Anjos e Demônios
Capítulo 1 · Do alto da pirâmide de Gizé, a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Uma voz chamou do outro lado do pátio.
- S'il vous plaít!
Langdon olhou na direção da voz. Um homem idoso de cabelos brancos, vestido com um agasalho esportivo onde se lia COLLËGE PARIS, acenou para ele. Langdon pegou o frisbee e lançou-o habilmente de volta. O senhor apanhou-o com um dedo e, depois de girá-lo uma ou duas vezes, atirou-o por cima do ombro de volta para seu parceiro.
- Merci! - gritou para Langdon.
- Parabéns - disse Kohler, quando Langdon finalmente o alcançou. - O senhor acabou de jogar com um ganhador do Prêmio Nobel, George Charpak, inventor da câmara de múltiplas ligações proporcionais.
Langdon sacudiu a cabeça. Hoje é meu dia de sorte.
Levaram mais uns três minutos para chegar a seu destino, um grande prédio bem cuidado em meio a um bosque de choupos. Comparada às outras, essa construção era até luxuosa. Em uma placa de pedra em frente ao prédio lia-se, em letras entalhadas: EDIFICIO C.
Cheio de imaginação, pensou Langdon.
Apesar do nome inexpressivo, o Edificio C estava bem de acordo com o gosto de Langdon em matéria de estilo de arquitetura: sólido e conservador. A fachada era de tijolo vermelho e o edifício possuía uma balaustrada decorada e era emoldurado por sebes vivas simétricas bem aparadas. Quando os dois homens subiram o caminho de pedra que levava à entrada, passaram por uma estrutura formada por um par de colunas de mármore. Alguém pregara um bilhete adesivo em uma delas.
ESTA COLUNA É IÔNICA
Grafite de fisicos? - refletiu Langdon, examinando a coluna e dando uma risadinha baixa.
- É um alívio saber que até os físicos mais brilhantes cometem erros.
Kohler virou a cabeça.
- O que quer dizer?
- Quem escreveu esse bilhete cometeu dois erros: a grafia correta é jônica. E essa coluna é dórica, a equivalente grega. As colunas jônicas são de largura uniforme. Essa é afunilada. Um erro bem comum.
Kohler não sorriu.
- O autor do bilhete estava brincando, senhor Langdon. lônico significa que contém íons, partículas carregadas de eletricidade. A maioria dos objetos os contém.
Langdon virou-se para a coluna lá atrás e resmungou em voz baixa.
Langdon ainda se sentia um idiota quando saltou do elevador no último andar do Edifício C. Seguiu Kohler por um corredor bem decorado. O estilo da decoração - francês colonial tradicional - surpreendeu-o: um divã cor de cereja, ornamentação em volutas de madeira e um jarrão de porcelana.
- Gostamos de manter com conforto nossos cientistas contratados - Kohler explicou.
Dá para notar, pensou Langdon.
- Então, o homem do fax morava aqui? Era um dos seus funcionários de alto nível?
- Exato - disse Kohler. - Ele não compareceu a uma reunião comigo esta manhã e não respondeu a seu pager. Vim procurá-lo e o encontrei morto no meio da sala.
Langdon sentiu um arrepio súbito quando se deu conta de que ia ver um cadáver. Seu estômago nunca fora muito robusto, uma fraqueza que descobrira quando era estudante de arte ao ouvir de um professor em sala de aula que Leonardo da Vinci adquirira sua experiência sobre as formas humanas exumando corpos e dissecando músculos.
Kohler chegou ao fim do corredor. Havia ali uma única porta.
- Apartamento de cobertura, como vocês chamam - anunciou ele, enxugando uma gota de suor na testa.
Langdon leu a placa na porta de carvalho:
LEONARDO VETRA
- Leonardo Vetra - disse Kohler - iria fazer 58 anos na semana que vem. Era um dos cientistas mais brilhantes de nosso tempo. Sua morte é uma grande perda para a ciência.
Por um instante, Langdon pensou ter visto uma nota de emoção no rosto duro de Kohler. Entretanto, aquilo se foi tão depressa quanto veio. Kohler enfiou a mão no bolso e começou a examinar um grande chaveiro.
Um estranho pensamento passou pela mente de Langdon. O prédio parecia deserto.
- Onde está todo mundo? - perguntou.
A ausência de atividade não era o que ele esperava, considerando-se que estavam prestes a entrar no local de um crime.
- Os residentes estão em seu laboratórios - respondeu Kohler, encontrando a chave certa.
- Estou falando da polícia - Langdon esclareceu. - Já foi embora?
Kohler parou, a chave a meio caminho da fechadura.
- A polícia?
- Sim, a polícia. O senhor me mandou um fax sobre um homicídio. Deve ter chamado a polícia.
- Claro que não.
- O quê?
Os olhos cinzentos de Kohler assumiram uma expressão penetrante.
- A situação é complexa, senhor Langdon.
Uma onda de apreensão tomou conta de Langdon.
- Mas... com certeza, alguém mais tem conhecimento do fato!
- Sim. A filha adotiva de Leonardo. Ela também é física aqui no CERN. Divide um laboratório com o pai.
