Angústia

Graciliano Ramos · Capítulo 4 de 11 · parte 7/8

Páginas do PDF

Angústia

Livro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

coisas que a gente diz à toa e conserva porque vieram espontaneamente e são

insubstituíveis e absurdas. Quanto mais olhava Marina menos me inclinava a

admitir que ela fosse uma puta. As pálpebras roxas ocultando olhos aguados, o

beiço trêmulo, a barriga encolhida, a cara mal pintada, a testa amarela coberta de

rugas.

— Vamos caminhando.

Marina pôs-se a andar como um mamulengo.

O homem cabeludo só cuidava da sua vida; a datilógrafa dos olhos de gato

copiava um boletim na máquina estragada; d. Albertina guardava os cem mil-réis

na gaveta; as crianças que voltavam do grupo escolar soletravam as legendas

estiradas nas paredes. O filho de Marina morria, talvez já tivesse morrido. Pensei

nos ratos, em d. Mercedes, no quintal cheio de lixo, na mulher que lava garrafas

e no homem que enche dornas. Estas lembranças me produziram um aperto no

coração. Quase todas me pareceram regulares, mas a ideia dos ratos era

extravagante, e isto me enfureceu. Que vinham fazer os ratos ali, àquela hora?

— Puta! exclamei metendo com raiva os pés na areia.

Talvez não me referisse a Marina: referia-me aos ratos, a coisas vagas. A

palavra infamante tinha extensão enorme. Nada se fixava no meu espírito.

Aberrações, monstruosidades, os uivos compridos de d. Rosália, a respiração

ofegante do marido de d. Rosália, Antônia, Berta, a mulher da rua da Lama, a

neta de d. Aurora, a banca da redação, o cinema, o teatro. E aparecia-me na rua

uma criatura pálida, silenciosa. Mais forte que aquelas ideias indecisas e

misturadas, a lembrança dos ratos continuava a atormentar-me.

— Puta!

Os beiços de Marina estavam como os de uma defunta, os olhos procuravam

socorro, e eu cravava as unhas nas palmas das mãos, mordia a língua por haver

deixado escapar mais uma vez a injúria que nada significava. Deu-me uma tontura, cambaleei. Meses antes Marina ficara nua, a carne arrepiada se cobrira

de carocinhos. Quando o marido voltava do interior, d. Rosália soltava uns gritos

que não me deixavam dormir. A mulher da rua da Lama ia para o hospital, vinha

do hospital, continuava o trabalho enfadonho no quarto sujo, nua e triste. Os

dedos cruzavam-se nos joelhos agudos como dedos mortos. — “A água lava

tudo, as feridas cicatrizam.” Repeti mentalmente esta frase, mas não pude saber

de quem era ela.

— Enfim tudo se acabou, não é? perguntei. O filho morreu, boa solução.

Marina estremeceu violentamente e parou, olhando-me pela primeira vez. O

rosto contraído esmoreceu num desmaio, o corpo diminuiu. Pareceu-me que ia

enterrar-se todo na areia. A voz morria-lhe na garganta, sons roucos e

incompreensíveis, mas os olhos apavorados negavam, a cabeça agitava-se

desordenadamente, negando.

— Merecia estar na cadeia, resmunguei sentindo uma necessidade urgente de

justiça.

Palavras antigas, esquecidas, voltavam-me. — “Os que têm fome de justiça”,

cantavam os alunos de mestre Antônio Justino. Sede ou fome de justiça? Não me

lembrava. Também já não sabia as vantagens que o catecismo reserva aos que

têm fome ou sede de justiça.

— Na cadeia, percebe? Comendo bacalhau e dormindo na esteira. Sem-

vergonha.

A frase antiga me perseguia, mas, por mais que tentasse reconstruí-la, não

havia meio de tê-la completa. — “Bem-aventurados os que têm sede de

justiça...” E o resto? Que aconteceria a esses bem-aventurados? O esforço para

recordar-me exasperava-me. Insultava Marina. Puta. A justiça havia de agarrá-la,

jogá-la para lá das grades pretas que a gente não pode tocar. Vinham-me tiradas

incoerentes, que embranqueciam e enegreciam Marina.

— Fez muito bem. Prejuízo pequeno, insignificância. É o que lhe digo. Sem

falar nas responsabilidades, nas encrencas.

E logo:

— D. Albertina guarda segredo? Se não guardar, a reputação de Marina dá

em ossos de minhoca.

— D. Albertina? perguntou Marina, pálida como flor de algodão.

— Sim, d. Albertina, minha sem-vergonha. Vamos para diante. Marcha!

Continuamos a caminhada, segurei o braço mole de Marina.

— Eu vi a placa na porta. Estava defronte, conversando com o homem da

venda.

— Me deixe, pelo amor de Deus, gritou Marina desesperada. Não lhe fiz mal,

vou quieta pelo meu caminho. Me deixe. Que é que você quer comigo?

Olhou os quatro cantos. Um soldado de polícia e um soldado do exército

passaram, os quepes de banda.

— Atraca-te com um deles. Tu só dás para isso.

Atirei-lhe assim o pior ultraje. Como os pequenos militares são desprezados,

julguei demolir Marina apontando-lhe os dois rapazes. Bem-aventurados os que

têm sede de justiça. Esta coisa, repetida, dava-me fúrias de cachorro doido. Para

que agarrar-me a sombras? Um juiz de direito bocejando, fatigado; o promotor

declamando a acusação e afastando-se dos autos, que não tinha lido; o advogado,

que poderia ser Julião Tavares, soluçando a defesa e apelando para os

sentimentos religiosos dos jurados; oito sujeitos cochilando, chateados e

comprometidos a absolver ou condenar a ré. Marina escondia a cara e inspirava

compaixão. Todos os jurados tinham as feições de dr. Gouveia. Sacudi os

ombros:

— Ande. Que diabo tem você nas pernas que não caminha?

A marcha na areia solta era penosa em extremo.

— Vá-se embora. Me largue, pelo amor de Deus, arquejou Marina. Não lhe

fiz mal. Por que não me deixa em paz?

Em paz. Grunhi de novo o desaforo imundo. Em paz. Nenhum caso

importante. Não haveria juiz amolado tocando o tímpano, nem advogado

pernóstico, nem promotor botando sabedoria em cima de dr. Gouveia

multiplicado nas cadeiras. Marina dormiria tranquila, os armadores guardariam silêncio.

— Sem dúvida. Os tempos estão duros. Em frente, ordinário, marche! Tudo

isto é uma peste.

Entramos na cidade e separamo-nos. Mas logo me veio a ideia de que ela se

ia juntar com o amante.

 

. . .

 

Descobri por acaso que Julião Tavares tinha feito nova conquista. Foram duas ou

três palavras soltas na rua que me deram a revelação. Pensei numa das filhas de

Lobisomem e na datilógrafa dos olhos verdes.

