Angústia
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
lembraria de dizer que era impossível saber a hora exata em que via passar uma
pessoa na rua, o dr. Fulano ou o dr. Sicrano exploraria a atrapalhação do homem
— e a defesa levantaria a cabeça. Apenas eu não podia contratar os serviços de
um dos advogados hábeis, contentar-me-ia com um bacharel novo, gratuito e
desastrado. A acusação ficaria de pé, o interrogatório rolaria uma eternidade na
máquina de escrever. Coisas simples, malícia nenhuma. Quando eu menos
esperasse, surgiria a intenção ruim — e daí em diante todas as perguntas seriam
como cobras enrodilhadas que se preparavam para armar o bote. Um, dois, um,
dois. Não apareceria aquela casa amaldiçoada? As luzes da Nordeste subiam e
desciam. Olhei os quatro cantos numa ansiedade, certo de que a testemunha ia de
repente dobrar a esquina e avançar na rua. Viria com passo firme, de cabeça
baixa. Quando passasse por mim, levantaria os olhos — e estaria tudo perdido.
Para que então aquele desespero, aquela agonia?
— Será o que Deus quiser. O que tem de ser tem muita força.
Era melhor voltar. Tive a ideia absurda de voltar, sentar-me outra vez no
bueiro, conversar com o vagabundo, pedir-lhe outro cigarro. E depois seguir em
frente, sempre em frente, parar debaixo da árvore que sustentava Julião Tavares.
Quando a polícia chegasse, eu contaria tudo:
— Não me matem de fome nem me deem água de bacalhau. Eu me explico.
Foi assim.
Ninguém teria interesse em descobrir incongruências nas minhas palavras. Voltar, esperar tranquilamente as grades úmidas e pegajosas. Embrutecer-me-ia
por detrás delas, tornar-me-ia criança, ouviria as histórias ingênuas de algum
José Baía, que me diria as virtudes da oração da cabra preta. Teriam encontrado
Julião Tavares esticado no caminho escuro? Estariam metendo uma colher na
boca de Julião Tavares? No sertão introduzem uma colher de prata na boca do
homem assassinado — e o criminoso que não sabe orações fica preso:
desorienta-se e acaba voltando para junto da vítima. Outros homens e outras
mulheres tinham passado por baixo do galho, cortado a corda, levado Julião
Tavares para uma casa da travessa mais próxima. Estava lá o cadáver
emborcado, com uma colher de prata na boca. E eu regressaria, com medo da
testemunha, que ia aparecer na esquina. Tudo se sumiu de chofre. A chave
rangendo na fechadura, como todos os dias, devagar para não acordar Vitória, o
ferrolho corrido por dentro, passos abafados no corredor. Cheguei à sala de
jantar às apalpadelas, abri o comutador e fiquei ao pé da mesa, piscando os olhos
à luz. Tive um arrepio, os cabelos se levantaram, senti uma dor aguda no couro
cabeludo. Tirei o chapéu e pus-me a escová-lo com a manga. Era o meu, sem
dúvida. Voltei à sala e fui pendurá-lo ao cabide. Puxei a corrente da lâmpada,
olhei-me ao espelho. Diferente, magro, velho, as pálpebras empapuçadas, rugas,
terra seca na barba crescida.
— Peste! Andei rolando pelo chão como um porco.
Os olhos, ordinariamente embaciados, tinham um pequeno brilho duro.
Apaguei a luz e dirigi-me novamente à sala de jantar. Lembrei-me da garrafa de
aguardente, mas quando ia pegá-la, senti a necessidade de lavar as mãos. Estava
imundo e receava contaminar os objetos. Tomei um pedaço de papel, segurei
com ele o ferrolho e abri a porta do quintal. Fui ao banheiro, meti as mãos no
balde de água e lavei-as, muito lentamente porque as feridas começavam a doer
em demasia. Deitei fora a água, mergulhei o balde no tanque e recomecei a
lavagem. Enxuguei as mãos nos cabelos, voltei para a sala de jantar, bebi um
pouco de aguardente. A garrafa estava quase cheia. Bebi outro gole, mas o meu
desejo era tornar ao banheiro. Os cabelos estavam sujos e tinham sujado as mãos. Lembrei-me de ter posto na cabeça o chapéu de Julião Tavares.
Lembrança intolerável. Fui ao quarto, descalcei-me, despi-me às escuras, deixei
a roupa e os sapatos numa trouxa a um canto, agarrei a toalha e voltei, nu, meio
atordoado pelo álcool. Achei na borda do tanque um pedaço de sabão ordinário e
esfreguei cuidadosamente as mãos e os cabelos. O corpo todo estava sujo, mas o
que mais me preocupava eram os cabelos e as mãos. O banho durou uma
eternidade. Que horas seriam? Não me viera a ideia de olhar a parede da sala de
jantar. A cabeça começou a pesar-me. Bem. Ia dormir como um porco.
Certamente... Dormir como um porco. Banhava-me devagar, para não fazer
barulho. Se os vizinhos ouvissem as pancadas de água no cimento? Uma culpa
grave. Se fosse descoberto, infelicidades me chegariam. Todos os gestos eram
culpas graves. Pisava como um gato. Talvez no banheiro próximo estivessem
pessoas escondidas. Que horas seriam? A cabeça pesava. Certamente... Sim,
certamente era preciso dormir, ajudar a noite que não queria acabar. Tinha
topado num buraco enorme, ia caindo nele, mas conseguira escapar agarrando-
me às estacas de uma cerca e metendo as mãos na terra fofa. Esfregava os dedos.
Para lá daquele buraco escuro havia um nevoeiro. Marina, d. Adélia, seu
Ramalho, Julião Tavares, tudo era nevoeiro. Enrolei-me na toalha e voltei à sala
de jantar. Em cima do guarda-comidas encontrei cigarros e fósforos. Bem. Agora
estava limpo. Acendi um cigarro e bebi mais aguardente. Queria embebedar-me
e dormir, mas tive a ideia de que só poderia dormir sentado, encostado à parede.
