjão.—Com rei ou com roque, nós cá, os pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama.

E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaças do tabaco ardendo.

O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silêncio; mas logo, dominando-se:

—Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me todos muito. Já vêem que vim de propósito para conhecê-los.—E num refinamento interesseiro da sua amável solicitude:—Qual de vocemecês é o que canta tam bem o fado? Houve de roda uma vibração unânime de envaidecimento alegre.

—O guitarrista? Ah, isso há-de ser ali assim o Matias gingão.

—Matias! ó Matias!

—Adrega aqui, demónio!

Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum outro grupo, de pernas cruzadas, no chão, estava vendo jogar as cartas; e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa, rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade, indeciso, e veio por fim avançando, a cabeça nua, arremangado, descalço, derreado e inerte, preguiçosamente.

Acolheu-o o Silveira numa efusiva expansão de agrado, ameigando a voz, erguendo os braços.

—Ora viva lá! meu caro Matias.

—Em bem o diga e bem lhe vá tambêm, senhor,—murmurou com humildade o recêm-vindo.

—Algarvio?

—De Fornos de Algodres, fidalgo.

—E p'ra onde se dirige vocemecê? Argentina ou Brasil?

—Com sua licença, vou-me até à Argentina, senhor.

—Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons amigos.—E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias, batendo-lhe afável no ombro:—Eu queria —Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons amigos.—E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias, batendo-lhe afável no ombro:—Eu queria felicitá-lo pela sua rica voz, por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma intenção, com uma expressão, com um mimo e uma fé que querem dizer muito...

—Nada, senhor.

—Ora! não me diga você que as não escolhe, que não exprime nelas o seu verdadeiro, o seu íntimo sentir...

Mas simplóriamente o Matias, de braços pendentes, como um môno, encolhendo os ombros:

—Eu não sinto coisa nenhuma.

—Então, aquela piada ao Afonso Costa, na outra noite?

—Sei lá! Aquilo é uma moda que anda lá na minha terra. Que seja essa ou que seja outra, que minga faz?

O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelão de contrariedade. Os demais sorriam.

—O quê!? pois, verdade, você não liga maior sentido aos versos? não é contrário à rèpública?

—Ó fidalgo, é que a minha pobre guitarra está um chanfalho vélho, e eu mesmamente de políticas nada entendo...—E, estimulado pela olhada atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com firmeza:—E é como está certo, sim! Que essa gente graúda, com o devido respeito, faz tam pouco caso de nós, que ainda o menos que nós podemos fazer é pagar-lhe na mesma moeda.

Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar imperioso e intranqùilo, uma simpatia, uma adesão, um qualquer desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmações, tam longe da sua espectativa como fóra do seu desejo; e como fixasse com particular insistência um aldeão alto, espadaúdo e sêco, logo êste, singelamente, o destroçado chapéu de palha girando na concha das mãos calosas:

—Eu cá, meu senhor, a minha política é ver se alcanço a juntar uns cobres com que possa depois viver tranqùilo no meu torrãosinho, mal'a mulher e os filhos. E já que me não fui à África, malhar nos pretos, resolvi deitar té ao Brasil, em cata da famosa árvore das patacas. O que a sorte quiser...

—Quere então dizer que tambêm você se conforma com essa usurpação tôrpe da rèpública?

—Se ela está, já agora deixá-la estar.

No íntimo vèxado por mais êste desengano, renitia entretanto o Silveira na sua raivosa inquirição.—E você?... E tu?... E tu que dizes?—Todos se fechavam porêm no seu invariável obstinamento humilde; e foi ainda o mocetão do cachimbo quem pôs termo ao inquérito, sentenciando implicativamente:

—Está muito bem! O que é que se ganha agora com mudanças?

E atirava, arrogante, o chapéu para a nuca, as narinas e os lábios fumarando num regalo.

—Súcia de palermas!—não se pôde o Silveira conter que não exclamasse, na insofrida explosão do seu despeito.—Por isso haveis de ser sempre os eternamente explorados.—Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o bigode, coçou a nuca; e depois, conciliadoramente:—Mas, em suma, não vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de tudo.—Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo gesto altaneiro, ao grupo:—Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os olhos.

E desandou bruscamente, perante a indiferença burlona da assistência.

Daí a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espêssas poltronas do Social Hall, ruminava em desalento êste propagandista infeliz o imprevisto e burlesco insucesso do seu inquérito, quando se lhe dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o andavam buscando. Tinha que descer com êles à peluqueria, a escolherem as prendas para os prémios ganhos nos diferentes jogos, e cuja distribuìção solene estava marcada para antes do grande Concêrto final, naquela noite. Era uma diversão a propósito, à quebrantada pressão do seu desânimo. Não se fez rogar; e aí descem os três a internar-se na cabine inimaginável do barbeiro de bordo,—um cubículo acanhado e abafadiço, batido àquela hora ardente pelo sol, com duas exíguas lucarnas apenas sôbre o mar, e que alêm do mobiliário e utensílios indispensáveis ao completo exercício da profissão, era todo riscado em prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de lés a lés, tomado de alto a baixo, por uma aluvião inverosímil de tôda a sorte de pequenos artigos para negócio, desde as jóias, as mil luxuosas bugigangas de perfumaria e toilette, até às peças mais comuns de vestuário e adôrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infantís. Havia espaço para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que realizava um paradoxal desmentido à impenetrabilidade da matéria. Uma temperatura de fogo e um arranjo de casa de prego.

