Animais de laboratório: criação e experimentação
37. Controle bacteriológico, micológico e micoplasma: animal e ambiental
37. Controle bacteriológico,
micológico e micoplasma: animal e
ambiental
Alexandre de Oliveira Saisse
Introdução
Saúde é o resultado do equilíbrio entre um ser vivo, seu meio ambiente e os diversos agentes que possam produzir doenças. O estado de saúde de um ser vivo envolve as condições de bem-estar físico, mental ou psicológico e social.
Microbiota normal
É importante saber, na microbiologia clínica, que os animais possuem espécies de microorganismos comuns em sua microbiota. Por isso há necessidade de um perfeito conhecimento direcionado para o modelo animal a ser trabalhado.
O estado de saúde
A exteriorização do estado de saúde se dá pelo comportamento dos indivíduos de uma colônia quando se encontram isolados ou em grupos.
Conhecer as características de comportamento das diferentes espécies utilizadas em trabalhos experimentais é de grande importância para as avaliações diárias das colônias de animais. Em geral, esses animais apresentam um comportamento social bem-definido, ajudando no estabelecimento de normas para o reconhecimento de animais-problema.
Os métodos clínicos usuais para avaliar as condições de saúde de um animal ou de grupos de animais em biotério se resumem em inspeção, palpação e auscultação. Nas rotinas diárias, a inspeção é o método mais utilizado, oferecendo dados importantes na orientação de métodos de trabalho.
A atuação dos técnicos, com os grupos de animais, constitui um dos principais fatores para o sucesso de um exame laboratorial, pois ele se encarregará de visualizar, avaliar e encaminhar ao laboratório de controle todos os animais que apresentem alguma anormalidade, fazendo constar os dados do animal (idade, sexo, comportamento etc.).
Alguns fatores que podem interferir na saúde dos animais de laboratório:
ALOJAMENTO – densidade populacional, tipo de gaiola e freqüência de troca (gaiolas ou caixas). O elevado número de habitantes, a propagação de ectoparasitos e endoparasitos, bem como a disseminação de doenças respiratórias e de pele (fungos, abscessos etc.) tende a se elevar, principalmente pelo aumento da umidade e temperatura microambiente. OPERADOR – é um dos principais carreadores de contaminação para uma área de criação, por isso há necessidade de uma perfeita conscientização quanto às normas de higienização inerentes a sua área de atuação. AMBIENTE – deverá ser desinfectado freqüentemente com soluções que tenham poder bactericida, fungicida e esporocida comprovados.
TRÂNSITO DE PESSOAL – deve ser restrito aos técnicos que trabalham nas dependências da área de criação para evitar contaminações externas.
RAÇA – constitui um potencial veículo de contaminação para os animais, pois pode conter bactérias e fungos. A carência de
vitaminas e de sais minerais, essenciais à dieta alimentar, propicia o aparecimento de doenças.
Devemos observar sua qualidade e o prazo de validade, bem como realizar exames periódicos (análise centesimal e microbiológica).
ÁGUA – como a ração, necessita ser trocada constantemente, pois no ato de o animal beber ocorre uma lavagem da parte bucal (refluxo) que volta ao frasco, contaminando assim a água existente no bebedouro e podendo causar sérios problemas. ANIMAIS – a prática da quarentena e a realização dos exames (bactérias, fungos, vírus, micoplasma, ecto e endoparasitos) são indispensáveis para garantir o seu status sanitário.
Cada espécie animal criada em sala própria, com tratadores específicos, evita a disseminação de microorganismos, por vezes presentes em várias espécies.
Características sanitárias dos animais de
laboratório
Pele e Pêlos
CONDIÇÕES NORMAIS – pêlos homogêneos, brilhantes e sedosos com inserção firme; pele elástica, hidratada (úmida), cor rósea, ou característica da espécie ou linhagem. ALTERAÇÕES – deficiência alimentar, desidratação, anemias, alergias, infecções, tumores, abscessos e ectoparasitoses.
Dependendo da espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções: Straphylococcus aureus, Dermatophytes (fungos) e Pasteurella pneumotropia.
Mucosas
CONDIÇÕES NORMAIS – úmidas, brilhantes e róseas.
ALTERAÇÕES – desidratação, anemias, deficiência nutricional, verminoses, infecções, hemorragia e tumores.
