Angústia
Livro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
vergonha: — “É a mocidade.” Indecência. Atracados, os olhos vermelhos, baba
no canto da boca, uns bichos. Aproximava-me da parede. Ali a poucos passos,
tontos pela bebida, beijando-se. Conservavam-se em silêncio um instante, mas
isto me parecia tempo excessivo, suficiente para todas as patifarias. Risos, a
continuação de uma conversa interrompida. A voz precipitada de Marina era
ininteligível; a de Julião Tavares percebia-se distintamente e causava-me
arrepios: fazia-me pensar em gordura, em brancura, em moleza, em qualquer
coisa semelhante a toicinho cru. Pescoço enorme, sem ossos, tudo banha.
Quando o homem andava na rua, olhando para cima, risonho, aprumado, com
passinhos curtos, a papada tremia. Aquilo era bambo, flácido, devia ter a
consistência de filhó. De repente d. Adélia começava a falar. As mesmas queixas
de sempre, lamentações tranquilas. Nunca ouvi ninguém se lamentar assim.
Palavras arrastadas, monótonas, um pequeno assobio no fim de cada pausa.
Aquele sossego me irritava quase tanto como os derramamentos de Julião
Tavares. Afastava-me, sacudia a cabeça para não escutar a conversa, passeava
pelo corredor, tossindo, batendo os pés, encaminhando o pensamento para coisas
diversas, que se embaralhavam. Muitos crimes depois da revolução de 30. Valeria a pena escrever isto? Impossível, porque eu trabalhava em jornal do
governo. Moisés se tinha ausentado: a polícia incomodava os rapazes que liam
livros suspeitos e falavam baixo. Seu Ivo furtara-me uns pratos. A menina dos
olhos agateados desaparecera. A mulher da rua da Lama, a que eu encontrara
uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo. A
voz oleosa de Julião Tavares continuava a perseguir-me. Era como se eu
estivesse diante de um aparelho de rádio, ouvindo língua estranha. Distanciava-
me. As palavras gordas iam comigo. Umas chegavam completas, outras
alteravam-se — ruídos confusos e vogais indistintas. Necessário dar cabo
daquela voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquentações diminuiriam. A
criatura faminta da rua da Lama, seu Ivo, Moisés, a menina dos olhos agateados,
tudo isto me passava pelo espírito sem se fixar. Um tropel, depois nada. O que
ficava era aquela gordura que se derramava pelas paredes. Às vezes eu estava
certo de que Julião Tavares se tinha calado, mas a voz não deixava de perseguir-
me. Mexia-me, tossia. E olhava com insistência o cano que se estirava ao pé da
parede, como uma corda.
. . .
Aos domingos iam ao cinema, juntos, de braço dado, bancando marido e mulher
— ele com ar bicudo e saciado, ela bem-vestida como uma boneca e toda
dengosa. Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas mãos e no pescoço que era
uma vergonha. O pessoal da vizinhança povoava as janelas. D. Mercedes
indignava-se, as filhas de Lobisomem mostravam as caras espantadas entre as
rótulas, Antônia andava como lançadeira, ouvindo os comentários. As
exclamações iam de um lado para outro. Só queriam saber se ainda estava
inteira. As opiniões variavam. Discutiam as modificações do tipo: a grossura da
barriga, o modo de andar. Eu, com os ouvidos abertos, simulando indiferença,
escutava palavra aqui, palavra ali.
— Que é que temos, Antônia?
Antônia, bamboleando-se, cosia pedaços daqueles fuxicos.
E os dois lá iam até o fim da rua, grudados, ela desconjuntando-se,
enrolando-se, torcendo-se como uma cobra de cipó. Dobravam a esquina, a rua
ficava deserta. Reapareciam. Com certeza tinham desistido do cinema. Quando
se aproximavam, é que eu notava o engano: era outro casal. Julião Tavares e
Marina transformavam-se por momentos nas pessoas que vinham da praça
Deodoro, mas eu continuava a vê-los longe, em diferentes lugares.
As três filhas de Lobisomem apareciam juntas, num feixe, confusão de
cabelos arrepiados e olhos espantados. Antônia, colorida de vermelho e branco,
saía à procura de machos. O vento gemia nos arames da Nordeste, e os arames
balançavam como cordas. Julião Tavares e Marina tinham entrado no
Livramento e lá iam juntinhos, esfregando-se. Cadeiras na calçada. Era
necessário saltar no paralelepípedo. Um passo em falso, topada na sarjeta, e os
dois corpos se chocavam. Diante da igreja, nos bancos da praça miúda, gente
esquisita: homens sujos, mulheres sem companhia. E crianças abandonadas
pelos cantos. Cochichos, palavrões, descontentamento, frases incendiárias. Na
calçada estreita da igreja as crianças abandonadas apinhavam-se. Automóveis
parados, chauffeurs adormecidos, vagabundos, exposição de prostitutas à entrada
da rua da Lama.
D. Rosália conversava com d. Adélia. Picuinhas, perfídias: — “Não se
queixe não, minha negra. A senhora até não é das mais caiporas. Tem quem lhe
dê tudo.” D. Adélia sorria vexada, mexia os beiços e não encontrava resposta.
Mais algumas pernadas, e os dois estavam defronte do café. Julião Tavares
passava como um pavão. E o pessoal se calava, arregalava os olhos para Marina,
que não ligava importância a ninguém, ia fofa, com o vestido colado às nádegas,
as unhas vermelhas, os beiços vermelhos, as sobrancelhas arrancadas a pinça.
Entravam no cinema, Julião Tavares comprava um jornal. Na sala de espera toda
a gente se voltava, com uma pergunta nos olhos. Julião Tavares sentava-se,
fingia ler os telegramas, vaidoso. — “Quem é?” Informações em voz baixa, muita inveja. Sim senhor. Que bicho de sorte! Marina fazia água na boca dos
homens.
Agora estava escuro. Debruçado à janela, eu fumava sem ver a rua. Via seu
Ivo, Pimentel, a datilógrafa desaparecida. Onde estaria a datilógrafa? Bonitinha,
com uns olhos de gato que acariciavam a gente. E amável, sem fumaças. Quando
eu tirava o chapéu, respondia com um sorrisinho modesto. O meu desejo era sair
de casa, ir procurá-la. Talvez estivesse num cinema de arrabalde, com o
namorado. Coitadinha. Provavelmente nem pensava nisso. O dia inteiro batendo
no teclado com os dedos entorpecidos, e duzentos mil-réis por mês. Talvez
tivesse irmãos pequenos. Invadia-me uma ternura, queria ligar-me àquela moça
que vestia roupas ordinárias e andava à pressa, com uma pasta debaixo do braço.
