Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 6 de 8 · parte 3/3

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Anjos e Demônios

- . . . minha cinegrafista conseguiu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Silêncio.

- A ciência pode ter aliviado os sofrimentos das doenças e dos trabalhos enfadonhos e fatigantes, pode ter proporcionado uma série de aparelhos engenhosos para nossa conveniência e distração, mas deixou-nos em um mundo sem deslumbramento. Nossos crepúsculos foram reduzidos a comprimentos de ondas e freqüências. As complexidades do universo foram desmembradas em equações matemáticas. Até o nosso amor-próprio de seres humanos foi destruído. A ciência proclama que o planeta Terra e seus habitantes são um cisco insignificante no grande plano. Um acidente cósmico - e aqui o camerlengo fez uma pausa. - Até a tecnologia que promete nos unir, ao contrário, só nos divide. Cada um de nós está hoje eletronicamente conectado ao globo inteiro e, entretanto, todos nos sentimos sós. Somos bombardeados pela violência, pela divisão, pela desintegração e pela traição. O ceticismo passou a ser uma virtude. O cinismo e a exigência de provas para tudo converteram-se em pensamento esclarecido. Alguém ainda se admira que as pessoas hoje se sintam mais deprimidas e derrotadas do que em qualquer outra ocasião da história do homem? Será que existe alguma coisa que a ciência considere sagrada? A ciência procura respostas usando fetos não-nascidos como material de pesquisa. A ciência até se atreve a reorganizar nosso DNA. Despedaça o mundo de Deus em parcelas cada vez menores em busca de significados e só encontra mais perguntas.

Mortati assistia a tudo cheio de assombro. O camerlengo falava de modo quase hipnótico agora. Possuía um vigor físico nos movimentos e na voz que Mortati jamais presenciara em um altar do Vaticano. Suas palavras vinham impregnadas de convicção e de tristeza.

- A velha guerra entre a ciência e a religião está encerrada - disse o camerlengo. - Vocês venceram. Mas não venceram honestamente. Não venceram fornecendo respostas. Venceram redirecionando nossa sociedade de modo tão radical que as verdades que outrora víamos como diretrizes agora parecem inaplicáveis. A religião não tem capacidade para acompanhar isto. O crescimento científico é exponencial. Alimenta-se de si mesmo como um vírus. Cada novo avanço abre caminho para outros novos avanços. A humanidade levou milhares de anos para evoluir da roda para o carro. E apenas décadas do carro para o espaço.

Atualmente, calculamos por semana o progresso científico. Estamos girando fora de controle, O abismo entre nós se aprofunda sem parar e, à medida que a religião vai ficando para trás, as pessoas se vêem em um vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. E, acreditem, imploramos de fato. Vemos OVNIS, freqüentamos médiuns, buscamos contato com os espíritos, experiências extracorpóreas, uso do poder mental - todas essas idéias excêntricas têm um verniz científico, mas são descaradamente irracionais. São o grito desesperado da alma moderna, solitária e atormentada, deformada por seu próprio esclarecimento e por sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha à tecnologia.

Mortati reparou que, involuntariamente, se inclinara para a frente em seu assento. Ele, os outros cardeais e gente do mundo inteiro estavam presos a cada palavra daquele padre. O camerlengo falava sem empregar qualquer retórica ou virulência. Não fazia referências à Bíblia ou a Jesus Cristo. Usava termos modernos, sem enfeites, despojados. De certa forma, como se as palavras fluíssem do próprio Deus, ele utilizava uma linguagem moderna para transmitir a mensagem antiga. Naquela hora, Mortati entendeu uma das razões por que o falecido Papa apreciava tanto aquele moço. Em um mundo de apatia, cinismo e deificação tecnológica, homens como o camerlengo, realistas que sabiam falar às nossas almas como ele acabara de fazer, eram a única esperança da Igreja.

O tom do camerlengo ficou mais veemente.

- A ciência, dizem vocês, vai nos salvar. A ciência, digo eu, nos destruiu. Desde o tempo de Galileu, a Igreja vem tentando diminuir o ritmo da marcha implacável da ciência, às vezes por meios equivocados, mas sempre com intenções benéficas. Ainda assim, as tentações são grandes demais para o homem resistir. Previno-os, olhem em torno de si. As promessas da ciência não foram mantidas. As promessas de eficiência e simplicidade resultaram somente em poluição e caos. Somos uma espécie despedaçada e frenética, seguindo um caminho que leva à destruição.

O camerlengo fez uma pausa prolongada e então olhou para a câmera com uma expressão penetrante.

- Quem é esse deus-ciência? Quem é esse deus que oferece poder a seu povo, mas nenhuma estrutura moral para lhe dizer como usar este poder? Que tipo de deus dá fogo a uma criança, mas não a avisa sobre seus perigos? A linguagem da ciência não vem com diretrizes sobre o bem e o mal. Os livros científicos explicam-nos como criar uma reação nuclear, mas não têm nenhum capítulo discutindo se é uma boa ou má idéia.

- À ciência, quero dizer o seguinte: a Igreja está cansada. Estamos exaustos de tanto tentar ser uma diretriz para o mundo. Nossos recursos estão esgotados por sermos a voz do equilíbrio enquanto vocês se atiram de cabeça em sua busca por chips menores e lucros maiores. Nem perguntamos por que vocês não se controlam, pois como poderiam? Seu mundo anda tão depressa que, se pararem por um instante que seja para refletir sobre as implicações de seus atos, alguém mais eficiente pode ultrapassá-los em um piscar de olhos. Por isso, vocês vão em frente. Promovem o aumento das armas de destruição em massa, mas é o Papa quem tem de viajar pelo mundo suplicando aos líderes que tenham prudência. Clonam criaturas vivas, mas é a Igreja que em de lembrar a necessidade de considerarmos as implicações morais de nossos atos. Incentivam as pessoas a interagir através de telefones, telas de vídeo e computadores, mas é a Igreja que abre suas portas e nos lembra de comungar aqui, no mundo real, que é como se deve fazer. Vocês até matam bebês que ainda não nasceram em nome de pesquisas que salvarão vidas. Mais uma vez, cabe à Igreja comprovar a falácia de tal raciocínio.

