Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado
5 Onde você focar sua atenção é onde colherá resultados
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Onde você focar sua atenção é onde colherá
resultados
Todo fim de ano, na véspera de Ano-Novo, faço duas listas que, juntas,
resumem o que fiz nos últimos 12 meses. A primeira descreve todas as coisas
que me encheram de orgulho — aprender uma habilidade nova, aprimorar um
talento antigo, ser uma mãe boa e presente, aprender um esporte ou uma
atividade que antes me intimidava, lançar um projeto social ou ambiental, ou
celebrar os resultados positivos de um que já havia lançado. A segunda é
dedicada às áreas em que ainda preciso melhorar. Nessa noite, gosto de ficar
sentada em silêncio por uma hora. E medito sobre as duas listas. Em que
áreas da minha vida fui bem? Em quais delas não dei conta, e por quê? As
áreas para as quais dei mais atenção — vida conjugal, filhos, trabalho, rotina
de exercícios e de alimentação, prática espiritual — estão em equilíbrio, ou
estou exagerando em alguma enquanto negligencio outra? Também uso a
meditação de Ano-Novo para estabelecer as intenções e os objetivos para o
ano seguinte. Vou querer cortar o açúcar (de novo) por um mês? Tem alguma
coisa que não fiz e que sempre quis fazer? O que me assusta (que, para mim,
significa que é algo que eu deva tentar superar)? Como posso me tornar uma
pessoa melhor, uma amiga melhor, uma mãe melhor, melhor em tudo o que
faço?
Praticando ioga na Costa Rica, em 2008.
Se parece que estou me monitorando ou contando pontos, bem, acho que
estou mesmo. Esse exercício da lista de Ano-Novo é uma forma de
autoanálise e uma boa maneira de medir meu progresso. É uma oportunidade
de me sentir bem com relação a qualquer pequena vitória que tive, e, ao
mesmo tempo, de me lembrar das áreas em que ainda posso melhorar. Não se
trata de um momento para a autocrítica. Se cometo esse erro, reformulo a
reflexão como uma oportunidade de aprender algo novo. Também não é hora
de me cobrir de elogios. As grandes perguntas que sempre me faço são: Quão
bem ou mal usei o tempo que foi me dado nesse ano que passou? Aproveitei
ao máximo as horas, os dias, as semanas e os meses que me foram dados?
Priorizei o que é mais importante para mim e dediquei a isso minha atenção
plena?
O aprendizado: Onde você focar sua atenção é onde colherá resultados
sempre funcionou para mim. É um aprendizado muito importante
principalmente numa época em que estamos, mais do que nunca, saturados de
informação. É preciso um esforço sobre-humano para abrir caminho em meio
à sobrecarga de demanda que nos rodeia, para que possamos direcionar a
atenção para as coisas e metas que mais nos beneficiam e nos ajudam a
crescer. Mas vale o esforço.
O que precisamos entender é que está em nossas mãos a escolha de para
onde direcionamos nossa atenção. Por experiência própria, sei como é fácil
permitir que outras pessoas nos definam ou limitem nosso potencial. Se eu
tivesse acreditado piamente nos bullies da minha escola ou nos profissionais
da indústria da moda que criticavam minha aparência, a insegurança teria me
paralisado. Em vez disso, concentrei a atenção ainda mais naquilo que queria
alcançar. Devemos realmente permitir que outras pessoas nos digam quem
somos, para onde estamos indo e o que somos capazes de realizar? Aquelas
pessoas não faziam a mínima ideia de que as características que estavam
ridicularizando em mim eram exatamente as que tornariam possível, para mim, trabalhar nesta área em que venho tendo sucesso há 23 anos!
Todos precisamos ter cuidado com onde escolhemos colocar nossa atenção
— e nossa atenção sempre começa com nossos pensamentos. Quando
acreditamos que uma coisa é verdade, mais perto ela fica de se tornar
verdade. Se temos uma opinião desfavorável a nosso próprio respeito, cada
interação que tivermos será afetada por essa crença. Se enfrentarmos
situações com confiança, nossa autoestima vai causar um impacto em todos
ao nosso redor.
