Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 2 de 8 · parte 3/3

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Anjos e Demônios

Capítulo 1 · Do alto da pirâmide de Gizé, a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Não transmite nenhuma mensagem clara. Não serve a nenhum objetivo maior.

A cadeira de rodas de Kohler parou subitamente no alto da ladeira. Ele se virou.

- Senhor Langdon, acredite, aquele olho que falta serve realmente a um objetivo maior, muito maior.

Quando os dois homens atravessaram a elevação coberta de grama, ouviu- se o ruído das hélices de um helicóptero a oeste. O aparelho apareceu e descreveu um arco no vale aberto, vindo na direção deles.

Inclinou-se bastante para um lado e depois diminuiu a velocidade, pairando acima de um heliponto pintado na grama.

Langdon observava, distante, sua mente em um redemoinho como o das hélices, pensando se uma boa noite de sono seria capaz de acabar com aquela desorientação, tornar suas idéias mais claras. De alguma forma, duvidava muito disso.

A aeronave tocou o chão, um piloto saltou e começou a descarregar material. Havia um bocado de bagagem: apetrechos de acampamento bolsas impermeáveis de vinil, cilindros de oxigênio e engradados que pareciam conter equipamento de alta tecnologia para mergulho.

Langdon ficou confuso.

- Esse é o equipamento da senhorita Vetra? - gritou para Kohler em meio ao ruído dos motores.

Kohler assentiu e gritou de volta:

- Ela estava fazendo pesquisas biológicas no mar Balear.

- Pensei que tivesse dito que ela era física!

- E é. Ela é biofísica de Quantum Entanglement, ou emaranhamento quântico. Estuda a interconexão dos sistemas de vida. O trabalho dela está intimamente relacionado com o do pai. Recentemente, ela refutou uma das teorias fundamentais de Einstein usando câmeras atomicamente sincronizadas para observar um cardume de atuns.

Langdon examinou o rosto de seu anfitrião em busca de qualquer vestígio de humor. Einstein e atuns?

Ele começava a se questionar se o avião espacial X-33 não o teria deixado no planeta errado por engano.

Um momento depois, Vittoria Vetra saiu do helicóptero. Robert Langdon percebeu que aquele seria realmente um dia de intermináveis surpresas. Ao descer da aeronave, de short cáqui e blusa branca sem mangas, Vittoria Vetra em nada se parecia com a cientista circunspecta que ele esperava. Ágil e graciosa, era alta, com pele morena e longos cabelos negros, que o vento dos rotores agitava. Seu rosto era inegavelmente italiano, sem ser bonita demais porém com traços largos e fortes que, mesmo à distância, transpiravam uma sensualidade crua. As lufadas de ar colavam sua roupa ao corpo, acentuando-lhe o torso esbelto e os seios pequenos.

- A senhorita Vetra é uma mulher de tremenda força pessoal - disse Kohler, parecendo notar a fascinação de Langdon. - Passa meses a fio trabalhando em sistemas ecológicos perigosos. É uma vegetariana rigorosa e o guru residente de hata-ioga do CERN.

Hata-ioga? Langdon ponderou. A antiga arte budista de meditação e alongamento parecia uma estranha habilidade para uma física filha de um padre católico.

Langdon observou-a enquanto se aproximava. Obviamente, ela estivera chorando, seus olhos escuros e profundos cheios de emoções que Langdon não saberia identificar. Ainda assim, movia-se em direção a eles com ímpeto e firmeza. Seus braços e pernas eram fortes e de músculos bem trabalhados, irradiando a saudável luminosidade da pele mediterrânea que passara muitas horas ao sol.

- Vittoria - disse-lhe Kohler -, meus sentimentos. É uma perda terrível para a ciência e para todos nós aqui no CERN.

Vittoria agradeceu com um gesto de cabeça. Quando falou, sua voz era macia, com um sotaque gutural.

- Já sabe quem é o responsável?

- Ainda estamos trabalhando nisso.

Ela se voltou para Langdon, estendendo-lhe a mão esguia.

- Meu nome é Vittoria Vetra. O senhor deve ser da Interpol?

Langdon apertou a mão dela, momentaneamente enfeitiçado por seu olhar profundo.

- Robert Langdon - apresentou-se, sem saber o que dizer mais.

- O senhor Langdon não está com as autoridades - explicou Kohler. - Ele é um especialista vindo dos Estados Unidos. Está aqui para nos ajudar a localizar o responsável por esta situação.

Vittoria pareceu meio insegura.

- E a polícia?

Kohler suspirou, mas não disse nada.

- Onde está o corpo? - exigiu ela.

- Sendo cuidado.

A mentira caridosa surpreendeu Langdon.

- Quero vê-lo - disse Vittoria.

- Vittoria - instou Kohler -, seu pai foi brutalmente assassinado. Seria melhor que se lembrasse dele como era.

Ela começou a falar, mas foi interrompida.

- Ei, Vittoria - vozes chamaram de longe. - Seja bem-vinda de volta!

Ela se virou. Um grupo de cientistas que passava perto do heliponto acenou alegremente.

- Desmentiu mais alguma teoria de Einstein? - gritou um deles.

- Seu pai deve estar orgulhoso!