Tudo isto é infantil, mas a verdade é que durante dias me atormentou a ideia

de que Julião Tavares havia seduzido a menina dos olhos verdes. Para que lado

morava ela? Nunca havia percebido a voz dessa criatura, não conhecia nenhum

dos seus gostos, mas tinha certezas esquisitas e andava como um parente cheio

de ciúmes ou como um cachorro que perdeu o faro e não sossega.

Por que se tinha escondido a datilógrafa dos olhos verdes? Fugiria da

polícia? Ou estaria de cama com a hemorragia produzida pela intervenção de

uma d. Albertina? Agora Julião Tavares tomava um caminho, depois tomava

outro — e eu imaginava que ela residia em Bebedouro, na Levada, em Jaraguá,

no Farol, enfim admitia que nos quatro pontos cardeais existiam datilógrafas

doentes. Todas elas estavam grávidas e procuravam os serviços de d. Albertina.

O bodegueiro cabeludo, com os cotovelos pregados no balcão, não via nada,

só cuidava da sua vida. E Julião Tavares farejava as datilógrafas como um bode.

Por que andava com tanta pressa quando deixava o café? Entrava num bonde,

espalhava-se no banco, feliz, o olho aceso, o charuto aceso. Ia encolher-me num

dos últimos lugares, firmava as mãos no encosto do banco fronteiro, apoiava o

queixo nas mãos e observava as costas de Julião Tavares. O cachaço gordo e

mole como toicinho balançava com o movimento do carro. A mão curta de unhas cor-de-rosa fazia acenos para baixo. Transeuntes sorriam ao dono da mão curta

de unhas brunidas. Eu notava com raiva aqueles sorrisos. Por que tanta

subserviência nas caras abertas? Julião Tavares, patriota e orador, não prestava

para nada. Nenhum favor esperavam dele. Mas sorriam por hábito. Eu também

havia sorrido, amolado. Os cabelos de Julião Tavares começavam a escassear no

alto da cabeça. Parecia que ele ia adquirindo uma espécie de tonsura. Falava alto,

atirava cumprimentos aos conhecidos e era amável em excesso, mas a

amabilidade traduzia-se em palavras vãs. O que me aborrecia era saber que essas

palavras eram aceitas: tinham tido significação antigamente e continuavam a

circular. Eu engulhava, metia a mão no bolso e apertava a corda.

Que fim teria levado seu Ivo? À toa, procurando nas fazendas e nas

povoações muitas vezes percorridas alguma coisa ignorada. Bêbedo sempre,

cochilando, babando, seu Ivo não encontra sossego. Uns foram para o Amazonas

e acabaram-se no beribéri; outros andam pelo sul, em concorrência com o

estrangeiro. Seu Ivo, incapaz de fixar-se, índio e cigano, corre fazendas e

povoações, pedindo, furtando. Não sabe tomar os objetos que necessita: pede,

furta, é um indivíduo inferior. Por isso digo a Vitória quando ele me entra em

casa:

— Vitória, preste atenção a seu Ivo. Cuidado para que ele não me abafe um

livro.

Inútil. O livro é abafado e oferecido adiante, como a corda que ele me deu.

Apalpava a corda. Mexia-me lentamente, pensava nos cabras que meu avô

livrava peitando os jurados ou ameaçando a cadeia da vila. Apareciam no pátio,

desarmados, varrendo o chão com chapéus de couro; mas quando tinham

empreitada, dormiam na pontaria, passavam semanas por detrás de um pau, o

clavinote escorado numa forquilha, algumas rapaduras e farinha de mandioca no

bisaco.

Pouco a pouco tudo se transformava, a catinga da minha terra rodava aos

solavancos nos trilhos da Nordeste. Escondia-me entre aquela vegetação de

passageiros, sobre o encosto do banco apoiava-se um rifle imaginário dirigido às costas de Julião Tavares. Tudo nele me aparecia aumentado e deformado.

Lembrava-me das conversas que me estragavam as noites, de palavras ouvidas

através da parede da sala de jantar, de frases truncadas percebidas no café. O

homem saltava, eu ia saltar um poste adiante e continuava a espreita. Notava as

casas onde ele entrava, as caras das pessoas a que se dirigia.

Como consequência da investigação, descobri afinal a nova amante de Julião

Tavares. Era uma criaturinha sardenta e engraçada que trabalhava numa loja de

miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barriga, visitando clandestinamente

d. Albertina. Venderia as joias baratas, furtaria dinheiro na caixa para d.

Albertina. Ou então haveria um espalhafato. Julião Tavares daria à mocinha

sardenta quinhentos mil-réis para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido,

ouvindo os sermões de Tavares pai.

 

. . .

 

A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julião Tavares chegava alta noite,

entrava, demorava-se duas horas. Afastava-me, para não despertar suspeitas, mas

à saída andava por ali e distinguia um vulto que tinha a gola do paletó erguida e

evitava os pontos iluminados. Havia raros transeuntes, e a ligação durou pouco,

não chegou a dar nas vistas.

Julião Tavares seguia pela rodagem, rente aos jardins dos palacetes

adormecidos. Ou acompanhava a estrada de ferro, que atravessa a rua, ganha os

fundos das casas. Ali era o silêncio, uma sombra que algumas lâmpadas muito

distanciadas e os becos por onde espirra um pouco de luz interrompiam. A água

do mangue apresentava manchas baças entre as árvores. Aproximando-me, ouvia

perfeitamente os passos do homem nas folhas secas. Por que era que aquele sem-

vergonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no chão pago?

Em toda a parte era assim. Derramava-se no bonde, e se alguém lhe tocava as

pernas, desenroscava-se com lentidão e lançava ao importuno um olhar duro.

Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade, sentava-me com uma

das nádegas. As viagens se tornavam horrivelmente incômodas, mas havia-me

habituado a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, não poderia espalhar-me

como Julião Tavares: receava que me viessem empurrar e tomar, sem pedir

licença, algumas polegadas da tábua estreita.

Aqueles modos davam-me a impressão de que tudo em roda era dele. Os

passeios públicos eram dele. Certamente ninguém me proibia andar nos jardins,

sentar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres não reparavam em mim, pessoas

conhecidas olhavam-me distraidamente. Demais, enquanto me achava ali,

perseguia-me a recordação da vida ordinária, e isto me estragava a hora

mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os globos opalinos, não me serviam

para nada. Estimaria que os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse às

escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mulheres pintadas que

imitam d. Mercedes, esqueceria Julião Tavares, que estava em todos os bancos.

A treva apagaria aquela exposição desagradável. Mas dar-me-ia a recordação de

coisas mais desagradáveis ainda.

A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das

bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira

alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se

enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.

Agora Julião Tavares marchava no escuro, depois de ter abraçado a mocinha

sardenta. Ia deitar-se, arrumar talvez uns versos indecentes a respeito de

segredos de alcova. Àquela hora não tinha com quem desabafar. O café estava

fechado, na praça deserta as luzes cochilavam. Derramaria a vaidade no papel,

imprimi-la-ia no dia seguinte, os amigos lhe dariam parabéns e ele andaria como

um pavão. Julião Tavares julgava-se superior aos outros homens porque tinha

deflorado várias meninas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas.

