Angústia

Graciliano Ramos · Capítulo 4 de 11 · parte 3/8

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Angústia

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Seu Ramalho explicava:

— Cada qual tem os seus ganchos.

— É exato, confirmava d. Adélia.

Enquanto a criada andava em busca de machos, d. Rosália esquecia os

meninos e ficava horas ganhando calos nos cotovelos, o olho pregado na casa da

família esquisita:

— Que vida! Uma pessoa assim cria mofo. Nem vão à igreja.

— Talvez sejam protestantes, comentava seu Ramalho.

— Com certeza. Devem ser bodes.

Até Marina fervia de curiosidade:

— Luís, descubra isso, meu filho.

De repente começaram a circular boatos feios: as moças eram filhas e

amantes do velho.

— Que horror! Logo três!

— É por isso que ele anda capiongo. São remorsos.

— Provavelmente.

— Eu queria que me dissessem como se soube.

— Ora como se soube! Sabe-se tudo.

— Mas quem viu?

O carvoeiro tinha visto o homem abotoado a uma das sujeitas, no quarto.

Porcaria. Nem fechavam a porta. D. Mercedes resumiu o caso:

— É verdade.

— O carvoeiro lhe contou, d. Mercedes?

— Não, foi outra pessoa. Na cidade onde eles moravam todo o mundo falava.

Foi o que me disseram. Sei de fonte limpa.

Quem teria dito? Com certeza a personagem graúda que vivia com ela.

— Estão ouvindo? D. Mercedes garantiu.

— Até dá engulhos, exclamou Antônia cuspindo. Comer três filhas! Que

lobisomem!

Daí em diante o velho se chamou Lobisomem.

— Parece que Lobisomem amanheceu doente. Não saiu hoje.

— São pecados.

As crianças de d. Rosália contavam histórias de lobisomens, e o herói delas

era o vizinho. A notícia chegou aos ouvidos de Julião Tavares:

— Diz que um velho por aqui destambocou as filhas? Como é?

— Calúnias, respondeu Moisés.

— Em todo o caso é bom verificar isso. Talvez a gente pudesse agarrar uma.

Cachorro! Lobisomem continuava como tinha chegado, indiferente, a cara

enferrujada, tão distraído que esbarrava com as pessoas, e os chauffeurs paravam

os autos violentamente para não atropelá-lo. E as filhas, coitadas, amarelas,

feias, nem se penteavam. Saberiam alguma coisa? Talvez não soubessem. Ao

mudar-se para ali, certamente já traziam uma carga de infelicidades. E era

possível que houvessem percebido fragmentos de horrores, gestos de desprezo,

pilhérias ladradas na rua. Pobre do Lobisomem! Não tinha hora para sair, hora

para chegar. Sempre só. Nem um guarda-chuva, nem uma bengala, trastes

necessários a homem tão curvado. Ora para um lado, ora para outro, sem

destino. Que vida! Nem um hábito. Esta ideia de uma pessoa viver sem hábitos

era para mim extremamente dolorosa. Apesar de haver atravessado uma

existência horrível, sempre encontrara nela, mesmo nos tempos mais duros,

ocupações que me entretinham. Comparava-me a Lobisomem. Eu era quase

feliz, e a comparação me atenazava.

Marina tinha deixado de ver-me à tarde, mas todas as noites a gente se reunia

no fundo do quintal. Ela passava pelo buraco da cerca, encostava-se ao tronco da

mangueira, e eram beijos, amolegações que nos enervavam.

— Vamos entrar, descansar um bocado, Marina. Já que chegou aqui, dê mais

uns passos.

— Você está maluco? Eu vou dar o fora. Qualquer dia a gente mete o rabo na

ratoeira. Os velhos descobrem tudo, estrilam, e é um fuzuê da desgraça.

— Deixa disso, Marina, vamos lá para dentro.

— Good-bye.

— Vem cá, Marina.

— Vai-te embora, lobisomem.

Até ali, àquela hora, surgia o nome do vizinho. O que mais me aborrecia era

não saber se as pessoas que falavam dele acreditavam na história suja. Enchia-

me de raiva por não conseguir livrar-me dos fuxicos. Desprezava

involuntariamente o desgraçado Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? Não tinha

verossimilhança, era aleive, disparate. Mas tanta gente repetindo as mesmas

palavras... E casos iguais já se tinham visto.

— Besteira. Perdendo tempo com bobagens. Para o inferno.

Realmente a cara de Lobisomem não inspirava simpatia. E as filhas, de boca

aberta, brancas, enroscadas, moles... Gente suspeita. Estas dúvidas eram

terríveis. Agarrava-me ao judeu para libertar-me delas:

— Isto é o diabo. Uma criatura inofensiva, uma criatura parada!

— Safadeza, dizia Moisés tranquilamente.

— Infâmia. Esta canalha precisa chicote.

— Pois não fale nisso, homem. Para que mexer em porcaria?

— Não é tanto assim, intervinha Julião Tavares. O incesto é natural, explica-

se.

— Lá vem pedantismo.

E não prestava atenção à conversa de Julião Tavares. Lembrava-me de outro

indivíduo infeliz, um sertanejo que vi há muitos anos, quando ele saía da prisão

depois de cumprir sentença. Era um cearense esfomeado que tinha aparecido na

vila em tempo de seca. Esmolambado, cheio de feridas, trazia escanchada no

pescoço uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhas ouviram gritos na casinha de palha e

taipa que eles ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um buraco da

parede e viram o homem na esteira, nu, abrindo à força as pernas da filha nua,

ensanguentada. Arrombaram a porta, passaram o homem na embira, deram-lhe

pancada de criar bicho — e ele confessou, debaixo do zinco, meio morto, que

tinha estuprado a menina. Processo, condenação no júri. Anos depois os médicos

examinaram a pequena: estava inteirinha. O que havia era sujidade e um

corrimento. Tratando a doença da filha com remédios brutos da medicina

sertaneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado e condenado.

— Está ouvindo, seu Moisés? Cipó de boi, facão e pé no tronco.

Moisés indignava-se. Julião Tavares bocejava:

— Natural. A justiça não é infalível.

 

. . .

 

— Marina, a gente deve acabar com isto, minha filha. Vamos para dentro.

— Vou nada!

Torcia o corpo, defendia a virgindade com unhas e dentes.

— Está direito. Então é melhor apressar o casório.

— Com que roupa? disse Marina.

— Que é que falta?

— Tudo. Eu sou uma noiva pelada, meu filho.

Impacientei-me:

— Ora! ora! ora! Entre nós não há cerimônia. Arranja-se. Eu tenho umas

economias, pouco, mas tenho. Também você não precisa de muita coisa. Umas

fronhas, umas camisas...

Como veem, eu tinha boa vontade. O que receava era transformar as nossas

relações, miúdas, num acontecimento social importante.

