Animais de laboratório: criação e experimentação
6. Equipamentos, materiais e insumos
Sebastião Enes Reis Couto
Introdução
Dada a especificidade das atividades desenvolvidas em um biotério, necessário se faz que tenhamos equipamentos e materiais com desenho apropriado para que possamos obter os resultados desejados.
Uma das medidas fundamentais no manejo de animais de laboratório é a de proporcionar-lhes alojamentos cômodos dentro da área exigida conforme a espécie.
Para obtermos um padrão de manejo ideal, necessário se faz, antes de tudo, conhecermos alguns dos direitos desses animais, entre os quais se destacam: mantê-los secos e limpos, conservá-los em um estado de relativa regulação térmica (conforme a espécie envolvida), oferecer-lhes espaço suficiente para que possam se movimentar com certa facilidade, dotá-los de alimentação e água convenientes e, em última palavra, ‘garantir sua saúde e bem-estar’. Para isso, é necessário que se utilize, em um biotério, material específico e convenientemente selecionado, que atenda aos seguintes princípios gerais:
limitar ou evitar o contato entre o animal e o técnico, visando ao conforto do animal;
ser fabricado com material impermeável aos líquidos; ser resistentes à corrosão;
não possuir rebarbas e bordas cortantes;
ser desenhado e fabricado de modo a simplificar seu manuseio e manutenção, assim como a facilitar a limpeza e desinfecção; ser durável e de fácil reposição;
ser autoclavável.
Materiais desejáveis em um biotério
gaiolas em plástico (polipropileno ou policarbonato), usadas para camundongos, ratos e hamsters; gaiolas em plástico (polipropileno), usadas para cobaias e coelhos;
tampas de aço inox, na forma de grade, com um rebaixamento para o interior da gaiola que serve de comedouro (usadas nas gaiolas para camundongos, ratos e hamsters); caixa em aço inox, tipo tabuleiro, com furos de 4 mm de diâmetro, usadas para esterilização de ração; frascos em plástico (policarbonato), usados para bebedouros; rolhas de borracha, tipo buna, usadas como tampa dos frascos (bebedouros);
bicos em aço inox, usados nas tampas dos frascos (bebedouros);
bebedouros automáticos, ligados diretamente na rede hidráulica, com válvulas que chegam em cada gaiola; suporte de bebedouros para gaiolas de coelhos e cobaias; comedouros em aço inox, usados nas gaiolas para coelhos e cobaias;
bandejas em aço inox, usadas sob a gaiola para coelhos, para coletar os dejetos dos animais;
estantes em aço inox, sobre rodízios, para gaiolas de camundongos, ratos e hamsters. troiller – estante em aço inox, sobre rodízios, para gaiolas de coelhos e cobaias;
mesas em aço inox, sobre rodízios, para manuseio dos animais; caixas de papelão descartável para transporte dos animais; carros em aço inox, tipo plataforma ou chassi para transporte de materiais;
caixas em aço inox, tipo engradado para frascos (bebedouros); carros tipo cuba para transporte e depósito de ração. Características desejáveis para as gaiolas dos
animais
serem seguras, não permitindo fuga dos animais; permitirem, com facilidade, a observação do animal e sua alimentação;
terem ventilação apropriada;
serem higiênicas e de fácil limpeza;
serem confortáveis, permitindo aos animais ampla liberdade em seus movimentos;
permitirem fácil acesso aos alimentos e à água.
Quadro 1 – Espaço mínimo recomendado para gaiolas dos animais
de laboratório e a temperatura em seu interior
Fonte: Guide to the Care and Use of Experimental Animals (1980).
Características desejáveis para as estantes das
gaiolas
estarem apoiadas sobre rodízios, permitindo o deslocamento para higienização e limpeza das salas;
possuírem distância adequada entre prateleiras, possibilitando a retirada das gaiolas e bebedouros, facilitando a administração da ração sem obstáculos e com segurança; terem altura não superior a 1,80 m para que haja segurança na retirada das gaiolas que estão na prateleira superior; permitirem condições para incidência de luz e exposição à ventilação semelhante para todas a gaiolas.
Figura 1 – Estantes e gaiolas para criação de coelhos
Fonte: Centro de Criação de Animais de Laboratório/Fiocruz.
Equipamentos desejáveis em um biotério Autoclave
É o principal equipamento de esterilização de materiais e insumos em um biotério.
Este equipamento deve ter dupla-porta, com intertravamento das mesmas, de forma a impedir que haja comunicação entre áreas de higienização e estoque de materiais esterilizados.
Figura 2 – Autoclave de dupla-porta
Fonte: Centro de Criação de Animais de Laboratório/Fiocruz.
