Angústia

Graciliano Ramos · Capítulo 4 de 11 · parte 6/8

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Angústia

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

como um gato, andava à pressa, sem rumor, como um gato: Padre Inácio sacudia

o guarda-chuva e gritava: — “Canalha! Raça de cachorro com porco!” Cabo

José da Luz, banzeiro, arrastava a importância, marchava para a cadeia, bambo,

os passos lerdos, o cinturão frouxo, cantando baixinho: — “Assentei praça. Na

polícia eu vivo...” E o criminoso, pisando com força, atravessava o quadro, a

cabeça erguida, a testa cortada de rugas, o olhar feroz, trombudo, impando de

orgulho. Algumas horas depois estaria acocorado a um canto da prisão, sem

vontade, como seu Ivo. Mas ali, diante dos curiosos que se empurravam,

representava o papel de bicho: franzia as ventas, mordia os beiços, dava puxões

na corda e grunhia. Olhavam para ele com admiração, e os cachimbos se

envaideciam por havê-lo pegado vivo. Rosenda pasmava.

— Estamos costumados a amansar brabo, minha negra.

O carcereiro balançava as chaves, e o delegado dava encontrões no povo,

carrancudo, quase tão importante como o preso. As três mulheres velhas que

pareciam formigas chegavam à janela, em seguida escondiam-se

precipitadamente. Seu Filipe Benigno alisava a barba e gastava palavras difíceis

e compridas.

O povaréu se apertava na calçada da cadeia. Os cachimbos iam matar o bicho

no balcão de Teotoninho Sabiá. E o criminoso, entregue à polícia, furava a

multidão, entrava no corpo da guarda, preto de poeira e azeitado de suor. Na escuridão do cárcere, depois que a chave tilintava na fechadura da grade, o juiz

da cadeia recebia os duzentos réis do torno e desfazia os laços que deslocavam

os ossos, entravam na carne do homem. Um ladrão de cavalos seria maltratado,

aguentaria facão, de joelhos, nu da barriga para cima, um soldado segurando-lhe

o braço direito e batendo-lhe no peito, outro segurando o braço esquerdo e

batendo nas costas. Depois os presos se aproximariam, camaradas, de repente lhe

afastariam as pernas. O corpo cairia na pedra negra, suja de escarros, sangue, pus

e lama. O cipó de boi chiaria no ar, cortaria o lombo descoberto. Mas isto era

com os ladrões, os vagabundos, os autores de delitos miúdos. Um criminoso de

morte era diferente, merecia consideração. Quando ele chegava à calçada, toda a

gente se espremia, abrindo caminho, e os olhos se arregalavam num pasmo

quase religioso, mistura de aprovação e medo. Na presença da personagem havia

silêncio. Depois vinham as conversas cochichadas em que se exagerava o feito.

As ações de outros criminosos empalideciam. Aquele, sim, era turuna.

Contavam-se as facadas ou os tiros. Nas tarimbas sujas os soldados bocejavam,

fartos de sangue. O sujeito representava o seu papel de brabo, a cara enferrujada,

escuro de poeira e molhado de suor. Eu procurava descobrir nele semelhança

com meu amigo José Baía.

Vitória retirou o prato e limpou a toalha. Com uma sacudidela que deu, a

corda se espalhou e ficou ocupando quase metade da mesa. Vitória foi sentar-se

à porta da cozinha, desdobrou o jornal. Uma das voltas da corda parecia um

desses laços que as crianças fazem com um cordão nas calçadas. A gente põe o

dedo no meio e aposta, o parceiro puxa as extremidades do cordão. Quando o

dedo fica preso, a gente ganha. Se eu pusesse o dedo naquele círculo que ali

estava junto a uma nódoa de café, o dedo ficaria preso? Caso ficasse, que iria

acontecer?

Pensei em Amaro vaqueiro e em seu Evaristo. Trepado no mourão do curral,

Amaro passava uma hora aboiando.

— Vou laçar a novilha careta.

E a corda de couro girava. Na extremidade o laço ia acima e vinha abaixo.

Na escola de seu Antônio Justino, decorando a geografia, eu comparava Amaro

vaqueiro ao sol. Amaro vaqueiro era uma espécie de sol trepado num mourão. O

laço que girava em redor dele era a terra. De repente essa terra esquisita caía

sobre a novilha careta e prendia-lhe os chifres. Quando havia poucas reses, o

exercício era brincadeira. Mas em tempo de pega o curral se enchia, os cornos se

chocavam, e mal se distinguia a cabeça do animal visado. O laço rodava no ar

uma eternidade, descia, passava perto do alvo, tornava a subir. Amaro aboiava, e

os animais agitavam-se, batendo as pontas. Sentado no último pau da porteira, eu

tinha o coração aos baques e torcia desesperadamente. As minhas mãos

umedeciam-se de suor. Por que era que Amaro não acabava logo aquilo?

Subitamente o aboio estacava, o laço caía, o zunido da corda continuava um

instante no ouvido da gente. O animal estava preso.

Seu Evaristo sofria necessidades. Tinha vivido em boas condições, fora

eleitor, jurado, dera dinheiro para festas de igreja. E as pessoas que o

encontravam nas ruas da vila tocavam no chapéu.

Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeito mais sério do mundo.

Dedicava-se a vários ofícios, era agricultor, redigia procurações e petições.

Beirando os setenta, começou a vender macacos. Os olhos cansaram, a memória

emperrou, os braços descarnados não tiveram força para manejar a enxada, a

garlopa, o martelo de ferreiro e a tesoura de cortar metais. Seu Evaristo fabricava

muitas coisas, mas não se ajeitava em nenhuma profissão. E quando a velhice

chegou, sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que seguravam mal o cajado.

Andando, formava dois arcos: um por detrás, nas pernas, outro adiante, no peito;

sentado, firmava as mãos na extremidade do cacete, e sobre as mãos, duras e

peludas, de veias enormes, assentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras

que balançavam como teias de pucumã. Foi baixando, baixando, e na casinha

que se escondia no fim da rua da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos

daqueles invernos de serra seu Evaristo e a mulher tremiam e começavam a

tresvariar, porque a fome era grande. À noite andavam tropeçando nos cacarecos,

pois na casa não havia candeia, olhavam a rua triste sob a chuvinha impertinente que embaçava os vidros dos lampiões esmorecidos. Apertavam-se para enganar

o frio, e os moleques que passavam na calçada metiam os olhos pelos buracos

das janelas e gritavam:

— Velhos imorais! Abraçados, fazendo safadeza.

A caridade chegou: seu Filipe Benigno, André Laerte, o velho Acrísio, as três

mulheres que pareciam formigas, fizeram uma subscrição — e seu Evaristo

começou a receber dez mil-réis por semana. Passou-se o inverno. Plantou uma

roça no quintal. E quando o feijão verde apareceu e o milho deu bonecas,

mastigou uns agradecimentos e dispensou a caridade.