Aquilo viera pouco a pouco, sem a gente sentir. Naturalmente gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que é diferente da outra, mas

se confunde com ela. Antes de eu conhecer a mocinha dos cabelos de fogo, ela

me aparecia dividida numa grande quantidade de pedaços de mulher, e às vezes

os pedaços não se combinavam bem, davam-me a impressão de que a vizinha

estava desconjuntada. Agora mesmo temo deixar aqui uma sucessão de peças e

de qualidades: nádegas, coxas, olhos, braços, inquietação, vivacidade, amor ao

luxo, quentura, admiração a d. Mercedes. Foi difícil reunir essas coisas e muitas

outras, formar com elas a máquina que ia encontrar-me à noite, ao pé da

mangueira. Preguiçosa, ingrata, leviana. Os defeitos, porém, só me pareceram

censuráveis no começo das nossas relações. Logo que se juntaram para formar

com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e não poderia imaginar

Marina sem eles, como não a poderia imaginar sem corpo. Além disso ela era

meiga, muito limpa. Asseio, cuidado excessivo com as mãos. Passava uma hora

no banheiro, e a roupa branca que vestia cheirava. Nos nossos momentos de

intimidade eu sentia às vezes uma tentação maluca: baixava-me, agarrava-lhe a

orla da camisa, beijava-a, mordia-a. Isto me dava um prazer muito vivo.

— O pior é que você ainda não me pediu, gemeu Marina.

E fingiu-se amuada. Liguei pouca importância ao amuo, mas fiquei

remoendo aquela ideia desagradável de explicar-me aos outros sobre coisas que

só eram interessantes para nós. Explicações horríveis. Necessário entender-me

com seu Ramalho, pedir o consentimento dele, dizer besteiras. Ia escrever-lhe

uma carta com laços sagrados, felicidade conjugal, himeneu. Infâmia. Só a ideia

de escrever isto me dava náuseas. Intenções puras. E era preciso comprar

móveis, trastes de cozinha, cortinas para janelas, almofadas. Intenções puras.

Domingo, na missa, o padre leria: — “Querem casar-se Luís Pereira da Silva,

com trinta e cinco anos, etc., etc., e Marina Ramalho, etc., etc.” Luís Pereira da

Silva, com trinta e cinco anos, estava longe da igreja e dos banhos. Que

necessidade tinha Luís Pereira da Silva daquela verbiagem? Depois os cartões de

comunicação, grandes, com letras douradas, aos colegas da repartição, aos

conhecidos, às amigas de Marina, ao padrinho, oficial do exército. Indispensável um cartão ao padrinho, que era oficial do exército e servia em Mato Grosso.

Alguém me mandaria um telegrama. Intenções puras. Marina dá grande valor

aos telegramas.

— Peço amanhã, murmurei compondo mentalmente as frases bestas da carta.

Falo amanhã. Ou escrevo.

Mão de esposo, união conjugal, intenções puras — Marina gosta disto.

Provavelmente iria recortar e guardar com cuidado a notícia que o jornal

publicaria na sétima página, junto aos versos. Em pé, diante do livro aberto, o

juiz me perguntaria: — “O senhor Luís da Silva quer casar com d. Marina

Ramalho?” Eu, encabulado, mastigaria uma sílaba, esfregando as mãos. Marina,

de roupa branca e flores de laranjeira, afirmaria com a cabeça, pálida e

comovida. O diretor me diria: — “Entrou no rol dos homens sérios, seu Luís.”

D. Adélia choraria abraçada à filha, como é de costume. Os sapatos me

apertariam os calos, e o telegrama seria pouco mais ou menos assim:

“Felicitações ao prezado amigo.” Automóveis da casa para a igreja e da igreja

para a casa. Haveria na minha sala alguns troços novos e inúteis. À noite,

quando eu fosse procurar em minha mulher as últimas novidades, ela me falaria

com entusiasmo naquela glória toda. No dia seguinte d. Rosália se penduraria à

janela para gritar: — “Estava muito bonita a sua grinalda, minha negra.” Quanto

iriam custar tantas maçadas? Talvez os três contos de réis voassem.

— É o diabo, Marina. Vamos ver se arranjamos isto com simplicidade.

 

. . .

 

No outro dia retirei quinhentos mil-réis do banco e fui à casa vizinha:

— Ó d. Adélia, faça o favor de chamar a Marina.

E, enquanto esperava:

— Ela contou à senhora, não contou? Pois é. Parece que o mês vindouro a

gente se engancha. Tenha a bondade de explicar isto a seu Ramalho. Ele já sabe, não?

D. Adélia embrenhou-se em circunlóquios para dizer que o marido sabia e

não sabia. Sabia que eu gostava da menina. Isto se via perfeitamente. Agora ir

para a igreja assim tão depressa era surpresa.

Marina se vestia num quarto próximo, topando nos móveis, derrubando as

coisas.

— É isto, d. Adélia. Quem tem de se empenhar que se venda logo. A senhora

não acha? Explique a seu Ramalho. Esse negócio de pedido de casamento é

muito pau, não tenho jeito. Apareça, Marina.

— Um minuto, respondeu a minha amiga mostrando um pedaço da cara pela

porta entreaberta. Estou acabando de me calçar.

— Está nada! Está pintando os beiços. Essa sua filha é uma pintura, d.

Adélia.

Sem saber se aquilo era elogio ou censura, d. Adélia sorriu vexada e

justificou Marina:

— É a mocidade.

Meti a mão no bolso para tirar os quinhentos mil-réis, acanhei-me. Tirei um

cigarro, que machuquei olhando as figuras das paredes:

— A senhora tem um Coração de Jesus muito bonito.

Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem-vestida

como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos

contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela

janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido

enormemente. Na extremidade dele um formigueiro em rebuliço tinha tomado

subitamente a conformação de um corpo de mulher. As formigas iam e vinham,

entravam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da mão, corriam-me por

baixo da pele, e eram ferroadas medonhas, eu estava cheio de calombos

envenenados. Não distinguia os movimentos desses bichinhos insignificantes

que formavam o peito, a cara, as coxas e as nádegas de Marina, mas sentia as

picadas — e tinha provavelmente os olhos acesos e esbugalhados. Com uma sacudidela, desembaracei-me da garra que me prendia e tornei-me um sujeito

razoável:

— Estávamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que

eu disse a d. Adélia. Gente pobre não tem luxo.

— É preciso fazer as coisas com decência, opinou Marina.

— Claro. Mas com modéstia. Não é, d. Adélia? Dispensa-se o véu. Para que

véu? Eu por mim casava hoje.

Marina escandalizou-se, trombuda. E d. Adélia, mexendo-se aflita na cadeira,

que rangia sob as banhas excessivas, baixava os olhos, escondia as mãos

papudas debaixo do avental, dava razão a mim, dava razão à filha, num

desconchavo:

— É mesmo, seu Luís, gente pobre não tem luxo. Com decência, e então?

Antigamente um noivado era serviço. Preparar a roupa branca, bordar a colcha,

que trabalhão! Tarefa para meses. Hoje em dia, na máquina, vuco, vuco, vuco,

num instante se borda uma colcha.

— A gente podia passar sem a colcha bordada.

— Isso é casamento de cambembe, disse Marina.