Quando criança, percebi que não tinha controle algum sobre meu corpo em
crescimento. O que eu poderia fazer — serrar as pernas pela metade para
deixá-las mais curtas? Mas podia transformar uma característica de que não
gostava em algo de que gostasse. Virar uma ótima jogadora de vôlei
transformou minha altura numa vantagem. Além disso, podia ser uma boa
aluna e focar onde eu poderia ter uma influência positiva. Mas essa
mentalidade significava que tinha que superar meus próprios medos e
inseguranças — e isso ficou bem evidente no início da minha carreira como
modelo. A indústria da moda sabia ser cruel na forma como tratava as
meninas. Para alguns estilistas, as modelos quase nem eram humanas.
Éramos cabides. Lembro que, aos 15 anos, consegui um trabalho como
modelo de provas, no qual tinha que experimentar os looks em potencial para
um desfile. Ficava lá em pé quase nua, só de calcinha, me cobrindo do
melhor jeito que podia com os braços cruzados sobre os seios enquanto
alguém ia buscar as roupas. Às vezes demoravam um tempão, me deixando lá
tremendo. Ninguém pensava em me trazer um roupão, nem que eu pudesse
estar me sentindo constrangida, vulnerável, ou com frio. Como era novata na
carreira de modelo e não tinha muita noção deste meio, achava que era assim
que as coisas funcionavam.
Eu novinha.
Meu primeiro grande momento aconteceu em Londres. Foi em 1998. Tinha
18 anos. Desde meados dos anos 1990, a tendência no mundo da moda era
conhecida como heroin chic — meninas esqueléticas, pálidas e de aparência
andrógina. Eu não tinha nada a ver com aquele estereótipo — era saudável,
bronzeada, atlética e tinha seios grandes. Morava num apartamento de
modelos no centro de Londres onde a maioria das meninas fumava, bebia,
usava drogas e tinha piercings e tatuagens. Depois de três semanas e 43
castings, a maioria dos responsáveis por contratar as modelos para os desfiles
mal olhavam para mim. Não tinham o menor interesse nos trabalhos que eu
havia feito no Brasil, nem num ensaio fotográfico em que o cabeleireiro e o
maquiador fizeram o melhor que puderam para me deixar mais andrógena e
descolada. A onda heroin chic foi provavelmente uma reação às modelos
saudáveis e atléticas que dominaram o mundo da moda no começo dos anos
1990. Eu não sabia que o pêndulo estava prestes a mudar de direção e que eu
estava numa boa posição para tirar vantagem dessa mudança.
Um dia a agência me enviou para o casting do desfile da coleção de
primavera/verão do estilista britânico Alexander McQueen. Lee, como os
amigos o chamavam, tinha sido estilista-chefe da Givenchy antes de criar sua
própria marca, e já nessa época era considerado um dos estilistas mais
criativos e inovadores de seu tempo, conhecido por sua abordagem dramática
e incomum em relação à moda. Quando cheguei lá, me juntei a centenas,
talvez até milhares de outras garotas numa fila que se estendia e dava a volta
no quarteirão. Uma a uma, atravessávamos um longo corredor que levava a
uma sala onde Lee estava sentado num sofá. Ele me pediu que colocasse um
par de sapatos de salto muito altos e uma saia lápis bem justa e então me
pediu que desfilasse para ele. Quando terminei, ele disse “Obrigado”, e nada
mais. Eu não tinha ideia de como havia me saído — e, alguns dias depois,
quando a agência ligou com a notícia de que eu tinha sido aprovada, quase
não acreditei.
Na noite do desfile, lembro-me de ter ficado encucada com o fato de
ninguém ter me chamado para provar as roupas. Será que tinham estimado
minhas medidas pela saia que havia usado no casting? Eu tinha participado
de alguns desfiles menores em Nova York, mas esse era meu primeiro grande
desfile internacional, e não fazia ideia de como as coisas funcionavam.