Trabalham em parceria. A senhorita Vetra passou esta semana fora fazendo pesquisa de campo. Já lhe comuniquei a morte de seu pai e ela está a caminho, vindo para cá.
- Mas um homem foi assassin...
- Uma investigação formal - interrompeu Kohler com voz firme - será realizada. Entretanto, certamente vai envolver uma busca no laboratório de Vetra, um espaço que ele e a filha consideram altamente privado.
Portanto, vou esperar até que a senhorita Vetra chegue. Acho que devo a ela pelo menos essa pequena manifestação de discrição.
E virou a chave na fechadura.
Quando a porta se abriu, uma lufada de ar gélido penetrou no vestíbulo e atingiu direto o rosto de Langdon. Ele recuou, espantado. Encontrava-se no limiar de um mundo desconhecido. O apartamento à sua frente estava imerso em uma névoa branca e espessa. A névoa rodopiava formando espirais em torno dos móveis e envolvia o ambiente em um véu opaco.
- Que diabo...? - gaguejou Langdon.
- Sistema de resfriamento por fréon - Kohler explicou. - Esfriei o apartamento para preservar o corpo.
Langdon abotoou o paletó de tweed para se proteger do frio.
Estou em Oz, pensou. E esqueci de trazer meus sapatos mágicos.
CAPÍTULO 9
O cadáver no chão diante deLangdonerahorrendo.ofalecido Leonardo Vetra estava deitado de costas, de barriga para cima, despido, a pele de um cinzento-azulado. Os ossos do pescoço projetavam-se para fora no ponto onde tinham sido quebrados e a cabeça fora totalmente virada para trás, apontando para o lado errado. Não se via seu rosto, voltado para o chão. O homem jazia em uma poça congelada da própria urina, os pêlos em torno de seus órgãos genitais enrugados cobertos de gotas geladas.
Reprimindo a náusea, Langdon pousou os olhos no peito da vítima. Embora já tivesse olhado dezenas de vezes para a ferida simétrica no fax, a queimadura era infinitamente mais impressionante na vida real. A carne queimada e inchada fora delineada com perfeição... o símbolo formara-se sem uma falha sequer.
Langdon não sabia se o frio intenso que o acometia era por causa do ar-condicionado ou por sua absoluta perplexidade com o significado do que contemplava naquele momento.
HL'nin'nhhl
Seu coração batia forte enquanto rodeava o corpo para ler a palavra ao contrário, confirmando a genialidade da simetria. O símbolo parecia ainda mais inconcebível visto de perto.
- Senhor Langdon?
Ele não escutou. Estava em um outro mundo... seu mundo, onde história, mito e fato iam de encontro um ao outro, inundando seus sentidos. As engrenagens entraram em funcionamento.
- Senhor Langdon? - Kohler observava-o, cheio de expectativa.
Langdon não ergueu os olhos, sua atenção agora intensificada, totalmente concentrado.
- O que o senhor já sabe de fato sobre o assunto?
- Só o que li no seu site. A palavra Iliuminati significa "os esclarecidos" É o nome de uma
espécie de confraria antiga.
Langdon concordou.
- Já tinha ouvido esse nome antes?
- Não, até vê-lo marcado no senhor Vetra.
- E então o senhor foi fazer uma busca na Internet para saber o que era?
- Fui.
- E verificou que o nome aparece em centenas de sites, sem dúvida.
- Milhares - disse Kohler. - O seu site, porém, mencionava Harvard, Oxford, uma editora respeitável, bem como trazia uma lista de publicações relacionadas ao assunto. Como cientista, aprendi que a informação só é valiosa se a fonte também é. Suas referências pareciam autênticas.
Os olhos de Langdon ainda estavam fixos no corpo.
Kohler parou de falar. Apenas acompanhava os movimentos de Langdon, aparentemente esperando que ele pudesse produzir algum esclarecimento sobre a cena que se apresentava diante deles.
Langdon levantou a cabeça e correu os olhos pelo apartamento gelado.
- Quem sabe poderíamos falar sobre o assunto em um lugar mais quente?
- Aqui está bom. - Kohler parecia indiferente ao frio. - Vamos conversar aqui mesmo.
Langdon franziu o cenho. A história dos Illuminati não era nada simples. Vou congelar tentando explicar tudo. Olhou de novo para a marca, mais uma vez com uma sensação de assombro.
Apesar de existirem relatos lendários sobre o símbolo dos Illuminati na moderna simbologia, nenhum acadêmico jamais o vira de fato. Antigos documentos descreviam a insígnia como um ambigrama - ambi, "ambos" -, significando que seria legível de ambos os lados. E embora os ambigramas fossem comuns na simbologia - suásticas, yin-yang, estrelas-de-davi, cruzes simples -, a idéia de que uma palavra pudesse ser trabalhada para formar um ambigrama parecia totalmente impossível. A maioria dos acadêmicos chegara à conclusão de que a existência do símbolo era um mito.
- Afinal, quem eram os Iliuminati? - perguntou Kohler.
Sim, pensou Langdon, quem seriam realmente? - e começou seu relato.
- Desde o começo da história - explicou Langdon -, sempre existiu uma profunda brecha entre ciência e religião. Cientistas como Copérnico, que não tinham papas na língua...
