Anjos e Demônios
- . . . minha cinegrafista conseguiu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Comandante? - a voz do camerlengo era impenetrável. - Vou interromper o conclave.
Olivetti apertou os lábios, obstinado.
- Não aconselho que faça isso. Ainda temos duas horas e vinte minutos.
- É quase nada.
O tom de Olivetti agora tinha um quê de desafio.
- O que pretende fazer? Tirar os cardeais do Vaticano sozinho?
- Pretendo salvar esta igreja com o poder que Deus me concedeu, seja qual for. Como vou agir não é mais da sua conta.
Olivetti aprumou o corpo.
- O que quer que vá fazer... - ele fez uma pausa - não tenho autoridade para impedi-lo. Principalmente depois do meu fracasso como chefe de segurança. Peço-lhe apenas que espere. Espere vinte minutos, até depois de dez horas. Se a informação do senhor Langdon estiver correta, ainda posso ter uma chance de apanhar esse assassino. Existe ainda uma chance de manter o protocolo e o decoro.
- Decoro? - o camerlengo deixou escapar uma risada abafada. - Já deixamos a compostura para trás há muito tempo, comandante. Caso não tenha percebido, isto é uma guerra.
Um guarda saiu do centro de segurança e falou com o camerlengo.
- Signore, acabei de receber a informação de que detivemos o repórter da BBC, o senhor Glick.
O camerlengo fez um sinal com a cabeça e disse:
- Faça com que ele e sua cinegrafista me encontrem do lado de fora da Capela Sistina.
Os olhos de Olivetti arregalaram-se.
- O que vai fazer?
- Vinte minutos, comandante. Só lhe dou mais vinte minutos.
E se foi.
Quando o Alpha Romeo de Olivetti saiu correndo da Cidade do Vaticano, dessa vez não havia a fila de carros sem identificação vindo atrás dele. No banco traseiro, Vittoria fazia um curativo na mão de Langdon, usando o material de um estojo de primeiros-socorros que encontrara no porta-luvas.
Olivetti olhava para a frente.
- Então, senhor Langdon, para onde vamos?
CAPÍTULO 88
Mesmo com a sirene agora instalada e ligada, o carro de Olivetti não parecia ser notado enquanto atravessava a ponte em louca disparada para o coração da cidade velha. Todo o tráfego estava indo na direção contrária, para o Vaticano, como se ir para a Santa Sé de uma hora para outra tivesse se tornado o programa mais divertido de Roma.
Langdon ia sentado no banco de trás, um torvelinho de perguntas agitando- se em sua cabeça. Pensava no assassino, se iriam pegá-lo desta vez, se ele lhes diria o que precisavam saber, se já não seria tarde demais. Quanto tempo teriam até que o camerlengo anunciasse ao povo na Praça de São Pedro que estavam em perigo? O incidente nos Arquivos ainda o intrigava. Um engano.
Olivetti nem uma única vez pisou no freio enquanto ziguezagueava com o barulhento Alpha Romeo rumo à igreja de Santa Maria della Vittoria. Langdon sabia que em qualquer outra ocasião os nós de seus dedos estariam brancos. No momento, porém, sentia-se anestesiado. Só a mão latejante lembrava-lhe onde estava.
E a sirene do carro uivava acima de suas cabeças. Nada melhor para avisar a ele que estamos chegando, pensou Langdon. Mas avançavam numa rapidez incrível. Olivetti provavelmente desligaria a sirene quando chegassem mais perto.
Com um pouco de tempo para refletir, ele se enchia de assombro com o assassinato do Papa, agora que afinal assimilava a notícia. A idéia era inconcebível e no entanto, ao mesmo tempo, parecia um acontecimento bastante lógico. A infiltração sempre havia sido a base do poder dos Illuminati - a redistribuição interna do poder. E não era a primeira vez que assassinavam um Papa. Existiam inúmeros boatos de traições passadas, mas, como não se fazia autópsia, nenhuma jamais fora confirmada. Até recentemente. Alguns acadêmicos haviam obtido permissão para radiografar a tumba do Papa Celestino V, que supostamente morrera nas mãos de seu muito apressado sucessor, Bonifácio VIII. Os pesquisadores esperavam que os raios X pudessem revelar algum pequeno indício de perfídia - um osso quebrado, no máximo. Mas o que se viu foi um prego de 25 centímetros enfiado no crânio do Papa.
Langdon também se lembrou de diversos recortes de jornal que outros estudiosos dos Illuminati lhe haviam enviado anos atrás. A princípio, achando que se tratasse de uma brincadeira, ele consultara os arquivos de microfichas de Harvard para confirmar se os artigos eram mesmo autênticos. E eram. Pregara-os no seu quadro de avisos como exemplos de como até respeitáveis órgãos de notícias podiam ser tomados pela paranóia dos Illuminati. Naquela hora, porém, as suspeitas da mídia pareciam-lhe bem menos paranóicas. Os textos dos artigos estavam bem claros em sua memória...
THE BRITISH BROADCASTING CORPORATION
14 de junho de 1998
O Papa João Paulo 1, que morreu em 1978, foi vítima de uma trama arquitetada pela Loja Maçônica P2... A sociedade secreta P2 decidiu matar João Paulo 1 quando soube que ele iria demitir o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus da presidência do Banco do Vaticano, O banco esteve implicado em nebulosos acordos financeiros com a Loja Maçônica...
THE NEW YORK TIMES
24 de agosto de 1998
Por que o falecido João Paulo 1 estava na cama vestido com a camisa que usava durante o dia? Por que a camisa estava rasgada? As perguntas não param aí. Nenhuma investigação médica foi realizada, O cardeal Villot proibiu a autópsia alegando que nenhum Papa fora submetido a um exame desses. E os remédios de João Paulo 1 desapareceram misteriosamente de sua mesa-de-cabeceira, assim como seus óculos, seus chinelos e seu testamento.
LONDON DAILY MAIL
27 de agosto de 1998
...uma conspiração envolvendo uma poderosa, implacável e ilegal loja maçônica com tentáculos que chegam até o Vaticano.
O celular no bolso de Vittoria tocou, felizmente apagando aqueles pensamentos da cabeça de Langdon.
Vittoria atendeu, sem imaginar quem poderia estar ligando para ela. Mesmo de longe, Langdon reconheceu a voz cortante como laser que falava do outro lado.