Contrassenso. Então Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha

conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as

roseiras maltratadas. Evidentemente.

Lembrava-me de sinha Germana, de Quitéria, das negras da fazenda. Sinha

Germana só tinha conhecido um homem. As pretas não se envergonhavam de

conhecer muitos homens. Que diferença! Descendo de sinha Germana, que

dormiu meio século numa cama dura e nunca teve desejos. Adquiro ideias novas,

mas estas ideias brigam com sentimentos que não me deixam. Sinha Germana

dormia no couro de boi com o velho Trajano, e se dormisse de outra forma, não

dava certo. Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de Quitéria. Por

quê? Não havia por quê, e isto me enraivecia. Um sujeito capaz de escrever

sobre muitos assuntos entendendo-os mal, ou sem entendê-los, aceitar as

opiniões de Camilo Pereira da Silva, de padre Inácio, de d. Rosália! Essas

opiniões não tinham pé nem cabeça. Marina valia o que tinha valido antes de

engrossar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas pernas bem-feitas, os

mesmos braços que mexiam as roseiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que

pareciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as pernas não se

curvavam para mostrar as nádegas apertadas na saia estreita, os braços moviam-

se vagarosamente, pesados, os cabelos amarelos caíam sobre a testa enrugada, os

olhos baixavam-se, cheios de culpa, desviando-se dos outros olhos. Esta

consciência de inferioridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me

revoltava. Absurdo.

— Como as outras, como as outras. Mais bonita que a maioria das outras.

Repetições inúteis. Não podia evitar a ideia de uma queda. De qualquer

forma ela havia diminuído e habituava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda

a gente.

Seria para o futuro um trapo como d. Adélia:

— A senhora tem razão, d. Rosália. É isso mesmo, d. Rosália.

Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas

ordinárias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo numa cantilena de

aprovação.

— Como as outras. Estúpido, absolutamente estúpido.

Furores perdidos. Marina permaneceria de vista baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo, concordando com d. Rosália.

 

. . .

 

Fui até o fim da linha de bonde e parei, como se me tivesse faltado a corda de

repente. Aquelas duas extremidades de trilhos roubaram-me os movimentos e

deram-me impressão desagradável. Esfreguei os olhos, senti-me cansado. Até ali

não havia experimentado nenhum cansaço. Teria andado léguas se os trilhos

avançassem para o interior, mover-me-ia regularmente, como um bonde. Apenas

não me deteria diante dos postes cintados de branco. Nessas marchas compridas

a que me habituei — um, dois, um, dois — a fadiga adormece e quase não

penso. Exatamente como se uma vontade estranha me dirigisse, um sargento

invisível que se descuidasse do exercício e fosse pelo campo, embrutecido pela

cadência — um, dois, um, dois — esquecido da voz do comando, pensando nos

versos de um Julião Tavares ou nos bilhetes de outra Marina. Ando meio

adormecido. Se alguém me gritasse: — “À direita, à esquerda”, volveria à

direita, volveria à esquerda, sem procurar saber donde partia a ordem. Por que à

direita? Por que à esquerda? Poderia ser meia-volta. Mas ninguém fala, e vou

para a frente, sem perceber que posso voltar, libertar-me da autoridade de um

sargento invisível e caminhar naturalmente, parando, observando as casas e as

pessoas. De repente os trilhos desaparecem e relaxa-se a corda do boneco. Está

bem. Em que ia pensando?

A verdade é que estava com as pernas bambas. Caminhada tão extensa! Mais

de uma hora. O mesmo tempo para voltar — um, dois, um, dois — exatamente o

mesmo número de minutos gastos na vinda.

— Está bem.

Deviam ser duas horas da madrugada.

— Sem dúvida.

Julião Tavares não tardaria em deixar a casinha que se trepa no morro, junto a uma barreira vermelha.

Seguiria pela rodagem? Pela estrada de ferro? Só vendo. Esta necessidade de

ver encolerizou-me:

— Besta! Farejando imundícies como um cachorro.

Procurei um cigarro para acalmar-me. Não encontrei cigarros. O que achei

foi a corda que seu Ivo me havia oferecido. Desleixado. Conservar no bolso

aquele traste e esquecer os cigarros! Olhei os quatro cantos. Nenhuma bodega.

Esperei a passagem de alguém que me desse um cigarro. Ninguém. Idiota! Que

estava fazendo ali, pisando a ponta do trilho? Farejando imundícies como um

cachorro, como um urubu. Que horas seriam? Duas, aproximadamente. Aguardei

as pancadas de um relógio. Com certeza Julião Tavares tinha deixado a cama da

mocinha sardenta e recolhia-se, leve como um balão, saciado, fumando, a brasa

do cigarro esmorecendo e avivando-se. O certo era que eu não podia ficar ali

subordinado a um relógio duvidoso ou a um transeunte que talvez não tivesse

cigarros. Julião Tavares deixara a mocinha sardenta. Seria a mocinha sardenta a

amante dele? Na casa havia outras mulheres. Por que imaginei que havia de ser a

mocinha sardenta? Uma garoa que se adensava ia toldando as luzes capiongas.

Um, dois — impossível contar os postes de iluminação, que a neblina ocultava.

Senti frio. Enquanto marchava, não tinha frio, nem cansaço, nem desejo de

fumar. Agora a falta de cigarros me afligia. Levantei a gola, apertou-me a

necessidade urgente de voltar. Tinha certeza de que na volta me apareceriam

cigarros. Virei-me, pus-me a caminhar desordenadamente. De quando em

quando parava, as pernas bambas. Não haveria uma bodega, um transeunte? A

marcha regular era impossível. Estava irritado como um bicho e levava a mão ao

bolso, num gesto maquinal. Encontrava os anéis da corda. Provavelmente Julião

Tavares ia de volta, fumando. Que me importava Julião Tavares? A figura de

Cirilo de Engrácia passou-me diante dos olhos, mas desapareceu logo. Por que

me achava àquela hora da noite em Bebedouro, andando à toa como uma barata,

parando, correndo? Soprava, enxugava o rosto com a manga. Cansado.

Quando me aproximava da casinha encostada ao monte, um vulto pulou na estrada a alguns passos de mim e ganhou os trilhos da Great Western. Adiantei-

me para não perdê-lo de vista. A escuridão esbranquiçada feita pela neblina

aumentava, escuridão pegajosa em que os postes espaçados abriam clareiras de

luz escassa. Passei o lenço no rosto molhado. Um suor frio, as orelhas frias e

insensíveis. Nem sabia se aquilo era suor ou orvalho caído dos ramos das

árvores.

Uma hora antes caminhava com animação, movia-me executando ordens,

tinha os membros amarrados a cordões. Agora podia desviar-me para um lado e

para outro, avançar, recuar. Alargaria os passos, encontraria Julião Tavares,

passaria por ele, o chapéu embicado. Não me reconheceria na poeira de água.