Seríamos felizes. Ela trabalharia menos. Ao chegar a casa, fatigada, distrair-se-ia
papagueando com o Currupaco, meteria as mãos doídas no pelo do gato. Eu
escreveria um livro de contos, que ela datilografaria nas horas vagas,
interessando-se. Convidaríamos Pimentel e Moisés. Quando a corja estivesse na
sala vizinha, bebendo, nós conversaríamos sobre literatura. Moisés atacaria os
livros feitos com frases bem-arrumadas. A arte deveria estar ao alcance de todos,
a serviço da política. — “Que diz, seu Pimentel?” Pimentel responderia
estirando o beiço. Escrevendo, é capaz de demonstrar qualquer coisa. Diante da
folha de papel, em mangas de camisa, trabalha como um carroceiro, os dedos
grossos pegando a caneta com força. Depois fecha o cérebro e desenruga a testa.
— “Que diz, seu Pimentel?” Não diria nada. Para que um homem discutir, se não
é obrigado a isto? Do outro lado da parede, risos, tinir de copos. Nós
continuaríamos a conversa tranquilamente.
Onde andaria a datilógrafa dos olhos agateados? O que é certo é que eu
precisava mulher. Devia acabar aquela maluqueira e meter-me na farra. Se
achasse uma criatura como Berta... O diabo da alemã voltava-me sempre à
lembrança, provavelmente por ter sido a primeira mulher bonita e limpa a que
me encostei. — “Senhor não quer entrar?” Tipo admirável, ariano puro. —
“Madame, um sujeito como eu pode agarrar-se a uma pessoa da sua marca?” A ariana pura tinha respondido numa língua embrulhada.
Às vezes seu Ramalho puxava uma cadeira, sentava-se à porta. Eu olhava
distraído os arames, que balançavam como cordas bambas. Esta comparação dos
arames a cordas vinha-me ao espírito com insistência. Se pudesse trabalhar,
escrever, livrar-me daqueles arames... Não podia: a literatura cambembe para os
políticos da roça tinha parado. Além disso eu necessitava beber muito, sentia
preguiça, passava horas no café, esbagaçando dinheiro. O ordenado voava, as
dívidas cresciam.
Naquele momento, porém, não pensava em nada disso. Pensava na miséria
antiga e tinha a impressão de que estava amarrado de cordas, sem poder mexer-
me. No banco do jardim, com os sapatos gastos, as meias reduzidas a canos,
esperava ansiosamente um auxílio qualquer. Estudava as caras, numa agonia. A
fome triturava-me a barriga, uma fome de muitos dias, enganada com pedaços de
pão e cálices de aguardente. —“Cidadão, um nortista perseguido pela
adversidade...” Não distinguia bem a cara do cidadão: a cabeça inclinava-se, a
vista escurecia e pregava-se nos dedos dos pés, que saíam pelos buracos dos
sapatos. Se pudesse, se não estivesse policiado e exausto, mataria o cidadão para
roubar-lhe um níquel. Andava sujo, as calças com os fundilhos rotos e as bainhas
esfiapadas, a gravata feita uma corda. Apanhava os jornais esquecidos nos
bancos e procurava os anúncios miúdos para ver se descobria trabalho, mas as
letras dançavam, fugiam. Imaginava fortunas absurdas: dinheiro achado na rua,
um roubo que nunca tive coragem de praticar, o aparecimento de um fazendeiro
rico e atilado que me diria: — “Ninguém percebe o seu valor, rapaz. O que lhe
falta é roupa. Roupa e trato. Vamos comer no restaurante. E toca para São Paulo,
meter a cara na lavoura do café.” Qualquer serviço que me dessem seria bom.
Oferecia-me para garçom de botequim, para revisor de jornal. Tinha uma
inclinação maluca para os jornais. — “Queria que o senhor experimentasse, que
me deixasse trabalhar uns dias de graça.” Humilhações. Depois era a pensão de
d. Aurora. A fome desaparecera, mas a falta de mulher atormentava-me. As que
passavam na rua tinham cheiros violentos, e eu andava com as narinas muito abertas, farejando-as, como um bode. No colchão duro da minha cama de ferro
os percevejos passeavam sobre os ossos amarelos que Dagoberto jogava lá.
Tarde. Os meninos de d. Rosália corriam no calçamento e faziam algazarra
doida. As rótulas da casa de Lobisomem estavam cerradas. Encostado à janela,
fumando, eu olhava a rua comprida e estreita. De quando em quando vultos
distantes assustavam-me. E os arames balançavam como cordas.
O meu pensamento fugia dali, entrava no quarto escuro que ficava ao pé da
escada. Dagoberto pegava uma vértebra, eu escancarava o compêndio. A caveira
desdentada era horrível, toda queimada de cigarros, o frontal cheio de buracos
que serviam de cinzeiros. De que teria morrido o dono daquela caveira? Mas
Dagoberto e os ossos desapareciam. Lá vinham d. Aurora e a neta marchando
para o cinema. As minhas mãos úmidas apertavam no bolso as notas, eu sorria
encolhido e silencioso, fazendo cálculos. D. Aurora, mole, tomava no bonde o
lugar de dois passageiros, sacolejava-se com o movimento do carro, os caracóis
brancos agitavam-se. Parecia-me que, se ela não estivesse entrouxada, as banhas
se despegariam do corpo. A neta emproava-se, a vaidade pingava do leque, do
lorgnon, dos olhos. Na sala de projeção a gente não via a tela. Horas
horrivelmente cacetes, em que pedaços de duas pessoas se encontravam. Só uns
pedaços, os outros estavam longe. As pernas da moça eram frias. Onde andaria o
pensamento dela? Eu pensava nos bancos do passeio, nos sapatos sem sola, no
galego do frege, no chefe da revisão. Com os dedos esmorecidos no joelho da
pequena, lembrava-me também da cesta de ossos de Dagoberto e dizia
mentalmente expressões técnicas. D. Aurora dormia.
Com certeza àquela hora o Capitólio se esvaziava, uma exposição de roupas
desfilava nos corredores que limitam a sala de espera. Os ventiladores parados,
grande calor. Marina, bamba, apertava os olhos, encolhia-se no vestido
machucado, bocejava; Julião Tavares abanava-se com o jornal.
Que diabo fazia eu ali, debruçado à janela? Entrava, ia para a sala de jantar,
abria um livro, punha-me a ler marcando os períodos com o dedo. Quando
terminava um período, baixava o dedo a um lugar onde era provável haver ponto final. Parecia-me que este exercício me fixava a atenção na leitura: às vezes
conseguia compreender uma página inteira. Mas o dedo fatigava-se, entorpecia,
e os olhos desviavam-se das letras, pregavam-se na toalha, nas moscas
adormecidas sobre as nódoas. Um relógio batia. Julião Tavares e Marina
ausentes. Vitória falava alto na cozinha. Antônia embalava o filho mais novo de
d. Rosália, e a criança manhosa berrava com desespero. Felizmente ainda era
cedo para os ratos roerem a madeira do guarda-comidas. A vitrola de d.
