Angústia

Graciliano Ramos · Capítulo 4 de 11 · parte 5/8

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Angústia

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

filhas. D. Mercedes sentava-se num camarote fronteiro, não bem fronteiro, um

pouco de esguelha, e não se exibia demais.

Se Pimentel aparecesse, talvez me arranjasse o ingresso do jornal. Ou um

empréstimo. Dentro de cinco dias, seis quando muito, o tesouro pingaria o

ordenado da gente.

— Daqui a dez anos terei esse ordenado?

E Julião Tavares? Julião Tavares estaria expatriado, fuzilado ou enforcado.

Enforcado, Julião Tavares enforcado. Marina deixaria de pintar as unhas e iria

trabalhar no asilo das órfãs.

Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Lembrava-me dos leilões em que se cavava

dinheiro para um santo, diante da igreja da vila. — “Vinte mil-réis me dão por

esta prenda...” O olho de vidro de padre Inácio, imóvel na órbita escura, tinha

uma dureza sinistra.

Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Não haveria leilões, não haveria santos, Marina

trabalhando no asilo das órfãs, Julião Tavares enforcado, padre Inácio morto

muitos anos antes.

Àquela hora a plateia começava a encher-se, um garoto dizia pilhérias, as

cantoras pintadas e empaca-viradas em mantos compridos entravam pela

portinhola da caixa. Mantos pretos. Pareceu-me que os mantos deveriam ser

pretos, mas não pude saber por que me vinha esta ideia.

Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Padre Inácio cravava nos ofertantes o olho duro

e imóvel, andava em torno da mesa com as mãos atrás das costas, todo preto.

Um empréstimo, era o que me valia. Pensei nas minhas entrevistas com

Marina, alta noite, no quintal. Certamente ela havia esquecido aquilo, mas eu me

lembrava de tudo muito bem. As formigas rendilhavam as folhas. Um grilo

saltava no canteiro. A iluminação da cidade chegava ali muito reduzida. Quase

não tínhamos necessidade de roupa. — “Vamos entrar, meu coração.” As luzes

se tinham apagado e eu conseguira que Marina se despisse. Beijara-a da cabeça

aos pés, sentira nos beiços os carocinhos que se formavam na pele macia. Ela

curvava-se e cobria os peitos com as mãos. Olhava-a e apenas distinguia uma

sombra que se torcia junto ao tronco da mangueira. Parecia-me que Marina

estava vestida de preto.

Ali, perto da raiz, ao pé da cerca, no canteiro das alfaces, escondia-se a

fortuna de Vitória. Aqueles pontos me eram familiares, seria capaz de encontrá-

los com os olhos fechados.

Tempo sem fim à janela, olhando os automóveis que passavam para o teatro.

Ainda passavam alguns. Bem. A representação ainda não tinha começado.

Vinte mil-réis. Cinco ou seis dias depois pagaria, com juro de cento por

cento. Daria cento por cento ao velho Abraão. Uma semana de prazo. Pimentel não aparecia, Moisés não aparecia.

Com certeza a plateia estava quase cheia, seria difícil encontrar cadeiras

perto da orquestra. — “Letra D, letra F” — “Acabaram-se. Só há de S para trás.”

Marina passeava o lorgnon pelos camarotes, indiferente, e os rapazes abotoavam

para ela os olhos gulosos. D. Mercedes mordia os beiços com despeito. Julião

Tavares, apertado no smoking, parecia menos gordo. Dentro de alguns anos

estaria enforcado, mas agora estava bem vivo. E na camisa branca, sem uma

dobra, as pedras dos botões faiscavam, no dedo grosso o rubi faiscava, a gola do

smoking faiscava.

Entrei desanimado, fui debruçar-me à janela da sala de jantar. Vitória pôs a

xícara, o açucareiro e a garrafa térmica sobre a mesa, foi deitar-se. Ouvi o rumor

da chave na fechadura, depois o resmungar de orações e o chocalhar das contas

do rosário. Em seguida houve silêncio. Os olhos de um gato passaram por cima

do muro de d. Rosália. Currupaco mexeu-se na gaiola e bateu as asas.

Uma ação indigna. Perfeitamente, ação indigna, mas não ousei confessar a

mim mesmo qual era a ação, qual era a indignidade. Horrível fixar aquilo no

pensamento. Não queria pensar.

A casa devia estar cheia, o homem da bilheteria cochilava. Um olho, no

palco, observava a plateia por um buraco do pano de boca. Marina bocejava por

detrás do leque, Julião Tavares amolava-se.

Afinal Vitória encontrava sempre moedas minhas no chão quando varria a

casa. Depois elas apareciam em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, debaixo

dos travesseiros, mas antes tinham estado ocultas naqueles lugares que eu

conhecia bem. Muito provável que a velha se enganasse nas contas e deixasse

algumas lá enterradas. Natural estarem ali vinte mil-réis meus. Indignei-me com

a pobre e entrei a descompô-la mentalmente:

— Ladra! Estar um homem em dificuldade por causa de vinte mil-réis, uma

porcaria, e saber que essa miserável esconde as economias dele, economias

suadas, em buracos no chão.

Decidi-me a ir pisar mais uma vez a terra que Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da mangueira, onde ela estivera nua, enrolada na escuridão,

torcendo-se e mordendo os braços para não gritar por causa dos beijos que eu lhe

dava na barriga e nas coxas. Desci os degraus. Na porta do banheiro meti o pé

numa poça.

Julião Tavares seria enforcado. Marina trabalharia no asilo das órfãs.

Perfeitamente, era ali que ela havia tirado a camisa uma noite. Agora estava

embrulhada em roupa comprida, o lorgnon insultando as mulheres dos outros

camarotes. O pano já se tinha levantado, Fígaro e Almaviva se escondiam perto

da janela de Rosina, o dr. Bartholo fechava a porta. Marina olhava a cena com

fastio.

Meses atrás estava ali no escuro, nua, o corpo todo coberto de carocinhos

miúdos como pontas de alfinetes. Inteiriçava-me, rangia os dentes, pisava com

raiva o chão que escondia o tesouro de Vitória. Debaixo das solas dos meus

sapatos, a alguns centímetros de profundidade, estavam as moedas que eu

precisava. Raspar um pouco a terra, mergulhar a mão, agarrar um punhado delas.

Os olhos do gato brilharam outra vez em cima do muro de d. Rosália e

ficaram parados, redondos e fosforescentes. Pensei na datilógrafa que tinha

desaparecido. Talvez estivesse doente. Ou morta. Franzina, com aquele peitinho

estreito, batendo na máquina.

Mexia-me, e não podia desviar os olhos das duas tochas que me espiavam

por cima do muro. Sentia os torrões se esfarelarem sob as solas dos sapatos,

quase que ouvia o tilintar das moedas. Soaram pisadas perto. Encolhi-me e

acocorei-me, receando que alguém trepasse o muro e viesse reforçar a

espionagem do gato. Estava cheio de atrapalhação e vergonha. Uma ação

indigna. Procurava afastar esta ideia pensando em Marina, imaginando-a vestida

de preto. Um manto impalpável que eu atravessava com as mãos e com os

beiços.

