Angústia
Livro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
guenza!
— Vamos deixar de tolice.
E contrariei Pimentel e Moisés, arranjei umas opiniões descabidas, porque
realmente não sabia o que eles estavam dizendo.
No dia seguinte (era sábado e não havia expediente à tarde) sentei-me de
novo à sombra da mangueira, com o romance. A coisinha loura tornou a
aparecer, em companhia de uma mulherona sardenta, e começaram ambas a
cortar os ramos secos das roseiras. A pequena estouvada não me prestava
atenção: descontentara-a provavelmente o exame da véspera. Um sujeito feio: os
olhos baços, o nariz grosso, um sorriso besta e a atrapalhação, o encolhimento
que é mesmo uma desgraça.
Apesar destas desvantagens, os negócios não iam mal. E foi exatamente por
me correr a vida quase bem que a mulherinha me inspirou interesse — novidade,
pois sempre fui alheio aos casos de sentimento. Trabalhos, compreendem?
Trabalhos e pobreza. Às vezes o coração se apertava como corda de relógio bem
enrolada. Um rato roía-me as entranhas.
Nestes últimos tempos nem por isso. Antigamente era uma existência de
cachorro. As mulheres tinham cheiros excessivos, e eu me sentia impelido
violentamente para elas. Mas a voz do chefe da revisão estava colada aos meus
ouvidos:
— Suspenso por cinco dias, seu Silva.
A unha suja de tinta riscava na prova o corpo de delito. Vida de cachorro.
Como iria pagar a pensão?
— D. Aurora, tenha paciência. Veja se me arranja um quarto mais barato. Os
tempos andam safados, d. Aurora.
As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roía-me por dentro.
Ora, um dia, sem motivo, convidei d. Aurora para o cinema. Tenho desses
rompantes idiotas. Faço uma tolice sabendo perfeitamente que estou fazendo
tolice. Quando tento corrigir o disparate, caio noutro e cada vez mais me
complico. Foi o que se deu. Convidei d. Aurora e a neta para o cinema.
Arrependi-me e ofereci-lhes refrescos. Aceitaram tudo — e começou a minha
tortura. Lá fui com elas, capiongo, pagar bonde, sorvetes e três cadeiras. Tipo
besta.
— Aguenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.
E contava mentalmente o dinheiro suado e mesquinho. Na sala de projeção a
neta de d. Aurora abriu um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha
perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de roer-me. O que eu estava era
indignado. E calculava. Três passagens de bonde — mil e duzentos. Três
sorvetes — três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema. As coxas da moça
eram frias. Com certeza fazia aquilo por hábito. Naquele tempo eu andava como
um bode. Mas esfriei também. Cinco mil-réis por seis horas de trabalho à noite,
suspensões, multas, o jornal indo para cima e para baixo. Era um sofrimento a
ideia de que no fim da quinzena ficaríamos sem o cobre que estava enganchado.
— Hoje ninguém recebe.
Lá ia, de cabeça baixa, beber um copo de caldo de cana e comer um pastel.
Os níqueis amarrados como dinheiro de matuto. Pois, numa quebradeira assim,
bonde, sorvete, cinema. E ainda faltavam as passagens de volta. A fita era tão
comprida! A moça tinha as pernas frias.
Aquela que estava ali a meia dúzia de passos, cortando os ramos secos das
roseiras, vermelha como pimenta, os braços levantados mostrando os sovacos,
devia ser quente demais.
— Carga de risco!
A mulher sardenta e sarará tinha traços dela.
Com o livro esquecido nos joelhos, o cigarro apagado, o olho meio cerrado,
lembrei-me com preguiça de coisas vagas, sem importância. Havia no Cavalo-
Morto uma rapariga desbragadíssima. Não tinha decoro, amava aos gritos, como os gatos e os ciganos. Em horas de recolhimento natural berrava danadamente:
— Rasga, diabo! Vai fazer isso com tua mãe, peste!
Eu era muito moço, e aquela fúria me espantava. Amores selvagens.
Da janela de seu Antônio Justino via-se um jardim bem-tratado, onde três
mulheres velhas que pareciam formigas cavavam, podavam, regavam.
Berta, uma alemãzinha bonita que antigamente conheci, também tinha as
unhas pintadas e pontiagudas. Aquilo arranhava docemente. A primeira mulher
de jeito com quem me atraquei. Eu levava no bolso uns dinheiros curtos ganhos
no jogo e a carta de recomendação que um deputado, depois de muitos
salamaleques e muitas viagens, me havia dado na Câmara para o diretor de um
jornal. Cada solecismo horrível. Metia a mão no bolso e certificava-me de que as
pelegas machucadas e os solecismos existiam. Ia de cabeça baixa, ruminando
projetos. De repente uma voz estrangeirada, cheia de rr, gargarejou perto de
mim:
— Senhor não quer entrar?
E duas mãos miúdas agarraram-me um braço, arrastaram-me por uma porta
até a escada. Escorei-me ao corrimão, acuado, pigarreei com um nó na garganta:
— Madame, eu sou um bicho do mato, nunca me encostei a uma pessoa
como a senhora. Seja franca, madame. Quanto é que lhe devo dar?
Berta era engraçada: lourinha, gordinha, uma voz suave, apesar dos rr.
— Deixa disso. Não faz feio.
E eu, a mão no bolso, apertando os cobres:
— Não brinque, madame. Sou um sertanejo, um bruto, um selvagem. Quanto
é que a senhora costuma receber?
Bonitinha, Berta. E mais decente que a neta de d. Aurora. Bonde, cinema,
refrescos. Menina viciada. Dagoberto fugia dela. Uma piranha. Ser roído por
aquilo! Ah! não. Lembrava-me dos bancos do passeio, das botinas de elástico
bambo.
— Senhor, um nordestino perseguido pela adversidade apela para v. exª.
E o frege-moscas fedorento, as toalhas cobertas de nódoas de vinho, boia nauseabunda, o galego, de tamancos, sujo, cantando. Com semelhantes
recordações, quem pensa em mulheres?
A mocinha, no lado de lá da cerca, não me dava atenção. Perua. Cabelos de
milho, unhas pintadas, beiços vermelhos e o pernão aparecendo.
— Às vezes aquilo é só a casca. Por baixo — marcas de feridas e molambos.
Sirigaita. Sou um homem prático, passado pelos corrimboques do diabo, lido e
corrido. Para o inferno.
Levantei-me, aprumei-me e recolhi-me, com o livro debaixo do braço, a cara
enferrujada, importante. Na véspera o diretor me tinha dito:
— Necessitamos um governo forte, seu Luís, um governo que estique a
corda. Esse povo anda de rédea solta. Um governo duro.
E eu havia concordado, naturalmente:
— É o que eu digo, doutor. Um governo duro. E que reconheça os valores.
Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas
enfim valor. O aluguel da casa estava pago. Andava em todas as ruas sem
precisar dobrar esquinas. Por uma diferença de dois votos, tinha deixado de ser
eleito Secretário da Associação Alagoana de Imprensa. Quinhentos mil-réis de
ordenado. Com alguns ganchos, embirava uns setecentos. Podia até casar. Casar
ou amigar-me com uma criatura sensata, amante da ordem. Nada de melindrosas
pintadas. Mulher direita, sisuda. Passar a vida naquela insipidez, aguentando
uma criada surda, reumática, cheia de manias!
— Ó Vitória, gritei ao ouvido da velha, quem é essa gente que chegou aí ao
lado?
Vitória não sabia. Tentei ler um artigo político de Pimentel, mas estava
distraído, pensava em Berta, na neta de d. Aurora e na rapariga do Cavalo-
Morto. Deitei-me cedo. Não pude dormir: os cabelos de fogo, os olhos e
especialmente as pernas da vizinha começaram a bulir comigo. Aquilo devia ser
uma pimenta. Passei a noite imaginando cenas terríveis com ela. No outro dia
levantei-me aperreado. Quando me aparecem esses acessos, fico assim uma
semana, calado, murcho, pensando em safadezas.
. . .
Ainda não disse que moro na rua do Macena, perto da usina elétrica. Ocupado
em várias coisas, frequentemente esqueço o essencial. Que, para mim, a casa
onde moramos não tem importância grande demais. Tenho vivido em numerosos
chiqueiros. Provavelmente esses imóveis influíram no meu caráter, mas sou
incapaz de recordar-me das divisões de qualquer deles. Não esperem a descrição
destas paredes velhas que dr. Gouveia me aluga, sem remorso, por cento e vinte
mil-réis mensais, fora a pena de água.
Afinal, para a minha história, o quintal vale mais que a casa. Era ali, debaixo
da mangueira, que, de volta da repartição, me sentava todas as tardes, com um
livro. Foi lá que vi Marina pela primeira vez, em janeiro do ano passado. E lá
nos tornamos amigos.
Se ela morasse no prédio à esquerda, talvez não nos conhecêssemos. Quando
saio para o serviço, passo em frente da casa à direita e cumprimento as pessoas
que estão à janela. Transito raramente pelo outro lado. Reside ali uma d. Rosália,
que tem o marido sempre ausente. Mulher antipática, amarela, muito faladora.
Quase nunca a encontro. Felizmente há o muro que nos afasta. Vejo às vezes por
cima dele cabecinhas de crianças que esperam momento favorável para furtar as
mangas dos galhos que lhes chegam ao alcance das garras. Fujo para não
importuná-las, mas são assustadiças e escondem-se.
O meu horizonte ali era o quintal da casa à direita: as roseiras, o monte de
lixo, o mamoeiro. Tudo feio, pobre, sujo. Até as roseiras eram mesquinhas:
algumas rosas apenas, miúdas. Monturos próximos, águas estagnadas,
mandavam para cá emanações desagradáveis. Mas havia silêncio, havia sombra.
O vozeirão de Vitória era um murmúrio abafado. Talvez o mamoeiro, as roseiras,
o monte de lixo me passassem despercebidos, e se os menciono, é que,
escrevendo estas notas, revejo-os daqui.
Tornei-me, pois, amigo de Marina. Com certeza começamos por olhares,
movimentos de cabeça, sorrisos, como sempre acontece. Depois, palavra aqui,
palavra ali, em pouco tempo estávamos camaradas, tratando-nos por você.
Procurando reproduzir os nossos diálogos, compreendo que não dizíamos nada.
Frívola, incapaz de agarrar uma ideia, a mocinha pulava como uma cabra em
redor dos canteiros e pulava de um assunto para outro. O que me aborrecia nela
eram certas inclinações imbecis ou safadas.
— Por que é que você não manda fazer um smoking, Luís? Um rapaz que
ganha dinheiro andar com essas roupas mal-amanhadas! Eu, se fosse você,
brilhava, vivia no trinque.
Eu pilheriava com ela:
— Marina, nem só de smoking vive o homem.
Outras vezes:
— D. Mercedes estava hoje chamando a atenção de todo o mundo na igreja
do Rosário. Vestido cor de cinza com vivos encarnados, luvas cor de cinza, bolsa
encarnada, chapéu encarnado e sapatos encarnados. Você gosta do encarnado?
D. Mercedes é uma espanhola madura da vizinhança, amigada em segredo
com uma personagem oficial que lhe entra em casa alta noite. Possui mobília
complicadíssima, passa os dias olhando-se ao espelho e polindo as unhas, metida
num peignoir de seda, e quando mergulha na banheira, sente-se de longe o cheiro
da água-de-colônia. Marina admirava-a com exagero, arregalando os olhos:
— D. Mercedes é linda. Parece uma artista de cinema.
Eu me aperreava:
— Que tolice! Você elogiando uma tipa ordinária, uma galega de arribação
que ninguém sabe donde saiu! Não está direito. Uma bicha feia e velha, um
couro, um canhão!
Marina excitava-se:
— Que couro, que nada! D. Mercedes é uma senhora vistosa, bem-
conservada, muito distinta. E rica. Tem filha no colégio e manda dinheiro ao
marido.
Vejam que miolo. E que tendências. Eu, se não fosse um idiota com fumaças
de homem prático, lido e corrido, teria cortado relações com aquela criatura.
Admirar uma estrangeira que vive só, tem filha no colégio e sustenta marido
ausente!
Estirava-me na espreguiçadeira, abria o livro, carrancudo. A leitura não me
atraía, mas atirava-me a ela. Marina ficava por ali, rondando, machucando
pétalas de rosas, acanhada, o nariz comprido, procurando conversa. Dava um
giro entre os canteiros, temperava a goela e, de repente:
— Que livro é esse que você está lendo?
Fingia-me distraído, encostava a cara ao volume.
— Deve ser uma obra interessante.
— Nem por isso.
— Eu também estou lendo um livro interessante, da biblioteca das moças.
Muito penoso.
Olhava-a com ódio:
— Passe bem, Marina.
Aproximando-me da cozinha, percebia a voz de Vitória, que resmungava
junto à gaiola do Currupaco:
— Franguinha assanhada. Cochichando com um homem no escuro! Cabrita
enxerida.
Realmente estava escuro. Às vezes a gente se esquecia do tempo e entrava
pela noite na prosa. Um foco da iluminação da rua embranquecia um pedaço do
muro.
Currupaco pregava-me o olho redondo, encolhia a perna e escondia a cabeça
com tédio.
— Safadinha, enxerida, insistia Vitória quando me via as costas.
Punha-me a passear pela casa. Chegava à porta da rua, voltava, marchava até
a sala de jantar, fazia meia-volta, e assim por diante, pisando com força. Um
smoking, imaginem. Para que diabo queria eu um smoking? Teria graça estar ali
contando os passos ou ir ao café, vestido num smoking. Estúpida.
— Um romance comovente. Esqueci o nome do autor. Enredo bonito.
Estúpida. Lia as notas sociais, casamentos, batizados, aniversários, coisas
deste gênero. Estúpida.