- Vittoria? Aqui é Maximilian Kohler. Já encontraram a antimatéria?
- Max? Você está bem?
- Vi as notícias. Não fizeram referência ao CERN nem à antimatéria. Isto é bom. O que está acontecendo?
- Ainda não localizamos o tubo. A situação aqui está bastante complicada. Robert Langdon tem sido de grande ajuda. Conseguimos uma vantagem sobre o homem que está assassinando os cardeais. Neste momento, estamos indo para...
- Senhorita Vetra - interrompeu Olivetti. - Já falou demais.
Ela cobriu o bocal do telefone, aborrecida.
- Comandante, ele é o presidente do CERN. Tem o direito de saber...
- Ele teria o direito - retrucou Olivetti - de estar aqui lidando com esta situação. A senhorita está falando em uma linha aberta de celular. E já falou demais.
Vittoria suspirou.
- Max?
- Tenho uma informação para você - disse Max -, sobre seu pai... Talvez eu saiba com quem ele falou a respeito da antimatéria.
O rosto de Vittoria anuviou-se.
- Max, meu pai disse que não contou nada a ninguém.
- Receio, Vittoria, que seu pai tenha contado tudo a alguém. Preciso verificar alguns registros confidenciais. Volto a entrar em contato com você em breve.
E desligou.
Vittoria estava pálida quando pôs de novo o telefone no bolso.
- Você está bem? - perguntou Langdon.
Ela sacudiu a cabeça, as mãos trêmulas denunciando a mentira.
- A igreja fica na Piazza Barberini - disse Olivetti, desligando a sirene e verificando seu relógio. - Temos nove minutos.
Assim que Langdon descobriu qual era o terceiro marco, a localização da igreja soou-lhe conhecida, mas não conseguia associar com quê. Piazza Barberini...
Agora sabia o que era. A piazza tinha a ver com uma discutida estação de metrô. Vinte anos antes, a construção de um terminal de metrô criara grande alvoroço entre os historiadores de arte, que temiam que as escavações sob a Piazza Barberini fizessem tombar um obelisco de muitas toneladas que havia no centro da praça. Os urbanistas removeram o obelisco e o substituíram por uma pequena fonte chamada o Tritão.
No tempo de Bernini, concluiu Langdon, a Piazza Barberini tinha um obelisco! Qualquer dúvida que Langdon tivesse sobre a localização do terceiro marco teria se evaporado naquele instante.
A um quarteirão da piazza, Olivetti entrou em uma viela, acelerou até o meio do caminho e parou com uma derrapada. Tirou o paletó do uniforme, enrolou as mangas da camisa e carregou sua arma.
- Não podemos correr o risco de vocês serem reconhecidos - disse. - Os dois apareceram na televisão.
Quero que vão para o lado oposto da piazza, fora da vista, e observem a entrada da frente. Vou entrar por trás. - Pegou o revólver e entregou-o a Langdon. - Só para garantir.
Langdon franziu a testa. Era a segunda vez naquele dia que lhe davam aquela arma. Guardou-a no bolso interno do paletó. Ao fazê-lo, reparou que ainda carregava o fólio do Diagramma. Esquecera de deixá-lo nos Arquivos! Imaginou o curador do Vaticano contorcendo-se em espasmos de raiva pela afronta de saber que seu documento de valor incalculável andara de um lado para outro em Roma como se fosse um mapa turístico. Depois, Langdon pensou na confusão de vidros quebrados e livros espalhados que deixara para trás. O curador teria outros problemas. Caso os arquivos durassem até o dia seguinte... Olivetti saiu do carro e apontou para trás.
- A piazza fica para aquele lado. Fiquem de olhos bem abertos e não deixem que ninguém os veja. - Deu um tapinha no telefone em seu cinto. - Senhorita Vetra, vamos testar de novo nossa autodiscagem.
Vittoria tirou seu telefone do bolso e apertou o número que ela e Olivetti tinham programado no Panteão. O telefone de Olivetti vibrou, com a campainha desligada, no seu cinto.
O comandante disse:
- Muito bem, se virem alguma coisa, quero que me digam - e engatilhou a arma. - Vou estar lá dentro esperando. Esse herege é meu.
Naquele mesmo momento, bem perto dali, outro telefone celular tocou.
O Hassassin atendeu.
- Fale.
- Sou eu, Janus.
O Hassassin sorriu.
- Olá, mestre.
- É possível que saibam onde você está. E saíram para tentar impedir que você aja.
- Vão chegar tarde. Já fiz os preparativos aqui.
- Ótimo. Procure escapar com vida. Ainda há trabalho para ser feito.
- Os que se atravessarem no meu caminho vão morrer.
- Eles são instruídos.
- Está falando do especialista americano?
- Sabe quem é?
O Hassassin deu uma risadinha.
- É calmo mas ingênuo. Falei com ele ao telefone algumas horas atrás. Está com uma mulher que parece ser o oposto.
O matador sentiu-se excitado ao lembrar o temperamento fogoso da filha de Leonardo Vetra.
Houve um silêncio momentâneo na linha, a primeira hesitação que o Hassassin percebia em seu mestre Iliuminati. Finalmente, Janus falou.
- Elimine-os se for necessário.
O matador riu.
- Considere isso feito.
Uma cálida expectativa espalhou-se por seu corpo. Embora talvez eu guarde a mulher como recompensa.
CAPÍTULO 89
Explodira uma guerra na Praça de São Pedro.
A praça irrompera em um frenesi agressivo. Os furgões da mídia tomavam posição cantando pneus, como se fossem veículos de assalto ocupando posições estratégicas. Repórteres desenrolavam fios de equipamentos de última geração com um nervosismo de soldados armando-se para uma batalha. Em toda a praça, as redes de emissoras disputavam uma posição e corriam para levantar a mais nova arma das guerras da mídia - os displays de tela plana.
Estes eram enormes telas de vídeo que podiam ser montadas no alto dos furgões ou em armações portáteis. Serviam como uma espécie de anúncio de outdoor para a rede, transmitindo a sua cobertura e ostentando o seu logotipo como um cinema ao ar livre. Se a tela ficasse bem situada - na frente do local da ação, por exemplo -, uma rede concorrente não poderia filmar a história sem fazer ao mesmo tempo a propaganda da adversária.