- E, o tempo todo, vocês proclamam que a Igreja é ignorante. Quem é mais ignorante, porém? O homem que não sabe definir o raio que cai durante um temporal ou o que não respeita seu poder admirável? Esta igreja está tentando chegar a vocês. Está tentando chegar a todas as pessoas. E, todavia, quanto mais tentamos, mais vocês nos repelem. Mostrem-nos uma prova da existência de Deus, dizem vocês. E eu respondo, usem seus telescópios para olhar o céu e me digam como é possível não haver um Deus! - O camerlengo tinha lágrimas nos olhos. - Vocês perguntam com que Deus se parece, e eu, por minha vez, pergunto também: de onde vem essa pergunta? A resposta é uma só, a resposta é a mesma. Não vêem Deus em sua ciência? Como podem deixar de vê-Lo! Vocês proclamam que a menor alteração na força da gravidade ou no peso de um átomo teria convertido nosso universo em uma névoa sem vida em vez do magnífico mar de corpos celestes que contemplamos, e ainda assim deixam de ver a mão de Deus nisso? Será que é mesmo tão mais fácil acreditar que escolhemos a carta certa em um baralho em que há bilhões delas? Será que estamos tão falidos espiritualmente que preferimos acreditar numa impossibilidade matemática e não em um poder maior do que nós?

- Se vocês acreditam em Deus ou não - disse o camerlengo, a voz mais grave e carregada de deliberação -, têm de acreditar nisto: quando nós, como espécie, abandonamos a confiança em um poder maior do que nós, abandonamos também nossa noção da obrigatoriedade de prestar contas. A fé, todas as formas de fé, são advertências de que existe algo que não podemos compreender, algo a que temos de responder. Com fé, prestamos contas uns aos outros, a nós mesmos e a uma verdade maior. A religião é falha, mas só porque o homem é falho. Se o mundo exterior pudesse ver esta igreja como eu vejo, além do ritual de dentro dessas paredes, veria um milagre moderno, uma fraternidade de almas imperfeitas e simples, querendo apenas ser uma voz de compaixão em um mundo do qual se está perdendo o controle.

O camerlengo fez um gesto para o Colégio dos Cardeais e a cinegrafista da BBC instintivamente o acompanhou, focalizando a multidão de cardeais.

- Somos mesmo obsoletos? - perguntou o camerlengo? - Será que esses homens são mesmo dinossauros? Será que eu também sou? Será que o mundo realmente precisa de uma voz para os pobres, os fracos, os oprimidos, para as crianças que ainda não nasceram? Será que realmente precisamos de almas como essas que, apesar de imperfeitas, passam a vida nos implorando para seguirmos as diretrizes da moralidade e não nos extraviarmos de nosso caminho?

Mortati percebeu que o camerlengo, conscientemente ou não, estava realizando uma brilhante manobra. Ao mostrar os cardeais, estava personalizando a Igreja. A Cidade do Vaticano não era mais uma construção, era feita de gente - gente como o camerlengo, que passara a vida a serviço do bem.

- Esta noite, estamos à beira de um precipício - disse o camerlengo.

- Nenhum de nós pode se dar ao luxo da indiferença. Quer encarem toda essa maldade como Satã, corrupção ou imoralidade, o fato é que as forças do mal estão vivas e crescendo a cada dia. Não as ignorem. - O camerlengo baixou a voz a um sussurro e a câmera se aproximou. -As forças são poderosas, mas não são invencíveis, O bem pode prevalecer. Ouçam a voz de seus corações. Ouçam a voz de Deus. Juntos, podemos recuar deste abismo.

E Mortati enfim compreendeu. Aquela era a razão. O conclave fora violado, mas era o único jeito. O camerlengo fizera um dramático e desesperado pedido de ajuda. Dirigira-se não só a seu inimigo como também a seus amigos. Estava rogando a todos, amigos ou inimigos, que compreendessem e parassem com aquela loucura. Com certeza, alguém que estivesse escutando perceberia a insanidade daquela trama e tomaria uma atitude.

O camerlengo ajoelhou-se no altar.

- Rezem comigo.

O Colégio dos Cardeais caiu de joelhos para unir-se ao camerlengo em uma prece. Lá fora, na Praça de São Pedro e em todos os países, o mundo aturdido ajoelhou-se junto com eles.

CAPÍTULO 95

O Hassassin deitou seu troféu inconsciente na traseira do furgão e levou uns instantes examinando o corpo estendido. Não era tão bonita quanto as mulheres que comprava, mas tinha um vigor animal que o excitava. O corpo era radioso, orvalhado de transpiração. E cheirava a almíscar.

Parado ali saboreando sua recompensa, ele ignorava o braço que latejava. O ferimento causado pela queda do sarcófago, embora doloroso, era insignificante. Valia bem a compensação que se encontrava diante dele. Consolava-o pensar que o americano que lhe fizera aquilo provavelmente estaria morto àquela altura.

Contemplando sua prisioneira inerte, o Hassassin visualizava o que o esperava. Correu a palma da mão sob a blusa dela. Os seios pareciam perfeitos sob o sutiã. Sim, sorriu. Você valeu muito a pena.

Lutando contra a vontade de possuí- la de imediato, ele fechou a porta, sentou-se ao volante e desapareceu na noite.

Não havia necessidade de alertar a imprensa sobre aquela última morte: as labaredas do incêndio fariam isso por ele.

No CERN, Sylvie estava sob o efeito atordoante da fala do camerlengo. Nunca antes se sentira tão orgulhosa de ser católica e, ao mesmo tempo, tão envergonhada de trabalhar no CERN. Ao sair do setor de lazer, reparou que a atmosfera em cada uma das salas era sombria e desconcertada. Quando voltou para o escritório de Kohler, as sete linhas de telefone estavam tocando. As ligações dos meios de comunicação nunca eram encaminhadas direto para a sala do diretor, portanto as chamadas só podiam ter um motivo.

Geld. Dinheiro.

A tecnologia da antimatéria já tinha pretendentes.

No Vaticano, Gunther Glick estava nas nuvens enquanto seguia o camerlengo na saída da Capela Sistina.

Ele e Macri tinham acabado de fazer a transmissão ao vivo da década. E que transmissão extraordinária.

O camerlengo fora fascinante.

Já no saguão, o camerlengo virara-se para Glick e Macri:

- Pedi à Guarda Suíça para reunir algumas fotografias para vocês, tanto dos cardeais marcados a fogo quanto uma de Sua Santidade. Devo preveni-los de que não são imagens agradáveis. Queimaduras medonhas, língua negra. Mas gostaria que as divulgassem para o mundo.

