Animais de laboratório: criação e experimentação
30. Eutanásia
Celia Virginia Pereira Cardoso
Introdução
Por definição, eutanásia significa morte sem dor ou sofrimento (do grego euthanasia – a morte bela ou feliz). Diversas técnicas são preconizadas com tal objetivo. Elas devem preencher, sempre que possível, os seguintes requisitos:
serem humanitárias, não causando terror ou sofrimento ao animal;
não impressionar ou sensibilizar as pessoas que assistem ao ato;
ter um tempo mínimo para a perda da consciência; não produzir alterações que prejudiquem a interpretação das lesões;
ser um método de fácil aplicação, ação rápida e baixo custo; não ocorrer de o sangue se espalhar pelo local, evitando-se, dessa forma, contaminações que possam propiciar disseminação de doenças infecto-contagiosas; não oferecer perigo ao profissional que o execute.
Seja qual for o método eleito para se praticar a eutanásia, ele deve sempre ser executado por profissional habilitado ou por técnicos treinados e sob supervisão.
O local onde se realizará a eutanásia deve ser afastado e separado de salas ou alojamentos de outros animais.
Outro procedimento importante é a avaliação da dor e do estresse a que o animal está submetido. Para isso, é indispensável que o profissional responsável pela eutanásia conheça o comportamento do animal e suas respostas fisiológicas.
Sintomas de ansiedade e medo no animal consciente podem ser expressos da seguinte forma: vocalização angustiada; agitação; ações defensivas; tentativas de fuga; tremores musculares; dilatação da pupila; salivação intensa; micção e defecação involuntárias; sudorese e aumento das freqüências respiratória e cardíaca. Porém, nos processos de eutanásia, esses sintomas poderão estar associados àqueles produzidos pela indução de anestésicos, quando são observados o delírio, a excitação ou a inibição de atividades. Assim, é necessário medirmos o grau de inconsciência do animal por meio da ausência dos reflexos palpebrais ou por meio do eletroencefalograma.
Considerando a condição dos biotérios, onde se busca uma maior produtividade com menor custo possível, o descarte de animais indesejáveis ao plantel é necessário. A eutanásia é empregada nos animais doentes, fora do padrão genético e/ou sanitário, mutilados devido a brigas, com defeitos físicos, em fase final da vida reprodutiva, idosos ou, ainda, quando proliferam em excesso.
Métodos para eutanásia
Físicos
Utilizados quando outros métodos podem invalidar uma determinada informação ou pesquisa, principalmente aquelas relacionadas com a bioquímica do animal.
Para animais de laboratório convencionais, os métodos físicos mais indicados são:
DESLOCAMENTO CERVICAL – praticados em camundongos,
ratos e outras espécies pequenas. É um procedimento rápido
que consiste no rompimento da medula espinhal do animal e
conseqüente perda total de sensibilidade e morte. A técnica se Químicos
resume em segurar a cauda do animal com uma das mãos e
com a outra apoiar uma pinça de dissecção, ou objeto similar,
transversalmente sobre sua região cervical (pescoço). A seguir,
pressiona-se firmemente a pinça para baixo e para frente,
empurrando a cabeça do animal, enquanto, simultaneamente,
traciona-se a cauda em sentido oposto para trás. Um
espaçamento de 2 mm a 4 mm entre o côndilo occipital e a
primeira vértebra cervical torna-se palpável após o
descolamento. Ainda podemos observar alguma atividade
muscular, por alguns segundos, mas trata-se apenas de
movimentos reflexos, pois a perda total de sensação dolorosa e
a morte são imediatas.
TRAUMATISMO CRANIANO – praticado principalmente em
coelhos, cobaias e ratos. É uma prática esteticamente
desagradável e deve ser evitada diante de observadores
casuais. Consiste em aplicar um golpe na base do crânio com
força suficiente para produzir depressão do sistema nervoso
central. Esse procedimento deve ser realizado por profissionais
capacitados, de modo a propiciar a imediata e total perda da
consciência e a insensibilidade à dor. Subseqüentemente, os
principais vasos sangüíneos devem ser seccionados, o tórax
aberto e o músculo cardíaco incisado. Quando utilizarmos esse
método em coelhos, o golpe deve ser aplicado com o auxílio de
um bastão de madeira e o animal deve estar suspenso pelos
membros posteriores e com o corpo distendido.
DECAPITAÇÃO – praticado em camundongos, ratos e outras
espécies pequenas. É também uma prática esteticamente
desagradável, mas tem efeito similar a uma injeção intravenosa
de barbitúrico. Pode ser realizada com o auxílio de tesoura ou
de equipamento mais apropriado, a guilhotina. Provoca a morte
instantânea com imediata perda de reflexos e nivelamento da
eletroencefalografia. Vale salientar que o sangue coletado após
a decapitação apresenta-se freqüentemente contaminado por
secreções salivares e respiratórias.
EXANGUINAÇÃO – praticado em todos os roedores e nos
coelhos. Freqüentemente utilizado para obtenção de soro
hiperimune. Os animais devem ser previamente sedados ou
anestesiados, pois pode se observar inquietação associada à
hipovolemia. Caso não seja possível esse procedimento prévio,
devido à interferência indesejáveis das drogas, a eutanásia
deve ser realizada por profissionais bem treinados. A técnica
consiste em realizar uma punção cardíaca ou de vasos
sangüíneos de grande calibre até se obter a sangria total.