A bonachona espôsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o mestre-barbeiro,—um francês ruivo e claro como um cacho da Champagne,—a saltitar vivo e ligeiro em tôrno dela, pedindo indicações, apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbável senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava gentilmente o parecer dos seus três colegas, que se limitavam a baixar num assentimento cortês a cabeça. Então, logo o esperto figaro apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu carnet e passava a impingir outro artigo. E assim monótona, infindável, secante se foi prolongando a tarefa, êste duelo picante de aplicação ferido entre a esperta indústria do barbeiro e a solicitude impávida da condessa, insensível ao calor, refractária à impaciência. Não assim o Silveira, que enjaulado naquela inacção e enervado pela temperatura asfixiante, mudava de posição a cada momento, tressuava, sentia tonturas, e ia buscar a incidência mais favorável do ventilador ou abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se íntimamente por ter vindo. E neste abrasador suplício passou uma hora que lhe pareceu um século.

Por fim, à noite, realizou-se no Social Hall a solene distribuìção dos prémios, rodeada dum cerimonial quáse diria litúrgico, atenta a dignidade, a seriedade, a compostura, a tenue escrupulosa e as compenetradas atitudes por todos ali invariávelmente mantidas, desde as primeiras às ultimas figuras. O mostruário faíscante das prendas pompeava as suas gulosas tentações esparso em abundância sôbre uma grande mesa, colgada de veludo-cereja, no tôpo do salão, sôbre um estrado; à roda, exibia-se o grupo esfíngico dos membros do Committee, de frac e laço branco, e a condessa de Horrowby, em grande toilette, sentados todos gravemente. Posto em pé o conde de Horrowby e feito um grande silêncio, êle então, arqueando numa atenta reverence o peitilho reluzente, mordiscou por entre dentes for the select assembly um pequeno speech, quáse inaudível,—dobrado e pregado sempre no mesmo ademân cortês, inexpressivo e imóvel, os braços longos e hirtos, de punhos sôbre a mesa. A seguir, sentou-se, e simultâneamente, como que impelidos pela mesma mola, erguiam-se a condessa e o capitão Stayton; passando êste a chamar em voz alta os premiados, cada um dos quais, em traje de cerimonia tambem, avançava, franqueava em respeito o majestático recinto do estrado, colhia das palmoiras enormes da condessa a bugiaria que lhe fôra destinada, e retirava mudo e feliz, num vago atordoamento de prazer, ante as palmas convencionais e os hurrahs complacentes da assistência.

Seguiu-se o concêrto, cujo programa houvera, em bôa verdade, um certo embaraço para organizar. Não abundavam a bordo os virtuosi nem os amadores, tornando-se assim deveras árduo o problema de reùnir e combinar alguns números mais, alêm do chirroteio mercenário da orquestra. Prestou o Silveira na apertada emergência um assinalado serviço, pois conseguiu o concurso difícil das meninas Wimeyer, que condescenderam graciosamente em exibir-se, por uma atenção muito especial para com êle, executando Dolores ao violino uma melodia de Schumann, acompanhada ao piano pela irmã. Por isso lhes couberam a bem dizer as honras da noite; assim como ao Alvarez, que recitou uma desgrenhada elegia sentimental,—Corações famintos,—composta, informava o Programa, expressamente para aquela noite; e tambêm a um vélho inglês, todo branco, de olhar menineiro e afável, que se distinguiu improvisando um humorístico monólogo todo obrigado a contracções faciais, trocadilhos ingénuos e risíveis infantilidades, com que os seus conacionais gozaram imensamente.

O God save the King, pela orquestra, e por tôda a sala, de pé, escutado religiosamente, pôs o termo de rigor a esta escovada tertúlia da noite.

E foi a última diversão do Programa de festas. No dia seguinte ia começar o progressivo êxodo dos passageiros, atingida como seria então a costa das primeiras terras do Brasil. Foi, primeiro, Pernambuco,—a lucilante Veneza tropical,—luminosa e tranqùila emergindo, como uma evocação de balada, da brava fúria impotente das ondas, incansavelmente erguidas, roladas e desfeitas contra a ruiva muralha irredutível dos seus recifes; e prolongada depois suavemente, para léste, por uma fresca, macia e tenuíssima restinga de terra que pelo mar fóra se estirava indefinidamente em ponta, como uma imensa piroga verde, empenachada pela umbela grácil das palmeiras, salpicadas de chacaritas brancas. Foi, trinta horas depois, a esbelta Baía,—o vélho empório tradicional do tempo das lusas descobertas,—reclinada molemente sôbre uma luxuriante alfombra de mato e flores, esmagada de tôrres, pletórica de igrejas, e àquela hora matinal batida e incendiada em cheio pela carícia gloriosa do sol nascente. Tôda a clara cidade assim palpitava, fulgurava, ardia numa crepitação paroxísmica de côr que emprestava a êsse quente deslumbramento panorâmico o mais antitético relêvo, na crua passagem do verde espêsso e sombrio dos ásperos taludes, a seus pés tendidos, para a policromía bárbara dos trajes da multidão formigando ao longo dos cais e para as tintas berrantes saltando, ladeira acima, no anfiteatro loução da casaria.