D. Adélia, com os olhos suplicantes, pedia silêncio.

— A propósito de roupa branca, d. Adélia...

Calei-me, com vergonha de oferecer os quinhentos mil-réis. O mulherão

suspirou:

— No meu tempo de moça um pedido de casamento era coisa muito séria.

Agora eu estava ali conversando sobre lençóis.

— A propósito de roupa branca, d. Adélia, estive pensando... Até falei com a

Marina, provavelmente ela disse à senhora. Para abreviar, compreende?

Compreendia.

— Cedo ou tarde eu havia de comprar esses panos. Para que etiqueta? Por

isso me lembrei de propor a Marina... A senhora não leva a mal, suponho.

Não levava:

— Quando duas pessoas se entendem...

— Pois é. Uma espécie de adiantamento. É tirar de uma mão e botar na outra.

Fica tudo em casa.

Entreguei a Marina a pelega de quinhentos:

— Está aqui, minha filha. Comece os arranjos. E adeus, que não quero perder

o ponto.

Marina recebeu o dinheiro sem constrangimento, e eu me sensibilizei

julgando que ela procedia assim por estar identificada comigo. Fiz-lhe algumas

recomendações miúdas e retirei-me.

A primeira pessoa conhecida que encontrei na rua foi Julião Tavares. Senti

um estremecimento desagradável, a repugnância que sempre me vinha quando

dava de cara com aquele sujeito, e fingi não vê-lo, entrei numa loja para não

falar com ele. Na repartição as horas correram doces e rápidas. O café estava

cheio de caras amáveis. Guardei na memória pedaços de conversas. O cego dos

bilhetes de loteria passou entre as cadeiras, batendo com o cajado no chão,

cantando o número.

Se eu pegasse a sorte grande, Marina teria colchas bordadas a mão. Pobre de

Marina! Precisava fazenda macia, pulseiras de ouro, penduricalhos.

As cadeiras da minha casa eram bem ordinárias. No tijolo safado não havia

tapete. Nem um quadro na parede. E o colchão, duro como pedra, faria

escoriações no corpo de Marina. Contento-me com muito pouco, habituei-me

cedo a dormir nas estradas, nos bancos dos jardins.

— 16.384, gemia o cego batendo com a bengala no cimento.

Ou seria outro número. Cem contos de réis, dinheiro bastante para a

felicidade de Marina. Se eu possuísse aquilo, construiria um bangalô no alto do

Farol, um bangalô com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali, de volta da

repartição, à tarde, como Tavares & Cia., dr. Gouveia e os outros, contaria

histórias à minha mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pescadores.

— 16.384.

Vestido de pijama, fumando, olharia lá de cima os telhados da cidade, os

bondes pequeninos a rodar quase parados e sem rumor, os focos da iluminação pública, os coqueiros negros à noite. Uns quadros a óleo enfeitariam a minha

sala. Marina dormiria num colchão de paina. E quando saltasse da cama, pisaria

num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços.

— 16.384.

Um tapete fofo, sem dúvida. E a cama teria uma colcha bordada cobrindo o

colchão de paina, uma colcha bordada em seis meses.

 

. . .

 

Alguns dias depois Marina me chamou para mostrar os objetos que tinha

comprado. Não era quase nada: calças de seda, camisas de seda e outras

ninharias.

— Que é do resto?

— Que resto? perguntou espantada. É só isto. Veja se as camisas estão bem-

feitas, diga se as cores lhe agradam.

— Muito boas, murmurei.

— Mas você nem está olhando.

— Para quê? Não entendo. O que vejo é que falta quase tudo.

— Que se há de fazer? É a carestia. Em todo o caso julgo que você aprova...

Que remédio! Havia de brigar com ela, dizer-lhe que tivesse juízo, explicar

que sou pobre, não posso comprar camisas de seda, pó de arroz caro, seis pares

de meias de uma vez? Seis pares de meias, que desperdício! Se ela suasse no

veio da máquina ou aguentasse as enxaquecas do chefe na repartição, não faria

semelhante loucura. Mas não despropositei, como o coração me pedia.

— Está bem. Vamos comprar o resto. Faça economia, ouviu? Os cobres estão

escassos.

Sangrei mais quinhentos mil-réis. Depois sangrei duzentos, adquiri móveis

em leilão e vesti-me de novo, porque as minhas camisas estavam esfiapadas e o

paletó se cobria de nódoas. Marina aplaudia a transformação que se ia operando no meu exterior:

— Precisa é mandar consertar essa gola. O corpo está bom. Os pés não

prestam, com esses sapatos indecentes. Dê por visto um pavão.

Ofereci a seu Ivo os meus sapatos cambados e reformei os pés. O dinheiro

sumia-se, essas alterações chupavam-me as reservas acumuladas com paciência.

Eu vivia preocupado, fazendo cálculos na rua. E ainda não havia comprado uma

lembrança para Marina.

Liquidei a minha conta no banco, estudei cuidadosamente uma vitrina de

joias, escolhi um relógio-pulseira e um anel. Saí da joalharia com vinte mil-réis

na carteira, algumas pratas e níqueis. Mais nada. Apenas confiança no futuro,

apesar dos encontrões que tenho suportado. Os matutos acreditavam na minha

literatura. Vinte mil-réis para café e cigarros.

Ia cheio de satisfação maluca. Não tirava a mão do bolso, apalpava as

caixinhas, sentia através do papel de seda a macieza do veludo. Na alvura do

braço roliço a fita do relógio faria uma cinta negra; a pedrinha branca faiscaria

no dedo miúdo.

— Moisés me emprestará cinquenta mil-réis até o mês vindouro.

Ao chegar à rua do Macena recebi um choque tremendo. Foi a decepção

maior que já experimentei. À janela da minha casa, caído para fora, vermelho,

papudo, Julião Tavares pregava os olhos em Marina, que, da casa vizinha, se

derretia para ele, tão embebida que não percebeu a minha chegada. Empurrei a

porta brutalmente, o coração estalando de raiva, e fiquei em pé diante de Julião

Tavares, sentindo um desejo enorme de apertar-lhe as goelas. O homem

perturbou-se, sorriu amarelo, esgueirou-se para o sofá, onde se abateu.

— Tem negócio comigo?

A cólera engasgava-me. Julião Tavares começou a falar e pouco a pouco

serenou, mas não compreendi o que ele disse. Canalha. Meses atrás se entalara

num processo de defloramento, de que se tinha livrado graças ao dinheiro do pai.

Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando

uma surra. E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.

Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente, mas continuei a ignorar o

que significavam.

— Tem negócio comigo? repeti sem pensar que o tipo já havia

provavelmente dado resposta.

A loquacidade de Julião Tavares aborrecia-me. Uma voz líquida e oleosa que

escorria sem parar. A minha cólera esfriava, o suor colava-me a camisa ao corpo.

A roupa do intruso era bem-feita, os sapatos brilhavam. Baixei a cabeça. Os

meus sapatos novos estavam mal engraxados, cobertos de poeira. Pés de pavão.

Julião Tavares falou sobre a política do país. A enxurrada cobria-se de

nódoas de gordura, que se alastravam.

