Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 7 de 8 · parte 2/3

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Anjos e Demônios

- O ex-presidente George Bush? Um Illuminatus?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A sala teria sido assustadora mesmo à luz do dia, mas a tocha tornava-a mais horripilante ainda.

Havia lá dezenas de minúsculas celas de prisão, as barras de ferro da maioria já carcomidas pela ferrugem.

Uma das celas maiores, porém, permanecia intacta e, no chão, Langdon viu algo que quase fez seu coração parar. Batinas negras e faixas de seda vermelha espalhadas. Foi aqui que ele prendeu os cardeais!

Junto à cela, na parede, um batente de porta feito de ferro. A porta estava escancarada e, além dela, dava para ver uma espécie de passagem. Ele correu para lá, mas parou antes. A trilha de sangue não seguia pela passagem. Ao ver as palavras que haviam sido esculpidas na arcada, entendeu por quê.

Ii Passetto.

Ficou atônito. Ouvira falar daquele túnel muitas vezes sem saber exatamente onde seria a entrada. Ii Passetto - a Pequena Passagem, ou Corredor - era um túnel estreito de 1.200 metros construído entre o Castelo Sant'Angelo e o Vaticano. Fora usado por vários Papas para escapar em segurança durante cercos ao Vaticano, bem como por alguns Papas menos piedosos para visitar secretamente suas amantes ou supervisionar as torturas infligidas a seus inimigos. Atualmente, as duas extremidades do túnel estavam supostamente trancadas com cadeados da maior segurança cujas chaves deviam ser guardadas em algum cofre do Vaticano. Langdon desconfiava que sabia agora como os Illuminati tinham entrado e saído do Vaticano. Deu por si tentando adivinhar quem teria traído a Igreja e entregado as chaves aos inimigos.

Olivetti? Alguém da Guarda Suíça? Nada disso importava mais.

O sangue no chão levava ao lado oposto da prisão. Langdon seguiu-o. Surgiu um portão enferrujado coberto de correntes. O cadeado fora retirado e o portão estava aberto. Depois dele, havia uma subida íngreme por escadas em espiral. O chão naquele ponto também fora marcado com um bloco em forma de pentagrama. Langdon olhou para o bloco, trêmulo, pensando se Bernini em pessoa teria segurado o cinzel que talhara aquela peça. Acima, a arcada fora enfeitada com um diminuto querubim esculpido. Era tudo.

A trilha de sangue subia as escadas.

Antes de subir, Langdon ponderou que iria precisar de uma arma, qualquer uma. Encontrou um pedaço de barra de ferro de mais ou menos um metro junto a uma das celas. Tinha uma ponta aguda, despedaçada.

Apesar de absurdamente pesado, era o melhor que poderia conseguir. Esperava que o elemento surpresa, combinado com o ferimento do Hassassin, fossem suficientes para equilibrar a balança a seu favor. Mais do que tudo, entretanto, esperava que não fosse tarde demais.

Os degraus da escada em espiral estavam gastos e inclinavam-se muito para cima. Langdon subiu, atento a qualquer som. Nenhum. Conforme subia, a luz que vinha da prisão ia aos poucos ficando fraca. Logo, a escuridão tornou-se completa e foi preciso manter uma das mãos na parede. Imaginava o fantasma de Galileu naqueles mesmos degraus, ansioso para partilhar suas visões do céu com outros homens de ciência e de fé.

Ainda se sentia em estado de choque a respeito da localização do refúgio dos Illuminati. A sala de encontros dos Illuminati era dentro de um prédio que pertencia ao Vaticano. Seguramente, enquanto os guardas do Vaticano saíam para revistar as casas e os porões de cientistas conhecidos, os Illuminati se reuniam ali, bem debaixo do nariz da Igreja. Tudo parecia de repente tão perfeito. Bernini, como o arquiteto que chefiara as reformas, teria acesso ilimitado àquela estrutura, reformando-a de acordo com suas próprias especificações sem ter de explicar nada a ninguém. Quantas entradas secretas Bernini teria acrescentado ao prédio? Quantos embelezamentos sutis para apontar o caminho?

A Igreja da Iluminação. Langdon estava perto dela.

Quando as escadas começaram a se estreitar, Langdon sentiu o corredor se fechando em torno dele. As sombras da história sussurravam no escuro, mas ele foi em frente. Ao divisar uma faixa horizontal de luz, percebeu que estava alguns degraus abaixo de um patamar, onde o brilho da tocha passava sob a soleira de uma porta em frente dele. Silenciosamente, subiu mais.

Não sabia em que lugar do castelo se encontrava naquele momento, mas sabia que subira o bastante para estar perto do ponto mais alto. Imaginou o anjo colossal no topo do castelo e calculou que deveria estar justamente acima daquele ponto.

Olhe por mim, anjo, pensou, empunhando a barra de ferro. Então, sem ruído, estendeu a mão para a porta.

No divã, os braços de Vittoria doíam. Ao acordar e descobrir que estavam amarrados atrás de suas costas, achou que conseguiria relaxar o corpo e soltar as mãos. Mas o tempo se esgotara.

A besta-fera estava de volta. Agora, ele estava de pé junto dela, o peito nu largo e robusto, cheio de cicatrizes das batalhas que lutara. Os olhos pareciam duas fendas negras analisando o corpo dela. Vittoria pressentiu que naquele momento ele imaginava as façanhas que estava prestes a realizar. Devagar, como para escarnecer dela, o Hassassin tirou o cinto molhado e deixou-o cair no chão.

Vittoria sentiu uma repulsa horrível. Fechou os olhos. Quando os reabriu, o Hassassin estava segurando um canivete. Fez a lâmina saltar com um estalo bem na frente do seu rosto.

Vittoria viu o próprio rosto aterrorizado refletido no aço da lâmina.

O Hassassin virou a lâmina e correu a parte de trás pela barriga dela. O metal gelado deu-lhe arrepios. Com um olhar de desdém, ele deslizou a lâmina por dentro do cós do short cáqui. Ela prendeu a respiração. Ele moveu a lâmina de um lado para outro, lentamente, perigosamente mais baixo. Então, curvou-se para ela, o hálito quente em seu ouvido, e sussurrou:

- Foi com esta lâmina que arranquei o olho de seu pai.

Naquele instante, Vittoria descobriu que era capaz de matar.

O Hassassin virou de novo a lâmina e começou a cortar o tecido do short. De repente, parou e levantou a cabeça. Havia mais alguém na sala.

- Afaste-se dela - uma voz profunda soou raivosa da porta.