Naquela noite, cheguei ao local do desfile com um frio na barriga. Sentei-me
numa cadeira enquanto o cabeleireiro puxava todo meu cabelo para trás e
colocava uma peruca preta em mim, e a maquiadora grudava longas penas
pretas nos meus cílios. Estava certa de que em algum momento alguém
chegaria e pediria que eu provasse as roupas. Naquela época — eu tinha
acabado de completar 18 anos — meu inglês ainda era limitado. Sabia falar
“good morning” e “good afternoon”, “hi, how are you?” e “I’m fine!” e
conseguia entender algumas coisas que me diziam, mas na maior parte do
tempo eu só fazia que sim com a cabeça e sorria muito, já que a última coisa
que queria era parecer burra.
Antes do desfile, estava um caos nos bastidores, com muito estresse e
gritaria. Logo chegou a hora de todas as modelos, incluindo eu, colocarem as
roupas. Deram menos de um minuto para nos vestirmos. Eu tinha três looks
naquela noite, três roupas — uma coisa prateada de alcinha que parecia um
maiô mas com correntes pendentes, um vestido e uma saia lápis. Nenhum
deles tinha sido ajustado em mim. Desfilei com os dois primeiros sem
qualquer problema, embora fossem os trajes mais reveladores que já havia
usado numa passarela. E então chegou a vez da saia lápis.
Nos bastidores, durante um desfile, é sempre um corre-corre, tudo na
maior pressa. Pressa para trocar de roupa. Pressa para retocar cabelo e
maquiagem. Pressa para entrar na fila e voltar para a passarela. Alguém me
deu a saia e eu a vesti. Foi difícil enfiar as pernas nela, era muito justa. Não
bastava o salto super alto, quase impossível de caminhar, agora tinha essa
saia que mal deixava eu mexer as pernas. Ainda estava esperando pela parte
de cima, e, no meu inglês capenga, por fim consegui perguntar a alguém onde
estava. “Não tem parte de cima”, veio a resposta. E eu pensei: Como assim
não tem parte de cima?
Comecei a chorar. Não tinha ideia do que fazer. Só pensava no quanto
meus pais ficariam decepcionados e envergonhados. Tentei conter as
lágrimas, mas elas simplesmente continuaram rolando, e as penas pretas
grudadas nos cílios começaram a se descolar. Dava para ouvir a pesada batida
eletrônica da música vindo da passarela. Por um segundo pensei em ir embora, em fugir. Por nada nesse mundo eu sairia para desfilar sem a parte
de cima da roupa. Mas, se fosse embora, sabia que provavelmente jamais me
dariam outra oportunidade. As pessoas me chamariam de antiprofissional —
isso se os responsáveis pelos castings se dessem ao trabalho de me chamar de
volta para qualquer outro trabalho. Mas, no fim das contas, era o meu corpo,
de mais ninguém.
Assim que Val, a maquiadora, viu o que estava acontecendo, disse que ia
pintar um top em mim usando maquiagem branca — o que começou a fazer.
Ficou mesmo parecendo um top, ainda bem. Val me disse que tinha ficado
lindo e falou que a passarela estava tão escura que ninguém ia notar que eu
não estava usando uma blusa branca fininha. Se Val não tivesse aparecido
naquela hora, duvido sinceramente que teria desfilado. Eu me lembro de ter
pensado que, se alguém me fotografasse, pelo menos meus pais não
conseguiriam me reconhecer com aquela peruca preta.
Num dado momento, percebi que uma garota, depois outra, não, peraí,
todas as garotas estavam voltando para os bastidores completamente
molhadas. Levei alguns segundos para perceber o que estava acontecendo. Eu
já não conseguia nem me mexer direito com a saia apertada e o salto alto.
Agora eu teria que entrar na passarela com um top pintado no corpo e, ainda
por cima, estaria chovendo?
O desfile de Alexander McQueen, em 1998.
