Anjos e Demônios
- O ex-presidente George Bush? Um Illuminatus?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Chartrand entrou depressa no segundo corredor, dobrou mais uma esquina e correu para a porta da biblioteca. O pórtico de madeira era diminuto, mas surgia no escuro como uma austera sentinela. As batidas vinham de dentro. Chartrand hesitou. Nunca estivera antes na biblioteca particular. Poucos tinham estado. Ninguém tinha autorização para entrar ali a não ser acompanhado pelo próprio Papa.
Tateando, encontrou a maçaneta e virou-a. Como previra, a porta estava trancada. Encostou a orelha na porta. As batidas ficaram mais altas. Então, ouviu mais alguma coisa. Vozes! Alguém chamando!
Não distinguia as palavras, mas notava o pânico nos gritos. Alguém estaria preso na biblioteca? Será que a Guarda Suíça não evacuara completamente o prédio? Chartrand estava indeciso, sem saber se deveria voltar e consultar Rocher. Ora, ele que se danasse. Chartrand fora treinado para tomar decisões e era o que faria agora. Tirou a arma da cintura e deu um único tiro no trinco. A madeira estourou e a porta se abriu.
Lá dentro, Chartrand só viu escuridão. Apontou a lanterna. A sala era retangular - tapetes orientais, altas estantes de carvalho cheias de livros, um sofá de couro e uma lareira de mármore. Chartrand ouvira histórias sobre aquele lugar - três mil livros antigos lado a lado com centenas de revistas e jornais modernos, qualquer coisa que Sua Santidade solicitasse. A mesa baixa de centro estava coberta de publicações especializadas sobre ciência e política.
As batidas estavam mais nítidas agora. Chartrand dirigiu o foco da lanterna para o lado oposto, de onde vinha o som. Na parede do fundo, além do conjunto de sofá e cadeiras, havia uma enorme porta de aço. De aparência tão impenetrável quanto a de um cofre. Tinha quatro fechaduras colossais. O que estava escrito em letras pequeninas bem no centro da porta tirou o fôlego de Chartrand.
IL PASSETTO
Chartrand estava boquiaberto. A saída secreta do Papa! Já escutara comentários sobre o Passetto, é claro, e até ouvira falar que antigamente existia uma entrada ali, pela biblioteca, mas não se usava o túnel havia séculos! Quem poderia estar do outro lado?
O rapaz pegou a lanterna e bateu com ela na porta. Soou uma exclamação abafada de alegria do outro lado.
As batidas cessaram e as vozes gritaram mais alto. Chartrand não distinguia direito as palavras através da barreira.
- Kohler... mentira... camerlengo...
- Quem está aí? - gritou Chartrand.
- .. .ert Langdon... Vittoria Ve...
Chartrand compreendeu, mas não assimilou logo o que ouviu. Pensei que estivessem mortos!
- .. . a porta - gritaram as vozes. - Abra...!
Chartrand olhou para a porta de aço e achou que seria preciso usar dinamite para abri-la.
- Impossível! - gritou de volta. - Grossa demais!
- . . .encontro . . .impedir . . .erlengo... perigo...
A despeito de seu treinamento sobre os riscos do pânico, o guarda foi acometido por uma onda de medo ao ouvir as últimas palavras. Será que compreendera direito? Com o coração acelerado, virou-se para voltar correndo para o escritório. Ao fazê-lo, porém, estacou. Seu olhar parou em algo na porta - algo mais impressionante ainda do que a mensagem que vinha do outro lado. Presas em todos os buracos das enormes fechaduras da porta havia chaves. As chaves estavam ali? Como? Ele piscava, estático, sem acreditar. As chaves daquela porta supostamente deveriam estar guardadas em algum cofre! Aquela passagem nunca era usada - não nos últimos séculos!
Chartrand pousou sua lanterna no chão. Virou a primeira chave. O mecanismo estava enferrujado e duro, mas ainda funcionava. Alguém o abrira recentemente. Abriu a segunda fechadura. E a seguinte. Quando a última lingüeta se soltou, ele puxou a porta. O bloco de aço abriu-se com um rangido. Ele pegou a lanterna e dirigiu-a para a entrada.
Robert Langdon e Vittoria Vetra tinham o aspecto de duas aparições ao entrarem cambaleantes na biblioteca. Ambos estavam em frangalhos e cansados, mas bem vivos.
- O que houve? - perguntou Chartrand. - O que está acontecendo? De onde vocês vieram?
- Onde está Max Kohler? - perguntou Langdon.
Chartrand apontou.
- Em um encontro particular com o camer...
Langdon e Vittoria passaram por ele e correram para a porta da biblioteca. Chartrand, por instinto, levantou o revólver para as costas deles. Mas logo abaixou a arma e foi atrás dos dois. Rocher provavelmente os ouviu se aproximando porque, quando chegaram à porta do escritório do Papa, ele se posicionara com as pernas afastadas e apontava-lhes o revólver.
-Alto!
- O camerlengo está em perigo! - berrou Langdon, levantando os braços e parando. -Abra a porta! Max Kohler vai matar o camerlengo!
Rocher parecia zangado.
- Abra a porta! - disse Vittoria. - Depressa!
Mas era tarde demais.
De dentro do escritório do Papa veio um grito pavoroso. Era o camerlengo.
CAPÍTULO 114
O confronto durou apenas alguns segundos.
O camerlengo Ventresca ainda estava gritando quando Chartrand passou por Rocher e arrebentou a porta do escritório do Papa com um tiro. Os guardas entraram correndo, com Langdon e Vittoria atrás deles.
A cena com que se depararam era estarrecedora.
O aposento só contava com a iluminação de velas e do fogo quase apagado da lareira. Kohler estava perto da lareira, de pé, desajeitado, junto à sua cadeira de rodas. Brandia uma pistola, apontada para o camerlengo, que jazia no chão a seus pés, contorcendo-se de dor. A batina do camerlengo estava rasgada e seu peito nu fora marcado a fogo. Langdon, do outro lado da sala, não conseguiu distinguir o símbolo, mas um grande ferro de marcar quadrado encontrava-se no chão perto de Kohler. O metal ainda estava em brasa.
Dois guardas suíços agiram sem vacilar. Abriram fogo. As balas penetraram no peito de Kohler, jogando-o para trás. Kohler caiu em sua cadeira de rodas, o sangue jorrando. O revólver resvalou pelo chão.
Langdon, aturdido, não passou da porta.
Vittoria ficou paralisada.
- Max... - murmurou.