Vittoria acenou, sem jeito, quando eles passaram. Então, voltou-se para Kohler, o rosto com uma expressão confusa.

- Ninguém sabe ainda?!

- Decidi que discrição era fundamental.

- O senhor não contou à equipe que meu pai foi assassinado? - Agora havia uma certa raiva no seu tom de voz.

Kohler replicou com dureza:

- Talvez tenha esquecido, senhorita Vetra, que, assim que eu comunicar a morte de seu pai, haverá uma investigação no CERN. Incluindo uma vistoria completa neste laboratório. Sempre procurei respeitar a privacidade de seu pai. Ele me contou apenas duas coisas sobre o seu projeto atual: que tem potencial para trazer milhões de francos para o CERN em contratos de licença na próxima década e que não está pronto para divulgação pública porque ainda é uma tecnologia de risco. Considerando-se esses dois fatos, preferiria não ter gente estranha bisbilhotando o laboratório dele e, quem sabe, roubando o trabalho dele ou morrendo ao fazê-lo e tornando o CERN responsável por isso em seguida. Ficou bem claro?

Vittoria parou, calada. Langdon percebeu nela um respeito e uma aceitação relutantes pela lógica de Kohler.

- Antes de comunicarmos qualquer coisa às autoridades - disse Kohler -, preciso saber em que vocês dois estavam trabalhando. Preciso que nos leve ao seu laboratório.

- O laboratório é irrelevante - disse Vittoria. - Ninguém sabia o que meu pai e eu estávamos fazendo. A experiência não poderia de jeito algum ter a ver com a morte dele.

A respiração de Kohler soou irritada, aflita.

- Não é o que indicam as evidências.

- Evidências? Que evidências?

Langdon fazia-se a mesma pergunta.

Kohler mais uma vez enxugou a boca.

- Por enquanto, vai ter de confiar em mim.

Estava claro, pela intensidade do olhar, que ela não confiava.

CAPÍTULO 15

Langdon caminhou em silêncio atrás de Vittoria e Kohler na volta para o saguão principal onde sua estranha visita começara. As pernas de Vittoria moviam-se com fluida eficiência - como a de um mergulhador olímpico -, sem dúvida, imaginou Langdon, como resultado da flexibilidade e controle obtidos com a prática da ioga. Notou que ela respirava lenta e deliberadamente, como se tentasse filtrar sua dor.

Langdon queria dizer-lhe alguma coisa, apresentar suas condolências. Ele também já sentira o vazio abrupto de perder um pai inesperadamente. Lembrava-se sobretudo do dia do enterro, cinzento e chuvoso. Dois dias depois de seu aniversário de 12 anos. A casa ficou cheia de homens do escritório, vestidos com ternos escuros, homens que apertavam sua mão com força demais. Todos murmuravam palavras como cardíaco e estresse. Sua mãe, com os olhos cheios de lágrimas, brincava que conseguia acompanhar o mercado de ações só segurando a mão de seu marido.., o pulso dele era sua fita particular do registrador de cotações da bolsa.

Certa vez, quando seu pai era vivo, Robert escutara a mãe pedindo-lhe que "parasse um pouco para sentir o perfume das rosas". Naquele ano, Langdon comprou para o pai no Natal uma pequena rosa de vidro soprado. Era o objeto mais lindo que o menino já vira.., encantou-se com a maneira como o sol se refletia nela, lançando um arco-íris de cores na parede. "É linda' dissera o pai ao abrir o presente, beijando a testa de Robert. "Vamos procurar um lugar seguro para ela: 'Então, seu pai colocou cuidadosamente a rosa em uma prateleira alta e empoeirada no ponto mais escuro da sala de estar.

Dias mais tarde, Langdon subiu em um banco, apanhou a rosa e devolveu-a à loja. O pai nunca percebeu que ela não estava mais lá.

O som da campainha do elevador trouxe-o de volta ao presente. Vittoria e Kohler estavam à sua frente, entrando no elevador. Langdon hesitou diante da porta aberta.

- Alguma coisa errada? - perguntou Kohler, mais impaciente do que preocupado.

- Não, nada - disse Langdon, forçando-se a embarcar no cubículo apertado. Só usava elevadores quando absolutamente necessário. Preferia os espaços mais abertos das escadarias.

- O laboratório do doutor Vetra é subterrâneo - esclareceu Kohler.

Maravilha, pensou Langdon ao entrar, sentindo um vento gelado subir das profundezas do poço. As portas se fecharam e o elevador começou a descer.

- Seis andares - disse Kohler inexpressivamente, como uma máquina.

Langdon imaginou a escuridão do poço abaixo deles. Tentou bloquear o pensamento olhando para o painel numerado dos andares. Curiosamente, o painel do elevador só indicava duas paradas. TÉRREO e LHC.

- O que quer dizer LHC? - perguntou Langdon, esforçando-se para não parecer nervoso.

- Large Hadron Collider, o Grande Colisor de Hádrons - respondeu Kohler.

- Um acelerador de partículas.

Acelerador de partículas? O termo era-lhe vagamente familiar. Ouvira-o pela primeira vez em um jantar com colegas na Dunster House, em Cambridge. Um físico amigo deles, Bob Brownell, chegara enfurecido naquela noite.