Ia lá discutir com aquele bandido? O meu desejo era insultá-lo.

— Nunca estou em casa a esta hora. Estou no serviço, percebe? Sou um

homem ocupado.

— Perfeitamente, respondeu Julião Tavares. Uma vida cheia, uma vida

nobre, dedicada ao trabalho.

Só a pontapés.

— Muito bonito, seu doutor.

Ultimamente, embora repugnado, eu o tratava por você.

— Uma coisa é jogar frases em cima do trabalho alheio, outra é pegar no

pesado.

Julião Tavares fechou a cara:

— Todos nós temos as nossas obrigações, homem. Cada qual sabe onde o

sapato lhe aperta.

Olhei os pés dele, e o meu ódio aumentou:

— Os seus não devem apertar muito.

— Acha?

Baixei a cabeça, mordi os beiços para não gritar os desaforos que me subiam

à garganta e que eu engolia, pus-me a marchar na sala estreita, batendo os

calcanhares com força. De uma parede a outra quatro passos. A porta, que tinha

ficado aberta, mostrava-me os paralelepípedos, as sarjetas, as pernas dos transeuntes, só as pernas, porque, como já disse, eu tinha a cabeça baixa. A

minha curiosidade se concentrava nos sapatos dos transeuntes. Passaram os

tamancos de um carregador, os chinelos de Antônia, umas botinas velhas que

julguei serem de Lobisomem. As crianças de d. Rosália corriam e gritavam, mas

estavam descalças.

Lembrei-me da fazenda de meu avô. As cobras se arrastavam no pátio. Eu

juntava punhados de seixos miúdos que atirava nelas até matá-las. Às vezes a

brincadeira se prolongava, mas afinal as cobras morriam, e perto dos cadáveres

ficavam montes de pedras. Certo dia uma cascavel se tinha enrolado no pescoço

do velho Trajano, que dormia no banco do copiar. Eu olhava de longe aquele

enfeite esquisito. A cascavel chocalhava, Trajano dançava no chão de terra

batida e gritava: — “Tira, tira, tira.” As alpercatas de Amaro vaqueiro iam do

curral dos bois ao chiqueiro das cabras. Em dias de pega Camilo Pereira da Silva

desenroscava-se, vestia o gibão, calçava as perneiras. O barbicacho do chapéu de

couro terminava debaixo do queixo numa borla que lhe fazia uma barbinha

ridícula. Assim paramentado, Camilo Pereira da Silva andava emproado como

um galo, e as rosetas das esporas de ferro tilintavam.

Levantei a cabeça. Julião Tavares sorria e continuava a derramar a voz

azeitada. Perto, pancadas de ferro tinindo. Eram as picaretas dos calceteiros que

deslocavam as pedras da rua, consertavam o calçamento. No fim de uma

daquelas viagens de quatro passos eu via, a alguns metros de distância, um

montão de paralelepípedos que a poeira cobria. E, nessa nuvem de poeira,

figuras curvadas, movendo-se. Desejei atirar todos aqueles paralelepípedos em

cima de Julião Tavares.

Tornei a baixar a cabeça, desanimado, continuei a olhar os pés dos raros

transeuntes que passavam na rua. Ia e vinha. Um, dois, um, dois — meia-volta.

Este exercício era irritante. A porta escancarada convidava-me a abandonar tudo,

a sair sem destino — um, dois, um, dois — e não parar tão cedo. Nenhum

sargento me mandaria fazer meia-volta. Os meus passos me levariam para oeste,

e à medida que me embrenhasse no interior, perderia as peias que me impuseram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tornar-me-ia de novo meio

cigano, meio selvagem, andaria numa corrida vagabunda pelas fazendas

sertanejas, ouviria as cantigas dos cantadores e as conversas das velhas nas

fontes, veria à beira dos caminhos estreitos pequenas cruzes de madeira, as

mesmas que vi há muitos anos, enfeitadas de flores secas e fitas desbotadas.

Indicaria uma delas, estirando o beiço. Quem teria morrido ali? E alguém me

informaria, repetindo as histórias dos cantadores e as conversas das velhas nas

fontes: — “Um sujeito que namorou a noiva de outro.”

Estremeci. Os meus dedos contraíram-se, moveram-se para Julião Tavares.

Com um salto eu poderia agarrá-lo.

Pensei em seu Evaristo e na cobra enrolada no pescoço do velho Trajano.

Parei no meio da sala, aterrado com a imagem medonha que me apareceu. O

pescoço do homem estirava-se, os ossos afastavam-se, os beiços entreabriam-se,

roxos, intumescidos, mostrando a língua escura e os dentinhos de rato.

— Está doente? perguntou-me Julião Tavares.

Suponho que a minha resposta foi despropositada. O rapaz levantou-se,

aproximou-se, e eu me desviei dele com um palavrão. Não me lembro do que

disse, mas sei perfeitamente que terminei com um palavrão obsceno. Julião

Tavares aprumou-se.

— Puta que o pariu, resmunguei.

Parece que ele ouviu. Mas fingiu que não tinha ouvido. Agarrou o chapéu e

saiu.

— Bonito!

E pus-me a esfregar as mãos:

— Por causa de uma guenza de maus costumes estar um homem a aperrear-

se. Enrolem-se, durmam, danem-se, vão para a casa do diabo.

Fui à cozinha e conversei um minuto com o Currupaco.

— O jantar está na mesa, disse Vitória.

Entrei na sala de jantar, bebi um pouco de aguardente, fiquei um instante

olhando, por cima do muro, a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas.

A sombra da mangueira ia cobrindo o quintal.

— As moscas estão comendo o jantar, gritou Vitória.

Cheguei-me à mesa, bebi mais um trago de aguardente e tomei o caminho da

rua. Marina estava à janela:

— Que é isso? Vai com tanta pressa! Fale com os pobres.

Pareceu-me contrafeita. Sem-vergonha.

— Não matei seu boi não, moço. Me largue.

Passeei à toa pelas ruas, parando em frente às vitrinas, com a tentação de

destruir os objetos expostos. As mulheres que ali estavam em pasmaceira,

admirando aquelas porcarias, mereciam chicote. Fui ao jornal, li os telegramas.

Eram notícias sem importância, mas julguei perceber nelas graves sintomas de

decomposição social. Estive olhando sem ler os cartazes do cinema, entrei

maquinalmente. O porteiro sabe que trabalho na imprensa e não pediu bilhete de

ingresso. Na sala de projeção fiquei de pé, ao fundo, por baixo da cabina, sem

ver a tela. Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos.

Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou

vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto, e o que fiz foi mastigar papel

impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a

projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me

entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba. À saída encontrei Moisés

encostado a um poste da iluminação, lendo um jornal.

— Acabe com essa literatura, Moisés, exclamei impaciente. Não serve.

Moisés dobrou a folha, sorrindo:

— Que história é essa?

— É o que lhe digo. Não serve. A linguagem escrita é uma safadeza que

vocês inventaram para enganar a humanidade, em negócios ou com mentiras.