— Pobre orgulhoso, disse uma das mulheres que pareciam formigas.

Rosenda e cabo José da Luz concordaram.

A safra acabou, o velho sentiu fome, olhou os quatro cantos e não encontrou

amparo. Procurou trabalho, mas tinha setenta anos, e ninguém confiava nele. Um

dia, com a mão na barriga, entrou na padaria de seu José Inácio.

— Uma esmola pelo amor de Deus, cochichou.

Seu José Inácio estava aporrinhado.

— Uma esmola pelo amor de Deus, gemeu seu Evaristo quase sem voz.

— Ora...

Seu José Inácio gritou uma praga que ofendeu os ouvidos de seu Evaristo.

— Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, rosnou o velho espantado,

sem saber que aquele despropósito era com ele.

Tinha auxiliado muito mendigo, nunca fora grosseiro. Chegava num

momento em que o dono da padaria estava zangado.

— Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, repetiu baixinho.

Seu José Inácio apontou um cesto de pães dormidos e gritou brutalmente:

— Tira ali.

Mais tarde arrependeu-se, como disse a Teotoninho Sabiá, lembrou-se de que

o velho nunca havia importunado ninguém. Ainda chegou à porta para chamá-lo

e pedir desculpa, mas a rua estava deserta.

Nesse dia seu Evaristo entrou em casa arrastando-se como um aleijado e deu um pão seco à companheira. Ficou uns minutos vendo-a meter as gengivas na

crosta dura, em seguida avizinhou-se da parede, onde havia uma corda

pendurada a um torno.

— Hum! hum! exclamou a mulher. Pior que mastigar chifre.

— Com certeza, murmurou seu Evaristo.

A mulher comeu o pão e foi deitar-se na esteira. Viu o marido passar a mão

pela parede, mas como estava com a vista curta, não percebeu o que ele fazia.

— Só vi que passava a mão pela parede, confessou no dia seguinte a André

Laerte. Virei-me na esteira e peguei no sono.

Horas depois encontraram seu Evaristo enforcado num galho de carrapateira.

Fui vê-lo, mas não tive coragem de me aproximar: fiquei de longe, olhando o

corpo que balançava, os pés tocando o chão, como se estivessem preparando um

salto. Eu estranhava que uma pessoa pudesse aguentar-se numa coisa tão frágil

como um galho de carrapateira. Rosenda me disse que no momento em que um

cristão bota o laço no pescoço o diabo monta nos ombros dele. Seu Evaristo

balançava. Às vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes surgiam a barba

branca, a língua fora da boca, os olhos abotoados, a careca, e era como se ele

fosse dar um salto. Esta ideia absurda de um homem saltar depois de morto bulia

comigo. Aquele defunto levantado, com os pés no chão, ameaçando-me com um

salto que poderia trazê-lo para junto de mim, apavorava-me. A corda que o

sustinha, apenas visível de longe, fininha como aquela que ali estava em cima da

mesa, torcia-se e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olhava-o, sem

lágrimas.

Vitória, na cozinha, lia o jornal. Os armadores se tinham calado. Seu Ivo

dormia encostado à parede, com a boca aberta. Agarrei a corda, fiz dela um bolo,

meti-a no bolso. O coração batia-me desesperadamente.

— Vá para o diabo, seu Ivo, berrei.

Seu Ivo roncava. Sacudi-o. Levantou-se e ficou inclinado, como se estivesse

armando um salto.

— Vá para o diabo. Aqui amolando! Eu tenho nada com você? Suma-se.

Seu Ivo baixou a cabeça:

— Está direito. Até logo, seu Luisinho. Deus lhe acrescente.

 

. . .

 

Julião Tavares entrava no café. Ia sentar-me longe dele, voltava-lhe as costas,

mas examinava o espelho coberto de letras brancas. Afetava desprezo,

aparentemente ignorava a existência do homem. Via, porém, a roupa molhada

nos sovacos, os olhos que saltavam das órbitas, o cabelo escorrido, a papada

balofa, as bochechas enormes, tudo riscado de traços brancos que anunciavam

bebidas. Se me falavam, eu respondia com uma interjeição qualquer, voz

selvagem, gutural, ouvida antigamente aos almocreves e aos tangerinos e que

não perdi, apesar dos anos de cidade. Enquanto lançava distraído esses gritos

estranhos e ásperos, lia os anúncios que havia no espelho. Juntava letras das

palavras mais compridas e formava nomes novos.

Esse exercício tornou-se em mim um hábito de que não me posso libertar.

Conto pelos dedos as combinações que vão surgindo, em séries de vinte,

correspondentes às duas mãos fechadas e abertas. Quando há muitas vogais,

consigo arranjar sessenta, oitenta, às vezes cem palavras ou mais. Faço assim

com os letreiros das casas de comércio, com os cartazes de cinema, com os

títulos dos jornais e dos livros. Esse passatempo idiota dá-me uma espécie de

anestesia: esqueço as humilhações e as dívidas, deixo de pensar. Pelo menos não

penso numa coisa só. Mas vejo perfeitamente o que se passa em roda. Pouco a

pouco chegam sinais de impaciência: os dedos apertam-se, as unhas ferem a

palma, e zango-me por estar perdendo tempo com semelhante estupidez, mas

ordinariamente não interrompo a contagem.

Ali sentado a um canto, voltado para a parede, sentia-me distante do mundo.

Só via as letras brancas que se estampavam na cara vermelha de Julião Tavares.

Lembrava-me dos desenhos medonhos que os selvagens fazem no rosto e do costume que os cangaceiros têm de marcar os inimigos com ferro quente. Dos

letreiros brancos saíam às vezes nomes que se aplicavam bem a Julião Tavares.

Se eu fosse um cangaceiro sertanejo e encontrasse Julião Tavares numa estrada,

meter-me-ia com ele na capoeira e imprimir-lhe-ia no focinho, com ferro,

algumas das letras brancas que lhe apareciam na pele e na roupa. Segurava a

xícara desatento, derramava açúcar no pires e no mármore, bebia o café

maquinalmente. Os traços de alvaiade zebravam as pessoas que transitavam na

rua. Certamente Marina ia surgir entre elas.

Depois que Julião Tavares tinha deixado de frequentar a casa vizinha,

qualquer ausência de Marina me trazia a suspeita de que os dois iam encontrar-

se. Tomava o chapéu e acompanhava-a, escondendo-me, encostando-me às

paredes, receando que a espionagem fosse descoberta. Evidentemente as

relações dos dois estavam reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e dar o

braço à amante, levá-la a uma casa de recurso. A evidência esmorecia. Marina

andava como as outras mulheres, olhava as vitrinas, entrava nas lojas. Ia esperá-

la no primeiro poste cintado de branco. Minutos depois a perseguição

recomeçava, até que ela se recolhia. Sentia-me a um tempo aliviado e logrado.