- Os malditos imbecis cancelaram tudo! - praguejou Brownell.

- Cancelaram o quê? - perguntaram os outros.

-OSCS!

- O quê?

- O Super Colisor Supercondutor!

Alguém deu de ombros.

- Não sabia que Harvard estava construindo um.

- Não é Harvard! - exclamou. - São os Estados Unidos! Seria o acelerador de partículas mais poderoso do mundo! Um dos mais importantes projetos científicos do século! Puseram dois bilhões de dólares nisso e o Senado dispensou o projeto! Aqueles lobistas desgraçados, protestantes fundamentalistas!

Quando Brownell finalmente se acalmou, explicou que um acelerador de partículas é um grande tubo circular dentro do qual partículas subatômicas eram aceleradas. Dentro do túnel, ímãs são ativados e desativados em rápida sucessão para "empurrar" as partículas adiante até que alcancem velocidades. As partículas totalmente aceleradas circulam pelo tubo a quase 300 mil quilômetros por segundo.

- Mas é quase a velocidade da luz - exclamou um dos professores.

- É isso aí - disse Brownell.

E continuou a falar, explicando que, ao acelerar duas partículas em direções opostas à volta do tubo e depois fazê-las colidir, os cientistas podem desintegrar as partículas nas partes em que são constituídas e assim ter uma noção a respeito dos componentes fundamentais da natureza.

- Os aceleradores de partículas - declarou Brownell - são cruciais para o futuro da ciência. A colisão de partículas é a chave para se compreender os blocos de que é formado o universo.

O Poeta Residente de Harvard, um homem sossegado chamado Charles Pratt, não se impressionou muito.

- Para mim, isso parece mais - disse Pratt - uma abordagem científica de Neanderthal... igual a espatifar relógios para conhecer o mecanismo interno deles.

Num rompante, Brownell largou o garfo e saiu da sala pisando duro.

Quer dizer que o CERN tem um acelerador de partículas? - pensou Langdon, conforme o elevador descia. Um tubo circular para despedaçar partículas. Gostaria de saber por que era subterrâneo.

Quando o elevador parou, Langdon ficou feliz em sentir terra firme de novo sob os pés. Assim que as portas se abriram, porém, seu alívio evaporou-se. Encontrava-se outra vez em um mundo totalmente estranho.

O corredor estendia-se indefinidamente em ambas as direções, esquerda e direita. Tratava-se de um túnel revestido de cimento liso, largo o suficiente para permitir a passagem de um caminhão de cinco eixos.

Profusamente iluminado no ponto onde estavam, mais adiante o corredor tornava-se negro como breu. Um vento úmido, sussurrando, vinha da escuridão - um lembrete inquietante de que se encontravam agora muitos metros abaixo do solo. Langdon quase sentia o peso da terra e das pedras acima de sua cabeça. Por um instante, voltou a ter nove anos de idade, a escuridão forçando-o a voltar às cinco horas de trevas sufocantes que ainda o assombravam. Cerrando os punhos, lutou contra aquela sensação.

Vittoria manteve-se em silêncio ao sair do elevador e seguir sozinha sem hesitar para o corredor escuro. No teto, conforme ela passava, as luzes fluorescentes iam aos poucos se acendendo para iluminar seu caminho. O efeito era perturbador, como se o corredor estivesse vivo, prevendo cada um dos movimentos dela. Langdon e Kohler seguiam-na a certa distância. As luzes apagavam-se automaticamente atrás deles.

- Esse acelerador de partículas - disse Langdon em voz baixa - está aqui embaixo neste túnel?

- Está ali. - Kohler apontou para a sua esquerda, onde um tubo cromado, polido, corria pela parede interna do túnel.

Langdon olhou para o tubo, perplexo.

- Isso é o acelerador?

Não era nem um pouco como ele havia imaginado. Completamente reto, com uns noventa centímetros de diâmetro, estendia-se na horizontal pela extensão visível do túnel até desaparecer na escuridão. Lembra mais um cano de esgoto high-tech, pensou Langdon.

- Achei que os aceleradores de partículas fossem circulares.

- Este acelerador é circular - disse Kohler. - Parece ser reto, mas isto é uma ilusão de ótica. A circunferência deste túnel é tão grande que a curva é imperceptível. Como a da Terra.

Langdon estava admirado.

- Isto é um círculo? Mas então... deve ser imenso!

- O LHC é a maior máquina do mundo.

Langdon olhou de novo o tubo para ter certeza de que não se enganara. Lembrou-se do motorista do CERN comentando sobre uma enorme máquina sob a terra. No entanto...

- Tem mais de oito quilômetros de diâmetro e vinte e sete quilômetros de extensão.

Langdon virou rapidamente a cabeça para o diretor, depois para o túnel escuro à sua frente.

- Vinte e sete quilômetros? Este túnel tem vinte e sete quilômetros de comprimento?

Kohler concordou.

- Cavados em um círculo perfeito. Vai até a França e volta para cá. As partículas aceleradas percorrem o tubo mais de dez mil vezes em um único segundo antes de colidirem.

As pernas de Langdon ficaram bambas ao olhar para a abertura negra do túnel.

- Está dizendo que o CERN removeu milhões de toneladas de terra só para espatifar partículas minúsculas?