— Que diabo tem você? perguntou Moisés.

— Não é nada não. É que não vale a pena, acredite que não vale a pena. Uma

pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma criança mete a gente num chinelo, Moisés; qualquer imbecil mete a gente num chinelo,

Moisés.

Às onze horas achava-me encostado a uma banca do Helvética, bebendo

aguardente e não distinguindo bem as pessoas que se serviam nas outras mesas,

funcionários, políticos, negociantes, chauffeurs, prostitutas. Uma criaturinha

magra empurrou uma das portinholas que dão para a igreja do Livramento,

avançou de manso. Ninguém lhe prestou atenção.

— Pst. Senta aí.

Chegou-se acanhada e esperou a repetição do convite.

— Senta aí.

Sentou-se. O peito era uma tábua, os braços finos, as pernas uns cambitos

que nem sei como aguentavam o corpo. A carinha não era feia, talvez tivesse

sido bonita.

— Beba alguma coisa.

— Não, muito obrigada.

E espalhou a vista pelas mesas.

— Procurando alguém?

— Era. Parece que ele hoje não vem. Já é tão tarde!

— Onde mora?

— Aqui na rua da Lama. É perto.

E mostrou a chave que trazia na mão.

— Beba alguma coisa, insisti.

— Não senhor, eu não bebo.

Tossia e olhava a porta da cozinha.

— Um petisco.

Pimentel entrou na sala e perguntou-me ao ouvido:

— Onde diabo arranjou esse canhão?

Coitadinha. Não era feia, o que estava era estragada.

— Aceite.

A criatura hesitava, afogueada. Afinal se resolveu:

— Muito obrigada. Eu aceito. O senhor vai comigo, não? É aqui pertinho.

Comeu de cabeça baixa, em silêncio, e repetiu o prato. Só falou ao terminar o

café:

— Vamos?

Meti a mão no bolso e lembrei-me de que me restava uma cédula de vinte

mil-réis. Recebi o troco e levantei-me.

— Vai comigo? tornou a perguntar a mulher.

Bebi o resto da aguardente:

— Vamos lá.

No quartinho sujo a rapariga despiu-se e veio abraçar-me desajeitada. O

cabelo tinha um óleo de cheiro enjoativo.

— Esteja quieta.

E afastei-me, sentei-me na cama, sem tirar o chapéu. Ela acomodou-se, as

pernas cruzadas, os braços cruzados escondendo os peitos bambos. Curvada,

mostrava apenas um pedaço da barriga engelhada e escura.

— Anda na vida há muito tempo?

— Nem por isso. Quatro anos.

— An.

Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pelo treponema. Panos

caídos no chão, o irrigador com permanganato. Na mesinha da cabeceira

essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma. Tive necessidade

de fumar. Encontrei cigarros, mas procurei fósforos em todos os bolsos, e o que

achei foi o pacote com as caixinhas de veludo — o relógio-pulseira e o anel.

— Faz o obséquio de me arranjar uma caixa de fósforos?

A mulher levantou-se. Escanzelada, coxas finas com marcas de varizes,

nádegas murchas. Chi! que peleiro!

— Muito obrigado.

Acendi o cigarro. A mulher sentou-se junto de mim e começou o seu trabalho

de abraços, beijos, etc.

— Esteja quieta.

Meti a mão no bolso, senti através do papel de seda a macieza do veludo. A

fita do relógio faria uma cinta negra no braço roliço, um braço macio como

veludo. Os beijos começavam no pulso, onde a fita se enrolaria. O tique-taque

seria do relógio ou do sangue correndo na artéria? Na escuridão do quintal os

meus beiços avançavam na pele, que se cobria de borbulhas pequenas como

pontas de alfinetes.

— Sempre foi assim magra?

— Ah! não! respondeu a mulher ocultando as pelancas dos peitos com os

cotovelos ossudos. Era cheia, gordinha.

Acariciei com as pontas dos dedos o papel de seda. A mulher bocejava,

caceteada. Que horas seriam? Talvez uma hora. A folhagem da mangueira

estendia um pretume no quintal. Os mais insignificantes rumores cresciam: o

salto dos grilos nos canteiros, a queda das folhas, o trabalho das formigas. A luz

vermelha do farol espalhava-se pelo telhado. Um minuto depois não era

vermelha, era branca. Usávamos precauções excessivas, receávamos que os

nossos suspiros fossem ouvidos nas casas fechadas.

— Parece que isso rende pouco, hem? perguntei abarcando com a vista a

mesinha, o espelho rachado, o irrigador, as camisas sujas, toda a miséria do

quarto.

A mulher teve um gesto de esmorecimento:

— E então! Não está vendo?

— É. Não se dá. Por que não arranja outra vida?

Levantou os ombros, quase agastada:

— Ora outra vida! Que vida? Sempre os mesmos conselhos. Daqui só para a

cova.

Realmente, coitada, dali era para a cova, com escala pelo hospital.

Infelicidade. Eu é que me podia considerar um sujeito feliz. Repetia isto

maquinalmente, enquanto apalpava as caixinhas de veludo. Soltei-as com raiva,

ergui-me, esfreguei as mãos. O sentido das palavras que me dançavam no

espírito tornou-se claro.

Perfeitamente, um sujeito feliz. Que é que me faltava? Livre. Se me viesse

aquela desgraça depois do casamento? A sem-vergonha, admiradora de d.

Mercedes, tinha feitio para cornear marido mais vigilante que eu. — “D.

Mercedes é linda, parece uma artista de cinema.” Sem-vergonha. Recuperava a

minha liberdade. Muito bem. Fazia tempo que não frequentava as mulheres. Pois

estava em casa de uma. O pior é que só me restavam catorze mil-réis e uns

níqueis. O dinheiro tinha voado, tinha-se esbagaçado, virara camisas de seda, pó

de arroz. Dos males o menor.

— Vão-se os anéis, fiquem os dedos.

Magnífica solução. Liberdade, liberdade completa. Pus-me a cantar

estupidamente, batendo com os dedos na tábua da mesinha:

 

Liberdade, liberdade,

Abre as asas sobre nós...

 

— Está indisposto? perguntou a mulher. É bom deitar-se, descansar. Vamos

dormir.

Dormir, que lembrança!

— Não, adeus. Está aqui. Não lhe dou mais porque não tenho, ouviu?

Desculpe.

A criatura recusou os dez mil-réis que lhe apresentei:

— Pode guardar. Nós não fizemos nada. Além disso pagou a ceia. Eu estava

com fome.

— Não senhora. Receba. É o que tenho.

— Muito obrigada. Já não lhe disse que não aceito? Eu estava com fome.

Encolerizei-me de verdade e despropositei:

— Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de

graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de

chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio.

A mulher recebeu o dinheiro, espantada. Julgou-me doido, suponho.

Realmente as últimas palavras me haviam tornado furioso.

 

. . .

 

Marina me explicou muito direitinho que eu não tinha razão. O que tinha era

falta de confiança nela. Chorou, e fiquei meio lá, meio cá, propenso a acreditar

que me havia enganado.