Fatigado, sentava-me um instante na sala de jantar. A parada justificava
outra, instantes depois, à janela da rua. Debruçava-me, olhava os
paralelepípedos, a sarjeta, o poste de ferro, os arames, a calçada da casa à
esquerda. Virava-me para a esquerda. O outro lado não me interessava. Uma
pancada no postigo, e recomeçava o passeio. Nova demora na sala de jantar.
Coçava a barriga do gato, que se espreguiçava, estirava as pernas. Sem-
vergonha, parecia mulher. O quintal estava escuro. Por cima das árvores havia
claridade, até se enxergava, a distância, um anúncio que se podia ler; mas perto
do chão era aquele pretume. Fastidiosa música de grilos, certamente no canteiro
das hortaliças.
A quanto subiria a fortuna que Vitória tinha ali enterrada? A minha situação
não era das piores. Uns três contos de economias depositados no banco. Há
gente que se casa com menos e vive.
Pela porta da cozinha via-se na parede a sombra da cabeça de Vitória,
enorme, por cima da sombra do jornal.
— Ó Vitória, prepare o café.
Precisava ir sacudi-la:
— O café, Vitória.
— An!
Afastava-me. A chaleira chiava no fogão. A sombra desaparecia. Arrastar de
pés e sons resmungados:
— Peruinha, cabritinha descarada.
Punha-me também a arrastar os pés na sala de jantar, fumava, bebia um trago
de aguardente.
— Mulheres há muitas.
E o diabo da música dos grilos. As letras do anúncio eram enormes.
Daí a pouco lá ia de novo para o corredor, chegava à janela da frente, abria o postigo, olhava a rua. Mas não me voltava para a direita. Os paralelepípedos, os
arames, a sarjeta. A bichinha sem-vergonha devia andar ali perto, saracoteando
na calçada, indo espiar a sala de d. Mercedes e os móveis de d. Mercedes. Não
me voltava.
— Para o diabo. Aqui me preocupando com aquela burra! Unhas pintadas,
beiços pintados, biblioteca das moças, preguiça, admiração a d. Mercedes —
total: rua da Lama. Acaba na rua da Lama, sangrando na pedra-lipes. Vamos
deixar de besteira, seu Luís. Um homem é um homem.
. . .
Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa.
Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião
Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram. Era um sujeito
gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. No relógio oficial, nos
cafés e noutros lugares frequentados cumprimentava-me de longe, fingindo
superioridade:
— Como vai, Silva?
À noite chegava-me a casa, empurrava a porta e, quando eu menos esperava,
desembocava na sala de jantar, que, não sei se já disse, é o meu gabinete de
trabalho. E lá vinham intimidades que me aborreciam. Linguagem arrevesada,
muitos adjetivos, pensamento nenhum.
Conheci esse monstro numa festa de arte no Instituto Histórico. De quando
em quando um cidadão se levantava e lia uma composição literária. Em seguida
uma senhora abancava ao piano e tocava. Depois outra declamava. Aí chegava
de novo a vez do homem, e assim por diante. Pelo meio da função um sujeito
gordo assaltou a tribuna e gritou um discurso furioso e patriótico. Citou os
coqueiros, as praias, o céu azul, os canais e outras preciosidades alagoanas,
desceu e começou a bater palmas terríveis aos oradores, aos poetas e às cantoras que vieram depois dele. À saída deu-me um encontrão, segurou-me um braço e
impediu que me despencasse pela escada abaixo. Desculpou-se por me haver
empurrado, agradeci ter-me agarrado o braço e saímos juntos pela rua do Sol.
Repetiu pouco mais ou menos o que tinha dito no discurso e afirmou que
adorava o Brasil.
— Ah! Eu vi perfeitamente que o senhor é patriota.
Foi a conta.
— Quem o não é, meu amigo? Nesta hora trágica em que a sorte da
nacionalidade está em jogo...
— Efetivamente, murmurei, as coisas andam pretas.
Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo por alto a vida, o nome e as
intenções do homem. Família rica. Tavares & Cia., negociantes de secos e
molhados, donos de prédios, membros influentes da Associação Comercial, eram
uns ratos. Quando eu passava pela rua do Comércio, via-os por detrás do balcão,
dois sujeitos papudos, carrancudos, vestidos de linho pardo e absolutamente
iguais. Esse Julião, literato e bacharel, filho de um deles, tinha os dentes miúdos,
afiados, e devia ser um rato, como o pai. Reacionário e católico.
— Por disciplina, entende? Considero a religião um sustentáculo da ordem,
uma necessidade social.
— Se o senhor permite...
E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático. Ouviu-me atento e
mostrou desejo de saber o que eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos,
fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada.
— Luís da Silva. Rua do Macena, número tanto. Prazer em conhecê-lo.
E meti-me no primeiro bonde que passou. Mas não consegui desembaraçar-
me do homem. Dias depois fez-me uma visita. Em seguida familiarizou-se. E era
Luís para aqui, Luís para ali, elogios na tábua da venta, só com o fim de receber
outros. Não tenho jeito para isso. Duas, três horas de chateação, que me
deixavam enervado, besta, roendo as unhas.
Habituei-me a escrever, como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos não prestam. Mas adquiri cedo o vício de ler
romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus,
no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos,
aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade compreendi
que não valiam nada. Em todo o caso acompanharam-me por onde andei. Um
dia, na pensão de d. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um
desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele
cinquenta mil-réis. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o
dinheiro, depois de jurar que a coisa estava inédita. Macedo transigiu comigo
umas vinte vezes. Infelizmente voltou para São Paulo sem concluir o curso.
Desde então procuro avistar-me com moços ingênuos que me compram esses
produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em
semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um
caderno de cinquenta folhas amarelas e roídas pelos ratos.
Trabalho num jornal. À noite dou um salto por lá, escrevo umas linhas. Os
chefes políticos do interior brigam demais. Procuram-me, explicam os
acontecimentos locais, e faço diatribes medonhas que, assinadas por eles, vão
para a matéria paga. Ganho pela redação e ganho uns tantos por cento pela
publicação. Arrumo desaforos em quantidade, e para redigi-los necessito longas
explicações, porque os matutos são confusos, e acontece-me defender sujeitos
que deviam ser atacados. Além disso recebo de casas editoras de segunda ordem
traduções feitas à pressa, livros idiotas, desses que Marina aprecia. Passo uma
vista nisso, alinhavo notas ligeiras e vendo os volumes no sebo. Alguns rapazes
vêm consultar-me:
— Fulano é bom escritor, Luís?
Quando não conheço Fulano, respondo sempre:
— É uma besta.
E os rapazes acreditam.
Ora, foi uma vida assim cheia de ocupações cacetes que Julião Tavares veio
perturbar. Atravancou-me o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buliu-me com os nervos.
Às vezes eu estava espremendo o miolo para obter uma coluna de
amabilidades ou descomposturas. É o que sei fazer, alinhar adjetivos, doces ou
amargos, em conformidade com a encomenda. Moisés entrava, puxava uma
cadeira, sentava-se, abria o jornal. Vinha Pimentel, amarelo, triste, silencioso.
Seu Ivo, bêbedo, acocorava-se a um canto e punha-se a babar, cochilando.