Vittoria não podia enxergar quem falara, mas reconheceu a voz. Robert! Ele está vivo!

O Hassassin tinha a expressão de quem vê um fantasma.

- Senhor Langdon, o senhor deve ter um anjo da guarda.

CAPÍTULO 108

Na fração de segundo de que dispôs para avaliar o ambiente, Langdon percebeu que se encontrava em um lugar sagrado. Os ornatos na sala oblonga, apesar de velhos e desbotados, estavam repletos de uma simbologia conhecida. Azulejos em forma de pentagrama, afrescos representando os planetas. Pombas. Pirâmides.

A Igreja da Iluminação. Pura e simplesmente. Ele chegara.

Na sua frente, emoldurado pela abertura da sacada, estava o Hassassin. Tinha o peito nu e junto dele, deitada e amarrada mas bem viva, estava Vittoria. Langdon sentiu um grande alívio ao vê-la. Por um instante, seus olhos se encontraram e uma torrente de emoções fluiu entre os dois - gratidão, desespero e pena.

- Quer dizer que nos encontramos de novo - disse o Hassassin. Viu a barra de ferro na mão de Langdon e deu uma risada alta. - E desta vez é com isso que vem atrás de mim?

- Solte-a.

O Hassassin encostou a faca no pescoço de Vittoria.

- Vou matá-la.

Langdon não duvidava de que ele fosse capaz de tal coisa.

Forçou-se a falar em um tom calmo.

- Imagino que ela gostaria muito disso, considerando-se a alternativa.

O Hassassin sorriu ao ouvir o insulto.

- Tem razão. Ela tem muito a oferecer. Seria um desperdício.

Langdon deu um passo à frente, segurando com firmeza a barra enferrujada, e mirou o Hassassin com a ponta quebrada. O corte em sua mão ardeu fortemente.

- Deixe-a ir.

Por um momento, o Hassassin deu a impressão de estar refletindo a respeito. Suspirando, descaiu os ombros. Era nitidamente um gesto de rendição e, no entanto, naquele instante exato, o braço do homem acelerou-se de modo inesperado. Os músculos escuros formaram um borrão e a lâmina veio reluzindo pelo ar na direção do peito de Langdon.

Se foi instinto ou exaustão o que na hora vergou os joelhos de

Langdon, ele não soube, mas o canivete passou rente à sua orelha esquerda e caiu no chão com um ruído metálico. O Hassassin, imperturbável, sorriu para Langdon, que se ajoelhara, segurando a barra de ferro. O matador deixou Vittoria e encaminhou-se para seu adversário como um leão que avança para a presa.

Langdon levantou-se apressado erguendo outra vez a barra - a camisa e a calça molhadas tolhendo-lhe os movimentos. O Hassassin, seminu, movia-se com mais rapidez, a ferida no pé aparentemente em nada o atrapalhava. Aquele homem devia estar acostumado à dor. Pela primeira vez na vida Langdon desejou estar segurando um revólver muito grande.

O Hassassin rodeou-o devagar, com ar divertido, sempre fora de alcance, tentando se aproximar da faca no chão. Langdon pôs-se no meio do caminho. Então, o matador voltou para perto de Vittoria. Mais uma vez, Langdon interpôs-se.

- Ainda há tempo - arriscou Langdon. - Diga onde está a antimatéria. O Vaticano pode lhe pagar mais do que os liluminati jamais fariam.

- Você é ingênuo.

Langdon dava estocadas com a barra. O Hassassin desviava-se. Langdon contornou um banco segurando a arma diante de si, tentando encurralar o outro na sala oval. Esta sala desgraçada não tem cantos!

Curiosamente, o Hassassin não se mostrava interessado em atacar ou fugir. Fazia apenas o jogo de Langdon. Esperando, com frieza.

Esperando o quê? O matador continuava se deslocando em círculo, um mestre na arte de se posicionar.

Era como um interminável jogo de xadrez. A arma na mão de Langdon ia ficando pesada e logo ele achou que sabia o que o Hassassin esperava. Ele está me cansando. E está dando certo. Uma onda de fadiga invadiu-o, a adrenalina sozinha não bastando para mantê-lo alerta. Tinha de tomar uma iniciativa qualquer.

O matador pareceu adivinhar os pensamentos de Langdon e mudou de posição outra vez, como se tencionasse levá-lo para junto da mesa que ficava no centro do aposento. Langdon reparou que havia alguma coisa em cima da mesa. Algo que reluziu à luz da tocha. Uma arma? Langdon manteve os olhos fixos no Hassassin e manobrou para chegar antes dele perto da mesa. Quando o outro lançou um olhar inocente, prolongado, para a mesa, Langdon tentou não engolir a isca. Mas o instinto prevaleceu.

Relanceou os olhos para lá. E fez- se o estrago.

Não se tratava de arma nenhuma. O que viu momentaneamente o fascinou.

Sobre a mesa havia uma arca primitiva de cobre coberto de pátina. Tinha a forma de um pentágono. A tampa estava aberta. Arrumados dentro dela em cinco compartimentos acolchoados estavam cinco ferros de marcar, grandes instrumentos com fortes cabos de madeira. Langdon já sabia o que diziam.

ILLUMINATI, EARTH, AIR, FIRE, WATER.

Virou rápido a cabeça de volta, temendo que o Hassassin fosse aproveitar para atacar. Mas ele não o fez.

Esperava, quase como se aquele jogo o descansasse. Langdon esforçou-se para recuperar a concentração e o contato visual com seu oponente, arremetendo com o cano. A imagem da arca, porém, não lhe saía da cabeça. Embora a visão dos próprios ferros de marcar fosse quase hipnótica - poucos estudiosos dos Illuminati sequer acreditavam que tais objetos existissem -, ele notou que havia algo mais na arca que lhe despertara um mau presságio. Quando o Hassassin fez uma nova manobra, Langdon lançou outro olhar para baixo.

Deus meu!

Dentro da arca, os cinco ferros estavam dispostos em cinco compartimentos em torno da borda exterior.

No centro, porém, havia outro compartimento. Vazio, naquele momento, mas claramente o lugar onde era guardado mais um ferro, muito maior do que os outros e todo quadrado.

O ataque veio como um raio.

O Hassassin precipitou-se sobre ele como uma ave de rapina. Langdon, cuja concentração fora magistralmente desviada, tentou revidar, mas a barra de ferro pesava como um tronco de árvore em suas mãos. Deu um golpe devagar demais. O Hassassin esquivou-se. Quando Langdon tentou puxar a barra de novo para si, as mãos do outro projetaram-se para a frente e agarraram-na. O homem tinha muita força nas mãos, o braço ferido não parecia afetá-lo mais. Os dois lutaram violentamente. Langdon sentiu o outro arrancar-lhe a barra e, ao mesmo tempo, uma dor lancinante na palma da mão. No instante seguinte, Langdon encarava a ponta quebrada da barra de ferro. O caçador virara caça.