A cama estava suja, tinham-se espojado nela criaturas que se agatanhavam com
raiva, babando, uivando. Três pancadas. Olhei a parede, mas não consegui
distinguir as letras e os ponteiros. Aproximei-me, estirei o pescoço para o
mostrador, fiquei nas pontas dos pés. Pensei em Cirilo de Engrácia e recuei até a
mesa sem ver as horas. Com os diabos! Tinha ouvido distintamente três
pancadas. Enchi o copo e continuei a beber. Aproximei-me novamente da
parede: uma neblina diante do mostrador. Felizmente agora estava fumando,
quase tranquilo. Teria ouvido as três pancadas? Então aquilo tinha acontecido de
meia-noite a três horas! A marcha ao longo da linha de bonde, a volta, a necessidade de fumar, a escuridão cheia do zum-zum das carapanãs, aquela coisa
terrível — tudo de meia-noite a três horas. Sentei-me, deitei fora o cigarro
apagado, acendi outro e pus-me a esgaravatar as unhas com o fósforo. As unhas
doídas iam-se entorpecendo. Olhei-as, mas entre os olhos e as mãos havia um
nevoeiro que engrossava. As paredes tornaram-se inconsistentes. Fechei os
olhos, encostei a cabeça à mesa, remexi os dedos com o fósforo queimado. Um
rumor enchia-me os ouvidos, burburinho que ia crescendo e me dava a
impressão de que a casa, a cidade, tudo, caía lentamente. As paredes se
desmoronavam como pastas de algodão. E no ruído confuso surgiam sons que
me arrastavam à realidade: o tique-taque do relógio, o apito do guarda-civil, o
canto de um galo, um miar de gato no telhado. Essas notas familiares me
exasperavam. Queria deixar-me embalar pelo rumor abafado e dormir.
Impossível. Os dedos agitavam-se despedaçando o fósforo. Levantei a cabeça,
arregalei os olhos e novamente cheguei a eles os dedos, que desapareciam no
nevoeiro. Ergui-me, dei uns passos cambaleantes. O burburinho morreu: o que se
ouvia era a respiração de Vitória. Fechei os olhos com força, tornei a abri-los. O
nevoeiro adelgaçou-se: as mãos esfoladas e grossas, terra nas unhas. Tomei outro
fósforo e recomecei a limpá-las. Em seguida fui ao banheiro lavá-las, livrá-las
daquela porcaria. Voltei desanimado, enxuguei as pontas dos dedos tempo sem
fim. Provavelmente não conseguiria dormir. Um, dois, um, dois. Eram as
pancadas do pêndulo, mas eu pensava em marchas. Olhei a porta aberta. Vi
apenas um buraco escuro, mas era como se visse a luz do farol espalhando-se
sobre a folhagem da mangueira. Estremeci. Os galhos iluminados de vermelho,
de branco. Que loucura ter deixado aquela porta aberta! Se alguém, oculto entre
as folhas, me espiasse? Fechei a porta. Estava em segurança. Tentei encaminhar
o pensamento para coisas simples e ordinárias, mas estas coisas fugiam,
truncavam-se. Em segurança. Quantos dias faltavam para receber o ordenado?
Precisava dar uns dinheiros a Moisés. Pimentel tinha-me pedido um artigo
sobre... Sobre quê? Lobisomem agora trazia sapatos novos. D. Rosália e o
marido estariam dormindo? Tão tarde... O marido de d. Rosália chegara do interior. Dar uns cobres a Moisés, sem dúvida, quando recebesse o ordenado.
Um artigo para Pimentel. Os sapatos de Lobisomem. O marido de d. Rosália
com certeza estava cansado e dormia. Eu também estava cansado, mas não podia
dormir. Enxugava as mãos entorpecidas, lentamente, e quase não sentia as
escoriações. Dei uns passos, estaquei. Que ia fazer? Avancei até o corredor. Uma
felicidade não pensar, andar assim trôpego como um papagaio. Fui fechar a porta
da cozinha, devagar para não acordar Currupaco, que dormia com a cabeça
debaixo da asa. De repente estranhei achar-me ali em pé, nu, com a toalha no
ombro, enxugando os dedos. Dormir, acabar aquela noite imensa. Bebi o resto da
aguardente. O estômago contraiu-se, embrulhado, o pescoço entortou-se, a boca
encheu-se de saliva. Senti que ia vomitar, encostei-me à mesa para não cair.
Fechei os olhos — e o burburinho recomeçou. Pancadas na porta da frente. Abri
os olhos numa agonia. O suor corria-me pela cara, ensopava a toalha, não havia
jeito de estancá-lo. Teriam realmente batido na porta? Ia arrastar-me,
bambeando, pé aqui, pé acolá, até o quarto, vestiria o pijama aos tombos,
engulhando, arrotando. Quem seria?
— Estava lendo, fumando, bebendo. Falta de sono. É costume velho,
entende? Não sei nada. Estou aqui há muitas horas assim.
Poderia falar? Quem teria batido? Só se ouviam os roncos de Vitória, o tique-
taque do relógio e o chiar dos ratos. O estômago embrulhava-se, o suor corria, a
boca era pequena para conter a saliva. Quem estaria lá fora, na calçada? O
relógio bateu meia hora e depois quatro. Não me lembro de ter feito nenhum
movimento na derradeira meia hora, mas quando veio a primeira pancada eu
estava de pé, quando soaram as quatro estava sentado, o queixo encostado à
mesa. Levantei-me, dirigi-me ao quarto, firmando-me às paredes, tombei na
cama, pesado, como um morto.
. . .
— Ó Vitória, faça o favor de ir ali à esquina, ouviu? Telefone à repartição, diga
que não vou ao serviço hoje. Estou doente.
Quando ela saiu, deitei no saco a roupa branca que tinha vestido na véspera.
Em seguida escondi o paletó e a calça rasgada debaixo do colchão.
Se dessem busca na casa? Fui remexer o saco, ver se na roupa branca havia
sinais que me pudessem comprometer. O paletó e a calça não estavam bem
escondidos. Pensei em queimá-los, enterrá-los. Levantei o colchão, tirei-os.
Sujos de lama. Não podiam ficar ali. Se fossem descobertos? Atirei-os para trás
da mala, apanhei do chão a gravata e fui para a sala de jantar.
— Telefonou, Vitória?
— Telefonei.
— Muito obrigado. É que estou com febre, morrinhento. Que há de novo?
— Um senador que chegou do Rio.
— Está bem.
Bebi uma xícara de café, procurei uma tesourinha e pus-me a cortar as unhas,
que ainda tinham terra. Estava com febre e aturdido pela cachaça.
— Ó Vitória, se não estiver muito ocupada, leve a roupa à lavadeira, ouviu?
Preciso camisas.
Vitória afastou-se e daí a pouco saiu com uma trouxa de roupa suja. A porta
da frente abriu-se e fechou-se. Acabei de cortar as unhas arroxeadas. As mãos
engrossavam e deformavam-se, a direita com uma esfoladura na palma, a
esquerda cheia de fibras de madeira, que extraí com a ponta da tesoura. A
gravata estava enrolada, como uma corda, exatamente igual a todas as gravatas
que tenho tido, mas senti a necessidade de destruí-la. Cortei-a em pedacinhos,
que desfiei, juntando os fios em cima da coxa. Vitória, arrastando os pés, ficaria
muito tempo na rua. Dediquei-me nervosamente a desfiar os pedaços da gravata.
Tossia e limpava os olhos, que lacrimejavam. Uma felicidade estar com febre.