Ele quer que eu divulgue uma foto exclusiva do Papa morto?

- O senhor quer mesmo? - perguntou Glick, procurando não demonstrar sua animação.

O camerlengo balançou a cabeça.

- A Guarda Suíça também vai lhe fornecer uma gravação ao vivo do tubo de antimatéria em contagem regressiva.

Glick estava pasmo.

- Os liluminati estão prestes a descobrir - declarou o camerlengo - que jogara pesado demais.

CAPÍTULO 96

Como um tema recorrente em uma sinfonia demoníaca, a sufocante escuridão estava de volta.

Sem luz. Sem ar. Sem saída.

Langdon estava preso debaixo do sarcófago emborcado e sentia sua mente derivar perigosamente para o limiar da sanidade. Tentando desviar seus pensamentos para outro rumo além do espaço apertado em torno dele, forçava a sua cabeça a se ocupar com algum processo lógico - matemática, música, qualquer coisa. Mas não havia lugar para pensamentos calmantes. Não posso me mexer! Não posso respirar!

A manga presa de seu paletó felizmente se soltara quando o ataúde caíra, deixando-o com mobilidade nos dois braços. Mesmo assim, ao empurrar para cima o teto de sua cela minúscula, esta permaneceu imóvel.

Teria sido melhor ficar com a manga presa, que talvez deixasse uma fresta para o ar entrar.

Quando tentou empurrar outra vez, sua manga escorregou e revelou o brilho de um velho amigo. Mickey.

A carinha esverdeada de desenho animado olhava-o, zombeteira.

Langdon examinou a escuridão tentando distinguir algum outro vestígio de claridade, mas a borda do ataúde ajustava-se perfeitamente ao chão. Esses desgraçados desses italianos perfeccionistas, praguejou ele; agora estava em perigo por causa da mesma excelência artística que ensinava seus alunos a reverenciar: acabamentos impecáveis, paralelos perfeitos e, claro, só o mármore de Carrara mais resistente e sem falhas.

A precisão às vezes pode ser sufocante.

- Levante essa droga - disse em voz alta, empurrando com mais força através do emaranhado de ossos. A tumba deslocou-se ligeiramente. Cerrando a mandíbula, tentou levantá-la de novo. Tinha a impressão de estar suspendendo uma pedra enorme, mas dessa vez o ataúde subiu alguns milímetros. Uma luminosidade fugidia cercou-o e depois o ataúde tombou com um baque seco. Langdon ficou arquejando no escuro.

Tentou usar as pernas como fizera antes, mas, com o ataúde inteiramente encostado no chão, não havia espaço nem para esticar seus joelhos.

Invadiu-o um pânico claustrofóbico e Langdon foi assoberbado por imagens do sarcófago encolhendo em torno dele. Pressionado pelo delírio, combateu a ilusão com todos os restos de lógica intelectual que ainda possuía.

- Sarcófago - enunciou em voz alta, com o máximo de esterilidade acadêmica que conseguiu arranjar. No entanto, até a erudição parecia estar contra ele. Sarcófago vem do grego sarx, significando carne, e phagein, que quer dizer "comer' Estou preso em uma caixa literalmente criada para "comer carne'

As imagens de carne sendo devorada até o osso serviram apenas de sinistro lembrete para o fato de que Langdon estava coberto de restos humanos. A consciência disto deu-lhe náuseas e calafrios. Mas também lhe deu uma idéia.

Remexendo às cegas dentro do caixão, Langdon encontrou um pedaço de osso. Uma costela, talvez? Não importava o que fosse. O que ele queria era uma cunha. Se conseguisse levantar o caixão, nem que fosse uma pequena fresta, e enfiar o fragmento de osso entre a borda e o chão, talvez a quantidade de ar fosse suficiente para...

Com uma das mãos firmando o pedaço estreito de osso entre a borda e o chão, ele estendeu a outra mão e empurrou. O ataúde não se moveu. Nem um pouco. Langdon tentou de novo. Por um instante o ataúde pareceu tremer ligeiramente, mas foi tudo.

O mau cheiro da decomposição e a falta de oxigênio já lhe tirando as forças, ele percebeu que só tinha tempo para mais uma tentativa. E que precisaria dos dois braços.

Reorganizou-se e colocou o pedaço alongado de osso de encontro à borda, deslocou um pouco o tronco e escorou o osso firmemente com o ombro. Com cuidado para não tirá-lo do lugar, levantou os dois braços. Sentiu o recinto abafado começar a asfixiá-lo e uma onda de pânico intenso apoderou-se dele. Era a segunda vez naquele dia que ficava preso em um local sem ar. Gritando, deu um empurrão para cima num movimento de explosão. O ataúde ergueu- se por uma fração de segundo. Foi o bastante. O pedaço de osso que prendera com o ombro encaixou-se no espaço que se abriu. Quando o ataúde tombou de novo, o osso se espatifou. Mas dava para ver que ainda havia uma escora. Um filete de luz aparecia sob a borda.

Extenuado, Langdon soltou o corpo. Torcendo para que a sensação de estrangulamento em sua garganta passasse, ele esperou. Entretanto, a sensação só piorou. O ar que penetrava através da minúscula fresta parecia imperceptível. Langdon pensava se daria para mantê-lo vivo. E, se desse, por quanto tempo? Se ele desmaiasse, quem descobriria que estava ali?

Levantou o braço, que pesava como chumbo, e olhou o relógio outra vez: 10h12 da noite. Os dedos trêmulos, ajustou o relógio e deu sua última cartada. Torceu um dos pequeninos ponteiros e apertou um botão.

À medida que a consciência se esvaía e as paredes da tumba o comprimiam, os velhos medos o assaltaram.

Tentou imaginar que se encontrava em um campo aberto. A cena que lhe ocorreu, porém, não ajudava em nada. O pesadelo que o assombrara desde pequeno voltou com toda a força.

As flores aqui parecem pinturas, pensou a criança, sorridente, correndo pela campina. Pena que seus pais não estavam ali também. Os dois tinham ficado instalando o acampamento.

- Não vá muito longe - dissera sua mãe.

Ele fingiu não ter ouvido enquanto se afastava aos saltos pela mata.