Um sujeito que vinha de uma aventura noturna e tinha pressa de recolher-se. A

mocinha ficara num fundo de quintal, em camisa, ao pé do morro. Julião Tavares

estremeceria. Um concorrente. Não presumiria que o concorrente era um inimigo

aperreado e cheio de veneno. A necessidade de fumar atrapalhava-me os

movimentos. Julião Tavares flutuava para a cidade, no ar denso e leitoso. Estaria

longe ou perto? Aparecia vagamente nos pontos iluminados, em seguida o

nevoeiro engolia-o, e eu tinha a impressão de que ele ia voar, sumir-se. Um

balão colorido em noite de São João, boiando no céu escuro.

As meninas de Teotoninho Sabiá cantavam, à porta da nossa casa estalava

uma grande fogueira que meu pai alimentava com tábuas de caixões e aduelas,

Rosenda fazia adivinhações consultando uma bacia de água, na sala de seu

Batista as moças brincavam de sortes, busca-pés estouravam na rua da Cruz e no

Cavalo-Morto. Debaixo de um mamoeiro de folhas torradas, Carcará assava

milho verde na fogueira e largava risadas enormes. Meu pai dizia: — “Hi!

parece um papa-lagartas.” Eu não sabia que espécie de bicho era o papa-lagartas

nem por que meu pai se lembrava dele ouvindo as gargalhadas de Carcará. Tudo

tão simples! As moças desdobrando os papelinhos das sortes, Rosenda

estudando a bacia de água, Teresa e d. Maria cantando para o balão cair. Apenas

o estouro dos busca-pés e as risadas de Carcará me incomodavam. Teresa era

boa, chupava o dedo mindinho e chorava quando chegavam as redes e os homens amarrados de cordas.

Julião Tavares ia afastar-se, dissipar-se, virar neblina. Apressei-me, pus-me

quase a correr. Bem. Continuava invisível, mas as pisadas ouviam-se

distintamente.

— Bem.

Dizia isto, e sentia que tudo ia mal, aporrinhava-me por estar perdendo

tempo a acompanhar Julião Tavares. Afligia-me pensar que dentro em pouco ele

entraria na cidade e dormiria tranquilo. Cirilo de Engrácia, morto, em pé,

amarrado a uma árvore, coberto de cartucheiras e punhais, tinha os cabelos

compridos e era medonho. Eu não poderia dormir. O caminho encurtava-se. Mas

então? Para que seguir o homem odioso que tinha tudo, mulheres, cigarros?

Agora estávamos perto um do outro, mas a cidade se aproximava, e em breve

estaríamos afastados, ele chupando um cigarro, eu aguentando os roncos do

marido de d. Rosália, que tinha chegado na véspera. Pelo resto da noite ouviria

os gemidos e os roncos dos vizinhos. O cansaço desaparecera. Desejaria

caminhar léguas, até fatigar-me novamente e adormecer. Quantos metros

faltariam para desembocarmos na Levada? Quantas horas faltariam para se

abrirem os cafés e as bodegas? A ideia de que nos íamos separar me

desesperava. Ali era como se ele dependesse de mim. Distinguiam-se

perfeitamente os passos; nas luzes que espirravam das travessas a figura surgia,

escura e bojuda, com o chapéu desabado e a gola do paletó erguida. De repente

senti uma piedade inexplicável, e qualquer coisa me esfriou mais as mãos. Julião

Tavares era fraco e andava desprevenido, como uma criança, naquele ermo, sob

ramos de árvores dos quintais mudos. Uma hora, meia hora depois, passaria pelo

guarda adormecido junto a um poste, seria forte, mas ali, debaixo das árvores,

era um ser mesquinho e abandonado. Contraí as mãos frias e molhadas de suor,

meti-as nos bolsos para aquecê-las. Para aquecê-las ou levado pelo hábito. A

aspereza da corda aumentou-me a frieza das mãos e fez-me parar na estrada, mas

a necessidade de fumar deu-me raiva e atirou-me para a frente. Entrei a caminhar

depressa, receando que Julião Tavares escapasse. Novamente os passos leves no chão coberto de folhas secas. Distinguia-se agora muito bem a sombra escura na

garoa peganhenta. A garoa me entrava no bolso e gelava os dedos, que

esfregavam a corda. Por que andava com segurança o homem gordo? Olhos

atentos procuravam enxergá-lo, dedos crispados moviam-se em direção a ele. —

“Matos têm olhos, paredes têm ouvidos”, dizia Quitéria sentada na prensa do

quintal. Pareceu-me que as árvores em redor estavam vivas e espiavam Julião

Tavares, que os galhos iam enlaçar-lhe o pescoço. E ele andava sossegado como

se ali houvesse guardas-civis.

Muitos anos antes os cabras de Cabo Preto haviam-se escondido na capoeira

para não assustar sinha Germana. Sinha Germana passara escanchada na sela de

campo, e os cabras se amoitavam por detrás dos mandacarus e dos alastrados que

vestiam mal a campina. Os cangaceiros eram amigos de Trajano, sinha Germana

esquipava no caminho iluminado pelo sol cru. Nenhum ódio. Trajano Pereira de

Aquino Cavalcante e Silva tinha umas reses que definhavam e entendia-se

perfeitamente com os emissários de Cabo Preto.

O desejo de fumar levava-me ao desespero. O acesso de piedade sumiu-se, o

ódio voltou. Se me achasse diante de Julião Tavares, à luz do dia, talvez o ódio

não fosse tão grande. Sentir-me-ia miúdo e perturbado, os músculos se

relaxariam, a coluna vertebral se inclinaria para a frente, ocupar-me-ia em meter

nas calças a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia precipitadamente, como

um bicho inferior. Agora tudo mudava. Julião Tavares era uma sombra, sem

olhos, sem boca, sem roupa, sombra que se dissipava na poeira de água. A minha

raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado. Por que esta comparação? Será

que os cangaceiros experimentam a cólera que eu experimentava?

José Baía vinha contar-me histórias no copiar, cantava mostrando os dentes

tortos muito brancos. Era bom e ria sempre. Dava-me explicações a respeito de

visagens, mencionava as orações mais fortes. Não me ensinou as orações, para

não quebrar a virtude delas, mas ofereceu-me conselhos, que esqueci. Tão bom

José Baía! O clavinote dele tinha vários riscos na coronha. Ninguém falava alto a

José Baía, ninguém lhe mostrava cara feia. E ele ria, exibindo os dentes acavalados, e quando avistava o vigário ou outro hóspede importante, a aba do

chapéu de couro varria o pátio da fazenda. Não me seria possível imaginar José

Baía atacado de uma crise de ódio como a que me fazia pregar as unhas nas

palmas. Provavelmente ele ficava sossegado na capoeira, tirando um trago do

cigarro de palha, que apagava logo com saliva e guardava atrás da orelha, para a

fumaça não denunciar a emboscada. O ouvido atento a qualquer rumor que

viesse do caminho estreito, o joelho no chão, em cima do chapéu de couro, o

olho na mira, a arma escorada a uma forquilha, com certeza não pensava, não

sentia. Estava ali forçado pela necessidade. No dia seguinte faria com a faca de

ponta novo risco na coronha do clavinote e contaria no alpendre histórias de

onças.