Mercedes começava a tocar, o galo de d. Adélia batia as asas. Alguma cantiga
distante, de bêbedo. Que fim teria levado seu Ivo, coitado? Apito de trem,
provavelmente dez horas. O relógio da sala de jantar quase sempre parado.
Passos na calçada. Quem seria? Muito tarde. O rolar dos veículos esmorecia. O
gato já andava miando nos telhados. Os papéis, livros com as folhas intactas,
esquecidos nas cadeiras, causavam-me enjoo. Rumor de ferrolho na casa
vizinha, pisadas no corredor. Com certeza tinham voltado. Engano. Era seu
Ramalho que entrava, aperreado, ia arengar com a mulher por causa do
procedimento da filha. Às vezes a discussão se arrastava durante horas,
mastigada e rancorosa. E Marina ausente.
— Isso tem jeito?
D. Adélia chorava, assoava-se, gemia desculpas sem pé nem cabeça.
. . .
D. Rosália era casada, mas eu não conhecia o marido dela, caixeiro-viajante que
andava sempre no interior. Conhecia a voz. Quando ele chegava, depois de uma
ausência de meses, a casa ficava em rebuliço. Um sujeito moreno e calvo
rosnava um cumprimento e tocava o chapéu ao passar na minha calçada.
Presumo que era o marido de d. Rosália, mas não tenho a certeza. Fala mansa e
abafada, muito diferente da que eu ouvia da minha sala de jantar. Nunca vi o
homem calvo e moreno entrar na casa à esquerda, mas como o aparecimento dele coincidia com a presença do marido de d. Rosália, suponho que os dois
eram uma pessoa só.
Antônia chegava à minha janela e, piscando os olhos, segredava: — “O
homem está aí.” Mordia o beiço e saía bamboleando-se, com um risinho canalha,
as pernas grossas muito abertas exibindo marcas de feridas. Para não
descontentar a rapariga, eu sorria agradecendo a comunicação, aperreado em
excesso, porque nesses dias não me era possível dormir sossegado.
D. Rosália, honesta, vivia excitada, e o marido vinha feito um bode. Aquilo
durava uma semana, mais de uma semana, até que o casal se acalmava e surgia
nova viagem.
Nessa lua de mel, sempre renovada, as crianças marchavam cedo para a
cama. Antônia aprontava o café, ia correr a zona. E o trabalho do amor
começava, ruidoso, indiscreto. Antes da minha cabeçada com Marina, eu não
aguentava aquilo. Escrevia, lia, dormia, acordava, levantava-me, tornava a
deitar-me. Não me continha: vestia-me, ia para a rua, meia-noite, de madrugada.
Por fim nem esperava tanto: quando Antônia servia o café, aos muxoxos,
derrubando louça, e a porta da frente se fechava com um baque, eu agarrava o
chapéu e saía. Agora não podia arredar-me dali. Parecia-me que, na minha
ausência, Julião Tavares penetraria na casa e levaria o que me restava: livros,
papéis, a garrafa de aguardente. Sentia-me preso como um cachorro acorrentado,
como um urubu atraído pela carniça. Se pudesse dormir...
Durante o dia passava muitas vezes pela porta de Marina, desejando
reconciliar-me com ela. Faltava-me coragem, a vergonha baixava-me o rosto,
esquentava-me as orelhas.
Que me importava que Marina fosse de outro? As mulheres não são de
ninguém, não têm dono. Sinha Germana fora de Trajano Pereira de Aquino
Cavalcante e Silva, só dele, mas há que tempo! Trajano possuíra escravos,
prendera cabras no tronco. E os cangaceiros, vendo-o, varriam o chão com a aba
do chapéu de couro. Tudo agora diferente. Sinha Germana nunca havia
trastejado: ali no duro, as costas calejando a esfregar-se no couro cru do leito de Trajano. — “Sinha Germana!” E sinha Germana, doente ou com saúde, quisesse
ou não quisesse, lá estava pronta, livre de desejos, tranquila, para o rápido amor
dos brutos. Malícia nenhuma. Como a cidade me afastara de meus avós! O amor
para mim sempre fora uma coisa dolorosa, complicada e incompleta.
Se Marina voltasse... Por que não? Se voltasse esquecida inteiramente de
Julião Tavares, seríamos felizes. Absurdo pretender que uma pessoa passe a vida
com os olhos fechados e vá abri-los exatamente na hora em que aparecemos
diante dela.
Nu, deitado de costas na cama de ferro, esfregava-me no colchão estreito e
coçava-me, mordido pelas pulgas. No quarto, escuro para a conta da Nordeste
não crescer, a luz que havia era a do cigarro, que me fazia desviar os olhos de
um lado para outro. Não podia deixar de olhá-la. Às vezes me entorpecia, e a luz
ia diminuindo, cobria-se de cinza. De repente despertava sobressaltado: parecia-
me que, se o cigarro se apagasse, alguma desgraça me sucederia. E entrava a
fumar desesperadamente, e soprava a cinza. Impossível dormir. O quarto de d.
Rosália ficava paredes-meias com o meu. Antônia tinha-me dito, em
confidência: — “O homem chegou.” Devia ser o sujeito calvo e moreno que
tocava o chapéu e rosnava um cumprimento. Agora se distinguiam palavras
claras: — “Bichinha, gordinha...” Não sei como aquelas criaturas se podiam
amar assim em voz alta, sem ligar importância à curiosidade dos vizinhos. D.
Rosália resfolegava e tinha uns espasmos longos terminados num ui! medonho
que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava
palavrões obscenos. Parecia-me que o meu quarto se enchia de órgãos sexuais
soltos, voando. A brasa do cigarro iluminava corpos atracados, gemendo: —
“Bichinha, gordinha...” — “Ui!” Na escuridão a parede estreita desaparecia.
Estávamos os três na mesma peça, eu rebolando-me no colchão estreito, picado
de pulgas, respirando o cheiro de pano sujo e esperma, eles agarrados, torcendo-
se, espumando, mordendo-se. Aquilo iria prolongar-se por muitas horas. Depois
o silêncio, o cansaço, a luz da madrugada, o sono, a parede, nos afastariam. Se
nos encontrássemos, faríamos um ligeiro movimento de cabeça, resmungaríamos uma saudação apressada. D. Rosália, pendurando-se à janela, comentaria os
modos suspeitos de Lobisomem e o procedimento de Marina; o homem calvo e
moreno prosseguiria nas suas viagens pelo interior; eu redigiria informações:
“Em conformidade com o artigo tal do regulamento...”