D. Basílio comparava a calúnia a um incêndio. Que fazia Marina, chateada,

bocejando por detrás do leque? Só para se mostrar, só para mostrar a roupa e o

lorgnon. Amolada, sonolenta. Julião Tavares também estava amolado e sonolento. D. Basílio descrevia o incêndio, acompanhando com as mãos o

movimento das labaredas. A princípio eram chamas fracas, e d. Basílio, para

segui-las, baixava-se, estava quase encostando as mãos no soalho.

As minhas mãos encontraram-se esgaravatando a raiz da mangueira.

— Que miséria! Que miséria!

Repetia as palavras como um idiota, olhando as duas brasas imóveis em cima

do muro. Mas os dedos continuavam a remexer os torrões. Cavando a terra com

as unhas, como um gato!

— Que miséria! Que miséria!

Umidade pegajosa corria-me pelos braços, molhava a camisa. Cinco dias,

seis dias depois, receberia o dinheiro no tesouro. Receberia o dinheiro, trocaria

uma cédula por pratas e deitaria ali as moedas, com acréscimo de cento por

cento. Se Moisés tivesse aparecido... Moisés e Pimentel só apareciam quando

não eram necessários. Restituiria as moedas com aumento. Considerei que

Vitória não se assemelhava ao tio de Moisés. Vitória não tinha a paixão do lucro:

apenas guardava enterrado o dinheiro ganho. E queria que, muito ou pouco, ele

estivesse ali em segurança. A ideia de que ela ia surgir, resmungando, arrastando

os pés reumáticos, paralisou-me os dedos. Surpreendi-me a dizer e a repetir em

voz baixa:

— O dinheiro foi feito para circular.

Com certeza Vitória estava dormindo, sonhando com os navios e com o

Currupaco. Os olhos do gato cresciam, cresciam extraordinariamente,

iluminavam o quintal todo.

— Sim ou não. Sim ou não. É estúpido, absolutamente estúpido. Afinal o

dinheiro foi feito para circular.

Lembrei-me do jogo das crianças. Cara ou cunho? Se desse cara, sim; se

desse cunho, não. Mergulharia a mão na terra úmida, tiraria uma moeda,

acenderia um fósforo. Se saísse cunho, iria deitar-me, não tornaria a ver Marina.

Tantos tormentos por causa de uma fêmea! Dormir, dormir. Senti as pálpebras

pesadas; julgo que, fascinado pelos olhos do gado, deixei a cabeça inclinar-se num cochilo. Se saísse cara, acabaria depressa com aquilo e iria ao teatro. Tinha

quase a certeza de que, indo ao teatro, tudo se arranjaria: Marina voltaria para

mim, Julião Tavares se achataria, se desagregaria, como um pouco de azeite em

água corrente. Meter a mão na terra, agarrar um dobrão do império, riscar um

fósforo. Afastei a ideia. Que lembrança! Bastavam as luzes medonhas dos olhos

do gato. Acabar depressa, acabar depressa. Não era nenhum selvagem para

adotar recursos infantis. Sim ou não. Um homem livre. Perfeitamente, um

homem livre de superstições. Comecei a cavar a terra com desespero, ralando os

dedos. Estava decidido. Pronto! Seis dias depois colocaria no buraco o duplo da

quantia retirada.

— Nenhuma ação indigna. Nenhuma ação indigna.

Continuei a aprofundar a cova com as unhas, como um gato. Restituiria o

dinheiro com acréscimo de cento por cento. Um roubo. Roubaria de mim mesmo

para aumentar o tesouro da ladra. Sobressaltei-me. Se as moedas não estivessem

ali? Se a velha as tivesse transportado para outro lugar? Revolvi apressado a

terra mole. Chegaria a tempo de alcançar o segundo ato? Agora não sentia

vergonha: indignava-me por causa da hesitação que tinha consumido uma

eternidade. Um homem livre, sem dúvida. O que me incomodava era o gato. Se

não fosse o receio de fazer barulho, atiraria um punhado de torrões no animal.

As tochas desapareceriam, eu me tranquilizaria.

Até que enfim! Lá estavam elas debaixo dos dedos: dobrões enormes da

colônia, peças menores e mais fornidas, da monarquia, rodelas atuais, de dez

tostões e de dois mil-réis. Apanhei vinte destas últimas. Vinte mil-réis, ou mais,

que Vitória não ia enterrar níqueis. Fechei a cova, fui ao banheiro lavar as mãos

e as moedas. Esfreguei-as, enxuguei-as com o lenço. E fugi, atravessei a casa,

abri a porta da rua. Alcançaria o fim do segundo ato ou o princípio do terceiro.

Lembrei-me de contar o dinheiro. Desdobrei o lenço, examinei as moedas ainda

úmidas. Vinte e seis mil-réis em prata e duas libras esterlinas. Tomei o chapéu,

desci a calçada. Como diabo teria Vitória conseguido agadanhar aquele ouro?

Pus-me a andar lentamente, a pressa havia desaparecido. Atônito, o lenço com as pratas na mão esquerda, as duas libras na direita, avizinhei-me da praça.

Tinha repugnância de meter as moedas no bolso. Olhei os dedos com atenção,

cheirei-os. Fedor de azinhavre, terra nas unhas. Porcaria. Esfreguei as mãos no

lenço molhado.

Era necessário livrar-me do dinheiro. Pensei em voltar, afrontar de novo os

olhos do gato. Um engraxate ambulante olhou-me os pés e bateu na caixa. Onde

guardaria aquilo? Já perto do teatro parei, meio aliviado. Baixei-me e escondi

num sapato as duas libras esterlinas. As pratas ficaram envolvidas no lenço.

 

. . .

 

Introduzi perturbações muito sérias numa vida. Quando recebi o ordenado,

obtive no café cinquenta e dois mil-réis em prata. Vitória fazia

inconscientemente ótimo negócio. Juro de cento por cento. À noite juntei a isso

as duas libras esterlinas e, tarde, quando houve silêncio, pus tudo sob a raiz da

mangueira. Infelizmente coloquei as moedas empilhadas, como num cartucho,

posição diferente da que tinham as que lá estavam. Suponho que isso provocou a

desconfiança de Vitória.

No dia seguinte paguei o salário dela. E via-a, como todos os meses, andar

numa agitação, trocando as cédulas, sumindo-se à noite em viagens ao quintal.

Mas a confusão, que ordinariamente dura três, quatro dias, desapareceu logo e

foi substituída por um abatimento que me causou grande mal-estar. Ouvia-a uma

noite inteirinha contar dinheiro. Como já disse, ela pensa em voz alta. O metal

tilintava em cima da cama da velha, e os números se acumulavam numa soma

infindável, sempre emendada. Às vezes a chave rangia na fechadura, a porta

abria-se, tornava a fechar-se, abria-se a da sala de jantar, os passos pesados

desciam os degraus. Meia hora depois a mulher voltava, as moedas tiniam

novamente em cima da cama. Outro sumiço. Eu adormecia, mas o ferrolho da

sala de jantar e a fechadura do quarto próximo acordavam-me. O solilóquio e os tinidos tiravam-me o sono.