— Posso obrigar uma pessoa a não olhar para mim? Posso furar os olhos do

povo?

Não senhora. A coisa era diferente. Eles tinham sido pegados com a boca na

botija, grelando, esquecidos do mundo. Tinham ou não tinham? Sim senhor, mas

sem malícia.

— Posso furar os olhos do povo?

Esta frase besta foi repetida muitas vezes, e, em falta de coisa melhor,

aceitei-a. Sem dúvida. As mulheres hoje não vivem como antigamente,

escondidas, evitando os homens. Tudo é descoberto, cara a cara. Uma pessoa

topa outra. Se gostou, gostou; se não gostou, até logo. E eu de fato não tinha

visto nada. As aparências mentem. A terra não é redonda? Esta prova da

inocência de Marina me pareceu considerável. Tantos indivíduos condenados

injustamente neste mundo ruim! O retirante que fora encontrado violando a filha

de quatro anos — estava aí um exemplo. As vizinhas tinham visto o homem

afastando as pernas da menina, todo o mundo pensava que ele era um monstro.

Engano. Quem pode lá jurar que isto é assim ou assado? Procurei mesmo

capacitar-me de que Julião Tavares não existia. Julião Tavares era uma sensação.

Uma sensação desagradável, que eu pretendia afastar de minha casa quando me

juntasse àquela sensação agradável que ali estava a choramigar.

— Pois bem, minha filha, não vale a pena falar mais nisso. Enxugue os

olhos. Se você diz que não foi, não foi. Acabou-se, não se discute. Está aqui uma lembrancinha que eu lhe trouxe. Vamos ver se fica bonito.

Marina desembaraçou-se das lamúrias, passou a uma alegria ruidosa. Muitos

agradecimentos, uns beijos ainda com a cara molhada. Estranhei aquela mudança

repentina.

— Nervoso. Quando casar, endireita.

Marina examinava o relógio e o anel: levantava a mão, afastava-a,

aproximava-a.

— Uma beleza. Você tomando incômodo!

Incômodo! Eu estava com o bolso pegando fogo e devendo cinquenta mil-

réis ao Pimentel.

— Não se preocupe. O que precisamos é acertar essa história do casamento.

Quando é isso?

Respondeu vagamente. Andava bordando umas guarnições, preparando umas

almofadas. E faltavam certas coisas. Impacientei-me:

— Se você só se decidir quando tiver tudo... Assim ninguém acaba. Vamos

marcar o dia. Valeu? Dê uma nota dos troços que faltam.

— Talvez fosse melhor eu fazer a compra.

— É. Talvez fosse, gaguejei aflito. Eu vou ser franco. Estou na pindaíba,

ouviu? É necessário a gente escolher mercadoria barata.

Esperei que minha noiva se conformasse com a situação. Baixou a cabeça, e

as partes do rosto que não estavam pintadas empalideceram:

— Bem.

— Dá cá a nota.

— Para quê? Assim com essa pobreza...

— Deixa disso, murmurei ressentido. Donde vem tanto luxo? Riqueza não

tenho, mas para vivermos com decência o que há chega. Dá cá a nota.

Marina entregou-me lápis e papel, ditou coisas absurdas, com um risinho

ruim, e eu percebi nela a intenção perversa de me humilhar. Quando falou em

tapetes e tapeçarias, não me contive:

— Oh! Isso também é demais. Eu estou fazendo das fraquezas forças, compreenda. Diga os objetos indispensáveis. Meu avô não possuía tapetes e foi

um homem feliz.

— Naquele tempo era diferente, respondeu Marina.

— Está bem.

Não escrevi as tapeçarias, terminei a nota e despedi-me bastante aperreado.

Tudo aquilo estava fora dos eixos. Mais tarde encontrei Moisés:

— Olhe cá. Seu tio me quererá vender estas porcarias a crédito?

— Esse negócio de prestações é por preço horrível, disse Moisés. Era melhor

você comprar a dinheiro.

— Mas se não tenho! Estou na quebradeira, Moisés. Mande as fazendas.

Assim, acabei de encalacrar-me. Marina recebeu os panos friamente,

insensível ao sacrifício que eu fazia, aquela ingrata. Se eu não tivesse cataratas

no entendimento, teria percebido logo que ela estava com a cabeça virada.

Virada para um sujeito que podia pagar-lhe camisas de seda, meias de seda. Que

valiam os tecidos grosseiros comprados ao velho Abraão, ou Salomão, o tio de

Moisés? Nem olhou os pobres trapos, que ficaram em cima de uma cadeira,

esquecidos.

Lembro-me perfeitamente da cena muda que houve naquela tarde. Sentada, a

cabeça caída para o encosto da cadeira, as pernas cruzadas, os dedos cruzados

num joelho, não me via, era como se estivesse só. A cara parada mostrava

cansaço, enjoo. De longe em longe batia com o calcanhar no chão. A saia

esticada exibia a coxa, mas a minha atenção se concentrava nos braços e nos

dedos. Não trazia o relógio nem o anel que eu lhe tinha oferecido na véspera.

Isto me desapontava, arrancava-me pragas e insultos, que eu engolia com medo

de praticar uma violência. — “Ordinária! Arrasa-se a gente para ser agradável a

uma peste assim, e o resultado é este: coice. Ordinária. Safada.” Desejei falar

novamente em Julião Tavares, mas temi não convencer-me de que me havia

enganado. O rosto imóvel, como se eu não estivesse ali. As mãos finas cruzadas

sobre o joelho. Ia escurecendo. Àquela hora seu Ramalho, coberto de azeite,

abreviava os dias no calor da usina elétrica, limando bronzes. D. Adélia, na cozinha, enchia-se de fumaça, envenenava-se. Marina permanecia imóvel. Que é

que eu estava fazendo, naquele constrangimento, olhando o pacote aberto,

estripado, em cima de uma cadeira? As entrevistas no quintal eram coisas muito

antigas. O relógio e o anel tinham sido oferecidos na véspera, mas eram antigos

também. E parecia-me que tinham sido dados a outra pessoa. Em que estaria

pensando Marina? Agora eu não lhe via o rosto: as feições diluíam-se na

escuridão. Sentia-me atordoado, com um nó na garganta. Se falasse, diria

injúrias. Uma ingratidão assim! Não esperava aquilo. Fatos e indivíduos

desencontrados, velhos e novos, fervilhavam-me na cabeça, misturavam-se. No

copiar da fazenda José Baía explicava-me as virtudes da oração da cabra preta.

Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Berta me havia

segurado um braço e arrastado até a escada. E eu, agarrando-me ao corrimão: —

“Madame, a senhora não está vendo que não posso encostar-me a uma criatura

da sua marca?” Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados na rua do

Comércio, vestidos de brim de linho, viviam escondidos por detrás dos fardos e

eram uns ratos. — “Escrevi muito atacando a primeira república, doutor. As

minhas opiniões são conhecidas.” Pobre da mulher da rua da Lama. Rondando as

mesas, com fome, às onze horas da noite.

— Bem. Parece que me vou embora, Marina. Boa-noite.