Kohler ergueu os ombros.

- Às vezes, para encontrar a verdade, é preciso remover montanhas.

CAPÍTULO 16

A quilômetros do CERN, uma voz soou através de um walk-talkje.

- 0K, estou no corredor. - o técnico que monitorava as telas de vídeo apertou o botão de seu transmissor e disse: - A câmera que você está procurando é a 86. Deve estar no fim do corredor. Seguiu-se um longo silêncio no rádio. Um ligeiro suor cobriu o rosto do técnico que esperava. Finalmente, seu rádio deu um estalido.

- A câmera não está no lugar - disse a voz. - Mas dá para ver onde estava instalada. Alguém deve tê-la tirado daqui. - o técnico respirou fundo.

- Obrigado. Espere só mais um segundo, está bem?

Suspirando, voltou a atenção para as telas de vídeo à sua frente. Grande parte do conjunto de prédios era aberta ao público, e câmeras sem fio já haviam sumido antes, em geral roubadas por visitantes engraçadinhos em busca de suvenires. Entretanto, assim que a câmera saía dos prédios e ficava fora de alcance, o sinal se perdia e a tela ficava em branco. Perplexo, o técnico olhava para o monitor. Uma imagem clara como água ainda vinha da câmera 86.

Se a câmera foi roubada, refletia ele, como ainda estamos recebendo o sinal? Sabia que só havia uma explicação para isso. A câmera ainda estava dentro dos prédios, alguém apenas a trocara de lugar. Mas quem? E por quê?

Estudou o monitor durante algum tempo. Por fim, pegou seu walkie-talkie.

- Há algum armário embutido nesse poço de escada? Algum móvel com portas, algum nicho escuro?

A voz que respondeu parecia um tanto espantada.

- Não. Por quê?

O técnico fez uma cara feia.

- Por nada. Obrigado pela ajuda.

Desligou o walkie-talkie e apertou os lábios.

Considerando-se o tamanho pequeno da câmera de vídeo e o fato de não ter fio, o técnico sabia que a câmera 86 podia estar transmitindo de qualquer lugar do fortemente vigiado complexo de construções - um conjunto compacto de 32 prédios independentes em um raio de 800 metros. A única pista é que a câmara parecia ter sido posta em um lugar escuro. Claro que isso não ajudava grande coisa. Havia milhares de lugares escuros ali - armários de manutenção, dutos de aquecimento, galpões de utensílios de jardinagem, armários de quartos de dormir e até um labirinto de túneis subterrâneos. Poderiam levar semanas para encontrar a câmera 86.

Mas esse é o menor dos meus problemas.

Além do dilema da nova localização da câmera, havia outra questão muito mais preocupante a resolver. O técnico levantou o olhar para a imagem que a câmera perdida estava transmitindo. A de um objeto imóvel.

Um aparelho moderno que não se parecia com nada que o técnico conhecesse. Ele examinou o mostrador eletrônico que piscava na base do aparelho.

Embora o guarda tivesse passado por um rigoroso treinamento que o preparava para situações de tensão, ainda assim sentia seu pulso acelerando. Disse a si mesmo para não entrar em pânico. Tinha de haver uma explicação. O objeto parecia pequeno demais para oferecer perigo significativo. De qualquer forma, sua presença ali dentro era perturbadora. Muito perturbadora, na verdade.

Logo hoje, pensou.

Segurança era sempre uma prioridade para seu empregador, mas hoje, mais do que em qualquer outro dia nos últimos 12 anos, segurança era uma questão da maior importância. O técnico observou o objeto durante muito tempo e escutou o ruído de trovoadas de uma tempestade que se aproximava ao longe.

Então, suando, discou para seu superior.

CAPÍTULO 17

Poucas crianças podem dizer que se lembram do dia em que encontraram seu pai, mas Vittoria Vetra podia. Tinha oito anos e morava no lugar de sempre, o Orfanotrofio di Siena, um orfanato católico perto de Florença, abandonada por pais que nunca conhecera. Estava chovendo naquele dia. As freiras já tinham chamado por ela duas vezes para ir jantar, mas ela fingia não ouvir. Continuava lá fora, deitada no pátio, com o rosto voltado para o alto, para as gotas de chuva, sentindo-as bater em seu corpo, tentando adivinhar onde iriam cair em seguida. As freiras chamaram de novo, ameaçando-a de pegar uma pneumonia, o que tornaria aquela criança insuportavelmente cabeça-dura muito menos curiosa sobre a natureza.

Não estou escutando vocês, pensava Vittoria.

Estava encharcada quando o jovem padre saiu para buscá-la. Ele era novo ali. Vittoria esperou que ele viesse arrastá-la para dentro. Mas ele não o fez. Para surpresa dela, deitou-se ao seu lado, molhando a batina em uma poça.

- Disseram que você faz uma porção de perguntas - disse o moço.

Vittoria replicou, mal-humorada:

- E é ruim fazer perguntas?

Ele riu.

- Acho que não.

- O que você está fazendo aqui fora?

- O mesmo que você: pensando por que as gotas de chuva caem.

- Não estou pensando por que elas caem! Eu já sei!

O padre olhou espantado para ela.

- Você sabe?

- A irmã Francisca disse que as gotas de chuva são lágrimas dos anjos que caem para lavar nossos pecados.