A sensação era a de ser atingido por um ciclone. O Hassassin rodeava-o, sorrindo, encurralando-o contra a parede.

- Como é mesmo aquele ditado? - zombava ele. - Aquele sobre a curiosidade e o gato?

Langdon mal conseguia se concentrar. Amaldiçoou seu descuido enquanto o adversário se aproximava mais. Nada fazia sentido. Uma sexta marca Illuminati? Frustrado, falou sem pensar:

- Nunca li nada sobre uma sexta marca dos Iliuminati!

- Acho que deve ter lido, sim. - O matador deu uma risadinha, fazendo Langdon se deslocar ao longo da parede oval.

Langdon estava perdido. Seguramente, nunca soubera da existência dela. Havia cinco marcas Illuminati.

Recuou, procurando na sala alguma coisa que lhe pudesse servir de arma.

- Uma união perfeita de antigos elementos - disse o Hassassin. - A marca final é a mais brilhante de todas. É uma pena, mas acho que você nunca a verá.

Langdon receava que deixasse de ver muita coisa dentro de pouco tempo. Continuou a recuar, buscando uma opção de defesa na sala.

- E você já viu essa marca final? - perguntou Langdon, tentando ganhar tempo.

- Pode ser que algum dia eles me dêem essa honra. Conforme eu provar meu valor. - E deu uma estocada em Langdon, como se aquilo fosse um jogo animado.

Langdon deslizou para trás mais uma vez. Tinha a sensação de que o Hassassin conduzia-o ao longo da parede para um ponto desconhecido. Para onde? Não podia se permitir olhar o que havia atrás.

- E essa marca - perguntou -, onde está ela?

- Não está aqui. Janus é aparentemente o único que a usa.

- Janus? - Langdon não reconheceu o nome.

- O líder Illuminati. Vai chegar em breve.

- Ele está vindo para cá?

- Para fazer a última marcação.

Langdon lançou um olhar assustado para Vittoria. Ela parecia estranha- mente calma, os olhos fechados para o mundo a seu redor, os pulmões bombeando o ar devagar, fundo. Seria ela a vítima final? Seria ele?

- Que presunção - desdenhou o Hassassin, acompanhando o olhar de Langdon. - Vocês dois não são nada.

Vão morrer, claro, isto é certo. Mas a vítima final de que falo é um inimigo verdadeiramente perigoso.

Langdon tentou dar sentido às palavras do Hassassin. Um inimigo perigoso? Os cardeais mais importantes estavam mortos, O Papa estava morto. Os Illuminati tinham acabado com todos eles. Langdon encontrou a resposta no vácuo dos olhos do Hassassin.

O camerlengo.

O camerlengo Ventresca fora o único homem que funcionara como um farol de esperança para o mundo através de todas aquelas atribulações. O camerlengo fizera mais naquela noite para condenar os Illuminati do que décadas de teorias conspiratórias. Tudo indicava que pagaria um preço por isto. Era ele o alvo final dos Illuminati.

- Você nunca chegará até ele - Langdon desafiou-o.

- Eu, não - replicou o Hassassin, obrigando Langdon a recuar mais contra a parede. -Essa honra está reservada para o próprio Janus.

- O líder dos Illuminati em pessoa pretende marcar a fogo o camerlengo?

- O poder tem seus privilégios.

- Ninguém vai conseguir entrar no Vaticano agora!

O Hassassin observou, com ar pretensioso:

- A não ser que ele tenha um encontro marcado.

Langdon custou a entender. A única pessoa esperada no Vaticano naquele momento era o tal personagem que a imprensa estava chamando de Samaritano da Décima Primeira Hora, a pessoa que Rocher dissera ter informações que poderiam salvar...

Deus do Céu!

O homem riu um riso afetado, claramente se divertindo com o choque de Langdon.

- Também me perguntei como Janus conseguiria entrar. Então, quando vinha para cá, ouvi no rádio do carro a notícia sobre o Samaritano da Décima Primeira Hora. - Ele sorriu. - O Vaticano vai receber Janus de braços abertos.

Langdon quase perdeu o equilíbrio. Janus é o Samaritano! Tratava-se de um disfarce impensável. O líder dos liluminati teria uma escolta real até os aposentos do camerlengo. Mas como Janus enganou Rocher? Ou será que Rocher está de alguma forma envolvido? Langdon sentiu um calafrio. Desde que quase morrera asfixiado nos arquivos secretos deixara de confiar inteiramente em Rocher.

O Hassassin deu uma espetadela súbita, acertando o lado do corpo de Langdon.

Ele saltou para trás, cheio de raiva.

- Janus não vai sair vivo de lá!

O outro deu de ombros.

- Existem causas pelas quais vale a pena morrer.

O assassino falava sério. Janus iria à Cidade do Vaticano em uma missão suicida? Era uma questão de honra? Em segundos, a mente de Langdon reconstruiu todo o aterrorizante processo. O ciclo da trama dos Illuminati estava se fechando. O sacerdote que os Illuminati tinham inadvertidamente levado ao poder ao matarem o Papa surgia como um adversário de peso. Em um ato final de desafio, o líder dos Illuminati iria destruí-lo.

Inesperadamente, a parede atrás de Langdon desapareceu. Uma lufada de ar frio envolveu-o e ele recuou cambaleando dentro da noite. A sacada! Agora sabia o que o Hassassin tinha em mente.

Langdon sentiu logo o precipício às suas costas - uma queda de 30 metros no pátio abaixo. Tinha visto ao entrar. O Hassassin não perdeu tempo. Com um impulso vigoroso, investiu. A lança improvisada mirou o tronco de Langdon. Ele se desviou e a ponta passou rente, pegando somente sua camisa. Outra vez, a ponta da barra de ferro veio para cima dele. Langdon deslizou mais para trás, quase encostado na balaustrada. Certo de que o golpe seguinte o mataria, tentou o absurdo. Girando para o lado, estendeu a mão e agarrou a barra, sentindo uma ferroada de dor na palma ferida. Mas não a largou.