Nenhuma dessas pessoas me incomodava. Trabalhava diante delas como se
estivesse só, e ninguém me interrompia.
— Revolução na China, dizia Moisés.
Pimentel estirava o pescoço e enrugava a testa, farejando assunto. E lá
vinham confusamente os chineses do telegrama. Seu Ivo queixava-se da carestia
dos gêneros. Apertava o cinturão, bocejava, pedia comida. Eu dava respostas
sem perceber direito as perguntas e sem interromper o trabalho. As frases iam
pingando no papel, umas traziam as outras, e no fim lá estava aquela prosa
medida, certinha, que me enjoava. Quando a expressão fugia ou as ideias se
misturavam, acendia um cigarro. E, enquanto desanuviava a cabeça, punha os
olhos distraídos na figura aniquilada de seu Ivo, que ali estava no canto da
parede, babando-se, as pálpebras cerradas. As mãos eram dois calos escuros, os
pés descalços eram patas achatadas.
Seu Ivo não mora em parte nenhuma. Conhece o Estado inteiro, julgo que
viaja por todo o Nordeste. Entra nas casas sem se anunciar, como um cachorro,
dirige-se às pessoas familiarmente, sempre a pedir comida. Passa alguns meses
numa cidade, some-se de repente; aboleta-se nas povoações, nas fazendas, na
capital. Frequenta as salas de jantar e as cozinhas. Quase não fala: balbucia
frases ambíguas, aperreado, sempre na carraspana. Faz o que lhe mandam,
recebe o que lhe dão, mas não agradece e não faz nada com jeito.
— Seu Luisinho, sinha Vitória, cadê a boia?
Se não lhe damos atenção, conversa com o gato, conversa com o papagaio,
acaba mexendo nas panelas, furtando objetos miúdos que não utiliza.
Depois de um ano de ausência, pergunto-lhe:
— Como vai, seu Ivo?
Mas estou pensando noutra coisa.
— Ruim, tudo safado, seu Luisinho. A barriga tinindo.
E põe-se a chorar como um desgraçado. Continuo a construir mentalmente o
período interrompido.
— Vá comer, seu Ivo. Vitória, um prato para seu Ivo.
O homem do Instituto atrapalhou-me a vida e separou-me dos meus amigos.
. . .
— Que diabo vem fazer este sujeito? murmurei com raiva no dia em que Julião
Tavares atravessou o corredor sem pedir licença e entrou na sala de jantar,
vermelho e com modos de camarada.
Soltei a pena, Moisés dobrou o jornal, Pimentel roeu as unhas. E assim
ficamos seis meses, roendo as unhas, o jornal dobrado, a pena suspensa, ouvindo
opiniões muito diferentes das nossas. As de Moisés são francamente
revolucionárias; as minhas são fragmentadas, instáveis e numerosas; Pimentel às
vezes está comigo, outras vezes inclina-se para Moisés.
Raramente discutíamos. O judeu cansava-se em dissertações longas, que eu
aprovava ou desaprovava com a cabeça. Acontecia aprovar agora e reprovar
depois. Quando bebia, tornava-me loquaz e discordava de tudo, só por espírito
de contradição:
— História! Esta porcaria não endireita. Revolução no Brasil! Conversa!
Quem vai fazer revolução? Os operários? Espere por isso. Estão encolhidos,
homem. E os camponeses votam com o governo, gostam do vigário.
O que eu queria era convencer-me de que não tinha razão. Desejava que
Moisés estirasse argumentos e seu Ivo se revoltasse.
— Números. Nada de tapeação. Estatística.
O judeu falava em milhões de desempregados, em consciência de classe, voltava-se para seu Ivo, que não compreendia a língua dele:
— Não entendo. Vossemecês são brancos, lá se arrumem.
Eu gritava ao ouvido da criada:
— Ele diz que a gente não precisa de Deus. Nem de Deus nem de padres. Vai
acabar tudo.
— Credo em cruz! opinava a mulher.
E ia para a cozinha. Julgo que nunca se ocupou com assuntos referentes à
alma. Rezava em voz alta. À noite sapecava o padre-nosso e a ave-maria, antes
das somas. Agora dizia “Credo em cruz!” e ia preparar o café, ler os embarques
e os desembarques, junto à gaiola do Currupaco. Seu Ivo metia os olhos gulosos
pelos vidros do guarda-comidas:
— Seu Luisinho vai bem. Tanto pão! tanta carne!
Escancarava a boca, mostrava os dentes brancos, estirava os braços
musculosos.
— Uma força perdida, dizia Moisés.
Talvez houvesse também alguma inteligência perdida por detrás daqueles
olhos mortos pela cachaça. Um sujeito inútil, sujo, descontente, remendado,
faminto.
O outro sujeito inútil que nos apareceu era muito diferente. Gordo, bem-
vestido, perfumado e falador, tão falador que ficávamos enjoados com as lorotas
dele. Não podíamos ser amigos. Em primeiro lugar o homem era bacharel, o que
nos distanciava. Pimentel, forte na palavra escrita, anulava-se diante de Julião
Tavares. Moisés, apesar de falar cinco línguas, emudecia. Eu que viajei muito e
sei que há doutores quartaus, metia também a viola no saco.
Além disso Julião Tavares tinha educação diferente da nossa. Vestia casaca,
frequentava os bailes da Associação Comercial e era amável em demasia.
Amabilidade toda na casca. Ouvi-o, na festa de aniversário de um figurão,
conversar com uma sirigaita. Eu estava bebendo cerveja no jardim, e eles num
caramanchão diziam besteiras horríveis. Como falavam alto, percebi claramente
as palavras de Julião Tavares. Não tinham sentido. Como o discurso do Instituto Histórico.
Pois foram tolices assim que aquele tipo nos veio impingir. Horrível. Diante
dele eu me sentia estúpido. Sorria, esfregava as mãos com esta covardia que a
vida áspera me deu e não encontrava uma palavra para dizer. A minha linguagem
é baixa, acanalhada. Às vezes sapeco palavrões obscenos. Não os adoto
escrevendo por falta de hábito e porque os jornais não os publicariam, mas é a
minha maneira ordinária de falar quando não estou na presença dos chefes. Com
Moisés dá-se coisa semelhante. Apenas, se lhe acontece engasgar-se, recorre a
locuções estrangeiras. As nossas conversas são naturais, não temos papas na
língua. Abro um livro, fico alguns minutos fazendo cacoetes, de repente dou um
grito:
— Que sujeito burro! Puta que o pariu! Isto é um cavalo.
Moisés toma o volume, lê uma página com atenção, fungando:
— Tem coisas boas, tem ideias.
— Que ideia! Isto é um sendeiro, não sabe escrever.
Julião Tavares veio tornar impossíveis expansões assim. Dizia, referindo-se a
um poeta morto:
— Era um grande espírito, um nobre espírito. Quanta emoção! Além disso
conhecimento perfeito da língua. Artista privilegiado.
Filho de uma puta. Esse artista privilegiado aperreou-me durante semanas,
tirou-me o apetite. Na repartição, no cinema, no jornal, no café, perseguia-me a
lembrança da voz antipática:
— Um grande espírito, um nobre espírito. Emoção e conhecimento perfeito
da língua.