- Foram assassinados - interrompeu Kohler. - Assassinados pela Igreja por revelar verdades científicas. A religião sempre perseguiu a ciência.
- Sim, mas por volta de 1500, um grupo de homens em Roma revidou e lutou contra a Igreja. Alguns dos homens mais esclarecidos da Itália - fisicos, matemáticos, astrônomos -começaram a promover encontros secretos para discutir suas preocupações sobre os ensinamentos errados difundidos pela Igreja. Temiam que o monopólio da "verdade" pela Igreja ameaçasse a difusão dos conhecimentos acadêmicos pelo mundo afora. Fundaram o primeiro think tank científico do mundo, chamando a si mesmos de "os esclarecidos"
- Os Illuminati.
- Exato - concordou Langdon. - As mentes mais cultas da Europa... dedicadas à busca da verdade científica.
Kohler calou-se.
- Evidentemente, os Iliuminati eram caçados impiedosamente pela Igreja Católica. Somente através de ritos extremamente sigilosos é que os cientistas se mantinham seguros. Os rumores se espalharam pelo submundo acadêmico e a fraternidade dos Iliuminati cresceu, incluindo cientistas de toda a Europa. Eles encontravam-se regularmente em Roma em um refúgio ultra-secreto a que chamavam de "Igreja da Iluminação"
Kohler tossiu e remexeu-se na cadeira.
- Muitos dos Iliuminati - Langdon prosseguiu - queriam combater a tirania da Igreja com atos de violência, mas seu membro mais reverenciado persuadiu-os a não agir assim. Era um pacifista e um dos mais famosos cientistas da História.
Langdon estava certo de que Kohler reconheceria o nome. Até os que não pertenciam ao mundo científico conheciam o malfadado astrônomo que fora preso e quase executado pela Igreja por ter declarado que o Sol, e não a Terra, era o centro do sistema solar. Embora seus dados fossem irrefutáveis, o astrônomo fora severamente punido por insinuar que Deus não instalara a humanidade no centro de seu universo.
- Seu nome era Galileu Galilei - disse Langdon.
- Galileu? - espantou-se Kohler.
- Ele mesmo. Galileu era um Iliuminatus. E também um católico fervoroso. Tentou abrandar a posição da Igreja com relação à ciência proclamando que a ciência não prejudicava a noção da existência de Deus mas, ao contrário, reforçava-a. Escreveu certa vez que, quando olhava os planetas girando através de seu telescópio, conseguia ouvir a voz de Deus na música das esferas. Sustentava que a ciência e a religião não eram inimigas e sim aliadas, duas linguagens diferentes que contavam a mesma história, uma história de simetria e equilíbrio: céu e inferno, noite e dia, quente e frio, Deus e Satã. Tanto a ciência quanto a religião exultavam com a simetria de Deus, o infindável confronto da luz e das trevas. - Langdon fez uma pausa, batendo com os pés no chão para se aquecer.
Kohler permaneceu sentado em sua cadeira de rodas olhando para ele.
- Infelizmente - Langdon acrescentou -, a unificação da ciência e da religião não era o que a Igreja queria.
- Claro que não - interrompeu Kohler. - A união teria invalidado a pretensão da Igreja de ser o único veículo através do qual o homem poderia compreender Deus. Assim, a Igreja acusou Galileu de heresia, condenou-o e colocou-o em prisão domiciliar permanente. Estou bastante a par da história científica, senhor Langdon. Só que isso tudo aconteceu séculos atrás. O que tem a ver com Leonardo Vetra?
A pergunta de um milhão de dólares. Langdon tentou abreviar.
- A prisão de Galileu causou uma convulsão entre os liluminati. Cometeram alguns erros e a Igreja descobriu as identidades de quatro membros, que foram capturados e interrogados. Mas os quatro cientistas nada revelaram, nem sob tortura.
- Tortura?
Langdon assentiu.
- Foram marcados a fogo. No peito. Com o símbolo da cruz.
Os olhos de Kohler arregalaram-se e ele lançou um rápido olhar para o corpo de Vetra.
- Em seguida, os cientistas foram brutalmente assassinados e seus corpos lançados às ruas de Roma como advertência para os que ainda cogitassem se unir aos Illuminati. Com a Igreja fechando o cerco, os liluminati que restavam fugiram da Itália.
Langdon fez outra pausa, dessa vez para causar o efeito que desejava. Olhou direto para os olhos sem vida de Kohler.
- Os Illuminati mergulharam fundo na clandestinidade, onde começaram a se misturar a outros grupos que haviam fugido dos expurgos da Igreja Católica: místicos, alquimistas, ocultistas, muçulmanos, judeus. Ao longo dos anos, os liluminati absorveram novos membros. Surgiu um outro tipo de Iliuminati, mais soturno, profundamente anticristão. Tornaram-se muito poderosos, praticando ritos misteriosos, sigilo mortal e jurando um dia se erguerem outra vez e se vingarem da Igreja Católica. Seu poder cresceu a ponto de serem considerados a mais perigosa força anticristã do mundo. O Vaticano acusou publicamente a fraternidade de Shaitan.
- Shaitan?
- É um termo islâmico. Significa "adversário".., adversário de Deus. A Igreja escolheu o nome islâmico porque era uma língua que eles consideravam suja. - Langdon hesitou. - Shaitan é a origem de uma palavra bem conhecida: Satã. Uma expressão de inquietude passou pelo rosto de Kohler.