Agora, atravessando aquele campo magnífico, o menino encontrou pedras empilhadas.

Imaginou que fossem fundações de alguma casa de campo abandonada. Não se aproximaria. Sabia que era melhor. Além disso, seus olhos tinham sido atraíd os para outra coisa: uma esplêndida orquídea selvagem, aflor mais rara e bonita de New Hampshire. Só a vira nos livros.

Empolgado, aproximou-se da flor. Ajoelhou-se ao lado dela. O solo estava fofo, mole. Viu que a flor havia encontrado um lugar muito fértil para germinar. Brotara de um pedaço de madeira podre.

Entusiasmado pela idéia de levar aquela maravilha para casa, o menino estendeu o braço, os dedos prestes a alcançar o caule da flor.

Que nem chegou a tocar.

Com um barulho assustador, a terra cedeu.

Nos segundos do vertiginoso terror da queda, ele achou que iria morrer. Preparou-se para o choque que lhe quebraria os ossos. Quando aconteceu, não houve dor. Só maciez.

E frio.

Bateu na água profunda primeiro com a cabeça, mergulhando no estreito negrume.

Rodopiando em saltos desorientados, tateou as paredes escorregadias que o cercavam por todos os lados. De alguma forma, talvez por instinto, manteve-se na superficie.

Luz.

Fraca. Lá no alto. A quilômetros de distância, parecia.

Seus braços curvavam-se e agarravam a água, procurando nas paredes do buraco um ponto onde se agarrar. Só encontrava pedras lisas. Caíra através da tampa apodrecida de um poço abandonado. Gritou pedindo socorro, mas seus gritos reverberavam na cavidade apertada. Gritou várias vezes. Acima de sua cabeça, o buraco de madeira arrebentada foi escurecendo.

Caiu a noite.

O tempo parecia deformar-se na escuridão. O corpo ficou dormente dentro da água em que ele boiava, nas profundezas, chamando, gritando. Tinha visões torturantes das paredes caindo e enterrando-o vivo. Seus braços ardiam de fadiga. Algumas vezes achou que ouvia vozes. Gritou, mas sua voz não saía.., como nos sonhos.

À medida que a noite passava, mais o poço se aprofundava. As paredes aproximavam-se pouco a pouco. O menino apertava o corpo de encontro às pedras, empurrando-as.

Esgotado, queria desistir. Entretanto, sentia a água sustentando-o, esfriando aos poucos o ardor de seus medos até entorpecê-lo.

Quando a equipe de resgate chegou, encontraram-no quase inconsciente. Mantivera-se à tona durante cinco horas. Dois dias depois, o Boston Globe publicou uma matéria de primeira página cujo título era "O Pequeno Nadador que Conseguiu'

CAPÍTULO 97

O Hassassin sorriu quando entrou com seu furgão na colossal estrutura de pedra junto ao rio Tibre. Carregou sua presa escada acima, cada vez mais alto pelo túnel também de pedra, satisfeito por sua carga ser leve. Chegou à porta.

A Igreja da Iluminação, regozijou-se. A antiga sala de encontros dos liluminati. Quem imaginaria que ficava ali?

Lá dentro, deitou-a em um sofá macio. Em seguida, amarrou com habilidade os braços dela atrás das costas e atou-lhe os pés. Sabia que aquilo por que ansiava teria de esperar até que sua última tarefa estivesse terminada. Água.

Ainda assim, pensou, podia se permitir um momento. Ajoelhou-se junto a ela e correu a mão por sua coxa.

Era macia. A mão subiu. Mais. Seus dedos escuros penetraram sob a bainha do short dela. Mais. Ele parou. Paciência, disse a si mesmo, sentindo-se excitado. Ainda há trabalho a fazer.

Encaminhou-se para a alta sacada do aposento. A brisa da noite lentamente esfriou seu ardor. Muito abaixo, o Tibre corria, vociferante. Levantou os olhos para o domo de São Pedro, a pouco mais de um quilômetro dali, desnudo sob o clarão das luzes da imprensa.

- Sua hora final - disse em voz alta, pensando nos milhares de muçulmanos massacrados durante as Cruzadas. - À meia-noite, vão encontrar seu Deus.

Atrás dele, a mulher se mexeu. O Hassassin se virou. Ponderou se a deixaria acordar. Ver o terror nos olhos das mulheres era o seu melhor afrodisíaco.

Optou pela prudência, pois seria melhor que ela ficasse inconsciente enquanto ele estava fora. Embora estivesse amarrada e nunca fosse escapar, o Hassassin não queria voltar e encontrá-la exausta de tanto lutar. Quero sua força preservada para mim.

Levantou um pouco a cabeça dela, colocou a palma da mão na parte posterior de seu pescoço e encontrou a depressão logo abaixo do crânio. Aquele meridiano era um ponto de pressão que ele já usara inúmeras vezes. Com força esmagadora, comprimiu o polegar contra a cartilagem macia e sentiu-a afundar. O corpo da mulher afrouxou de imediato. Vinte minutos, pensou. Ela seria um final tentador para um dia perfeito.

Depois que ela o servisse e ele a matasse, o Hassassin iria para a sacada assistir aos fogos de artifício do Vaticano à meia-noite.

Água. Seria o último.

Retirando uma tocha da parede como já fizera três vezes antes, começou a aquecer a ponta do objeto.

Quando estava em brasa, levou-o para a cela.

Dentro, um único homem estava em silêncio. Velho e solitário.

- Cardeal Baggia - sibilou o matador. - Já rezou?

Os olhos do italiano não demonstravam medo.

- Só pela sua alma.

CAPÍTULO 98

Os seis pompieri destacados para o incêndio de Santa Maria della Vittoria apagaram a fogueira no meio da igreja com jatos de gás Halon. Água seria mais barato, mas o vapor que produzia teria estragado os afrescos na igreja e o Vaticano pagava caro aos pompieri romanos para a prestação de serviços com rapidez e prudência em todas as construções de sua propriedade.

Os pompieri, pela natureza de seu trabalho, presenciavam tragédias quase diariamente, mas a execução perpetrada dentro daquela igreja foi algo que nenhum deles jamais esqueceria. Ao mesmo tempo crucificação, enforcamento e queima na fogueira, a cena parecia ter saído de um pesadelo gótico.