Aquela foi provavelmente a noite em que passei a me dissociar, a começar
a pensar na Gisele modelo como ela. Porque a menina que finalmente surgiu
na passarela não era ninguém que eu conhecia, ela era muito mais confiante e
forte que eu. Poucos minutos antes, eu chorava tanto que as lágrimas estavam
borrando toda a maquiagem. Eu era uma boa menina. Era meio moleque. Era
alguém que sentia vergonha de ter seios grandes desde a puberdade. Eu era a
garota que morria de medo de que a família ficasse com vergonha dela e que
nunca mais falasse com ela. Eu estava apavorada. (Graças a Deus a internet
não era tão popular assim em Horizontina naquela época — senão tenho
certeza de que meus pais teriam me mandado voltar para casa.)
Treinei meu olhar para focar numa única luz no fim da passarela — e
entrei. Naquela noite, ninguém viu a garota de 18 anos tímida, assustada,
envergonhada e insegura. Em vez disso, viram uma mulher forte e confiante
desfilando na passarela. Ela conseguiu desfilar com um salto absurdamente
alto sobre um piso extremamente escorregadio. Ela não cometeu um erro
sequer. Ela não caiu. Ela deu a impressão de que não estava nem aí para
nada. A chuva fez a maquiagem preta dos olhos escorrer pelo rosto, então
ninguém poderia saber que ali, além da água da chuva, havia lágrimas. Finja
até se tornar verdade — isso funciona mesmo! Graças a Deus a coisa toda
começou e terminou rápido.
No fim das contas, participar do desfile do Alexander McQueen foi o
começo da minha carreira internacional. Ele era visto como um gênio, o
melhor e mais inovador estilista do seu tempo. A indústria da moda o
considerava um visionário. Ele era reverenciado por cada editor e fotógrafo
de moda do mercado, e muitos deles estavam na plateia naquela noite.
Quando ele me selecionou para participar do desfile, minha agência me
explicou como isso era importante, embora eu não tivesse a noção exata da
dimensão daquilo. Durante o desfile, eu atravessei a passarela chorando,
seminua, enquanto a chuva caía do teto. Relembrando agora, realmente devo ter me destacado, principalmente por ser tão diferente do look heroin chic ao
qual todos estavam acostumados. Meus seios eram grandes, e mesmo que eu
estivesse chorando, minha aparência era saudável e mais curvilínea. A
indústria da moda estava pronta para uma mudança. Era o momento certo, e,
naquela noite, eu era a modelo certa. Era diferente, e a indústria estava pronta
para essa diferença.
A partir daquela única noite, de alguma forma, passei a fazer parte do
cenário da moda mundial. De repente, muita gente queria trabalhar comigo.
As pessoas começaram a me chamar de “a menina do momento”. Foi
fantástico, embora algumas pessoas ainda se sentissem à vontade para me
criticar bem na minha cara. Depois de participar de alguns desfiles em Milão
e Paris, voltei para Nova York, onde surgiram na minha vida pessoas que
seriam fundamentais para a minha carreira. Três delas eram fotógrafos de
moda renomados, e uma é até hoje editora de uma revista lendária. Primeiro,
Mario Testino me convidou para um editorial da Vogue francesa. Quase na
mesma semana, Patrick Demarchelier me chamou para estampar as páginas
da Harper’s Bazaar. Depois comecei a trabalhar com Steven Meisel, que não
só é um fotógrafo extremamente talentoso, como um professor incrível, que
me ensinou muito sobre como modelar. Um ano depois, a editora-chefe da
Vogue americana, Anna Wintour, me colocou na capa da revista ilustrando a
matéria “A volta das curvas”. A Vogue América é considerada “a bíblia da
indústria da moda mundial”. Quando Anna anunciou a tendência de um novo
movimento na moda — que as curvas estavam de volta — e me escolheu
para ilustrar essa tendência, foi um momento crucial na minha carreira. Fui
uma das modelos mais jovens a aparecer na capa da Vogue americana e
dentro dessa edição também havia uma foto nua minha, tirada por Irving
Penn.