Os rumores externos eram os mesmos de todos os dias. D. Rosália
despropositava com Antônia, d. Adélia cantava no banheiro, o trem passava
apitando, automóveis e bondes rolavam longe. Desejei ver seu Ivo, pensei em oferecer qualquer coisa a seu Ivo. Isto me aliviaria. As alfaces no canteiro
amarelavam. O homem triste enchia dornas. A mulher magra agitava garrafas e
sacolejava-se como se tocasse ganzá. Nenhuma novidade. Moisés e Pimentel me
seriam desagradáveis naquele momento, mas a companhia de seu Ivo me daria
prazer. Subitamente imaginei que o homem triste e a mulher magra me
espionavam. Afastei a cadeira para não ver o homem que enche dornas e a
mulher que lava garrafas, continuei a tarefa. Quando a terminasse, ficaria
tranquilo. Cortaria depois a calça e o paletó em pedacinhos que seriam desfiados.
Ficaria inteiramente tranquilo. Nenhuma novidade. Apenas a viagem de um
senador desconhecido. Tranquilo. Deitar-me-ia, descansaria. De minuto a minuto
suspendia o trabalho para enxugar os olhos, e a umidade que havia no lenço era
quente demais. Respirava com dificuldade, o corpo se derreava na cadeira,
bocejos enormes. Compreendia que o exercício a que me entregava era inútil,
perigoso talvez. Se alguém entrasse de repente e me visse desfiando pedaços de
pano? Mas continuava a desfiá-los à pressa, e escondia o molho de fios entre as
pernas. Vitória não chegava. Com certeza a comida ia esturrar. Que esturrasse.
Podre de rica, Vitória: prata, libras esterlinas. Tentei pensar nas moedas.
Impossível. Não acabaria a destruição da gravata? Sentia um medo horrível e ao
mesmo tempo desejava que um grito me anunciasse qualquer acontecimento
extraordinário. Aquele silêncio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Seria
tudo ilusão? Findei a tarefa, ergui-me, desci os degraus e fui espalhar no quintal
os fios da gravata. Seria tudo ilusão? Voltei, atravessei o corredor, cheguei à sala,
olhei a rua pelas tabuinhas da rótula. Uma das filhas de Lobisomem mostrou a
cabeça arrepiada, Antônia passou com o filho mais novo de d. Rosália pela mão,
uma bicicleta rodou no paralelepípedo. Enxuguei os olhos. A cabeça doía-me.
Encostei os cotovelos à janela. Entre duas tabuinhas afastadas distinguia a cara
amarela, os olhos abotoados e os cabelos ruivos da filha de Lobisomem. Pelas
outras tabuinhas só percebia os pés dos transeuntes. Iam e vinham, ocupados.
Todos os dias acontecem desgraças. Estava doente, ia piorar, e isto me alegrava.
Deitar-me, dormir, o pensamento embaralhar-se longe daquelas porcarias. Senti uma sede horrível. Os beiços secos, queimados, rachavam-se. Evidentemente a
sede tinha horas, mas só então me apareceu clara a necessidade de beber água.
Quis ver-me ao espelho. Tive preguiça, fiquei pregado à janela, olhando as
pernas dos transeuntes. Esfreguei a cara com a mão estragada. Os pelos duros
feriram-me a palma em carne viva.
— Todos os dias nasce gente, morre gente. Isso não tem importância.
Repetia frases assim e soprava a palma ferida, mas não prestava atenção ao
que dizia, pensava em coisas diferentes, em muitas coisas que se misturavam. Ia
haver uma escuridão, uma desordem. Parecia-me que os acontecimentos subiam
e desciam numa panela, fervendo.
— Em segurança.
Com os cotovelos presos à janela, olhava a rua e tremia. Morto de sede, não
me aventurava a tirar-me dali. As pernas fraquejavam, bambas. As que andavam
na rua atravessavam o minguado espaço que a minha vista alcançava, eram bem-
vestidas, rotas, nuas — e isto me bastava para adivinhar as caras. Iam lentas ou
apressadas, ignoravam a existência de outras que giravam, encostando as pontas
dos pés no chão coberto de folhas secas. Duas pernas pararam no meio da rua,
voltaram as biqueiras dos sapatos para o meu lado. Olhos atentos, sob a mão em
pala na testa, deviam estar observando o número da casa. Isso durou um minuto.
As biqueiras avançaram em direção a mim. Descobriram-se os joelhos das calças
ordinárias e surradas. Provavelmente era um investigador, um desses homens
que frequentam os cafés, escutam conversas e fogem como sombras, olhando
por baixo da aba do chapéu embicado. Ia aproximar-se macio, bater palmas
discretamente para não atrair a atenção dos vizinhos:
— Ó de casa!
Eu me afastaria da janela, arrastando as pernas que pesavam arrobas, iria
abrir a porta. Perguntas sem pé nem cabeça, uma busca na casa; a roupa
machucada e rasgada atrás da mala, as minhas mãos feridas, as unhas roxas,
provocando suspeitas que se acumulavam e viravam certeza. Eu me atrapalharia
logo e diria o que o sujeito quisesse. Não seria preciso me darem água de bacalhau. A garganta ardia-me, passei a língua seca nos beiços gretados. Água de
bacalhau, dias de fome, noites em claro, um tipo martelando horas a fio:
— É bom o senhor contar. Para que esconder? Tudo se descobre. Confesse.
Eu arriaria a trouxa com facilidade. Tudo se descobre, sem dúvida. Que
papéis haveria nos bolsos da roupa que estava atrás da mala? Bilhetes de dr.
Gouveia, correspondência do interior, a carteira vazia, artigos manuscritos,
recortes de jornais. Se algum desses papéis tivesse caído na estrada? Perdido,
trinta anos de cadeia, a imundície, os trabalhos dos encarcerados: fabricação de
pentes, esteiras, objetos miúdos de tartaruga. Faria um livro na prisão. Amarelo,
papudo, faria um grande livro, que seria traduzido e circularia em muitos países.
Escrevê-lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens de jornais velhos. O
carcereiro me pediria umas explicações. Eu responderia: — “Isto é assim e
assado.” Teria consideração, deixar-me-iam escrever o livro. Dormiria numa
rede e viveria afastado dos outros presos. A garganta doía-me, os beiços
colavam-se. Precisava beber água e pensava no caldo de bacalhau. Confessaria
tudo, mostraria a roupa rasgada, os bilhetes, as cartas, os artigos. Os olhos
pestanejavam e choravam lágrimas quentes que eu enxugava na manga. Não
podia ver bem a rua. As pernas teriam marchado para mim ou estacionariam no
paralelepípedo, indecisas? Tanto tempo a ameaçar-me com as biqueiras dos
sapatos cambados e as joelheiras das calças ordinárias! As biqueiras volveram à
esquerda e sumiram-se. Não era gente da polícia: seria talvez um servente de
casa comercial, carregado de embrulhos, distribuindo mercadorias.