Dois dias depois,—justo em terça-feira gorda,—já devia o Almeria lançar ferro na incomparável baía do Guanabara. Era um dos grandes acontecimentos da viagem. Reganhára agora uma inquiritiva animação a vida de bordo, onde todos mais ou menos expressivamente manifestam o seu interêsse, todos aguardavam com vivacidade crescente o recorte feérico e deslumbrante, na linha molhada do horizonte, dessa esplendorosa, dessa surpreendente e colossal orquestração de luz, de côr, de exuberância e de relêvo, que era Rio de Janeiro, a maravilha do mundo. Os nacionais tinham um legítimo sentimento de vaidade, os estranhos nutriam uma não menos legítima sofreguidão do inédito.

Entre os mais interessados e inquietos, era de notar a vibrante impaciência do joven Mackenna. Porêm certo que não era própriamente a antecipada visionação das pinturescas maravilhas do Rio que num alvorôço idealista lhe sacudia os nervos de artista; uma outra oculta determinante havia, mais prosaica, mais animal, a acender-lhe no olhar e a fazer-lhe correr nos gestos esta sôfrega palpitação de todo o seu ser, irrequieto e ávido. É que precisamente no Rio de Janeiro a formosa e esquiva me M. d'Ellery ia desembarcar; iam os dois ali separar-se, talvez para sempre, neste limite fatal posto ao seu ameno convívio; e assim êle tinha forçosamente que precipitar a solução ao seu assédio galante, nesse apertado prazo de dois dias. Com uma assiduidade, uma persistência incansável, com um calor por vezes audaz, nos últimos tempos o jactancioso galã fôra apertando gradualmente o seu amavioso cêrco, e segundo as mais ostensivas indicações, com o melhor êxito; porêm não obtivera ainda a rendição definitiva. Ao mesmo tempo, acontecia que o seu feitio demonstrativo e pomposo fizera com que êste singelo episódio de cortesanía banal désse bastante nas vistas. Havia um pequeno grupo de besbelhoteiros trocistas que o espiavam; e os mais íntimos a cada momento lhe disparavam chistes, o estimulavam com depreciativas alusões, celebravam antecipadamente o seu fracasso, assediavam-no de burlas molestas e sátiras importunas. Não havia pois um minuto a perder. Na prova, ruidosa e fulminante, do seu triunfo estavam igualmente empenhados a linha do seu amor-próprio e o fogo do seu desejo.

Foi o motivo pelo qual, na noite dêste domingo, o Mackenna impôs um implacável bloqueio sentimental aos domínios afectivos da francesa. Havia no convés de bombordo o costumado baile semanal; e o meliante tôda a noite dançou com ela, e nos intervalos levava-a ao bar, a beber, e insinuava-lhe coisas cálidas e perversas, despedia-lhe frases imperativas, aventurava proposições equívocas, a tudo o que a ladina respondia com sorrisos que eram incitamentos, com evasivas que eram provocações, com abandonos que eram capitulações, com estremecimentos que eram promessas. Mas nada de lhe conceder a aquiescência nítida, formal, a uma entrevista. Exasperado então, mas sempre optimista e fátuo, o Mackenna deliberou recorrer ao assalto. Seria o supremo recurso salvador. E filosofava convicto:—Serem tomadas à viva fôrça era, com efeito, o melhor prazer para estas taboletas avariadas duma menos que problemática virtude. Era o que aquela bêbeda queria... Era o mais seguro caminho. Mas tomá-la de surprêsa, com êxito, como?... Naquele meio acanhado e bulhento, sem a tácita anuência dela, era difícil. Só se fôsse de manhã... O derrancado Sganarello levantava-se tarde; os seus pêrros movimentos de tabético e a indolência filha do tédio retinham-no de ordinário na cabine, até muito por êsse dia dentro; por êste lado estava seguro. Se êle então, nessa propícia hora matutina, pudésse surpreender Helena! mas surpreendê-la bem de-veras, apanhá-la de improviso, em condições morais e materiais de não poder oferecer-lhe maior resistência...—Inflamado, enardecido, espremia a inventiva, planizava, rebuscava. E súbito, batendo na testa, com um relâmpago genial na noite ardente dos grandes olhos negros:—Ah, aí está! No banho...—Passou imediatamente ao deck da sua imaginada vítima; abordou com discreção o steward, cuja cumplicidade concluiu por obter a trôco duma bôa gorgeta; e recolhendo depois à cabine, todo o resto da noite levou embalado, aquecido na regalada antevisão do saboroso triunfo que para êle seguramente ia marcar o delicioso alvorecer do dia seguinte.

