Animais de laboratório: criação e experimentação

22. Marsupiais didelfídeos: gambás e cuícas

22. Marsupiais didelfídeos: gambás e

cuícas

 

Ana Maria Jansen

 

Introdução

Marsupiais têm despertado vivo interesse na cultura ocidental desde que Vicente Pinzón presenteou uma fêmea de gambá aos reis católicos da Espanha. O vocábulo gambá deriva do tupi-guarani e significa ‘ventre aberto’, ou seja, foi o modo de reprodução que chamou a atenção dos povos pré-coloniais.

A ordem Marsupialia inclui aproximadamente 90 espécies em 11 famílias; predominam na Austrália, onde o relativo isolamento permitiu que ocupassem os nichos ecológicos que em outros continentes são ocupados por dezenas ou mais ordens de placentários. Embora a bolsa marsupial seja o traço referido como característico da ordem, é o trato urogenital que distingue mais significativamente os marsupiais dos demais mamíferos.

Em todos os marsupiais, os dutos urinários passam no meio dos dutos genitais, enquanto nos eutérios estes passam lateralmente. As fêmeas marsupiais apresentam duas vaginas laterais que se unem formando uma vagina mediana. No parto, forma-se um canal de passagem para o feto no tecido conjuntivo entre a vagina mediana e o sinus urogenital. Na maioria dos marsupiais esse canal é transitório e será novamente formado em cada novo parto.

A taxa metabólica dos marsupiais é mais baixa em comparação com a dos placentários e a temperatura corporal média é de 35 °C. Ao nascer, um feto marsupial não controla a temperatura corporal – esta coincide com o início da função tireoidiana na metade do período de dependência do marsúpio dos animais. A hibernação não é observada em marsupiais e a resposta a temperaturas altas é caracterizada por aumento da salivação e lambeção dos membros anteriores, transpiração abundante em algumas espécies, polipnéia e aumento da ingestão de água. A maioria dos marsupiais limita a atividade durante o dia.

 

A família didelphidae: o gambá didelphis

marsupialis

A família Didelphidae, de ampla distribuição nas Américas e representante do grupo mais antigo de marsupiais (Cretáceo superior), é provavelmente autóctone da América do Sul (Reig, 1961). O gênero Didelphis ocorre desde o sudeste do Canadá ao sudeste da Argentina, sendo o gênero Marsupial com maior dispersão no mundo (Austad, 1988). As espécies D. marsupialis e D. aurita ocorrem em matas úmidas tropicais encontradas do sul do México ao norte da Argentina.

Até bem pouco tempo, os marsupiais eram tidos como ‘mamíferos inferiores’, um elo evolutivo entre ovíparos mamaliformes e vivíparos placentários. Atualmente, sabe-se que as semelhanças entre metatérios e eutérios é muito grande, sendo a característica diferencial seu modo de reprodução: o tempo de geração mais curto – 12 a 13 dias – e a parição de indivíduos quase em estágio embrionário nos metatérios. Um filhote de marsupial pesa 0,01% a 0,05% do peso materno, em contraste com um filhote de placentário que pesa 2% a 3%.

Marsupiais podem ser considerados como um placentário imaturo que dependerá, para o seu desenvolvimento, das condições de ‘incubação’ do marsúpio. Os marsupiais são considerados amniotas, com saco vitelínico bem desenvolvido, formando, durante a gestação, um tipo de ‘placenta’ córion-vitelínica coberta por uma membrana cornificada e avascular – envoltório significativamente diferente da placenta córion-alantóide, característica dos eutérios.

A intimidade de um feto marsupial com os tecidos maternos é, portanto, muito menor. Essa intimidade passa a ser importante durante o longo período de lactação. Os filhotes de gambá permanecem, durante os primeiros 55 dias de vida, ligados ao mamilo que alcança o estômago dos neonatos. Somente a partir de então, os filhotes, agora com a boca inteiramente diferenciada, começam a se soltar do mamilo por alguns momentos e a ‘explorar’ o meio externo. Nessa época, iniciam a experimentar os alimentos que se colocam nas gaiolas.