Langdon falou com voz dura.
- Senhor Kohler, não sei como essa marca apareceu no peito desse homem, nem por que, mas o que o senhor está vendo é o símbolo há muito esquecido do mais antigo e mais poderoso culto satânico do mundo.
CAPÍTULO 10
A viela era estreita e deserta. OHassassin caminhava depressa, os olhos negros cheios de expectativa. Enquanto percorria o caminho que o aproximava de seu destino, as palavras de despedida de Janus ecoavam em sua mente. A fase dois vai começar em breve. Procure descansar um pouco.
O Hassassin deu um sorriso presunçoso. Ficara acordado a noite inteira, mas sono era a última coisa em que pensava. Sono era para os fracos. Ele era um guerreiro como seus ancestrais, e seu povo nunca dormia depois que a batalha começava. Aquela batalha com certeza acabara de começar, e ele tivera a honra de ser o primeiro a derramar sangue. Agora tinha duas horas para comemorar sua glória antes de voltar ao trabalho.
Dormir? Há maneiras muito melhores de relaxar...
Um apetite por prazeres hedonisticos fora algo que herdara de seus ancestrais. Seus antepassados regalavam-se com haxixe, mas ele preferia um tipo diferente de gratificação. Orgulhava-se de seu corpo, máquina bem ajustada e letal que, apesar de sua hereditariedade, ele se recusava a poluir com narcóticos.
Desenvolvera um vício mais revigorante do que as drogas, uma recompensa muito mais saudável e satisfatória.
Sentindo crescer dentro de si a ansiedade já familiar, o Hassassin andou com mais rapidez pela rua.
Chegou a uma porta comum e tocou a campainha. Uma fenda retangular abriu-se na porta e dois belos olhos castanhos avaliaram-no, fazendo uma estimativa. Então, a porta foi aberta.
- Seja bem-vindo - disse a mulher bem vestida. Levou-o para uma sala de estar impecavelmente mobiliada e com iluminação suave. O ambiente recendia a perfume caro e almíscar.
- Fique à vontade. - Entregou-lhe um álbum de fotografias. - Chame quando tiver escolhido.
E saiu.
O Hassassin sorriu.
Quando se sentou no divã de pelúcia e colocou o álbum no colo, sentiu a fome carnal intensificar-se. Seu povo não comemorava o Natal, mas essa deveria ser a sensação que as crianças cristãs experimentavam diante de uma pilha de presentes, prestes a descobrir os mistérios que continham. Ele abriu o álbum e examinou as fotos. Um mundo de fantasias sexuais oferecia-se a ele. Mansa. Uma deusa italiana. Ardente. Uma jovem Sophia Loren. Sachiko. Uma gueixa japonesa. Dócil. Sem dúvida, habilidosa. Kanara. Uma estonteante visão negra. Musculosa. Exótica.
Viu o álbum duas vezes e fez sua escolha. Apertou o botão na mesa a seu lado. Um minuto depois, a mulher que o recebera reapareceu. Ele apontou a escolhida. Ela sorriu.
- Venha comigo.
Depois de resolver os acertos financeiros, a mulher fez uma discreta ligação telefônica. Esperou alguns minutos e então o conduziu por uma escadaria de mármore em espiral até um luxuoso vestíbulo.
- É a porta dourada no final - disse ela. - O senhor tem gostos caros.
Claro, pensou ele, sou um connoisseur.
As passadas do Hassassin pelo corredor pareciam as de uma pantera que aguarda uma refeição atrasada.
Ao chegar à porta, sorriu intimamente. A porta já estava entreaberta, convidando-o a entrar. Ele a empurrou e ela se abriu sem ruído.
Quando viu o que escolhera, soube que havia decidido bem. Ela estava exatamente como ele solicitara: nua, deitada de costas, os braços amarrados aos balaústres da cama com grossos cordões de veludo.
Ele atravessou o quarto e correu o dedo escuro pelo abdome claro como marfim. Matei na noite de ontem, pensou. Você é minha recompensa.
CAPÍTULO 11
- Satânico? - Kohler enxugou a boca e se remexeu, desconfortável, na cadeira. - Esse símbolo é de um culto satânico?
Langdon andava de um lado para o outro no aposento gelado para se aquecer.
- Os Illuminati eram satânicos. Mas não no sentido moderno da palavra.
De modo sucinto, Langdon explicou que a maioria das pessoas imaginava que os cultos satânicos fossem rituais de adoração do demônio e, no entanto, os satanistas eram historicamente homens instruídos que assumiam sua posição de adversários da Igreja. Shaitan. Os rumores sobre sacrificios satânicos de animais, magia negra e rituais do pentagrama não passavam de mentiras disseminadas pela Igreja como parte de uma campanha de difamação contra seus inimigos. Ao longo do tempo, outros adversários da Igreja, querendo imitar os Illuminati, começaram a acreditar nessas mentiras e a praticar os supostos rituais. Dessa forma, nasceu o satanismo moderno.
Kohler resmungou abruptamente:
- Isso tudo é história antiga. Quero saber como esse símbolo veio parar aqui.
Langdon respirou fundo.