Dependendo da espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções: bactérias e fungos.
Olhos
CONDIÇÕES NORMAIS – brilhantes, úmidos e vivazes. ALTERAÇÕES – inflamações, enfiações, carência nutricional, alergias e irritação.
De acordo com a espécie, podemos encontrar, como causadores dessas afecções, os seguintes microorganismos: Pasteurella pneumotropica, Salmonela enteritidis, Staphylococcus aureus e Streptococcus moniliformis.
Aparelho Auditivo
CONDIÇÕES NORMAIS – sensíveis a estímulos sonoros de intensidade variável conforme a espécie.
ALTERAÇÕES – inflamações, infecções, distúrbios neurológicos ou circulatórios.
De acordo com a espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções:
Otites interna: Mycoplasma pulmonis, Pseudomonas aeruginosa e Streptobacillus moniliformis. Otites média: cilia – associado a Bacillus respiratório –, Mycoplasma pulmonis, Pasteurella pneumotropica, Pseudomonas aeroginosa, Streptococcus pneumoniae e Streptococcus pyogenes.
Aparelho Digestivo
CONDIÇÕES NORMAIS – boca e dentição normais, lábios íntegros e úmidos, mucosa bucal e gengiva úmidas e coloração
compatível com a espécie, esôfago, estômago, intestino, fígado e pâncreas sem alterações.
ALTERAÇÕES – disfunções hormonais, avitaminoses, estresse, densidade populacional, infecções e tumores são alguns fatores que podem provocar distúrbios do trato digestivo, causando lesões na cavidade bucal, presença de diarréia ressecamento de mucosas e edemas.
De acordo com a espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções: Corynebacterium kutscheri, klebsiella pneumoniae, Mycoplasma pulmonis, Estreptobacillus piliformis e Staphylococcus aureus.
Existe uma grande variedade de microorganismos patogênicos causadores de patologias no trato digestivo. De acordo com a espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções:
Laringe, faringe e traquéia:
Mycolplasma pulmonis
Staphylococcus spp
Streptococcus pneumoniae
Corynebacterium kutscheri
Escherichia coli
Proteus spp
Fígado:
Bacillus piliformis
Corynebacterium kutscheri
Klebsiella pneumoniae
Salmonella spp
Streptococcus monilifomis
Intestino:
Bacillus piliformis
Salmonella spp
Escherichia coli
Aparelho Geniturinário
CONDIÇÕES NORMAIS – Fêmeas: aspecto morfológico das glândulas mamárias normais, vagina úmida com características próprias, sem presença de corrimento. Machos: com aspecto característico sem presença de corrimento no trato urinário. ALTERAÇÕES – disfunções hormonais, avitaminoses, estresse, densidade populacional, infecções e tumores são alguns fatores que podem provocar alterações do trato geniturinário.
De acordo com a espécie, podemos encontrar como causadores dessas afecções, os seguintes microorganismos: Corynebcterium kutscheri, Klebisiella pneumoniae, Mycoplasma pulmonis, Estreptobacillus piliformis e Staphylococcus aureus.
Aparelho Respiratório
CONDIÇÕES NORMAIS – freqüência característica da espécie, ausência de ruídos anormais (ronqueira ou chiado), espirros, tosse e corrimento nasal.
ALTERAÇÕES – irritação causada por poeira ou gases, infecções, pneumonia, bronquites, verminoses, alteração na capacidade respiratória, espirros, tosse e presença de corrimento nasal.
De acordo com a espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções: Cilia –associado a Bacillus respiratório –, Corynebacterium kutscheri, Mycolplasma pulmonis, Streptococcus pneumoniae, Bordetella sp e Pasteurella sp.
Aparelho Circulatório
CONDIÇÕES NORMAIS – freqüência característica da espécie, coloração normal de mucosas, ausência de edemas, sobretudo nas extremidades.
ALTERAÇÕES – desidratação, hemorragia, verminoses, malformação, infecções por vezes generalizadas, dificuldades de respiração, alteração da freqüência respiratória e edemas.
De acordo com a espécie, podemos encontrar como microorganismos causadores dessas afecções: Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus spp, Klebsiella pneumoniae, Mycoplasma pulmonis e Bacillus piliformis.
Sistema Nervoso
CONDIÇÕES NORMAIS – cérebro, cerebelo, medula, gânglios e nervos sem alterações morfológicas.