O aleitamento prossegue até o centésimo dia, com a gradativa independência dos filhotes. A pigmentação das orelhas em D. marsupialis é um bom marcador dessa fase e mostra para o bioterista que está na hora de separar os filhotes da mãe, caso contrário acabam por matá-la e devorá-la. É possível deixar apenas um filhote com a mãe durante mais tempo. Um dos recursos comumente usado é fazer rodízio dos filhotes: mantém-se um filhote, ou no máximo dois, por períodos de 24 horas. Esse é um recurso que deve ser cuidadosamente acompanhado para evitar que os filhotes agridam a mãe, e é utilizado quando as ninhadas são pouco robustas. Logo após serem apartados da mãe, é aconselhável colocá-los individualmente em caixas para ratos contendo maravalha no fundo. Nessas caixas devem permanecer até atingirem o peso de, no máximo, 180 g – 200 g, quando então devem ser colocados nas gaiolas mencionadas.

A taxa de crescimento de um marsupial é comparável a dos placentários se o primeiro período de evolução no marsúpio for considerado como período fetal e não pós-natal. A maturidade sexual acontece aproximadamente aos oito meses e a expectativa de vida em cativeiro oscila entre 2 a 4 anos.

 

Reprodução e manutenção em cativeiro

Didelfídeos devem ser mantidos em gaiolas individuais, salvo durante o curto período de corte e acasalamento, do contrário brigam. Vale mencionar que gambás são nômades e solitários. Didelphis marsupialis se mantém muito bem em gaiolas de 80 x 80 x 80 cm; philander opossum pode ser mantido em gaiolas convencionais de coelhos.

Caixas pequenas para abrigar os animais durante o dia são imprescindíveis, assim como também os suportes para aumentar a área de atividade. No biotério de marsupiais do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), resolvemos esse tipo de problema colocando escadas de madeira dentro dos recintos. O fundo de um galão de plástico pode ser utilizado como abrigo, uma vez que é resistente e facilmente lavável. Caixas de papelão também são indicadas. Vale lembrar que gambás destroem rapidamente essas caixas, as quais têm de ser recicladas com freqüência.

Sempre que possível, deve-se pintar os abrigos de preto para bloquear melhor a incidência de luz. O recinto deve ter ar-condicionado – didelfídeos, sobretudo jovens recém-desmamados, suportam mal as altas temperaturas do verão. Água pode ser oferecida em mamadeiras convencionais, mas o ideal seria a colocação de vasilhames que devem ser limpos diariamente (o hábito de defecação em vasilhas de água é comum nos didelfídeos mantidos em gaiolas). O arame galvanizado a ser usado para a confecção das gaiolas deve ser grosso e o chão da gaiola deve ser liso, para com isso evitar a formação de ulcerações nas patas e na cauda; as faces laterais devem ser forradas para evitar o contato direto entre animais contíguos. As lesões decorrentes de briga e/ou contato constante com malha de arame freqüentemente infectam e se tornam, às vezes, difíceis de tratar.

Embora sejam poliestros, consideramos o período entre julho e janeiro a estação reprodutiva dos didelfídeos. O ciclo estral é de aproximadamente 30 dias e a cópula restringe-se a 1 ou 2 dias antes da ovulação, mas o esperma não sobrevive mais do que um dia. Pareamento de espermatozóides foi descrito no gênero Didelphis. A alta eficiência reprodutiva de gambás é explicada, entre outros, pela capacidade de controlar o sexo da prole. Essa característica poderia esclarecer a sua adaptação às diferentes condições ecológicas, bem como as adaptações necessárias para a eficiente competição com os placentários.

O período de gestação nos didelfídeos é de aproximadamente 13 dias e problemas obstétricos não são relatados. Ao nascer, os gambás não apresentam imunoglobulinas – estas, de origem materna, aparecem a partir das primeiras horas pós-parto.