Era claro que eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me de não ter

prestado bastante atenção à rua. Com certeza tinha-me escapado uma porta meio

aberta, uma escada sombria onde aquele sem-vergonha se atocaiava. O meu

desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas, as árvores da rua Augusta.

Estava certo de que, enquanto eu vigiava Marina, Julião Tavares me vigiava de

longe, parando, escondendo-se.

Ali no café, com o jornal enrolado sobre o mármore, a mão gorda e curta

distribuindo acenos, o sorriso nos beiços grossos, derretia-se para as moças que

passavam na calçada. Por detrás das linhas brancas do espelho, a cara redonda se

afogueava, as bochechas moles inchavam, o olho azulado queria escapulir-se da

órbita e meter-se no seio das mulheres.

Eu procurava um cigarro, sentia a aspereza da corda. Ficara no bolso desde

aquela tarde, misturando-se aos cigarros soltos e machucados.

As letras dos anúncios desapareciam, e toda a minha atenção se concentrava

em Julião Tavares. Lembrava-me do primeiro encontro que tivemos, no Instituto.

Ele catalogava frases monstruosas a respeito da bandeira nacional. A saída dava-

me um empurrão, segurava-me um braço e escorregava na intimidade. Meia hora

depois expunha-me projetos de reforma.

— O país precisa isto, precisa aquilo.

— Ah! Eu conheci logo que o senhor era patriota.

Lá estava amolando outro, com o cotovelo no mármore, a voz oleosa, o olho

derramado sobre as mulheres. Agitava-me, rangia os dentes, grunhia uma

obscenidade. Não ligava importância àquelas bestas, fossem para a casa do

diabo. Tinham dormido juntos, ela estava pejada. Muito bem. Era encher-se,

parir, enjeitar o filho, marchar para a rua da Lama, acabar-se no esquentamento.

Um filho na barriga, um filho daquele sem-vergonha. Tão bom era um como o

outro.

E apertava a corda com força. Quando retirava a mão do bolso, via nos dedos

os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um

salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem.

O doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa,

preocupado com alguma encrenca.

Que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado,

perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu

tinha. Realmente as portas ali são pretas e sujas, as grades de ferro são pretas e

sujas, os móveis são pretos e sujos. É o que me amedronta. Aquele bolor, aquele

cheiro e aquela cor horríveis, aquela sombra que transforma as pessoas em

sombras, os movimentos vagarosos de almas do outro mundo, apavoravam-me.

Não posso encostar-me às grades pretas e nojentas. Lavo as mãos numa

infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às

apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei

por onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de

qualquer Marina. Preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível.

Mas a vida que levo talvez seja pior. Não tinha medo da cadeia. Se me dessem

água para lavar as mãos, acomodar-me-ia lá. Podia o resto do corpo ficar sujo,

podiam os piolhos tomar conta da cabeça e as roupas esfrangalhadas cobrir mal a

carne friorenta. Se me dessem água para lavar as mãos, estaria tudo muito bem.

Dar-me-iam água para lavar as mãos? A cara do doutor chefe de polícia era

triste. Provavelmente ele vivia cheio de aborrecimentos, tinha uma necessidade

qualquer e compreenderia a minha necessidade de lavar as mãos. Decididamente

a polícia não me inspirava receio.

Medo de Julião Tavares? Não havia motivo. Julião Tavares procuraria

levantar-se do tamborete, faria um barulho inútil, bateria com os braços na mesa

e quebraria a xícara. As bochechas vermelhas se tornariam roxas, os olhos se

rodeariam de olheiras roxas, os beiços roxos e intumescidos se descerrariam

mostrando os dentes de rato e a língua escura e grossa, os movimentos das mãos

se espaçariam, afinal seriam apenas sacudidelas, contrações. A imobilidade dos

dedos sobre o mármore, os pés das unhas roxos. Um rebuliço, mesas caídas, o

guarda-civil do relógio oficial apitando, gente correndo, aos gritos.

Medo da opinião pública? Não existe opinião pública. O leitor de jornais

admite uma chusma de opiniões desencontradas, assevera isto, assevera aquilo,

atrapalha-se e não sabe para que banda vai. Ouvindo-o, penso no tempo em que

os homens não liam jornais. Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo

número de ideias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha ideias muito

reduzidas, em mestre Domingos, que era privado de ideias e vivia feliz. E

lamento esta balbúrdia, esta torre de Babel em que se atarantam os

frequentadores do café. Quero bradar:

— Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim.

Depois escreverão de outra forma. É tapeação, é safadeza.

Aborreço a lida enfadonha, que só serve para gerar confusão no espírito de

seu Ramalho. Pimentel é um malandro. Por que será que Pimentel não escreve

sempre as mesmas coisas? Repetindo-as, ele próprio, que não acredita em nada, acabaria acreditando nos seus artigos.

Não há opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles

estariam do meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim.

No júri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria

a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião.

Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal

já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos.

Eu não podia temer a opinião pública. E talvez temesse. Com certeza temia

tudo isso. Era um medo antigo, medo que estava no sangue e me esfriava os

dedos trêmulos e suados. A corda áspera ia-se amaciando por causa do suor das

minhas mãos. E as mãos tremiam. O chicote do feitor num avô negro, há

duzentos anos, a emboscada dos brancos a outro avô, caboclo, em tempo mais

remoto... Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os

beiços franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada.

Procurava os vestígios das duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a

vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolambado e cheio

de sonhos. Não preciso de automóveis nem de rádios, viveria bem numa casa de

palha, dormiria bem numa cama de varas, num couro de boi ou numa rede de

cordas, como Quitéria, como o velho Trajano e Camilo Pereira da Silva. Para

que me habituei a ler papel impresso, a ouvir o rumor de linotipos? Desejaria

calçar alpercatas, descansar numa rede armada no copiar, não ler nada ou ler

inocentemente a história dos doze pares de França.

Onde estariam os descendentes de Amaro vaqueiro? Talvez o guarda-civil do

relógio oficial fosse um deles. Se eu matasse Julião Tavares, o guarda-civil não

levantaria o cassetete: apitaria. Chegariam outros, que me ameaçariam de longe.

O guarda-civil não tem coragem. Se tivesse, não olharia os automóveis horas e

horas, junto ao relógio oficial: ocupar-se-ia devastando fazendas, incendiando

casas, deflorando moças brancas, enforcando proprietários nos galhos dos

juazeiros. Os sertanejos fortes revoltaram-se e andam matando, roubando,

violando, quase selvagens, sujos, os cabelos compridos, enfeitados de penduricalhos, os chapéus de couro cobertos de medalhas, as cartucheiras

pesadas, enormes. Nenhum respeito à autoridade. Se um oficial de polícia viajar

pela estrada, morre na tocaia. E se não morrer logo, é pior: levam-no para a

capoeira e torturam-no. Os campos estão desertos, o gado enegreceu com o

carrapato, os homens valentes pegaram o rifle, amarraram a cartucheira na

cintura. O guarda-civil do relógio oficial veio para a cidade e arranjou emprego.