- Puxa! - ele disse, em um tom admirado. - Então, está explicado.

- Não, não está! - disparou a menina. - As gotas caem porque tudo cai! Tudo! Não é só a chuva!

O padre coçou a cabeça.

- Sabe, mocinha, você tem razão. Tudo cai mesmo. Deve ser a gravidade.

- Deve ser o quê?

Ele olhou para ela com ar incrédulo.

- Você nunca ouviu falar da gravidade?

- Não.

O padre fez um gesto decepcionado.

- É uma pena. A gravidade responde a uma porção de perguntas.

Vittoria sentou-se.

- O que é gravidade? - perguntou, exigente. - Diga para mim!

O padre piscou o olho para ela.

- E se eu explicar a você durante o jantar?

O jovem padre era Leonardo Vetra. Embora tivesse ganho prêmios de Física quando aluno da universidade, ouvira um outro chamado e fora para o seminário. Leonardo e Vittoria tornaram-se grandes amigos, por mais improvável que fosse, naquele mundo solitário de freiras e regulamentos. Vittoria fazia Leonardo rir e ele tomou-a sob sua proteção, ensinando-lhe que belas coisas como o arco-íris e os rios tinham muitas explicações. Falou-lhe sobre a luz, os planetas, as estrelas e toda a natureza, tanto do ponto de vista de Deus quanto do da ciência. O intelecto e a curiosidade inatos de Vittoria faziam dela uma aluna cativante. Leonardo a protegia como a uma filha.

Vittoria também estava feliz. Nunca sentira a alegria de ter um pai. Enquanto todos os outros adultos respondiam às suas perguntas com um ar de repreensão, Leonardo passava horas mostrando-lhe livros.

Até perguntava o que ela achava, quais eram suas idéias sobre os assuntos. Então, certo dia, seu pior pesadelo virou realidade. Padre Leonardo disse-lhe que iria sair do orfanato.

- Vou me mudar para a Suíça - explicou ele. - Recebi uma subvenção para estudar Física na Universidade de Genebra.

- Física? - exclamou Vittoria. - Pensei que você amasse a Deus!

- Eu amo, e muito. Por isso é que quero estudar suas regras divinas. As leis da Física são a tela que Deus estendeu para pintar sua obra-prima.

Vittoria ficou arrasada. Mas o padre Leonardo tinha mais novidades. Disse a Vittoria que conversara com seus superiores e eles haviam concordado que Leonardo a adotasse.

- Você gostaria que eu a adotasse? - perguntou Leonardo.

- O que significa adotar? - perguntou Vittoria por sua vez.

O padre Leonardo explicou.

Vittoria abraçou-o durante cinco minutos seguidos, chorando de alegria.

- Ah, eu quero, quero sim!

E ele disse que teria de partir e ficar longe por algum tempo, até instalar seu novo lar na Suíça, mas que mandaria buscá-la dentro de seis meses. Seria a mais longa espera da vida de Vittoria, mas Leonardo manteve a palavra. Cinco dias antes de seu aniversário de nove anos, Vittoria mudou-se para Genebra. Freqüentava a Escola Internacional de Genebra durante o dia e estudava com seu pai à noite.

Três anos depois, Leonardo Vetra foi contratado pelo CERN. Vittoria e Leonardo mudaram-se para um país das maravilhas como jamais a pequena Vittoria pudera imaginar.

Vittoria Vetra sentia seu corpo entorpecido enquanto percorria o túnel do LHC. Via nele o reflexo de sua imagem silenciosa e percebia a ausência de seu pai. Normalmente, ela vivia em um estado de profunda calma, em harmonia com o mundo à sua volta. Agora, porém, de repente, nada mais fazia sentido. As últimas três horas haviam sido como um borrão indistinto.

Eram dez da manhã quando a chamada de Kohler chegou nas ilhas Baleares. Seu pai foi assassinado. Volte imediatamente para casa. A despeito do calor abafado no convés do barco de mergulho, ela gelara até os ossos com aquelas palavras, o tom de voz de Kohler, despojado de qualquer emoção, ferindo-a tanto quanto a notícia. Agora, ela voltara para casa. Mas que casa, afinal? O CERN, seu mundo desde os 12 anos, parecia de repente estrangeiro. Seu pai, o homem que o tornara mágico, estava morto.

Respire fundo, disse a si mesma, mas não conseguia acalmar sua mente. As perguntas

sucediam-se uma à outra cada vez mais depressa. Quem matara seu pai? E por quê? Quem era aquele "especialista" americano? Por que Kohler insistia em ver o laboratório?

Kohler dissera que existiam evidências de que o assassinato de seu pai estava relacionado com o projeto em curso. Que evidências? Ninguém sabia em que estávamos trabalhando! E, mesmo que alguém descobrisse, por que o matariam? Andando pelo túnel do LHC a caminho do laboratório de seu pai, Vittoria se deu conta de que estava prestes a revelar o trabalho mais importante de seu pai sem que ele estivesse presente.