— Já vai? perguntou Marina sem se mexer.

— Já.

Saí resmungando:

— Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de

prostituição.

 

. . .

 

Por que foi que aquela criatura não procedeu com franqueza? Devia ter-me

chamado e dito: — “Luís, vamos acabar com isto. Pensei que gostava de você, enganei-me, estou embeiçada por outro. Fica zangado comigo?” E eu teria

respondido: — “Não fico não, Marina. Você havia de casar contra a vontade?

Seria um desastre. Adeus. Seja feliz.” Era o que eu teria dito. Sentiria despeito,

mas nenhuma desgraça teria acontecido. Lembrar-me-ia de Marina com vaidade,

até com orgulho: — “Sim senhor, gostei de uma mulher de caráter, mulher de

cabelo na venta.” Não seria esta miséria, esta recordação de coisas mesquinhas.

De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória

foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos,

urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição no lixo. Tão

morno, tão chato! Nesse ambiente empestado Marina continuava a oferecer-se

negaceando. Conservava-me preso, fazendo gatimanhos, esticando a saia estreita

que lhe mostrava bem as coxas e as nádegas.

— Marina, esse procedimento é incorreto. Por que não me larga? Dê o fora,

desocupe o beco.

— Está roendo courana. Coitadinho dele.

Não tornamos a falar em casamento. Creio que ela procedeu assim por

hábito. Ou talvez quisesse pagar os objetos que tinham esgotado a minha

fortuna. Mas ia-se distanciando, e eu não podia agarrá-la. Às vezes ficava

trombuda, aparentando gravidade. As distrações eram constantes, aquele modo

de se descangotar, abrir a boca e olhar por cima da cabeça da gente. Isto me

amarrava e atenazava. Presumo que a intenção dela era desembaraçar-se de mim

lentamente, ou desembaraçar-se ela própria do costume que havia adquirido.

À tarde eram aqueles manejos, mas pela manhã, quando eu saía para a

repartição, plantava os cotovelos na janela e enxeria-se com Julião Tavares. Uma

vez por semana eu largava o serviço antes do meio-dia, só para pegá-los. Ao

dobrar a rua Augusta, avistava Julião Tavares na prosa com ela, vermelho,

soprando, derretendo-se, a roupa de brim com manchas de suor nos sovacos.

Vendo-me, o canalha voltava as costas, porque estava intrigado comigo. Abri-me

com d. Adélia, comentei aquele escândalo:

— A senhora aprova o comportamento de sua filha?

D. Adélia torceu as mãos, engoliu em seco e respondeu numa atrapalhação:

— É a mocidade.

Perdi os estribos:

— Que mocidade! É sem-vergonheza. Não lhe invejo a sorte, d. Adélia. Sua

filha acaba mal.

— Quem tem família está sujeito a tudo, seu Luís. Ninguém deve dizer

“Deste pão não comerei nem desta água beberei”.

— Não deve não, d. Adélia. É uma tristeza. A senhora lavando, engomando,

cozinhando, e seu Ramalho na quentura da usina elétrica, matando-se para

sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha não tem coração.

— Muito nova, dizia a mãe. Depois endireita. Quando casar, endireita.

— E a senhora pensa que há no mundo um trouxa que se engane com ela?

Não casa não, d. Adélia. Aquela dá com os burros na água.

D. Adélia tinha lágrimas na voz e gaguejava frases truncadas:

— Então... Eu não sabia. Uma coisa apalavrada... Não há motivo, seu Luís,

acredite que não há motivo. Por que foi?

Eu sentia prazer em atormentar a pobre da velha:

— D. Adélia, olhe para a minha cara. A senhora me acha com jeito de corno?

— Deus me livre, seu Luís, exclamava a mulher recuando e arregalando os

olhos. Eu havia de achar semelhante barbaridade?

— Então, se não me acha com jeito de corno, não me faça perguntas dessa

natureza.

O meu desejo era desligar-me daquela gente, passar calado, carrancudo, as

mãos nos bolsos, o chapéu embicado. Esforçava-me por me dedicar às minhas

ocupações cacetes: escrever elogios ao governo, ler romances e arranjar uma

opinião sobre eles. Não há maçada pior. A princípio a gente lê por gosto. Mas

quando aquilo se torna obrigação e é preciso o sujeito dizer se a coisa é boa ou

não é e por quê, não há livro que não seja um estrupício.

O que eu devia fazer era mudar de casa. Esta é inconveniente, cheia de

barulhos, parece mal-assombrada. Os ratos não me deixavam fixar a atenção no trabalho. Eu pegava o papel, e eles começavam a dar uns gritinhos que me

aperreavam. Tinham aberto um buraco no guarda-comidas, viviam lá dentro,

numa chiadeira infernal. Às vezes havia um cheiro de podridão. Vitória se

enfrenesiava, andava para cima e para baixo, manejando um regador com água e

creolina, molhando tudo. Mas o fedor resistia. Afinal íamos encontrar o armário

dos livros transformado em cemitério de ratos. Os miseráveis escolhiam para

sepultura as obras que mais me agradavam. Antes, porém, faziam um sarapatel

feio na papelada. Mijavam-me a literatura toda, comiam-me os sonetos inéditos.

Eu não podia escrever.

Os grilos não me incomodavam, escrevo perfeitamente ouvindo os grilos.

Havia uma orquestra deles, mas eu nem os notava. Saltavam-me em cima do

papel, eu dava-lhes piparotes, e eles desapareciam.

Os ratos é que me roíam a paciência. Corrote, corrote — era como se

roessem qualquer coisa dentro de mim. Lembrava-me do tempo em que andava

pelas ruas sentindo o cheiro das mulheres. Miudinhos, deviam ser catitas.

Corriam pela sala de jantar, vinham mexer nos meus chinelos, sem medo, sem

vergonha. Levantava-me, abria as portas do guarda-comidas, saltavam três,

quatro, que se escapuliam para os buracos das paredes. Voltavam, assustados,

ganhavam confiança, aproximavam-se, bonitinhos, os olhos vivos e as orelhas

arrebitadas. O meio de obrigá-los ao silêncio durante uns minutos era espalhar

na sala pedaços de miolo de pão, que eles devoravam depressa. Casa infame. E

dr. Gouveia cobrava-me cento e vinte mil-réis de aluguel! De quando em quando

o madeiramento bichado estalava.

— Qualquer dia esta cumeeira vem abaixo, gemia Vitória. Por que é que o

senhor não se muda?

As noites eram medonhas. Os galos marcavam o tempo, importunavam mais

que os relógios. E os ratos não descansavam. Enquanto alguns roíam a madeira

do guarda-comidas, outros deviam estar lá dentro no armário, devastando os

manuscritos, morrendo na literatura. Fogo nos livros imundos. Mas a casa

enchia-se de pulgas. O gato amava nos telhados, gato ordinário. Uns miados estridentes, indiscretos: — “Rasga, diabo!” Marina, quando se excitava,

enrolava-se como uma gata e miava. Miava baixinho, para não acordar a

vizinhança.