A praça rapidamente se transformava não só em um extravagante espetáculo multimídia, como em uma nervosa vigília pública. Chegavam pessoas de todas as direções. Espaço em um local que habitualmente não tinha limites começava a ser um artigo valioso. Os espectadores amontoavam-se em torno das imensas telas e assistiam, agitados, atordoados, às reportagens ao vivo.
A apenas uns 100 metros de distância, dentro das grossas paredes da Basílica de São Pedro, o mundo estava sereno. O tenente Chartrand e três outros guardas andavam em meio à escuridão. Usando seus óculos infravermelhos, cruzavam a nave movendo seus detectores de um lado para outro à sua frente. A busca nas áreas do Vaticano abertas ao público até então não dera em nada.
- É melhor tirar os óculos aqui - disse o guarda mais velho.
Chartrand já estava fazendo isto. Aproximavam-se do Nicho dos Pálios - o local rebaixado no centro da basílica. A luz de 99 lamparinas de óleo através do infravermelho teria queimado os olhos deles.
Chartrand ficou satisfeito por tirar os pesados óculos e aproveitou para alongar o pescoço enquanto desciam ao nicho para fazer a varredura daquela área. O aposento era muito bonito, dourado e luminoso.
Ele nunca estivera ali antes.
Parecia que, desde a sua chegada na Cidade do Vaticano, todos os dias Chartrand descobria um novo mistério daquele lugar. Aquelas lamparinas de óleo eram um deles. Exatamente 99, acesas permanentemente. Era a tradição. Os sacerdotes, vigilantes, enchiam as lamparinas com os óleos sagrados de modo que nenhuma se apagasse. Dizia-se que queimariam até o fim dos tempos.
Ou no mínimo até a meia-noite de hoje, pensou Chartrand, com a boca seca de novo.
Chartrand passou seu detector sobre as lamparinas de óleo. Nada escondido ali. Não se surpreendeu. O tubo, de acordo com a imagem do vídeo, estava escondido em uma área escura.
Andando pelo nicho, chegou a uma grade que cobria uma abertura no chão. A abertura levava a uma escada íngreme e estreita que descia em linha reta. Ouvira histórias sobre o que havia lá embaixo. Ainda bem que não teriam de descer. As ordens de Rocher tinham sido bem claras. Procurem apenas nas áreas abertas ao acesso do público.
- Que cheiro é esse? - perguntou, afastando-se da grade. Havia um perfume muito forte e doce no ar.
- Vem das lamparinas - um deles explicou.
Chartrand surpreendeu-se.
- Cheira mais a colônia do que a querosene.
- Não é querosene. Essas lamparinas estão próximas ao altar do Papa, de modo que se usa nelas uma mistura especial: etanol, açúcar, butano e perfume.
- Butano? - Chartrand olhou para as lamparinas, apreensivo.
O guarda confirmou.
- Cuidado para não entornar nenhuma delas. A mistura tem cheiro de água- de-colônia, mas queima como fogo.
Os guardas haviam terminado a busca no Nicho dos Pálios e estavam andando pela basílica quando seus walkies-talkies começaram a funcionar juntos.
Era um alerta geral. Os guardas pararam para escutar, pasmos.
Pelo jeito, teriam surgido novos transtornos que não podiam ser transmitidos pelos aparelhos, mas o camerlengo resolvera quebrar a tradição e entrar no conclave para falar com os cardeais. Nunca antes na História isto havia acontecido. Mas também, concluiu Chartrand, nunca antes o Vaticano estivera sob a ameaça de algo parecido com uma ogiva nuclear neotérica.
O que tranqüilizava Chartrand era saber que o camerlengo estava assumindo o controle. Ele era a pessoa dentro do Vaticano a quem Chartrand mais respeitava. Alguns dos guardas consideravam-no um beato - um fanático religioso cujo amor a Deus beirava a obsessão -, mas até eles concordavam que, quando se tratava de combater os inimigos de Deus, o camerlengo era o homem certo para entrar na briga e jogar duro.
A Guarda Suíça tivera muito contato com o camerlengo naquela semana de preparação do conclave e todos tinham comentado que o homem parecia meio ríspido, os olhos verdes mais intensos do que de costume. Não era à toa, diziam. Ele era o responsável por todo o planejamento do conclave e ainda por cima tinha de providenciar tudo aquilo logo depois da perda de seu mentor, o Papa.
Havia poucos meses que Chartrand estava no Vaticano quando ouvira a história da bomba que matara a mãe do camerlengo na frente do menino. Uma bomba na igreja e agora está acontecendo tudo de novo.
Infelizmente, as autoridades nunca prenderam os desgraçados que instalaram a tal bomba, provavelmente algum grupo extremista anticristão, disseram, e o caso caíra no esquecimento. Talvez fosse por isso que o camerlengo não gostava de apatia.
Uns dois meses antes, em uma tarde sossegada, Chartrand cruzara com o camerlengo vindo por um dos caminhos que cortavam a Cidade do Vaticano.
O sacerdote reconhecera Chartrand como um dos novos guardas e convidara-o para acompanhá-lo em um passeio a pé. Não conversaram sobre nenhum assunto em especial, mas o camerlengo fez Chartrand sentir-se imediatamente à vontade.
- Padre - disse Chartrand -, posso lhe fazer uma pergunta esquisita?
O camerlengo sorriu.
- Só se eu puder lhe dar uma resposta esquisita.
Chartrand achou graça.
- Já perguntei isto a todos os padres que conheço e continuo não entendendo.
- O que é que você não entende?
O camerlengo ia na frente em passos rápidos, o pé levantando a ponta da batina quando ele andava. Os sapatos eram pretos, de sola crepe, e combinavam com ele, pensou Chartrand, como se refletissem a essência do homem: moderno mas modesto e mostrando sinais de desgaste.
Chartrand respirou fundo.
- Não entendo o que vem a ser uma onipotência benevolente.
O camerlengo sorriu.
- Você anda lendo a Sagrada Escritura.
- Eu tento.
- E está confuso porque a Bíblia define Deus como uma divindade onipotente e benevolente.
- Exato.
- Onipotente e benevolente significa apenas que Deus é todo-poderoso e bem-intencionado.
- Compreendo o conceito. É que parece haver uma contradição aí.