Isoladores
Este equipamento, mais sofisticado que os demais, oferece maior segurança e tem sido utilizado, principalmente, para manter animais livres de germes e estudos de alto risco. Basicamente, é constituído de uma câmara de polivinil, normalmente em forma de paralelepípedo. Em uma de suas faces há um par de luvas para manipulação no interior e em outra face uma ‘porto de entrada’.
Figura 3 – Isolador flexível com pressão positiva
Fonte: Centro de Criação de Animais de laboratório/Fiocruz.
Nas laterais, instalam-se os filtros de entrada e saída de ar. A renovação do ar é mantida através de um ventilador (isoladores com pressão positiva) ou de um exaustor (isoladores com pressão negativa).
A introdução de insumos e materiais é feita pelo ‘porto’ com auxílio do cilindro de esterilização, no qual os materiais foram previamente esterilizados. Para maior facilidade e segurança, utiliza-se a luva de transferência que interliga o ‘porto’ ao cilindro.
A utilização de isoladores com pressão negativa em estudos de alto risco confere ao pesquisador um eficiente método de segurança, além de propiciar a vantagem de ter numa mesma sala isoladores com animais portadores de diferentes germes.
Estante com Microisoladores
É um equipamento que permite o estabelecimento de sistema fechado de criação para cada microambiente, ou seja, para cada gaiola de animais.
É constituído por dois motores, responsáveis pelo insuflamento e a exaustão do ar por meio de ductos com orifícios, para cada gaiola de animais, sob as prateleiras. O ar insuflado e/ou exaurido passa por dois filtros absolutos de alta atividade, onde a eficiência é 99,997% na retenção de partículas maiores de 0,3 micra, que se encontram próximos aos motores e sobre as tampas de cada gaiola de animais.
As gaiolas providas desse filtro permitem o isolamento do meio ambiente, dando segurança aos animais quando transportados. Utiliza-se uma capela de fluxo laminar para o manejo dos animais.
Figura 4 – Estante com microisoladores e capela de fluxo laminar
Fonte: Centro de Criação de Animais de Laboratório/Fiocruz.
Forno de Esterilização
É um equipamento também utilizado em biotério para materiais que não possam ser esterilizados por calor úmido.
Câmara para Eutanásia
Seu tamanho depende das espécies a serem sacrificadas e normalmente se utiliza o gás dióxido de carbono (CO ). 2
Este equipamento deve ter uma boa vedação para evitar que o gás atinja o meio ambiente. Deve ser dotado de um visor para que os animais possam ser observados durante o sacrifício.
Máquinas de Lavar Gaiolas, Frascos e Bicos
Existem muitos tipos dessas máquinas, desde as mais simples às mais sofisticadas (semi-automáticas e totalmente automatizadas). Seu tamanho e capacidade dependem do tipo e do número do material a ser lavado.
Figura 5 – Máquina de lavar gaiolas de coelhos e cobaias
Fonte: Centro de Criação de Animais de Laboratório/Fiocruz.
Insumos utilizados em um biotério
Denominamos insumos todos os elementos que entram na produção de determinado bem ou serviço, tais como: ração, água, maravalha e feno.
Ração A nutrição adequada constitui um dos fatores mais importantes para o animal de laboratório, uma vez que oferece condições de atingir seu potencial genético, de crescimento, de reprodução, de longevidade e de resposta a estímulos.
Fornecer alimentação adequada às várias espécies de animais de laboratório envolve a formulação de dietas com concentrações requeridas de aproximadamente 50 componentes essenciais e a manipulação de numerosos fatores relacionados com a sua qualidade.
O tipo de ração, sua biodisponibilidade (a quantidade de nutrientes que o organismo pode absorver e metabolizar), os procedimentos relacionados à preparação e estocagem e à concentração de contaminantes químicos são exemplos de fatores que exercem profundos efeitos no desenvolvimento animal.
A maioria das espécies possui hábito alimentar complexo. Dessa forma, a dieta balanceada, isto é, a ração industrializada, apresentada na forma de peletes, atende a todas as necessidades alimentares dos animais, e não deve ser suplementada. Assim, a utilização de ração é vantajosa, pois, além de proporcionar nutrição adequada, é de fácil manuseio e de melhor rendimento.
Ao escolhermos uma ração para os animais, devemos verificar se é produzida com ingredientes de boa qualidade e se a empresa produtora tem condições de fabricação que atendam às exigências nutricionais e microbiológicas. Outra preocupação que devemos ter é quanto à não-inclusão de bacteriostáticos e se há indicação do prazo de validade do produto e condições adequadas de armazenamento.
As dietas são esterilizadas, geralmente, utilizando-se métodos de calor úmido ou por radiação.