Filho de uma puta. Não podia ser nosso amigo. Encontrava-me na rua:
— Como vai, Silva?
E ali, no outro lado da mesa, as pernas cruzadas, com a intenção de se
demorar — sorrisos, patriotismo, a grandeza do poeta morto.
Comecei a odiar Julião Tavares. Farejava-o, percebia-o de longe, só pelo
modo de empurrar a porta e atravessar o corredor.
— Canalha!
E rangia os dentes, arrumava os papéis tremendo de raiva. Tudo nele era
postiço, tudo dos outros.
Se aquele patife tivesse chegado aqui naturalmente, eu não me zangaria. Se
me tivesse encomendado e pago um artigo de elogio à firma Tavares & Cia., eu
teria escrito o artigo. É isto. Pratiquei neste mundo muita safadeza. Para que
dizer que não pratiquei safadezas? Se eu as pratiquei! É melhor botar a trouxa
abaixo e contar a história direito. Teria escrito o artigo e recebido o dinheiro. O
que não achava certo era ouvir Julião Tavares todos os dias afirmar, em
linguagem pulha, que o Brasil é um mundo, os poetas alagoanos uns poetas
enormes e Tavares pai, chefe da firma Tavares & Cia., um talento notável,
porque juntou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e nenhuma pessoa
medianamente sensata liga importância a elas. Mas na sala de jantar, fumando,
de perna traçada, é falta de vergonha. Francamente, é falta de vergonha.
. . .
— Boa-tarde, d. Adélia. Como vai a senhora?
— Assim, assim, respondeu a mãe de Marina encostando-se à janela para
esconder a saia encardida. Hoje em dia quem é que vai bem?
Agora eu conhecia mais ou menos d. Adélia, falava com ela, parava na
calçada às vezes: — “Bom-dia, boa-tarde, sim senhora, como tem passado?”
Conhecia também o marido, seu Ramalho, sujeito calado, sério, asmático,
eletricista da Nordeste. Não gostava de mim, provavelmente por causa das
minhas palestras com a filha. Perturbava-nos:
— Marina, venha lavar os pratos. Marina, venha cuidar das panelas. Lugar de
moça é a cozinha.
Ora, se Marina lidava com pratos e panelas!
— Velho pau!
E continuava na prosa.
— Cuidado com o sereno, Marina.
— Se isto é coisa que se suporte!
Entrava dando muxoxos, arreliada.
Seu Ramalho era uma criatura seca por natureza e humilde por ofício. Tinha
um sorriso franzido, um ombro alto e outro baixo. D. Adélia, bamba, a voz
sumida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se. Agora estava
resolvida a conversar. Seria a respeito do meu namoro com Marina? Suspirou,
mexeu os beiços, tornou a suspirar:
— Tudo pela hora da morte, seu Luís.
— É verdade, tudo pela hora da morte, d. Adélia. A senhora já reparou nos
preços dos remédios? A farmácia tem uma goela!
D. Adélia fez um gesto de desalento:
— Nem me fale. A gente não pode adoecer mais não, seu Luís.
Ficamos um instante calados, olhando a rua, constrangidos.
— Sim senhora, murmurei esfregando as mãos e sorrindo para o mulherão
sardento.
— É isso mesmo, respondeu d. Adélia.
E, depois de um silêncio comprido, enrolando as mãos no babado da roupa:
— Para sustentar uma casa a gente torce a orelha.
Concordei com alvoroço:
— Torce, d. Adélia. Que dúvida! Depois do dia vinte é preciso que uma
pessoa se tranque para encurtar a despesa. Porque na rua é o café, o bilhete de
teatro, a subscrição. Um horror.
— E o mercado, seu Luís! Quer chova, quer faça sol, é ali no duro. Ninguém
pode passar sem comer.
— Perfeitamente, d. Adélia. Ninguém pode passar sem comer. O pior é o
aluguel da casa. O aluguel da casa, d. Adélia! Quanto paga a senhora pelo
aluguel da casa?
— Cento e trinta mil-réis. Um roubo.
— Eu pago cento e vinte. Um roubo maior, que aquilo não é casa. Uns
quartinhos escuros, sujos. E tanto buraco de rato como nunca se viu. Uns
ratinhos miúdos, deste tamanho, não sei se a senhora conhece, danados para roer
pano. Não tenho um lenço inteiro, tudo furado.
— Aqui é o mesmo, declarou d. Adélia.
Deu um suspiro que elevou o peito volumoso, curvou-se mais para fora:
— Ó seu Luís, eu queria pedir-lhe um favor. Faz uma semana que estou
matutando e sem coragem. Hoje botei a vergonha de banda.
— Que é que há, d. Adélia?
D. Adélia reeditou o suspiro:
— Estive pensando... Se o senhor puder, ouviu? Pedir não é desonra. A gente
faz das tripas coração. Necessidade tem cara de herege.
— Diga, d. Adélia.
A vizinha baixou mais a voz, que tremia, e o carão sardento ficou encarnado
como o vestido de chita:
— É por causa da Marina. Assim desocupada, com as mãos abanando... Ela
não é preguiçosa. Cose, borda, mas trabalho de mulher em casa não adianta.
Gasta-se tempo sem fim num bordado e recebe-se uma ninharia. Se fosse
possível arranjar um emprego para Marina...
Acendi um cigarro, pus-me a contar os paralelepípedos, sem me animar a
desiludir a vizinha.
— Dê uma penada por ela.
Coitado de mim.
— Difícil. É preciso pistolão.
— Eu sei, disse d. Adélia. Foi por isso que me lembrei do senhor, que é bem
relacionado. Só conhecemos o senhor.
— Mas, d. Adélia, respondi aflito, a senhora está enganada. Eu sou um
infeliz, não tenho onde cair morto. Uma recomendação minha não serve. Mas
vou tentar, ouviu?
Seu Ramalho dobrou o beco da usina elétrica e veio vindo, lento, negro de azeite e carvão.
— Boa-tarde.
— Boa-tarde, seu Ramalho. Como vai essa gordura? Estávamos falando
sobre a carestia.
Seu Ramalho estirou o beiço:
— Cada dia vai ficando pior. É de fazer um cristão endoidecer. Ora, eu lhe
conto.
Mas não contou nada. Costuma deixar as frases em meio.
— Pois é como lhe disse, murmurei. Vamos ver. Que, para ser franco, nem
sei se a Marina se ajeita. Ela sabe datilografia?
— Não sabe nada, atalhou seu Ramalho. Você foi amolar o rapaz com
peditórios, mulher? Eu não lhe tinha dito que não tocasse nisso?
— Que é que tem, seu Ramalho? Ela quer que a moça trabalhe. É natural.
— Trabalhar em quê, meu amigo? Só se for em pintar a cara, que é o que ela
sabe fazer.
D. Adélia, vexada, continuava a enrolar os dedos trêmulos no vestido.
— Eu falei por falar. Se fosse possível. Um ordenadozinho que desse para a
roupa. Não há tantas moças empregadas? Nos telefones, nos correios...