Provavelmente conduzia troços para d. Mercedes e estava em pé na calçada,
batendo palmas. D. Mercedes vinha devagar, cheirosa, o peignoir exibindo o
peito maduro. Recebia os pacotes, dava uns níqueis ao carregador, entrava, ia
desatar os cordões e examinar as compras. Entre as duas tabuinhas mais
afastadas da rótula vi de novo o rosto espantado da filha de Lobisomem. Por que
se espantava? Não havia motivo. Tudo em ordem na rua. A barriga e as pernas
de um homem passaram na calçada e pararam à porta de d. Rosália. Alguns
rapazes dirigiam-se ao colégio Diocesano. Um moleque de tabuleiro deu um grito estridente que me assustou. Evidentemente... A rua sossegada, como nos
outros dias. O grito do moleque continuava a furar-me os ouvidos.
Evidentemente... Que é que ia dizer? O pensamento partia-se. Ia cair de cama,
delirar, morrer. A carne estremecia, os pés dos cabelos doíam-me. De quando em
quando levava a mão ao rosto, e o contato da palma com a barba crescida
arrancava-me palavrões obscenos grunhidos em voz baixa. Um porco, parecia
um porco. Esta comparação não me entristecia. Desejava ser como os bichos e
afastar-me dos outros homens. As mãos doíam-me, as pernas doíam-me, os pés
dos cabelos doíam-me. Não queria imaginar o que aconteceria lá fora, o que
tinha acontecido. Fatos possíveis misturavam-se a coisas absurdas.
Evidentemente... Esta palavra solta, repetida, enfurecia-me. Pouco a pouco
serenava. Seu Ramalho, no meio das conversas, dizia:
— “Eu lhe conto.” E não contava nada. D. Adélia censurava a filha com um
gemido: — “Hum! hum!” Antônia dava uma risadinha ruim e piscava um olho:
— “Safada moda.” Agora a rua estava em silêncio. Noutra rua havia lágrimas,
desespero e cabelos arrancados. Um médico vestia o avental, chegava-se ao
mármore do necrotério. O homem dos caixões de defuntos preparava coroas de
flores roxas, muitas coroas de flores roxas com fitas roxas. Onde andaria
Vitória? Surda, a cabeça cheia de moedas e navios, arrastando-se pelas bodegas.
Uma senhora gorda e mole, com os sovacos molhados, chorava noutra rua. Fui
ao quarto, levantei a roupa caída atrás da mala, estendi-a em cima da cama,
examinei o joelho rasgado, as bainhas puídas, a gola embranquecida.
Machucada, suja de poeira, lama seca e teias de aranha. Cortá-la-ia em
pedacinhos, que seriam desfiados e atirados ao monturo. Procurei uma escova e
pus-me a limpar os trapos. De momento a momento suspendia o trabalho e
soprava a mão ferida. Estupidez deixar aquilo no chão, entre a mala e a parede.
Bem. Agora os panos estavam quase decentes. Algumas pancadas na porta
gelaram-me o sangue. Caí sentado na cama. Tudo perdido. Lá estava o sujeito da
polícia com o chapéu embicado. Olhei o rasgão do joelho, as mãos grossas.
Difícil dobrar os dedos. E nas costas da mão direita, a mais estragada, corria um traço largo que escurecia. Ao amanhecer estava vermelho, mas agora ia ficando
azulado. Enfim tudo perdido. Era sair, entregar-me, contar a história botando os
pontos nos ii. Faria um livro na prisão, estudaria, arranjaria camaradagem com
dois ou três presos mansos. Habituar-me-ia. A gente se habitua em toda a parte.
Dorme à beira das estradas, nos bancos dos jardins. Depois de meia-noite as
letras miúdas dançavam na prova molhada, a saleta da revisão enchia-se de
fantasmas, a gente lia cochilando, emendava cochilando. Um galego dava ordens
aos berros. Nas mesinhas estreitas, forradas com papel de impressão, as vozes
esmoreciam, as canetas sujas, nojentas, calavam-se. Vida porca, safada. Agora
estava menos porca e mais safada. Adulações, medo de perder o emprego, de
voltar às estradas, à caserna, aos bancos dos jardins, à mesa da revisão. O suor
molhava-me o pescoço, a vista escurecia, a memória dava saltos, a respiração
encurtava-se. Uma lembrança vaga de cavalos perseguia-me. Onde teria eu visto
aqueles cavalos? Nunca fui cavaleiro, nunca montei direito. Uma queda nas
pedras do Ipanema ia-me desmantelando. Era estranho que aqueles animais
viessem perturbar-me. Fazia um minuto que o homem da polícia tinha batido.
Sentado na cama, suando, tossindo, as mãos esfoladas, encolhia-me. Os animais
aperreavam-me. A princípio não conseguira distingui-los. Era um tropel distante,
rumor que se confundia com a cantiga dos sapos do açude da Penha e o zumbido
das carapanãs. Agora percebia que eram cavalos correndo. Novas pancadas.
Levantei-me, cheguei à porta do quarto, estirei a cabeça. Um maloqueiro, um
vagabundo que pedia esmola. Enfureci-me e gritei:
— Puta que o pariu.
Estar um homem em casa, sossegado, escovando a roupa, e de repente
pancadas, amolações, peditórios.
— Isso tem cabimento? Dá o fora, vai para o diabo.
Pus o paletó no encosto de uma cadeira, dobrei a calça, ocultando a parte
rasgada, e coloquei-a em cima da mala.
— Onde vamos parar com tantos mendigos? Isso tem jeito?
O quarto estava como nos outros dias. O meu desejo era deitar-me, mas fui à sala de jantar, ainda bastante zangado:
— Canalhas, preguiçosos.
Derreei-me na cadeira, um peso enorme nos braços:
— Safados.
Não me referia apenas aos maloqueiros. De quando em quando passava a
manga do pijama nos olhos molhados. E soprava a palma ferida, mas o ar saía
quente e a dor não diminuía. Esse movimento de soprar a mão quase encostando-
a à boca fez-me pensar nos gatos. Ia adormecer, perder a consciência. As coisas
afastavam-se ou aproximavam-se de maneira absurda, as paredes moviam-se.
Não ter consciência. Soprava a mão. Ser como um gato que lambe os pés.
Que direito tinha aquele bandido de me vir incomodar quando eu estava
ocupado, escovando a roupa? Então não pode um homem pôr em ordem os seus
troços sem ser perturbado.
— Isto é casa de puta para qualquer um bater e entrar?
Por que era que o vagabundo me havia enganado fazendo-se passar por gente
da polícia? Dentro em pouco outras pancadas me esfriariam o sangue, num
segundo rolariam multidões de pavores. Tudo se repetiria — as mesmas caras, as
mesmas perguntas, as mesmas ameaças, o julgamento, discursos, a escuridão
entre quatro paredes, portas de ferro, fechaduras enormes, ferrolhos enormes.