É um sujeito magro como eu, civilizado como eu. Se houver barulho na rua, ele

apita. Se houver greve nas fábricas e lhe mandarem atirar contra os grevistas,

atira tremendo. As greves acabam. E ele voltará para a chateação do ponto,

magro, triste. É pouco mais ou menos como eu.

— Escreva um artigo a respeito de salários, seu Luís.

Bocejo e sapeco uma literatura ordinária, constrangido. Sei que estou

praticando safadeza. Penso no que acontecerá depois. Quando houver uma

reviravolta, utilizarão as minhas habilidades de escrevedor? E o guarda-civil?

Continuará junto ao relógio, olhando os automóveis, apitando em caso de

necessidade? E Julião Tavares, patriota e versejador? Para que serviria Julião

Tavares? Agora era uma figura importante demais. Tavares & Cia., negociantes

de secos e molhados na rua do Comércio, eram uns ratos. A personagem oficial

que visitava d. Mercedes, alta noite, devia muito a Tavares & Cia. E Julião

Tavares era importante. Fazia receio matar um sujeito importante como Julião

Tavares.

 

. . .

 

Nas horas de serviço conseguia distrair-me. Os livros enormes de lombos de

couro e folhas rotas, os ofícios, a campainha do telefone e o tique-taque das

máquinas de escrever me arrastam para longe da terra. O que lá fora é bom, útil,

verdadeiro ou belo não tem aqui nenhuma significação. Tudo é diferente.

Respiramos um ar onde voam partículas de papel e de tinta e trabalhamos quase às escuras. A voz do diretor é doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcionário

comete uma falta, o diretor mostra o parágrafo e o artigo adequados ao caso.

Sucede que o funcionário se defende apontando outro artigo. Aí o diretor

perturba-se e descontenta-se: compreende que o serviço não vai bem, mas

encolhe-se diante do regulamento e admira e receia o empregado que soube

encapar-se nele. Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas

rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes

gastos. O que tem valor cá dentro são as coisas vagarosas, sonolentas. Se o

maquinismo parasse, não daríamos por isto: continuaríamos com o bico da pena

sobre a folha machucada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos.

Deixaríamos de pestanejar, mas ignoraríamos a extinção dos movimentos

escassos. Os rumores externos chegam-nos amortecidos. Que barulho, que

revolução será capaz de perturbar esta serenidade?

Era, pois, na repartição que eu obtinha algum sossego. As imagens que me

atormentavam na rua surgiam desbotadas, espaçadas e incompletas. O ambiente

era impróprio à vida intensa que elas tinham lá fora. Quando se iam fixando, um

tique-taque de máquina de escrever, o chiar de uma folha que roçava sobre outra

como lixa, um toque distante de campainha, uma voz descontente e adocicada,

todas as complicações miúdas que me sustentam, cortavam as figuras esboçadas.

Julião Tavares era uma sombra que se arredondava, tomava a forma de um

balãozinho de borracha. Este objeto colorido flutuava, seguro por um cordel. O

vento arrastava-o para um lado e para outro, mas o cordão curto não o deixava

arredar-se muito do café. Marina era outra sombra que se balançava devagar na

rede. O rumor dos armadores era interrompido pelo tilintar do telefone. A rede ia

e vinha, Marina se deslocava um metro para a direita, um metro para a esquerda,

e não podia ir mais longe. Desaparecia o risco de se aproximarem os dois, era

como se estivessem amarrados.

Logo que me afastava da repartição, tudo mudava. Tropeçando no

paralelepípedo, via, meio encandeado pelo sol, os transeuntes juntarem-se e

apartarem-se, e isto me parecia cheio de malícia. Havia intenções reservadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia promessas nos olhos das

mulheres que se desviavam dos homens. Automóveis abertos exibiam casais,

automóveis fechados passavam rápidos, e eu adivinhava neles saias machucadas,

gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade

estava em cio, era como o chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Três horas

escondido — e cá fora esta gente desenfreada, bodejando, com estilo, com

demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano.

Os relógios batiam. Com certeza os machos olhavam os mostradores,

pensando em entrevistas. Apressava-me. Três horas metido entre as paredes de

uma catacumba oficial. Imaginava o que teria podido acontecer nessas três horas

e aterrorizava-me. Corria para casa desembestado. A sala de jantar, a barra

vermelha com manchas de umidade, o cano de ferro. Vitória punha os pratos na

mesa. Esforçava-me por conversar, lembrava-me das moedas e sentia remorso,

falava nos vapores. Vitória dizia a lista dos passageiros. Tentara fazer Currupaco

decorar uma das listas, mas Currupaco não dera conta do recado e ficara nos

versos da mulher do macaco, que fia e cose e toma tabaco há muitos anos.

— O senhor está magro como um cassaco. Não come!

Arreliava-se e dava-me conselhos. Como eu não lhe prestava atenção,

afastava-se e ia explicar-se junto à gaiola do Currupaco:

— Papagaio não comeu, morreu.

Eu mastigava uns bocados, enganava o estômago, olhava o quintal, enfadado

com a tagarelice da velha. Zangava-me e tinha vontade de lhe pedir silêncio.

Continuando a falar tão alto, não me deixaria ouvir mais nada.

— Vá comprar um maço de cigarros, Vitória.

Quando ela voltava, dava-lhe outra incumbência e conseguia ficar só algum

tempo. Aproximava-me da parede manchada, aumentava a orelha com a mão e

esperava, esperava, até que percebia aquela voz sacudida que ia ficando

quebrada. Afastava-me, atravessava o corredor, chegava à porta da rua.

Dez minutos depois entrava no café. Lá estava Julião Tavares na prosa. Ia

sentar-me no meu lugar. Se Moisés e Pimentel apareciam, conversávamos, discutíamos os fuxicos do jornal, metíamos o pau nos literatos da terra. Sentia-

me em segurança. Na animação da palestra procurava cigarros, mas retirava a

mão do bolso como se tivesse sido mordido. Aquela coisa punha termo aos

momentos de tranquilidade.

— Um maço de cigarros.

Abria o maço de cigarros e deixava-o sobre a mesa. No dia seguinte jogaria a

corda por cima do muro de d. Rosália.

— Fume um cigarro, Pimentel.

Não. As crianças pegariam aquilo, brincariam com aquilo, e aquilo era sujo e

perigoso. Atiraria a corda por cima do muro do fundo, no monte de lixo e cacos

de vidro, onde lançam ratos mortos. Seu Ivo, aquele cachorro, achava poucas as

minhas aporrinhações e ainda me trazia encrencas. Seu Ivo que fosse para o

diabo.