Não havia regulamento, nem janela, nem mostruários. O que havia eram duas
camas próximas. Uma delas rangia escandalosamente. — “Bichinha,
taludinha...” Esses diminutivos contrastavam com a voz do homem, grossa,
arrastada. Além disso d. Rosália tinha bem quarenta anos e não era taluda: era
magra, cheia de ângulos, o carão chupado com duas olheiras fundas que no dia
seguinte estariam medonhas. Silêncio de alguns minutos. Iam deixar-me dormir.
Nada. Acendia outro cigarro e continuava com a vista presa na brasa, que se
aproximava e afastava, em movimentos bruscos, como uma coisa viva mordida
pelas pulgas. Aquela espécie de fogo-corredor me fascinava. Se Marina
voltasse... Por que não? A água lava tudo, as feridas cicatrizam. Não valia a pena
pensar no outro. Julião Tavares era um caminho errado. Tantos caminhos errados
na vida! Quem sabe lá escolher com segurança os atalhos menos perigosos? A
gente vai, vem, faz curvas e zigue-zagues, e dá topadas de arrancar as unhas. A
água lava tudo, as feridas mais graves cicatrizam. Lembrava-me de uma queda
antiga que me tinha jogado à cama quinze dias. O cavalo se havia empinado, eu
caíra nas pedras do Ipanema, rachara a cabeça, esfolara a coxa. Por que era que
uma ferida devia ser vergonhosa e outra não? Depois desse tombo, andara uns
tempos bambo, tossindo, e nunca me havia consolidado, nem com os exercícios
da caserna.
— Ora aí estão ferimentos que me deviam envergonhar, porque me tornaram
fraco. E não me envergonham.
A brasa do cigarro chegava-me perto dos beiços, brilhava, faiscava, parecia
mangar de mim na escuridão. Sinha Germana só tinha aberto os olhos diante do
velho Trajano. Sem dúvida. Mas eu queria ver Sinha Germana agora, no cinema,
ou correndo as ruas, com uma pasta debaixo do braço, e mais tarde no escritório,
batendo no teclado da máquina, ouvindo as cantigas dos marmanjos. Hábitos diferentes, necessidades novas.
Afinal por que seria que d. Rosália afirmava que Marina dera com os burros
na água? Não havia certeza. E para que certeza?
— Que me importa o que se passa nas casas alheias?
O que se passava na cama de d. Rosália era quase público, pelo menos estava
no conhecimento dos vizinhos. Fazia minutos que os dois se conservavam em
silêncio. Enjoados, provavelmente, separados, cada um com o seu lençol.
Engano. O barulho recomeçava: cochichos que iam crescendo e se
transformavam em gritos, beijos compridos, chupões gorgolejados.
Quando se debruçava à janela, fiscalizando a rua, d. Rosália usava linguagem
decente para censurar as filhas de Lobisomem, engulhava, cheia de pudores.
Uma criança urinava na cama e chorava. Distinguia-se perfeitamente o som
das gotas que batiam no chão.
— Cala a boca! ordenava d. Rosália.
O choro findava, mas as gotas continuavam a cair, e a respiração do homem
se arrastava, entrecortada, encatarroada, fungada, interrompida por um pigarro,
uma respiração de quem se está estrangulando. Aquilo me irritava tanto que eu
apertava as mãos nos ouvidos e mordia as cobertas para não gritar. O resfolegar
de cachorro cansado atravessava-me as palmas das mãos, rasgava-me os
ouvidos, e os pingos de urina, penetrando a palha podre do colchão, caíam-me
dentro da cabeça como marteladas. A criança recomeçava a chorar.
— Cala a boca.
Soluços engolidos da criança e a respiração arquejante do homem. Inútil
apertar os ouvidos, que se pegavam às palmas como ventosas. Estirava-me,
espreguiçava-me. De costas, as mãos sobre o peito, experimentava relaxar os
músculos e não pensar. Através das pálpebras meio cerradas via apenas a brasa
do cigarro, que se cobria de cinza. Tranquilo, tranquilo, nenhum pensamento.
Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.
— Tranquilo, tranquilo.
Esta repetição me exasperava e endoidecia. O corpo em completo sossego, o cigarro apagado. Não sabia em que posição estavam as pernas. As mãos
pesavam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam elas? Flutuava como
um balão. O corpo quase adormecido e sem pernas. As ideias, porém, não me
deixavam, ideias truncadas. Uma guerra na Europa. D. Mercedes comprara
discos novos para a vitrola. Moisés se ocultava, com medo da polícia. Um
espírito puro, um espírito boiando, livre da matéria. As botinas de Lobisomem
estavam cada vez mais cambadas. Onde andaria seu Ivo? Um espírito boiando.
Como seria? O espírito de Deus era levado sobre as águas.
As pulgas mordiam-me. Sem mudar de posição, esforçava-me por não fixar o
pensamento em coisa nenhuma. Quando vinha uma ideia, afastava-a, agarrava-
me a outra, que saía logo. Algumas voltavam com insistência. As botinas de
Lobisomem estavam cambadas. O espírito de Deus boiava sobre as águas.
Suava frio, mas prolongava a tortura que produziam as picadas das pulgas e a
imobilidade. Afinal as picadas das pulgas e a imobilidade me distrairiam
daqueles beijos e daqueles uivos. Outra vez o choro da criança, novamente a voz
de d. Rosália, arreliada:
— Cala a boca, diabo!
O pranto continuava. Pisadas de pés descalços, palmadas, muxicões. A
criança choramingava baixinho e aquietava-se. Novos passos abafados e um
baque na cama, que rangia. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Como
estariam as minhas pernas? Cruzadas ou afastadas? Seria mais fácil saber como
estavam as pernas de d. Rosália. O resfolegar prosseguia, resfolegar de porco
fossando. Quantas horas aquilo duraria ainda? Seu Ivo, os discos da vitrola,
Moisés, as botinas de Lobisomem, tudo inútil. Inúteis as picadas das pulgas. O
homem calvo e moreno, com os olhos abotoados, fungava e arquejava, a baba
escorrendo no beiço e umedecendo a pele seca de d. Rosália. Estava mesmo
assim: os olhos arregalados, as ventas muito abertas, a boca pingando gosma, a
cara barbuda arranhando e escovando o couro de d. Rosália. E aquela respiração
estertorosa de bicho sufocado!
Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacrifício de permanecer imóvel, suportando as pulgas. Fechava as mãos com força. Estertor de bicho sufocado. O
que eu desejava era apertar o pescoço do homem calvo e moreno, apertá-lo até
que ele enrijasse e esfriasse. Lutaria e estrebucharia a princípio, depois seriam
apenas convulsões, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados,
penetrando a carne que se imobilizaria, em silêncio. Este pensamento afugentava
os outros. O espírito de Deus deixava de boiar sobre as águas. Uma criatura
morrendo e esfriando, os meus dedos entrando na carne silenciosa. Não me
lembrava de Julião Tavares. O que me aparecia na mente era o sujeito calvo e
moreno que eu presumia ser o marido de d. Rosália e talvez nem fosse. Enfim
desejava matar um homem que me roubava o sono.