Infelizmente, a imprensa, como de costume, chegara antes dos bombeiros. Já tinham feito inúmeras gravações antes que os pompieri esvaziassem a igreja. Quando enfim os bombeiros desceram a vítima e deitaram-na no chão, todos sabiam de quem se tratava.

- Cardinale Guidera - murmurou um deles -, di Barcelona.

O homem estava nu. A metade inferior de seu corpo estava toda queimada, escarlate e negra, o sangue escorrendo de rachaduras abertas nas coxas. Do joelho para baixo, os ossos das pernas estavam expostos.

Um dos bombeiros vomitou. Outro teve de sair para tomar ar.

O maior horror, contudo, era o símbolo marcado a fogo no peito do cardeal. O chefe dos bombeiros contornou o corpo, amedrontado. Lavoro del diavolo, dizia para si. Feito pelo próprio diabo. E fez o sinal-da-cruz pela primeira vez desde a infância.

- Un' altro corpo! - gritou alguém. Um dos bombeiros encontrara outro corpo.

O chefe reconheceu imediatamente a segunda vítima. O austero comandante da Guarda Suíça era um homem por quem poucos dos responsáveis pela manutenção da lei e da ordem na cidade sentiam qualquer afeto. O chefe telefonou para o Vaticano, mas todas as linhas estavam ocupadas. Sabia que não era necessário. A Guarda Suíça receberia a notícia pela televisão em questão de minutos.

Enquanto avaliava os estragos e tentava reconstituir o que poderia ter acontecido ali, o chefe viu um nicho crivado de furos de balas. Uma tumba estava virada no chão, provavelmente caíra de cima de seus suportes durante alguma luta. O lugar estava um caos. Isso é trabalho para a polícia e para a Santa Sé, pensou o chefe, dando as costas para aquela confusão.

Assim que se virou, entretanto, ele parou. Ouviu um som que vinha de dentro do ataúde. Um som que todo bombeiro tinha pavor de ouvir.

- Bomba! - bradou ele. - Tuttifuori!

Quando os membros do esquadrão antibombas desviraram o caixão, porém, descobriram a origem do bipe eletrônico. Desnorteados, ficaram parados, olhando.

- Mèdico! - um deles finalmente gritou. - Mèdico!

CAPÍTULO 99

- Alguma notícia de Olivetti? - perguntou o camerlengo com aparência esgotada, quando Rocher o acompanhava da Capela Sistina para o escritório do Papa.

- Não, signore. Temo que tenha acontecido o pior.

Quando chegaram ao escritório do Papa, a voz do camerlengo estava pesada.

- Capitão, acho que não há muito mais que eu possa fazer aqui esta noite. Receio que já tenha feito até demais. Vou entrar neste escritório para rezar. Gostaria de não ser incomodado. O resto está nas mãos de Deus.

- Sim, signore.

- Já é tarde, capitão. Encontre aquele tubo.

- Nossa busca prossegue. - Rocher hesitou. - Parece que a arma está muito bem escondida.

O camerlengo teve um estremecimento, como se não conseguisse pensar no assunto.

- É verdade. Às 11h15 exatamente, se a igreja ainda estiver em perigo, quero que você retire daqui os cardeais. Estou colocando a segurança deles em suas mãos. Peço apenas uma coisa: que esses homens possam sair deste lugar com dignidade. Faça-os sair para a Praça de São Pedro para ficar lado a lado com o resto do mundo. Não quero que a última imagem desta igreja seja a de um bando de velhos assustados esgueirando-se por uma porta dos fundos.

- Muito bem. E o signore? Devo vir buscá-lo também à mesma hora?

- Não será preciso.

- Como assim?

- Vou sair quando tiver espírito para isso.

Rocher refletiu que talvez o camerlengo pretendesse afundar com o navio.

O camerlengo abriu a porta do escritório do Papa e entrou.

- Na verdade... - disse ele, virando-se. - Há uma coisa.

- Signore?

- Parece que há uma friagem neste escritório esta noite. Estou tremendo.

- O aquecimento elétrico está desligado. Permita que acenda a lareira para

o senhor.

O camerlengo deu um sorriso cansado.

- Obrigado, muito obrigado.

Rocher saiu do escritório do Papa deixando o camerlengo rezando à luz da lareira diante de uma estatueta da Virgem Maria. Era uma cena soturna. Uma sombra negra ajoelhada na luminosidade bruxuleante.

Quando Rocher cruzava o saguão, um guarda apareceu, correndo em sua direção. Mesmo à luz de velas, Rocher reconheceu o tenente Chartrand. Jovem, inexperiente e empenhado.

- Capitão - chamou Chartrand, segurando um telefone celular. - Acho que o pronunciamento do camerlengo deu resultado. Há uma pessoa aqui ao telefone que diz ter informações que podem nos ajudar. Ligou para uma das linhas partic'ulares do Vaticano. Não sei como ele conseguiu o número.

Rocher se deteve.

- O quê?

- Ele disse que só vai falar com o oficial superior.

- Alguma notícia de Olivetti?

- Não, senhor.

Ele apanhou o telefone.

- Aqui é o capitão Rocher. Sou o oficial superior no momento.

- Rocher - disse a voz. - Vou explicar a você quem sou eu. Depois, vou lhe dizer o que tem de fazer.

Quando o interlocutor se calou e desligou, Rocher ficou estático. Agora sabia de quem estava recebendo ordens.

No CERN, Sylvie Baudeloque tentava freneticamente dar conta de todos os pedidos de licença que chegavam no correio de voz de Kohler. A linha particular na mesa do diretor começou a tocar, sobressaltando-a. Ninguém tinha aquele número. Ela atendeu.

- Sim?

- Senhorita Baudeloque? Aqui é o diretor Kohler. Entre em contato com meu piloto. Meu jato tem de estar preparado para decolar em cinco minutos.

CAPÍTULO 100

Robert Langdon não sabia onde estava nem quanto tempo ficara inconsciente quando abriu os olhos e deu com o interior de uma cúpula barroca coberta de afrescos. Havia fumaça ondulando lá em cima. Algo cobria sua boca. Uma máscara de oxigênio. Ele a puxou. Um cheiro horrível pairava no ambiente - de carne queimada.

Langdon contraiu-se, a cabeça latejando. Tentou sentar-se. Um homem de branco estava ajoelhado junto dele.