O camerlengo, ainda se revirando no chão, rolou o corpo na direção de Rocher e, tendo no rosto a expressão de terror exaltado dos primeiros caçadores de bruxas, apontou o dedo indicador para Rocher e berrou uma única palavra:
- ILLUMINATUS!
- Seu canalha - disse Rocher, correndo para ele. - Seu canalha hipócrita...
Dessa vez foi Chartrand quem reagiu por instinto, metendo três balas nas costas de Rocher. O rosto do capitão bateu primeiro no piso de azulejos e ele escorregou inerte em seu próprio sangue. Chartrand e os guardas correram então para o camerlengo, que se contraía todo, com dores atrozes.
Os guardas soltaram exclamações horrorizadas ao verem o símbolo marcado no peito do camerlengo. O segundo guarda viu a marca de cabeça para baixo e recuou cambaleante, cheio de medo. Chartrand, igualmente perturbado pelo símbolo, puxou a batina rasgada do camerlengo para cima da queimadura, escondendo-o.
Langdon teve a sensação de estar delirando ao cruzar o aposento. Em meio à bruma de insanidade e violência, ele tentava entender o que estava presenciando.
Um cientista aleijado, num gesto final de autoridade simbólica, voara até a Cidade do Vaticano para marcar a fogo o personagem mais eminente da Igreja. Há coisas pelas quais vale a pena morrer, dissera o Hassassin. Langdon se perguntava como um deficiente fisico poderia ter dominado o camerlengo. Mas Kohler estava armado. Não importava como o fizera! Kohler cumprira sua missão!
Langdon aproximou-se da cena medonha. O camerlengo já estava sendo assistido e Langdon foi atraído pelo ferro fumegante caído perto da cadeira de Kohler. A sexta marca? Quanto mais olhava, menos compreendia. A marca parecia ser um quadrado perfeito, bastante grande e seguramente viera do sagrado compartimento central da arca que estava no refúgio dos Illuminati. A sexta marca, dissera o Hassassin. A mais brilhante de todas.
Langdon ajoelhou-se ao lado de Kohler e estendeu a mão para pegar o objeto. O metal ainda irradiava calor. Segurou o cabo de madeira e levantou-o. Não sabia o que esperava ver, mas decerto não era isso.
Olhou fixamente para a peça durante um longo e confuso momento. Nada fazia sentido. Por que os guardas tinham gritado, apavorados, ao ver a marca? Era um quadrado de rabiscos incompreensíveis. A mais brilhante de todas? Era simétrica, dava para notar ao girá-la na mão, mas era um deboche.
Ao sentir a mão de alguém em seu ombro, Langdon ergueu a cabeça, pensando que era Vittoria.
A mão, porém, estava coberta de sangue. Pertencia a Maximilian Kohler, que a estendia de sua cadeira de rodas.
Langdon deixou cair o ferro de marcar e levantou-se apressadamente. Kohler ainda estava vivo!
O corpo afundado na cadeira, o diretor agonizava mas ainda estava respirando, embora com dificuldade, arquejante. Seus olhos encontraram os de Langdon com a mesma expressão dura que o recebera no CERN horas antes. Parecia ainda mais severa na hora da morte, com a aversão e a animosidade vindo à tona.
O corpo do cientista ainda se agitava em leves convulsões e Langdon achou que ele estava tentando se mexer. Todos na sala se concentravam no camerlengo naquele momento. Langdon quis chamar alguém, mas não foi capaz de reagir. Fascinava-o a intensidade que emanava de Kohler nos segundos finais de sua vida, O diretor, com esforço, trêmulo, levantou o braço e tirou um pequeno objeto do braço de sua cadeira.
Do tamanho de uma caixa de fósforos. Segurou-o no ar, oscilante. Langdon chegou a pensar que Kohler tivesse uma arma. Mas era outra coisa.
- En... tregue... - a voz não passava de um sussurro entrecortado. - En... tregue isto... à imprensa.
Kohler tombou, imóvel, e o aparelho caiu em seu colo.
Abalado, Langdon olhou para o aparelho. Era eletrônico. As palavras SONY RUVI estavam impressas na frente. Tratava-se de uma dessas pequenas câmeras de vídeo em miniatura que cabem na palma da mão.
Que audácia desse sujeito, pensou. Kolher provavelmente gravara alguma mensagem suicida e queria que a imprensa a divulgasse - sem dúvida algum sermão sobre a importância da ciência e os maleficios da religião. Langdon decidiu que já fizera demais pela causa daquele homem naquela noite. Antes que Chartrand visse a pequenina câmera, Langdon enfiou-a no bolso mais fundo de seu paletó. A mensagem final de Koller que vá para o inferno!
Foi a voz do camerlengo que quebrou o silêncio. Ele tentava se sentar.
- Os cardeais - disse ele a Chartrand, ofegante.
- Ainda estão na Capela Sistina! - exclamou Chartrand. - O capitão Rocher ordenou...
- Faça-os sair agora. Todos.
Chartrand despachou às pressas um dos outros guardas para soltar os cardeais.
O camerlengo fez uma careta de dor.
- O helicóptero.., aí na frente... para me levar para um hospital.
Na praça em torno dele era tão grande que a barulheira abafava o som de seus rotores ligados. Aquela não era certamente uma daquelas vigílias solenes à luz de velas. Não sabia como ainda não havia acontecido um tumulto pior.
Faltavam menos de 25 minutos para a meia-noite e as pessoas ainda estavam amontoadas lá, umas rezando, outras chorando pela Igreja, algumas gritando obscenidades e proclamando que era isso mesmo o que a Igreja merecia, outras entoando versículos apocalípticos da Bíblia.
A cabeça do piloto latejava mais quando os focos de luz das emissoras passavam pelo seu pára-brisa, ofuscando-o. Apertava os olhos para a massa turbulenta. Cartazes e faixas eram agitados pela multidão.
A ANTIMATERIA É O ANTICRISTO!
CIENTISTAS- SATANISTAS,
ONDE ESTÁ SEU DEUS AGORA?
O piloto gemia, a cabeça piorando. Ponderava se deveria cobrir o pára-brisa com a proteção de vinil para não ver nada, mas achava que iria levantar vôo em questão de minutos. O tenente Chartrand acabara de falar com ele pelo rádio dando notícias graves. O camerlengo fora atacado por Maximilian Kohler e estava seriamente ferido. Chartrand, o americano e a mulher iriam sair com o camerlengo para que ele fosse levado a um hospital.
O piloto sentia-se pessoalmente responsável pelo ataque. Censurava-se por não ter agido com mais audácia. Pouco antes, ao pegar Kohler no aeroporto, percebera algo estranho nos olhos mortos do cientista. Não sabia definir, mas não gostara nada. Não que isso importasse. Rocher era quem mandava e ele insistira que era aquele sujeito. Pelo jeito, enganara-se.