Imaginara aquele momento de forma muito diferente: seu pai convocando os maiores cientistas do CERN, mostrando-lhes sua descoberta, vendo as expressões de admiração e respeito em seus rostos. Em seguida, radiante de orgulho paterno, ele explicaria a eles como havia sido uma idéia de Vittoria que o ajudara a transformar o projeto em realidade.., que a participação de sua filha havia sido essencial naquele trabalho pioneiro. Vittoria sentiu um nó na garganta. Meu pai e eu deveríamos estar juntos dividindo este momento. E lá estava ela sozinha. Sem colegas. Sem rostos felizes. Só um americano estranho e Maximilian Kohler.

Maximilian Kohler. Der Kônig.

Mesmo quando criança, Vittoria não simpatizava com ele. Embora tivesse aprendido a respeitar seu intelecto poderoso, aquelas maneiras gélidas sempre lhe pareceram desumanas, a antítese exata do comportamento caloroso de seu pai. Kohler buscava na ciência a lógica imaculada; seu pai, o deslumbramento espiritual. E, no entanto, por estranho que fosse, sempre parecera existir um tácito respeito entre os dois homens. Alguém explicara a ela que o gênio aceita outro gênio incondicionalmente.

Gênio, pensou ela. Meu pai... papai. Morto.

A entrada para o laboratório de Leonardo Vetra era um comprido e asséptico corredor inteiramente revestido de azulejos brancos. Langdon teve a impressão de estar entrando em uma espécie de asilo de loucos subterrâneo. Alinhadas nas paredes do corredor havia dezenas de imagens em preto-e-branco emolduradas. Langdon construíra sua carreira estudando imagens, mas aquelas lhe eram inteiramente desconhecidas. Pareciam negativos caóticos de riscos e espirais aleatórios. Arte moderna? – arriscou ele. Jackson Pollock depois das anfetaminas?

- São diagramas de dispersão - disse Vittoria, notando o interesse de Langdon. -Representações em computador da colisão de partículas. Esta é a partícula Z - disse ela, apontando para um leve traço, quase invisível na confusão. - Meu pai descobriu-a faz cinco anos. Pura energia, sem massa nenhuma. Pode muito bem ser o menor bloco estrutural na natureza. A matéria nada mais é do que energia capturada.

Matéria é energia? Langdon inclinou a cabeça para um lado. Isto soa muito zen. Examinou o minúsculo traço na fotografia e imaginou o que diriam seus amigos no Departamento de Física de Harvard quando lhes contasse que passara o fim de semana em um grande colisor de hádrons admirando partículas Z.

- Vittoria - falou Kohler quando se aproximaram da imponente porta de aço do laboratório-, tenho de avisá - la que vim aqui esta manhã procurar seu pai.

Vittoria enrubesceu ligeiramente.

-Veio?

- Sim. E fiquei muito surpreso ao ver que ele trocou a fechadura de segurança padronizada do CERN por algo diferente.

Kohler indicou um aparelho eletrônico complicado ao lado da porta.

- Desculpe - disse ela. - Mas sabe como ele se preocupava com a privacidade. Não queria que mais ninguém além de nós dois tivesse acesso ao laboratório.

- Muito bem - disse Kohler. - Abra a porta.

Vittoria ficou parada por algum tempo. Então, respirando fundo, encaminhou-se para o mecanismo instalado na parede.

Langdon não estava preparado para o que aconteceu em seguida.

Vittoria aproximou-se do aparelho e, com cuidado, alinhou seu olho direito com uma lente protuberante que parecia um telescópio. Depois, apertou um botão. Ouviu-se um estalido dentro da máquina. Um facho de luz oscilava de um lado para outro, escaneando o globo ocular dela como se fosse uma máquina copiadora.

- É um scanner de retina - explicou ela. - Segurança infalível. Programado para aceitar apenas dois padrões de retina, o meu e o do meu pai.

Robert Langdon parou, horrorizado com a revelação. A imagem de Leonardo Vetra voltou-lhe à cabeça em detalhes assustadores - o rosto ensangüentado, o único olho castanho fitando-o de volta, a órbita vazia.

Tentou recusar a verdade óbvia, mas então viu no chão de azulejos brancos, abaixo do scanner, minúsculas gotas vermelhas. Sangue seco.

Vittoria, ainda bem, nada percebeu.

A porta de aço abriu-se deslizando e ela entrou.

Kohler fixou em Langdon um olhar implacável. A mensagem era clara: É como eu lhe disse. O olho que falta serve realmente a um objetivo maior.

CAPÍTULO 18

As mãos da mulher estavam amarradas, os pulsos agora roxos e inchados por causa do atrito. O Hassassin de pele cor de mogno estava deitado ao lado dela, esgotado, admirando sua presa nua.

Pensava se aquele sono leve a que ela estava entregue no momento não seria um truque, uma tentativa patética de evitar prestar-lhe mais serviço.

Ele não se importava. Já se recompensara o suficiente. Saciado, sentou-se na cama. Em seu país, as mulheres eram propriedades, posses. Fracas. Instrumentos de prazer. Escravas para serem negociadas como gado. E sabiam qual era o lugar delas. Mas ali, na Europa, elas fingiam ter uma força e uma independência que o divertiam e excitavam ao mesmo tempo. Forçá-las à submissão física era uma gratificação que ele sempre apreciava.