- Sim. A contradição é a dor. A fome, as guerras, as doenças.
- Exatamente! - Chartrand sabia que o camerlengo compreenderia. - Coisas terríveis acontecem neste mundo. A tragédia humana é como uma prova de que Deus não pode ser simultaneamente todo-poderoso e bem-intencionado. Se Ele nos ama e tem o poder de mudar nossa situação, Ele deveria também evitar nossas dores, não é?
- Deveria mesmo? - perguntou o camerlengo.
Chartrand ficou embaraçado. Teria passado dos limites? Será que se tratava de uma daquelas perguntas religiosas que não se devia fazer?
- Bem, se Deus nos ama, se é capaz de nos proteger, Ele deveria, sim. Parece que Ele é onipotente e indiferente ou, ao contrário, benevolente e incapaz de nos ajudar.
- Tem filhos, tenente?
Chartrand enrubesceu.
- Não, signore.
- Imagine se tivesse um filho de oito anos. Você o amaria?
- Claro.
- E faria tudo o que pudesse para evitar que ele sofresse na vida?
- Claro que sim.
- E deixaria que ele andasse de skate?
Chartrand estacou, admirado. O camerlengo parecia singularmente "por dentro" para um sacerdote.
- Sim, acho que sim - disse Chartrand. - Com certeza deixaria que andasse de skate, mas diria a ele para ter cuidado.
- Quer dizer que, como pai desse menino, você lhe daria uns bons conselhos básicos e deixaria que saísse e cometesse seus próprios erros?
- Eu não correria atrás dele para mimá-lo, se é o que o senhor quer dizer.
- E se ele caísse e ralasse o joelho?
- Ele aprenderia a ser mais cuidadoso.
O camerlengo sorriu de novo.
- Então, quer dizer que, mesmo tendo o poder de interferir e evitar que seu filho sentisse dor, você optaria por demonstrar seu amor deixando-o aprender suas próprias lições?
- Claro, a dor é parte do crescimento. É como aprendemos.
O camerlengo sacudiu a cabeça.
- Exatamente.
CAPÍTULO 90
Langdon e Vittoria observavam a Piazza Barberini das sombras de uma viela. A igreja ficava do lado oposto ao local onde se encontravam, a cúpula enevoada emergindo de um vago aglomerado de construções do outro lado da praça. A noite trouxera consigo um frescor agradável e Langdon não esperava encontrar a praça tão deserta. Acima deles, pelas janelas abertas, o som das televisões ligadas lembrou-lhe onde estavam as pessoas todas.
- . . .o Vaticano ainda não se pronunciou . . . assassinos Illuminati de dois cardeais . . .presença satânica em Roma . . .especulações sobre maior infiltração...
As notícias se espalhavam como o incêndio de Nero. Roma inteira estava siderada, assim como o resto do mundo. Langdon pensava se de fato eles seriam capazes de interromper o percurso daquele trem descontrolado.
Examinando a praça enquanto esperava, ele notou que, apesar da invasão de edifícios modernos, a piazza ainda era notavelmente elíptica. No alto, como uma espécie de moderno sacrário para um herói do passado, um enorme letreiro de néon piscava no teto de um hotel de luxo. Vittoria já o havia mostrado a Langdon. O letreiro parecia sinistramente adequado.
HOTEL BERNINI
- Cinco para as dez - disse Vittoria, seus olhos felinos percorrendo viva- mente a praça.
Mal tinha acabado de falar, agarrou o braço de Langdon e puxou-o para trás, escondendo-os na escuridão.
Fez um gesto em direção ao meio da praça.
Langdon acompanhou o gesto dela. Quando viu o que apontava, ele ficou tenso. Atravessando a praça sob a luz de um poste, surgiram duas figuras sombrias.
Ambas usavam capas e as cabeças vinham cobertas por xales negros, o acessório tradicional das viúvas católicas. Poderiam ser mulheres, mas à noite não dava para se ter certeza. Um dos vultos parecia mais velho e movia-se como se sentisse dor, curvado, O outro, mais alto e forte, ajudava-o.
- Passe o revólver - disse Vittoria.
-Você não pode ir...
Ágil como um gato, ela pôs a mão no bolso dele e pegou mais uma vez a arma. O metal do revólver cintilou.
Então, em silêncio absoluto, como se seus pés nem tocassem as pedras do calçamento, ela rodeou a praça pela esquerda, sempre no escuro, para se aproximar da dupla pelas costas. Langdon ficou paralisado ao vê-la desaparecer. Depois, praguejando em voz baixa, saiu atrás dela.
A dupla avançava devagar e bastou meio minuto para Langdon e Vittoria postarem-se atrás deles e irem se aproximando aos poucos. Vittoria escondeu o revólver sob os braços cruzados displicentemente, fora da vista mas acessível em um instante. À medida que o espaço entre eles diminuía, ela dava a impressão de flutuar cada vez mais depressa, e Langdon se esforçava para acompanhá-la.
Quando o sapato dele esbarrou em uma pedra que saiu quicando, Vittoria fulminou-o com um olhar de soslaio. Os dois vultos não escutaram, porém. Estavam falando.
A uns dez metros de distância, Langdon começou a ouvir suas vozes. Mas não distinguiu nenhuma palavra. Só leves murmúrios. Ao lado dele, Vittoria andava mais rápido a cada passada, com os braços mais soltos e o revólver começando a aparecer. Seis metros. As vozes ficaram mais nítidas - uma delas muito mais alta do que a outra. Zangada. Reclamando. Parecia a voz de uma mulher idosa. Rouca. Andrógina. Tentou ouvir o que ela dizia quando uma outra voz cortou o silêncio da noite.
- Mi scusi! - o tom amistoso de Vittoria acendeu a praça como um holofote.
Langdon retesou-se ao ver o par embrulhado em suas capas parar de repente e começar a virar. Vittoria continuava a andar na direção das duas pessoas mais depressa ainda, em rota de colisão. De trás, Langdon viu os braços dela se soltarem, a mão surgir e o revólver balançar para a frente. Depois, por cima do ombro dela, enxergou um rosto iluminado pela luz do poste de rua. O pânico fez suas pernas agirem e ele se precipitou para diante.
- Vittoria, não!