Um filhote marsupial é surdo e cego; suas patas traseiras e cauda são vestigiais. As patas dianteiras, precocemente desenvolvidas, são equipadas de unhas decíduas que auxiliam o neonato em sua escalada para o marsúpio, o que acontece sem o auxílio materno. Normalmente nasce um número bem maior de filhotes (aproximadamente 22) do que o de tetas (13), porém, no máximo 10 sobrevivem.

Durante os primeiros 55 dias de vida, a boca ainda indiferenciada dos filhotes está selada ao mamilo. A partir de então, começam a se tornar independentes, passando períodos cada vez maiores fora do marsúpio. Com 80 dias, o sistema imune está maduro e com 100 dias os filhotes devem ser separados em gaiolas individuais, do contrário, devorarão a mãe. A pigmentação da orelha, no caso de D. marsupialis, é um bom marcador para tal. Uma fêmea Didelphidae investe cerca de 112 dias para criar uma ninhada – da concepção ao desmame. Embora esse período pareça muito longo, vale lembrar que após o desmame os filhotes são inteiramente independentes, o que permitirá duas ou até três ninhadas anuais.

Em nosso biotério, iniciamos o acasalamento no mês de julho. Uma fêmea ladeada por dois machos é colocada individualmente em recintos especialmente destinado a corte e acasalamento dos animais. Tais recintos medem 1,5 m x 1,5 m e são interconectáveis por portinholas, de modo a permitir o livre trânsito dos animais. Aparentemente a fêmea faz sua escolha, que pode ser comprovada pelo fato de o casal passar a usar o mesmo abrigo para dormir durante o dia. Normalmente, permitimos que o par permaneça no mesmo recinto por três dias. O pareamento, portanto, deve ser testado pela observação cuidadosa.

Nunca observamos resposta do tipo afetiva em marsupiais, mas se mantidos em boas condições, após a adaptação em cativeiro, tendem a ser pouco agressivos e facilmente manejáveis.

 

Transporte

Marsupiais devem ser transportados individualmente, ao abrigo da luz, com ventilação e protegidos de ruídos o quanto possível.

 

Nutrição

Didelfídeos apresentam uma dentição não especializada, o que lhes confere extrema versatilidade alimentar. Aceitam frutas, pequenos vertebrados, ovos, ração industrializada, insetos, entre outros. As necessidades nutricionais exatas nunca foram estabelecidas para esse modelo animal; Jurgelski (1974) preconiza oferecer 180 g/animal de uma mistura resultante da homogeneização de 5 kg de ração seca para gatos + 1,5 kg de fígado bovino em 10 litros de água. Fêmeas com filhotes e animais recém-desmamados devem receber o dobro, enquanto aos demais não deve ser permitido alimentar-se ad libitum, para evitar a obesidade. Em nosso biotério, oferecemos uma laranja, duas bananas, 80 g de ração seca para cães/animal adultos. Fêmeas com filhotes e animais recém-desmamados recebem uma suplementação de 100 g de ração úmida (prensado de carne de aves).

 

Manejo

CONTENÇÃO MECÂNICA – como os didelfídeos procuram

abrigo durante o dia, em cativeiro, facilmente podem ser

capturados pela cauda e imobilizados pela nuca após permitir

que eles se fixem com as unhas sobre algum substrato. Mantê-

los ligeiramente contidos evita unhadas na mão que está

imobilizando a nuca.

CONTENÇÃO QUÍMICA – 20 mg/kg – 30 mg/kg de peso de

cloridrato de ketamina permitem 20 minutos de contenção

segura. Anestesias freqüentes resultam na necessidade do

aumento da droga.

COLETA DE SANGUE – pela veia marginal da cauda e femural.

A punção intracardíaca permite a coleta de uma amostra maior

de sangue.