Levantei-me cedo e encontrei Vitória muito velha e muito bamba. Deixava-se

cair a um canto da cozinha, e era difícil arrancar-se dali. Interrompeu as idas ao

quintal e abandonou as lições ao Currupaco. Notei que as covas estavam

revolvidas e mal cobertas.

— Vitória!

Tinha vergonha de chamá-la, temia que ela me pregasse os olhos brancos e

cansados, cheios de aflição.

— Vitória!

Estava sentada, encolhida, movendo em silêncio os beiços moles. E quando

levantava a cabeça, mostrava no rosto uma suspeita agoniada. Se ela andava com

as suas contas em ordem, certamente se espantava de haver achado em um dos

buracos vinte e seis mil-réis a mais; se as contas não estavam em regra, talvez se

julgasse roubada. E Vitória engolia em seco, olhava o Currupaco ansiosa, numa

interrogação desalentada que fazia pena.

— Vá descansar, Vitória. Você está doente.

Não podia descansar, e a minha piedade era inútil. Levei o desespero a uma

alma que vivia sossegada. Toda a segurança daquela vida perdeu-se. A linha

traçada do quarto à raiz da mangueira, uma linha curta que os passos trôpegos e

vagarosos percorriam na escuridão, fora de repente cortada.

— Vá descansar, Vitória.

Conselho inútil. O céu de Vitória, miudinho, onde grilos e formigas

moravam, tinha sido violado.

 

. . .

 

As visitas de Julião Tavares foram escasseando e a alegria ruidosa de Marina

pouco a pouco desapareceu. Havia grande silêncio na casa vizinha. Seu Ramalho

estava contente.

— Parece que a tonta criou juízo.

— Acha? Perguntei incrédulo.

— É cá uma ideia. Essa gente moça desembesta e faz tolice. É o sangue. Mas

um dia acerta a pisada.

D. Adélia andava com a cara comprida e o nariz vermelho, assoando-se e

soltando longos suspiros. Uma tarde encontrei Marina engulhando junto ao

mamoeiro. Eram arrancos que a sacudiam toda, a faziam torcer-se agarrada ao

tronco, o rosto contraído, muito descorado. Não me viu e entrou em casa

cuspindo.

— Que terá ela? disse comigo sem atinar com o motivo dos engulhos, da

palidez e das cusparadas.

— An! Estava feia. Bem. Estava feia demais, amarela, torcendo-se,

enxugando na manga a cara molhada de suor, tentando vomitar, cuspindo à toa

na roupa.

— Ótimo!

Onde andavam os vestidos caros, as tintas, os tremeliques e os modos

insolentes que escandalizavam d. Rosália? Estava ali com os músculos da cara

repuxados, fechando os olhos, agitando a cabeça como uma lagartixa.

— Que diabo tem ela?

Desgovernada, cuspindo-se.

— Ótimo! Está muito bem assim. Que se lixe.

 

. . .

 

Uma criatura dissipou as fumaças mesquinhas de vingança, uma figura que

apareceu numa esquina e logo se sumiu, mas que me ficou profundamente

gravada na cabeça.

Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente!

Vamos andando sem nada ver, o mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. Não sei se com os

outros se dá o mesmo. Comigo é assim. Caminho como um cego, não poderia

dizer por que me desvio para aqui e para ali. Frequentemente não me desvio — e

são choques que me deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o chapéu,

faz-me um calombo na testa; a calçada foge-me dos pés como se se tivesse

encolhido de chofre; o automóvel para bruscamente a alguns centímetros de

mim, com um barulho de ferragem, um raspar violento de borracha na pedra e

um berro do chauffeur. Entro na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-

me. — “Perdão! Perdão!” digo às pessoas que me abalroam porque não me

afastei do caminho. As pessoas vão para os seus negócios, nem se voltam, e eu

me considero um sujeito mal-educado. Tenho a impressão de que estou cercado

de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa

em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado

mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos

que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e

terrível. Raramente percebo qualquer coisa que se relacione comigo: um rosto

bilioso e faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de gente nova que

deseja ir para a cama, um choro de criança perdida. Às vezes isso me perturba,

tira-me o sono. Se o marido de d. Rosália está presente, é o que já se sabe; se não

está, penso nos namorados que se atracam junto a uma vitrina, em posição

incômoda, no operário que tem fome e ameaça o patrão, na criança que chora

perdida, chamando a mamãezinha. Tudo foi visto ou ouvido de relance, talvez

não tenha sido visto nem ouvido bem, mas avulta quando estou só — e distingo

perfeitamente a criança, o operário faminto, os namorados que desejam deitar-se.

Eles me invadiram por assim dizer violentamente. Não fiz nenhum esforço para

observar o que se passava na multidão, ía de cabeça baixa, dando encontrões a

torto e a direito nos transeuntes. De repente um grito, uma palavra amarga, um

suspiro — e algumas figuras se criaram, foram bulir comigo na cama.

A pessoa a que me referi surgiu de supetão entre a rua 1º de Março e a rua do

Comércio. Eu ia dobrar a esquina, ela vinha em sentido contrário — e foi uma colisão feia. A aba do meu chapéu de palha bateu-lhe na testa, provavelmente

feriu-a.

— Perdão! Perdão!

Dei um passo para trás e distingui uma criatura enorme que também havia

recuado com o choque e estava diante de mim, a mão cobrindo um dos olhos,

onde tinha batido a aba do chapéu. O olho descoberto, os beiços contraídos, as

rugas da cara, exprimiam espanto, raiva e dor. Encostei-me à parede, deixei-a

passar. Foi um tempo insignificante, mas deu para vê-la da cabeça aos pés. Um

minuto depois tinha desaparecido, a banda do rosto crispada, o olho disponível

voltado para mim com um brilho de ódio. O espaço que ocupara na calçada era

atravessado por outros corpos que iam e vinham, sem me despertar interesse.

Mas a imagem do primeiro corpo vivia em mim. Era uma mulher gorda,

amarela, malvestida, com uma barriga monstruosa. Não sei como podia andar na

rua conduzindo aquela gravidez que estava por dias. A saia, esticada na frente,

levantava-se exibindo pernas sujas e inchadas. Os pés, sujos e inchados,

cresciam demais nos sapatos cheios de buracos. Com uma das mãos segurava o

braço de uma criança magra e pálida, com a outra escondia o olho e um pedaço

da cara. Eu encostava-me à parede, resmungando atrapalhado:

— Perdão! Perdão!