Vittoria, contudo, parecia estar uma fração de segundo à frente dele. Em um movimento tão ligeiro quanto natural, ela levantou os braços de novo fazendo desaparecer o revólver enquanto cingia o próprio corpo, como fazem as mulheres em uma noite fria. Langdon chegou tropeçando ao lado dela, quase se chocando com a dupla encasacada.
- Buona sera - disse Vittoria, abruptamente, a voz meio alterada por causa do recuo.
Langdon suspirou aliviado. Duas senhoras idosas olhavam sérias para eles sob seus xales. Uma era tão velha que a muito custo se mantinha de pé. A outra amparava-a. Ambas seguravam rosários. Pareciam espantadas com a súbita abordagem.
Vittoria sorriu, embora com expressão abalada.
- Dov'è la chiesa Santa Maria deila Vittoria? Onde é a igreja de...
As duas apontaram juntas a silhueta maciça de um prédio na rua inclinada de onde haviam saído.
- É là.
- Grazie - disse Langdon, pondo as mãos nos ombros de Vittoria e puxando-a de leve para trás. Era inacreditável, mas quase tinham atacado duas senhoras de idade.
- Non si puó entrare - preveniu uma das senhoras. - É chi usa temprano.
- Fechou mais cedo? - perguntou Vittoria, espantada. - Perchè?
Ambas explicaram ao mesmo tempo. Zangadíssimas. Langdon só entendeu parte das palavras resmungadas em italiano. Aparentemente, 15 minutos antes, as duas estavam na igreja rezando pelo Vaticano, que se encontrava naquela situação dificil, quando um homem aparecera e dissera que a igreja iria ser fechada mais cedo.
- Hanno conosciuto l'uomo?- indagou Vittoria, nervosa. - Conheciam o homem? As mulheres sacudiram a cabeça. O homem era um straniero crudo, completaram, e tinha obrigado todos que se encontravam lá dentro a sair, até o jovem padre e o zelador, que disseram que iriam chamar a polícia. Mas o intruso limitara-se a rir e lhes dissera para recomendar à polícia que não se esquecesse de trazer câmeras.
Câmeras?, repetiu Langdon mentalmente.
Irritadas, as mulheres chamaram o homem de bar-à rabo e continuaram seu caminho.
- Bar-à rabo? - Langdon perguntou a Vittoria. - Um bárbaro?
Vittoria enrijeceu-se de repente.
- Não. Bar-àrabo é um trocadilho pejorativo. Significa Àrabo, árabe.
Langdon sentiu um arrepio e virou-se para a igreja. Ao fazê-lo, divisou algo através dos vitrais. A imagem encheu-o de pavor.
Sem reparar, Vittoria pegou seu celular e apertou o botão combinado para a autodiscagem.
- Vou avisar Olivetti.
Sem fala, Langdon tocou no braço dela. Com a mão trêmula, apontou para a igreja. Vittoria prendeu a respiração.
Dentro da igreja, fulgurantes como pupilas diabólicas através do vidro colorido, reluziam os clarões das primeiras chamas de um incêndio.
CAPÍTULO 91
Langdon e Vittoria correram para a entrada principal da igreja de Santa Maria de la Vittoria e encontraram a porta de madeira trancada. Vittoria disparou três tiros na fechadura antiga e arrebentou-a.
A igreja não possuía átrio, de modo que o santuário inteiro se abriu à vista em toda a sua extensão quando os dois escancararam a porta. Deram com uma cena tão inesperada, tão bizarra, que Langdon tev e de fechar e abrir os olhos para assimilá-la por inteiro.
A igreja era toda de um profuso estilo barroco, com paredes e altares dourados. Bem no meio do santuário, sob a cúpula principal, os bancos de madeira haviam sido empilhados e incendiados, formando uma espécie de pira funerária épica. Uma fogueira acesa lançando suas labaredas para o domo. Quando Langdon acompanhou com o olhar aquele inferno, o indizível horror do espetáculo completo desceu sobre ele como uma ave de rapina.
Do alto, dos lados direito e esquerdo do teto, pendiam dois cabos de incensórios -cordões usados para balançar recipientes com incenso acima da congregação. Nesses cordões, porém, não havia agora nenhum incensório pendurado. Nem os cordões estavam balançando. Haviam sido usados para outra finalidade...
Suspenso pelos cordões havia um ser humano. Um homem despido. Cada um de seus pulsos fora amarrado a um dos cordões e ele fora içado e esticado quase ao ponto de ser partido ao meio. Seus braços estavam abertos como se tivesse sido pregado em uma cruz invisível que pairasse no ar na casa de Deus.
Paralisado, Langdon olhava para cima. No momento seguinte, presenciou a crueldade final. O velho estava vivo e mexeu a cabeça. Um par de olhos aterrorizados voltou-se para baixo em uma súplica silenciosa por ajuda. No peito do homem, o desenho da queimadura. Ele fora marcado a fogo. Langdon não conseguia ver com nitidez, mas não tinha dúvidas sobre o que estava escrito. As labaredas cresceram e lamberam os pés da vítima, que gritou de dor, o corpo tremendo.
Movido por uma força inexplicável, Langdon sentiu seu corpo entrar em movimento e sair correndo pela nave central na direção do fogo. Seus pulmões encheram-se de fumaça ao chegar mais perto. A três metros da fogueira, a toda velocidade, ele se chocou com uma parede de calor. A pele de seu rosto ficou chamuscada e ele caiu para trás, protegendo os olhos com os braços, o corpo batendo com força no chão de mármore. Levantou-se cambaleando e tentou avançar outra vez, as mãos erguidas na frente do rosto.
Mas o calor era intenso demais.
Retrocedeu e esquadrinhou as paredes da igreja. Uma tapeçaria pesada, pensou. Se de algum modo eu conseguir abafar o fogo... Mas sabia que seria impossível encontrar uma tapeçaria ali. Isto é uma igreja barroca, Robert, não é um castelo alemão! Pense! Obrigou-se a olhar de novo para o homem pendurado.
No alto, um torvelinho de fumaça e chamas agitava-se na cúpula. Os cordões de incensórios que prendiam os punhos do homem subiam para o teto, passavam por roldanas e desciam novamente até duas braçadeiras de metal colocadas em cada uma das paredes laterais da igreja. Langdon examinou uma das braçadeiras. Ficava no alto da parede, mas se ele a alcançasse e afrouxasse um dos cordões, a tensão diminuiria e o corpo do homem balançaria, afastando-se bastante do fogo.