Levantar-me-ia, atravessaria o corredor como se me arrastassem. Outro
vagabundo, um vendedor ambulante, qualquer pessoa levada por endereço
errado:
— Não é aqui não. Desculpe.
Voltaria para junto da mesa, aguardaria novas pancadas, novas torturas. Por
que não se acabava logo aquilo? Bati com a mão na mesa e isto me arrancou um
grito que abafei e se transformou em praga imunda. Por que não me vinham
buscar os miseráveis da polícia? Por que faziam comigo aquela brincadeira de
gato com rato? Eu os acompanharia, mostraria a roupa rasgada, os fios da
gravata no monturo, falaria no cigarro oferecido pelo vagabundo. Por que não
vinham logo? Muitos anos nas redes sujas, nas esteiras de pipiri. Escreveria um livro. A ideia do livro aparecia com regularidade. Tentei afastá-la, porque
realmente era absurdo escrever um livro numa rede, numa esteira, nas pedras
cobertas de lama, pus, escarro e sangue. Olhava as telhas, movediças, a garrafa
de aguardente, movediça. O livro só poderia ser escrito na prisão, em cima das
pedras, na esteira, na rede, sob as cortinas de pucumã. Um livro escrito a lápis,
nas margens de jornais velhos. Os objetos deformavam-se. A janela e a porta do
quintal, a porta da cozinha e a do corredor estavam cheias de gente. Estirei o
pescoço, observei o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas.
Retraí-me. Em vez de se entregarem ao trabalho, eles me espionavam. O
movimento de estirar o pescoço para vê-los era horrível. O que mais me doía
eram os braços, principalmente as mãos. Encolhi o pescoço, tentei metê-lo no
corpo. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do pêndulo. Não prestava atenção
a elas durante o dia. À noite percebiam-se bem, mas de dia, com o barulho que
vinha de fora, não havia relógio. Como Vitória se demorava! O galope dos
cavalos não me saía dos ouvidos, crescia, como se avançasse no paralelepípedo.
Donde vinham aqueles cavalos? A cabeça tombou num cochilo. Aprumei-me,
bocejei, estirei os braços doloridos. Recostei-me na cadeira e cerrei os olhos.
Passei a língua seca como língua de papagaio pelos beiços gretados e cobertos
de películas. Arrastei-me até a moringa, bebi alguns copos de água. Tantas horas
com a garganta pegando fogo, suportando aquilo inutilmente. Com certeza a
febre ia crescer. O corpo morrinhento pedia cama. O rumor das carapanãs
misturava-se ao tropel dos cavalos. Achei-me sentado, murmurando palavras
desconexas. O suor corria entre os pelos da barba. Passei o lenço na cara e no
pescoço, mas retirei logo a mão.
— Sou uma pessoa muito hábil.
Os cavalos tinham agora um trote macio que não se distinguia da música das
carapanãs. Aborrecia-me saber que os cavalos não existiam, as carapanãs não
existiam, os indivíduos que atravancavam as portas não existiam.
— Uma pessoa muito hábil.
A roupa molhada colava-se ao corpo. A sede voltou, bebi outro copo de água. Pensei em fumar e isto me produziu um estremecimento. Mas então? Um sujeito
hábil, sem dúvida. Tudo muito direito. Na casa de d. Rosália as crianças
gritavam e Antônia lavava a louça. Na casa de seu Ramalho d. Adélia varria a
sala de jantar. Ouvia-se o chiar da vassoura. Pancadas de pratos, gritos de
crianças, risos, pragas.
— Um sujeito hábil.
Que burrice repetir isso! Estirei a cabeça cautelosamente. A mulher magra e
o homem triste dedicavam-se às suas ocupações e não me viam. Uma criatura
ordinária, um funcionário que faltava à repartição. Vitória voltou, mas isto não
teve importância. As carapanãs e os cavalos preocupavam-me demais para
prestar atenção a Vitória. Um funcionário. Pus-me a rir como um idiota.
Continuaria a escrever informações, a bater no teclado da máquina, a redigir
artigos bestas. — “Perfeitamente.” O sorriso sem-vergonha concordando com
tudo. —“Perfeitamente.” Não tinha praticado nenhuma façanha, não tinha
conversado com o vagabundo, na véspera. Eu? No quarto pequeno junto à
escada, o cheiro do gás era insuportável. Andavam percevejos no papel da
parede, manchado e descolado. Aborrecia-me o estudo cacete de Dagoberto.
Mas quando ele empurrava a porta, jogava na cama a cesta e o compêndio,
acovardava-me, sorria, abria o livro ou pegava o osso e começava a amolação.
— “Perfeitamente, Dagoberto.” Para que diabo me servia conhecer as vértebras
e o frontal? Não ia ser médico. Mas lia, para não desgostar o rapaz. Olhei a
garrafa de aguardente, vazia, pensei em seu Ivo, em seu Evaristo e em Cirilo de
Engrácia. Com os braços esmorecidos sobre a mesa, via as paredes afastarem-se,
as telhas subirem e descerem. Ia dormir, descansar, tresvariar. Levantei-me de
chofre. Um rebuliço na casa de seu Ramalho. Fui encostar-me à parede. Gritos, o
cabo da vassoura batendo no chão, risos nervosos e a fala morna de d. Adélia:
— Quem faz neste mundo paga é aqui mesmo. Quando Deus tarda, vem em
caminho.
Olhei os quatro cantos. Não tinha nada com aquilo. Ia trancar-me, enrolar-me
nos lençóis, tremer, ranger os dentes como um caititu. Não tinha nada com aquilo. A garrafa de aguardente estava vazia. As carapanãs zumbiam. O
vagabundo me dera um cigarro. A mulher tinha dito: — “Deixa de luxo, minha
filha. Será o que Deus quiser.” Eu ficava afastado de tudo. Afastei-me da parede
e arregalei os olhos para a mulher que lava garrafas e o homem que enche
dornas. Não tinha nada com aquilo. — “Um artigo, seu Luís.” Seu Luís escrevia.
— “Perfeitamente, Dagoberto.” Eu? As telhas dançavam, era extraordinário que
se pudessem equilibrar, não viessem espatifar-se no chão, bater-me na cabeça.
— Não fui eu, gritei recuando e tropeçando na cadeira.
Os cabelos arrepiavam-se, um frio agudo entrou-me na carne, os dentes
tocaram castanholas. Nada havia acontecido comigo. Senti-me vítima de uma
grande injustiça e tive desejo de chorar. Vieram-me lágrimas, que esmaguei. Eu
estava de parte, ouvindo o zum-zum das carapanãs.
— Não fui eu. Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas as minhas
mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino.