— Que fim levou, José Baía?

— Por aí, caminhando.

Nenhum remorso. Fora a necessidade. Nenhum pensamento. O patrão, que

dera a ordem, devia ter lá as suas razões. As histórias do alpendre eram simples:

as onças que armavam ciladas aos bodes não tinham ferocidade. José Baía, bom

tipo. Quando passasse pela cruzinha de pau que ia apodrecer numa volta do

caminho, rezaria um padre-nosso e uma ave-maria pelo defunto. A fraqueza

estirou-me os dedos e retardou-me a caminhada. Tive saudade de José Baía e das

conversas infantis do copiar.

— José Baía, meu irmão, onde estarás a esta hora? Terás morrido em tocaia

ou mofarás numa cadeia nojenta de grades pretas e gordurosas? Entraste um dia

na vila, amarrado de cordas, negro de suor e poeira, cercado por uma tropa de

cachimbos. Os teus olhos claros se arregalavam num espanto verdadeiro.

Envelheceste e és outro, uma inutilidade feita pela justiça. Os teus ouvidos e a

tua vista se estragaram, as tuas mãos tremem, estás sério e esqueceste a criança a

quem dizias as virtudes da oração da cabra preta.

Quanto tempo duraram as recordações e o enfraquecimento? Um minuto, ou

menos. Novamente as mãos se contraíram e as pernas se estiraram no caminho

extenso. Desejei que Julião Tavares fugisse e me livrasse daquele tormento. Se ele corresse pela estrada deserta, estaria tudo acabado. Eu tentaria alcançá-lo.

Inutilmente. Pensei em gritar, avisá-lo de que havia perigo, mas o grito morreu-

me na garganta. Não grito: habituei-me a falar baixinho na presença dos chefes.

Era preciso que alguma coisa prevenisse Julião Tavares e o afastasse dali. Ao

mesmo tempo encolerizei-me por ele estar pejando o caminho, a desafiar-me.

Então eu não era nada? Não bastavam as humilhações recebidas em público? No

relógio oficial, nas ruas, nos cafés, virava-me as costas. Eu era um cachorro, um

ninguém.

— “É conveniente escrever um artigo, seu Luís.” Eu escrevia. E pronto, nem

muito obrigado. Um Julião Tavares me voltava as costas e me ignorava. Nas

redações, na repartição, no bonde, eu era um trouxa, um infeliz, amarrado. Mas

ali, na estrada deserta, voltar-me as costas como a um cachorro sem dentes! Não.

Donde vinha aquela grandeza? Por que aquela segurança? Eu era um homem.

Ali era um homem.

— Um homem, percebe? Um homem.

Julião Tavares não ouviu e continuou a andar tranquilamente.

— Corre, peste.

Por que era que o miserável não corria, não se livrava dos meus instintos

ruins? Estaria recordando as carícias da mocinha sardenta?

— Isso não vale nada, Julião Tavares. Marina, a mocinha sardenta, a

datilógrafa dos olhos de gato, não valem nada. O que vale é a tua vida. Foge.

Julião Tavares parou e acendeu um cigarro. Por que parou naquele momento?

Eu queria que ele se afastasse de mim. Pelo menos que seguisse o seu caminho

sem ofender-me. Mas assim... Faltavam-me os cigarros, e aquela parada

repentina, a luz do fósforo, a brasa esmorecendo e avivando-se na escuridão,

endoideciam-me. Fiz um esforço desesperado para readquirir sentimentos

humanos:

— José Baía, meu irmão...

José Baía não era meu irmão: era um estranho de cabelos brancos que

apodrecia numa cadeia imunda, cumprindo sentença por homicídio. — “Recebeu cópia do libelo?” José Baía não soubera responder. Tinha recebido e não tinha.

Que resposta devia dar àquela pergunta incompreensível? O presidente se

contentaria se ele dissesse que sim? Ou seria melhor dizer que não? E José Baía

balançava a cabeça, indeciso: tinha recebido e não tinha. Afinal que me

importava José Baía, estirado numa esteira por detrás das grades negras e

pegajosas? Que me importavam as grades negras e pegajosas?

Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de

José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas

realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas

mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a

debater-se. Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora

tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria

cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O

homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou

qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pessoas que

aparecessem ali seriam figurinhas insignificantes, todos os moradores da cidade

eram figurinhas insignificantes. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos

haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros. Os

mergulhos que meu pai me dava no poço da Pedra, a palmatória de mestre

Antônio Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revisão, a

impertinência macia do diretor, tudo virou fumaça. Julião Tavares estrebuchava.

Tanta empáfia, tanta lorota, tanto adjetivo besta em discurso — e estava ali,

amunhecando, vencido pelo próprio peso, esmorecendo, escorregando para o

chão coberto de folhas secas, amortalhado na neblina. Ao ser alcançado pela

corda, tivera um arranco de bicho brabo. Aquietava-se, inclinava-se para a

frente, os joelhos dobravam-se, o corpo amolecia. Eu tinha os braços doídos e as

mãos cortadas. Enquanto Julião Tavares estivesse com a cabeça erguida, a minha

responsabilidade não seria tão grande como depois da queda. Quando bebia

demais, seu Ivo tinha aquele jeito de arriar, não havia conversa que o levantasse.

A lembrança de seu Ivo enfureceu-me.

— Com os diabos!

E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por baixo de uns galhos de

árvore que aumentavam a escuridão.

— Com os diabos!

Sentei-me ao pé da cerca, enxuguei o suor que me corria pela testa. Cansado.

A mão direita doía-me horrivelmente, mas continuei a apertar com ela a corda

que a circulava. A mão esquerda estava livre. Levei-a ao bolso à procura de

cigarros, mas retirei-a logo. A figura de seu Ivo, bêbedo, encostado à parede,

voltou. Que horas seriam? As estacas da cerca magoavam-me as costas. Pareceu-

me inconveniente permanecer ali, mas não me veio a ideia de que houvesse

perigo. Necessário continuar a marcha. Continuar a marcha, evidentemente.

Fiquei sentado e mudei de posição, porque as estacas da cerca me feriam os

ombros. Como conduzir Julião Tavares, tão pesado? Não compreendi que devia

deixá-lo apodrecendo nas folhas, debaixo da árvore. Precisava transportá-lo, isto

não me saía da cabeça. Transportá-lo, sem dúvida. Apesar de não sentir medo,

percebia que era urgente retirar-me. Agucei o ouvido. Apenas o zum-zum dos

mosquitos. A lagoa próxima fervilhava de carapanãs. Como estaria Julião

Tavares? Procurei distingui-lo, avancei a cabeça para o lugar onde supunha ter

ele ficado. Um vulto quase imperceptível na escuridão leitosa. O rosto encostado

à terra, naturalmente. Como estariam os olhos dele? Os de seu Evaristo, que vi

de longe, esbugalhavam-se. E a boca se escancarava, mostrando a língua escura

e grossa. Provavelmente Julião Tavares tinha também os olhos muito abertos e o

queixo desgovernado.