Um novo clamor ergueu-se da multidão. O piloto levantou os olhos e viu uma fila de cardeais indo solenemente do Vaticano para a Praça de São Pedro. O alívio dos cardeais por saírem da zona de risco era rapidamente superado pelas expressões de espanto diante do espetáculo que se desenrolava fora da igreja.
O alarido intensificou-se mais ainda. A cabeça do piloto latejava. Precisava de uma aspirina. Talvez de três.
Não gostava de voar depois de tomar remédios, mas a aspirina seria decerto menos debilitante do que aquela dor de cabeça furiosa. Pegou o estojo de primeiros-socorros, guardado junto com diversos mapas e manuais em uma caixa presa entre os dois bancos dianteiros. Quando tentou abri-lo, porém, estava trancado. Olhou em torno procurando a chave e finalmente desistiu. Aquela não era mesmo a sua noite de sorte. Voltou a massagear as têmporas.
CAPÍTULO 115
Na Praça de São Pedro,o piloto da Guarda Suíça estava sentado na cabine do helicóptero do Vaticano estacionado e esfregava as têmporas. O caos Dentro da basílica às escuras, Langdon, Vittoria e os dois guardas avançavam, ofegantes, para a saída principal. Sem conseguirem encontrar nada mais adequado, os quatro transportavam o camerlengo ferido em cima de uma mesa estreita, o corpo inerte equilibrado entre eles como em uma maca. Lá fora, o ruído distante da aglomeração humana tornou-se audível. O camerlengo encontrava-se à beira da inconsciência.
O tempo estava se esgotando.
CAPÍTULO 116
Eram 11h39 quando Langdon saiu com os outros da Basílica de São Pedro. Uma claridade ofuscante atingiu-o. A iluminação da imprensa refletia-se na brancura do mármore como a luz do sol na tundra coberta de neve. Langdon apertou os olhos, procurando refugiar-se atrás das enormes colunas da fachada, mas a luz vinha de todas as direções. Na sua frente, uma coleção de enormes telas de vídeo destacava-se acima da multidão.
Do alto da magnífica escadaria que se projetava para a praça, Langdon sentiu-se um ator relutante no maior palco do mundo. Em algum ponto além das luzes ofuscantes, ouviu um motor de helicóptero ligado e o rumor de milhares de vozes. À esquerda, a procissão dos cardeais continuava seguindo para a praça.
Todos pararam, visivelmente pesarosos com a cena que naquele momento se desenrolava nas escadarias.
- Com cuidado, agora - recomendou Chartrand, concentrado, quando o grupo começou a descer as escadas a caminho do helicóptero.
Langdon tinha a sensação de que se moviam debaixo d'água. Seus braços doíam com o peso do camerlengo e da mesa. Perguntava a si mesmo se poderia haver momento mais constrangedor do que aquele. E logo teve a resposta. Os dois repórteres da BBC, que deviam estar atravessando a praça para voltar à área da imprensa, tinham mudado de idéia ao ouvir o vozerio das pessoas. Glick e Macri vinham correndo na direção deles, a câmera de Macri funcionando. Lá vêm os abutres, pensou Langdon.
- Alt! - gritou Chartrand. - Para trás!
Mas os repórteres não se detiveram. Langdon calculou que as outras emissoras levariam uns seis segundos para também começar a transmitir aquela cena ao vivo. Estava errado. Levaram dois. Como se unidas por uma espécie de consciência universal, todas as telas na piazza interromperam a transmissão das imagens da bomba de antimatéria e das opiniões de seus especialistas em Vaticano e passaram a mostrar a mesma coisa - uma seqüência oscilante das escadarias da basílica. Agora, para qualquer ponto que se olhasse, via-se o corpo inerte do camerlengo em dose colorido.
Isto não está certo!, pensou Langdon, com vontade de descer as escadas e intervir, mas sem poder. Não teria ajudado nada, porém. Se foi a algazarra do povo ou o ar frio da noite a causa de tudo o que se seguiu, Langdon jamais saberia, mas o fato é que, naquele momento, o inconcebível aconteceu.
Como se o camerlengo acordasse de um pesadelo, seus olhos se abriram de repente e ele se sentou ao mesmo tempo. Tomados inteiramente de surpresa, Langdon e os outros atrapalharam-se com o deslocamento do peso. A parte da frente da mesa tombou e o camerlengo começou a deslizar. Eles tentaram recuperar o equilíbrio colocando a mesa no chão, mas já era tarde demais. O camerlengo escorregou para a frente. Inacreditavelmente, ele não caiu. Seus pés apoiaram-se no mármore, ele oscilou um pouco e depois se aprumou. Permaneceu parado um instante, meio desorientado, e então, antes que alguém pudesse impedir, precipitou-se escada abaixo, as passadas incertas, na direção de Macri.
- Não! - Langdon gritou.
Chartrand correu, tentando segurar o camerlengo, que, entretanto, se virou para ele dizendo com ar desvairado, enlouquecido:
- Largue-me!
Chartrand deu um pulo para trás.
A cena foi de mal a pior. A batina rasgada do camerlengo, que Chartrand apenas puxara para cima de seu peito, abriu-se e começou a cair. Por um segundo, Langdon pensou que a roupa fosse agüentar, mas o segundo passou. A batina se rompeu, descendo pelos ombros dele até a cintura.
A exclamação que veio da multidão pareceu percorrer o mundo inteiro e voltar em um instante. As câmeras rodaram, os flashes espocaram. Nas telas de televisão de todos os lugares projetou-se a imagem do peito do camerlengo marcado a fogo, ampliado e em horríveis detalhes. Algumas telas chegaram a congelar a imagem e girá-la 180 graus.
A suprema vitória dos Iliuminati.
Langdon viu a marca nas telas de televisão. Apesar de ser a impressão produzida pelo ferro quadrado que tivera nas mãos pouco antes, o símbolo agora fazia sentido. Completo. O poder impressionante da marca atingiu-o com o impacto de um trem.
Direção. Langdon esquecera a primeira regra da simbologia. Quando é que um quadrado não é um quadrado? Também esquecera que os ferros de marcar, assim como os carimbos de borracha, nunca se parecem com a marca que produzem. São invertidos. Langdon olhara para o negativo da marca!
À medida que aumentava o caos na praça, uma velha citação dos Illuminati ecoou em sua mente com um novo significado: "Um diamante sem jaça, nascido dos antigos elementos com tamanha perfeição, que todos os que o viam ficavam extasiados."
Agora sabia que o mito era verdadeiro.