— São pessoas que sabem onde têm as ventas, criatura, interrompeu seu
Ramalho. Ou que arranjaram proteção. E sua filha entrou na escola e saiu como
entrou. Ou as escolas não prestam ou ela é bruta demais. Emprego para roupa.
Tem graça. Cinquenta mil-réis de sapatos todos os meses. Não há dinheiro que
chegue.
— O senhor é duro, seu Ramalho, arrisquei.
— Pois sim, respondeu o homem arquejando por causa da asma. É que vivo
no toco, roendo um chifre.
Falava de cabeça baixa, os olhos no chão, os músculos da cara imóveis, a
boca entreaberta, a voz branda, provavelmente pelo hábito de obedecer.
— Eu falei por falar, gaguejou d. Adélia caindo para uma banda, as banhas
derramadas no parapeito da janela, onde fincava o cotovelo. Foi, a menina com as mãos abanando...
Seu Ramalho acendeu o cachimbo e pôs-se a esgaravatar as unhas com o
fósforo queimado:
— É isso. Eu aqui não sei nada. Todo o mundo de rédea no pescoço. Casa de
Gonçalo. As mulheres mandam, e o corno velho é o último que tem
conhecimento das coisas.
Antônia, a criada de d. Rosália, passou bamboleando-se, foi até a esquina da
rua Augusta e esteve algum tempo conversando com um soldado de polícia.
Voltou, sempre se rebolando e com as pernas abertas.
É uma criatura ingênua, meio selvagem. Acredita em tudo quanto lhe dizem
e tem grande necessidade de machos. Quando pega um, entrega-se inteiramente.
Não escolhe, é uma rede.
Todas as tardes, findo o serviço, arruma a louça, veste os trapos melhores,
calça os sapatos de verniz e sai. Se arranja algum dinheiro, deixa o emprego e
amiga-se. Erra sempre. Gasta as economias, volta ao trabalho, vai acumular
novo pecúlio para sustentar novos amantes, novas decepções. É doida pelas
crianças: passa o dia gritando, brincando com elas. Mas à noite esquece tudo e
corre para a crápula. D. Rosália atura-a por causa dos filhos. Quando lhe faz as
contas, diz numa voz áspera que ouço perfeitamente na sala de jantar:
— Pegue o seu ordenado, Antônia, e suma-se, não torne a aparecer aqui.
Antônia recebe o salário, entrouxa os cacarecos, beija as crianças e sai
cantando, certa de que encontrou um homem. Volta faminta, com marcas novas
de feridas.
— Tu acabas no hospital, Antônia.
Mas as crianças fazem um berreiro feio — e Antônia fica.
A presença dessa criatura vagabunda e galicada traz-me sentimentos bons.
— Como vai, Antônia?
A cabocla respondeu descerrando os beiços grossos e mostrando os dentes
largos num sorriso infantil. Seu Ramalho não a viu: estava de cabeça baixa,
monologando, remexendo a cinza do cachimbo com o fósforo. D. Adélia continuava encalistrada, bicuda, machucando o vestido. Senti-me leve, quase
alegre, e espantei-me de ver aquelas caras fúnebres.
— Isso não tem importância. Procurando bem... Há muitas por aí cavando a
vida. Vamos ver se arranjamos alguma coisa, d. Adélia. Vamos ver. Depois lhe
digo.
— História, murmurou seu Ramalho com desânimo. Aquela não dá para
nada. O homem que casar com ela faz negócio ruim.
. . .
Como era grande o calor, abri a janela do quintal. Uma baforada de ar quente
bateu-me no rosto. Debrucei-me e distraí-me acompanhando com a vista os
movimentos da mulher que lava garrafas. O gato pulou de um galho da
mangueira, saltou o muro, trepou num monte de lixo e cacos de vidro. O homem
triste andava entre as pipas, debaixo do telheiro, a encher dornas.
Que estaria fazendo Marina? Pensei em d. Mercedes. Vida bem sossegada a
dessa galega. Um sem-vergonha o figurão que a sustentava, um caloteiro: devia
os cabelos da cabeça e dava festas, punha automóveis à disposição da amásia.
Como diabo podia um macho gostar daquela tipa de carnes bambas?
— Ladrões, velhacos, porcos!
Bati a janela com força. Depois voltei a abri-la. A mulher magra, de cócoras,
a saia entalada entre as pernas, continuava a lavar garrafas. O homem triste
passeava entre as pipas.
Com certeza a minha vizinha àquela hora pintava as unhas. Indignei-me:
— Ó Vitória, por que não varre esta casa direito? Cisco por toda a parte,
montes de cisco. Tudo cheio de poeira.
Vitória não percebeu a repreensão. Agarrei uma toalha e esfreguei com ela o
guarda-louça:
— Porcaria!
Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o
amante de d. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao
alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação
Comercial, numa adulação torpe. Os credores miúdos deixavam-se esfolar com
medo; os grandes sangravam por conveniência: tinham interesses, arranjavam o
que queriam. E um safado como aquele era troço no Estado. Que desgraça!
Deitei-me na espreguiçadeira, acendi um cigarro, abri o livro e comecei a ler
maquinalmente. De quando em quando bocejava, suspendia a leitura
incompreensível.
O jardim, que a antiga inquilina vinha regar todas as manhãs, estava sujo,
maltratado, coberto de garranchos e folhas secas.
Soltei o livro e fechei os olhos, aborrecido. Mas os olhos não ficaram bem
fechados: através das pálpebras meio cerradas distinguiam-se as coisas que
estavam perto do chão, dez ou quinze metros em redor — o tronco do mamoeiro,
o monte de lixo, as florinhas desbotadas. D. Adélia, no banheiro, lavava roupa, e
a água espumosa corria de lá, vinha estagnar-se numa poça junto à cerca.
Se aquela tonta prestasse, estaria ajudando a mãe, ensaboando panos.
Preguiça. Estava era lendo besteiras, arrancando cabelos das sobrancelhas com a
pinça ou raspando os sovacos. A princípio ainda tratara dos canteiros. Habituara-
se depois a levar para ali um romance, que não abria. Conversava. E eu me
zangava com as conversas dela, que, como já disse, eram malucas. Zangava-me
de verdade. Mas estava ali com os olhos meio fechados, espiando os canteiros e
esperando que a mulherinha chegasse.
Fazia uma semana que eu andava cavando uma colocação para ela. Arranjar
emprego, como não ignoram, é dificuldade. As pessoas a que a gente se dirige
sorriem. Tudo fácil, às ordens, perfeitamente. Escutam as choradeiras com
paciência e escrevem cartões a outras pessoas. Estas escrevem outros cartões, e
assim por diante. Cada um se desaperta. Eu falara ao diretor da minha repartição:
— Doutor, tenho uma vizinha que faz pena, moça prendada. Mata-se para
ajudar a família, mas, como sabe, trabalho de mulher em casa não rende. Se o senhor pudesse, com a sua influência...
O diretor respondera distraído:
— Está bem. Vamos ver.