Na época, havia três fotógrafos de moda que eram verdadeiros ícones:
Richard Avedon, Helmut Newton e Irving Penn, que fotografavam
raramente, pois já tinham certa idade, e com quem todo mundo queria
trabalhar. Quando minha agente me contou que Irving Penn gostaria de me
fotografar nua, fiquei bastante hesitante — não queria tirar a roupa. Também
não sabia como dizer não à maior e mais influente revista de moda do mundo,
e a um ícone da fotografia. A ideia como um todo me deixou pouco à
vontade, mas a agência me disse que era muito importante, e acabei
concordando. Sendo bem franca, era uma oportunidade única na minha
carreira, então senti que era algo importante a ser feito.
Irving Penn, que tinha quase oitenta anos quando nos conhecemos, era um
verdadeiro artista, e um homem gentil e respeitoso. Normalmente, durante
ensaios fotográficos, há mais de uma dezena de pessoas circulando pelo
estúdio, mas ele trabalhava só com um assistente e Phyllis, a editora, e usava
luz natural que vinha da janela — pelo menos foi assim das duas vezes que
trabalhei com ele. Era muito cortês e discreto. Não havia retoque. Tirar a
roupa não foi fácil para mim. Muita gente pensava que as brasileiras tiravam
a roupa a torto e a direito, já que no Carnaval os corpos ficam bastante
expostos, mas eu cresci numa família bem conservadora e me senti
desconfortável em pé ali sem nada no corpo. Mas fiz o que minha agente me
disse para fazer. Eu me lembro de ficar lá nua por quase duas horas sem me
mexer, mal conseguindo respirar, com o rosto inclinado para a direita. Isso
também me deixou incomodada, já que havia me convencido de que só ficava
bem quando fotografada do lado esquerdo. “Não acho que este lado seja tão
bom, Sr. Penn”, falei. Jamais vou esquecer a resposta dele. Falando devagar,
com sua voz serena, ele me disse que tudo e todos têm uma beleza única e
própria — que todos os ângulos são lindos. Quando finalmente vi a foto que
ele tirou, percebi que estava certo. A foto era diferente, mas também, pelo
menos na minha concepção, ficou legal — apesar de não conseguir mexer o
pescoço por vários dias depois da sessão por ter ficado muito tensa. E o
curioso é que, anos mais tarde, escolhi essa foto para ilustrar a capa do meu
livro em comemoração aos meus vinte anos de profissão. Trabalhar com
Irving Penn me libertou de muitas maneiras, me fez perceber, por exemplo,
que eu não precisava parecer com ninguém, não havia problema em ser
diferente.
Outro aspecto que fazia muitas pessoas me acharem confiante — mas que
na verdade se tratava de algo totalmente diferente — era meu jeito de desfilar
na passarela. Com o passar dos anos, fiquei conhecida por um andar que
alguns chamavam de “trote”. Erguia o joelho alto e chutava o pé para a
frente, o que criava a impressão visual de uma égua trotando. A verdade é
que eu não tinha opção. Calço 37 e tenho 1,80m de altura. Os saltos que as
modelos usavam na passarela eram muito mais altos comparados aos que
eram vendidos nas lojas, tornando quase impossível, no meu caso, manter as
pernas esticadas. Imaginem ter a minha altura e se equilibrar em pés
pequenos dentro de sapatos de salto muito alto, e aí você vai entender por que
meu caminhar era simplesmente um jeito de evitar levar um tombo. E
também tinha outro efeito: fazia a menina que desfilava na passarela — ela — se sentir orgulhosa, forte, confiante e determinada. Parecia que eu estava
abrindo caminho aos pontapés. O que ninguém sabia era que os saltos que eu
geralmente usava machucavam tanto na hora de andar que eu os tirava no
instante em que chegava aos bastidores.