Na primeira manhã ei-lo logo a pé, lésto e pimpante, procedendo às habituais abluções, fazendo uma toilette minuciosa. Depois, mansamente, deixou a cabine e escoou-se para o corredor, tendo vestido um garrido pijama todo em borlas, alamares e viézes de sêda, a cabeça nua e a perfumada melena ondeando. Sem perda de tempo estava em cima, no deck de Helena, e aventurava-se afoito ao recinto dos banhos destinados ás senhoras. Aí trocou um breve e furtivo olhar com o steward, que lhe fez um sinal afirmativo de cabeça; avançou ágil uns passos, relanceou em tôrno os olhos cautos, e tendo-se certificado de que ninguêm passava cêrca, arpoou o botão duma determinada porta com os dedos trémulos, entreabriu-a... e ia entrar de salto, quando de dentro estrugiu um grito de pavor, um argênteo e agudo grito feminino, ao passo que de dentro tambêm, acudia súbita e inesperadamente, ante a mirada atónita do Mackenna, o sobrecenho grave e a mão rosada do Mafiori, a cerrar a porta.

Foi a bordo um pequenino escândalo. Apesar da sua relativa presteza e moderado ruído, esta scena picante não passou de todo despercebida. Ao partir para a sua donjuanêsca investida, não se deu conta o Mackenna de que dois dos seus alegres espias, atraídos por não sei que divinatório instinto, o foram seguindo. E êstes, naturalmente, da esquina do exíguo corredor, mal assomando as cabeças, haviam saboreado o burlesco fracasso da desastrada aventura; ao tempo que, simultâneamente, das portas dos banhos contíguos alguns interrogativos bustos surdiam tambêm, ao aflitivo alarme daquele agudo brado feminino. Nem uns nem outros alcançaram contudo divisar a ponderada silhueta do Mafiori, dentro da cabine,—o que teria sido para a sua curiosidade doentia o cúmulo do regalo. Mas haviam visto o bastante para a nítida compreensão do sucedido. De sorte que, daí a minutos, já a notícia do truanesco sucesso havia feito o giro alegre de bordo, com fulminante rapidez solicitada ávidamente, de grupo para grupo, e logo passada e acolhida em acres segredinhos, vivas chamadas e perversas reticências. E de bôca em bôca, êste singelo episódio ia tomando vulto, agrandava, complicava-se; por último, já afiançavam a vingadora intervenção do marido, falava-se em vias de facto. Daqui, uma notoriedade bem pouco invejável para o desabusado Mackenna, que arrastava agora pelos recantos mais escusos a sua vaidade amarfanhada, como um sátiro batido, e já não sabia por fim onde meter-se, certo como era que por tôda a parte um malicioso interêsse acolhia a sua aparição, logo farto sublinhada de bisbisoteios de risos, facécias e burletas. As mulheres olhavam-no com piedade indulgente, os homens com humilhante mordacidade, não isenta de inveja. E agora a leve e adoidada Pilarita, mais do que ninguêm intrigada e impaciente, querendo à fina fôrça saber lo que pasara, batia os pésitos e golpeava com os punhos a pequena mesa onde abancava o Alvarez, o qual se mantinha impenetrável, enquanto zombeteiro e veloz anotava o episódio nos seus inseparáveis linguados, desorbitado em trejeitos loucos.

Nesta divertida manhã, à hora do almôço, nem me M. d'Ellery baixou ao comedor, nem o Mackenna. Entretanto à mesa dêste, o picaresco assalto matinal foi o têma obrigado da conversa, apreciado com jocosa vivacidade por todos, à excepção do Mafiori, que se manteve mudo, bonachão e plácido como nunca, nos intervalos de comer fazendo bolinhas de pão e mirando desvanecido as unhas.

Pouco tempo depois, em cima, e de pé contra um ângulo da amurada, reùniam-se em íntimo grupo o Silveira e o Contreras, com o tenente Euclides e mais dois amigos. Aí veio naturalmente à balha o caso-Mackenna.

—Picarón!—comentou ruidosamente o Contreras, desmanchado em grossas gargalhadas.

O brasileirito, vendo o magno acontecimento pelo seu cândido prisma de noivo, fulminava-o com sincera indignação, taxando de «imperdoável desafôro» um desacato assim, àquela hora do dia.

—Eu acho imensa graça... É cá dos meus!—acudiu, tolerante, o Silveira, esfregando as mãos de contente.

O conde Améglio, que chegára justo ao tempo de recolher as homílias ingénuas do brasileiro, rugiu então ameaçadoramente.

—Havia de ser comigo.

Todos se voltaram, a encará-lo com fixidez espectante. E êle, num sobrecênho de arrogante desdêm:

—Conheço de sobra os processos e os ardís dêsses pulhastras.