Terra, Ar, Fogo, Água.
O diamante Iliuminati.
CAPÍTULO 117
Robert Langdon não duvidava que o caos e a histeria que se alastraram pela Praça de São Pedro naquela ocasião tivessem suplantado tudo o que o Vaticano já vira. Nenhuma batalha, crucificação, peregrinação ou visão mística - nada na história de dois mil anos do santuário poderia se igualar às dimensões e à dramaticidade daquele momento.
Enquanto a tragédia se desenrolava, Langdon sentia-se estranhamente distante, como se pairasse ali ao lado de Vittoria no alto da escadaria. A ação pareceu distender-se como uma deformação do tempo, toda aquela insanidade passando cada vez mais devagar.
O camerlengo marcado a fogo, delirando para o mundo inteiro ver.
O diamante Iliuminati revelado em toda a sua diabólica engenhosidade.
A contagem regressiva do relógio da antimatéria registrando os últimos 20 minutos da história do Vaticano.
O drama, porém, estava apenas começando.
O camerlengo, como se estivesse vivendo um transe pós-traumático, mostrou-se repentinamente cheio de vigor, possuído por demônios. Balbuciava, murmurava coisas para espíritos invisíveis, olhando para o céu e levantando os braços para Deus.
- Fale! - gritou ele para os céus. - Sim, estou escutando!
E Langdon compreendeu. Foi como se um peso caísse dentro dele.
Vittoria também compreendera. Ficou pálida.
- Ele está em estado de choque - disse. - Está tendo alucinações. Acha que está falando com Deus.
Alguém tem de impedir que isso continue, pensou Langdon. Era um final lamentável, embaraçoso. Levem esse homem para um hospital!
Ao pé da escadaria, Chinita Macri instalara-se em um ponto ideal e estava filmando tudo. As imagens apareciam instantaneamente nas enormes telas atrás dela na praça, como filmes intermináveis de cinema ao ar livre, mostrando a mesma tragédia angustiante.
A cena toda tinha um tom épico. O camerlengo, a batina rasgada, a marca da queimadura no peito, parecia uma espécie de paladino ferido que tivesse ultrapassado todos os círculos do inferno por aquele momento de revelação. Ele bradava para os céus.
- Ti sento, Dio! Estou ouvindo, Deus!
Chartrand recuou, o rosto cheio de temor.
Um silêncio espalhou-se pela multidão, instantâneo, absoluto. E foi como se o planeta inteiro mergulhasse no mesmo silêncio. Todas as pessoas ficaram rígidas diante de suas televisões, prendendo a respiração em conjunto.
O camerlengo parou nas escadas, diante do mundo, e abriu os braços. Igual a Cristo, despido e machucado. Levantou os braços e, olhando para cima, exclamou:
- Grazie! Grazie, Dio!
Nenhum ruído rompeu o silêncio.
- Grazie, Dio! - repetiu o camerlengo. Como a luz do sol passando através de nuvens de tempestade, uma expressão de alegria indizível de repente iluminou o rosto dele. - Grazie, Dio!
Obrigado, Deus? Langdon assistia à cena, sem compreender.
O camerlengo mostrava-se radiante agora, a misteriosa transformação já completa. Ainda olhava para o céu, sacudindo a cabeça, arrebatado. Gritou para o céu.
- "Sobre esta pedra edificarei minha igreja!"
Langdon conhecia a frase, mas não entendia por que o camerlengo a pronunciara.
O camerlengo voltou-se para o povo e gritou outra vez para dentro da noite.
- "Sobre esta pedra edificarei minha igreja!" - E, com os braços erguidos, riu alto, repetindo uma vez mais: - Grazie, Dio! Grazie!
O homem indiscutivelmente enlouquecera.
O mundo assistia, hipnotizado.
O climax de tudo aquilo, entretanto, foi algo que ninguém esperava.
Com um exultante brado final, o camerlengo deu meia-volta e disparou para dentro da Basílica de São Pedro.
CAPÍTULO 118
11h42.
Langdon nunca imaginou que fosse um dia fazer parte de uma comitiva frenética como a que se lançou atrás do camerlengo, muito menos que fosse ele a sair na frente. Era ele quem estava mais próximo da porta e acabou agindo por instinto.
O camerlengo vai morrer aqui, pensou Langdon, correndo para o interior escuro da basílica.
- Camerlengo! Pare!
A escuridão com que Langdon se deparou era absoluta. Suas pupilas estavam contraídas por causa da claridade do lado de fora e seu campo de visão limitava- se a alguns metros. Ele parou. Em algum ponto lá dentro ouviu o farfalhar do tecido da batina do camerlengo, que corria às cegas para o fundo da basilica.
Vittoria e os guardas vieram logo atrás. As lanternas foram acesas, mas as luzes já estavam fracas e não bastavam para alcançar as profundezas do templo. Os fachos de luz iam e vinham, mostrando apenas colunas e o chão vazio. Não se via o camerlengo em parte alguma.
- Camerlengo! - gritou Chartrand, com medo na voz. - Espere! Signore!
Um tumulto na porta atrás deles fez todos se virarem. O volumoso vulto de Chinita Macri assomou na entrada. Uma luz vermelha brilhando na câmera apoiada no ombro dela revelava que ainda estava transmitindo tudo. Glick vinha correndo atrás, microfone na mão, gritando-lhe que fosse mais devagar.
Aqueles dois eram inacreditáveis. Não é hora disso, pensou Langdon.
- Fora! - exclamou Chartrand. - Isto não é para os seus olhos!
Mas Macri e Glick não pararam.
- Chinita! - a voz de Glick soava amedrontada. - Isto é suicídio! Vou voltar!
Macri não fez caso dele. Apertou um botão em sua câmera. O projetor em cima dela acendeu-se, ofuscando todos.
Langdon protegeu o rosto com a mão e abaixou a cabeça, zonzo. Droga! Quando a levantou, porém, a igreja estava iluminada uns 30 metros em torno deles.
A voz do camerlengo ecoou em algum ponto distante:
- "Sobre esta pedra edificarei minha igreja!"
Macri direcionou sua câmera para o som. Lá longe, na área cinzenta além do alcance da luz do projetor, viu-se ondular um tecido escuro, revelando uma forma conhecida que corria pela nave principal.
Seguiu-se um instante fugaz de hesitação enquanto todos os olhos acompanhavam a imagem bizarra. Depois, rompeu-se o dique. Chartrand passou por Langdon e lançou-se no encalço do camerlengo. Langdon foi logo atrás. Depois, os guardas e Vittoria.