— Mas que diabo estou fazendo aqui?

Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar em casa, dormir. Àquela

hora o marido de d. Rosália resfolegava, arranhava com a barba o couro amarelo

de d. Rosália. O marido de d. Rosália resfolegava como um bicho. E Julião

Tavares parado. Minutos antes andava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento

na cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca, estirado. Inconveniente

ficar ao lado dele. Inconveniente. As carapanãs zumbiam, voavam perto da minha cara, picavam-me as orelhas e as mãos escalavradas. Inconveniente.

Matos têm olhos, paredes têm ouvidos.

Quitéria, Rosenda e a prensa velha vieram-me à memória. Olhei os arredores,

tentei varar a escuridão.

Tudo invisível. A lagoa, povoada de carapanãs, invisível. Uma grande

fraqueza abateu-me, suor abundante ensopou-me a camisa. Passei a mão na cara

molhada, senti na pele a dureza da corda. Se viesse alguém?

— Recebeu cópia do libelo?

Os amigos de Julião Tavares iriam julgar-me. Pimentel e Moisés não eram

jurados. Que diriam os jornais? De seu Evaristo não tinham dito nada, dos

homens que apareciam mortos nos caminhos não diziam nada. Mas agora

falariam muito. Quem foi? Por que foi? Pimentel escreveria artigos horríveis.

Pus-me a discutir com Pimentel, gesticulei, uma das mãos bateu no corpo de

Julião Tavares. Encolhi-me, o suor aumentou na friagem da noite.

José Baía, velho e manso, dormia na esteira de pipiri, por baixo das cortinas

de pucumã. Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Seu

Evaristo era tão magro, tão cheio de fome, que um galho de carrapateira podia

sustentá-lo. Cirilo de Engrácia, morto, em pé, amarrado a uma árvore, parecia

vivo. Os cabelos compridos, caídos para a frente, escureciam-lhe o rosto feroz.

Só os pés estavam bem mortos, suspensos, os dedos para baixo. O frio

aumentava, comecei a bater os queixos como um caititu. Se alguém surgisse na

estrada, eu não teria coragem de fugir. Haveria pessoas ali perto? Julguei

perceber um ruído esquisito, mas provavelmente era apenas o eco das pancadas

dos meus dentes, que não descansavam. Tive a impressão de que os meus dentes

estavam longe, fazendo um barulho que se misturava ao zumbido irritante das

carapanãs. Apertei os queixos, mas as castanholas permaneceram, e veio-me a

certeza de que me havia tornado velho e impotente.

— Inútil, tudo inútil.

Mordi a manga do paletó. Os dentes continuavam a entrechocar-se, mas

produziam um som abafado. Mastiguei o pano, desejei recolher-me. Beberia um copo de cachaça, os dentes se calariam. Os relógios da vizinhança não me

deixariam dormir. Certamente Julião Tavares devia ficar ali deitado. Pensei em

ocultá-lo, enterrá-lo debaixo de uma camada de folhas. A ideia absurda de levá-

lo comigo para a cidade tinha desaparecido. Bem. Pus-me a afastar as folhas e a

cavar a terra com as unhas. A tentativa de fazer com os dedos uma cova para

enterrar um homem era tão disparatada que me levantei, receoso de tornar-me

idiota. Como estaria a cara de Julião Tavares? A figura que me veio ao espírito

foi a de Cirilo de Engrácia, terrível, amarrado a um tronco, os cabelos compridos

ensombrando o rosto, os pés suspensos, mortos. Pensei também em seu Evaristo,

curvado sob a carrapateira, como se preparasse um salto. Recuei

precipitadamente e bati com os ombros na cerca. Julião Tavares podia ficar

assim, pendurado a um galho, como um suicida. Acreditariam que ele fosse um

suicida? Acreditariam. Não acreditariam. Os jornais fariam escândalo,

publicariam o retrato da mocinha sardenta. Um rapaz desvairado, perfeitamente,

rapaz desvairado. Desembaracei a mão direita e numa das extremidades da corda

fiz um laço. Vinha-me afinal uma resolução. Entrei a mexer-me, com medo de

perdê-la. Se os pensamentos se sumissem? Se voltasse aquele marasmo?

— Tudo inútil.

Os dentes já não batiam. Curvei-me, procurando a cabeça de Julião Tavares.

Encontrei o chapéu caído, um braço, que soltei arrepiado porque nunca havia

tocado em cadáveres. A ideia de que Julião Tavares era um cadáver estarreceu-

me. Não tinha pensado nisto. Horrível o corpo imóvel, esfriando. Lá estava a

cabeça ainda morna. Enjoado, cuspindo muitas vezes, ergui-a, passei o laço no

pescoço. Prendi nos dentes a outra ponta da corda, subi à cerca, trepei-me num

galho da árvore. E comecei o trabalho de guindar o morto. A mão direita puxava

a corda, que se movia lenta por cima do ramo; do outro lado a mão esquerda

aguentava o peso do corpo. Moço desvairado. Duas tarjas grossas, uma no

princípio, outra no fim da página. Qualidades, Julião Tavares tinha muitas

qualidades. A literatura dele reproduzida nas folhas, em tipo graúdo.

Comentários. Por que foi? Como foi? Enterro complicado, automóveis, todos os automóveis da praça, bondes especiais. O discurso no cemitério, discurso

empolado. E o túmulo com uma coluna partida. Muitos túmulos com colunas

partidas. Colunas de mármore, colunas de cimento. Moço desvairado. Todos os

mortos importantes eram colunas partidas. Julião Tavares era uma coluna de

mármore, partida. O capitel no chão, esverdinhando-se.

O corpo subia. No princípio o esforço não era grande demais. A cada

movimento passavam no galho algumas polegadas da corda. Mas quando a

massa obesa se elevou, as dificuldades foram enormes para correrem uns

centímetros.

— Mais um pouco, mais um pouco.

Estas palavras não me deixavam. O corpo devia estar todo erguido, e os meus

ossos estalavam. O galho curvava-se. Ia quebrar-se, atirar-nos ao chão. Tudo

perdido. A polícia, a cadeia. Denunciar-me-ia no primeiro interrogatório.

Segurei-me à corda, com o intuito de amarrá-la. Desceria. Livre do meu peso, o

galho se elevaria, os pés de Julião Tavares ficariam suspensos como os de Cirilo

de Engrácia.

— Bem.

Apareceram vozes na estrada. Vozes? Ou seria que eu estava tresvariando?

Alucinação. Não queria acreditar que pessoas normais se avizinhassem de mim

sossegadamente. Agarrava-me com desespero à corda.

— Trinta anos de prisão, trinta anos de prisão.

As grades que a gente não pode tocar, tão nojentas são elas, as esteiras, as

cortinas de pucumã, os muros grossos, fome, sede, caldo de bacalhau, e nesta

miséria José Baía fabricando piteiras, pentes de tartaruga, objetos miúdos de

casca de coco.