—Ó conde...—murmurou baixinho o Contreras, mirando cauteloso de roda e puxando-lhe do braço.

Améglio porêm, de olhar duro, alteando a voz, minaz e insensível ao aviso:

—Mas conheço-lhes tambêm a grande cobardia essencial. Sei que êsses bandalhões não são fortes senão diante de saias.

—Ah, sim?...—interveio o Silveira, picado de interêsse, adiantando-se.—Ó conde, amigo conde, se não é indiscreção, conte-nos lá...

—Bem simples! Tenho mulher, sabem... Pois nunca hesitei um momento em lavar com sangue, no campo da honra, tentativas de ultraje semelhantes.

Era agora o Contreras que pávidamente, apurando o ouvido, se acercava; ao passo que o Silveira, positivamente desconcertado por esta súbita revelação, no conde, de inimaginados brios, inquiria, em dúvida:

—Algum duelo?

—Cinco. Nada menos de cinco.

—De morte?

—Não! nunca chegamos a tanto...—aclarou o conde com moderada importância; e num assômo quixotesco, arredando as bandas do jaquetão e enfiando os polegares nos sovacos:—Mas a todos tive a sorte de aplicar o merecido castigo.

O tenente Euclides voltou-se discretamente, a dissimular um risinho incrédulo. O Contreras afastou-se, manso e humilde, coçando compenetrado a cabeça. De sua banda, o Silveira rejubilava. Êle desconhecia o conde neste seu intempestivo disfarce cavalheiresco e brigão; aquelas teatrais bravatas de espadachim pareciam-lhe uma contrafacção absurda, não as tomava a sério, não cria nelas.— Minotauro travestido de Othelo, podia lá ser!—E contudo a pundonorosa explosão do conde estimulava-o. Ante a ameaça cocegante de perigo, um lume de reacção viril lhe afogueou o rosto ardente, e o seu carácter amorudo e ribaldo espertava, vibrava de belicosos ímpetos, latía de energias novas.—Agora sim! é que êle ia afervorar nos seus pérfidos galanteios junto da irlandesa. Até à provocação! até ao escândalo!—A ver se conseguia fornecer ao marido o pretexto para mais um lance de honra que lhe permitisse, porêm desta vez com sorte adversa, contar a meia dúzia.

A chegada ao Rio de Janeiro realizou-se infelizmente de noite. Um pouco de marejada e o vento contrário haviam ralentado a marcha do Almeria, que assim, quando lançou ferro, da formosíssima capital brasileira apenas deixava entrever vagas formas de relêvo, manchando, amplas e azúis, a imensa téla diáfana da sua claridade deslumbrante. Muita gente desembarcava aqui; de sorte que, já horas antes, eram algo de inabordável as imediações do portaló, onde se acotovelavam e prensavam duramente, numa gerarquia bárbara, as famílias impacientes por chegar; e onde, tambêm, sôbre improvisadas alfombras de lona, se amontoavam, num grosso empilhamento inverosímil, fardos, malas, caixotes e baús de tôda a espécie, mantas, chapéus, paráguas, papagaios, cachorros, saguís, cêstos de flores e cabazes com fruta. Por tôda a parte havia câmbios cerimoniosos de cartões de visita, ou efusivos apertos de mão, amáveis oferecimentos, beijos, abraços, risos, tristezas, miradas saùdosas, lágrimas furtivas. Mas aos felizes que tocavam então o termo da viagem, havia que agregar ainda os que se propunham desembarcar como simples turistas, para verem alguma coisa, para gozarem, movendo-se um pouco, estas quantas horas de paragem benéfica do vapor ali; e sobretudo, sentindo-se dominados pela ardente baforada de loucura que lhes vinha de terra, para irem ali passar uma bôa noite de garufa.