ALTERAÇÕES – provocadas por bactéria ou vírus que comprometem direta ou indiretamente o sistema nervoso. Determinam incoordenação de movimentos, dificuldade visual, febre, apatia, perda de consciência, convulsões, paralisia, processos dolorosos ou parestesias, coma e morte. Podemos também constatar o aparecimento de células tumorais e verminoses com comprometimento do sistema nervoso.
De acordo com a espécie, podemos encontrar, como causadores dessas afecções, os seguintes microorganismos: Streptococcus pneumoniae, klebsiella pneumoneae e uma variedade de viroses.
Como a relação dos sistemas ou aparelhos referidos não é isolada – existindo uma inter-relação fisiológica entre eles –, as diversas patologias se refletem de uns aos outros, evidenciando manifestações associadas.
Como rotina, são realizados exames de monitoramento, tais como:
necropsia;
histopatologia das lesões;
levantamento de ectoparasitos;
levantamento de endoparasitos;
sorologia;
levantamento bacteriológico.
Em pesquisa bacteriológica:
Coelhos: Salmonella
Bordetella
Pasteurella
Cobaia: Salmonella
Bordetella
Hamster: Salmonella
Rato: Bordetella
Pasteurella
Mycoplasma
Camundongo: Mycoplasma
Salmonella
Controle de áreas biolimpas
O controle de áreas biolimpas começa com princípios que propiciam condições favoráveis para manutenção dessas áreas, onde são criados e mantidos os animais de laboratório.
Para que tal processo seja eficiente, é necessário que todas as etapas sejam normatizadas, para um melhor acompanhamento dos responsáveis técnicos, uma vez que o controle de tais áreas depende de um trabalho conjunto (envolvendo os técnicos da criação e os do laboratório de controle da qualidade animal).
Uma vez traçadas as diretrizes, a operacionalização é imediata. O principal objetivo é identificar pontos de possíveis veículos de contaminação, que podem ser carreados para o interior das áreas limpas.
Com base nessa etapa, avaliar qual o melhor método de verificação e acompanhamento desses pontos.
Coletamos amostras em pontos de difícil limpeza, como também dos tratadores (técnicos) e ainda de todos os locais de maior atuação dos mesmos. O tratador é um dos principais agentes veiculadores de contaminação, caso não sejam cumpridas as normas de higiene estabelecidas.
Como exemplo, temos:
canto das paredes;
lâmpadas;
maçanetas;
estantes;
roupas;
parede;
luvas;
dutos de ar (filtros).
Os materiais são coletados com swabs estéreis e enviados ao laboratório e acondicionados em caldo nutriente. Posteriormente, são plaqueados em agar sangue e agar Mac Conkey. Em determinadas ocasiões, quando necessitamos obter informações sobre a eficiência da lavagem das salas, realizada pelo técnico, bem como da eficácia do desinfetante, coletamos amostras (swabs) dos pontos onde foram lavados. Na próxima etapa, introduziremos os swabs em caldo Letheen, que se encarregará de inativar o poder residual do desinfetante e o conseqüente crescimento de microorganismos que, provavelmente, permanecem na forma de esporo. Por fim, plaquear nos meios de phenil ethil e Mac Conkey.
A manutenção das rotinas de higiene nas colônias de criação de animais de laboratório é, sem dúvida, um dos pontos de maior importância para o sucesso de uma criação ou de um experimento.
Deve-se cuidar de todos os materiais que entram na colônia, além da ração e água, para que o trabalho não seja perdido em qualquer etapa.
Todos os estágios de limpeza em um biotério, como troca de gaiolas, limpeza de estantes etc., geram aerossóis que podem conter bactérias; por isso, todo material deve ser limpo fora da área bioprotegida.
Bibliografia
CARTER, G. R. & COLE JÚNIOR, J. R. Diagnostic Procedures in Veterinary Bacteriology and Micology th . 5 ed. San Diego: Academic Press, 1990.
DE LUCA, R. R. et al. Manual para Técnicos em Bioterismo. 2.ed. São Paulo: Winner Graph, 1996.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Companion Guide to Infectious Diseases of Mice and Rats. Washington, D.C.: National Academy Press, 1991.
WAGGIE, K. et al. Manual of Microbiologic Monitoring of Laboratory Animals. Washington, D.C.: NIH Publication, 1994.