O Hassassin não se abalou. Os dois puxaram durante um momento, cada um para um lado, face a face, o hálito fétido do Hassassin junto às narinas de Langdon. A barra começou a escorregar, o Hassassin era muito forte. Num último gesto de desespero, Langdon esticou a perna, arriscando perigosamente seu equilíbrio, tentando pisar no dedo ferido do pé do Hassassin. Mas o homem era um profissional e sabia como proteger seu ponto fraco.

Langdon dera sua cartada final. E sabia que perdera a mão.

Os braços do Hassassin explodiram para cima, fazendo Langdon ir de encontro à grade da sacada. Só havia o espaço vazio atrás dele agora, já que a grade chegava apenas à altura de suas nádegas. O Hassassin segurou a barra na horizontal e pressionou-a contra o peito de Langdon. As costas dele arquearam-se no espaço.

- Ma'assalamah - zombou o Hassassin. - Adeus.

Com um olhar impiedoso, deu o empurrão final. O centro de gravidade de Langdon deslocou-se e seus pés levantaram-se do chão. Apelando para a

última esperança de sobrevivência, Langdon agarrou-se à grade quando seu corpo virou e passou por cima dela. A mão esquerda escapuliu, mas a direita se manteve. Ficou pendurado de cabeça para baixo, preso pelas pernas e por uma das mãos, fazendo força para não se soltar.

E viu o Hassassin assomar no alto com a barra erguida acima da cabeça, preparando-se para descê-la em sua direção. Quando a barra começou a se acelerar, Langdon teve uma visão. Talvez fosse a iminência da morte ou simplesmente o medo cego, mas naquele momento uma aura cercou o vulto do Hassassin. Um clarão fulgurante foi aumentando por trás dele vindo do nada, como uma bola de fogo chegando.

No meio do movimento de ataque, ele largou a barra e gritou de dor.

A barra de ferro passou por Langdon e desceu retinindo na escuridão. O matador virou-se e Langdon viu a enorme queimadura da tocha nas costas dele. Langdon puxou o corpo para cima e viu Vittoria, os olhos dardejantes, agora enfrentando o Hassassin.

Ela agitava a tocha diante de si, a vingança em seu rosto resplandecendo nas chamas. Como ela escapara, Langdon não sabia nem queria saber. Ele subiu pela grade para voltar para a sacada.

A batalha não duraria muito. O Hassassin era um oponente mortal. Com um urro furioso, ele arremeteu contra ela. Ela tentou se esquivar, mas ele segurou a tocha e estava prestes a tirá-la da mão dela. Langdon não esperou. Pulou da grade da sacada e lançou o punho fechado na queimadura das costas do homem.

O berro dele pareceu ecoar até o Vaticano.

O homem se imobilizou um instante, as costas curvadas em agonia. Soltou a tocha e Vittoria então a comprimiu com toda a força no rosto de seu inimigo. A carne queimada chiou, o olho esquerdo dele crepitou. O homem deu outro urro, levando as duas mãos ao rosto.

- Olho por olho - disse Vittoria, a voz sibilante.

E, dessa vez, girou a tocha como um bastão que, quando atingiu o alvo, fez o homem recuar vacilando de encontro à grade da sacada. Langdon e Vittoria correram ao mesmo tempo para ele, ambos levantando-o e empurrando. O corpo do Hassassin tombou de costas por cima da grade e mergulhou na noite. Não houve mais gritos. O único som foi o de sua espinha dorsal se partindo quando ele caiu de braços abertos em cima de uma pilha de balas de canhão no pátio.

Langdon virou-se e olhou para Vittoria, perplexo. As cordas ainda pendiam, frouxas, da sua cintura e dos ombros. Os olhos relampejavam, ameaçadores.

- Houdini fazia ioga.

CAPÍTULO 109

Enquanto isso, na Praça de São Pedro,a barreira formada pelos homens da Guarda Suíça gritava ordens e tentava fazer a multidão recuar para uma distância segura. Não adiantava. A massa de gente era densa demais e, pelo jeito, estava muito mais interessada na catástrofe iminente do Vaticano do que na própria segurança. Os telões da imprensa instalados na praça transmitiam ao vivo a contagem regressiva da bomba de antimatéria - em imagem direta do monitor de segurança da Guarda Suíça -, com os cumprimentos do camerlengo. Infelizmente, a imagem do contador em nada contribuía para afastar o povo. As pessoas olhavam para a gotinha minúscula de líquido em suspensão no tubo e aparentemente concluíam que não era tão ameaçadora quanto haviam pensado. Também podiam ver agora os números no contador -faltavam pouco menos de 45 minutos para a detonação. Tempo mais do que suficiente para ficar ali e observar tudo.

Mesmo assim, a Guarda Suíça era unânime em admitir que a corajosa decisão do camerlengo de contar a verdade ao mundo e em seguida fornecer à imprensa a prova visual da traição dos Iliuminati tinha sido uma hábil manobra. Os Illuminati com certeza esperavam que o Vaticano adotasse sua atitude reticente habitual diante das adversidades. Isso não acontecera naquela noite. O camerlengo Carlo Ventresca provara ser um adversário respeitável.

Dentro da Capela Sistina, o cardeal Mortati ia ficando inquieto. Passava de 11h15. Muitos cardeais continuavam a rezar, mas outros haviam se agrupado perto da saída, visivelmente aflitos com a hora. Alguns começaram a bater na porta com os punhos.

Do outro lado da porta, o tenente Chartrand ouvia as batidas e não sabia o que fazer. Verificou seu relógio. Estava na hora. O capitão Rocher dera ordens rigorosas, determinando que não deixasse os cardeais saírem enquanto ele não mandasse. As batidas na porta se intensificaram e Chartrand sentiu-se embaraçado. Será que o capitão simplesmente se esquecera? Ele vinha agindo de modo muito estranho desde o misterioso telefonema.

Chartrand tirou seu walkie-tajkje.

- Capitão? Aqui é Chartrand. Já passou da hora. Devo abrir a Sistína?

- A porta permanece fechada. Acho que já lhe dei essa ordem.

- Sim, senhor, é que...

- Nosso visitante deve estar chegando. Leve alguns homens para cima e vigiem a porta do escritório do Papa. O camerlengo não pode sair de lá sob hipótese alguma.

- Como disse, senhor?

- O que é que não está compreendendo, tenente?

- Não foi nada, senhor, estou a caminho.

Lá em cima, no escritório do Papa, o camerlengo contemplava o fogo em silenciosa meditação. Dê-me forças, meu Deus. Faça um milagre. Atiçou as chamas da lareira, pensando se sobreviveria àquela noite.

CAPÍTULO 110

Onze horas e vinte e três minutos.