Apesar de bastante instado para baixar tambêm, o Silveira resolveu ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e guia na cidade, mas por aquela noite sómente;—êle bem devia compreender,—a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no primeiro trem para S. Paulo, logo na manhã seguinte. Por igual os Wymeyer, tímidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdêm, «que não desciam... que para quem, como êles, vinha da Europa, não valia a pena». Para mais, a colónia inglesa de bordo, ponderando muito sensatamente o horror de bérrata, confusão e desordem que devia ser, para um recêm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse despreocupada e íntimamente, ela só, algumas horas, bordejando a baía, fazendo o suave e demorado contôrno daquela fantástica decoração, vogando plácidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma idéa deliciosa. Miss Nora Scott convidára o Silveira para a encantadora excursão. Os Améglio iam tambêm.— Que mais queria êle?... Para ver o Rio tinha o dia seguinte.— Resolveu, pois, ficar; e, depois de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a criadagem de bordo organizára na ponte da 2.ª classe, tomou ao portaló e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em baixo, convidativa e luzente, no regaço manso das águas trepidando, fumarando, bailando alegremente. Daí a minutos, punha-se em marcha, e sobre o seu minúsculo convés, escassamente alumiado, foi difícil nos primeiros momentos a identificação das figuras. A infeliz Nora Scott foi a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus propósitos firmes de seducção, provocante, amorável, tôda tules e rendas. Porêm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e pronto aí estava êle já ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados, muito amigos e compadres, os dois à mesma clara-bóia que dava luz às câmaras interiores, à falta de mais cómodo assento. O conde mantinha-se longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cúmplice, agora, a esta doce e inefável aproximação, sem testemunhas e sem peias.—O ar estava tépido, tranqùilo e na sua morna quietação o crespo afago da brisa passava como a carícia dum leque de plumas. De roda, pelo caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar faíscante de pedraria e oiro, riscavam rútilas e esplendorosas curvas. E não tinha fim, não tinha limite esta invasão delirante da claridade. As suas imensas linhas de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se, cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sôltamente ao largo, pontilhando a vaga opacidade da tréva, densas, vivas e espertas sempre, embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distância. Se o vapor se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma nítida visão fragmentária das coisas, vinha então o grosso éco da foliona febre da multidão, em lufadas alucinantes.—Mrs. Edith e o Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,— e isolados no seu mútuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,—gozavam juntos, mudamente, a infinita delícia daquela hora incomparável, admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada e ardente, essa corda, êsse rosário interminável de sóis, mais rubros, mais claros e mais firmes que os sóis do alto... esplendente barra de oiro cravada no dôrso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada mágica de luz esparsa, no insondável mistério da noite subindo e indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a dançar anamórfica pelo espaço.

A certa altura da noite começaram as libações. O estalar das primeiras rôlhas de cerveja e de champagne foi o apetecido sinal para o fácil repúdio das fórmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo postas de banda as peias, as convenções banais da cortesia, para deixarem um pouco de campo ao exercício livre do instinto. Muitas das senhoras então soltavam os voiles ou deslaçavam as blusas, afogueadas; os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos abastardavam-se, e subia o diapasão delirante das saùdações e dos hurrahs. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptação condizente ao epicúreo abandôno desta hora libertina, alguns deixavam-se resvalar das suas cadeiras e tamboretes para as tábuas rasas do convés, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a cabeça pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Améglio, esquecido da mulher e dando ao démo os seus brios postiços, divagava de grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taça vazia na ponta dos braços froixos, cambaleando. Havia uma única nota de excepção, um absurdo protesto passional, em todo este côro vibrante de alegria; era a longa figura trági-cómica da desgrenhada Nora, hirta e de pé, amparada ao mastro de pôpa, mirando com decisão o mar, num pendor teatral ao suicídio... Ao passo que não muito longe, o Silveira e a irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taças, afim de penetrarem-se mútuamente os segredos, e êle, não podendo, em linguagem compreensível para a sua amada, expressar tôda a veemência do fogo que lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase pela eloqùência muda dos contactos.

 

Na manhã seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E ao avançar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais Pharoux, sentia-se bem, o coração dilatava-se-lhe, estimulado e contente ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava impressões flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrança próxima e querida, tudo,—desde a analogia cantante da linguagem aos traços e ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sóbrio e maciço das construções à brita miúda e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um automóvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rápido às mais celebradas coisas da cidade. O chauffeur era português, tomou familiarmente assento ao lado dêle. A bôa disposição do ânimo fazia-o mais acessível, o simpatismo sugerente do meio tornára-o jovial, aquecia em frémitos de fraterna expansão a sua sensibilidade agradecida. Por isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas exclamações e brados entusiastas, quando não descia a indagações mais íntimas, inquirindo com afectuoso interêsse o chauffeur na sua filiação, antecedentes e condições morais e materiais de vida.—«Se viera para a América havia muito tempo? Se estava contente? se tinha valido a pena?»

—Alguma coisa se faz, meu amo...—contestou afável, num risinho esperto, o interpelado.

—E muita família lá em Portugal?

—Mulher e três filhos. Quanta mosca posso forrar, p'ra lá vai inteirinha.

—E saùdades da pátria, não tem?

—Que pátria, senhor?...—acudiu com amarga resignação o chauffeur, olhando de espaço o Silveira.—A gente, em vindo p'r'aqui assim, não temos mais pátria. Por cá chamam-nos galegos; se volvemos a Portugal, somos brasileiros.