Noutras repartições, a mesma história com pequenas variantes:
— Moça decente, instruída, matando-se para auxiliar a família. Um modelo.
A mãe doente...
Enfim uma cambada de mentiras inúteis. Nos bancos:
— Moça digna, alguns conhecimentos de escrituração mercantil e de
aritmética.
Nos armazéns:
— Muito preparo, muita leitura, excelente calculista. Podia encarregar-se da
correspondência.
Nas redações:
— Ó Fulano, você não me arranja aí na expedição qualquer coisa para uma
moça que eu conheço? Um osso, uma sinecura que justifique dois ou três vales
por mês.
Afinal fora encontrar para Marina um emprego de cem mil-réis numa loja de
fazendas. E ali estava espiando o quintal com o rabo do olho.
Chap, chap, chap. Era o vascolejar da água nas garrafas. Líquido se
derramava: o homem triste enchia dornas. D. Adélia tossia no banheiro,
espremendo roupa. E Vitória, na cozinha, cantava: — “Currupaco, papaco. A
mulher do macaco...” Um galo no galinheiro pôs-se a arrastar a asa a uma
franga. Eu estava fazendo ali a mesma coisa, apenas com mais habilidade e mais
demora. A franga não aparecia. Quem se ligasse a ela faria negócio mau, seu
Ramalho tinha razão. Se ele, que era pai, sustentava opinião assim, imaginem.
Sovaco raspado, unhas cor de sangue e sobrancelhas que eram dois traços.
Mulher pelada. Para que diabo uma pessoa arrancar as sobrancelhas?
De repente a franguinha surgiu dentro do meu reduzido campo de
observação. Como disse, eu apenas enxergava uns dez ou quinze metros do
jardim. Primeiramente distingui as biqueiras vermelhas de uns sapatos, aqueles sapatos que, segundo a declaração de seu Ramalho, custavam cinquenta mil-réis
e duravam um mês. Para ir ao quintal, sapato de sair e meia de seda esticada no
pernão bem-feito. Ótimas pernas. As coxas e as nádegas, apertadas na saia
estreita, estavam com vontade de rebentar as costuras.
Talvez a franguinha tivesse percebido que eu fingia dormir: pôs-se a ciscar
por ali, rindo baixinho, avançando, recuando, mostrando-se pela frente e pela
retaguarda. Eu respirava com dificuldade e pensava nas lições de geografia de
seu Antônio Justino: — “Primeiro desaparece o casco, depois os mastros.” Era o
contrário que se dava agora: quando Marina se afastava, desaparecia em
primeiro lugar a parte superior do corpo, isto é, a cintura, pois a cabeça e o
tronco estavam fora do meu campo de observação.
Voltava-me as costas:
— Chi, chi, chi.
Um riso semelhante a um cochicho. Curvava-se para a frente: a cintura fina
sumia-se, os quadris aumentavam. O pano marcava-lhe a separação das nádegas.
Um passo, outro passo. As ancas morriam, agora eram as coxas grossas. Outro
passo: uma ruga na meia cor de creme mostrava a articulação da coxa com a
perna. E a perna cheia ia adelgaçando até findar num jarrete fino encastoado no
tacão vermelho do sapato.
— Chi, chi, chi.
O cochicho risonho afastava-se, chegava-me aos ouvidos como o chiar de um
rato. Chiar de rato, exatamente. Chiar de rato ou carne assada na grelha. Parecia-
me que aquilo estava chiando dentro de mim, que a minha carne se assava e
chiava. Os tacões vermelhos viravam-se para o outro lado. As biqueiras surgiam
e avançavam. Lá vinham pedaços de canelas. As mãos puxavam a saia para trás,
distinguiam-se os joelhos e as coxas. Como vinha curvada para a frente, a
barriga desaparecia.
— Chi, chi, chi.
O rato roía-me por dentro. Senti cheiro de carne assada. Não, cheiro de
fêmea, o mesmo cheiro que antigamente me perseguia, em meses de quebradeira. — “D. Aurora, veja se me arranja um quarto mais barato. Os
tempos andam safados, d. Aurora.”
As pernas de Berta eram assim bem torneadas. Apenas as de Berta eram
nuas, tudo em Berta era nu.
— Chi, chi, chi.
Lá estavam novamente os quadris expostos. Para que aqueles panos? gritei
interiormente. Não era melhor que se descobrisse tudo? Coxas descobertas, rabo
descoberto.
Foi assim que vi Marina entre as pestanas meio cerradas, como Berta me
aparecia. As nádegas cresciam monstruosamente — e eu mal podia respirar. Se
d. Adélia e Vitória viessem ali, veriam aquela armada: Marina despida, curvada
para a frente, mostrando um traseiro enorme.
Tolice. D. Adélia, fria, com o pensamento distante de coisas assim, espremia
camisas molhadas no banheiro. E Vitória conversava com o Currupaco, o
vivente que ela estima e não lhe provoca imagens indecentes.
Chap, chap, chap. A mulher magra não acabava de lavar garrafas. A torneira
derramava líquido na dorna. Ouvia-se perfeitamente. A princípio chegava-me
um som confuso. Agora, porém, os sentidos irritados percebiam tudo. O chap-
chap da mulher, o rumor do líquido, pregões de vendedores ambulantes, rolar de
automóveis, a correria dos filhos de d. Rosália no quintal próximo, o cheiro das
flores, dos monturos, da água estagnada, da carne de Marina, entravam-me no
corpo violentamente. Apertei as pálpebras. A poça de água, os canteiros
mofinos, o monte de lixo, sumiram-se. O que eu via bem eram os quartos
brancos de Marina curvada, as coxas brancas.
— Chi, chi, chi.
Devia estar um pouco afastada, mostrando apenas os tacões ou as biqueiras
dos sapatos. Mais perto, mais perto, o cheiro mais vivo, o chi-chi-chi mais
perceptível — e eu sentia uma espécie de desmaio com aquela aproximação. O
livro caiu, cruzei as pernas, sentei-me, vi Marina em pé junto da cerca, rindo
como uma doida:
— Puxa! Que olhos abotoados! Parece que vai ter uma congestão.
Eu devia estar ridículo. Baixei a cara, com vergonha, e pus-me a esfregar as
pálpebras, a agitar a cabeça para espalhar as ruindades que havia dentro dela.
Quando terminei a esfregação, Marina continuava no mesmo lugar, exibindo os
dentinhos, com tanta malícia no rosto que fiquei besta, acuado. Felizmente podia
vê-la da barriga para cima.
— Cara de mal-assombrado, pilheriou Marina. Sonhou com alma do outro
mundo?
A visão obscena e os desejos lúbricos esmoreceram.
— Sonhei nada!
Estava num entorpecimento estúpido. Tive a impressão extravagante de que
o ar havia tomado de repente a consistência mole e pegajosa de goma-arábica.