Agora, a despeito do contentamento sexual, o Hassassin percebia que um outro apetite crescia dentro dele. Ele matara na noite anterior, matara e mutilara, e para ele matar era como heroína, cada ocasião satisfazendo-o apenas temporariamente antes de aumentar sua ânsia por mais. A animação da véspera havia passado. O desejo ardente estava de volta.

Analisou a mulher adormecida perto dele. Correndo a palma da mão por seu pescoço, excitou-o saber que poderia acabar com a vida dela em um instante. Que importância isso teria? Ela era subumana, apenas um veículo de prazer e serviços. Seus dedos fortes envolveram a garganta dela, saboreando sua pulsação delicada. Então, lutando contra o desejo, ele retirou a mão. Tinha um trabalho a fazer. Servir a uma causa mais elevada que seu próprio desejo.

Saiu da cama e exultou com a honra da tarefa que o aguardava. Ainda não era capaz de avaliar a influência desse homem chamado Janus e da antiga fraternidade que ele comandava.

Maravilhava-se com o fato de ter sido escolhido por essa fraternidade. De alguma forma, conheciam seu ódio e suas habilidades. Como, ele nunca saberia. Suas raízes estendem-se até muito longe.

Haviam concedido a ele a honra máxima. Ele seria suas mãos e sua voz. Seu assassino e seu mensageiro. Aquele a que seu povo chamava de Malak al-haq, o Anjo da Verdade.

CAPÍTULO 19

O laboratório de Vetra era extremamente futurístico.

Todo branco e rodeado por todos os lados de computadores e equipamento eletrônico especializado, lembrava uma sala de cirurgia. Langdon perguntava a si mesmo que segredos aquele lugar guardaria que justificassem alguém arrancar o olho de uma pessoa para entrar ali.

Kohler mostrava-se apreensivo, esquadrinhando o ambiente como se procurasse um intruso.

Mas o laboratório estava deserto. Vittoria também se movia devagar, parecendo desconhecer o laboratório sem seu pai.

A atenção de Langdon concentrou-se imediatamente no centro do aposento, onde uma série de colunas baixas erguia-se do chão. Como uma miniatura de Stonehenge, umas 10 ou 12 colunas de aço polido formavam um círculo no meio da sala. Tinham cerca de 90 centímetros de altura, semelhantes às que os museus utilizam para expor pedras preciosas. Aquelas colunas, porém, não se destinavam a jóias valiosas.

Cada uma servia de apoio a um tubo transparente do tamanho aproximado de uma lata de bolas de tênis.

Aparentemente, os tubos estavam vazios.

Kohler olhou para os tubos com um ar de incompreensão. Pareceu ter decidido ignorá-los a princípio.

Voltou-se para Vittoria:

- Alguma coisa foi roubada?

- Roubada? Como? - argumentou ela. - O scanner de retina só permite a nossa entrada.

- Dê uma olhada.

Vittoria suspirou e correu os olhos pela sala durante uns poucos momentos. Deu de ombros.

- Tudo está como meu pai sempre deixa. Um caos ordenado.

Langdon via que Kohler pesava suas opções, como se avaliasse até que ponto levar Vittoria e o que deveria contar-lhe. E que mais uma vez resolvera adiar a decisão. Moveu sua cadeira de rodas para o centro da sala e examinou o misterioso agrupamento de tubos supostamente vazios.

- Segredos - disse ele finalmente - são um luxo que não podemos mais nos permitir.

Vittoria inclinou a cabeça assentindo, de repente parecendo emocionada, como se estar ali lhe trouxesse um mar de lembranças.

Dê um minuto a ela, pensou Langdon.

Preparando-se para o que ia revelar, Vittoria fechou os olhos e respirou fundo. E respirou fundo mais uma vez. E outra vez...

Langdon observava-a, começando a ficar preocupado. Será que ela está passando bem? Relanceou os olhos para Kohler, que se mostrava imperturbável, talvez por já ter presenciado aquele ritual antes.

Passaram-se dez segundos até Vittoria reabrir os olhos.

A metamorfose foi incrível. Vittoria Vetra transformara-se. Seus lábios cheios escontraíramse, os ombros relaxaram-se, o olhar suavizou-se. Tinha-se a impressão de que ela realinhara todos os músculos de seu corpo para aceitar a situação. O clarão de ressentimento e angústia apagara-se de alguma forma sob uma frieza de águas profundas.

- Por onde começar... - disse ela, imperturbável, com seu sotaque.

- Pelo começo - pediu Kohler. - Conte-nos sobre as experiências de seu pai.

- Alinhar a ciência com a religião sempre foi o sonho da vida de meu pai - disse Vittoria. -Ele esperava provar um dia que ciência e religião são dois campos totalmente compatíveis, duas abordagens diferentes para se encontrar a mesma verdade. - Fez uma pausa, como se mal acreditasse no que iria dizer a seguir. - E, recentemente, ele concebeu um modo de fazer isto.

Kohler não fez nenhum comentário.

- Ele arquitetou um invento com que tinha esperanças de resolver um dos conflitos mais amargos da história da ciência e da religião.

Langdon perguntou-se que conflito seria esse. Havia tantos.

- O criacionismo - declarou Vittoria. - A batalha sobre como surgiu o universo.

Ah, pensou Langdon, o Grande Debate.