E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando, indagando e informando, mutuando fugazes impressões, colhendo notas inéditas, percorreram os dois o amplo coleamento áureo-verde da avenida Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dêsse retalho paradisíaco que são as praias do Leme, Copacabana e Ipanema, internaram-se pelo delicioso dédalo de sombras, palacetes, parterres e jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botânico, e foram por fim almoçar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosíssima jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a cálida vitalidade do ambiente, sentia-se bêbedo de magnificência, de luz, de côr, de movimento e de ruído. Feria-lhe com agrado a atenção o escrupuloso aceio das ruas, a variegada tinta das construções, o abundante luxo decorativo das árvores e das flores, e, por uma estranha anomalía dêste scenário mole de prazer, o tom sempre atarefado, o côrso afadigado e ligeiro da multidão, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como uma grossa onda de renovação a correr, generosa e fecunda, por essa densa rêde de artérias da abundância e da fortuna. Bem mais porêm que a obra magnífica do homem o impressionou o esplêndido vigor da Natureza,—as colossais dimensões e o atormentado aspecto dessa grande paìsagem eruptiva tôda em bruscas oposições e em arrancadas titânicas; prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua espêssa crôsta verde, fôra atirado vertiginosamente a prumo, formando atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos; estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus flancos viridentes, como entre mãos de gigantes um brinquedo, o formigueiro policromo e frágil da casaria. Mas era demasiado grandioso e solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira, tanta soma de majestade raiava já pela tristeza; sobrelevando à sua extática admiração por tam desconcertante e caprichosa exuberância, havia o que quere que fôsse de vagamente constritivo e grave, que o esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatídico prenúncio de desgraça. Porque êle não encontrava aqui, nesta luz crua, nestes mamelões adustos, a vegetação suave e amiga, as delicadas e múltiplas nuanças, o brando afago, as acariciadoras sombras do torrão bemdito que lhe embalára a infância. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa verde do sólo áspero e convulso tinha um não sei quê de opressivo, de hostil, de trágico; na impenetrável noite do seu mato torcido e hirsuto pressentia-se tôda a sorte de quimeras ruins, de reptís, de feras, de monstros, espiando-nos. Era um Éden traiçoeiro... inadaptável seguramente à poesia dos contos de fadas, à simplicidade ingénua das bucólicas tangidas melancólicamente, na grave e dulcerosa paz dos campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.

Horas depois, à noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento vibrátil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho de transmitir impressões aos companheiros. Os Améglio acolheram-no com frieza, fortemente ressentida como estava Mrs. Edith por não haver ido com êles. Ramón Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambêm pouco o atendeu:—«não estava de acôrdo, ia morrendo assado... tinha achado uma estopada!»— Voltando-se para o Mackenna, êste não o deixava falar, porque, no seu fátuo egoísmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe os surpreendentes motivos que esquissára para um soberbo quadro simbolista.—Havia de ver!—Valeu-lhe por fim a sua grande amiga espiritual, a loura e tímida Irene, que com amável complacência o escutou longamente.

No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruçava atento sôbre o aparatoso e sólido desdobramento e o tráfego colossal do pôrto,—bem comparável ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com razão,—aí de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegôsto falaz do seu tam almejado inquérito gramatical, todo o oportuno ensejo aproveitava para

lisonjeá-lo. E com familiaridade cativante, numa erudição muito a propósito:—que êle, como bom português, devia sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se, terra da celebrada baía, pitoresca e tranqùila, onde, quatro séculos antes, aproára a primeira expedição enviada de Portugal para colonizar o Brasil; e que era ali a outrora ilha de Enguáguassú, sabia bem... assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo, trepando e transpondo épicamente a abrupta Serra do Mar, a expedição que havia de fundar a legendária Piratininga,—a encantadora S. Paulo de hoje.—Confundido por esta exótica demonstração de tanto saber, o Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto à embaraçosa iniciação dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argùente ia engenhosamente iludindo—que já agora, por poucos dias, seria melhor, com outro descanço... em Buenos-Aires.

Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finança e da indústria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes, mulheres de prazer, artífices, obreiros, peões, representantes de empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o berço reluzente do Almeria sôbre as águas baloiçava alegremente, ia em repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechára-se em pequenos círculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais familiar, à medida como o termo da viagem se acercava.

Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e fraternais colóquios de Irene com o Silveira,—o que não era para êste, aliás, empresa fácil, apetecido alvo como êle se sentia, a cada momento, do contrôle implacável de Mrs. Edith, ávida por igual da sua presença e ciosa do seu convívio. Ele porêm sabia, sempre que isso lhe convinha, desembaraçar-se dela, invocando déstramente os seus compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto dêste, difícil lhe não era tambêm deixá-lo, na improvisada simulação de qualquer solícita démarche junto da filha; por fim, quando, de longe, a querençosa mirada de Mrs. Edith lhe significava a impossibilidade formal de manter-se mais tempo, sem escândalo, junto da linda argentina, êle aí expressava pezaroso, perante esta, o seu inadiável dever de cumprir para com os Améglio uma qualquer obrigação de cortesia, e partia imediatamente. E assim neste divertido círculo vicioso de inofensivas invenções ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo saborosamente as horas. O certo era que a doce freqùentação espiritual de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais dominadora e mais atraente, aos desafíos sensuais da irlandesa. Não raro passavam agora horas seguidas sós os dois, já caminhando mui camaradas, par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convés, discorrendo com interêsse juvenil sôbre coisas de nada, ligeiros, felizes, a frase sôlta e leve no ar cortante; já imobilizando-se sôbre um ponto ao acaso da amurada e aí, sonhadores e mansos, balbuciando a sua mútua emoção em termos vagos, imprecisos, como a dança incoerente dessas fugazes libélulas do mar, os peixes-voadores, que êles viam em baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E momentos havia em que o espírito subtil de Irene, ao calor desta casta intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez sucedia o temperamento másculo do Silveira aquecer e inflamar em arroubados ímpetos a sua alma enamorada... Porêm então, invariavelmente, a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene fechava-se como em março um botão de rosa; se êle permitia, com um pouco mais de vivacidade, ao coração pronunciar-se, ela acolhia-se a um mutismo impenetrável, não perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir quanto a trivialidade mesquinha do amor à hora era insofrível para a sua sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.—Queria ver nêle um amigo, nunca um adulador.—Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe então como um dêstes tipos de virtude sólida e doce que nos reconciliam com a existência e nos fazem tomar em respeito a vida.