Se antes do desfile de Alexander McQueen eu já era focada, depois disso
passei a ser ainda mais focada e determinada. Eu já sabia o que queria, mas
agora as possibilidades pareciam muito mais amplas. Estava empenhada em
escalar a montanha que via à minha frente. No que dependesse de mim, nada
iria me impedir. E daí se um dia eu estivesse doente, no outro sentisse
cólicas, e na semana seguinte estivesse passando por maus bocados na minha
vida pessoal? Mesmo quando sentia vontade de chorar, aparecia com um
sorriso no rosto, pronta para trabalhar. A carreira de modelo costuma ser
curta, além de descartar as meninas com facilidade — já tinha visto tantas
garotas irem e virem —, e eu não seria uma delas. Com o tempo, pareceu
mais saudável, além de ajudar a resguardar quem eu realmente era, pensar no
meu trabalho como modelo não como minha identidade, e sim como um
negócio, uma profissão. O que é, na verdade. Para mim, isso significava que
eu precisava entender cada aspecto dessa indústria: cabelo, maquiagem,
câmeras, iluminação, enquadramento. Todo o processo criativo e
colaborativo.
A melhor forma de aprender a fazer alguma coisa é fazendo. Dia após dia,
meu trabalho me deu a oportunidade de estar cercada por equipes de pessoas
incrivelmente criativas. Tive ótimos professores. E me propus a absorver e a
analisar toda e qualquer coisa ao meu alcance. Ficava lá prestando muita
atenção quando alguém arrumava meu cabelo ou me maquiava. Observava os
fotógrafos de perto e aprendia sobre luz e ângulo, e descobri rapidamente
que, quando se trocam as lentes, o enquadramento e a luz, tudo muda.
O fator mais importante para que uma foto saia do jeito que você quer é a
iluminação. Por outro lado, o enquadramento é o que torna a foto mais
interessante. É uma foto convencional de frente? Ou é tirada de um ângulo
mais baixo, que tem o efeito de me fazer parecer mais alta, ou de cima, que
me faz parecer mais baixa? Ou é uma foto tirada de um ângulo diferente, com
um propósito mais artístico? Se a iluminação cria o clima, o enquadramento
pode determinar se a foto é diferente, incomum ou meramente comercial
(embora a luz também possa fazer isso). Então comecei a analisar as fotos
que não tinham uma luz boa: Isso não ficou legal — por quê? Quanto mais eu
entendia sobre luz e enquadramento, melhores minhas fotos ficavam. Dava para ver como um feixe de luz valorizava meu rosto, enquanto outro o fazia
parecer esquisito, e como sutilmente mover o queixo um milímetro para a
esquerda ou para a direita alterava todo o efeito. (Eu estava sempre tentando
encontrar ângulos em que meu nariz parecesse menor e meus olhos
parecessem maiores.)
No fim das contas, adquiri uma compreensão muito maior não apenas do
meu papel nesse esforço colaborativo, mas também dos papéis exercidos por
todos os outros envolvidos. Algumas pessoas podiam até me ver como um
cabide, mas eu estava atenta a tudo, analisando e tentando aprender sempre.
Ter trabalhado com os melhores profissionais da moda por tantos anos
também me deu a oportunidade de ajudar profissionais com menos
experiência. Eu sabia o que caía bem em mim. Talvez você pudesse tentar
colocar a sombra deste jeito?, dizia. Ou meu cabelo deste jeito? Queria
ajudar a todos. Luigi, um querido amigo e provavelmente o melhor
cabeleireiro com quem já trabalhei, além de ser um ótimo fotógrafo, brinca
que adorava ser meu assistente de cabeleireiro porque sou boa em brincar
com o cabelo durante as sessões de fotos, já que isso sempre me ajudou a
entrar na personagem.