. . .
Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes.
Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e
esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferença.
Certos atos aparecem inexplicáveis. Até as feições das pessoas e os lugares por
onde transitei perdem a nitidez. Tudo aquilo era uma confusão, em que avultava
a ideia de reaver Marina. Mais de um mês, quase dois meses em intimidade com
o outro. Procurei por todos os meios uma nova aproximação. O despeito, a raiva
que senti naqueles dias compridos, uns restos de amor próprio, tudo se sumiu. À
tarde voltava a sentar-me na espreguiçadeira, abria um livro. Marina ausente.
Deitava-me, fingia dormir, ficava uma hora espiando o quintal vizinho através
das pestanas meio cerradas. As galinhas ciscavam, d. Adélia cantava no
banheiro, a sombra da mangueira crescia, além do muro a mulher que lava
garrafas trabalhava sacolejando-se num ritmo de batuque e o homem triste
enchia dornas. Às vezes passos apressados revelavam-me a presença de Marina.
Eu tinha vergonha de abrir os olhos, e quando me decidia a acordar, já ela estava
longe. Erguia-me irritado. Perdendo ali, como um rapazinho, momentos preciosos! Esforçava-me por acreditar que os meus momentos eram preciosos.
. . .
À noite sentava-me à calçada e olhava a rua. Seu Ramalho fazia o mesmo.
Palavra de cá, palavra de lá — como falávamos baixo, era necessário
aproximarmos as cadeiras. Depois do namoro da filha com Julião Tavares, d.
Adélia mostrava-me antipatia. A princípio era aquela subserviência, tremura,
cumplicidade; mas agora nem me via: enrugava a testa e grunhia “Hum! hum!”
com um modo insuportável. Seu Ramalho, que meses atrás me olhava
desconfiado, tornara-se um excelente amigo e dava-me conselhos:
— Não se case, seu Luís. Casamento é buraco. O mundo está perdido.
— Isso é por causa do cinema, seu Ramalho. O senhor nunca vai lá. É feliz.
Nem calcula as sem-vergonhezas que há na tela.
Seu Ramalho baixava a cabeça, pensativo:
— Deve ser também por falta de religião.
— É. Deve ser também por isso.
Realmente a minha vizinha desconhecia as igrejas, e isto não me preocupava.
— O cinema é o diabo, seu Ramalho. O senhor não imagina. São uns beijos
safados, língua com língua, nem lhe conto. Provavelmente as moças saem de lá
esquentadas.
— Devem sair, concordava seu Ramalho. Por isso há tanta gente de rédea no
pescoço.
— Que rédea! Hoje não há rédea. Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a
mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.
— Safadeza.
— É. Tudo é safadeza. Antigamente essa história de honra era coisa séria.
Mulher falada não tinha valia.
— Nenhuma, exclamava seu Ramalho, cansado, tossindo. E eram vinganças
medonhas.
— Vinganças horrorosas, bradava eu excitado.
Nesse ponto da conversa contávamos sempre uma série de casos que
ilustravam as nossas afirmações. Animado, o cachimbo apertado entre os dentes,
seu Ramalho assobiava as mesmas anedotas, empregando o mesmo vocabulário.
Às vezes eu o interrompia:
— O senhor já contou essa.
Mas seu Ramalho continuava sem se perturbar: falava para dar prazer a si
mesmo, não me escutava. Talvez quisesse enganar-se e convencer-se de que
seria também capaz de praticar façanhas. As palavras saíam-lhe sem variações.
Era amigo da verdade e tinha imaginação fraca. As minhas narrativas não se
comparavam às dele: sendo muito numerosas, eu esquecia frequentemente certas
passagens, ficavam brechas, soluções de continuidade. Além disso eram
transmitidas em linguagem artificial, que o vizinho achava falsa e retocava.
O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte. Um moleque de
bagaceira tinha arrancado os tampos da filha do senhor de engenho. Sabendo a
patifaria, o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e à boca da noite
começara a furá-lo devagar, com ponta de faca. De madrugada o paciente ainda
bulia, mas todo picado. Aí cortaram-lhe os testículos e meteram-lhos pela
garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe os beiços. E afinal abriram-lhe a veia
do pescoço, porque vinha amanhecendo e era impossível continuar a tortura.
— Medonho! seu Ramalho. Que coisa extraordinária!
Pedia-lhe explicações:
— Por que foi que arrancaram os quibas antes dos beiços?
— Quem sabe?
No dia seguinte reproduziria o mesmo caso: o moleque morreria lentamente,
sem beiços, a boca enchumaçada, por causa dos gritos. Eu desejava que seu
Ramalho acrescentasse alguma coisa à história. Mas seu Ramalho só sabia
aquilo e era incapaz de inventar. Por isso fazia pausas para recordar os fatos com
segurança, batia na testa, interrogava-se a cada instante e acusava-se quando
avançava uma informação inverídica:
— 1910. Minto, 1911. 1911, Manoel?
As duas datas produziam-lhe verdadeira aflição. Nunca pôde fixar-se em
nenhuma. Detinha-se em cálculos, sempre se reportando a acontecimentos
notáveis na sua pequena vida: o dia do casamento, a mudança para a capital, o
sarampo da filha. D. Adélia, com flores de laranjeira, sem aquele corpo mole e
pesado, era bem bonita; na viagem, em estrada de ferro, o trem da Great Western
descarrilara; Marina ficara coberta de calombos e vergões encarnados.
Naquela noite seu Ramalho voltou a referir-se a esses três casos importantes.
Nunca tinha viajado em estrada de ferro. Um descarrilamento para começar.
— Não é esquisito? Todos os dias rodam trens, que chegam no horário. Pois
justamente quando eu embarco vem o desastre. Não parece que estava ali um
diabo esperando por mim para botar as rodas fora dos trilhos?
E descreveu a cena. Abandonados no campo, os passageiros metiam os olhos
pelas vidraças, e só enxergavam uma luzinha distante. Fazia frio. Ele tirava o
paletó e enrolava a menina, que esperneava no banco do carro de segunda classe.
Alguns trabalhadores, de malotes, dormiam. Uma velha gemia de quando em
quando: — “Fechem essa janela.” Uma rapariga cheirosa encostava-se aos
homens. Ele acalentava a menina, que se arreliava no banco imundo. E olhava
desconfiado a rapariga, receando que ela se aproximasse de d. Adélia. Mulher da
vida, cheirosa, roçando-se nos homens, ali no carro pequeno, cheio de gente e
quase sem luz. Apenas um lampião fumacento, de vidros tisnados.
D. Adélia, corada, risonha, de carnes enxutas, era um mulherão. O casamento
fora quatro anos antes da viagem. Bonita de verdade. Com o véu, a grinalda de
flores de laranjeira, dançara uma noite sem descansar. Olhava os moços cara a
cara, e eles baixavam a cabeça.