As chamas aumentaram repentinamente e Langdon ouviu um grito lancinante vindo de cima. A pele dos pés do cardeal cobrira-se de bolhas. Ele estava sendo assado vivo. Langdon concentrou-se na braçadeira e precipitou-se para ela.
No fundo da igreja, Vittoria segurou-se com força no encosto de um dos bancos tentando recuperar-se. A imagem no alto era medonha. Virou o rosto.
Faça alguma coisa! Queria saber onde estava Olivetti. Teria encontrado o Hassassin? Será que o pegara? Onde estariam eles agora? Andou na direção de Langdon para ajudá-lo, mas um som a fez parar.
O estalar das labaredas fazia cada vez mais barulho, mas havia também um segundo som cortando o ar.
Uma vibração metálica. Perto. A pulsação repetitiva parecia vir da extremidade do banco à sua esquerda.
Era uma trepidação seca, como o toque de um telefone, mas dura, pétrea. Ela segurou o revólver com firmeza e caminhou ao longo da fileira de bancos. O som ficou mais alto. Soava e parava. Uma vibração recorrente.
Ao chegar no fim da passagem, percebeu que o som vinha do chão, atrás do último banco. Quando avançou com o revólver na mão direita levantada, notou que também segurava algo na mão esquerda - seu telefone celular. Com toda aquela tensão, esquecera que o usara lá fora para discar para o comandante, acionando a vibração silenciosa do telefone dele, o aviso combinado. Vittoria colocou seu telefone no ouvido. Ainda estava tocando. O comandante não chegara a atender. Súbito, com um medo crescente, achou que sabia o que estava produzindo aquele ruído. Deu mais um passo, trêmula.
A igreja pareceu afundar sob seus pés quando se deparou com a forma sem vida no chão. Nenhum líquido fluía do corpo. Nenhum sinal de violência marcava a carne. Havia somente a terrível geometria da cabeça do comandante virada para trás, torcida 180 graus na direção errada. Vittoria lutou contra a lembrança do corpo mutilado de seu próprio pai.
O telefone no cinto do comandante estava encostado no chão, vibrando sem parar de encontro ao mármore frio. Vittoria desligou o seu e o ruído cessou.
No silêncio, ela escutou um outro som. A respiração de alguém nas sombras atrás dela.
Começou a girar o corpo apontando a arma, mas já sabia que seria tarde demais. Foi como se um raio atingisse seu corpo do alto do seu crânio às solas dos pés quando o cotovelo do assassino encostou na sua nuca.
- Agora você é minha - disse uma voz.
Então, tudo ficou negro.
Do outro lado da igreja, na parede lateral esquerda, Langdon equilibrava-se em um banco, estendendo o braço em impulsos, tentando alcançar a braçadeira. O cordão estava a mais de três metros acima de sua cabeça. Braçadeiras como aquela eram comuns nas igrejas, sempre colocadas no alto para evitar que fossem tocadas. Langdon sabia que os padres usavam escadas de madeira chamadas piuàli para alcançar as braçadeiras. O matador obviamente usara a escada da igreja para içar sua vítima. Onde está o raio da escada? Langdon olhou para baixo, procurando-a pelo chão. Tinha uma vaga lembrança de ter visto uma escada por ali em algum lugar. Mas onde? Um segundo mais tarde, lembrou-se, desalentado, onde a vira. Voltou-se para a fogueira. Lá estava a escada, sobre a pilha de bancos, envolta em chamas.
Desesperado, olhando do alto, procurou por toda a igreja algo que o pudesse ajudar a alcançar a braçadeira. E, de repente, ocorreu-lhe: onde estará Vittoria? Ela desaparecera. Será que foi buscar ajuda? Gritou o nome dela, mas não obteve resposta. E onde foi parar Olivetti?
Ao ouvir um urro de dor vindo de cima, Langdon achou que já era tarde demais. Levantando os olhos de novo para a vítima que queimava lentamente, ele só pensou em uma coisa. Água. Muita água. Para apagar o fogo. Pelo menos para diminuir a altura das chamas.
- Preciso de água, de água! - berrou ele.
- Mais tarde - rosnou uma voz vinda do fundo da igreja.
Langdon girou, quase caindo do banco.
Em largas passadas pela nave lateral, vinha em sua direção um monstro sombrio em forma de homem. Mesmo à luz da fogueira, seus olhos negros tinham um brilho escuro. Langdon reconheceu na mão dele o revólver que saíra do bolso de seu próprio casaco, o que Vittoria estivera segurando ao entrarem na igreja.
A repentina onda de pânico que o acometeu era uma mistura desconexa de muitos medos. Seu primeiro instinto foi pensar em Vittoria. O que aquele animal teria feito com ela? Estaria machucada? Ou algo pior? Naquele instante, o homem que estava suspenso lá em cima começou a gritar mais alto. O cardeal ia morrer. Era impossível ajudá-lo agora. Quando o Hassassin mirou o revólver no peito de Langdon, o pânico novamente se apoderou dele, seus sentidos ficaram sobrecarregados. E, quando o tiro partiu, seu reflexo foi pular de cabeça, os braços estendidos para a frente, no mar de bancos da igreja.
Chocou-se com os bancos com mais força do que imaginara, rolando imediatamente para o chão. O mármore recebeu o impacto do seu corpo com a mesma gentileza do aço frio. Passos aproximaram-se pela direita. Langdon virou o corpo para a frente da igreja e saiu agachado, oculto pelos bancos, tentando salvar a própria vida.
Muito acima do chão da igreja, o cardeal Guidera vivia seus últimos torturantes minutos de consciência. Ao baixar os olhos para seu corpo nu, viu a pele dos seus pés formando bolhas e soltando-se. Estou no inferno, concluiu. Deus, por que me abandonastes? Sabia que devia ser o inferno porque estava olhando para as letras em seu peito de cabeça para baixo e, no entanto, como se por um sortilégio do demônio, a palavra era perfeitamente legível.
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CAPÍTULO 92
Três votações. E nada de Papa.
Dentro da Capela Sistina o cardeal Mortati começou a rezar por um milagre. Mande-nos os candidatos!