— Vão-se embora. Vão-se embora. Não venham, que se desgraçam. Um

homem perdido não respeita nada.

O homem perdido ofegava apavorado. As vozes cada vez mais distintas,

grossas, finas. Machos e fêmeas. Certamente iam para a farra. Mentira, tudo

mentira. Eu não tinha trinta e cinco anos: tinha dez e estudava a lição difícil na sala de nossa casa na vila. A sala enchia-se de rumores estranhos que vinham de

fora e saíam das paredes. Provavelmente eram os sapos do açude da Penha. Não

eram sapos: eram homens e mulheres que se aproximavam. As palavras

tornaram-se claras. Alguém dizia:

— Deixa de luxo, minha filha. Será o que Deus quiser.

Não me lembro de outra frase. Risos, falas truncadas. O grupo foi-se

chegando, passou por baixo da árvore. Uma pessoa bateu em Julião Tavares e

resmungou: — “Desculpe.” A corda resvalou, recuou uns dez centímetros, com

certeza Julião Tavares curvou-se um pouco na escuridão. Eu repetia baixinho:

— Será o que Deus quiser.

Os meus dedos se imobilizavam, feridos, a corda molhada de suor ameaçava

correr sobre o galho, emborcar no chão úmido o corpo de Julião Tavares. Não o

poderia levantar outra vez, a polícia encontrá-lo-ia deitado nas folhas e iria

farejar-me.

— Trinta anos de prisão. Trinta anos de prisão.

O riso de uma das mulheres que tinham passado sob a árvore estalou a alguns

metros de distância. Estaria mangando de mim? mangando dos esforços que eu

fazia para recuperar os dez centímetros de corda? Senti que ia fraquejar, que a

corda continuaria a escorregar na madeira. Julião Tavares, inclinado para a

frente, balançava. Seu Ivo andava assim, zambeta, balançando, os olhos

vidrados, sem ver ninguém. Outras gargalhadas, longe. Seria a mulher que tinha

rido? Ou viriam outras pessoas falar debaixo da árvore, bater no ombro de Julião

Tavares, pedir-lhe desculpa? Não havia perigo, não havia perigo, entrei a repetir

baixinho que não havia perigo. Estava em segurança, escondido na folhagem,

enrolado no nevoeiro. Podiam passar, parar, tocar em Julião Tavares, que se

afastaria duro como uma marionete pesada demais.

— Não há perigo, nenhum perigo.

Não havia outra coisa. E pareceu-me falta de senso comum alguém rir

naquele lugar amaldiçoado. Por que amaldiçoado? Tanta importância! Eu e

Julião Tavares éramos umas excrescências miseráveis. As risadas zombeteiras extinguiam-se, distantes.

— Luís da Silva, Julião Tavares, isso não vale nada. Sujeitos úteis morrem de

morte violenta ou acabam-se nas prisões. Não faz mal que vocês desapareçam.

Propriamente, vocês nunca viveram.

Ia adormecer entre as folhas, com os braços estirados, afastando-me da

árvore para fazer contrapeso ao corpo de Julião Tavares. Apoiava-me à curva da

perna direita, presa ao galho. De quando em quando soltava a corda e ia pegá-la

mais abaixo. A mão esquerda aguentava o peso, os dedos estavam a ponto de

quebrar-se. Julião Tavares teria subido, ou a corda mergulhara no pescoço

balofo? Qualquer movimento à toa me faria perder o equilíbrio. Abria os olhos

desmedidamente, mas tinha medo de virar a cabeça para ver o corpo que se

alongava e emagrecia.

— Sobe, Julião Tavares. Para que serve essa resistência atrasada?

Uma lentidão de lesma. Subitamente notei que o corpo subia e balançava.

Passei rápido a corda pelo galho. Outra volta, outras voltas, um nó que me levou

o resto da energia, e fiquei ali arquejando, desmanchando-me em suor. Desejaria

achatar-me, confundir-me com as coisas moles e úmidas que os meus dedos

tinham esmagado sobre a casca da árvore. Agora os dedos seguravam mal aquele

suporte incômodo e oscilante. Enorme preguiça e enorme sono prendiam-me ao

galho. Creio que dormi uns minutos. Seria bom cair: talvez a queda sacudisse o

torpor e me restituísse a vontade necessária para entrar em casa e embriagar-me.

Embriagar-me, naturalmente. Teria dormido? Meus parentes sertanejos dormiam

montados, viajavam assim. Equilibrava-me não sei como. — “Currupaco,

papaco. A mulher do macaco...” Vitória sonhava com as moedas escondidas em

qualquer parte, depois que os canteiros tinham sido descobertos. Como me seria

possível alcançar outro ramo? Passando a outro ramo, estaria em segurança. Se

pudesse retirar-me dali... Tive a ideia extravagante de chegar à cidade andando

sobre as árvores.

— Em segurança, em segurança.

Evidentemente era preciso descer, mas isto me apavorava. Lá embaixo numerosos inimigos iam perseguir-me. Necessário descer. Soltar-me-ia, tombaria

como um macaco ferido. Os dedos inteiriçavam-se. Escancarei os olhos. O que

vi foi o corpo de Julião Tavares deformado pela escuridão. Balancei a cabeça,

encolhi-me com um arrepio, o receio de na queda tocar o corpo de Julião

Tavares. Não caí. Escorreguei na madeira molhada, abracei-me a ela. Uma

pancada no joelho, as pernas estrepando-se na cerca de pau a pique, um rasgão

nas calças. Dei um salto para trás e caí sentado nas folhas secas. A ideia do

perigo assaltou-me com tanta intensidade que me pus a soluçar. Tentei levantar-

me, as pernas vergaram. Arrastei-me chorando, apalpando o chão, a procurar

qualquer coisa. Procurava o chapéu, caído na luta, mas não sabia o que

procurava. As carapanãs esvoaçavam-me em torno da cabeça e picavam-me a

carne moída. Encontrei um chapéu, que não dava para mim, era pequeno demais.

Atirei para longe, cheio de repugnância, o chapéu de Julião Tavares. Continuei a

engatinhar, já agora sabendo perfeitamente que procurava o meu chapéu. Achei-

o, mas ficou-me a dúvida de que fosse o mesmo experimentado minutos antes.

Não se acomodava bem na minha cabeça. Rastejei ao longo da cerca. Alguns

metros que me afastasse representavam uma conquista. Estava aborrecido com

Moisés. Que me havia feito Moisés? Não me lembrava de nada, mas era certo

que o judeu me pregara uma peça. Pareceu-me que ele rondava por ali,

mangando de mim. Rastejando como as cobras! Nova tentativa e consegui

levantar-me, lá fui caminhando lentamente, amparado à cerca. Faltou-me de

repente o amparo, andei como uma criança que ensaia os primeiros passos. Se

pudesse correr... Evidentemente o perigo crescia. Quantos metros teria

percorrido? Estava certo de que homens e mulheres me acompanhavam. Tinham

passado por baixo da árvore, visto o homem enforcado, iam encontrar-me e

denunciar-me. A gargalhada e a frase da mulher atenazavam-me.