Nesse ambiente gelatinoso Marina se movia, nadava, desesperadamente bonita, o
peitinho redondo subindo e descendo, a querer saltar pelo decote baixo, pimenta
nos olhos azuis, os cabelos de fogo desmanchando-se ao vento morno e
empestado que soprava dos quintais. Veio-me o pensamento maluco de que
tinham dividido Marina. Serrada viva, como se fazia antigamente. Esta ideia
absurda e sanguinária deu-me grande satisfação. Nádegas e pernas para um lado,
cabeça e tronco para outro. A parte inferior mexia-se como um rabo de lagartixa
cortado. Mas eu não reparava na parte inferior, que tanto me perturbara: recebia
as faíscas dos olhos azuis e desejava enxugar com beijos a saliva que umedecia
os beiços um pouco grossos da minha amiga. Estava linda. Tinha corrido por ali
alguns minutos como um rato, chiando. Eu era um gato ordinário. Podia saltar
em cima dela e abocanhá-la: ao pé das estacas podres que Vitória remove todos
os meses, desafiava-me com os olhos e com os dentes miúdos. Não saltei. O que
fiz foi arranjar uma carranca séria, que devia ser burlesca, porque Marina soltou
uma gargalhada.
— Marina, grunhi, sua mãe não lhe falou?
— Sobre quê?
— Sobre uma colocação. Uma colocação para você. Sim, é bom uma pessoa pensar no futuro. Vocês não conversaram?
— Não.
— Ah! Pensei que tivessem conversado. Pois é. Sua mãe me falou e eu andei
por aí martelando. Fiz o que pude.
Marina tinha agora o rosto comprido e uma ruga entre as sobrancelhas:
— Parece que minha mãe está com pena do bocado que me dá.
— Não diga isso, criatura. É para o seu bem.
D. Adélia saiu do banheiro com uma bacia de roupa molhada, que ia enxugar
lá dentro, a ferro.
— Boa-noite, gritou de longe.
E entrou logo. Ia escurecendo, e aquele boa-noite era uma espécie de
censura, que ela não fazia claramente porque tinha medo da filha.
— Está aí, Marina. A pobre a esta hora lavando roupa!
Marina, em silêncio, quebrava torrões com o salto do sapato.
— Você me desculpa a franqueza. Eu não devia estar dando opinião sobre
sua casa. É porque lhe tenho muita amizade. Por isso andei pedindo por aí.
— Encontrou alguma coisa? perguntou Marina sem entusiasmo.
— Encontrei. Para bem dizer, não encontrei coisa boa não. Emprego público
não há. Tudo fechado, tudo escuro. Enfim sempre achei um gancho.
— Onde é?
— Numa loja. Cem mil-réis por mês. Um princípio. Depois a gente cava
serviço mais fácil e mais rendoso. O que é preciso é começar.
— Numa loja? disse Marina com um risinho mau. Obrigação de aturar
pilhérias e até descomposturas dos fregueses. E beliscões dos empregados.
Muito bom.
— Oh! Marina!
— Julgo que minha mãe está com intenção de me ver na rua. E você também
está.
— Oh! Marina! Que horror! Se você não quer, acabou-se. Meti-me nisso
porque sua mãe me pediu, compreende? E porque lhe quero muito bem.
Marina sensibilizou-se. Os olhos aguaram-se, o beicinho tremeu:
— Obrigada, Luís.
E estirou a mão. Levantei-me, tomei-lhe os dedos. O contato da pele quente
deu-me tremuras, acendeu os desejos brutais que tinham esmorecido. Olhando-a
de cima para baixo, via-lhe os seios, que subiam e desciam, as coxas, a curva dos
quadris. Veio-me a tentação de rasgar-lhe a saia. E repetia como um demente:
— É porque lhe quero muito bem, Marina.
Apertei-lhe a mão, mordi-a, mordi o pulso e o braço. Marina, pálida, só fazia
perguntar:
— Que é isso, Luís? Que doidice é essa?
Mas não se afastava. Desloquei as estacas podres, puxei Marina para junto de
mim, abracei-a, beijei-lhe a boca, o colo. Enquanto fazia isto, as minhas mãos
percorriam-lhe o corpo. Quando nos separamos, ficamos comendo-nos com os
olhos, tremendo. Tudo em redor girava. E Marina estava tão perturbada que se
esqueceu de recolher um peito que havia escapado da roupa. Eu queria mordê-lo
e receava ao mesmo tempo que d. Adélia nos surpreendesse, encontrasse a filha
descomposta.
— Meu Deus! exclamou Marina sobressaltada.
E virou-se rapidamente. Quando tornou a mostrar o rosto, o peito havia
desaparecido.
— Que foi que nós fizemos, Luís?
E começou a choramigar. A comoção dela me trouxe alguma vaidade, um
pouco de arrependimento e quase a certeza de que nunca ninguém lhe havia
tocado nos peitos. Apesar da admiração idiota que Marina tinha a d. Mercedes,
tomei aqueles soluços como prova de inocência.
— Que foi que nós fizemos, Luís?
A cantilena chorosa arrasava-me os nervos. Cocei a testa, agoniado:
— É o diabo, Marina. Ninguém tem culpa. Foi uma topada. E agora é
continuar. Qualquer dia a gente casa. É verdade, precisamos tratar disso. Você
que acha?
Concordou passivamente, numa sílaba:
— É.
Esta anuência chocha me desorientou. Várias vezes tinha pensado em
amarrar-me a ela, e nunca me passara pela cabeça a ideia de que a minha amiga
hesitasse. Mordi os beiços, despeitado:
— Falei nisto porque pensei... Compreende. Sim, perfeitamente. Enfim você
é quem sabe.
— Marina! gritou lá de dentro seu Ramalho. Cuidado com o sereno.
— Está certo, disse Marina rapidamente. Velho pau. Se você acha que deve
ser... Adeus.
— Adeus, Marina. Outra coisa. Vamos deixar de besteira. Por que é que a
gente não se encontra aqui no escuro, meia-noite, quando estiverem dormindo?
Valeu? Dá cá um beijo.
— Venha lavar os pratos, Marina.
— Já vou.
E escapuliu-se correndo. Sentei-me na espreguiçadeira, apanhei o livro:
— É uma dos diabos. Eu queria dar a ela alguma independência. Acabou-se.
Gosto da pequena, amarro uma pedra no pescoço e mergulho.
. . .
Defronte da minha casa veio morar uma família esquisita, que não se relacionou
com a vizinhança: um velho barbudo, encolhido, e três moças amarelas, sujas,
malvestidas, ruivas e arrepiadas. O homem, de nome ignorado, andava olhando
os pés, carrancudo, e não cumprimentava ninguém. Às vezes surgia a figura de
uma das moças à janela; mas se alguém aparecia na rua, o postigo se fechava
silenciosamente.
— Eu queria saber que espécie de gente é aquela, resmungava d. Adélia. Só
bicho.
— É mesmo, d. Adélia, concordava Antônia. Tudo entocado. Só bicho.
Seu Ivo procurou entrar na toca, bateu, pediu comida: não teve resposta. Um
dia d. Mercedes atracou-me na passagem:
— O senhor não me dirá que mistério é esse?
— E eu sei? minha senhora.
— De que viverão eles? perguntava d. Adélia.