— An! Os marmanjos desanimavam.
O sarampo de Marina tinha sido dez anos depois da viagem. Estivera, vai não
vai, batendo a caçoleta.
— Antes tivesse batido, que era inocente e não dava desgosto a ninguém.
A febre durara muitos dias. Mal respirava, magrinha como um palito, e por cima dos olhos vidrados as moscas passeavam. D. Adélia, bamba, arrastava os
chinelos de trança que pareciam dois sapos. Estava mole, encolhida, machucada,
e habituara-se a falar cochichando e a baixar a cabeça diante de toda a gente.
Seu Ramalho deu um suspiro e empurrou a história do moleque da bagaceira,
o que havia arrancado os tampos da filha do patrão.
— 1910 ou 1911?
Nunca pude saber com precisão a data da morte do moleque. Isto não tinha
importância: não guardo números, e a angustiada confusão de seu Ramalho
irritava-me. Enquanto ele batia na testa, avançava e recuava, eu ia pouco a pouco
distinguindo uma figura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma
pasta escura de carne retalhada; os membros, torcidos na agonia, estavam
cobertos de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem beiços, mostrava
dentes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados
tornavam-se vermelhos. O negro arquejava. Corria sangue entre as frestas dos
paralelepípedos e empoçava na sarjeta. A poça crescia, em pouco tempo
transformava-se num regato espumoso e vermelho.
— Ai, ai! suspirou seu Ramalho. Vou chegando ao serviço.
Ergueu-se como se levantasse da cadeira um peso enorme. E, descontente,
arfando, um ombro alto, outro baixo, o cachimbo entre os dentes, lá se foi para a
usina elétrica. Segui-o com a vista até a esquina. Quando ele desceu da calçada,
estremeci: pareceu-me que tinha sujado os sapatos no sangue.
A vitrola de d. Mercedes rodava marchas de carnaval; d. Adélia abriu os
postigos: — “Hum! hum!”; a cabeça de d. Rosália tinha os cabelos vermelhos.
Antônia, pintada de vermelho, as pernas abertas, passou bamboleando-se. Das
saias dela desprendeu-se um cheiro forte de sangue. Provavelmente estava
menstruada e não se lavava. Os arames da Nordeste balançavam como cordas.
Eu receava que os transeuntes tropeçassem no moleque estendido no
calçamento. Rangia os dentes e dizia baixinho:
— Que estupidez! Que estupidez!
Mas a figura continuava a escabujar no chão. Agora não era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as
feridas saravam.
Àquela hora Marina devia descansar, escanchada na rede, deitada de costas.
Uma perna dava o impulso para o balanço, e os armadores rangiam: ran, ran.
Provavelmente se estragava pensando num romance besta. O ar refrescava-lhe as
coxas suadas. E os armadores faziam: ran, ran.
— Que estupidez! Que estupidez!
A figura deitada no calçamento estava branca e vestida de linho pardo, com
manchas de suor nos sovacos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, já não
havia a umidade pegajosa na sarjeta, nos cabelos de d. Rosália, nas saias de
Antônia. Em redor tudo calmo. Gente indo e vindo, crianças brincando, roncos
de automóveis. O homem tinha os olhos esbugalhados e estrebuchava
desesperadamente. Um pedaço de corda amarrado no pescoço entrava-lhe na
carne branca, e duas mãos repuxavam as extremidades da corda, que parecia
quebrada. Só havia as pontas, que as mãos seguravam: o meio tinha
desaparecido, mergulhado na gordura balofa como toicinho.
A vitrola de d. Mercedes moía a paciência da gente; os armadores lá dentro
rangiam; um guarda-civil afastado balançava o cassetete e olhava a rua com
indiferença. Eu apertava os dedos, cravava as unhas nas palmas, tremia,
retesando os músculos. O suor ensopava-me a camisa. E o homem arquejava no
calçamento, os olhos abotoados, a cara roxa, os dentes à mostra, a língua fora da
boca.
. . .
Quando a companhia lírica chegou, eu estava completamente arrasado. Dívidas,
três meses de aluguel de casa e os bilhetes errados e grosseiros de dr. Gouveia.
Aporrinhações. Por causa de uma porcaria, alguns meses de aluguel deste
chiqueiro, coices. Pagar tudo, perfeitamente. Bastava reduzir um pouco as despesas e voltar ao jornal. Marina que fosse para o diabo.
Agarrava a papelada com entusiasmo de fogo de palha. Tempo perdido.
Marina não ia para o diabo. E eu me metia por estas ruas, passava horas no café,
lesando, bebendo. Seria fácil regularizar a minha vida, liquidar as contas, botar
tudo de novo nos trilhos. Um pouco de boa vontade, método.
— Outro conhaque.
Método, perfeitamente, tudo se arranjaria. Saía dali, ia olhar as vitrinas e os
cartazes. Bacharel idiota, aperreando um bom inquilino. Porcaria.
— Quem andou por este mundo roendo chifre não se engancha em bobagens.
Porcaria. Tenho comido toicinho com mais cabelo.
Foi nesta disposição que li os cartazes da companhia lírica. Não dei
importância a ela. Companhia vagabunda, com pessoal rouco, as cantoras
canhões, provavelmente. Encolhi os ombros: não sei música e tenho péssimo
ouvido. As paredes dos cafés cobriam-se de retratos de artistas. Vista no papel,
havia uma soprano bem regular.
No dia da estreia notei rebuliço em casa de seu Ramalho. Pela manhã
chegaram caixas e pacotes; mais tarde bateu palmas uma criatura de preto,
certamente a modista; o menino da sapataria apareceu muitas vezes; depois seu
Chico, o carteiro, que sabe cortar cabelos de senhoras. Marina largava os sapatos
e corria pelo corredor, aos gritos com a mãe, que se mexia com dificuldade. À
noite um carro buzinou à porta, e Marina saiu de casa, bem-vestida como as
senhoras do Aterro quando vão às festas da Associação Comercial. Atravessou a
calçada, sem se virar, e entrou na limousine, onde brilhava a camisa de Julião
Tavares, sob o foco elétrico. Os pneumáticos rodaram silenciosos em direção à
praça Deodoro, e na rua ficou um cheiro esquisito de gasolina, pó de arroz e
perfumes.
Cinco dias seguidos a mesma cena se reproduziu: Marina atravessou a
calçada com o andar seguro das senhoras do Aterro, o peitilho engomado
brilhou, o ar se encheu de uma estranha mistura de gasolina e perfumes.
Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha
renitente. Ia sentar-me num banco da praça dos Martírios, e os pingos que
tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e
escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços
da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e
rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume.
Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se
insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A
sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo
em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall
deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava
impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de
minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Por que não aparecia uma
terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais
que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.