Findo o primeiro momento, aquela figura me provocara cócegas na garganta

e um desejo idiota de rir. A barriga disforme resistia ao pano desbotado que

tentava contê-la e empinava-se, tinha uma forma agressiva. Estava ali um

cidadão que, antes de nascer, ameaçava a gente. A mãe, que só tinha uma banda

de rosto, torcia-se por causa da pancada recebida e cravava-me um olhar duro, a

metade de um olhar irritado e cheio de sofrimento.

— Perdão! Perdão!

Subitamente as cócegas desapareceram, a vontade de rir morreu, e atentei

vexado naquela barriga enorme que me provocava. A roupa esgarçava-se,

desbotada, fuxicada e remendada; os pés, metidos à força nos sapatos furados,

pareciam bolos. Dera, recuando, um puxão na criança, que se pusera a chorar. Nenhuma palavra, apenas uma interjeição de dor e raiva, grito rouco,

perfeitamente selvagem. Com certeza já vinha recebendo encontrões, e aquele,

demasiado rude, lhe esgotara a paciência. Andar no meio da multidão, aos

emboléus, com semelhante barriga! Só muita necessidade.

Era o tipo da mulher de subúrbio mesquinho, que varre a casa, lava as

panelas e prega os botões com as dores do parto, pare sozinha e se levanta três

dias depois, vai tratar da vida. Vida infeliz, vida porca. O homem para um lado,

ela para outro, arrastando a filha pequena, a barriga deformada, estazando-se,

aguentando pancadas nos olhos. Talvez estivesse na véspera de ter menino,

talvez estivesse no dia, talvez já sentisse as entranhas se contraírem. Rebolar-se-

ia dentro de algumas horas na cama dura, a carne cansada se rasgaria, os dentes

morderiam as cobertas remendadas. E o macho ausente, ninguém para ir chamar

a parteira dos pobres. Uma vizinha tomaria conta da casa, faria o fogo,

prepararia tisanas, aos repelões, rosnando:

— Porcaria. Que gente!

Depois ofereceria consolações:

— Tenha paciência. Isso vai logo. Faça força.

A mulher tinha desaparecido, a banda do rosto passara cravando-me o olho

carregado de ódio. Eu não sentia desejo de rir. Na calçada um ventre

extraordinário ia inchando, ventre que tomava proporções fantásticas. Os

transeuntes atravessavam aquela barriga transparente, às vezes paravam dentro

dela, e isto era absurdo, dava-me a ideia de gestações extravagantes.

Agora havia duas imagens distintas: uma barriga que se alargava pela cidade

e a mulher que mostrava apenas um pedaço de cara. Nessa parte visível,

endurecida pelo sofrimento, pouco a pouco se esboçavam as feições de Marina.

Os cabelos, que a mulher tinha grisalhos, tornavam-se louros. A bochecha era

pintada, a metade da boca excessivamente vermelha, o olho único muito azul.

Eu fervia de raiva. Se tivesse encontrado Julião Tavares naquele dia, um de

nós teria ficado estirado na rua.

. . .

 

Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando

maluqueiras, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no

cimento. Tomo uma xícara de café às seis horas e entro no banheiro. Saio às oito,

depois das oito. Visto-me à pressa e corro para a repartição. Enquanto estou

fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço

um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros

me defendem. O diretor olha-me com raiva, mas sei perfeitamente que aquilo é

ciúme e não me incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me repreender

por causa da informação errada, compreenderei que se zanga porque o meu livro

é comentado nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado. Um sujeito

me dirá:

— Meus parabéns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Está

aqui a opinião dos críticos.

— Muito obrigado, doutor.

Abro a torneira, molho os pés. Às vezes passo uma semana compondo esse

livro que vai ter grande êxito e acaba traduzido em línguas distantes. Mas isto

me enerva. Ando no mundo da lua. Quando saio de casa, não vejo os

conhecidos. Chego atrasado à repartição. Escrevo omitindo palavras, e se

alguém me fala, acontece-me responder verdadeiros contrassensos. Para limitar-

me às práticas ordinárias, necessito esforço enorme, e isto é doloroso. Não

consigo voltar a ser o Luís da Silva de todos os dias. Olham-me surpreendidos:

naturalmente digo tolices, sinto que tenho um ar apalermado. Tento reprimir

essas crises de megalomania, luto desesperadamente para afastá-las. Não me dão

prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente passam-se meses sem que isto me

apareça.

De ordinário fico no banheiro, sentado, sem pensar, ou pensando em muitas

coisas diversas umas das outras, com os pés na água, fumando, perfeitamente Luís da Silva. Uma formiga que surge traz-me quantidade enorme de

recordações, tudo quanto li em almanaques sobre os insetos. Agora não há

nenhum livro traduzido, nenhuma vaidade. Olho a formiga. Quando ela vai

entrar no formigueiro, trago-a para perto de mim, faço no chão um círculo com o

dedo molhado, deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a e penso

nos costumes dela, que vi nos almanaques.

O banheiro da casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por uma parede

estreita. Sentado no cimento, brincando com a formiga ou pensando no livro,

distingo as pessoas que se banham lá. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e

bate a porta com força. Molha-se com três baldes de água e nunca se esfrega.

Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto. D. Adélia vem docemente,

lava-se docemente e canta baixinho: — “Bendito, louvado seja...” Marina entra

com um estouvamento ruidoso. Entrava. Agora está reservada e silenciosa, mas

o ano passado surgia como um pé de vento e despia-se às arrancadas, falando

alto. Se os botões não saíam logo das casas, dava um repelão na roupa e largava

uma praga: — “Com os diabos!” Lá se iam os botões, lá se rasgava o pano.

Notavam-se todas as minudências do banho comprido. Gastava dez minutos

escovando os dentes. Pancadas de água no cimento e o chiar da escova,

interrompido por palavras soltas, que não tinham sentido. Em seguida mijava. Eu

continha a respiração e aguçava o ouvido para aquela mijada longa que me

tornava Marina preciosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de

esperar aquele momento e dedicar a ele uma atenção concentrada. Quando

Marina se desnudou junto de mim, não experimentei prazer muito grande.

Aquilo veio de supetão, atordoou-me. E a minha amiga opôs uma resistência

desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os peitos com as mãos, e não

havia meio de estar quieta. Agora arrancava os botões, praguejava, escovava os

dentes, mijava. Abria-se a torneira: rumor de água, uns gritinhos, resfolegar de

animal novo. A torneira se fechava — e era uma esfregação interminável.

— Para casa, Marina, bradava d. Adélia. Acabe com isso. Você gasta o sabão

todo.

Marina dava um muxoxo, e o movimento das mãos friccionando a pele macia

continuava.

— Baixe o fogo, Marina. Venha para casa.

A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia um gluglu que me

excitava extraordinariamente. Parecia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a

em carne viva, toda vermelha. Imaginava-a branquinha, coberta de uma pasta de

sabão que se rachava, os cabelos alvos, como uma velha. Essas duas imagens me

davam muito prazer. Queria que aparecesse a Julião Tavares assim encarnada e

pingando sangue, ou encarquilhada e decrépita, os pelos do ventre como um

capulho de algodão. A torneira se abria. Lá estava Marina outra vez nova e

fresca, enchendo a boca e atirando bochechos nas paredes, resfolegando,

sapecando frases desconexas.