— Será o que Deus quiser, sem dúvida.

Um, dois, um, dois. Inútil. Não podia marchar. Um aleijado, um velho. Mais

cem metros, e talvez fosse a salvação. Horrível atravessar os espaços iluminados.

Se alguém desembocasse de uma travessa e me reconhecesse? Desejava olhar para trás. Impossível. Consegui reunir uns restos de força e correr. Uma carreira

bamba e trôpega, a boca aberta, contrações na carne enregelada. Corria e

chorava, certo de que o esforço era perdido, porque o meu chapéu tinha ficado à

beira do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passaria de mão em mão e

chegaria à minha cabeça.

— Trinta anos de cadeia.

Que utilidade tinha aquela carreira desengonçada e trêmula? Se me vissem

correndo e chorando ali nos fundos dos quintais? Precisava parar, mas as pernas,

levadas pelo medo, não quiseram obedecer. Insuportáveis os zumbidos e as

ferroadas das carapanãs. Um chapéu muito pequeno. Dei um tropeção e estaquei.

Para que lado me dirigia? Ia para a cidade ou voltava para Bebedouro?

Inteiramente desorientado. Teria de passar outra vez pela árvore onde Julião

Tavares se balançava? Vagar a noite inteira, como um judeu errante! Continuei a

andar. Bem. Se me encaminhasse a Bebedouro, voltaria pela rodagem, entraria

em casa antes de amanhecer. Apareceram luzes, as carolinas que enfeitam o

canal, os eucaliptos da Levada. Avancei lentamente até o bueiro, sentei-me.

Estava ali um vagabundo, que acordou com a minha chegada. Eu ia perseguido

por criaturas inexistentes, mas a presença daquele vagabundo não me produziu

medo.

— Boa-noite.

A voz saiu-me abafada e incerta. Julião Tavares estava longe. Sacudi a

cabeça para esquecê-lo e para afugentar as carapanãs. Exausto. Descansaria,

entraria em casa dentro de alguns minutos, beberia aguardente, dormiria. A

garrafa tinha ficado quase cheia. Embriagar-me, dormir. Tentei cruzar as mãos

sobre os joelhos, mas os dedos feridos endureciam e qualquer contato era

extremamente doloroso. Sem nenhum receio, dava as costas ao maloqueiro,

escondia a cara instintivamente. As mãos grossas esquecidas nos joelhos

pesavam em demasia. Levei-as aos bolsos, senti a ausência dos cigarros e a

ausência da corda.

— Faz favor de me dar um cigarro?

O homem remexeu-se:

— Hum!

— Há muitas horas que não fumo. Para quem tem vício... Desculpe. É a peste

do cigarro que me faz falta. O senhor terá um por acaso?

Olhei-o com um olho por cima do ombro, vi-o levantar a cabeça e bulir nos

molambos.

— Realmente... É isso mesmo. Eu estava dormindo.

Depois de uma busca demorada, grunhiu:

— An! Tome lá.

Estirei a mão ensanguentada e recebi o cigarro de fumo picado que se

desmanchava:

— Muito obrigado.

Encontrei a caixa de fósforos, comecei a fumar. A cabeça pesada parecia ter

crescido. Tirei o chapéu, examinei-o. Tive um suspiro de alívio: era o meu, todo

machucado e sujo de lama. Pus-me a esfregá-lo com a aba do paletó.

— Muito obrigado. Sinto muito dar-lhe incômodo.

— Hem?

Esta exclamação mostrou-me que o homem havia percebido em mim um

animal diferente dele. As luzes da Nordeste cochilavam. Olhei a minha roupa.

Estava imunda, com um rasgão no joelho, desarranjado. Mas usava palavras de

gente bem-vestida. — “Sinto muito dar-lhe incômodo.” Para que tapeação?

Queria fumar. Bem. Voltariam as forças.

— Dorme aqui sempre?

O homem virou-se e enrolou-se mais nos molambos. Arrependi-me de ter

feito a pergunta. Horríveis aqueles modos. Devia muito ao vagabundo. Chegaria

a casa facilmente, beberia, dormiria, esqueceria Julião Tavares.

— Não tive intenção de ofendê-lo. Foi uma palavra à toa. O senhor me

desculpa. Fazia horas que não fumava. Um grande favor, entende? Muito

obrigado.

As minhas frases eram convencionais e não valiam o cigarro que se apagava a cada instante.

— Eu estava dormindo, respondeu o maloqueiro. Não tem de quê. Foi

incômodo não. Boa-noite.

Remoeu umas coisas guturais e começou a roncar. Impossível qualquer

aproximação. O isolamento em companhia de uma pessoa era mais opressivo

que a solidão completa. Parecia-me que aquele homem estava morto. Esta ideia

afligiu-me tanto que desejei sacudi-lo, conversar com ele, explicar-me,

convencê-lo de que estava agradecido.

— Diabo! murmurei. Eu também fui vagabundo, dormi nos bancos dos

jardins e curti fome, mas nunca fui assim grosseiro.

Esqueci o benefício recebido, e novamente me surgiu a ideia de que o

homem estava morto. Levantei-me, entrei na rua do Apolo. O rasgão mostrava-

me a cabeça do joelho, o colarinho tinha-se desprendido da camisa, a roupa

estava preta de limo e terra, as mãos estavam pretas de limo, terra e sangue. Se

alguém me visse em semelhante desordem... O cigarro de fumo picado findava, a

ponta colava-se aos beiços e queimava-os. Precisava entrar em casa.

Aproximava-me, e não tinha certeza disto. As distâncias desapareciam. O galho

que sustentava Julião Tavares balançava por cima do bueiro, e Julião Tavares

confundia-se com o homem que me havia oferecido o cigarro. Um, dois, um,

dois. Agora podia marchar. Com algumas pernadas estaria em casa, mas a casa

se afastava sempre. Veio-me um desânimo extraordinário. Quase a chegar,

depois de esforços imensos, ia ser descoberto e agarrado. Um transeunte notaria

o desarranjo da roupa, a gravata fora do lugar, o rasgão no joelho.

— Onde passou a noite de tal dia?

— Em casa, na redação.

Perceberiam logo a mentira. Em seguida viriam perguntas insignificantes em

tom misterioso, e eu me cansaria inutilmente para desviar-me delas. Quando

estivesse distraído, jogariam de novo a coisa perversa:

— Mas onde foi que o senhor passou a noite de tal dia?

A testemunha, que me havia encontrado com um rasgão no joelho e o colarinho desabotoado, arrumaria o seu depoimento de cabeça baixa, em poucas

palavras para não cair em contradição. Quem seria o advogado? O dr. Fulano, o

dr. Sicrano... Esses falavam de papo e tinham recursos para inutilizar o

depoimento:

— Que horas eram quando o senhor viu o acusado?

— Três horas.

Quinze minutos depois a mesma pergunta.

— Quatro horas.

O escrivão registraria as duas respostas, a testemunha atordoada não se

Continuar: parte 8 de 8