Levantava-me, subia a ladeira Santa Cruz, percorria ruas cheias de lama,
entrava numa bodega, tentava conversas com os vagabundos, bebia aguardente.
Os vagabundos não tinham confiança em mim. Sentavam-se, como eu, em
caixões de querosene, encostavam-se ao balcão úmido e sujo, bebiam cachaça.
Mas estavam longe. As minhas palavras não tinham para eles significação. Eu
queria dizer qualquer coisa, dar a entender que também era vagabundo, que tinha
andado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios, curtido fome. Não me
tomariam a sério. Viam um sujeito de modos corretos, pálido, tossindo por causa
da chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do candeeiro de petróleo oscilava
no balcão gorduroso. Homens de camisa de meia exibiam músculos enormes,
que me envergonhavam.
Encolhia-me timidamente. Não simpatizavam comigo. Eu estava ali como
um repórter, colhendo impressões. Nenhuma simpatia.
A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me
lendo os sofrimentos alheios, penso nas minhas misérias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto à beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas
a fome desapareceu, os tormentos são apenas recordações. Onde andariam os
outros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu
a memória. Lembro-me de vultos bisonhos que se arrastavam como bichos,
remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias,
debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns, raros, teriam
conseguido, como eu, um emprego público, seriam parafusos insignificantes na
máquina do Estado e estariam visitando outras favelas, desajeitados, ignorando
tudo, olhando com assombro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas
almas de parafusos fazendo voltas num lugar só.
Ia sentar-me no canto mais escuro, longe do candeeiro de petróleo, longe dos
homens de camisas sem mangas e das mulheres que arrastavam tamancos.
Vagabundos? Nada. Estavam ali indivíduos de várias profissões. O moleque
tisnado era engraxate. A mulher de chinelos, que trazia uma garrafa de querosene
pendurada no dedo por um cordel, tinha modos de pessoa séria, casada ou
amigada. A rapariga pintada de branco e vermelho, com marcas de feridas nos
braços, devia ser uma ratuína como Antônia. O homem gordo era pedreiro, via-
se pelas manchas de cal na roupa. Pedreiro com aquele corpo, que perigo! Um
cochilo no andaime, pisada em falso na ponta da tábua, e no dia seguinte a
família estaria de luto. O rapaz de cabelos compridos que tocava violão
provavelmente não se ocupava. No carnaval devia ser uma das figuras mais
importantes do cordão, e pela festa de Natal, na barca de terra e varas que ali
estava armada em frente à bodega, seria um bicho na chegança, contramestre
pelo menos, talvez almirante. Os meninos que brincavam na rua quando estiava,
às carreiras, e aos gritos, horas depois estariam no grupo escolar, os cotovelos na
carteira, escutando, ou não escutando, a voz da professora. Vinte anos depois
seriam balizas no clube carnavalesco, contramestres de chegança, donas de casa
sossegadas que levariam, pendurada no fura-bolo, uma garrafa de querosene
amarrada pelo gargalo. Mendigos como aquele que ali estava com a perna
estirada coberta de trapos. Felizmente as moscas dormiam, e o homem dos trapos não precisava mandar as almas caridosas para o reino do céu em voz alta,
para a casa do diabo em voz baixa. Agora não havia esmolas, e o homem da
perna entrapada conversava com os outros quase naturalmente. O dono da
bodega era triste. Certamente pensava no aluguel, na figura odiosa de um dr.
Gouveia, no imposto e nas faturas dos gêneros. Talvez dentro de seis meses a
bodega estivesse fechada, e ele, com os cacarecos, a mulher, de garrafa
pendurada no dedo, e os filhos, que agora dançavam na rua molhada, tivesse
descido o morro pela banda do norte e vivesse à beira do Reginaldo, onde há
febres, inundações e lixo. As crianças dançavam e cantavam na rua molhada.
Dentro de vinte anos as que gostassem de torcer-se no mesmo canto seriam
parafusos. Ignorariam o que existisse longe delas, mas conheceriam
perfeitamente as coisas por onde passassem as suas roscas. Haveria dentro de
vinte anos criaturas assim encaracoladas que, tendo corrido mundo, se resignam
a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões,
desejando um pedaço de carne viciada? Tudo ali era tão simples! Os bordões do
violão gemiam, as gargalhadas sonoras da mulher pintada enchiam a praça. A
história que o homem acaboclado, de peito cabeludo e cicatrizes no rosto,
contava ao engraxate devia ser interessante. Gestos expressivos, provavelmente
façanhas de capoeiras. Eu não compreendia a linguagem do narrador, as
particularidades que provocavam admiração perdiam-se. As gargalhadas da
mulher transformavam-se naquela viagem curta aos meus ouvidos, chegavam-
me frias, geladas. E a marcha do carnaval entristecia nos bordões do pinho.
Todas aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Diferiam muito umas das
outras, mas havia qualquer coisa que as aproximava, com certeza os remendos, a
roupa suja, a imprevidência, a alegria, qualquer coisa. Eu é que não podia
entendê-las. — “Sim senhor. Não senhor.” Entre elas não havia esse senhor que
nos separava. Eu era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso. Aquele
tipo acaboclado, que dizia histórias de capoeira e se balançava num pé só, tinha
bíceps enormes, provavelmente estrangularia um homem sem grande esforço. A
rapariga pintada cheirava a pó de arroz. A pó de arroz e a gasolina. O rapaz de cabelos compridos largava os sambas carnavalescos e punha-se a arrancar do
pinho coisas absurdas que pareciam trechos de óperas. Insuportável. Afinal que
estava eu fazendo ali, sentado num caixão, diante de um copo vazio? Procurava
fixar a atenção nas crianças que dançavam e corriam, como dançavam e corriam,
na areia do Cavalo-Morto, os meus companheiros, alunos de mestre Antônio
Justino. Lá estava novamente entrando no passado, torcendo-me como parafuso.
— “Rei meu senhor mandou dizer que fossem ao cemitério e trouxessem um
osso de defunto.” Quem tinha coragem? Os mais atrevidos chegavam até o muro
de seu Honório, no fim da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e ninguém
se aventurava por lá. Eu queria gritar e espojar-me na areia como os outros. Mas
meu pai estava na esquina, conversando com Teotoninho Sabiá, e não consentia
que me aproximasse das crianças, certamente receando que me corrompesse.
Sempre brinquei só. Por isso cresci assim besta e mofino.
Lembrava-me da minha chegada à vila. As ruas me causavam grande
espanto: nunca havia imaginado que as ruas fossem tão compridas e tão largas.