Nunca tive o desejo de vê-la nesse estado. No alto da parede há um tijolo

deslocado que se pode retirar facilmente. Pondo um caixão na beira do tanque,

ser-me-ia possível afastar o tijolo e distinguir o corpo de Marina. A experiência

não me tentou. O esforço necessário para manter-me em equilíbrio reduzir-me-ia

a atenção. E eu não queria vê-la despida sem o consentimento dela. Contentava-

me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse. Poderia daqui palestrar

com ela no tempo em que éramos amigos. Teríamos a impressão de que nos

banhávamos juntos. Mas a minha amiga ficaria limitada pelas conveniências,

armando frases, procurando ser amável. O que me encantava eram aqueles

modos de garota estabanada, as palavras soltas à toa, pedaços de cantigas, o

gluglu da espuma e a mijada sonora.

Pois tudo isso desapareceu. Fazia algum tempo que os rumores familiares se

vinham atenuando, mas naquele dia tudo se tornou claro, a suspeita que tive na

rua se confirmou. Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em silêncio,

despindo-se com lentidão. Os movimentos dela eram tão vagarosos que eu os

percebia a custo. Era preciso adivinhá-los. Assoou-se e lavou as mãos na

torneira.

— Virgem Nossa Senhora!

E punha-se a cuspir. Aquela queixa mostrava um desengano enorme.

Pareceu-me que o mundo se tinha despovoado e Marina estava completamente

só. Senti o desejo de bater na parede e chamá-la:

— Marina, que foi que aconteceu?

Queria que ela me iludisse, jurasse que não havia acontecido nada. Mordi as

mãos para não gritar.

Afastei-me, como um bêbedo. Mas o ventre disforme continuava a perseguir-

me. Era-me necessário falar, ir ao café, libertar-me da obsessão, do ódio que me

enchia.

Com certeza não precisava de mim. Precisava de Julião Tavares, que tinha

levado sumiço. As cusparadas sucediam-se. Marina assoava-se e lavava os

dedos. Os soluços subiam e desciam. Aquele muco que a água levava, as

lágrimas, a saliva abundante, aquela miséria, aquele abandono, tudo me atraía.

— Valha-me Nossa Senhora.

Isto me cortava o coração e aumentava o meu ódio a Julião Tavares. Vi-o

claramente como o vi na tarde em que o surpreendi à minha janela, derretendo-se

para Marina. Atrapalhado, procurara tapear-me com adulações. Eu resmungava

pragas obscenas e andava de uma parede a outra, sentia desejo imenso de fugir,

pensava na fazenda, em Camilo Pereira da Silva, em Amaro vaqueiro e nas

cobras, especialmente numa que se enrolara no pescoço do velho Trajano.

— Que vai ser de mim, santo Deus?

O escorrego de Marina era evidente. Lembrei-me do meu despeito, de

palavras duras jogadas a d. Adélia meses antes: — “A senhora pensa que ela

endireita? Perca as esperanças. Aquela dá com os burros na água.” Estava agora

ali, enojada, cuspindo, apalpando a barriga e os peitos intumescidos. E o pranto

subia e descia, era às vezes um lamento de criança fatigada, outras vezes os

soluços rebentavam, numa rajada de gritos histéricos e bestiais. Olharia

realmente a barriga e os peitos que se avolumavam? Impossível imaginar

qualquer coisa sobre os movimentos dela. Gemidos e choro. Nenhum outro som.

Desespero estúpido, revolta de bicho logrado. Nem palavras soltas, nem cantigas, nem passos no cimento molhado, nem água correndo da torneira. Dias

antes esses rumores combinados me davam uma imagem quase perfeita de

Marina. Sabia quando ela se baixava, quando se levantava, quando enxugava os

cabelos, quando acariciava com espuma o umbigo, os bicos dos peitos, as

virilhas. Gritinhos, respiração diferente da respiração ordinária. Agora estava

provavelmente imóvel. Esses gestos não lhe dariam nenhum prazer. As cantigas

truncadas não lhe dariam nenhum prazer. Talvez nem olhasse a barriga e os

peitos, que doíam e se deformavam. Todo o corpo era um instrumento de

desgosto. O pé da barriga endurecido, uma coisa apertando-lhe a cabeça como

esses aparelhos de suplício que usam no sertão, feitos de pau e corda. Os

pauzinhos torciam-se, a corda penetrava na carne, os ossos estalavam, os miolos

queimavam. Eu sentia raiva, aborrecimento, piedade e nojo. E cuspia, como

Marina. Aquela imobilidade e aquele choro me afligiam. Por que não se

molhava, não passava uma hora debaixo da torneira, esfregando-se, ensaboando-

se? Fungava; provavelmente as lágrimas se misturavam com restos de pó de

arroz e poeira; o suor lustrava-lhe a pele e produzia coceiras nos sovacos; a

moleza do sono amorrinhava-lhe o corpo. Estava suja e feia, precisando banho.

Houve umas pancadas na porta, o choro desapareceu. O meu banheiro

tornou-se vazio. Agucei o ouvido, arregacei as narinas: apenas o cheiro

desagradável da água que escapava da sarjeta e se estagnava numa poça, a

parolagem do Currupaco, que arengava com outros Currupacos invisíveis. Novas

pancadas na porta e a voz de d. Adélia:

— Marina!

Marina abriu a torneira e entrou a lavar-se, cantando uma cantiga rouca,

estrangulada, medonha. Mas as pancadas e a voz cresciam.

— Marina, abra a porta. Abra a porta, minha filha.

Uma súplica zangada e arquejante que exigia grande esforço. Marina devia

estar quase limpa. O suor, o catarro, a poeira, as lágrimas e as tintas rolavam no

enxurro, e Marina era outra, vermelha, o espinhaço levantado, como um ano

antes, quando havia surgido entre os canteiros, empinando-se, os cabelos pegando fogo. As visões do sono tinham-se dissipado.

— Marina!

Marina continuava a cantar, a gritar, em grande espalhafato. Para que serviam

as queixas e as exprobrações de d. Adélia? A água corria e se desperdiçava,

abafando a voz aguda e trêmula. E Marina enxugava-se cantando com raiva.

— Abra, meu coração.

O ferrolho correu, a porta se abriu de chofre e tornou a fechar-se. Estavam as

duas cara a cara, num silêncio de atrapalhação. Sentei-me à beira do tanque,

olhei o tijolo deslocado.

— Que latomia é essa? perguntou d. Adélia com autoridade mole. Creio em

Deus Padre. Parece que morreu gente.

Provavelmente d. Adélia conhecia mais ou menos o que tinha sucedido. Mas

queria acreditar que não houvera infelicidade sem remédio, ou então, caso isto

não fosse possível, botar os quartos de banda, lamentar-se e atirar a

responsabilidade para o destino.