Macri fechava a retaguarda iluminando o caminho de todos e transmitindo a caçada sepulcral para o mundo. Glick praguejava em voz alta enquanto a acompanhava a contragosto, assustado.
A nave central da Basílica de São Pedro, calculara certa vez o tenente Chartrand, era mais comprida do que um campo de futebol. Naquela noite dava a impressão de ser o dobro. Correndo atrás do camerlengo, o guarda se perguntava para onde ele estaria indo. O homem estava em choque, seguramente, abalado pelo trauma fisico e por ter presenciado aquele massacre terrível no escritório do Papa.
Mais além, depois do trecho iluminado pelo projetor da BBC, a voz do camerlengo soava jubilosa:
- "Sobre esta pedra edificarei minha igreja!"
Chartrand sabia que ele estava citando a Bíblia - Mateus, 16:18, se não se enganava. Sobre esta pedra edificarei minha igreja. Uma inspiração quase cruel de tão inadequada - a igreja em questão estava prestes a ser destruída. O camerlengo com certeza enlouquecera.
Ou ele?
Por um momento, a alma de Chartrand alçou vôo. Sempre tinha considerado as visões celestes e as divinas mensagens como ilusões, o produto de mentes excessivamente zelosas que ouviam o que desejavam ouvir. Deus não interagia diretamente!
Logo em seguida, contudo, como se o próprio Espírito Santo descesse para persuadi-lo de Seu poder, Chartrand teve uma visão.
Uns 50 metros à frente, no centro da igreja, um fantasma apareceu, um vulto diáfano, reluzente. A figura pálida era a do camerlengo seminu. O espectro parecia transparente, irradiando luz. Chartrand estacou, com um aperto no estômago. O camerlengo está brilhando! O corpo passou a reluzir mais ainda. Então, começou a afundar, mais e mais, até desaparecer, como por um passe de mágica, no chão escuro.
Langdon também vira o fantasma. E, por uma fração de segundo, também pensou ter tido uma visão mágica. No entanto, ao passar pelo aturdido Chartrand em direção ao ponto onde o camerlengo desaparecera, percebeu o que havia acontecido. O camerlengo chegara ao Nicho dos Pálios - a câmara rebaixada e iluminada por 99 lamparinas de óleo. As lamparinas dentro do nicho iluminaram-no como um fantasma, de baixo para cima. Depois, quando o camerlengo desceu as escadas no meio da luz das lamparinas, pareceu desaparecer sob o chão.
Langdon chegou ofegante à borda do recinto rebaixado. Olhou para baixo, para as escadas. No fundo, sob a luminosidade amarelada das lamparinas de óleo, viu o camerlengo atravessar a câmara de mármore rumo às portas de vidro que levavam ao aposento onde fica a famosa arca dourada.
O que ele está fazendo, perguntou-se Langdon. Será que acha que a arca dourada...
O camerlengo escancarou as portas e entrou. Entretanto, não tomou conhecimento da arca dourada, passando direto por ela. Mais ou menos um metro e meio depois da arca, caiu de joelhos e começou a tentar levantar uma grade de ferro presa no chão.
Langdon assistia a tudo estarrecido, percebendo aonde o camerlengo queria ir.
Deus do céu, não! E desceu depressa as escadas ao encontro dele.
- Padre! Não!
Assim que Langdon abriu as portas de vidro e correu para o camerlengo, este suspendeu a grade de ferro, que, ao girar nas dobradiças, caiu, abrindo-se com um estrondo ensurdecedor e revelando uma abertura estreita com uma escada quase a prumo. Quando o camerlengo já se encaminhava para a abertura, Langdon segurou seus ombros nus e puxou-o de volta. A pele estava escorregadia de suor, mas Langdon conseguiu detê-lo.
O camerlengo virou-se rapidamente para ele, espantado.
- O que está fazendo!
Langdon surpreendeu-se quando seus olhos se encontraram. O camerlengo não tinha mais aquela expressão de quem está em transe. Estava alerta, cheio de lúcida determinação. O aspecto da queimadura em seu peito era aflitivo.
- Padre - instou Langdon com toda a calma possível -, o senhor não pode entrar aí. Temos de sair da basílica.
- Meu filho - disse o camerlengo, a voz extraordinariamente sensata -, acabei de receber uma mensagem. Eu sei que...
- Camerlengo! - Chartrand e os outros tinham chegado. Desceram correndo as escadas sob a luz da câmera de Macri.
Quando Chartrand viu a grade aberta no chão, seu rosto se encheu de medo. Fez o sinal-da-cruz e lançou um olhar agradecido a Langdon por ter impedido o camerlengo. Langdon compreendeu. Lera o suficiente sobre a arquitetura do Vaticano para saber o que havia depois da grade. Era o local mais sagrado da cristandade. Terra Santa. Solo sagrado. Alguns chamavam-no de Necrópole. Outros, de Catacumbas.
Segundo os relatos dos poucos religiosos que ao longo do tempo haviam descido ali, a Necrópole era um labirinto escuro de criptas subterrâneas que poderia engolir um visitante se ele se perdesse. Não era um bom lugar para correr atrás do camerlengo.
- Signore - suplicou Chartrand -, o senhor está em estado de choque. Temos de sair daqui. Não pode descer aí. É suicídio.
O camerlengo pareceu estóico de repente. Estendeu o braço e pousou a mão com serenidade no braço de Chartrand.
- Obrigado por sua preocupação e seus préstimos. Não sei como lhe dizer. Nem tenho como lhe dizer o quanto o compreendo. Mas tive uma revelação. Sei onde está a antimatéria.
Todos olhavam para ele, estáticos.
O camerlengo voltou-se para o grupo.
- "Sobre esta pedra edificarei minha igreja." Esta foi a mensagem. O significado é claro.
Langdon ainda não Conseguia compreender a convicção do camerlengo de que falara com Deus e muito menos de que decifrara a mensagem divina. Sobre esta pedra edificarei minha igreja? As palavras que Jesus proferira ao escolher Pedro como seu primeiro apóstolo. O que tinham a ver com a situação?
Macri aproximou-se para conseguir um ângulo melhor. Glick estava mudo, como quem tomou um grande susto.
O camerlengo falava rapidamente, explicando.
- Os Illuminati colocaram seu instrumento de destruição na própria pedra angular desta igreja. Nas suas fundações. - Fez um gesto para as escadas abaixo.
- Na pedra sobre a qual esta igreja foi construída. E eu sei onde essa pedra está. Langdon achava que chegara a hora de subjugar o camerlengo e sair dali.
Por mais que parecesse lúcido, o padre não estava dizendo coisa com coisa. Uma pedra? A pedra angular das fundações? Aqueles degraus não levavam às fundações, mas à Necrópole!