Saí de casa e comecei a passear na calçada, olhando a janela de um sobradinho
onde se debruçava um homem fardado. Quis recolher-me e entrei pela primeira
porta que encontrei. Na sala de jantar descobri uma mulher amamentando o
filho, sentada numa esteira, com um gato de banda. Fiquei encabulado e
perguntei: —“De quem é esse gato?” A mulher respondeu: — “É meu.” Saí e
continuei a passear na calçada, mas sem prestar atenção ao homem de farda que
se debruçava à janela do sobradinho. Arrisquei-me a entrar por outra porta. Na
sala de jantar a mulher amamentava o filho. E o gato de banda. Tornei a
perguntar. — “De quem é esse gato?” A mulher respondeu: — “É meu.” Mais
tarde cabo José da Luz me encontrou perdido e levou-me para casa. Um menino
grande e besta, muito diferente dos que brincavam junto à barca de terra e varas.
Na escola de mestre Antônio Justino sentava-me afastado dos outros,
naturalmente para não me corromper.
E ali estava encostado ao balcão, sem perceber o que diziam, meio bêbado,
suscetível e vaidoso, desconfiado como um bicho. Tudo aquilo me envergonhava: as conversas simples, a alegria, especialmente os músculos do
homem que falava ao engraxate. Músculos e mãos enormes, que esganariam
facilmente um inimigo. Levantavam-me.
— Insuportável.
A mulher cheirava a gasolina. O violão tocava óperas.
— Insuportável.
Os bíceps e as mãos do homem acaboclado eram realmente enormes.
. . .
O último dia foi medonho. Quando a limousine rolou no paralelepípedo e o
peitilho de Julião Tavares se sumiu, não me afastei da janela. Fiquei mastigando
o cigarro e respirando aquela mistura desagradável que enchia a rua. Nenhum
desejo de ir aos Martírios, subir o morro do Farol e escutar os tipos que se
encostavam ao balcão sujo e gorduroso da bodega. Apalpei a carteira vazia, meti
os dedos nos bolsos miúdos, vazios. Sentia-me incompleto e sem ânimo de me
aventurar sozinho por aquelas ruas esquisitas. Sentia-se fraco e desarmado.
Por que seria que o peitilho de Julião Tavares brilhava tanto e não se
amarrotava? Julião Tavares ficava duro como um osso fraturado envolvido em
gesso, tinha o espinhaço aprumado em demasia, olhava em frente, com
segurança, a vinte passos. O peitilho da camisa absolutamente chato.
A minha camisa entufa no peito, é um desastre. Quando caminho, a cabeça
baixa, como a procurar dinheiro perdido no chão, há sempre muito pano
subindo-me na barriga, machucando-se, e é necessário puxá-lo, ajeitá-lo, sujeitá-
lo com o cinto, que se afrouxa. Estes movimentos contínuos dão-me a aparência
de um boneco desengonçado, uma criatura mordida pelas pulgas. A camisa sobe
constantemente, não há meio de conservá-la estirada. Também não é possível
manter a espinha direita. O diabo tomba para a frente, e lá vou marchando como
se fosse encostar as mãos no chão. Levanto-me. Sou um bípede, é preciso ter a dignidade dos bípedes. Um cachorro como Julião Tavares andar empertigado, e
eu curvar-me para a terra, como um bicho! Desentorto o espinhaço. Que é que
me pode acontecer? Se dr. Gouveia passar por mim, finjo não vê-lo. É
impossível pagar o aluguel da casa. Não pago. Hei de furtar? Dr. Gouveia que se
lixe. Se o governador e o secretário me encontrarem, é como se não
encontrassem. Não os enxergo, na rua sou um homem. Pensam que vou
encolher-me, sorrir, o chapéu na mão, os ombros derreados? Pensam? Estão
enganados. Sou um bípede. É isto, um bípede. Mas não é necessário que dr.
Gouveia, o governador e o secretário apareçam na rua. Aliás é bom que eu não
veja essas criaturas exigentes. Se elas desejarem qualquer coisa de mim, falarão
de longe: escreverão um bilhete ou darão uma ordem para o jornal, ao Pimentel,
pelo telefone. Mandarei um mês do aluguel da casa, se puder, ou escreverei mais
uma coluna que já escrevi centenas de vezes e reproduzo sempre, substituindo
palavras. Esses homens dominam-me sem mostrar o focinho: manifestam-se
pelo arame, num pedaço de papel.
Pensam que vou ficar assim curvado, nesta posição que adquiri na carteira
suja de mestre Antônio Justino, no banco do jardim, no tamborete da revisão, na
mesa da redação? Pensam? Procuro ajeitar as vértebras, mas as vértebras
parecem soltas, presas apenas por um fio, como as que Dagoberto vinha jogar
em cima da minha cama. Resvalam pouco a pouco, e ao cabo de vinte minutos
de exercício penoso o meu corpo toma a configuração de um arco. A cabeça
pende, como se procurasse dinheiro na calçada, e a camisa faz pafos no peito.
Inútil tentar abaixá-la e prendê-la na cintura. Sobe sempre e me arrelia. Enquanto
me aperreio com ela, não vejo as pessoas. Que será de mim para o futuro? Está
claro que não inspiro confiança aos trabalhadores. Na sessão mais agitada seu
Ramalho gemerá, cansado e asmático, um ombro alto, outro baixo: —
“Camarada Luís da Silva, você escreveu um artigo defendendo o imperialismo.”
— “Não escrevi não. Sou lá homem para defender o imperialismo?” — “Está
aqui o original, é a sua letra”, dirá o rapaz de cabelos compridos, que toca
violão. Moisés não terá coragem de interceder por mim. Pimentel estará fuzilado. Lobisomen tomará uma nota lenta nos papéis. Fico pensando em coisas
assim, cabisbaixo, a testa enrugada. Se dr. Gouveia, o governador, o secretário,
passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o
espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: — “Luís da Silva é um
sujeito que não tem subserviência nenhuma.” E os que me cumprimentarem e
não obtiverem resposta dirão: — “Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um
cretino.” É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo
a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim, não vejo ninguém,
caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no
futuro como um parafuso. — “Camarada Luís da Silva, antes da revolução você
elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões. Onde está o
dinheiro que essa gente lhe deu?” Sabia lá!
Agora não tinha dinheiro. De quando em quando metia a mão no bolso.
Desarmado e só, inteiramente só, encostado à janela, ouvindo o barulho dos
automóveis. Nenhum desejo de fugir das pessoas que iam ao teatro. Sentia era
vontade de ir também, sentar-me numa cadeira junto ao palco, bater palmas,
olhar os camarotes. Faltavam-me cinco ou seis dias para receber o ordenado.
Agora não havia dinheiro, só restavam níqueis. Um empréstimo, sem dúvida, um
empréstimo. Mas quem me iria emprestar vinte mil-réis àquela hora?
D. Mercedes entrou no carro. A personagem oficial não a acompanhava. Tipo
de responsabilidades, pai de família, ia ao teatro em companhia da mulher e das