Olhei as mãos. Pareceram mais curtas e mais largas que as mãos ordinárias
que escreviam artigos elogiando o governo. Os dedos inchados eram mais curtos
e mais grossos. Necessário fechar as portas. Outro vagabundo viria bater e
confundir-se com o homem da polícia.
Os braços doíam-me, as mãos penduradas doíam-me. Cruzei os braços, fui à
cozinha. Vitória cortava carne em cima da mesa preta.
— Vitória, estou sem fome, ouviu?
A mesa preta do necrotério. O médico, de avental. Numa rua afastada, uma
mulher chorando. As minhas mãos em carne viva.
— Estou muito doente, Vitória. Não quero almoçar. Dê a boia a algum
maloqueiro que aparecer por aí. E feche as portas depois. Vou deitar-me, não me
aguento nas pernas.
. . .
A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo — e era por
aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas. O relógio da
sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no
colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora as pancadas dos
relógios da vizinhança morriam durante o dia. E o dia estava dividido em quatro
partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra
parede. Depois, a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam
contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz
arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de
armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses
silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo,
voltava à superfície, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima
de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para
sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos braços da treva
que me queriam agarrar. O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos,
acariciava-me, e eu diminuía, embalado nos lençóis, que se transformavam numa
rede. Minha mãe me embalava cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga
morria e se avivava. Uma criancinha dormindo um sono curto, cheio de
estremecimentos. Em alguns minutos a criança crescia, ganhava cabelos brancos
e rugas. Não era minha mãe a cantar: era uma vitrola distante, tão distante que eu
tinha a ilusão de que sobre o disco passeavam pernas de aranha. Um disco a
rodar sem interrupção a noite inteira. Não. Estávamos na segunda parede, e eu
subia a parede, acompanhava a réstia como uma lagartixa. Marasmo de muitas
horas, solução de continuidade que se ia repetir. Cairia da parede, como uma
lagartixa desprecatada, ficaria no chão, moído da queda. Quem teria entrado no
quarto durante a inconsciência prolongada? Moisés e Pimentel teriam vindo?
Seu Ivo teria vindo? Lembrava-me de figuras curvadas sobre a cama. Não eram
os meus amigos. Eram tipos de caras esquisitas, todos iguais, de bocas negras,
línguas enormes, grossas e escuras. Quantos dias ali no colchão áspero, como
um defunto? Um homem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado o paletó, falava muito. Que dizia ele? Esforçava-me por entendê-lo, mas tinha a
impressão que o visitante usava língua estrangeira. Era como se me achasse num
cinema. Apenas compreendia de longe em longe algumas palavras. Cansava-me
e desejava que o homem se fosse embora. Não percebia que me importunava,
que me obrigava a esforços enormes para entender uma língua estranha? O
desconhecido continuava a falar. Eu subia a parede novamente e corria atrás da
réstia. Cairia no tijolo outra vez, achatar-me-ia ouvindo o monólogo
incompreensível. Receava que o homem sem rosto me julgasse estúpido. Queria
dormir, arregalava os olhos e abria os ouvidos. Certamente dizia coisas sem
nexo, e o desconhecido me chamava imbecil, com palavras inglesas. Um buraco
ao pé de uma cerca. Eu tombava no buraco, ia descendo lentamente. E, enquanto
descia, encontrava no caminho muitas flores que desciam também, sem peso,
como flocos de algodão. Subia, era como se o meu corpo se transformasse em
nevoeiro. Tornava a descer, tornava a subir, as flores caíam sempre numa chuva
silenciosa. As flores não me davam nenhum prazer. Desejava livrar-me delas,
interromper aquelas viagens para cima e para baixo, andar na terra. Escancarava
os olhos. O homem sem rosto havia desaparecido, e eu tinha agora um livro
aberto sobre o colchão. Não sabia quem me trouxera o livro, se ele surgira antes
ou depois da visita. As letras saíam dos lugares, deixavam espaços em branco,
espalhavam-se numa chuva silenciosa. Apertando as pálpebras, esfregando-as,
aproximando e afastando o papel, conseguia conter a dispersão. Impossível
adivinhar o sentido de uma palavra. Língua estrangeira, tão estrangeira como o
solilóquio monótono. Sem memória, um idiota. Chorava, batia com a cabeça no
ferro da cama, puxava os cabelos. Olhava as mãos. As unhas crescidas e sujas, a
escoriação da palma secando e cicatrizando, os dedos compridos, escuros, com
uns nós muito grossos. Sem memória. Que teria acontecido antes? A confusão se
dissipava, a réstia avançava no tijolo, trepava na cadeira onde o homem se tinha
sentado, ganhava o paletó estendido no encosto. O paletó me espiava com um
olho amarelo que mudava de lugar. A calça continuava dobrada sobre a mala
coberta de poeira. A sentinela cochilava no portão do palácio, encostada ao fuzil; André Laerte andava como um gato; Amaro vaqueiro, aboiando, laçava a
novilha careta; cabo José da Luz caminhava para a cadeia pública, todo pachola;
Dagoberto punha na minha cama a cesta de ossos e o compêndio de anatomia.
Eu regava o livro que estava aberto em cima do colchão. Tinham deixado ali
aquele volume inútil. Lia-o pensando em ossos. Provavelmente fora Moisés que
o trouxera para me distrair. As palavras iam-se tornando claras, mas não se
reuniam. Bom camarada, Moisés. Dera-me um livro para me distrair. A réstia
descia a cadeira, atravessava os tijolos e ganhava a parede. O cego dos bilhetes
de loteria apregoava o número, batendo com o cajado no chão do café; a mulher
da rua da Lama cruzava os dedos magros nos joelhos; Lobisomem parecia um
velho decrépito. Essas figuras vinham sem nitidez, confundiam-se. Antônia
arrastava os chinelos, mostrava as pernas cobertas de marcas de feridas e cantava
uma cantiga vagabunda. Mas a cantiga se transformava: — “Assentei praça. Na
polícia eu vivo...” E Antônia era o cabo José da Luz. Em pé, defronte da prensa
de farinha, oferecia-me uma xícara de café. Antônia, cabo José da Luz, Rosenda
— uma pessoa só. Às vezes apareciam três corpos juntos com rostos iguais,
outras vezes era um corpo com três cabeças. Afinal surgia um vivente que tinha
três nomes. Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que estava escrito,
mas ficava-me a certeza de que havia ali vários trabalhos, feitos por muitos
indivíduos. Chineses. Uns chineses brigões, revoltados. Lembrava-me dos
chineses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem bagatelas, juntam-se às
caboclas. Muitos livros arrumados, formando um livro incompreensível.