O atraso já se prolongara demais. Um único candidato faltando, dava para entender. Mas os quatro? Não deixava nenhuma opção. Naquelas condições, só por um ato de Deus em pessoa obteriam a maioria de dois terços.
Quando as dobradiças da porta externa começaram a ranger e a porta se abriu, Mortati e todo o Colégio dos Cardeais voltaram-se juntos para a entrada. Mortati sabia que aquilo só poderia significar uma coisa. Pela lei, as portas da capela somente podiam ser abertas por duas razões -para retirar do recinto os que se encontrassem muito doentes ou para admitir os cardeais atrasados.
Os preferiti estão chegando!
O coração de Mortati alçou vôo, O conclave estava salvo.
Todavia, quando a porta se abriu, o murmúrio de espanto que ecoou pela capela não foi de alegria. Mortati viu, incrédulo, o homem entrar na capela. Pela primeira vez na história do Vaticano, um camerlengo atravessava o sagrado limiar do conclave depois de selar as portas.
O que ele pensa que está fazendo?
O camerlengo encaminhou-se para o altar e posicionou-se para falar à platéia estupefata.
- Signori - disse -, esperei o mais que pude. Existe algo que todos aqui têm o direito de saber.
CAPÍTULO 93
Langdon avançava sem saber para onde ia. Sua única bússola eram seus reflexos, afastando-o do perigo. Seus cotovelos e joelhos ardiam enquanto se esgueirava entre os bancos, mas não parava. Algo lhe dizia para ir para a esquerda. Se conseguir chegar à nave principal, posso correr para a saída. Mas isto seria impossível. Há uma parede de fogo no meio da nave principal! Com a cabeça à cata de opções, ele prosseguia cegamente. Os passos aproximavam-se mais depressa, agora pela direita.
Quando aconteceu, Langdon não estava preparado. Calculara que houvesse mais uns três metros de fileiras de bancos até a parte da frente da igreja. Calculara mal. Inesperadamente, seu esconderijo terminou. Imobilizou-se um instante, meio exposto na frente da igreja. Erguendo-se no nicho à sua esquerda, estava a escultura que o levara ali. Esquecera-se completamente dela.
O Êxtase de Santa Teresa de Bernini surgia como uma espécie de natureza-morta pornográfica: a santa deitada de costas, o tronco arqueado de prazer, a boca entreaberta em um gemido e, acima dela, o anjo apontando sua lança de fogo.
Uma bala explodiu no banco por cima da cabeça de Langdon. Seu corpo precipitou-se como o de um atleta quando é dada a largada. Impelido somente pela adrenalina e sem ter muita consciência de seus atos, ele subitamente estava correndo, curvado, a cabeça abaixada, atravessando a frente da igreja para a direita.
Com as balas pipocando às suas costas, mergulhou de novo e deslizou sem controle pelo piso de mármore até ir de encontro à grade de um nicho na parede do lado direito.
Foi então que a viu. Caída no chão junto ao fundo da igreja. Vittoria! As pernas nuas estavam torcidas sob o corpo, mas Langdon de alguma forma pressentiu que ela estava respirando. E não tinha tempo para ajudá-la.
Imediatamente, o matador contornou as fileiras de bancos na extremidade esquerda da igreja e avançou para ele, implacável. Em uma fração de segundo Langdon percebeu que não tinha mais saída. O matador levantou a arma e Langdon fez a única coisa que podia. Rolou o corpo por cima da grade para dentro do nicho. Ao bater no chão do outro lado, as colunas de mármore da balaustrada foram atingidas por uma saraivada de balas.
Langdon sentiu-se como um animal encurralado ao recuar para o fundo do recinto semicircular. Diante dele, a única peça que ocupava aquele espaço parecia ironicamente oportuna- um sarcófago isolado.
Talvez o meu, pensou. Até a tumba em si era apropriada: uma scàtola - um pequeno e despojado ataúde de mármore. Um enterro de acordo com o orçamento. O ataúde estava apoiado em dois blocos de mármore e Langdon examinou a abertura entre eles tentando calcular se daria para passar por ali.
Passos ecoaram atrás dele.
Sem outra opção em vista, ele se comprimiu contra o chão e rastejou na direção da tumba. Agarrando os dois suportes de mármore, um em cada mão, deu impulso como se estivesse nadando de peito e puxou o tronco para dentro da abertura sob o ataúde. O revólver do homem disparou.
Junto com o estrondo do tiro, Langdon experimentou uma sensação que nunca tivera em sua vida, a de uma bala passando rente à sua carne. Ouviu o silvo do ar, igual ao que se escuta depois de uma chicotada, quando a bala raspou sua pele e depois penetrou no mármore levantando uma nuvem de pó. Com o sangue brotando, arrastou-se pelo resto do espaço embaixo do ataúde. No final, levantou-se e correu para o outro lado.
Para um beco sem saída.
Langdon estava agora cara a cara com a parede do fundo do nicho, já convencido de que o espaço exíguo atrás da tumba seria o lugar onde iria cair morto. E vai ser logo, disse para si ao ver o cano da arma surgir na abertura sob o sarcófago. O Hassassin segurava o revólver quase encostado no chão, mirando direto no meio do tronco de Langdon.
Impossível errar.
Um resto de autopreservação apoderou-se do inconsciente de Langdon. Torceu o corpo e virou-se de barriga, paralelamente ao ataúde. Com o rosto para baixo, fincou as mãos no chão, o corte do vidro dos arquivos abrindo-se com uma ferroada. Sem fazer caso da dor, empurrou o corpo para cima de modo desajeitado, arqueando o estômago e afastando-o do chão no mesmo instante em que o outro atirou. Dava para sentir a onda de choque das balas passando por baixo dele e pulverizando o poroso mármore travertino atrás. Fechou os olhos. Lutando contra a exaustão, Langdon rezou para que o tiroteio parasse.
E parou.
À trovoada de tiros seguiu-se o estalido seco de um tambor vazio.
Langdon abriu os olhos devagar, quase temendo que suas pálpebras fizessem algum ruído. Com um enorme esforço, apesar da dor que o fazia tremer, ele manteve a posição, arqueado como um gato. Não se atrevia nem a respirar. Os tímpanos entorpecidos pelo barulho dos tiros, tentava escutar qualquer sinal que lhe indicasse que o assassino se fora. Silêncio. Pensou em Vittoria, ansioso para ir ajudá-la.