Vittoria estava na sacada do Castelo Sant'Angelo, ainda trêmula, o olhar na cidade de Roma, os olhos úmidos de lágrimas. Queria muito abraçar Robert Langdon, mas não podia. Seu corpo parecia anestesiado, reajustando-se, acomodando o que ocorrera. O homem que matara seu pai jazia lá embaixo, morto, e ela quase se tornara também uma vítima dele.

Quando a mão de Langdon tocou o ombro dela, a infusão de calor magica- mente desfez aquela sensação enregelante. Seu corpo estremeceu de volta para a vida. A névoa se levantou e ela se virou. Robert encontrava-se em um estado lastimável, molhado, o cabelo todo emaranhado -era evidente que passara por um verdadeiro purgatório para vir salvá-la.

- Obrigada... - ela murmurou.

Ele deu um sorriso cansado e lembrou-lhe que era ela quem merecia os agradecimentos. Sua habilidade para praticamente deslocar os ombros acabara de salvar ambos. Vittoria enxugou os olhos. Gostaria de ter ficado ali para sempre com ele, mas a trégua seria breve.

- Temos de sair daqui - disse Langdon.

A mente de Vittoria estava em outro lugar. Ela olhava na direção do Vaticano. O menor país do mundo encontrava-se a uma proximidade perturbadora, imerso na luz branca dos refletores da imprensa. Para espanto seu, grande parte da Praça de São Pedro ainda estava cheia de gente! A Guarda Suíça aparentemente só conseguira isolar uns cinqüenta metros - a área diretamente fronteira à basílica -, o que constituía menos de um terço da praça. A área restante da praça estava compactada com os que estavam a uma distância segura pressionando para ver melhor e encurralando os outros na parte de dentro. Estão perto demais! Pensou Vittoria. Perto demais!

- Vou voltar para lá - disse Langdon, categórico.

Vittoria virou-se para ele, incrédula.

- Para o Vaticano?

Langdon contou-lhe sobre o Samaritano e que se tratava de um ardil. O líder dos Iliuminati, um homem chamado Janus, chegaria em pessoa para marcar a fogo o camerlengo. Um gesto de dominação final dos Iliuminati.

- Ninguém no Vaticano sabe - disse Langdon. - Não tenho como fazer contato com eles e esse sujeito deve chegar a qualquer minuto. Preciso avisar os guardas antes que o deixem entrar.

- Mas você não vai conseguir passar por essa multidão!

A voz de Langdon soou confiante.

- Há um jeito. Confie em mim.

Vittoria pressentiu mais uma vez que o historiador sabia de algo que ela desconhecia.

- Também vou.

- Não. Por que nos arriscarmos os dois...

- Tenho de encontrar um modo de tirar aquela gente dali! Estão correndo grave perigo.

No mesmo instante, a sacada começou a tremer. Um rugido ensurdecedor abalou todo o castelo. Em seguida, uma luz branca vinda da Praça de São Pedro cegou-os. Vittoria só pensou em uma coisa. Oh, Deus! A antimatéria aniquilou- se antes da hora!

Em vez de um estrondo, porém, uma ruidosa saudação ergueu-se do povo. Vittoria apertou os olhos contra a luz. Uma barreira de luz de refletores vinha da praça e, ao que parecia, agora apontava para eles! Todos se voltavam na direção deles, apontando e chamando. O ronco ficou mais alto. A atmosfera na praça de repente dava a impressão de estar mais alegre.

Langdon estava desnorteado.

- Que diabos...

Um rugido ecoou pelo céu.

Por trás da torre, sem aviso, surgiu o helicóptero do Papa. Trovejou uns 15 metros acima da cabeça deles, indo em linha reta para a Cidade do Vaticano. Quando passou, brilhando à luz dos refletores, o castelo tremeu. As luzes acompanharam o percurso do helicóptero, deixando Langdon e Vittoria de novo no escuro.

Vittoria teve a sensação desconfortável de estarem atrasados ao ver o enorme aparelho deter-se acima da Praça de São Pedro. Levantando uma nuvem de poeira, o helicóptero desceu no trecho vazio da praça, entre a multidão e a basílica, tocando o solo na base das escadarias da basílica.

- Falando sobre entrar no Vaticano... - disse Vittoria.

Destacando-se contra o fundo de mármore branco, viu ao longe a figura diminuta de uma pessoa sair do Vaticano e dirigir-se para o helicóptero. Nunca teria reconhecido quem era se não fosse pela boina vermelha na cabeça.

- Recebido com tapete vermelho. É Rocher.

Langdon deu um soco na grade.

- Alguém tem de avisar a eles! - e fez meia volta para sair.

Vittoria segurou o braço dele.

- Espere!

Acabara de ver algo mais, algo em que se recusava a acreditar. Com os dedos trêmulos, apontou para o helicóptero. Mesmo à distância, não havia engano possível. Descendo pela prancha de desembarque vinha uma outra figura, que se movia de maneira tão peculiar que só poderia ser um homem. Embora estivesse sentado, ele acelerou pela praça aberta sem esforço e a uma velocidade surpreendente.

Um rei sentado em um trono elétrico.

Era Maximilian Kohler.

CAPÍTULO 111

Kohler estava enojado com a opulência do saguão do Belvedere. Só revestimento de ouro do teto daria para financiar um ano de pesquisas sobre o câncer. Rocher subiu com ele uma rampa, conduzindo-o por um caminho tortuoso ao Palácio Apostólico.

- Não tem elevador? - perguntou Kohler.

- Estamos sem luz. - Rocher mostrou as velas acesas em torno deles no edifício escuro. -É parte de nossa estratégia de busca.

- Estratégia que certamente falhou.

Rocher concordou.

Kohler teve outro ataque de tosse e ocorreu-lhe que talvez fosse um dos últimos de sua vida. Não era um pensamento de todo desagradável.

Ao chegarem ao andar de cima e entrarem no corredor que levava ao escritório do Papa, quatro guardas suíços correram na direção deles com ar preocupado.

- Capitão, o que estão fazendo aqui em cima? Pensei que esse senhor tivesse informações que...

- Ele só vai falar com o camerlengo.

Os guardas recuaram, desconfiados.

- Avise ao camerlengo - disse Rocher, em tom enérgico - que o diretor do CERN, Maximilian Kohler, está aqui para vê-lo. Imediatamente.

- Sim, senhor!

Um dos guardas saiu apressado para o escritório do camerlengo. Os outros mantiveram suas posições.

Observavam Rocher com ar constrangido.

- Só um momento, capitão. Vamos anunciar seu visitante.

Kohler, porém, não se deteve. Deu uma guinada repentina e manobrou sua cadeira, contornando os sentinelas.