- Riposati! - disse o homem, fazendo Langdon voltar a se deitar. - Sono ii paramédico.

Langdon obedeceu, a cabeça girando como a fumaça no alto. Que diabos aconteceu? Sensações tênues de pânico passavam rápidas por sua mente.

- Sórcio salvatore - disse o paramédico. - Ratinho salvador.

Langdon ficou ainda mais perdido. Ratinho salvador?

O homem apontou para o relógio do Mickey Mouse no pulso de Langdon. Os pensamentos dele começaram a clarear. Lembrou-se ter preparado o alarme do relógio. Olhando distraído para o mostrador, viu também a hora: 10h28.

Sentou-se de repente.

Então, tudo lhe voltou à memória.

Langdon estava perto do altar-mor com o chefe dos bombeiros e alguns dos seus homens. Eles o bombardeavam de perguntas. Ele não escutava. Tinha suas próprias perguntas. Seu corpo inteiro doía, mas ele sabia que precisava agir depressa.

Um pompiero aproximou-se dele vindo do outro lado da igreja.

- Verifiquei de novo, senhor. Os únicos corpos que encontramos foram os do cardeal Guidera e do comandante da Guarda Suíça. Não há nem sinal de uma mulher aqui.

- Grazie - disse Langdon, entre aliviado e assustado. Sabia que vira Vittoria caída no chão, inconsciente.

Agora, ela havia desaparecido. A única explicação para isso não era nada reconfortante. O matador não fora nem um pouco sutil ao telefone. "Uma mulher de fibra. Estou excitado. Talvez, antes que esta noite acabe, eu encontre você. E quando isto acontecer..."

Langdon olhou em torno.

- Onde está a Guarda Suíça?

- Ainda não conseguimos entrar em contato com eles. As linhas telefônicas do Vaticano estão todas ocupadas.

Langdon sentiu-se prostrado e sozinho. Olivetti estava morto. O cardeal morrera. Vittoria sumira. Meia hora de sua vida desaparecera em um piscar de olhos.

Lá fora ouvia-se o alvoroço da imprensa. Desconfiava que as imagens da horripilante morte do terceiro cardeal estariam no ar em breve, se é que já não estavam. Langdon esperava que o camerlengo tivesse admitido o impasse e começado a agir. Esvaziem a droga do Vaticano! Chega de esconde-esconde! Nós perdemos!

Langdon então se conscientizou de que todos os elementos catalisadores que o vinham mobilizando - ajudar a salvar a Cidade do Vaticano, resgatar os quatro cardeais, ver de perto a fraternidade que ele estudara durante tantos anos - tinham se evaporado de sua cabeça. A guerra estava perdida. Uma nova compulsão acendera-se dentro dele. Simples. Inflexível. Primordial.

Encontrar Vittoria.

Sentia um inesperado vazio dentro de si. Sempre ouvira falar que situações intensas às vezes uniam mais duas pessoas do que décadas de convivência. Agora acreditava naquilo. Com a ausência de Vittoria, experimentava algo que há anos não sentia. Solidão. E o sentimento doloroso deu-lhe forças.

Afastando tudo o mais de sua mente, Langdon procurou concentrar-se. Rezava para que o Hassassin cuidasse da obrigação antes do prazer. Senão, Langdon sabia que seria tarde demais. Não, disse consigo, você tem tempo. O captor de Vittoria ainda tinha trabalho a fazer. Precisava mostrar-se uma última vez antes de desaparecer para sempre.

O último altar da ciência, pensou Langdon. O matador tinha uma derradeira tarefa a cumprir. Terra.

Ar. Fogo. Água.

Olhou para o relógio. Trinta minutos. Passou pelos bombeiros em direção ao

Êxtase de Santa Teresa. Dessa vez, diante do marco de Bernini, não tinha dúvidas sobre o que estava procurando.

Que os anjos o guiem em sua busca sublime...

Acima da santa reclinada, diante de um fundo de chamas douradas, pairava o anjo de Bernini. Na mão dele, uma lança pontiaguda de fogo. Langdon seguiu a direção da lança, um arco que indicava o lado direito da igreja. Seus olhos deram com a parede. Examinou o local para onde a lança apontava. Não havia nada ali. Ele sabia, claro, que a lança apontava para um lugar muito além da parede da igreja, no meio da noite de Roma.

- Que direção é aquela? - perguntou Langdon ao chefe dos bombeiros com renovada determinação.

- Direção? - o chefe olhou, sem compreender bem, para onde Langdon apontava. - Não estou bem certo.

Oeste, acho.

- Que igrejas ficam naquela direção?

O chefe ficou ainda mais confuso.

- Há dezenas delas. Por quê?

Langdon fez uma careta. Claro que havia dezenas.

- Preciso de um mapa da cidade. Agora mesmo.

O chefe mandou alguém correndo ao caminhão dos bombeiros buscar um mapa.

Langdon virou-se para a estátua. Terra... Ar... Fogo... VITTORIA.

O marco final é o da Água, disse a si mesmo. A Água de Bernini. Estava em uma daquelas igrejas lá fora. Uma agulha no palheiro. Vasculhou sua mente passando em revista todas as obras de Bernini de que se lembrava. Preciso de um tributo à Água!

Ocorreu-lhe a estátua Tritão de Bernini - o deus grego do mar. E lembrou-se de que estava localizada na praça do lado de fora daquela mesma igreja e na direção totalmente errada. Forçou-se a pensar. Que figura Bernini teria esculpido para glorificar a água? Netuno e Apolo? Infelizmente, aquela estátua se encontrava no Museu Victoria & Albert, de Londres.

- Signore? - um bombeiro chegou apressado trazendo um mapa.

Langdon agradeceu e abriu o mapa em cima do altar. Instantaneamente, percebeu que fizera o pedido às pessoas certas. O mapa de Roma do Corpo de Bombeiros era o mais detalhado que Langdon já encontrara.

- Onde estamos agora?

O homem mostrou.

- Junto à Piazza Barberini.

Langdon deu outra olhadela na lança do anjo para se orientar. O chefe calculara certo. De acordo com o mapa, a lança apontava para oeste. Langdon traçou uma linha reta no mapa a partir do lugar onde estavam rumo a oeste. E logo suas esperanças se esvaíram. A cada centímetro que seu dedo percorria, encontrava uma construção marcada com uma pequena cruz negra. Igrejas. A cidade estava cheia delas. Por fim, o dedo de Langdon não encontrou mais igrejas e perdeu-se nos subúrbios de Roma. Ele suspirou, desanimado, e afastou-se do mapa. Droga.