Fernando Inguitai andava pela rua do Comércio, o braço carregado de voltas de
contas, o cigarro babado no beiço que se arregaçava, descobrindo os dentes
enormes num sorriso parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a
lagartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o laço, mastigava o cigarro
de palha e mostrava os dentes pretos num sorriso parado. A cadeira suja de
poeira, a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido. Seria bom levantar-
me, procurar qualquer coisa para me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava
ali, no encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um sumiço. Quem me tinha dito aquele nome estranho? Fernando Inguitai, a lagartixa, a réstia, Amaro
vaqueiro. A vitrola cantava baixinho: — “Fernando Inguitai.” Tentava sentar-me.
Se isto me fosse possível, procuraria a roupa. Virava-me com dificuldade. Por
que não entrava logo a pessoa que estava na sala? — “Obrigado, Vitória. Não
quero comer. Traga um copo de água.” Vitória afastava-se arrastando os pés,
levando a bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos depois, lá
vinha, chap, chap, resmungando, a cara fechada, e entregava-me o copo. Eu
bebia, molhando as cobertas. — “Obrigado, Rosenda.” Ficava suando e
arquejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de farinha, junto ao muro. O
barulho do descaroçador de algodão não me deixava dormir, os passos de Vitória
morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito comprido, envolto num
pano que se dobrava entre as pernas e tinha no lugar da cara uma nódoa
vermelha cheia de moscas. As moscas não se mexiam, mas faziam um zumbido
horrível de carapanãs. O olho de vidro de padre Inácio estava parado, suspenso
no ar, fora do corpo. A batina de padre Inácio, o capote do velho Acrísio, a farda
de cabo José da Luz e o vestido vermelho de Rosenda estavam parados,
suspensos no ar, sem corpos. As carapanãs zumbiam. Os pés de Camilo Pereira
da Silva, escuros, ossudos, saíam por uma das pontas do marquesão, medonhos.
Eu atravessava o corredor, ia à sala, voltava a deitar-me na prensa, abria o livro
que tinha chineses revoltados. Mas as pálpebras cerravam-se, as carapanãs e o
descaroçador enchiam-me a cabeça. Que motivo tinha Fernando Inguitai para rir-
se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os olhos. Se pudesse levantar-me,
tudo aquilo desapareceria. Iria conversar com o homem que me esperava na sala.
— “Não há chinês chamado Fernando.” Onde tinha ouvido aquele nome de
Inguitai? Se Vitória me trouxesse um copo de água... Ali com sede, morrendo,
sem um diabo que me desse uma xícara de café, um copo de água! Embalava-me
com isto: — “Sozinho, sozinho, morrendo à mingua, com sede.” Era bom que
todos estivessem longe. O contínuo da repartição, tão magro, tão velho, tão
triste, movia-se trôpego. D. Adélia dançara como carrapeta, e agora era aquilo
que se via, mole, acabada, uma lástima. Albertina de tal, parteira diplomada. Quando eu entrava na repartição, apressado e fora da hora, o contínuo velho
tinha um sorriso doce e alguma informação útil. Os meus olhos abriam-se,
fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros engrossavam, torciam-se,
alvacentos e repugnantes como cobras descascadas. “Greve no caso de reação.”
Alguns letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as manchas que as
águas da chuva tinham produzido. Mas havia letreiros novos. As crianças das
escolas olhavam para eles. O homem cabeludo que vendia aguardente só cuidava
da sua vida. Albertina de tal, parteira diplomada. Onde estava a minha roupa?
Queria vestir-me, sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais? Subir o
morro do Farol, entrar nas bodegas, beber cachaça. Seu Ivo me visitara,
acocorara-se junto à parede. — “Leve a roupa, seu Ivo.” Seu Ivo tinha vestido a
calça rasgada e o paletó sujo. Talvez não tivesse vestido aquela imundície, talvez
fosse tudo um sonho. Um homem na sala esperava com paciência que me
restabelecesse. Sair, entrar no café, viajar nos bondes. Onde estava a minha
roupa? A cadeira perto da cama, o livro fechado sobre a palha. — “Leve isso daí,
seu Ivo. A calça está rasgada. Cosa o rasgão com uma corda.” Albertina de tal,
parteira diplomada. Escuridão. Um estremecimento, uma queda. Ia cair da cama,
o chão se abriria, eu rolaria pelos séculos dos séculos fora disto. O espírito de
Deus boiava sobre as águas. Livrava-me do susto, pouco a pouco ia resvalando
no entorpecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equilibravam por
milagre. Algumas dobras daquelas coisas brancas e moles desciam,
aproximavam-se da minha boca, davam-me náuseas. A vitrola dizia: —
“Fernando Inguitai.” Os reisados cantavam defronte da casa de seu Batista. Os
mateus gritavam: — “Abra a porta, ioiô.” E as figuras todas: — “Aqui estou na
vossa porta como um feixinho de lenha.” Seu Batista não abria: esperava a
cantiga que fazia as janelas se escancararem. E as figuras, o embaixador, o rei, a
burrinha, os mateus, ficavam na calçada como um feixinho de lenha, fedendo a
suor, gemendo os versos, até que seu Batista, importante, abria a sala, surgia
vistoso, baixinho, vestido em robe de chambre. O feixinho de lenha entrava e
cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos mateus, a coroa do rei, a espada do embaixador, os lenços das figuras, punha uns níqueis em tudo isso. O zumbido
das carapanãs era insuportável. — “Um copo de água, Vitória.” Vitória não
ouvia, e a leseira recomeçava. Não havia escuridão, a réstia subia a parede. —
“Leve a roupa, seu Ivo.” Seu Ivo se acocorara a um canto, silencioso, babando-
se. Pimentel não aparecia. Devia ter aparecido, mas não me lembrava dele. Com
certeza viera num momento em que a febre era muito forte. Que doidices teria eu
dito na presença de Pimentel? Um, dois, um, dois. Marchava — e não podia
levantar-me da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da repartição
esmagavam-me. Algumas horas depois da função, o feixinho de lenha, composto
de mateus, figuras, burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada no eito.
— “Parem essa vitrola.” Fernando Inguitai, o braço carregado de voltas de
contas, andava pela rua do Comércio, fumando, sorrindo. Haveria alguém neste
mundo que se chamasse Inguitai? As cascavéis e as jararacas tomavam banho
com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço de meu avô.
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapateava no chão de terra batida,
uma alpercata saltava-lhe do pé. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito
Santo, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Ria-me como um
idiota. Provavelmente havia institutos históricos e geográficos por esses lugares.
Certas pessoas empurravam outras nas escadas e diziam: — “Desculpe.” O cego
dos bilhetes de loteria cantava o número, batendo com o cajado no cimento do
café. Virava-me para o espelho. Por detrás das letras brancas, rostos medonhos
arreganhavam os dentes e piscavam os olhos. As letras torciam-se, os caibros
torciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descascadas. 16.384. O
cajado batendo no cimento, avançando para mim, ameaçando-me com uma tira
de papel, que engrossava e queria morder-me. Moisés aproximava-se, comprava
a tira de papel, que se enrolava nos dedos dele, e lia em voz alta uma infinidade
de vezes: — “16.384.” Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na calçada,
esperando-me para vender uma volta de contas. — “Vai-te embora, Moisés.”