- O símbolo em si foi criado por um artista anônimo do século XVI, um dos Illuminati, como um tributo ao amor pela simetria de Galileu. Uma espécie de logomarca sagrada dos Illuminati. A fraternidade manteve o desenho em segredo, alegando que somente o revelaria quando tivesse reunido poder suficiente para ressurgir e levar adiante seu objetivo final.
Kohler mostrou-se perturbado.
- Quer dizer que esse símbolo significa que a fraternidade dos Illuminati está ressurgindo?
O rosto de Langdon se tornou sombrio.
- Acho impossível. Há um capítulo da história dos Illuminati que ainda não expliquei.
Com intensidade na voz, Kohler disse:
- Então, faça o favor de explicar.
Langdon esfregou as palmas das mãos uma na outra, revendo mentalmente as centenas de documentos que lera ou escrevera sobre os Iliuminati.
- Os Illuminati eram sobreviventes. Quando fugiram de Roma, viajaram por toda a Europa procurando um lugar seguro para se reagruparem. Foram acolhidos por uma outra sociedade secreta, uma fraternidade de ricos pedreiros bávaros chamados franco-maçons.
- Os maçons? - espantou-se Kohler.
Langdon concordou, nem um pouco surpreso que Kohler tivesse ouvido falar do grupo. A fraternidade dos maçons tinha mais de cinco milhões de membros no mundo inteiro, sendo que a metade deles nos Estados Unidos e mais de um milhão na Europa.
- Os maçons com toda a certeza não são satânicos - Kohler declarou, de repente parecendo cético.
- Claro que não. Eles foram vítimas de sua própria benevolência. Depois de receberem os cientistas refugiados nos anos 1700, os maçons, sem saber, tornaram-se uma fachada para os Iliuminati. Estes cresceram em suas fileiras, assumindo gradualmente posições de poder dentro das lojas. Na surdina, restabeleceram sua fraternidade científica no seio da maçonaria, uma espécie de sociedade secreta dentro de outra sociedade secreta. Em seguida, os Iliuminati usaram a rede mundial de lojas maçônicas para espalhar sua influência.
Langdon respirou fundo o ar frio e prosseguiu.
- Eliminar o catolicismo era o compromisso principal dos Illuminati. A fraternidade sustentava que os dogmas supersticiosos impostos pela Igreja eram os maiores inimigos da humanidade. Temia que o progresso científico cessasse de vez caso a Igreja continuasse a promover mitos piedosos como se fossem fatos absolutos, e que dessa forma a humanidade fosse condenada a um futuro sem perspectivas, com guerras santas sem o menor sentido.
- Mais ou menos o que acontece hoje em dia.
Kohler tinha razão. As guerras santas ainda freqüentavam as manchetes dos jornais. Meu Deus é melhor do que o seu Deus. Parecia sempre haver uma estreita relação entre crentes fervorosos e altos números de mortos.
- Continue - disse Kohler.
Langdon organizou outra vez seus pensamentos e retomou a narrativa.
- Os Illuminati ficaram mais poderosos na Europa e voltaram a atenção para a América, cujo governo ainda novato tinha maçons como líderes - George Washington, Benjamim Franklin -, homens honestos, tementes a Deus, que ignoravam que a sociedade maçônica era o reduto dos Iliuminati. Estes aproveitaram a possibilidade de infiltração e ajudaram a fundar bancos, universidades e indústrias para financiar a realização de seu objetivo máximo. - Langdon fez uma pausa. - A criação de um único estado mundial unificado, uma espécie de Nova Ordem Mundial secular.
Kohler mantinha-se imóvel.
- Uma Nova Ordem Mundial - repetiu Langdon - baseada em conhecimentos científicos, em um novo Iluminismo. Chamavam-na de Doutrina Luciferiana. A Igreja alega que Lúcifer era uma referência ao demônio, mas a fraternidade insistia que sua intenção era o significado literal da palavra, em latim, aquele que traz a luz. Ou Iluminador.
Kohler suspirou e sua voz de repente ficou solene.
- Senhor Langdon, por favor, sente-se.
Langdon sentou-se como pôde em uma cadeira já esbranquiçada por uma camada de gelo.
Kohler aproximou-se dele em sua cadeira de rodas.
- Não sei se compreendi bem tudo o que o senhor acabou de me contar, mas de uma coisa eu sei. Leonardo Vetra era um dos maiores trunfos do CERN. E era também meu amigo. Preciso que me ajude a localizar os Illuminati.
Langdon não sabia o que responder.
- Localizar os Illuminati? - Ele só pode estar brincando. - Receio, senhor Kohler, que isto seja totalmente impossível.
Uma ruga surgiu na testa de Kohler.
- Como assim? O senhor não...
- Senhor Kohler - Langdon inclinou-se na direção dele, sem saber muito bem como fazê-lo compreender o que iria dizer -, não terminei minha história. Apesar das aparências, é bastante improvável que essa marca tenha sido feita pelos liluminati. Não houve comprovação da existência deles por mais de meio século e a maioria dos estudiosos afirma que a fraternidade dos Illuminati está extinta há muitos anos.
As palavras foram recebidas com silêncio. Kohler olhava através da névoa com uma expressão entre estupefata e enraivecida.