Observando Roma como um todo, seu olhar se deteve nas três igrejas onde os três primeiros cardeais tinham sido mortos. A Capela Chigi, São Pedro, aqui...

Contemplando os três locais, Langdon reparou algo estranho em suas posições. Imaginara que as igrejas estivessem espalhadas ao acaso pela cidade. Mas não estavam, com toda a certeza. Por mais que lhe parecesse improvável, as três igrejas estavam separadas sistematicamente, formando um enorme triângulo que abrangia toda a cidade. Verificou de novo. Não estava imaginando coisas.

- Penna - pediu, sem levantar a cabeça.

Alguém lhe entregou uma caneta esferográfica.

Langdon fez um círculo sobre cada igreja. Seu pulso se acelerou. Conferiu sua marcação. Um triângulo simétrico!

Seu primeiro pensamento foi a associação com o sinete da nota de um dólar - o triângulo contendo o olho que tudo vê. Entretanto, aquilo não fazia sentido. Ele marcara apenas três pontos. Deveria haver um total de quatro.

Então, onde diabos está a Água? Onde quer que colocasse o quarto ponto, o triângulo seria destruído. A única opção para manter a simetria seria situar o quarto ponto dentro do triângulo, no centro.

Olhou para o local no mapa. Nada. A idéia ainda assim o importunava. Os quatro elementos da ciência eram considerados iguais. A água não era especial, não havia justificativa para que ficasse no centro.

De qualquer maneira, seu instinto lhe dizia que o arranjo sistemático não podia ser acidental. Não estou distinguindo o quadro completo. Havia somente uma alternativa: os quatro pontos não formarem um triângulo e sim uma outra figura.

Langdon olhou para o mapa. Um quadrado, talvez? Embora o quadrado não fizesse sentido simbolicamente, pelo menos era simétrico. Langdon apoiou o dedo no mapa em um dos pontos que converteriam o triângulo em um quadrado. Viu logo que um quadrado perfeito seria impossível. Os ângulos do triângulo original eram oblíquos e criariam algo mais próximo de um quadrilátero torto.

Enquanto estudava os outros pontos possíveis em torno do triângulo, aconteceu algo inesperado. Notou que a linha que desenhara antes para indicar a direção assinalada pela lança do anjo passava precisamente por uma das possibilidades. Estupefato, Langdon fez um círculo sobre aquele ponto. Tinha à sua frente agora quatro pontos marcados a tinta no mapa, dispostos em um formato um tanto desajeitado, parecendo uma pipa, o formato de um diamante.

Franziu o cenho. Os diamantes também não eram um símbolo dos Iliuminati. Refletiu um pouco. No entanto...

Por um instante, lembrou-se do célebre Diamante Illuminati. Mas a idéia era ridícula. Descartou-a. Além do mais, o diamante era oblongo - como uma pipa - e não seria um bom exemplo da impecável simetria pela qual os Illuminati eram reverenciados.

Quando se curvou para examinar onde colocara o último marco, Langdon surpreendeu-se ao constatar que o quarto ponto ficava bem no centro da famosa Piazza Navona. Estava certo de que havia uma igreja importante na piazza, mas seu dedo já passara por ela e, que soubesse, não continha nenhuma obra de Bernini. A igreja chamava-se Santa Inês - ou Santa Agnes - em Agonia, uma santa jovem e virgem que fora condenada a uma vida de escravidão sexual por recusar-se a renunciar à sua fé.

Deve haver alguma coisa naquela igreja! Langdon deu tratos à bola tentando lembrar o interior da igreja.

Não tinha conhecimento de qualquer obra de Bernini lá dentro, muito menos relacionada com água. A disposição dos pontos no mapa também o incomodava. Um diamante. Era precisa demais para ser coincidência, mas não era precisa o suficiente para fazer sentido. Uma pipa? Conjeturou se não teria escolhido o ponto errado. O que é que está faltando?

Langdon levou uns trinta segundos para achar a resposta mas, quando achou, exultou como nunca antes em toda a sua vida acadêmica.

A genialidade dos Illuminati, pelo jeito, era infinita.

A forma que via não era a de um diamante, não fora planejada para ser a de um diamante. Os quatro pontos só formavam um diamante porque Langdon ligara pontos adjacentes. Os liluminati acreditavam em opostos! Ao ligar vértices opostos com sua caneta, os dedos de Langdon tremiam. Ali no mapa à sua frente havia uma enorme cruz. Uma cruz! Os quatro elementos da ciência estendidos diante de seus olhos, cruzando a cidade de Roma de ponta a ponta.

Enquanto se extasiava com sua descoberta, um verso ressoou em sua mente como um velho amigo de cara nova.

Através de Roma se estendem os místicos elementos.

'Cross Rome the mystic elements unfold.

'Cross Rome...

A névoa começou a se dissipar. A resposta estivera diante dele a noite inteira! O poema Iliuminati dizia-lhe como os altares da ciência estava dispostos. Em cruz!

'Cross Rome the mystic elements unfold!

Um astuto jogo de palavras. Langdon lera a palavra 'cross - cruz - como uma abreviatura de across - através. Presumiu que se tratasse de uma licença poética para manter a métrica do poema em inglês. Mas era muito mais do que isso, era outra pista disfarçada!

A forma da cruz no mapa, constatou ele, era a extrema dualidade Illuminati, um símbolo religioso formado por elementos da ciência. O Caminho da Iluminação de Galileu era um tributo tanto à ciência quanto a Deus!

O resto das peças do quebra-cabeças encaixou-se prontamente.

Piazza Navona.

No centro da Piazza Navona, perto da igreja de Santa Inês em Agonia, Bernini instalara uma de suas mais celebradas esculturas. Todas as pessoas que visitavam Roma iam vê-la.

A Fonte dos Quatro Rios!

Um primoroso tributo à água, a Fonte dos Quatro Rios de Bernini glorificava os quatro maiores rios conhecidos do Velho Mundo - o Nilo, o Ganges, o Danúbio e o Prata.

Água, pensou Langdon, o marco final. Perfeito.