— A arte deve ser assim e assado, explicava Moisés. A tecla de sempre, arte

como instrumento de propaganda política. Eu queria contrariar o judeu, mas

esmorecia, sem coragem para a discussão.

— Estou em segurança, em perfeita segurança.

Cada vez mais me convencia, porém, de que não estava numa segurança

assim tão perfeita. Parecia-me que na calçada inimigos embiocados me

espiavam.

— Um homem de repartição habitua-se a não ver nada fora dos processos.

Vive lesando, como um cego, não é verdade, Pimentel?

— Sem dúvida.

Pimentel concordava distraído. Não desgosta ninguém. Escrevendo, agarra

uma opinião e, sinta quem sentir, sapeca tudo no papel. Saem artigos furiosos,

agressivos como uma peste. Mas em conversa aprova o que a gente diz.

— Continue, Moisés. Como é lá isso?

Tranquilo, perfeitamente tranquilo. Seu Ivo era um grande patife. Onde

andaria seu Ivo? Vagabundeando pelos municípios. Uma tristeza pensar em seu

Ivo, que só servia para incomodar os outros.

— Vai tudo muito mal, minha gente. Vai tudo escangalhado. Não há

segurança nenhuma.

Não havia. A tranquilidade era pouco a pouco substituída por uma

inquietação que me tornava brutal com os companheiros. Instabilidade, ruína, o

mundo perdido. Não argumentava, não me explicava: queria descontentar

Moisés.

— Não há remédio não. História. Tudo perdido.

Repisava no mesmo terreno, desajeitado. Uma teimosia estúpida. Procurava

andar para diante, sentia-me burro, e isto me irritava mais. Ridículo,

absolutamente ridículo. E zangava-me com Moisés, que falava sem se alterar. De

quando em quando tudo escurecia — ficavam-me diante dos olhos listras

coloridas. Receava-me de ofender gravemente Moisés. As minhas mãos

dirigiam-se para ele, apertavam-se, como se o fossem estrangular. Eu procurava

qualquer coisa, apalpava o bolso que tinha a corda e fazia um chumaço no paletó

velho. Baixava a cabeça, prendia as mãos entre as pernas, envergonhado,

perguntava a mim mesmo se Moisés teria percebido a tentação e os movimentos.

Parecia-me ter cometido uma falta. Selvagem.

— Ora, sim senhor. Em conversinhas como esta é que se armam fuzuês

medonhos.

Dizia isto em voz baixa, mas os dois amigos ouviam algumas palavras e

espantavam-se. Fuzuês medonhos, brigas, sopapos, tiros. Lá vinha o título

enorme da notícia, em quatro colunas: “Comunista assassinado num café.” Ruim

título. Pimentel arranjaria outro melhor. E escreveria durante uma semana coisas

interessantes. Enquanto matutava nestes absurdos, olhava-me ao espelho: uma

cara besta. Evidentemente o pessoal mangava de mim; Julião Tavares, no outro

lado da sala, mangava de mim, via-se muito bem entre as linhas brancas do

espelho. Esforçava-me por endireitar o rosto descomposto, procurava entender o

discurso de Moisés. Com os olhos arregalados e os queixos contraídos, o que me

dava à boca uma aparência de focinho, era como um rato, um rato bem-educado,

as patas remexendo o maço de cigarros.

— Perfeitamente, perfeitamente.

Agora concordava com tudo. Eu tinha lá convicção! Baixava a mão

lentamente, tocava no bolso volumoso. Pensava em Chico Cobra e no cabaço

cheio de jararacas. Faltava-me qualquer coisa.

— Perfeitamente.

Levantava-me:

— Está bem. Já volto.

Corria à rua do Macena, entrava em casa, ia à sala de jantar, ao quintal, ao

banheiro, demorava-me até perceber sinais da presença de Marina. Então voltava

à conversa interrompida com os amigos.

— Tranquilo, tranquilo.

Quando não encontrava Julião Tavares, detinha-me um instante à porta,

depois saía pelas ruas, a procurá-lo.

 

. . .

 

Marina caminhava depressa, virava esquinas, voltava-se, como se tivesse medo

de ser perseguida. Entrou em várias lojas, escondeu-se num cinema. Distanciei-

me dela e estive quase a perdê-la de vista. Aproximei-me de novo. Marina

andava de um lado para outro, como formiga desnorteada. Parecia ter o diabo no

couro. Meteu-se por uma rua onde os sapatos mergulhavam na areia. Seguia com

dificuldade, curva, passando o lenço na cara. Escondi-me numa esquina, porque

de quando em quando ela se aprumava e examinava a rua. Duas vezes parou,

descalçou-se e esvaziou os sapatos cheios de areia. Em seguida começou a

observar os números das casas. Como se afastasse muito de mim, saí, atravessei

rapidamente um quarteirão e fui ocultar-me noutra esquina. Arrisquei-me depois

a nova escapada e avizinhei-me bastante dela. O bairro era uma desgraça: mato

nas calçadas, lixo, cães soltos, um ou outro maloqueiro vadiando à porta de

quitandas miseráveis. As casas sujas, muitas riscadas com letras a carvão profundamente revolucionárias. Pensei em Tavares & Cia. e no dr. Gouveia.

— Com certeza Moisés anda por aqui, distribuindo boletins a esta gente.

Mas não se via a gente. Apenas maloqueiros cochilando, alguns mendigos,

crianças barrigudas e amarelas. O resto devia estar no trabalho: os homens nas

oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quartéis, em todos os infernos

que há por aí; as mulheres lavando roupa, amando por dinheiro, preparando a

comida ruim e insuficiente. Os filhos, roídos pelos vermes, seriam vagabundos

mais tarde, dormiriam ao meio-dia nas portas das bodegas. Dormiriam? Quando

eles crescessem, haveria pessoas dormindo ao meio-dia nas portas das bodegas?

Muitos agora tiritavam, batendo os dentes como porcos caititus, na maleita que a

lama da lagoa oferece aos pobres.

“Proletários, uni-vos.” Isto era escrito sem vírgula e sem traço, a piche. Que

importavam a vírgula e o traço? O conselho estava dado sem eles, claro, numa

letra que aumentava e diminuía. Talvez a datilógrafa dos olhos agateados

morasse por ali, num dos becos que iam ter à rua suja. Escondida num quarto

escuro, a datilógrafa dos olhos agateados ocupava-se em bater na máquina um

boletim subversivo. Um irmão decoraria dele a frase mais incendiária, que seria

copiada a carvão no muro de uma igreja de arrabalde.

Aquela maneira de escrever comendo os sinais indignou-me. Não dispenso as

vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços?

Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim. Mas então?