- Que diabos, como pode dizer que esse grupo está extinto quando o nome dele está marcado a fogo no peito daquele homem?
Aquela era a pergunta que Langdon vinha fazendo a si mesmo a manhã inteira. O aparecimento do ambigrama dos Iliuminati era espantoso. Os simbologistas de todo o mundo ficariam fascinados. Ainda assim, o acadêmico em Langdon compreendia que a reemergência da marca não provava absolutamente nada sobre os Illuminati.
- Os símbolos de forma alguma confirmam a presença de seus criadores originais.
- O que quer dizer com isso?
- Quando filosofias organizadas como a dos Illuminati deixam de existir, seus símbolos permanecem... prontos para serem adotados por outros grupos. Chama-se a isso de transferência. É muito comum em simbologia. Os nazistas tomaram a suástica dos hindus, os cristãos adotaram a cruz dos egípcios, os...
- Esta manhã - provocou Kohler -, quando digitei a palavra "Iliuminati" no computador, obtive milhares de referências atuais. Ao que parece, muita gente ainda pensa que o grupo está vivo.
- Mania de conspiração - replicou Langdon.
Sempre o irritara a superabundância de teorias conspiratórias que circulavam na moderna cultura pop. Os meios de comunicação adoravam manchetes apocalípticas, e pessoas que se autoproclamavam "especialistas em cultos" ainda estavam faturando à custa da intensa publicidade em torno da mudança do milênio com histórias sobre os Iliuminati estarem vivos, gozando de excelente saúde e organizando sua Nova Ordem Mundial. Recentemente, o New York
Times publicara matéria sobre laços sinistros com a maçonaria mantidos por inúmeros personagens famosos: sir Arthur Conan Doyle, o duque de Kent, Peter Sellers, Irving Berlin, o príncipe Philip, Louis Armstrong e mais um panteão de conhecidos magnatas, industriais e banqueiros modernos.
Kohler apontou com ar zangado para o corpo de Vetra.
- Considerando-se as evidências, eu diria que talvez as teorias conspiratórias estejam corretas.
- A impressão que se tem é realmente esta - disse Langdon, o mais diplomaticamente possível. – A explicação mais plausível, porém, é que alguma outra organização tenha assumido a marca dos Illuminati e a esteja usando para seus próprios objetivos.
- Que objetivos? O que esse assassinato prova?
Boa pergunta, pensou Langdon. Ele também estava intrigado, imaginando onde alguém teria desencavado a marca dos liluminati depois de 400 anos.
- Só posso lhe dizer que, mesmo que os Illuminati estivessem ativos hoje em dia, e isso eu posso praticamente garantir que não estão, jamais teriam qualquer envolvimento com a morte de Leonardo Vetra.
- Não teriam?
- Não. Os Illuminati podem ter acreditado na abolição do cristianismo, mas exerciam seu poder por meios políticos e financeiros, não através de atos terroristas. Além disso, os Illuminati seguiam um rigoroso código moral com relação ao tipo de pessoas que viam como inimigos. Tinham os homens de ciência na mais alta conta. Não haveria possibilidade de assassinarem um companheiro cientista como Leonardo Vetra.
O rosto de Kohler petrificou-se.
- Talvez eu tenha deixado de mencionar que Leonardo Vetra era mais do que um cientista comum.
Langdon suspirou, paciente.
- Senhor Kohler, estou certo de que Leonardo Vetra era brilhante em muitos aspectos, mas o fato é que...
Sem aviso, Kohler girou a cadeira de rodas e saiu em disparada da sala, deixando atrás de si um rastro de espirais de fria névoa branca ao desaparecer por um corredor.
Pelo amor de Deus..., gemeu Langdon, seguindo-o. Kohler esperava por ele em um pequeno nicho no fim do corredor.
- Aqui era o gabinete de trabalho de Leonardo - disse Kohler, fazendo um gesto em direção a uma porta de correr. - Depois de vê-lo, talvez o senhor compreenda as coisas de outra maneira.
Com um resmungo desajeitado, Kohler deu um empurrão e a porta deslizou, abrindo-se.
Langdon correu os olhos pelo interior do aposento e sentiu sua pele se arrepiar. Santa Mãe de Deus, disse para si mesmo.
CAPÍTULO 12
Em um outro país, um jovem guarda estava sentado pacientemente diante de uma ampla bancada de monitores de vídeo. Observava as imagens surgirem uma após a outra, emitidas ao vivo de centenas de videocâmeras sem fio que inspecionavam o extenso conjunto de construções. As imagens sucediam-se numa progressão infindável.
Um corredor decorado. Um escritório particular. Uma cozinha industrial.
À medida que as imagens passavam, o guarda lutava contra os devaneios que o acometiam. Estava próximo o fim de seu plantão e mesmo assim ele ainda estava vigilante. Estar de serviço era uma honra.
Algum dia lhe concederiam sua recompensa definitiva.
Com seus pensamentos fluindo, uma imagem à sua frente registrou um alerta. Súbito, com um reflexo brusco com o qual ele mesmo se espantou, sua mão apertou um botão no painel de controle. A imagem imobilizou-se.