Por natureza, a carreira de modelo tem um tempo limitado numa indústria
que é voltada para a juventude. As modelos enfrentam muitas tentações e
situações em que facilmente podem sair dos trilhos. A maioria das garotas
começa a trabalhar mais ou menos com a mesma idade que eu tinha quando
comecei, no início da adolescência, uma época em que são muito
influenciadas pelas colegas. Nessa idade, você só quer fazer parte do grupo, e
num negócio onde há muitas festas, bebidas, drogas e “glamour”, onde a
ênfase é quase que exclusivamente na aparência, essa pode ser uma
combinação perigosa. Por quanto tempo você vai fazer isso, Gise?, eu me
questionava. Naquela época não havia uma boa resposta, mas de uma coisa
eu tinha certeza: quando chegasse o dia em que não me oferecessem mais
trabalhos, eu não iria para casa de mãos vazias. No mínimo queria ter meu
próprio cantinho. Qual era o sentido de ficar pagando aluguel quando podia
usar aquele mesmo dinheiro para fazer um financiamento e comprar meu
próprio apartamento? Comecei a guardar todo o dinheiro que sobrava no fim
de cada mês. Nunca me interessei por roupas, bolsas e sapatos caros. Fazia
mais o tipo hippie. Se precisasse de roupas novas, ia a um dos brechós no
centro de Nova York. Por que comprar roupa nova quando iam me vestir toda
no estúdio fotográfico? Quando comecei a fazer mais sucesso e os clientes começaram a me mandar passagens aéreas de primeira classe, eu as trocava
por um assento na classe econômica, e o dinheiro que sobrava ia direto para a
poupança.
Foi economizando cada centavo que ganhava com o meu trabalho que
consegui comprar meu primeiro apartamento em Nova York, na Beach Street,
em Tribeca. Era um apartamento pequeno, meio escuro, mas eu o adorava
porque era meu. Depois de me mudar para lá, não tinha sobrado muito
dinheiro para reformas, então fiz quase tudo eu mesma, seguindo o exemplo
da minha mãe de sempre tentar fazer as coisas por conta própria. Lixei e
envernizei o piso, e fiz o mesmo com quatro bancos brancos que encontrei
numa venda de garagem na Houston Street. Esses quatro bancos me
acompanham para onde vou, e hoje estão na nossa cozinha em Boston.
Reformando meu apartamento em Nova York, em 1999. Depois de lixar o piso, é hora de envernizar! Sempre gostei de fazer coisas desse tipo. Tenho minha própria caixa de ferramentas. E não me deixe chegar perto de um martelo, adoro pendurar quadros pela casa.
Decorei os outros cômodos com móveis da IKEA. Para me lembrar do
Brasil, comprei algumas palmeiras em vasos e um peixinho. Só precisei
mesmo de alguém para reformar o banheiro, então passei os seis meses
seguintes tomando banho no estúdio ou na casa de algum amigo. Muitas
garotas não conseguiam acreditar quando contava a elas que tinha comprado
meu próprio apartamento. Mas estava sempre olhando e planejando mais para
a frente. Sempre soube pelo que eu estava trabalhando.
Aquilo em que escolhemos focar nossa atenção é muito, mas muito
importante. Primeiro vem o pensamento. Por quê? Porque antes que você
possa almejar algo, ou tomar alguma atitude a respeito, precisa imaginar o
que deseja. Quanto mais você pensa em algo, mais fortes se tornam seus
pensamentos em torno daquilo — e eles acabam se tornando uma crença.
Quando eu estava tendo ataques de pânico e bebendo Mocha Frappuccinos,
fumando um maço de cigarros por dia e tomando uma garrafa de vinho à
noite, isso se tornou uma espécie de sistema de crenças. Aquele sistema de
crenças me dizia que eu era uma pessoa sempre muito ocupada que precisava
fumar o dia todo para continuar na ativa e beber vinho toda noite para relaxar.
Era isso que eu acreditava que precisava fazer para seguir em frente. Fumar
cigarros e beber vinho eram as atitudes que eu tomava com base naquele
sistema de crenças. As curas — meditar, correr todas as manhãs e fazer
mudanças na minha alimentação — foram atitudes baseadas no meu novo
sistema de crenças. Eu achava que meditar e fazer ioga iam me ajudar — e,
lentamente, à medida que me ajudavam, esses pensamentos evoluíram para
uma crença positiva que acabou mudando a minha vida.