Em breves dias, uma linda manhã veio em que, no balanceio perpétuo do mar, a translucidez movediça das águas agora engrossava,—embaciava-se, parecia coberta por uma bostelosa máscara de lama. Eram as infinitas aluviões terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurável, avassaladora e ampla como um mar, a prôa arrogante do vapor atingia neste momento. Já por estibordo se descortinava a airosa silhueta do Cêrro de Montevideo.—Um outro nome bem português...—voltava a observar-lhe o pai Wimeyer com amável solicitude.—Corrupção de monte vi eu, não era assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintáxicamente uma linda transposição, como tantas havia na formosa língua de Camões. Tinham muito que conversar...—E batia-lhe no ombro afávelmente. Mas o Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patrióticos empolgavam-no, sobrelevando aos quiméricos terrores pela ameaça das doutas interrogações do pedagogo. O coração dilatava-se-lhe envaidecido, porque êle notava como durante a sua viagem, no decurso de todo êste largo roteiro abarcando dois hemisférios, desde a largada inicial das bôcas de luz e oiro, do Tejo, té à embocadura brumosa e intérmina do Plata, êle viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre, ininterrompido e eterno, o traço, a marca indelével dêsse temerário arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador espírito português, tivera a prova constante do seu génio marítimo afirmada e selada épicamente, cruzára o imperecível sulco aventureiro do seu caminho de glória.—Que outro povo podia vangloriar-se dum prodígio igual?...—Perante esta íntima evidência, sacudia a cabeça com arreganho e atirava uma depreciativa mirada de desdêm a essa humanidade inferior que o rodeava... a êle, senhor do Universo.

Passada a encantadora capital uruguaia, não restavam agora ao Almeria mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando instruções aos stewards, buscando e preparando a continuìdade das relações ocasionalmente entaboladas.—Os Wimeyer ofereceram ao Silveira a sua casa de Buenos-Aires, calle Paraguay. O Mafiori a todos anunciava bem alto que ia hospedar-se no Plaza-Hotel. Mas os mais, pelo geral,—como o Mackenna e o Alvarez,—não sabiam; iam confiados ao acaso ou haviam-se entregado ao solícito critério dalgum amigo. Os mesmos Améglio não haviam tambêm escolhido domicílio. Assim, para poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram reùnir-se ou enviar o seu adresse ao Café da Paris, na noite seguinte. E ainda, da suja promiscuìdade da 3.ª classe, não deixou de vir humildemente o Matias, na companhia confortante de mais dois patrícios, a demandarem interesseiros o Silveira, confiados na sua espontânea promessa de protecção, para lhe pedirem numa lacrimosa lamúria que não os olvidasse, e desejando saber onde haviam de procurá-lo.

A cada momento, espontâneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos diálogos, palpitando da inquieta indecisão daquele instante. Mas diálogos eram êstes que na sua impaciência mordente, no seu vôo fantasista, em vez de aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um íntimamente se perguntava—que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas palavras ninguêm as apreciava maiormente, ninguêm lhes dava inteira atenção, porque elas mesmas logo em cada um dêsses insatisfeitos espíritos sugeriam e despertavam, para alêm do seu significado real, outros planos, idéas, desejos, ambições e projectos que os levavam para muito longe... Porque é assim neste vertiginoso e dissolvente aturdimento que nós vivemos hoje a vida. Ninguêm se instala nela com permanência,—nem nas casas que alugamos agora, já com o antecipado desígnio de as largar àmanhã, nem nas dedutivas evidências da nossa razão, nem na voz instintiva da nossa consciência, nas nossas paixões, apetites, ódios, amores, interêsses. Nada para nós é hoje santo, grande, estável, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma lamentável inconsciência, de ocupação, de família, de ideal, de carácter. Nada há duradoiro. A febril obsessão de «edificar o futuro» furta-nos ao gôzo tranqùilo e salutar da hora presente. A glória duma invenção feliz, o lucrativo êxito dum negócio, o aplauso por uma obra benemérita,—que foram o produto de longo e persistente labor, as mais das vezes,—contudo, apenas conseguidos e já não nos satisfazem, não nos arrebatam, não nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoções, aventuras novas. O torvelinho trágico da vida desliza e corre sôbre nós sem nos penetrar, como a