Inclinou-se em direção à tela para ver melhor, os nervos tensos. No monitor, leu que a imagem estava sendo transmitida da câmera 86 - uma câmera que deveria estar posicionada para um corredor.
Mas o que via naquele momento decididamente não era um corredor.
CAPÍTULO 13
Langdon olhava atônito para o gabinete de trabalho à sua frente.
- Que lugar é este?
A despeito da bem-vinda lufada de ar quente em seu rosto, um tremor o agitava quando ele passou pela porta.
Kohler seguiu-o sem dizer palavra.
Langdon correu os olhos pelo ambiente sem conseguir entender o que via, O aposento continha a mais peculiar mistura de objetos que jamais encontrara. Na parede do fundo, dominando a decoração, havia um enorme crucifixo de madeira, que Langdon classificou como sendo espanhol, do século XIV. Acima do crucifixo, pendurado no teto, encontrava-se um móbile feito de metal representando os planetas em órbita.
À esquerda havia uma pintura a óleo da Virgem Maria e, ao lado desta, uma tabela periódica dos elementos feita de material laminado. Na parede lateral, mais duas cruzes de bronze ladeavam um pôster de Albert Einstein com sua famosa citação: DEUS NÃO JOGA DADOS COM O UNIVERSO.
À medida que andava pelo aposento, mais se surpreendia. Na escrivaninha de Vetra, uma Bíblia de capa de couro fazia companhia a um modelo atômico de Bohr e a uma réplica em miniatura do Moisés de Michelangelo.
Isso é que é ser eclético, pensou Langdon. O calor era agradável, mas alguma coisa no ambiente causava mais arrepios em Langdon. Tinha a impressão de estar presenciando o choque de dois titãs filosóficos, uma confusão indistinta de forças opostas. Examinou os títulos dos livros na estante: A partícula de Deus, O Tao da Física e Deus: a prova.
Em um dos suportes de livros estava escrita a citação:
A VERDADEIRA CIÊNCIA DESCOBRE DEUS
À ESPERA ATRÁS DE CADA PORTA.
- PAPA Pio XII
- Leonardo era um padre católico - disse Kohler.
Langdon virou-se para ele.
- Padre católico? Achei que tivesse dito que ele era físico.
- Era as duas coisas. Há outros precedentes na história de religiosos que eram também homens de ciência.
Leonardo era um deles. Considerava a Física "a lei natural de Deus" Alegava que a escrita de Deus era visível na ordem natural de tudo o que nos cerca. Através da ciência, ele esperava provar a existência de Deus para as massas incrédulas. Via a si mesmo como teofisico.
Teofísico? Para Langdon, a expressão parecia um incrível oximoro.
- O campo da Física de Partículas - explicou Kohler - fez algumas descobertas de grande impacto ultimamente, descobertas de implicação muito espiritual. Leonardo foi responsável por muitas delas.
Langdon estudou o diretor do CERN, ainda tentando processar o bizarro ambiente.
- Espiritualidade e física?
Langdon passara sua carreira estudando história religiosa e, se havia um tema recorrente, era o que afirmava que ciência e religião haviam sido desde sempre como o óleo e a água, arquiinimigas, nunca se misturavam.
- Vetra estava na vanguarda da Física de Partículas - acrescentou Kohler.
- Estava começando a fundir Física e religião, demonstrando que uma complementava a outra de maneiras jamais previstas. Chamava a esse campo Nova Física.
Kohler tirou um livro da prateleira e o entregou a Langdon. Ele examinou a capa e leu o título: Deus, milagres e a Nova Física, por Leonardo Vetra.
- O campo é restrito - Kohler prosseguiu -, mas tem trazido novas respostas para algumas velhas perguntas.
Sobre a origem do universo e sobre as forças que ligam todos nós. Leonardo acreditava que sua pesquisa tinha potencial para converter milhões de pessoas a uma vida mais espiritual. No ano passado, ele provou categoricamente a existência de uma forma de energia que une todos nós. Demonstrou de fato que estamos todos fisicamente vinculados uns aos outros, que as moléculas de seu corpo estão entrelaçadas às moléculas do meu, que uma única força se move dentro de todas as pessoas.
Langdon ficou desconcertado. E o poder de Deus unirá todas as gentes.
- O senhor Vetra realmente descobriu uma forma de demonstrar que as partículas estão ligadas?
- Descobriu provas conclusivas. Um artigo recente da Scientific American saudou a Nova Física como um caminho mais seguro para se chegar a Deus do que a própria religião.
O comentário calou fundo. Langdon de repente se viu pensando nos Illuminati anti-religiosos.
Relutantemente, forçou-se a realizar uma momentânea incursão intelectual ao impossível. Se os Iliuminati ainda estivessem ativos, teriam matado Leonardo para impedi-lo de levar sua mensagem religiosa às massas? Langdon descartou a idéia. Absurdo! Os Iliuminati são história antiga! Todos os acadêmicos sabem disso!
- Vetra tinha uma porção de inimigos no mundo científico - continuou Kohler. - Muitos cientistas puristas desprezavam-no. Até aqui, no próprio CERN. Achavam que usar física analítica como apoio para princípios religiosos era trair a ciência.
- Mas não é verdade que os cientistas de hoje estão um pouco menos na defensiva com relação à Igreja?
Kohler resmungou, irritado.