E ainda mais perfeito, lembrou ele, é que bem no alto da fonte de Bernini havia um imenso obelisco.

Deixando para trás os bombeiros confusos, Langdon atravessou a igreja às pressas em direção ao corpo sem vida de Olivetti.

10h31, pensou. Tenho tempo à beça. Pela primeira vez naquele dia sentia-se com vantagem sobre o inimigo.

Ajoelhando-se ao lado de Olivetti, fora de visão atrás de alguns bancos da igreja, Langdon apoderou-se discretamente da arma do comandante e de seu walkie-talkie. Teria de pedir socorro, mas não ali. O último altar da ciência tinha de permanecer em segredo por enquanto. A imprensa e o Corpo de Bombeiros correndo para a Piazza Navona com a sirene ligada não seriam de grande ajuda.

Sem dizer uma palavra, Langdon escapuliu pela porta e driblou a imprensa, que agora entrava na igreja em tropel. Cruzou a Piazza Barberini. Nas sombras, ligou o walkie-talkie. Tentou chamar a Cidade do Vaticano, mas só ouviu estática. Ou ele estava fora de área ou o transmissor precisava de algum tipo de código de autorização para o contato. Langdon mexeu nos complicados botões e controles sem qualquer resultado. Deu-se conta de que seu plano de conseguir ajuda não iria funcionar. Procurou em torno por um telefone público. Não havia nenhum. As linhas do Vaticano estariam congestionadas, de qualquer forma.

Estava sozinho.

Com seu impulso inicial de confiança bastante abalado, Langdon parou um momento para avaliar o estado deplorável em que se encontrava - coberto de poeira de ossos, machucado, em uma exaustão que beirava o delírio e, ainda por cima, faminto.

Olhou para a igreja lá atrás. Espirais de fumaça saíam da cúpula, iluminadas pelas luzes da mídia e pelos caminhões dos bombeiros. Ponderou se deveria voltar e pedir ajuda. O instinto, porém, lhe dizia que mais ajuda, sobretudo ajuda não especializada, seria um risco. Se o Hassassin nos vê chegar... Pensou em Vittoria e pressentiu que aquela seria a útima oportunidade de enfrentar o homem que a capturara.

Piazza Navona, refletiu, sabendo que poderia chegar lá com tempo de sobra e ficar à espreita. Procurou um táxi, mas as ruas estavam quase desertas. Até os motoristas de táxi, aparentemente, tinham largado tudo para ver televisão. A praça ficava a pouco mais de um quilômetro de distância, mas Langdon não tinha a intenção de gastar uma energia preciosa indo a pé. Olhou de novo para a igreja, imaginando se poderia pegar algum veículo emprestado.

Um carro de bombeiros? Um furgão da imprensa? Tenha juízo, criatura.

Com as opções e os minutos se esgotando, Langdon tomou uma decisão. Tirou a arma do bolso e teve uma atitude tão incompatível com seu caráter que achou que sua alma devia estar possuída. Aproximou-se de um solitário Citroën sedã parado em um sinal e apontou a arma para o motorista pela janela aberta.

- Fuori! - gritou.

O homem saiu do carro, trêmulo.

Langdon sentou-se depressa ao volante e acelerou.

CAPÍTULO 101

Gunther Glick sentou-se em um banco de uma cela do escritório da Guarda Suíça. Rezava para todos os deuses que lhe passavam pela cabeça. Por favor, faça com que NÃO seja um sonho. Tinha sido o furo de sua vida. A reportagem da vida de qualquer um. Todos os repórteres, sem exceção, gostariam de ser Glick naquele momento. Você não está sonhando, disse consigo. E é uma celebridade. Dan Rather deve estar aos prantos neste instante.

Macri estava ao lado dele, um pouco atordoada. Glick compreendia. Além de divulgarem com exclusividade o discurso do camerlengo, ela e Glick haviam fornecido ao mundo fotografias impressionantes dos cardeais e do Papa - aquela língua dele! -, assim como um vídeo com imagens ao vivo do tubo de antimatéria em contagem regressiva. Incrível!

Claro que tudo acontecera sob os auspícios do camerlengo, portanto não era essa a razão pela qual Glick e Macri estavam presos na Guarda Suíça. O que não tinha agradado aos guardas fora aquele audacioso acréscimo de Glick à matéria. Glick sabia que a conversa que havia noticiado não fora destinada a seus ouvidos, mas tratava-se da maior oportunidade da sua vida. Mais um furo de reportagem de Glick!

- O Samaritano da Décima Primeira Hora? - Macri resmungou, sentada ao lado dele no banco, com cara de pouco caso.

Glick sorriu.

- Foi o máximo, não foi?

- O máximo da idiotice.

Ela está é com inveja, pensou Glick. Logo depois que o camerlengo terminou seu discurso, Glick, mais uma vez e por pura sorte, viu-se no lugar certo e na hora certa. Por acaso, tinha ouvido Rocher dando novas ordens a seus homens. Ao que tudo indica, Rocher havia recebido uma ligação de uma pessoa não identificada que tinha informações importantíssimas sobre a crise que estavam passando. Rocher estava falando como se esse homem pudesse ajudá-los e orientava seus guardas para se aprontarem para a chegada do visitante.

Embora a informação fosse nitidamente confidencial, Glick agiu como qualquer repórter dedicado faria - sem nenhum respeito. Procurou um canto escuro, pediu a Macri para ligar a câmera às escondidas e divulgou a notícia.

- Novidades surpreendentes na cidade de Deus - anunciou, apertando os olhos para dar mais ênfase às palavras. E continuou informando que um convidado misterioso estava chegando à Cidade do Vaticano para salvar a situação. O Samaritano da Décima Primeira Hora, Glick assim o batizou - um nome perfeito para um homem sem rosto que aparecia no último instante para fazer uma boa ação. Outras redes de emissoras adotaram a alcunha do personagem, que soava bem, e Glick foi mais uma vez imortalizado.

Sou o máximo, pensou. Peterlennings deve ter acabado de se atirar de uma ponte.

É evidente que Glick não parou por aí. Com a atenção do mundo voltada para ele, aproveitou para acrescentar gratuitamente um pouco da própria teoria conspiratória.

O máximo. Simplesmente o máximo.

- Você acabou conosco - disse Macri. - Estragou tudo.

- Do que está falando? Fui perfeito!

Macri olhou para ele, incrédula.