— Um homem sapeca as pestanas, conhece literatura, colabora nos jornais, e

isto não vale nada? Pois sim. É só pegar um carvão, sujar a parede. Pois sim.

Moisés que se arranje.

Senti despeito. Afastar-me-iam da repartição e do jornal, outros me

substituiriam. Eu seria um anacronismo, uma inutilidade, e me queixaria dos

tempos novos, bradaria contra os bárbaros que escrevem sem vírgulas e sem

traços.

Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a

minha atenção se concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava à rua uma banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-

me, aproximei-me da casinha e vi uma placa azul com letras brancas: “Albertina

de tal, parteira diplomada.” Fui até o fim da rua. Aparentemente observava os

letreiros das bodegas e as legendas revolucionárias. As bodegas tinham nomes

difíceis. Julguei que os vagabundos me achavam diferente dos habitantes do

bairro. E isto me fez apressar o passo e virar o rosto. Desejei retirar-me dali,

ingressar de novo na sociedade dos funcionários e dos literatos.

Crianças de azul e branco, naturalmente de volta da escola, tinham a pele

enxofrada, o rosto magro cheio de fome. Sentia-me intruso. A minha roupa era

velha, a gravata enrolada como uma corda. Com certeza os rapazes do bairro

tinham melhor aparência. Em dias de descanso usavam roupa nova, lenço de

seda, sapatos lustrosos. Mas havia em mim qualquer coisa que denunciava um

estranho. As crianças olhavam-me como olham os homens que aparecem nas

escolas pelos exames. Eu era uma das criaturas que elas estavam acostumadas a

aborrecer, uma das criaturas que dizem palavras compridas em discursos. Voltei,

parei novamente diante da casa de d. Albertina de tal, parteira diplomada.

Atravessei a rua, entrei numa bodega.

— Faz o obséquio de me dar um pouco de aguardente?

O homem da venda trouxe a garrafa, pôs-se a despejá-la num copo sujo.

Como eu não o interrompesse, derramou a bebida com sovinice.

— Quer que encha?

— Vá botando.

— An! bom. É o que se leva deste mundo, opinou entregando-me o copo

cheio.

Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fronteira, o pensamento

espalhado.

— Seu Ivo deve andar por aqui, não?

O homem não respondeu logo: franziu a testa e agitou vagamente o braço

peludo. Não conhecia seu Ivo. Naturalmente. Mas senti uma espécie de

decepção, as casas em redor pareceram mais fechadas, o dono da bodega mais cabeludo e mais silencioso.

— D. Albertina estará em casa?

O bodegueiro interrogou-me com a cabeça. Apontei a casa:

— D. Albertina...

— Talvez esteja, respondeu o sujeito depois de algum tempo. Sua mulher

precisa dela?

— Não. É outra coisa.

— Está bem.

Esta aprovação desgostou-me, tive o desejo de contrariá-lo, mas limitei-me a

beber metade da aguardente e bater com o copo no balcão. Não havia nada que

estivesse bem.

Vista dali, a placa azul de d. Albertina era ilegível. Mesmo de perto,

dificilmente se decifrava. Em vários pontos, especialmente nos cantos, o esmalte

desaparecia e era substituído por manchas de ferrugem. Com certeza aquele

traste havia sido mudado muitas vezes, pregado e despregado, amassado,

desamassado a martelo. De alto a baixo uma linha escura indicava que o tinham

dobrado e novamente estendido. Ali faltavam as letras.

As rótulas verdes de d. Albertina estavam cerradas, a porta fechada. E

Marina lá dentro. Lembrei-me de anúncios revistos há muitos anos: “Fulana de

tal, parteira diplomada, com longa prática, etc., faz voltarem as regras, etc.”

Trancada num quarto, deitada na cama, Marina se deixava apalpar

demoradamente. A água fervia na caixinha de lata, a chama do álcool

empalidecia as figuras.

— Quantos meses? perguntava d. Albertina.

Na casa vizinha um dístico horrível tomava a parede toda. Letras grandes,

letras pequenas, maiúsculas no meio das palavras. E linhas verticais, verdes,

produzidas pela água da chuva, cortando a ameaça aos ricos.

— Andam muitos agitadores por aqui, não?

— An?

— Pessoas descontentes que pretendem arrasar isto, construir de novo. Que acha?

Apontei a inscrição violenta. O sujeito cabeludo espiou-me com o rabo do

olho e amoitou-se:

— Aquela sempre esteve ali.

— Sempre?

Meninos abandonados batiam nas portas, pediam esmolas.

— Sempre? Como é lá isso?

— É um modo de dizer, respondeu o tipo. Aí uns três anos. Quando abri o

estabelecimento, ela já estava acolá, assim mesmo, com uns pedaços verdes. A

gente se acostuma.

— Acha? perguntei enjoado. Ora essa! Qual é a sua opinião?

Bebi um gole de aguardente, acendi um cigarro, pus-me a bater com os dedos

na tábua preta e gordurosa.

— Essa d. Albertina faz negócio? Qual é a sua opinião?

— Sobre quê?

Abarquei com um gesto as garrafas das prateleiras, as casas arruinadas, a rua

coberta de capim e as crianças que pediam esmolas:

— Tudo. Quando a encrenca vier, o senhor perde pouco.

— Sei lá! Não leio, não vou aos meetings. Só cuido da minha vida.

Puxei a cadeira, afastei-me daquele homem indiferente. Estupidez. Imaginar

que as letras sempre tinham estado na parede. Inútil conversar com ele. Tenho

lido muitos livros em línguas estrangeiras. Habituei-me a entender algumas.

Nunca me serviram para falar, mas sei o que há nos livros. Certas personagens

de romances familiarizaram-se comigo. Apesar de serem de outras raças,

viverem noutros continentes, estão perto de mim, mais perto que aquele homem

da minha raça, talvez meu parente, inquilino de um dr. Gouveia, policiado pelos

mesmos indivíduos que me policiam. Bebi o resto da aguardente, pensando em

coisas sagradas, Deus, pátria, família, coisas distantes. Por cima da armação da

bodega havia a litografia de uma santinha bonita. Lembrei-me do Deus antigo

que incendiava cidades:

— A humanidade está ficando pulha.

— Hum?

— É cá uma história. Faz o favor de trazer mais aguardente?

O homem cabeludo trouxe a garrafa:

— É o que se aproveita neste mundo.

— Mais ou menos.

Uma pátria dominada por dr. Gouveia, Julião Tavares, o diretor da minha

repartição, o amante de d. Mercedes, outros desta marca, era chinfrim. Tudo

odioso e estúpido, mais odioso e estúpido que o sujeito cabeludo que despejava

aguardente no copo sujo.