Irritava-me um som de armadores de rede. Em noites de calor Marina dormia

em rede, balançava-se.

Os armadores rangiam. O que eu precisava era ler um romance fantástico,

um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas,

não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas

complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.

Os armadores continuavam a ranger. Provavelmente estava deitada de costas,

as pernas caídas, os pés no chão dando o impulso para o balanço. Talvez

estivesse nua por causa do calor.

Seu Ramalho tossia. D. Adélia descansava na cama dura a armação fatigada.

Ou não descansava. Era possível que fizesse contas, aperreada — tanto para

o aluguel da casa, tanto para o mercado, tanto para a luz, tanto para a roupa.

Vitória também calculava, resmungando. Os números misturavam-se ao canto

dos galos e ao chiar dos ratos. No princípio do mês iria revolver as pratas

enterradas no canteiro das alfaces, na raiz da mangueira, ao pé da cerca. Não

havia agora ninguém lá. Bichos miúdos apenas, grilos, formigas.

Em que estaria pensando Marina? Provavelmente no outro. Um sujeito

gordo, vermelho, suado, bem-falante, de olhos abotoados. Seria possível que ela

gostasse daquilo?

Seu Ramalho tossia. Assaltava-me o desejo de ver Julião Tavares sujo de

azeite e carvão, recebendo na cara as faíscas da fornalha. Por que não?

Derretendo as banhas. Inútil, preguiçoso, discursador. Canalha.

 

. . .

 

Pouco a pouco nos fomos distanciando, um mês depois éramos inimigos. A princípio houve brigas, reconciliações desajeitadas, conversas azedas com d.

Adélia. Tempo perdido. Marina estava realmente com a cabeça virada para

Julião Tavares. Comecei a passar trombudo pela calçada, remoendo a decepção,

que procurei recalcar.

— Mulheres não faltam.

Entrei a procurá-las, a observá-las. Por que só haveria de servir aquela

safadinha? Uma datilógrafa que me aparecia em toda a parte era bem engraçada.

Bonitinha, com olhos verdes e rosto de santa. Eu ia dobrar uma esquina — dava

de cara com ela; tomava o bonde — ela era minha companheira de viagem.

Depois de tantos acasos, a gente se cumprimentava, embora sem saber que rumo

cada um ia tomar. Às vezes eu estava distraído, pensando em coisas à toa.

Quando menos esperava, surgiam os olhos de gato da datilógrafa. Outras vezes

chegava-me de supetão a ideia de que ia vê-la. E acontecia acertar. Sumiu-se

umas semanas. Se não se tivesse sumido, é possível que a minha vida fosse hoje

diferente. E talvez não fosse. Duas criaturas juntam-se um minuto, mas entre

elas há um obstáculo. Provavelmente a datilógrafa dos olhos verdes, enquanto

sorria para mim no bonde ou na esquina, pensava numa espécie de Julião

Tavares que iria visitá-la horas depois. Morava numa casa de quintal sujo, lia

romances tolos, admirava uma quenga semelhante a d. Mercedes. O pai era um

pobre homem carregado de achaques e consumido pelo trabalho, a mãe lavava

roupa e queixava-se da carestia.

Vitória é que tinha razão:

— Cabritinha enxerida. Esfregando-se nos homens.

O sem-vergonha metera-se na casa, ficava lá horas, íntimo da família, unha

com carne. Empurrava a porta, entrava como se aquilo fosse dele. Seu Ramalho

nem se voltava: debruçado à janela, aperreado, fumando cachimbo, mordia os

beiços, encolhia os ombros. Vinha conversar comigo, desabafava:

— Não se case, seu Luís. É o conselho que lhe dou.

Quando o intruso saía, começava a arenga:

— Isto tem cabimento? Entra quem quer.

Marina defendia-se, malcriada:

— Entrou porque deixaram. Eu tenho culpa? Não mandei. Posso amarrar as

pernas dos outros?

— Falem baixo, pedia d. Adélia. Os vizinhos estão ouvindo.

— Que vizinhos! gritava seu Ramalho. Faço um escândalo. Isto é pensão?

Não fez o escândalo. E Julião Tavares continuou a frequentar a casa, levando

presentes às mulheres. Às vezes jantava lá. Nesses dias um carregador trazia do

armazém de Tavares & Cia. um caixão com embrulhos, latas e garrafas. Da

minha sala de jantar, eu ouvia as conversas, as risadas, o barulho dos vidros e

dos talheres. No fim a coisa descambava em discurso.

Seu Ramalho não tomava parte nessas orgias: embicava o chapéu, acendia o

cachimbo e saía. D. Rosália balançava a cabeça com um sorrisinho safado:

— Feias coisas. Não dou um ano que isto cheire a alfazema.

Antônia ia comentar a história com o guarda-civil da esquina.

Punha-me a passear pelo corredor, olhando as biqueiras dos sapatos, os

tijolos gastos, o rodapé vermelho da parede úmida. Por ali passava um cano.

Algumas porcas das juntas estavam mal apertadas e por elas a água esguichava,

formando poças no tijolo gasto. O cano estirava-se como uma corda grossa bem

esticada, uma corda muito comprida. Eu andava para cima e para baixo, o

ouvido atento aos mais insignificantes rumores da casa vizinha. Preocupava-me

sobretudo o silêncio. Enquanto estavam batendo nos copos, tagarelando, nem

por isso. Mas quando se calavam, vinham-me suposições que me davam

tremuras. Provavelmente d. Adélia tinha ido à cozinha preparar o café. E os dois

aproveitavam o tempo. Sem dúvida. Imaginava o que eles faziam. Era aquilo,

sem dúvida.

— Que é que o senhor tem? perguntava-me Vitória.

Sem dúvida. Imaginava perfeitamente. E não tirava os olhos da parede

manchada, do rodapé vermelho, do cano.

— Um pedaço daquilo é arma terrível. Arma terrível, sim senhor, rebenta a

cabeça de um homem. Já se tem visto.

Mas aquele, comprido demais, pregado ao chão, não tinha jeito de arma:

parecia uma corda estirada. Quando vinha o silêncio, detinha-me na sala de

jantar, contígua à outra sala onde a súcia se regalava, punha a mão atrás da

orelha, continha a respiração. Furava com os olhos a cal que se descascava e

dava ao muro a aparência de uma cara sardenta, furava o reboco, furava os

tijolos. No outro lado a mesa num desarranjo, restos de comida, pontas de

cigarros, nódoas na toalha, garrafas abertas, os dois juntos, perna com perna. D.

Adélia, encostada ao fogão, respirava fumaça, engelhava as pálpebras, gemia

uma desculpa: — “É a mocidade.” Estava invisível e escaldava os dedos

torcendo o pano de café. Os dois, grudados, cochichavam, esfregavam-se.

Alguns botões tinham saído dos lugares. Afinal tudo era suposição. Talvez d.

Adélia estivesse ali, um pouco afastada, os olhos atentos, observando o que se

passava por baixo da mesa. História! Escondia-se e justificava aquela sem-

Continuar: parte 4 de 8