Não queria voltas de contas nem queria ouvir a leitura daquele número. Não era
número: eram palavras incompreensíveis, histórias da China. Moisés virava a página, que ficava mexendo-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da
cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto, Vitória a poria no lugar
do costume, junto à mala, mas durante uma noite inteira o móvel caprichoso não
me deixaria descansar. Eu tremia e receava que Moisés se fosse embora. Voltaria
o silêncio, a cadeira se chegaria mais à cama. — “Continue, Moisés. É isso
mesmo.” Não o entendia, mas aprovava-o com a cabeça e com palavras assim. A
voz rolava, lenta e monótona, o dedo comprido virava a página e gesticulava
diante da minha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enrolava-se, dava
um nó. A leitura era um zumbido, um enxame de carapanãs lia o livro difícil.
Estava a balançar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quando subia, abria
os olhos, via o dedo perto das minhas ventas; quando descia, ouvia o arranhar da
vitrola. Os ratos do armário dos livros roíam o disco da vitrola, e a vitrola dizia
baixinho: — “Fernando Inguitai.” A réstia sumia-se. Moisés levantava-se,
puxava a correntinha da lâmpada, tornava a sentar-se. — “Obrigado, Moisés.”
Ali perdendo tempo, lendo para me distrair. Excelente camarada. — “É preciso
que dr. Gouveia mande limpar estas paredes.” Caía em mim, arrependia-me de
ter falado. Certamente as paredes necessitavam limpeza, zangar-me-ia se alguém
me dissesse que não, mas a necessidade exigia explicação, e não me poderia
fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que o judeu mangasse de mim por
eu haver interrompido a leitura com uma frase besta. Íamos discutir. Receava
encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele concordasse comigo,
seria por eu estar doente. Não me conformava com isto. Preciso da
condescendência dos outros? Sou alguma criança? Por que tinha ele suspendido
a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos de mal-assombrado? Seria
melhor destampar logo e declarar francamente que as paredes não necessitavam
limpeza. De qualquer modo seria fácil um rompimento entre nós. Cada qual para
o seu lado, cada qual com as suas ideias. Moisés levantava-se, despedia-se. Eu
escondia as mãos nas cobertas, enrolava o pano debaixo do queixo e tremia,
pedia-lhe com os olhos que não me deixasse só entre aquelas paredes horríveis.
Agora Moisés me havia abandonado, e eu batia os dentes como um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendiários, de lágrimas pretas de piche. As
letras moviam-se, deixavam espaços que eram preenchidos. Estava ali um
tipógrafo emendando composição. E o piche corria, derramava-se no tijolo.
Ameaças de greves, pedaços da Internacional. Um, dois... Impossível contar as
legendas subversivas. Havia umas enormes, que iam de um ao outro lado do
quarto; umas pequeninas, que se torciam como cobras, arregalavam os olhinhos
de cobras, mostravam a língua e chocalhavam a cauda. As letras tinham cara de
gente e arregaçavam os beiços com ferocidade. A mulher que lava garrafas e o
homem que enche dornas agitavam-se na parede como borboletas espetadas e
formavam letreiros com outras pessoas que lavavam garrafas, enchiam dornas e
faziam coisas diferentes. A datilógrafa dos olhos agateados tossia, as filhas de
Lobisomem encolhiam-se por detrás das outras letras, Antônia arrastava as
pernas grossas cobertas de marcas de feridas, a mulher da rua da Lama cruzava
as mãos sobre o joelho magro e curvava-se para esconder as pelancas da barriga
escura. Um choro longo subia e descia: — “Que será de mim? Valha-me Nossa
Senhora.” Um moleque morria devagar, mutilado, porque havia arrancado os
tampos da filha do patrão. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das
chagas. 16.384. O cego dos bilhetes batia com o cajado na parede. — “Afastem
esta cadeira.” Seu Ivo estava de cócoras, misturado às outras letras. A calça
rasgada e o paletó sujo eram cor de piche. Cirilo de Engrácia, carregado de
cartucheiras e punhais, encostava-se a uma árvore, amarrado, os cabelos
cobrindo o rosto, os pés com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no
portão do palácio. Um ventre enorme crescia na parede, uma criatura malvestida
passava arrastando a filha pequena, um brilho de ódio no olho único. Sinha Terta
gemia: — “Minha santa Margarida...” O dono da bodega, triste, fincava os
cotovelos no balcão engordurado. As crianças faziam voltas em redor da barca
de terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito.
O engraxate escutava histórias de capoeiras. O homem acaboclado cruzava os
braços, mostrando bíceps enormes. O mendigo estirava a perna entrapada e
ensanguentada. As moscas dormiam, e o mendigo, com a muleta esquecida, bebia cachaça e ria. Passos na calçada. Quem ia entrar? Quem tinha negócio
comigo àquela hora? Necessário Vitória fechar as portas e despedir o hóspede
incômodo que não se arredava da sala. Mas Vitória contava moedas, na parede,
resmungava a entrada e a saída dos navios. A placa azul de d. Albertina
escondia-se a um canto, suja de piche. Todo aquele pessoal entendia-se
perfeitamente. O homem cabeludo que só cuidava da sua vida, a mulher que
trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um cordão, Rosenda, cabo José da
Luz, Amaro vaqueiro, as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos
bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia debaixo das árvores, tudo
estava na parede, fazendo um zumbido de carapanãs, um burburinho que ia
crescendo e se transformava em grande clamor. José Baía acenava-me de longe,
sorrindo, mostrando as gengivas banguelas e agitando os cabelos brancos. —
“José Baía, meu irmão, estás também aí?” José Baía, trôpego, rompia a marcha.
Um, dois, um, dois... A multidão que fervilhava na parede acompanhava José
Baía e vinha deitar-se na minha cama. Quitéria, sinha Terta, o cego dos bilhetes,
o contínuo da repartição, os cangaceiros e os vagabundos, vinham deitar-se na
minha cama. Cirilo de Engrácia, esticado, amarrado, marchando nas pontas dos
pés mortos que não tocavam o chão, vinha deitar-se na minha cama. Fernando
Inguitai, com o braço carregado de voltas de contas, vinha deitar-se na minha
cama. As riscas de piche cruzavam-se, formavam grades. — “José Baía, meu
irmão, há que tempo!” As crianças corriam em torno da barca. — “José Baía,
meu irmão, estamos tão velhos!” Acomodavam-se todos. 16.384. Um colchão de
paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante
e mexia-me com cuidado para não molestar as outras. 16.384. Íamos descansar.
Um colchão de paina.