Que demora de Marina! D. Adélia chegava à janela. Seu Ramalho, cansado,

um ombro alto e outro baixo, entrava sucumbido, assobiando por causa da asma,

ia sentar-se à mesa de toalha rasgada, onde a comida esfriava. D. Adélia

inventava desculpas: Marina tinha ido ali, tinha ido acolá, não tardava.

Seu Ramalho fungava, enjoado: tudo mentira. Alguns dias depois Marina

apareceria com vestidos caros, peles caras que não seriam compradas por ele.

Abandonava o prato, detestava a mulher, detestava a filha, descia ao quintal,

passeava entre os montes de lixo. Que família! Que miséria! D. Rosália largava

os meninos a Antônia, deixava a panela esturrar, ia para a janela ganhar calos

nos cotovelos, espionar os vizinhos. D. Mercedes mandava dinheiro ao marido e

tinha filha no colégio.

Que demora! D. Albertina não acabaria aquela operação para restabelecer as

regras? D. Albertina era terrivelmente criminosa. Rumor de tambores, longe,

toques de corneta. O filho de Julião Tavares era necessário ao patriotismo. A

água fervendo na caixinha de lata, um frasco cheio de líquido vermelho, a chama

do álcool tremendo, Marina com o rosto escondido entre as mãos, deixando-se

apalpar pelos dedos hábeis de d. Albertina. Se não fosse isso, dentro de vinte

anos a criatura mofina estaria volvendo à direita, volvendo à esquerda,

decorando os nomes das peças de um fuzil e passagens gloriosas do Paraguai.

Filho de casal direito, com pai rico, faria discursos no Instituto e declamaria versos; mas assim, coitado, nasceria às escondidas e não passaria daquilo —

direita, esquerda, ordinário. D. Albertina era criminosa, mas não senti ódio a ela.

Sinha Terta não faria semelhante coisa. Sinha Terta não tinha diploma, nem

placa, nem anúncio nas folhas, acreditava em pecado e vivia num tempo em que

os filhos traziam vantagens aos pais. As mulheres pariam na esteira, e quando

surgia dificuldade, sinha Terta empurrava a reza: — “Minha Santa Margarida,

não estou prenha nem parida...” Os filhos de Quitéria e os das outras negras da

fazenda pertenciam à família do velho Trajano. Onde andaria essa família?

Morta, espalhada, esfarelada.

Os toques de corneta e os rufos de tambor cresciam. A minha pátria era a vila

perdida no alto da serra, onde a chuva caía numa neblina que escondia tudo. Se

eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do mundo. Seu Evaristo, que se enforcou,

mestre Antônio Justino, padre Inácio, cabo José da Luz, seriam pessoas notáveis.

Tão longe! Pensei no jornal francês lido na véspera e aqui chegado vinte e quatro

horas depois de publicado. As notícias dos municípios sertanejos do meu Estado

chegam mais atrasadas que um número de jornal europeu.

Como seria a cara de d. Albertina? Imaginei-a magra, pálida, séria, correta.

Não havia motivo para Marina esconder os olhos.

— Faça o favor de descobrir o rosto. Não se acanhe. Tão natural!

Depois voltariam as regras.

Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precauções, usa isto, usa

aquilo.

Exatamente como se Marina estivesse no consultório de um médico, sarjando

um tumor. Nenhum sinal de crime ou de ação proibida. A seringa na água que

borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira, quadros de anatomia nas

paredes, a chama do álcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever

medidas de segurança. Uma senhora pálida e franzina, de rosto sereno e boas

intenções.

— Não se acanhe. Fique à vontade.

Nenhuma alusão a qualquer espécie de falta. Direita, fria, falando baixinho, empregando termos escolhidos.

Mas por que era que d. Albertina, parteira diplomada, com longa prática,

deveria ser assim e não de outra forma? Talvez fosse diferente. Os anúncios não

valem nada, papel aguenta tudo, como dizem os matutos. D. Albertina era uma

velha gorda e mole, sem diploma nem prática, de óculos ordinários e hálito

desagradável, mal-educada, resmungona. Marina estava deitada numa cama

nojenta; nas paredes nojentas não havia gravuras de anatomia: havia quadros de

santos, retratos coloridos, páginas de revistas. Sem lavar as mãos duras, de unhas

compridas e negras, d. Albertina examinava brutalmente o corpo de Marina,

arranhando-a, machucando-a, rosnando:

— Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na

pândega, não têm esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.

Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A

cliente mordia as cobertas sujas, continha a respiração, fechava os olhos,

apertava as coxas e engolia o choro.

— Abra as pernas, criatura. Donde vêm esses dengues? Assim ninguém pode

trabalhar.

O dinheiro do trabalho fora recebido adiantadamente. Marina dera nome

falso e endereço errado, temendo a exploração de d. Albertina.

— Não vale a pena a senhora se incomodar. Eu apareço, compreende? Se

houver necessidade, eu apareço.

— Quanto devo?

O homem cabeludo deu a conta. Joguei uns níqueis no balcão, disse frases

sem sentido, olhando a legenda medonha no muro cortado de listras verdes. Que

vida teria d. Albertina? D. Albertina sabia umas coisas, como eu, e como eu

usava linguagem diferente da linguagem das outras pessoas. Ordinariamente não

é preciso que me digam: — “Faça isto. Escreva assim.” Basta que me mostrem

ser conveniente fazer isto e escrever assim. Depois os amigos me felicitam,

juram que um artigo que ninguém leu foi muito apreciado. Marina

provavelmente não dissera o que desejava: falara por meias palavras, aludira a dificuldades de ordem econômica, desavenças de família, etc. D. Albertina

riscara um fósforo para desinfetar a seringa na caixinha de lata. A segunda d.

Albertina, desleixada, suja, de unhas compridas e pretas que arranhavam o corpo

das clientes, sumiu-se. Voltou a outra, delicada e limpa:

— Como não? Perfeitamente. Pode confiar. Sem dúvida.

As mãos finas de unhas polidas, a voz baixa e grave:

— Perfeitamente.

O filho de Julião Tavares rebentaria como um tumor. D. Albertina lavaria as

mãos, sorrindo:

— A senhora tem uns lindos cabelos.

E ajeitaria os cabelos desconsertados de Marina. Receberia o envelope

indiferente, como se aquilo não tivesse importância:

— Ora essa!

A mulher suja e balofa desaparecera, o quarto sujo desaparecera. Uma

senhora decente, parteira diplomada, com longa prática, as mãos brancas e

macias, linguagem correta, sorrisos:

— Quando quiser. Perfeitamente.

O filho de Julião Tavares não viria ao mundo penar, cantar na escola o hino

do Ipiranga, mover-se no exercício militar, curtir fome nos bancos dos jardins,

amolar-se nas repartições, adular nos jornais o governo. E a família de seu

Ramalho nada sofreria.