O som que se seguiu foi ensurdecedor. Animalesco. Um grito gutural de esforço.
O sarcófago acima da cabeça de Langdon inclinou-se apoiado em um dos lados. O corpo de Langdon tombou e a peça de mármore pesando centenas de quilos oscilou em sua direção. A gravidade superou o atrito e a tampa foi a primeira a cair, escorregando de cima da tumba e despencando com grande estrépito ao lado dele. O ataúde veio atrás, soltando-se de seus apoios e caindo emborcado em cima de Langdon.
Quando o ataúde desceu, Langdon achou que ficaria sepultado no oco embaixo dele ou seria esmagado por um dos seus lados. Encolhendo as pernas e a cabeça, ele compactou o próprio corpo e ainda puxou os braços para junto do tronco. Fechou os olhos na expectativa angustiante.
O ataúde de mármore bateu com força no chão, que sacudiu inteiro. A borda superior assentara-se a milímetros do alto de sua cabeça, fazendo seus dentes chacoalharem. Seu braço direito, que Langdon tivera a certeza de que seria esmigalhado, estava miraculosamente intacto. Abriu os olhos e viu uma faixa de luz. A borda direita do ataúde não chegara a encostar no chão e ainda estava em parte apoiada sobre seus suportes. Olhando para cima, contudo, Langdon viu-se literalmente encarando a morte.
O ocupante original da tumba estava pendurado acima dele, tendo aderido ao fundo do sarcófago, como costuma acontecer com os corpos em decomposição. O esqueleto esperou um instante, como um amante cauteloso, e então, crepitante, pegajoso, sucumbiu à gravidade e despregou-se. O esqueleto precipitou-se para abraçá-lo, em meio a uma chuva de pó e ossos pútridos que lhe cobriram os olhos e a boca.
Antes que Langdon pudesse reagir, um braço penetrou na abertura debaixo do ataúde, coleando por entre a ossada como uma serpente faminta. Tateou até encontrar o pescoço de Langdon e comprimiu-o.
Langdon tentou lutar contra o punho de ferro que apertava sua garganta, mas descobriu que a manga esquerda de seu paletó ficara presa sob a borda do ataúde. Tinha somente um braço livre e o resultado da luta seria uma batalha perdida.
As pernas de Langdon dobraram-se no único espaço que havia, os pés procurando apoiar-se no fundo do ataúde acima. Encontrando o apoio, encolheu-se e firmou os pés. A mão em seu pescoço apertou mais forte; ele fechou os olhos e estendeu as pernas como um aríete. O ataúde moveu-se ligeiramente para o lado, mas já foi o suficiente.
Com um rangido áspero, o sarcófago deslizou de cima dos suportes e bateu no chão. A borda de mármore caiu sobre o braço do homem, que soltou uma exclamação abafada de dor. A mão largou o pescoço de Langdon, contorcendo-se e sacudindo no escuro. Quando o homem finalmente conseguiu puxar o braço para fora, o ataúde caiu com um baque definitivo de encontro ao chão liso de mármore.
Escuridão completa. De novo. E silêncio.
Não houve batidas frustradas do lado de fora do sarcófago virado. Nenhuma tentativa para levantá-lo.
Nada. Deitado no escuro no meio de uma pilha de ossos, Langdon procurou desviar o rumo de seus pensamentos.
Vittoria. Será que você está viva?
Se ele soubesse a verdade, a terrível situação em que Vittoria se encontraria ao acordar, teria desejado, para o próprio bem dela, que estivesse morta.
CAPÍTULO 94
Sentado na Capela Sistina junto com seus companheiros estarrecidos, o cardeal Mortati tentava assimilar as palavras que escutava. Diante deles, iluminado apenas pela luz das velas, o camerlengo acabara de contar uma história de tamanho ódio e perfídia que Mortati, quando deu por si, estava tremendo. O camerlengo falou de cardeais seqüestrados, cardeais marcados a fogo, cardeais assassinados. Falou dos antigos Illuminati, um nome que trazia à memória medos esquecidos, do ressurgimento deles e de seu juramento de vingança contra a Igreja. Com a voz cheia de pesar, o camerlengo falou de seu último Papa, vítima de envenenamento pelos Illuminati. E por fim, num sussurro, falou de uma nova tecnologia mortal, a antimatéria, que ameaçava destruir toda a Cidade do Vaticano em menos de duas horas.
Quando terminou, foi como se o próprio satã tivesse sugado todo o ar do ambiente. Ninguém se mexia. As palavras do camerlengo pairavam na penumbra.
O único som que Mortati ouvia agora era o zumbido inusitado de uma câmera de TV ao fundo, uma presença eletrônica que nenhum conclave na história jamais tolerara, mas uma presença exigida pelo camerlengo. Para espanto completo dos cardeais, o camerlengo entrara na Capela Sistina com dois repórteres da BBC - um homem e uma mulher - e anunciara que eles transmitiriam seu pronunciamento solene ao vivo para o mundo.
Agora, falando diretamente para a câmera, o camerlengo deu um passo à frente.
- Aos Iliuminati - disse ele, a voz mais grave - e aos homens de ciência, deixem que lhes diga uma coisa - e fez uma pausa. - Vocês ganharam a guerra.
O silêncio espalhara-se agora pelos recônditos mais profundos da capela. Mortati ouvia a batida desesperada de seu próprio coração.
- As engrenagens estão em movimento há muito tempo - disse o camerlengo. - Sua vitória foi inevitável.
Nunca antes isto ficou tão evidente quanto neste momento. A ciência é o novo Deus.
O que ele está dizendo!, pensou Mortati. Será que enlouqueceu? O mundo inteiro está escutando isso!
- Medicina, comunicações eletrônicas, viagens espaciais, manipulação genética, estes são os milagres sobre os quais agora falamos às nossas crianças. Estes são os milagres que alardeamos como prova de que a ciência nos trará as respostas. As histórias antigas de concepções imaculadas e mares que se abrem não são mais relevantes. Deus ficou obsoleto. A ciência venceu a batalha. Nós nos rendemos.
Um rumor de confusão e perplexidade agitou a capela.
- Mas a vitória da ciência - o camerlengo acrescentou, a voz se intensificando - nos custou caro. Custou muito caro para cada um de nós.