- A citação é uma metáfora, senhor. Não existe uma pedra de verdade!
O rosto do camerlengo ficou estranhamente triste.
- Existe uma pedra, sim, filho - e apontou para a abertura. - Pietro é la pietra.
Langdon congelou. Tudo ficou claro.
A austera simplicidade daquilo deu-lhe arrepios. Ali, de pé com os outros, olhando para a longa escada que descia, percebeu que havia de fato uma pedra enterrada nas trevas sob aquela igreja.
Pietro é la pietra. Pedro é a pedra.
Pedro tinha uma fé tão sólida em Deus que Jesus o chamava de "a rocha" - o discípulo resoluto sobre cujos ombros Jesus construiria sua igreja. Naquele lugar exato, a Colina Vaticana, Pedro fora crucificado e enterrado. Os primeiros cristãos ergueram um pequeno santuário em cima de sua tumba. À medida que o cristianismo se espalhava, o santuário foi crescendo pouco a pouco, culminando com aquela colossal basílica. A fé católica fora construída, de modo bastante literal, em cima de São Pedro. Da rocha. Da pedra.
- A antimatéria está na tumba de São Pedro - disse o camerlengo com voz cristalina.
A despeito da suposta origem sobrenatural da informação, Langdon reconhecia que havia lógica nela.
Colocar a antimatéria na tumba de São Pedro agora parecia dolorosamente óbvio. Os Illuminati, num gesto de desafio simbólico, tinham escondido a antimatéria no âmago da cristandade, literal e figurativamente. A suprema infiltração.
- E se vocês precisarem de provas concretas - disse o camerlengo, agora impaciente -, acabei de encontrar esta grade destrancada - e mostrou a grade aberta no chão. - Nunca fica destrancada. Alguém esteve aqui embaixo recentemente.
Todos olharam para dentro da abertura.
No instante seguinte, com insuspeitada agilidade, o camerlengo pegou uma das lamparinas e desceu as escadas.
CAPÍTULO 119
Os degraus de pedra seguiam em declive acentuado para dentro da terra.
Vou morrer lá embaixo, pensou Vittoria, segurando o corrimão feito de corda pesada ao enveredar pela passagem estreita atrás dos outros. Embora Langdon tivesse feito um movimento para impedir que o camerlengo entrasse na abertura da escada, Chartrand interferira segurando Langdon. Pelo jeito, o jovem guarda convencera-se de que o camerlengo sabia o que estava fazendo.
Depois de uma breve luta, Langdon soltara-se e seguira o camerlengo, com Chartrand em seus calcanhares. Instintivamente, Vittoria fora atrás de ambos.
Agora precipitava-se por uma descida íngreme em que qualquer passo em falso poderia causar uma queda fatal. Bem abaixo, distinguia o brilho dourado da lamparina de óleo do camerlengo. Na retaguarda, ouvia os repórteres da BBC, que se apressavam para chegar perto deles. O refletor da câmera lançava sombras retorcidas nas profundezas, iluminando Chartrand e Langdon. Era inacreditável que o mundo estivesse testemunhando aquela loucura. Desligue a maldita câmera! Mas logo depois admitia que sem a luz da câmera nenhum deles saberia aonde estava indo.
Enquanto aquela corrida louca prosseguia, os pensamentos de Vittoria agitavam-se, tempestuosos. O que o camerlengo poderia fazer ali embaixo? Mesmo que encontrasse a antimatéria? Não havia mais tempo!
Vittoria surpreendeu-se ao descobrir sua intuição lhe dizendo que o camerlengo provavelmente tinha razão.
Colocar a antimatéria tão fundo dentro da terra era uma opção quase nobre e misericordiosa. Àquela profundidade - tal como no laboratório do CERN -, o aniquilamento da antimatéria seria parcialmente contido. Não haveria o deslocamento de ar quente nem os fragmentos voando para ferir as pessoas, só uma abertura bíblica da terra e uma gigantesca basílica desmoronando dentro de uma cratera.
Teria sido este o único gesto de generosidade de Kohler? Poupar vidas?
Vittoria ainda não compreendia o envolvimento do diretor. Aceitava que tivesse ódio da religião, mas aquela conspiração apavorante não combinava com ele. Será que a aversão fora assim tão profunda? A ponto de destruir o Vaticano? De contratar um assassino? E planejar os assassinatos do pai dela, do Papa e de quatro cardeais? Parecia impensável. E como teria Kohler induzido toda aquela traição dentro dos muros do Vaticano? Rocher era o contato de Kohler, pensou Vittoria. Rocher era um Iliuminatus. Devia ter as chaves de todos os lugares - dos aposentos do Papa, do Passetto, da Necrópole, da tumba de São Pedro, de tudo. Ele próprio poderia ter colocado a antimatéria na tumba de São Pedro - um local altamente restrito - e depois ter recomendado que seus guardas não perdessem tempo procurando nas áreas restritas do Vaticano. Rocher sabia que ninguém jamais encontraria a antimatéria.
Mas Rocher não contava com a mensagem que o camerlengo recebera do alto.
A mensagem. Vittoria ainda lutava para acreditar nela. Deus teria realmente se comunicado com o camerlengo? Em seu íntimo, Vittoria dizia que não e, todavia, a sua especialidade como cientista era a física do entanglement, ou emaranhamento - a da interconexão. Presenciava comunicações milagrosas todos os dias - ovos gêmeos de tartarugas marinhas separados e colocados em laboratórios a quilômetros de distância um do outro que eclodiam no mesmo instante, milhares de águas-vivas dentro d'água pulsando no mesmo ritmo como se fossem uma só. Existem linhas invisíveis de comunicação em toda parte, refletiu.
Mas também entre Deus e o homem?
Vittoria desejou que seu pai estivesse ali para dar-lhe fé. Ele certa vez explicara-lhe a divina comunicação em termos científicos e fizera com que acreditasse. Ainda lembrava que o vira rezando e perguntara:
- Pai, por que se dá ao trabalho de rezar? Deus não pode responder.
Leonardo Vetra interrompera suas meditações e olhara para ela com um sorriso paternal.
- Minha filha cética. Quer dizer que você não acredita que Deus fale com o homem? Deixe que lhe explique com uma linguagem que você compreende. - Pegou um modelo do cérebro humano em uma prateleira e colocou na frente dela. - Como já deve saber, Vittoria, os seres humanos normalmente utilizam apenas uma parcela muito pequena de sua capacidade cerebral. Contudo, se forem expostos a situações emocionalmente intensas, como traumas físicos, alegria ou medo extremos, meditação profunda, de repente seus neurônios começam a se acelerar como loucos, o que resulta em um aumento enorme de clareza mental.