Pensando bem, d. Albertina atentara apenas contra Deus e contra a pátria. Se

aquilo fosse julgado pelo júri, o promotor gritaria um discurso patético, e os

jurados se arrepiariam com indignação. Se o cura da sé ouvisse um pecado tão

grande no confessionário, daria às duas mulheres penitência dura. Mas não

haveria discurso, não haveria penitência, que elas não se julgavam culpadas e

despediam-se de coração leve, Marina ainda confusa, d. Albertina fingindo

acreditar que ela era casada:

— Para que ter filhos, minha senhora? A gente sofre, mas se eles vivessem,

podia ser pior, não é verdade? Criar infelizes... Uma responsabilidade, minha senhora, responsabilidade enorme.

A justiça e a religião não tomariam conhecimento do caso. E a família de seu

Ramalho continuaria como estava, sem um escândalo para alimentar d. Rosália,

sem peso novo no orçamento, uma criatura que seria necessário vestir, calçar,

nutrir e mandar à escola. D. Adélia censuraria aquele passo arriscado e teria um

suspiro de alívio:

— Que loucura! Pisou na beira da cova.

Seu Ramalho, hostil e distante, perceberia vagamente que a maluca estava

criando juízo. Tudo certo. Marina de cabeça erguida, criticando a vida suspeita

de Lobisomem; d. Rosália e d. Mercedes falando com ela naturalmente; Julião

Tavares, no café, exigindo um governo forte; d. Adélia apertando as mãos,

gemendo conselhos:

— Tenha cuidado, minha filha. Não se exponha, não sacrifique a sua vida por

causa desses safados. Conserve-se, pode ser que arranje casamento.

Levantei-me:

— Adeus.

Mas não saí: fiquei junto ao balcão, atrapalhado, olhando, à porta da casa

fronteira, o rosto de Marina. Por detrás dela os cabelos brancos de d. Albertina

agitavam-se. Só se percebiam os cabelos. Vistas de longe, as duas figuras

confundiam-se, e tive a impressão de que Marina envelhecera e se purificara

depois do trabalho da outra. Inutilizara nas entranhas uma coisa ruim que se

atormentaria se vivesse, aguentaria coices por onde andasse: em casa, no quarto

de pensão, na rua, no jornal, no quartel, na repartição. Tudo continuaria como

anteriormente.

A neta de d. Aurora iria ao cinema com os hóspedes que a convidassem. D.

Aurora balançaria os caracóis e as banhas excessivas. Dagoberto se agarraria ao

compêndio e ao esqueleto.

Impacientei-me e falei ao bodegueiro, tentando explicar-lhe as letras pretas

manchadas de verde. A neta de d. Aurora não era Marina e devia estar madura,

talvez senhora honesta, dona de pensão, casada, gorda. E Dagoberto já não era estudante: era médico no Pará ou no Amazonas, um destes lugares. Àquela hora

estaria examinando a Marina de uma ruela do Pará:

— Qual foi a parteira que lhe fez isso? Onde andava a senhora com a cabeça?

Gritos, indignação. E a Marina do Pará, compreendendo que havia feito

doidice, temeria as doenças de nomes complicados. Mas não denunciaria

nenhuma d. Albertina. Dagoberto que lhe desse um remédio, se quisesse. Como

estaria Dagoberto, depois de dez anos de separação? Devia estar gordo,

encanecido, rico, cheio de filhos, com óculos.

Marina ia sair. Viu que se abria uma janela na vizinhança e retraiu-se. Os

cabelos brancos continuavam a agitar-se. Não pude saber a qual dos dois tipos

imaginados d. Albertina se assemelhava. Seria talvez uma d. Albertina diferente

das minhas.

Fazia minutos que me havia despedido do bodegueiro, mas prosseguia na

conversa, decifrando a legenda revolucionária.

Subitamente os cabelos brancos desapareceram e Marina saiu. Findei a

exposição capenga:

— Até logo.

Atravessei a rua e cheguei-me a Marina, que se afastava com dificuldade,

mergulhando na areia os sapatos vermelhos. Sentia-me perturbado e intimamente

armava diálogos que ela não entenderia. Os sapatos velhos, rachados e

cambados. A roupa desfiando-se nas costuras. Tão miúda, tão reles! Estava

quase a pisar-lhe os calcanhares. Tossi:

— Faz favor?

Continuou a marcha penosa, mais lenta e mais cansada depois que dobrou

uma esquina. O suor corria-lhe pela nuca, entre os cabelinhos arrepiados. De

quando em quando a mão que enxugava a cara surgia por cima de um ombro e

esfregava com o lenço a penugem amarela.

— Faz favor?

Aí ela parou. Em seguida apressou o passo, meteu com vontade os pés na

areia frouxa, e a penugem amarela empastou-se, grudou-se à pele e escureceu.

— Deixa disso. Não há motivo para esse orgulho todo. Baixa a pancada.

Donde vem uma soberbia tão grande?

Os músculos do pescoço tremeram, os sapatos vermelhos plantaram-se na

areia, mexeram-se como se quisessem arrancar-se, ficaram imóveis. Avancei

dois metros, fiz meia-volta e achei-me em frente de Marina:

— Boa-tarde. Como vai a saúde? Há que tempo!

Vista de costas, o que nela avultava era a nuca molhada. Agora percebia-se a

testa, molhada também e coberta de rugas. Parecia que o resto do corpo se

ocultava sob as pálpebras caídas e roxas. O peito cavava-se, a barriga sumia-se.

Examinei-lhe brutalmente a barriga, barriga comum, nem grande nem pequena.

Uma pessoa modesta andando na rua, encolhendo-se para não dar nas vistas.

— Sim senhora, muito digna. Levanta a cabeça.

Marina estremeceu e olhou de esguelha para os lados, como se procurasse

auxílio.

— Levanta a cabeça. Deixa de inocência. Aqueles modos pudicos, aqueles

movimentos quase imperceptíveis das pálpebras roxas que velavam olhos

inúteis, irritaram-me. Lembrei-me dos armadores que rangiam, das cantigas, dos

banhos ruidosos. E atirei-lhe à cara, com raiva:

— Puta!

Marina ouviu isto sem se revoltar. Apenas ficou mais branca, estirou o beiço

quase chorando.

— Me largue, balbuciou.

— Está bem. Ninguém tem nada com isso, não é? Vamos andando. Puta!

Dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedade. Não sentia cólera, o que

sentia era desgosto.

Marina estava como uma defunta em pé. Pensei em Cirilo de Engrácia, visto

dias antes em fotografia — um cangaceiro morto, amarrado a uma árvore.

Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morto eram os pés, suspensos,

com os dedos quase tocando o chão. Os pés de Camilo Pereira da Silva, ossudos,

magros, eram assim desgovernados. Os de Marina estavam metidos na areia. E Marina parecia morta.

— Puta!

Teria dito e repetido outra palavra que insistisse em vir-me à boca, dessas

Continuar: parte 7 de 8