Os guardas giraram e saíram trotando ao lado dele.

- Fermati! Senhor! Pare!

Kohler sentia aversão por eles. Nem a força de segurança mais elitista do mundo estava imune à pena que todos sentiam pelos aleijados. Se Kohler fosse um homem saudável, os guardas o teriam segurado. Os aleijados são impotentes, pensou Kohler. Ou o mundo acredita que eles são.

Kohler sabia que dispunha de pouco tempo para levar a cabo o que tinha vindo fazer. Sabia também que poderia morrer ali naquela noite. Ficou surpreso ao constatar quão pouco se importava. A morte era um preço que estava pronto para pagar. Suportara coisas demais em sua vida para que seu trabalho fosse destruído por alguém como o camerlengo Ventresca.

- Signore! - gritaram os guardas, correndo na frente e formando uma fila de lado a lado do corredor. - O senhor tem de parar! - Um deles puxou uma arma e apontou-a para Kohler.

Kohler parou.

Rocher interpôs-se, contrito.

- Senhor Kohler, por favor. Só vai levar um momento. Ninguém entra no escritório do Papa sem ser anunciado.

Kohler viu nos olhos de Rocher que não tinha escolha a não ser esperar. Muito bem, pensou, vamos esperar.

Os guardas, por maldade talvez, tinham feito Kohler parar junto a um espelho de moldura dourada que ia do teto ao chão. A visão de sua figura disforme causava-lhe repulsa. A velha raiva mais uma vez veio à tona. Fortalecia-o. Estava no meio do inimigo naquele momento. Aquelas eram as pessoas que o haviam privado de sua dignidade. Eram elas mesmas. Por causa delas, nunca sentira o corpo de uma mulher, nunca se levantara para receber um prêmio. Qual é a verdade que essa gente possui? Que provas, malditos sejam? Um livro de fábulas antigas? Promessas de milagres que estão por vir? A ciência produz milagres todos os dias!

Contemplou seus olhos de pedra. Esta noite pode ser que eu morra nas mãos da religião,

pensou. Mas não será a primeira vez.

E voltou aos seus 11 anos. Deitado em sua cama na mansão de seus pais em Frankfurt, os lençóis que o envolviam, feitos com o melhor linho da Europa, estavam empapados de suor. O jovem Max sentia o corpo em fogo, uma dor inimaginável torturando-o. Ajoelhados ao lado de sua cama, de onde não saíam já fazia três dias, estavam seu pai e sua mãe. Ambos rezavam.

Nas sombras do quarto encontravam-se três dos melhores médicos de Frankfurt.

- Insisto que pensem melhor! - disse um dos médicos. - Olhem para o menino! A febre está aumentando. Ele está com dores terríveis. E corre risco de vida!

Max, todavia, sabia o que sua mãe responderia antes mesmo que ela abrisse a boca.

- Gott wird ihn beschuetzen.

Sim, pensou Max. Deus vai me proteger. A convicção na voz de sua mãe deu- lhe forças. Deus vai me proteger.

Uma hora mais tarde, Max sentia dores tamanhas, como se seu corpo estivesse sendo esmagado por um carro. Sequer conseguia respirar para gritar.

- Seu filho está sofrendo demais - disse outro médico. - Deixe-me ao menos aliviar as dores dele. Tenho na minha mala uma injeção simples de...

- Ruhe, bitte! - O pai de Max fez o médico calar-se sem ao menos abrir os olhos, continuando a rezar.

- Papai, por favor! - Max queria gritar. - Deixe que ele faça a dor parar!

- Mas suas palavras perderam-se em um espasmo de tosse.

Uma hora depois, a dor tinha piorado ainda mais.

- Seu filho pode ficar paralítico - advertiu um dos médicos. - E até morrer! Temos remédios que podem ajudar!

Frau e Herr Kohler não permitiram. Não acreditavam em remédios. Quem eram eles para interferir nos planos divinos? Rezaram com maior intensidade. Afinal, se Deus os abençoara com aquele menino, por que Deus o levaria embora? Sua mãe sussurrou-lhe que fosse forte. Explicou que Deus o estava testando como na história de Abraão na Bíblia, um teste de fé.

Max tentava ter fé, mas as dores eram excruciantes.

- Não agüento ver isso! - disse afinal um dos médicos, saindo às pressas do quarto.

Ao amanhecer, Max estava semiconsciente. Todos os seus músculos contraíam-se em espasmos de agonia. Onde está Jesus? Delirava. Ele não me ama? Max sentia a vida esvaindo-se de seu corpo.

Sua mãe adormecera ao lado da cama, as mãos ainda entrelaçadas em cima dele. O pai estava junto à janela, do outro lado do quarto, vendo o dia clarear. Parecia estar em transe. Max escutava o murmúrio de suas súplicas incessantes por misericórdia.

Nesse momento Max divisou a figura pairando acima dele. Um anjo? Ele não enxergava direito. Seus olhos estavam muito inchados. A figura cochichou em seu ouvido, mas não era a voz de um anjo. Max reconheceu a voz de um dos médicos, o que estava sentado em um canto havia dois dias, sem desistir, rogando aos pais de Max que o deixassem administrar na criança um novo remédio vindo da Inglaterra.

- Nunca vou me perdoar - sussurrou o médico - se não fizer isso. - E, com delicadeza, pegou o braço frágil do menino. - Gostaria de tê-lo feito mais cedo.

Max sentiu uma pequenina espetadela no braço, que mal distinguiu em meio a tanta dor.

O médico então guardou suas coisas em silêncio. Antes de sair, pousou a mão na testa de Max.

- Isto vai salvar sua vida. Tenho muita fé no poder da medicina.

Poucos minutos depois, Max sentiu como se uma espécie de espírito mágico fluísse em suas veias. O calor espalhou-se por seu corpo e amorteceu a dor. Finalmente, pela primeira vez em dias, Max dormiu.

Quando a febre cedeu, seu pai e sua mãe proclamaram que era um milagre de Deus. Mas, quando ficou evidente que o filho estava aleijado, ficaram melancólicos. Levaram-no à igreja em uma cadeira de rodas e pediram que um padre os aconselhasse.

- Foi apenas pela graça de Deus - disse o padre - que esse menino sobreviveu.

Max escutava sem dizer nada.

- Mas nosso filho não anda mais! - chorava Frau Kohler.

O padre sacudiu a cabeça, com ar triste.

- Sim. Parece que Deus o puniu por não ter fé suficiente.

- Senhor Kohler? - era o guarda suíço que correra na frente quem falava.