- A Bíblia, é claro, afirma que Deus criou o universo - explicou. - Deus disse:

"Faça-se a luz" e tudo o que vemos surgiu de um grande vazio. Infelizmente, uma das leis fundamentais da Física declara que a matéria não pode ser criada do nada.

Langdon já lera sobre esse impasse. A idéia de que Deus supostamente criara "algo do nada" era totalmente contrária às leis aceitas pela Física moderna e, portanto, alegavam os cientistas, o Gênese era cientificamente absurdo.

- Senhor Langdon - disse Vittoria, voltando-se para ele. - Presumo que conheça a Teoria do Big-Bang?

- Mais ou menos.

O que ele sabia sobre o Big-Bang é que era o modelo cientificamente aceito para explicar criação do universo. Não o compreendia realmente, mas, de acordo com a teoria, um único ponto de energia intensamente concentrada estourava em uma explosão cataclísmica, expandindo-se para formar o universo.

Ou algo assim.

Vittoria continuou.

- Quando a Igreja Católica apresentou pela primeira vez a Teoria do Big-Bang em 1927, o...

- Desculpe! - Langdon interrompeu, antes que pudesse se conter. - Disse que o Big-Bang foi uma idéia católica?

A pergunta surpreendeu Vittoria.

- Claro. Apresentada por um monge católico, Georges Lemaitre, em 1927.

- Mas eu pensei... - ele hesitou. - A Teoria do Big-Bang não foi apresentada por um astrônomo de Harvard, Edwin Hubble?

Kohler fechou a cara.

- Mais uma vez, a arrogância científica dos norte-americanos. Hubble publicou seu trabalho em 1929, dois anos depois de Lemaitre.

Langdon zangou-se.

O telescópio chama-se Hubble, senhor, e nunca ouvi falar de nenhum telescópio Lemaitre!

- O senhor Kohler tem razão - disse Vittoria -, a idéia pertenceu a Lemaitre.

Hubble somente a comprovou reunindo as provas de que o Big-Bang era cientificamente provável.

- Ah - disse Langdon, imaginando se os fanáticos por Hubble no Departamento de Astronomia de Harvard alguma vez mencionavam Lemajtre em suas palestras.

- Quando Lemaitre apresentou pela primeira vez a Teoria do Big-Bang - Vittoria prosseguiu -, os cientistas afirmaram que era absolutamente ridícula. A matéria, dizia a ciência, não podia ser criada a partir do nada.

Assim, quando Hubble chocou o mundo provando cientificamente que o Big-Bang era verdade, a Igreja cantou vitória, alardeando isso como prova de que a Bíblia era cientificamente correta. A verdade divina.

Langdon balançou a cabeça concordando e agora escutando com toda a atenção.

- É claro que não agradou nada aos cientistas ver suas descobertas usadas pela Igreja para promover a religião, de modo que imediatamente "matematizaram" a Teoria do Big-Bang, removeram-lhe todas as implicações religiosas e tomaram-na para si. Lamentavelmente, para a ciência, suas equações ainda hoje têm uma séria deficiência que a Igreja gosta de apontar.

Kohler resmungou:

- A singularidade. - Ele pronunciou a palavra como se aquilo fosse a maldição de sua existência.

- Sim, a singularidade - repetiu Vittoria. - O exato momento da criação. A hora zero. Até hoje, a ciência não conseguiu compreender o momento inicial da criação. Nossas equações explicam o universo inicial com bastante eficiência, mas, quando recuamos no tempo e nos aproximamos da hora zero, nossa matemática se desintegra e tudo deixa de ter sentido.

- Correto - disse Kohler, mordaz. - E a Igreja sustenta que essa deficiência é a prova do miraculoso envolvimento de Deus. Vá direto ao ponto.

A expressão de Vittoria ficou distante.

- Meu pai sempre acreditou no envolvimento de Deus no Big-Bang. Embora a ciência fosse incapaz de compreender o divino momento da criação, ele acreditava que algum dia isso aconteceria. - Ela se encaminhou para uma frase impressa em papel pregada na parede da área de trabalho de seu pai. - Meu pai costumava abanar este papel diante de meu rosto toda vez que eu tinha dúvidas.

Langdon leu a mensagem:

A CIÊNCIA E A RELIGIÃO NÃO ESTÃO EM DESACORDO.

É QUE A CIÊNCIA AINDA É MUITO JOVEM PARA COMPREENDER.

- Meu pai queria levar a ciência a um nível mais elevado, um nível em que a ciência corroborasse o conceito de Deus. - Ela passou a mão pelo cabelo comprido com ar melancólico. -Resolveu dedicar-se a algo que nenhum cientista jamais pensara em realizar. E que ninguém até então tivera tecnologia para realizar. – Fez uma pausa, sem saber muito bem como pronunciar as palavras seguintes. - Ele criou uma experiência para provar que o Gênese era possível.

Provar o Gênese?, pensou Langdon. Que se faça a luz? Matéria a partir do nada?

O olhar mortiço de Kohler cruzou a sala.

- Como disse?

- Meu pai criou um universo.., a partir do nada.

Kohler virou a cabeça em todas as direções.

- O quê?

- Ou melhor, ele recriou o Big-Bang.

Kohler parecia prestes a ficar de pé.