 

Doenças

Os seguintes parasitas podem ser encontrados em gambás: Trypanosoma cruzi, T. rangeli, T. freitasi, Leishmania chagasi, L. brasiliensis, Babesia sp, Physaloptera sp, Capillaria sp, Gnathostoma sp, Acantocephala sp, Paragonimus sp. Destes, Phisaloptera sp é considerado o único potencialmente virulento, sendo recomendável a vermifugação dos animais infectados. Gambás e cuícas são extremamente resistentes ao veneno das cobras do Novo Mundo, o que significa, além de mecanismo de escape de um predador, uma fonte alimentar alternativa. Mais ainda, suportam o parasitismo por protozoários dos gêneros Leishmania e Trypanosoma, sem danos importantes. São capazes de responder com altos títulos sorológicos aos antígenos de T. cruzi – vale mencionar que gambás mantêm os dois ciclos de multiplicação do T. cruzi: o parasita se multiplica na forma epimastigota na luz das glândulas de cheiro e também como amastigota intracelular em diversos tecidos. Isso quer dizer que o gambá pode, ao mesmo tempo, ser reservatório e vetor do T. cruzi.

A enorme distribuição dos didelfídeos nas Américas se deve principalmente a sua impressionante adaptabilidade. A resistência ao endocruzamento é outro fator favorável à dispersão da espécie, na medida em que apenas um pequeno número de animais é necessário para fundar uma colônia. Apesar de portarem um cérebro descrito como menor do que o dos mamíferos placentários, quando testados comparativamente a cães, gatos, coelhos e cabras, quanto à capacidade de memorizar locais onde podiam encontrar alimentos, os gambás apresentaram o desempenho mais alto.

A divergência entre marsupiais e placentários data de, aproximadamente, 100 milhões de anos. A origem dos marsupiais é discutível. Alguns grupos postulam sua origem na América do Norte, onde teriam sido extintos há 15 milhões de anos enquanto continuavam a se dispersar na América do Sul, chegando até a Austrália, onde, por falta de competidores, aconteceu sua enorme diversificação.

A família Didelphidae conta, atualmente, com mais de 70 espécies distribuídas pelas Américas. O gênero Didelphis, encontrado desde o Canadá até a Argentina, é um dos gêneros de mamíferos de mais ampla distribuição nas Américas e inclui quatro espécies: D. marsupialis, D. aurita, D. albiventris e D. virginiana, possivelmente a espécie mais recente e encontrada apenas nos Estados Unidos. Os registros fósseis mais antigos do gênero datam de 4 milhões de anos. Sugere-se, também, que o ressurgimento da ponte terrestre que liga as Américas resultou na colonização do México pelo D. marsupialis.

A interação do homem com gambás é antiga: de fato, esses animais resistem bem à ação antrópica no meio ambiente, adaptam-se aos forros das casas, ocos de árvores e outros abrigos; sobrevivem bem ‘pilhando’ restos alimentares do homem. Este, freqüentemente os utiliza como fonte de proteínas. Atualmente, a tendência é de considerá-los como sinantrópicos. E mais, são os únicos mamíferos que permanecem em áreas muito devastadas.

Popularmente bastante desconsiderados na atualidade, os didelfídeos, por suas peculiaridades, oferecem possibilidades únicas de estudos ecológicos, evolutivos e biológicos, sendo, portanto, um interessante modelo animal.

Quadro 1 – Principais marsupiais do Brasil com suas características,

nomes populares e localização

Quadro 1 – Principais marsupiais do Brasil com suas características,

nomes populares e localização (continuação)

 

Fonte: Ordem Didelphimorphia (Occasional Papers in Conservation

Biology Conservation International & Fundação Biodiversitas

occasional paper n° 4/1996).

Legenda:

FO = Frugívoro/Onívoro MA = Mata Atlântica

IO = Insetívoro/Onívoro Am = Amazônia

PS = Piscívoro Ce = Cerrado

AR = Arborívoro Ca = Caatinga

SC = Escansorialívoro Pa = Pantanal

TE = Terrestreívoro Cs = Campos do Sul

 

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