- O camerlengo disse que concederá uma audiência ao senhor.

Kohler resmungou algo, acelerando de novo pelo corredor afora.

- Ele está surpreso com a sua visita - disse o guarda.

- Estou certo que sim - Kohler respondeu, prosseguindo. - Gostaria de vê-lo a sós.

- Impossível - disse o guarda. - Ninguém...

- Tenente - falou Rocher, ríspido -, a reunião será como o senhor Kohler deseja.

O guarda olhou fixo para ele, incrédulo.

Do lado de fora do escritório do Papa, Rocher autorizou seus guardas a tomarem as precauções de praxe antes de deixar Kohler entrar. O detector de metais manual perdeu toda a utilidade com os inúmeros aparelhos eletrônicos instalados na cadeira de rodas de Kohler. Os guardas o revistaram, mas sua deficiência evidentemente os encabulou e não o fizeram como deveriam. Não encontraram o revólver escondido sob a cadeira. Nem o outro objeto, aquele que, Kohler sabia, fecharia de modo inesquecível a seqüência de acontecimentos daquela noite.

Quando Kohler entrou no escritório do Papa, o camerlengo Ventresca estava sozinho, ajoelhado, rezando ao lado do fogo quase extinto da lareira. Não abriu os olhos.

- Senhor Kohler - disse o camerlengo. - O senhor veio para me transformar em um mártir?

CAPÍTULO 112

O túnel estreito chamado ii Passetto estendia-se em linha reta diante de Langdon e Vittoria enquanto os dois corriam rumo à Cidade do Vaticano. A tocha na mão de Langdon só produzia claridade para que enxergassem uns poucos metros adiante. As paredes eram muito próximas e o teto era baixo. Havia um cheiro desagradável de umidade no ar. Langdon avançava depressa pela escuridão com Vittoria seguindo-o de perto.

O túnel inclinava-se de modo acentuado ao sair do Castelo Sant'Angelo, prosseguindo em sentido ascendente por dentro da parte inferior de um bastião de pedra semelhante a um aqueduto romano. Ali, o túnel se estabilizava e continuava seu percurso secreto na direção da Cidade do Vaticano.

No caminho, os pensamentos sucediam-se como um caleidoscópio de imagens confusas na cabeça de Langdon - Kohler, Janus, o Hassassin, Rocher, uma sexta marca? Você já ouviu falar da sexta marca, dissera o matador. A mais brilhante de todas. Langdon tinha certeza de que não ouvira. Nem nas teorias conspiratórias havia qualquer referência a uma sexta marca, real ou imaginária. Sabia de boatos sobre barras de ouro e sobre um diamante liluminati sem qualquer jaça, mas nunca ouvira menção alguma a uma sexta marca.

- Kohler não pode ser Janus! - afirmou Vittoria, correndo pelo túnel atrás de Langdon. - É impossível!

Impossível era uma palavra que Langdon deixara de usar naquela noite.

- Não sei - gritou ele para trás, sem parar. - Kohler tinha um ressentimento sério e também exerce uma grande influência.

- Esta crise fez o CERN parecer monstruoso! Max nunca faria nada para prejudicar a reputação do CERN!

Por um lado, Langdon sabia que o CERN ficara desacreditado naquela noite devido à insistência dos Iliuminati em fazer daquilo tudo um espetáculo público. Por outro, ponderava o quanto de fato o CERN teria sido prejudicado. As críticas da Igreja não eram novidade para o CERN. Na verdade, quanto mais Langdon pensava a respeito, mais achava que a crise iria na realidade beneficiar o CERN. Se o negócio era publicidade, a antimatéria ganhara o grande prêmio da loteria naquela noite. No planeta inteiro só se falava dela.

- Sabe o que dizia o promotor P. T. Barnum? - disse Langdon por cima do ombro. - "Não me importo que falem mal de mim, contanto que escrevam meu nome certo!" Aposto como já deve ter uma fila de gente interessada em obter a licença da tecnologia da antimatéria. E depois que virem o que ela é capaz de fazer à meia-noite de hoje...

- Não tem lógica - disse Vittoria. - Fazer publicidade de avanços tecnológicos não é mostrar seu poder destrutivo! Isto é terrível para a antimatéria, acredite!

A tocha de Langdon estava quase no fim.

- Então deve ser mais simples do que isso. Talvez Kohler tenha apostado que o Vaticano manteria segredo sobre a antimatéria para não fortalecer os Illuminati. Kohler esperava que o Vaticano se comportasse com a sua reserva de costume sobre a ameaça, mas o camerlengo mudou as regras.

Vittoria ficou calada enquanto prosseguiam.

Aos poucos, as coisas foram fazendo mais sentido para Langdon.

- É isso! Kohler não contava com a reação do camerlengo. O camerlengo quebrou a tradição de segredo do Vaticano e foi a público falar da crise. Ele foi tremendamente franco. Chegou a pôr a antimatéria na TV! Foi uma reação brilhante, Kohler jamais a esperava. E a ironia de tudo é que o tiro dos Illuminati saiu pela culatra. Sem querer, produziu um novo líder da Igreja na pessoa do camerlengo. E agora Kohler está chegando para matá-lo!

- Max é um canalha - declarou Vittoria -, mas não é um assassino. E nunca estaria envolvido no assassinato do meu pai.

Na mente de Langdon, foi a própria voz de Kohler que respondeu: Leonardo era considerado perigoso por muitos puristas do CERN. Unir ciência e Deus é a suprema heresia científica.

- Talvez Kohler tenha descoberto sobre o projeto da antimatéria há semanas e não tenha ficado satisfeito com as implicações religiosas.

- E matado meu pai por causa disso? Ridículo! Além do mais, Max Kohler não sabia que o projeto existia.

- Enquanto você estava fora, talvez seu pai tenha sucumbido e consultado Kohler, pedindo orientação.

Você mesma disse que seu pai estava preocupado com as implicações morais de criar uma substância tão mortal.

- Pedir orientação moral a Maximilian Kohler? - desdenhou Vittoria. - Acho que não!

O túnel desviava-se ligeiramente para oeste. Quanto mais depressa corriam, mais fraca se tornava a luz da tocha. Langdon começou a temer que ficasse totalmente escuro, como se tivessem apagado a luz. Trevas totais.

- Além disso, por que Kohler teria se incomodado em ligar para você hoje de manhã cedo para pedir ajuda se ele próprio estivesse por trás de tudo?

Langdon já tinha considerado a possibilidade.