— Estou desconhecendo você. Que foi que houve?

Aí o pranto de Marina rebentou novamente, enrolado com palavras ásperas

que não entendi. D. Adélia baixou a pancada:

— Que horror, filha da minha alma! Santo Deus! Valha-me Nossa Senhora

do Amparo.

— Que Deus, que Nossa Senhora, que nada! gritou Marina reduzindo a cacos

as lamúrias e a religião da mãe. De quem é a culpa? A senhora não sabia? Para

que fingir que não sabia? A senhora sabia.

Calaram-se, fungando.

— Criar uma filha tantos anos, gemeu d. Adélia, passar a vida sonhando com

a felicidade dela, e de repente uma desgraça desta!

— Pois sim, disse Marina com um risinho. Bonita criação. Está vendo?

Tinha-se acalmado um pouco e podia falar, já não estava sozinha no mundo,

urrando lamentações. Arremetia contra a mãe, arfando, grunhindo, como um

bicho mal domesticado que quer morder:

— Coitadinha! Não via, não sabia. Tão inocente! Agora já sabe. Pois é.

Escangalhada, com um filho na barriga. Não faça essa carinha de santa não. É o

que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um moleque no bucho. Não

quer ouvir não? Tape os ouvidos.

— Cale a boca, Marina, gaguejou d. Adélia tremendo. Me respeite, Marina.

Esta ordem bamba pareceu-me ridícula e despropositada, mas produziu um

efeito que me espantou: Marina deitou água na fervura. Virei d. Adélia por todos

os lados e não achei que ela fosse digna de respeito. Nem de respeito nem de

ódio. Lembrei-me das referências do marido: — “Com as flores de laranjeira na

cabeça, dançava como carrapeta, olhava os homens sem baixar as pestanas. An!

E eles se atrapalhavam.” Agora, aquela moleza, aquela confusão angustiada, o

desejo de minguar, achatar-se, a pisada macia do chinelo de corda, os modos

lentos e sutis de quem pega nas coisas às escondidas e tem medo de quebrá-las,

de levar carão. Nada disso podia inspirar respeito. Toda ela era uma desgraça

arrastada e oblíqua, destinada a suportar grosserias e repelões. Quando o homem

da casa vinha receber o aluguel atrasado, gritava: — “Boto-lhe os troços na rua.”

Seu Ramalho brigava por causa das cuecas sem botões. Coitada! Ela era uma só

para tanto trabalho! D. Rosália escarnecia dela: — “A senhora não se aperta.

Tem quem lhe dê tudo.” D. Adélia torcia as mãos, engolia em seco. Julião

Tavares dirigia-lhe graçolas pesadas, aquele cachorro. D. Adélia baixava a

cabeça. Apenas um grunhido de reprovação, quase imperceptível: — “Hum!

hum!”

— Me respeite, Marina.

Aquela ordem gaguejada nem era ordem: era um pedido assustado em voz de

choro. Marina calou-se e entrou a soluçar. Tive o desejo de gritar através da

parede estreita:

— A senhora não tem culpa de viver nesse estado, d. Adélia. A senhora não

nasceu assim. Era corada, risonha, dançava como carrapeta, olhava os homens

cara a cara, e os homens se desaprumavam. Seu marido impava de orgulho e

fazia: — “An!” Depois transformaram a senhora nisso, d. Adélia. Um trapo, uma velha sem-vergonha. Qualquer caixeiro de bodega chega-lhe à porta e berra para

dentro: — “Mande pagar a conta, madama. O patrão está às cascas.” E a senhora

sofre com isso, porque tem uns restos de dignidade e quer que a respeitem.

Nunca se acaba a dignidade da gente, d. Adélia. A gente é molambo sujo de pus

e rola nos monturos com outras porcarias, mas recorda-se do tempo em que

estava na peça, antes de servir. D. Adélia se lembra das flores de laranjeira que

lhe enfeitavam a cabeça bonita. Tantas esperanças! Hoje é essa miséria que se

vê. Fizeram da senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para onde a

empurram. Entretanto a senhora dançava como carrapeta, e seu Ramalho estava

contente.

Marina continuava a chorar. D. Adélia queixava-se baixinho. Eu tinha

vontade de chorar também, condoía-me da sorte das duas mulheres e da minha

própria sorte.

 

. . .

 

É estranho que elas não houvessem aludido uma única vez a Julião Tavares.

Nenhuma referência àquele patife. Era o que me espantava quando saí do

banheiro, já muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto.

Marina acabara numa resignação estúpida, entregara-se a Deus; d. Adélia não

responsabilizara ninguém. Julião Tavares era como viga que tomba do andaime e

racha a cabeça do transeunte. Ou um castigo, um decreto da Providência,

qualquer coisa deste gênero. Ninguém falava nele. Tinha aparecido cheio de

lambanças, usando falsidade em tudo. Entrara-me em casa sem ser chamado e

deixara-se ficar, interrompendo o meu trabalho, afugentando os amigos.

Aproveitando a minha ausência, seduzira Marina. E azulara. Mostrava-se

raramente, em visitas rápidas, com certeza receando que a moça cometesse um

desatino e lhe atrapalhasse a vida.

Não haveria desatino: as duas mulheres eram fatalistas e queixavam-se da sorte. Malucas. Revoltava-me o recurso infantil de se xingarem, arrancarem os

cabelos. Era evidente que Julião Tavares devia morrer. Não procurei investigar

as razões desta necessidade. Ela se impunha, entrava-me na cabeça como um

prego. Um prego me atravessava os miolos. É estúpido, mas eu tinha realmente a

impressão de que um objeto agudo me penetrava a cabeça. Dor terrível, uma

ideia que inutilizava as outras ideias. Julião Tavares devia morrer.

D. Adélia estava justificada: — “A senhora não nasceu assim. Era forte e

bonita. Passou de carrapeta a bola de bilhar. A senhora é um pedaço de pano

sujo.” Marina tinha sido julgada e absolvida. Provavelmente me deixei

influenciar por leituras românticas. Esqueci que ela um ano antes invejava as

meias de seda e os vestidos de d. Mercedes. Agora tinha tudo: meias, vestidos,

um filho no bucho, um filho que sairia gordo, bochechudo e safado, como o pai,

como o avô, o Tavares dos Tavares & Cia., uns ratos.

Marina era instrumento e merecia compaixão. D. Adélia era instrumento e

merecia compaixão. Julião Tavares era também instrumento, mas não senti pena

dele. Senti foi o ódio que sempre me inspirou, agora aumentado.

Necessário que ele morresse. Julião Tavares cortado em pedaços, como o

moleque da história que seu Ramalho contava. Logo me aborrecia da tortura

comprida. Nojo, medo, horror ao sangue.

Julião Tavares morreria violentamente e sem derramar sangue. Em sonhos ou

acordado, vi-o roxo, os olhos esbugalhados, a língua fora da boca. Pensei muitas

vezes nos bíceps do homem acaboclado que ensinava capoeira ao rapaz, no alto

do Farol. Por uma aberração, imaginava que aqueles músculos eram meus.