Esterilização por Calor Úmido Normalmente é feita em autoclave, a 121 °C, durante 20 minutos. A ração deve ser acondicionada na autoclave, de modo a permitir que o vapor atinja todas as partes do material. Podemos utilizar caixas tipo tabuleiro com orifícios, embalagens microperfuradas (plástico ou papel) etc.
Esterilização por Radiação
É feita utilizando-se raios gama. Em termos de manutenção da qualidade nutritiva e segurança, esse é o melhor método de esterilização e também o mais caro.
Hidratação
A água é um dos mais importantes componentes do organismo e a sua ausência é incompatível com a vida. Dessa forma, é imprescindível que os animais de laboratório tenham livre acesso a ela. As necessidades básicas de água variam em virtude da dieta (ração), condições ambientais e espécie animal.
A água oferecida aos animais deve ter os mesmos padrões de qualidade de água potável para humanos, porém necessita de tratamento antes de ser oferecida, visando a impedir a veiculação de agentes e substâncias nocivas que podem comprometer a qualidade sanitária das colônias.
A freqüência da substituição da água dos bebedouros reduz o desenvolvimento de microorganismos. Desse modo, quanto menor for o espaço de tempo da sua substituição, menor será o risco de ocorrer doenças nas criações.
Há diferentes processos de tratamento da água a serem administrados aos animais de laboratório:
PROCESSOS QUÍMICOS – acidificação através da adição de
uma parte de HCl (36,5% a 38%) para três partes de água,
resultando em o pH 2,5 a 3,2, evita o crescimento de
Pseudomonas spp;
PROCESSOS FÍSICOS – filtração, esterilização por
autoclavação.
Para adotarmos um desses processos, devemos considerar a
eficiência e o custo em relação ao padrão sanitário dos animais
que mantemos ou criamos.
Quadro 2 – Quantidade necessária de ração e água animal/dia
Fonte: Guide to the Care and Use of Experimental Animals (1980).
Cama
Os animais são mantidos em gaiolas em que o piso é coberto por uma camada de maravalha (raspa de madeira picada), casca de arroz, bagaço de cana-de-açúcar desidratado, sabugo de milho ou outro produto, dependendo da facilidade de obtenção e do custo.
Qualquer que seja o material escolhido para as camas, deve ser assegurado que as plantas que lhes deram origem não receberam inseticidas durante o cultivo.
O material utilizado para ‘cama’ tem por finalidade absorver a urina dos animais e a água derramada no interior da gaiola, mantendo seu fundo sempre seco, bem como servir de isolante térmico para reduzir a condução de calor do corpo dos animais através do fundo da gaiola.
O material utilizado para ‘cama’ dos animais deve possuir as seguintes características:
ser inócuo, isto é, não ter sido tratado com substâncias tóxica; não ser oriundo de madeiras resinosas;
ter alto poder de absorção;
permitir o isolamento térmico – as propriedades isolantes diminuem com o aumento da umidade;
ser confortável para proporcionar sensação de bem-estar; ser desprovido de cheiro;
ser facilmente descartável – é vantajoso que o material possa ser incinerado, pois a ‘cama’ poderá estar contaminada (química ou biologicamente);
ser facilmente transportado, manuseado e estocado (embalagens adequadas a estes fins).
A ‘cama’, por estar em contato íntimo com os animais, fazendo parte do seu microambiente, deve ser tratada, evitando-se assim o aparecimento de doenças nas colônias.
Seu tratamento consiste na autoclavação, 121 °C durante 30 minutos, em embalagens que permitam a penetração do vapor até a camada central.
Quadro 3 – Quantidade necessária de ‘cama’ de madeira de pínus
nas gaiolas e bandejas *
*Quantidade para troca de gaiolas e bandejas a cada 2 (dois) dias.
Fonte: Centro de Criação de Animais de Laboratório/Fiocruz.
Feno A qualidade de um material ideal para ninho é semelhante àquela do material utilizado para ‘cama’, exceto que o animal deve ser capaz de construir um ninho adequado e o material não deve absorver a umidade, mas permitir que escorra ‘para a cama’ absorvente, deixando que o ninho fique seco.
O feno de capim cort-cross é adequado para o ninho dos coelhos, oferecendo ao animal conforto e facilidade na construção do ninho. Também é utilizado nas gaiolas das cobaias, juntamente com a cama de madeira de pínus, com o objetivo de ocupá-las roendo este material, evitando, assim, que elas arranquem os pêlos umas das outras.
Referências bibliográficas
CANADIAN COUNCIL ON ANIMAL CARE (CCAC). Guide to the Care and Use of Experimental Animais. Ottawa: Canadian Council on Animal Care, 1980.
Bibliografia
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