- Ao ligar para mim, Kohler estava cobrindo suas bases. Daí em diante, ninguém poderia acusá-lo de omissão em um momento de crise. Provavelmente não contava que fôssemos tão longe.

A idéia de ter sido "usado" por Kohler irritou Langdon. Seu envolvimento dera credibilidade aos Illuminati.

Suas qualificações e seus trabalhos publicados haviam sido citados a noite inteira pela imprensa e, por mais ridículo que fosse, a presença de um professor de Harvard na Cidade do Vaticano de certa forma afastara a possibilidade de que toda aquela situação pudesse ser um delírio paranóide, também convencendo os céticos do mundo todo de que a fraternidade dos Illuminati não era apenas um fato histórico, mas uma força a ser levada em conta.

- Aquele repórter da BBC - disse Langdon - acha que o CERN éo novo refúgio dos Illuminati.

- O quê! -Vittoria tropeçou atrás dele. Pôs-se de pé e alcançou-o. - Ele disse isso?!

- No ar. Comparou o CERN às lojas maçônicas. Uma organização inocente abrigando a fraternidade dos liluminati dentro dela.

- Meu Deus, isso vai destruir o CERN.

Langdon não tinha tanta certeza. De qualquer maneira, a teoria agora parecia mais coerente. O CERN era o supremo paraíso científico, onde viviam cientistas de mais de dez países. Aparentemente, dispunham de inesgotável financiamento privado. E Maximilian Kohler era o diretor.

Kohler é Janus.

- Se Kohler não está envolvido - argumentou Langdon -, o que veio fazer aqui?

- Provavelmente tentar impedir que essa loucura continue. Demonstrar apoio. Talvez ele esteja realmente agindo como o Samaritano! Pode ter descoberto quem sabia sobre o projeto da antimatéria e veio trazer informações.

- O matador disse que ele viria para marcar o camerlengo a fogo.

- Preste atenção no que está dizendo! Isto seria uma missão suicida. Max jamais sairia vivo daqui.

Langdon refletiu. Talvez seja esta a questão.

Os contornos de um portão de ferro delinearam-se à frente bloqueando-lhes a passagem. O coração de Langdon quase parou. Quando se aproximaram, entretanto, encontraram o velho cadeado solto. O portão podia ser aberto à vontade.

Langdon suspirou aliviado, percebendo, como já desconfiava, que o velho túnel fora usado. Recentemente. Naquele mesmo dia. Agora não tinha dúvidas de que quatro cardeais aterrorizados haviam sido conduzidos por ali secretamente horas antes.

Continuaram a correr. Dava para ouvir agora o som do caos à esquerda. Era a Praça de São Pedro. Estavam chegando.

Passaram por outro portão, este mais pesado e também destrancado. O barulho na Praça de São Pedro diminuiu de intensidade atrás deles e Langdon calculou que tinham ultrapassado o muro externo da Cidade do Vaticano. Perguntava-se onde terminaria aquela antiga passagem. Nos jardins? Na basílica? Na residência do Papa?

Então, inesperadamente, o túnel chegou ao fim.

A incômoda porta que lhes obstruía o caminho era uma grossa muralha de ferro rebitado. Mesmo à luz bruxuleante da tocha, agora em seus últimos lampejos, dava para ver que a porta era inteiriça - sem maçaneta, sem puxadores, sem buraco de fechadura, sem dobradiças. Sem jeito de entrar.

Sentiu uma onda de pânico. Em linguagem de arquiteto, aquele raro tipo de porta era chamado de senza chiave: uma passagem de sentido único, usada para fins de segurança, só operável de um dos lados - do outro lado, no caso. As esperanças de Langdon apagaram-se junto com a tocha em sua mão.

Olhou para o relógio. Mickey brilhava no escuro.

11h29.

Com um grito de frustração, Langdon atirou longe a tocha e começou a esmurrar a porta.

CAPÍTULO 113

Algo estava errado.

O tenente Chartrand encontrava-se do lado de fora do escritório do Papa e, pela postura constrangida do soldado que montava guarda com ele, percebia que ambos partilhavam a mesma ansiedade. O encontro particular que estavam protegendo, dissera Rocher, poderia salvar o Vaticano da destruição. Portanto, Chartrand não compreendia por que motivo seu instinto de preservação estava tão aguçado. E por que Rocher estaria agindo de modo tão estranho?

Decididamente, algo estava errado.

O capitão Rocher encontrava-se à direita de Chartrand, olhando fixo para a frente, seu olhar arguto estranhamente distante. Chartrand mal reconhecia o capitão. Rocher nem parecia o mesmo naquela última hora. As decisões dele não faziam sentido.

Alguém tinha de estar presente lá dentro durante este encontro, pensou Chartrand. Escutara Maximilian Kohler trancar a porta depois de entrar. Por que Rocher permitira aquilo?

Mas havia muito mais coisas incomodando Chartrand. Os cardeais. Os cardeais ainda estavam trancados na Capela Sistina. Isso era uma insanidade total. O camerlengo queria que eles tivessem saído 15 minutos antes! Rocher passara por cima da decisão e não informara o camerlengo. Chartrand demonstrara preocupação e Rocher quase arrancara a cabeça dele. A cadeia de comando nunca era questionada na Guarda Suíça, e agora quem mandava era Rocher.

Meia hora, pensou Rocher, discretamente verificando seu cronômetro suíço à luz mortiça do candelabro que iluminava o saguão. Por favor, apressem-se.

Chartrand gostaria de poder escutar o que estava acontecendo do outro lado das portas. Ainda assim, sabia que ninguém melhor do que o camerlengo para lidar com aquela crise. O homem passara por provas duríssimas naquela noite sem esmorecer. Enfrentara o problema de cabeça erguida - verdadeiro, franco, brilhando, um exemplo para todos. Chartrand estava sentindo orgulho de ser católico. Os Iliuminati tinham cometido um engano ao desafiarem o camerlengo Ventresca.

Naquele momento, porém, os pensamentos de Chartrand foram abalados por um som inesperado. Batidas.

Vinham do fundo do corredor. As batidas soavam distantes e abafadas, mas incessantes. Rocher levantou a cabeça. O capitão fez um sinal para Chartrand. Chartrand compreendeu, ligou sua lanterna e foi investigar.

As batidas soavam mais desesperadas agora. Chartrand percorreu 30 metros do corredor até um cruzamento. O barulho parecia vir de algum ponto depois da curva, além da Sala Clementina. Chartrand estava perplexo. Só havia um aposento ali - a biblioteca particular do Papa, que estava trancada desde a morte de Sua Santidade. Não podia haver ninguém lá!

Continuar: parte 3 de 3