- E daí? - argumentou Vittoria. - Só porque alguém pensa com clareza não significa que fale com Deus.
- Ah! - exclamou Vetra. - No entanto, soluções extraordinárias para problemas supostamente impossíveis costumam ocorrer nesses momentos de clareza. É o que os gurus chamam de consciência elevada. Os biólogos, de estados alterados. Os psicólogos, de superpercepção - e ele fez uma pausa. - E os cristãos, de preces atendidas. - Com um sorriso largo, acrescentou: - Às vezes, a revelação divina significa simplesmente adaptar seu cérebro para escutar o que seu coração já sabe.
Agora, descendo as escadas sombrias, sentia que talvez seu pai tivesse razão. Seria tão difícil assim acreditar que o trauma sofrido pelo camerlengo tivesse posto a mente dele em um estado que lhe permitira "perceber" a localização da antimatéria?
Cada um de nós é um Deus, dissera Buda. Cada um de nós sabe tudo. Precisamos apenas abrir nossas mentes para escutar nossa sabedoria.
Naquele momento de clareza, descendo ao fundo da terra, Vittoria sentiu sua mente se abrir, sua sabedoria vir à tona.
Sabia agora sem sombra de dúvida quais eram as intenções do camerlengo. Aquela conscientização fez Vittoria sentir um medo tão grande como nunca experimentara antes.
- Camerlengo, não! - gritou. - O senhor não está entendendo! - Vittoria lembrou da multidão em torno da Cidade do Vaticano e seu sangue gelou nas veias. - Se levar a antimatéria para cima, toda aquela gente vai morrer!
Langdon descia pulando de três em três degraus, ganhando terreno. A passagem era apertada, mas ele não sentia claustrofobia. Seu antigo medo paralisante fora sobrepujado por um terror mais profundo.
- Camerlengo! - Langdon ia diminuindo a distância que o separava do brilho da lamparina. - O senhor tende deixar a antimatéria onde está! Não há outro jeito!
Ao mesmo tempo em que pronunciava aquelas palavras, Langdon custava a acreditar no que dizia. Não só aceitara como verdadeira a revelação divina ao camerlengo da localização da antimatéria, como estava argumentando a favor da destruição da Basílica de São Pedro - uma das maiores proezas arquitetônicas da Terra e de toda a arte que ela continha.
Mas há pessoas do lado de fora, é o único jeito.
Parecia uma cruel ironia que a única forma de salvar as pessoas fosse a destruição da igreja. Langdon imaginava que os Illuminati estivessem achando graça no simbolismo.
O ar que subia do fundo do túnel era frio e úmido. Em algum ponto lá embaixo ficava a sagrada Necrópole, onde tinham sido enterrados São Pedro e inúmeros outros primeiros cristãos. Langdon sentiu um calafrio, esperando que aquela não fosse uma missão suicida.
Subitamente, a lamparina do camerlengo parou. Langdon logo o alcançou. Os degraus terminavam abruptamente. Um portão de ferro batido com três caveiras em relevo fechava a base das escadas. O camerlengo empurrou o portão e o abriu. Langdon pulou na frente e o fechou, bloqueando o caminho do camerlengo. Os outros vieram descendo às carreiras, fazendo barulho, todos fantasmagóricos sob a luz branca do refletor da BBC, sobretudo Glick, cada vez mais lívido.
Chartrand puxou Langdon.
- Deixe o camerlengo passar!
- Não! - exclamou Vittoria, ofegante. - Temos de abandonar este lugar agora mesmo! O senhor não pode tirar a antimatéria daqui! Se levá-la para cima, todos os que estão lá fora vão morrer!
A voz do camerlengo estava extraordinariamente calma.
- Todos vocês têm de ter confiança. Temos pouco tempo.
- O senhor não entendeu - disse Vittoria. - Uma explosão ao nível do chão seria muito pior do que uma explosão aqui embaixo!
O camerlengo olhou para ela, os olhos verdes resplandecentes e firmes.
- Quem falou de explosão ao nível do chão?
Vittoria espantou-se.
- O senhor vai deixá-la aqui?
A convicção do camerlengo era hipnótica.
- Não haverá mais mortes esta noite.
- Padre, mas...
- Por favor, tenham um pouco de fé - a voz dele adquiriu um tom de quietude irresistível. -Não estou pedindo a ninguém que me acompanhe. Sintam-se todos livres para ir embora. Só peço que não interfiram com a vontade de Deus. Deixem que eu faça o que me foi determinado fazer - o olhar do camerlengo ficou mais intenso. - Tenho de salvar esta igreja. E posso fazê-lo. Juro por minha própria vida.
O silêncio que se seguiu teve o mesmo efeito de uma trovoada.
CAPÍTULO 120
11h51.
Necrópole significa literalmente "cidade dos mortos".
Nada do que Robert Langdon lera sobre aquele lugar o havia preparado para o que encontrou. A colossal cavidade subterrânea estava repleta de mausoléus em ruínas, como pequenas casas dentro de uma caverna. O ar cheirava a ausência de vida. Uma canhestra rede de caminhos serpenteava entre os monumentos deteriorados, a maior parte deles feita de tijolos fragmentados e placas de mármore.
Semelhantes a colunas feitas de pó, inúmeros pilares de terra não escavada erguiam-se para apoiar um céu também de pó, que se estendia, pesado e baixo, sobre o pequeno povoado imerso na penumbra.
Cidade dos mortos, repetiu Langdon, dividido entre o deslumbramento acadêmico e o medo puro e simples. Ele e os outros enveredaram correndo pelas trilhas sinuosas. Será que fiz a opção errada?
Chartrand tinha sido o primeiro a sucumbir ao fascínio do camerlengo, escancarando o portão e declarando que confiava nele. Glick e Macri, por sugestão do camerlengo, tinham nobremente concordado em fornecer luz para a busca, embora, levando-se em conta os louvores que os esperavam caso saíssem vivos dali, suas motivações fossem no mínimo suspeitas. Vittoria fora quem mostrara menos entusiasmo e Langdon vira nos olhos dela uma cautela que se parecia um bocado com uma inquietante intuição feminina.
Agora é tarde, pensou, enquanto ele e Vittoria corriam junto com os outros. Já estamos envolvidos.
Vittoria ia calada, mas ele sabia que ambos pensavam a mesma coisa. Nove minutos não bastam para sair da Cidade do Vaticano se o camerlengo estiver errado.