Os músculos de mestre Domingos eram do velho Trajano. Os músculos e o

ventre de Quitéria também. Sinha Germana concebia e paria no couro de boi, a

que o atrito e a velhice tinham levado o cabelo. Quitéria engendrava filhos no

chão, debaixo das catingueiras, atrás do curral, e despejava-os na esteira da

isidora, em partos difíceis. Crias de cores e idades diferentes espalhavam-se por

aquela ribeira, várias de Trajano, cabras alatoados que apareciam de longe em

longe e pediam a bênção do velho às escondidas. Os partos de sinha Germana perderam-se: escapou apenas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no

romance e me transmitiu esta inclinação para os impressos. Quitéria e outras

semelhantes povoaram a catinga de mulatos fortes e brabos que pertenciam a

Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva.

São do meu tempo os dois últimos partos de Quitéria. Sinha Terta, parteira da

fazenda, batia a taramela do quarto pegado à cozinha. Trajano rondava a porta,

preocupado com a cria, que não era dele. Depois da abolição, já sem forças,

ainda conservava os modos de patriarca. Estava arrasado, aos sábados subia à

vila, entrava na carraspana, encostava-se ao ombro de mestre Domingos,

babando-se: — “Negro! Tu não respeitas teu senhor não, negro?” Não o alcancei

gerando filhos nas pretas, mas alcancei os cabras que lhe pediam a bênção

cochichando e vi-o nas pontas dos pés rondando o quarto de Quitéria,

interessando-se pelos moleques, como se fossem dele.

Quitéria esperneava, espojava-se e soprava na esteira, as varas da isidora

estalavam. Havia silêncios, rumores esquisitos, roncos, voz de sinha Terta, que a

de Quitéria acompanhava, arrastada e nasal:

 

Minha santa Margarida,

Não estou prenha nem parida.

Tira-me este corpo morto

Que eu tenho na barriga.

 

Depois uma coisa se derramava e sinha Terta dizia:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Meu avô serenava.

As outras pretas da fazenda tinham deixado a cozinha depois de 88, e Trajano

era senhor de uma escrava só, que se deitara com ele sob as catingueiras e não

queria ser livre. Conheci Trajano decadente, excedendo-se na pinga e já sem

prestígio para armar cabroeira e ameaçar a cadeia da vila. Mas os cangaceiros ainda se descobriam quando o avistavam, tipos sararás de olho vermelho,

caboclos de músculos de ferro. Se o velho quisesse extinguir um proprietário

vizinho, chamaria José Baía, o camarada risonho que me vinha contar histórias

de onças no copiar, ajustaria a empreitada por meias palavras, dar-lhe-ia uma

cédula. E ficaria tranquilo, de alpercatas, camisa e ceroulas de algodão cru,

tomando tabaco, escanchado na rede de varandas coloridas que arrastavam.

Lembrava-me disso e apalpava com desgosto os meus muques reduzidos.

Que miséria! Escrevendo constantemente, o espinhaço doído, as ventas em cima

do papel, lá se foram toda a força e todo o ânimo. De que me servia aquela

verbiagem? — “Escreva assim, seu Luís.” Seu Luís obedecia. — “Escreva

assado, seu Luís.” Seu Luís arrumava no papel as ideias e os interesses dos

outros. Que miséria!

Pensava no homem acaboclado que encontrei no alto do Farol, membrudo

como os sujeitos que, na presença de Trajano, varriam o pátio da fazenda com

chapéus de couro.

As cascavéis torciam-se por ali. Uma delas enroscou-se no pescoço de

Trajano, que dormia no banco do alpendre. Trajano acordou, mas não acordou

inteiramente, porque estava caduco. Levantou-se, tropeçando, gritando, e

sapateou desengonçado como um doente de coreia. Uma alpercata saltou-lhe do

pé. E ele, arrepiado, metia os dedos entre os anéis do colar vivo:

— Tira, tira, tira.

Quem ia tirar a cascavel que chocalhava no pescoço do velho? Eu era miúdo

e olhava aquilo com espanto. Parecia-me que a cobra era um enfeite, uma coisa

que Trajano enrolara no pescoço para ficar diferente dos outros velhos. Quem ia

tocar nela?

— Tira, tira, tira.

Quitéria puxava o rosário de contas brancas e azuis: — “Misericórdia!”

Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva dançava no chão de terra batida.

Afinal a cobra se soltou, Camilo Pereira da Silva matou-a com o macete de capar

boi e Quitéria levou-a pendurada num pau, a cabeça encostada ao rabo, balançando como uma corda, e foi jogá-la para lá dos juazeiros.

Agora Quitéria estava morta. E os filhos dela e os das outras pretas que,

depois de 88, foram viver em ranchos de palha, nas ribanceiras do Ipanema,

começavam a desacatar os descendentes dos antigos senhores. Muitos andavam

nos grupos de salteadores que assolam o Nordeste, queimando propriedades,

violando moças brancas, enforcando os homens ricos nos ramos das árvores.

 

. . .

 

Seu Ivo apareceu aqui em casa faminto, meio nu e meio bêbedo, como sempre.

Enquanto Vitória lhe preparava a comida, fez-me um presente:

— Está aqui, seu Luisinho, que eu lhe trouxe.

E pôs em cima da mesa uma peça de corda.

— Para que me serve isso, seu Ivo? Onde foi que você furtou isso?

— Não furtei não, seu Luisinho, achei na rua. Guarde para o senhor. É

bonitinha.

E entregou-se ao prato que Vitória lhe ofereceu.

— Muito obrigado, seu Ivo.

Aproximei-me da mesa, desenrolei a peça de corda. Mas, com um

estremecimento, larguei-a e meti as mãos nos bolsos, indignado com o caboclo:

— Retire isso daí, seu Ivo. Que diabo de lembrança idiota foi essa?

O homem espantou-se:

— Por quê? Guarde, seu Luisinho. É dada de bom coração. Serve para armar

rede.

Pensei na rede onde Marina descansava à noite e que me roubava o sono,

ringindo nos armadores.

— Não quero. Tire isso depressa.

Evitava dizer o nome da coisa que ali estava em cima da mesa, junto ao prato

de seu Ivo. Parecia-me que, se pronunciasse o nome, uma parte das minhas preocupações se revelaria. Enquanto estivera dobrada, não tinha semelhança

com o objeto que me perseguia. Era um rolo pequeno, inofensivo. Logo que se

desenroscara, dera-me um choque violento, fizera-me recuar tremendo. Antes de

refletir, tive a impressão de que aquilo me ia amarrar ou morder.

Lembrei-me de Chico Cobra, um curandeiro que na vila andava sempre com

um cabaço cheio de jararacas. Quando Chico Cobra matou um homem na feira,

entrou na mata, fez um rancho de palha e cercou-se de surucucus e outros

viventes semelhantes. Todas as diligências da polícia para prendê-lo falharam.