Para animais não-convencionais de laboratório, vale ressaltar que é recomendado a administração de tranqüilizantes em espécies como: cães, gatos, primatas não-humanos e outras, de médio e grande porte, antes da aplicação de qualquer método de eutanásia. Para esses tipos de animais, os métodos físicos mais indicados são:
TIRO POR ARMA DE FOGO – o método exige, por motivos
óbvios, cuidados por parte do profissional responsável. É
indicado apenas para grandes animais. O tiro deve ser dado
com armas de calibre 20 ou 22 e desfechado na região frontal,
linha compreendida entre os olhos e a base das orelhas,
circunstância em que o projétil atinge diretamente o encéfalo e
provoca imediata insensibilidade e morte do animal. A
colocação de vendas em cavalos proporciona melhor
imobilidade da cabeça do animal.
ELETROCUSSÃO – é uma prática de pouca aplicabilidade por
exigir o emprego de equipamento especial. Deve ser
acentuado, no entanto, que a corrente comum de 110 volts se
presta bem para a eutanásia. Geralmente, esse método é
utilizado para sacrifício de peixes e répteis, não sendo
recomendado para gatos. O processo ocorre em duas fases: a
administração do primeiro choque, que passa através do
cérebro e produz a depressão do sistema nervoso central, e o
segundo choque, que provoca a fibrilação do coração e o
conseqüente bloqueio do suprimento de sangue (O ) para o 2
cérebro.
São os métodos de melhor resolução e mais estéticos, não causando traumas aparentes ao animal.
Podem ser utilizados através de agentes farmacológicos inalantes e não-inalantes. Dentre eles, os mais recomendados estão descritos a seguir.
Agentes Farmacológicos Inalantes
ANESTÉSICOS INALANTES – incluem o éter, o clorofórmio, o
halotano e o metoxiflurano. O éter provoca irritação de mucosas
das vias respiratórias, induz à salivação excessiva e aumenta a
secreção brônquica. Ele determina parada respiratória e o
animal deve ser mantido sob o efeito anestésico por mais
alguns minutos para confirmação de sua morte. Por ser
altamente inflamável, a utilização do éter requer cuidados
especiais quando do destino da carcaça animal, pois ele
continua se volatilizando, podendo causar algum acidente. O
clorofórmio não deve mais ser utilizado, já que estão
comprovados os seus efeitos tóxicos sobre o fígado, rins e
gônadas masculinas dos animais, e ainda pelo fato de ser
carcinogênico para o homem. O halotano e o metoxiflurano são
muito caros e exigem equipamento apropriado na sua aplicação
para evitar desperdício e contaminação do ambiente, além da
necessidade de um tempo mais prolongado para realização da
eutanásia.
GASES NÃO-ANESTÉSICOS – incluem o monóxido e o dióxido
de carbono, o nitrogênio e o cianeto. Dos quatro gases o
dióxido de carbono é o mais utilizado e o cianeto é
extremamente tóxico e fatal, não sendo recomendado o seu uso
em laboratórios. O CO não é inflamável nem explosivo e por 2
isso se torna mais seguro, desde que aplicado com
equipamento apropriado; é de baixo custo e deve ser utilizado
preferencialmente com a adição de 30% de oxigênio (O ) para 2
reduzir a ansiedade decorrente do desconforto da hipoxia,
durante a fase de indução da eutanásia nos animais. A
utilização de uma câmara hermeticamente fechada, com a
entrada do gás localizada na parte superior, facilita o sacrifício.
Principalmente porque o CO é uma vez e meia mais pesado 2
do que o ar e se concentra na parte inferior do ambiente. A
ação do CO é rápida e tem ação letal por provocar depressão 2
no sistema nervoso central. Como no uso do éter, o animal
deve ser mantido por mais alguns minutos na câmara para
confirmação de sua morte.
Agentes Farmacológicos Não-Inalantes
PENTOBARBITAL SÓDICO E DERIVADOS – são os mais
utilizados e constituem o melhor método de eutanásia. A via de
administração de eleição é a endovenosa porque proporciona a
morte do animal mais rapidamente. Caso outras vias sejam
utilizadas, verifica-se um retardo de tempo do efeito anestésico
da droga e, conseqüentemente, do tempo para realização da
eutanásia. Recomenda-se o dobro ou o triplo da dose
anestésica para se obter êxito total na prática. Depois do
sacrifício, que dura em média 15 minutos, deve-se realizar um
exame cuidadoso do animal para constatar a sua total parada
respiratória e morte.
HIDRATO DE CLORAL E CETAMINA – ambos são anestésicos
dissociativos e, por isso, quando administrados, e já no estado
de anestesia, são mantidos os reflexos oculares. A cetamina
tem ainda excelente resultado quando combinada com outras
drogas, tais como a xilazina e os benzodiazepínicos. Como no
uso dos barbitúricos, após a sua aplicação em overdose, deve-
se constatar a morte do animal.
Quadro 1 – Eutanásia: métodos físicos
A – aceitável NR – não recomendado
* Espécies de macaco de pequeno porte. Ex.: calithrix, saimirí.
Quadro 2 – Eutanásia: métodos químicos – gases inalantes*
Az – aceitável NR – não recomendado
* Empregado com o auxílio de uma câmara hermeticamente fechada
para que o operador não corra perigo.
Quadro 3 – Eutanásia: métodos químicos – agentes farmacológicos
não-inalantes
A – aceitável NR – não recomendado
OV – overdose IP – intraperitonial
EV – endovenosa IM – intramuscular
Bibliografia
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