Rodeando os mausoléus, Langdon começou a sentir as pernas cansadas, notando com surpresa que o grupo esta'a subindo uma elevação acentuada. Ao perceber o motivo, sentiu arrepios. A topografia sob seus pés era a do tempo de Cristo. Estavam subindo a Colina Vaticana original! Já ouvira especialistas em Vaticano afirmar que a tumba de São Pedro ficava quase no alto da Colina Vaticana e sempre se perguntara como eles poderiam saber. Agora compreendia. A maldita colina ainda existe!
Tinha a impressão de estar percorrendo páginas de um livro de história. Em algum ponto adiante encontrava-se a tumba de São Pedro - a relíquia cristã por excelência. Era difícil conceber que a sepultura original tivesse sido assinalada de início apenas com um modesto santuário. Não mais. À medida que se espalhou a importância de São Pedro, novos santuários foram construídos por cima do antigo e agora a homenagem prolongava-se quase 135 metros para o alto, até o topo do domo de Michelangelo, cujo ápice fora posicionado diretamente acima da tumba original com uma insignificante margem de erro.
A subida tortuosa continuava. Langdon olhou o relógio. Oito minutos. Começava a achar que ele e Vittoria em breve fariam companhia permanente- mente àqueles mortos.
- Cuidado! - Glick gritou atrás deles. - Buracos de cobra!
Langdon viu-os a tempo. Uma sucessão de pequenos orificios pontilhava o caminho à frente. Deu um pulo, esquivando-se.
Vittoria pulou também, quase pisando nos buracos. Perguntou, inquieta, enquanto seguiam adiante:
- Buracos de cobra?
- Não exatamente - disse Langdon. - Tenho certeza de que não vai querer saber o que são.
Os orificios eram tubos de libações. Os primeiros cristãos acreditavam na ressurreição da carne e usavam aqueles buracos para literalmente "alimentar os mortos", derramando leite e mel nas criptas sob o chão.
O camerlengo sentiu-se fraco.
Mas não se deteve, as pernas encontrando forças no cumprimento de seu dever a Deus e aos homens. Quase chegando. Sentia dores incríveis. A mente pode causar muito mais dor do que o corpo. Ainda assim, sentia-se cansado. Sabia que dispunha de muito pouco tempo.
- Vou salvar sua igreja, meu Pai. Juro.
Apesar da luz da BBC atrás dele, pela qual era grato, o camerlengo levava sua lamparina de óleo com o braço levantado. Sou um farol na escuridão. Sou a luz. O óleo balançava conforme ele corria e, por um instante, receou que o líquido inflamável se derramasse e o queimasse. Sua carne já fora queimada demais por uma noite.
Quando se aproximou do alto da colina, estava encharcado de suor, com a respiração difícil. Ao atingir o topo, entretanto, sentiu-se renascer. Parou cambaleante sobre o trecho plano de terra onde já estivera muitas vezes. O caminho terminava ali. A Necrópole chegava abruptamente ao final em uma parede de terra. Um marco diminuto trazia a inscrição: Mausoleum 5.
La tomba di San Pietro.
Havia uma abertura na parede que lhe chegava à cintura. Sem nenhuma placa dourada. Sem ostentação. Somente uma simples cavidade na parede, além da qual havia uma pequena gruta e um sarcófago pobre, esfacelando-se. O camerlengo lançou um olhar lá dentro e deu um sorriso cansado. Ouvia os outros se aproximando. Pousou sua lamparina de óleo no chão e ajoelhou-se para rezar.
Obrigado, meu Deus. Está quase acabando.
Do lado de fora, na praça, rodeado pelos cardeais atônitos, o cardeal Mortati acompanhava pela tela grande o drama que se desenrolava na cripta. Não sabia mais em que acreditar. Será que o mundo inteiro vira o mesmo que ele? Deus teria mesmo falado com o camerlengo? Será que a antimatéria iria de fato aparecer na Basílica de São...
- Olhem! - o povo prendeu a respiração.
- Está lá! - todos apontavam para a tela. - É um milagre!
Mortati olhou para cima. A câmera não estava firme, mas a imagem era bem clara. E inesquecível.
Filmado de trás, o camerlengo estava rezando ajoelhado no chão de terra. Na frente dele, um buraco tosco cavado na parede. Dentro, em meio a pedregulhos e terra acumulados pelo tempo, havia um caixão de terracota. Mortati vira-o apenas uma vez na vida, mas sem dúvida sabia o que continha.
San Pietro.
Mortati não era ingênuo a ponto de achar que os gritos de alegria e espanto que ressoavam pela praça eram de exaltação por contemplarem uma das mais sagradas relíquias do cristianismo. As pessoas não estavam caindo de joelhos em orações e agradecimentos espontâneos por causa da tumba de São Pedro, mas por causa do objeto que se encontrava em cima da tumba.
O tubo de antimatéria. Lá estava, no mesmo lugar onde estivera escondido o dia todo: na escuridão da Necrópole.
Sorrateiro. Incansável. Mortal. A revelação do camerlengo estava certa.
Mortati olhava perplexo para o cilindro transparente. O glóbulo de líquido pairava no meio dele. A gruta que o continha refletiu a luz vermelha intermitente do contador marcando os cinco minutos finais das baterias.
Também pousada dentro da tumba, a centímetros de distância do cilindro, encontrava-se a câmera sem fio da Guarda Suíça, que apontara para o tubo e transmitira sua imagem todo aquele tempo.
Mortati benzeu-se com o sinal-da-cruz, certo de que se tratava da imagem mais assustadora que vira em toda a sua vida. Um momento mais tarde, porém, percebeu que estava prestes a ficar ainda pior.
O camerlengo levantou-se repentinamente. Agarrou o tubo de antimatéria e virou-se para os outros, o rosto completamente em foco. Passou pelos outros e começou a descer a Necrópole do mesmo modo como subira, correndo ladeira abaixo.
A câmera pegou Vittoria Vetra paralisada de terror.
- Onde o senhor está indo? Camerlengo! O senhor não disse que...
- Tenha fé! - exclamou ele, sempre correndo.
Vittoria dirigiu-se a Langdon.
- O que fazemos agora?
Robert Langdon tentou barrar o caminho do camerlengo, mas Chartrand agora o protegia, aparentemente confiante na decisão dele.
A seqüência que vinha da câmera da BBC ficou igual à de uma corrida de montanha-russa, sacudindo, subindo e descendo, fazendo voltas. Surgiam de vez em quando lampejos de confusão e pavor enquanto o cortejo excêntrico voltava aos tropeções para a entrada da Necrópole.
Na praça, Mortati deixou escapar uma exclamação amedrontada.
- Ele vai trazê-la aqui para cima?