Nunca ninguém chegou ao rancho do criminoso: à distância de quinhentas

braças o que se via eram barrocas com enormes rodilhas de serpentes.

Desejei insultar seu Ivo. Pareceu-me que ele tinha vindo aqui mangar de

mim. Não era justo. Empurrava a porta, entrava sem vergonha, nunca lhe faltou a

boia. Zombar de mim! Não me contive:

— Caboclo safado, mal-agradecido.

Seu Ivo olhou-me com assombro:

— Oh! xente!

Acanhei-me. Dizendo tolices.

— Está bem. Não discutamos.

Entrei a caminhar de uma parede a outra, mas como numa das viagens batia

com a biqueira do sapato no cano de água, desisti do exercício e pus-me a andar

em torno da mesa, descrevendo círculos que pouco a pouco se reduziam. Afinal

ia quase tocando as cadeiras, e isto me dava a impressão de que seu Ivo e a mesa

estavam sendo amarrados. Sentei-me. O horror que a corda me inspirava foi

diminuindo, mas o desconchavo nos meus modos e nas minhas ideias continuou.

Pareceu-me que uma das ideias estava ali em cima da mesa, simulando laçadas e

espirais. Isto era tão burlesco, tão extravagante, que me veio de repente um

acesso besta de hilaridade que espantou seu Ivo. O conjunto daquelas voltas

emaranhadas formava um molho no centro da mesa e tinha feição vagamente

arredondada. Com um pouco de esforço podia admitir-se que fosse redondo,

mais ou menos redondo, comparável a uma cabeça chata feita de curvas caprichosas que se torciam como tripas. Pensei em circunvoluções cerebrais,

levantei-me e fui beber um gole de aguardente. Voltei a sentar-me. Continuava a

rir, mas sem vontade de rir. Seu Ivo arregalou os olhos, e isto me paralisou o riso

idiota. Sentindo-me fiscalizado, reprimi aquela manifestação ruidosa. Acalmei-

me, aparentemente. Nem riso nervoso nem raiva despropositada. Toda a minha

atenção se concentrava no molho confuso de anéis que ali estava em cima da

mesa.

— Coma descansado.

Seu Ivo comeu tudo, Vitória retirou o prato. Bebi mais um pouco de

aguardente e fiquei arriado na cadeira, as mãos esquecidas na toalha coberta de

manchas, olhando a corda.

Recordei-me da morte de Fabrício, amigo e compadre de meu pai. Nunca

tinha visto um homem assassinado. Assoando-se e gemendo, sentada na prensa

de farinha que apodrecia no quintal, Quitéria falava de Fabrício como de uma

criatura extraordinária, narrava façanhas maravilhosas dele. Rosenda escutava-a

com interjeições, eu pensava em José Baía. Mais tarde fugi de casa e cheguei-me

à cadeia pública, onde o corpo de Fabrício estava exposto, o tronco nu, os olhos

vidrados. Esse cangaceiro tornou-se para mim excessivamente grande, e nenhum

dos defuntos que encontrei depois, na vida e em livros, foi como ele. Comparei a

Fabrício mortos ilustres, e Fabrício resistiu à comparação, porque foi o primeiro

homem assassinado que vi, teve os elogios de Quitéria e era compadre de meu

pai. No jornal, consertando a sintaxe na revisão ou escrevendo notas de polícia,

quantos cadáveres passaram diante de mim! Nenhum deixou mossa. Fabrício

estava nu da cintura para cima, cosido de facadas, era horrível. Passei várias

noites sem dormir direito, acordando agoniado e aos gritos. O segundo homem

assassinado que vi impressionou-me, mas não me tirou o sono. Depois me

habituei.

Seu Ivo pediu uma pinga. Enchi um cálice para ele, outro para mim.

— À sua saúde, seu Luisinho.

Foi acocorar-se e cochilar encostado à parede, junto ao cano de água. Sentei-me outra vez à mesa, o braço sobre a toalha, a mão perto da corda. Estava meio

entorpecido, as pálpebras pesadas. Os armadores na casa vizinha rangiam. Seu

Ivo tinha dito: — “Guarde, seu Luisinho. Dá para armar rede.” Avancei os dedos

em direção aos anéis, mas quando ia tocá-los, um se desfez e bateu-me na mão

como coisa viva.

Marina, enjoada e abatida, embalava-se para esquecer a desgraça. O barulho

dos armadores lembrou-me o tempo em que ela me endoidecia com risadas e

cantigas. A compaixão que eu havia sentido alguns dias antes esmoreceu.

Encolerizei-me e disse-lhe mentalmente toda a sorte de nomes feios. Levantei-

me, bati na mesa, e as voltas da corda tremeram. Olhei com desgosto os olhos

sem brilho de seu Ivo.

Defuntos não me comovem. Na vila apareciam muitas pessoas acabadas a

tiro e a faca. Habituei-me a vê-las de perto. Por fim não me produziam nenhum

abalo. Quando a rede apontava na extremidade da rua, os punhos amarrados num

pau que dois caboclos aguentavam nos ombros, eu saltava para a calçada,

curioso de ver a cor do pano que vinha em cima. Se era branco, o cortejo passava

perto de mim, entrava no beco, dobrava o Cavalo-Morto e seguia para o

cemitério. Isto não me despertava interesse. As redes que transportavam

indivíduos mortos em desgraça eram cobertas de vermelho e iam pelo outro lado

da praça, dirigiam-se à cadeia. Escapulia-me. Nenhum constrangimento. Tornei-

me insensível. Cinquenta estocadas no peito e na barriga! Muito bem.

Agora estava ali com medo de pegar numa corda.

— Você já matou gente, seu Ivo?

O caboclo abriu os olhos, espantado:

— Eu? Deus me livre. Dou pra isso não, seu Luisinho. Nunca matei um

pinto.

— Mas tem tido vontade, não?

— Deixe de história, seu Luisinho. Isso é conversa?

Pus-me a rir de novo, esfregando as mãos. De repente o riso se imobilizou, e

fiquei em pé diante de seu Ivo, com as mãos postas, engasgado.

Às vezes, horas depois de entrar na vila a rede coberta de vermelho, uma

tropa de cachimbos invadia a praça, conduzindo o criminoso amarrado. Os

cachimbos falavam alto e mostravam, cheios de suficiência, facões e lazarinas; o

matador tinha os braços presos, da barriga para cima estava todo embirado de

cordas. A gente se alvoroçava. Os tabuleiros de gamão ficavam abandonados nos

tamboretes. Seu Acrísio, quase cego, batia com o cajado no chão e pedia

explicações às paredes. O doutor juiz de direito, que mentia demais, contava

casos do Amazonas. Como o Amazonas era longe e ninguém ia apurar a

veracidade das narrações, o doutor juiz de direito mentia à vontade. Seu Batista

saía de casa vestido em robe de chambre. André Laerte, com os bigodes tesos

Continuar: parte 6 de 8