- Que motivos teríamos para isso? A Igreja pode não estar mais queimando cientistas na fogueira, mas, se acha que afrouxaram seu domínio sobre a ciência, por que será que a metade das escolas em seu país não está autorizada a ensinar a evolução? Por que será que a Coalizão Cristã dos EUA é o lobby mais influente contra o progresso científico no mundo? A batalha entre ciência e religião ainda está em andamento, senhor Langdon, só que saiu dos campos de batalha para as salas de reunião das diretorias.
Langdon percebeu que Kohler tinha razão. Na semana anterior, a Escola de Teologia de Harvard fizera uma manifestação de protesto no prédio de Biologia contra a inclusão de engenharia genética no programa de graduação. O diretor do Departamento de Biologia, o famoso ornitólogo Richard Aaronian, defendeu seu currículo pendurando uma enorme faixa na janela de seu escritório. A faixa mostrava um "peixe", o símbolo cristão, modificado, com quatro pequenos pés, um tributo, segundo Aaronian, à evolução dos peixes dipnóicos africanos para a terra firme. Sob os peixes, em vez da palavra "Jesus", a proclamação "DARWIN!"
O som de um bipe agudo cortou o ar e Langdon levantou a cabeça. Kohler voltou a atenção para o equipamento eletrônico em sua cadeira de rodas. Tirou um pequeno aparelho de seu suporte e leu a mensagem que chegara.
- Ótimo. É a filha de Leonardo. A senhorita Vetra está chegando no heliponto neste momento. Vamos ao encontro dela. Acho melhor que ela não venha aqui e veja seu pai nesse estado.
Langdon concordou. Seria um choque que nenhum filho merecia receber.
- Vou pedir à senhorita Vetra que explique o projeto em que ela e seu pai vinham trabalhando, e talvez isso lance alguma luz sobre o motivo por que ele foi morto.
- Acha que mataram Vetra por causa do trabalho dele?
- É bem possível. Leonardo contou-me que estava trabalhando em algo pioneiro. Só me disse isso. Andava cheio de segredos sobre o projeto. Tinha um laboratório particular e exigia isolamento, o que eu de bom grado lhe concedi por causa de seu brilhantismo. Seu trabalho ultimamente vinha consumindo uma quantidade enorme de energia elétrica, mas eu me abstive de questioná-lo sobre o assunto. - Kohler girou a cadeira na direção da porta do gabinete. - Há uma coisa, porém, que o senhor precisa saber antes de sair deste apartamento.
Langdon não estava muito certo se queria escutar o que era.
- Algo foi roubado de Vetra por seu assassino.
-Algo?
- Venha comigo.
O diretor dirigiu sua cadeira de volta para a sala enevoada. Langdon foi atrás, sem saber o que esperar.
Kohler manobrou até ficar a centímetros do corpo de Vetra e então parou. Fez um sinal para que Langdon se aproximasse. Langdon veio para perto, a bílis subindo-lhe à garganta por causa do cheiro da urina congelada da vítima.
- Olhe o rosto dele - disse Kohler.
Olhar o rosto dele? Langdon não compreendia. Pensei que alguma coisa tivesse sido roubada.
Hesitante, Langdon ajoelhou-se. Tentou enxergar o rosto de Vetra, mas a cabeça fora torcida 180 graus para trás e o rosto estava pressionado contra o tapete.
Lutando contra sua deficiência, Kohler inclinou-se e virou com cuidado a cabeça gelada de Vetra.
Estalando, o rosto do morto girou e ficou à mostra, contorcido de agonia. Kohler manteve-o naquela posição por um momento.
- Meu Deus! - exclamou Langdon, recuando horrorizado.
O rosto de Vetra estava coberto de sangue. Um único olho castanho devolveu-lhe um olhar sem vida. A outra órbita estava estraçalhada e vazia.
- Roubaram o olho dele?
CAPÍTULO 14
Langdon saiu do Edifício C para o ar livre, contente por estar fora do apartamento de Vetra. O sol ajudou a dissipar a imagem da órbita ocular vazia que ficara gravada em sua mente.
- Por aqui, por favor - Kohler falou, dando uma guinada e enveredando por uma subida íngreme. A cadeira de rodas elétrica acelerava sem esforço. - A senhorita Vetra vai chegar a qualquer momento.
Langdon corria para acompanhá-lo.
- Então - perguntou Kohler -, ainda duvida do envolvimento dos liluminati?
Langdon não sabia mais coisa alguma. O fato de Vetra ser religioso era megavelmente perturbador, mas ainda assim Langdon não se convencia a deixar de lado todas as evidências acadêmicas que sempre pesquisara. Além disso, havia o olho...
- Ainda acho - declarou, com mais ênfase do que pretendia - que os llluminati não são responsáveis por esse crime, O olho que falta é uma prova disso.
- O quê?
- Mutilação aleatória - explicou Langdon - é um ato muito pouco característico dos liluminati. Os especialistas em cultos dizem que a desfiguração sem propósito é típica de seitas marginais, de fanáticos que cometem atos de terrorismo ao acaso. Os Illuminati sempre demonstraram mais deliberação.
- Deliberação? Remover cirurgicamente o globo ocular de alguém não é demonstrar deliberação?