Seus pensamentos podem lhe destruir ou lhe conduzir a lugares melhores.
Mas seja lá o que você escolher fazer como resultado dos seus pensamentos, faça isso pelos motivos certos. Quando você faz alguma coisa para se
satisfazer, algo que realmente acha que vai trazer felicidade, é maravilhoso.
Mas, no momento em que faz algo só para agradar os outros, ou a sociedade,
ou uma cultura, o tiro pode sair pela culatra, como bem sei.
Como mencionei antes, depois do desfile do Alexander McQueen, a
indústria da moda começou a se referir a mim como “O Corpo”. Eu já estava
totalmente à vontade com aquele corpo. Mas, depois que meus filhos
nasceram — Benny, em 2009, e Vivi, em 2012 —, naturalmente meu corpo
começou a mudar, ainda mais depois de amamentar por quase dois anos cada
um. Embora amamentar tenha sido uma das experiências mais especiais da
minha vida, e sou tão grata por ter conseguido fazer isso, por outro lado, isso
não apenas diminuiu o tamanho dos meus seios como os fez ficar levemente
assimétricos. A verdade é que, não importa quão saudável você seja, ou quão
regularmente faça exercícios, se você é mulher, seu corpo vai mudar depois
da gravidez e do parto.
Além disso, eu não tinha mais 19 anos. Já havia passado dos 30, e era uma
jovem mãe. Por anos fui rotulada como “O Corpo”, e a indústria da moda
tinha expectativas elevadas quando à minha aparência. Mas o tempo passa
para todos nós, e todos mudamos. Quando chegava para fazer um trabalho,
algumas pessoas faziam comentários, direta ou indiretamente. “O que
aconteceu com seus peitos?”, diziam, ou “Seus seios ficaram tão pequenos!”.
Alguns até sugeriam que eu colocasse um tipo de enchimento de silicone no
meu sutiã.
Bem, como onde você colocar sua atenção é onde colherá resultados,
comecei a ficar desconfortável em relação ao tamanho e à aparência dos meus
seios. De repente comecei a ficar menos confiante com meu corpo, com meus
seios. Sentia que, de alguma forma, não conseguia mais corresponder às
expectativas dos outros e dar o meu melhor. Ainda assim, era impossível
voltar a ter o corpo que eu tinha antes de ser mãe. O que me levou a tomar
uma das piores decisões da minha vida.
Nunca considerei fazer plástica — mesmo quando as pessoas faziam
comentários sobre o meu nariz, ou meus olhos, ou faziam com que eu me
sentisse inadequada. Mas, dessa vez, infelizmente, escolhi dar atenção aos
comentários que vinha ouvindo. Decidi fazer uma cirurgia nos seios. Pensei
assim: Se der uma turbinada no peito, ninguém mais vai fazer esses
comentários, e tudo vai voltar a ser como antes. Escolhi confiar no meu
cirurgião, acreditando que ele sabia o que era melhor para mim. Mas — acredite — aprendi que ninguém melhor que você para saber o que é melhor
para você. Quando a cirurgia acabou, não conseguia mais reconhecer meu
corpo. Não ficou como eu imaginava. Fiquei incomodada com o tamanho dos
meus seios. Fiquei com raiva e deprimida. Por que eu tinha feito aquilo
comigo? Por que deixei minha atenção ser direcionada para isso? Eu tinha
feito alguma coisa por mim mesma, mas, basicamente, para tentar agradar os
outros. O aprendizado aqui é: ouça a sua voz interior em primeiro lugar, para
ter clareza sobre o que você realmente quer, antes de tomar decisões
importantes. Afinal, é você quem terá de viver com as consequências de suas
escolhas.
Se, por outro lado, nossa atenção é direcionada para coisas positivas, os
resultados obtidos serão positivos. Por exemplo, sempre amei a natureza, mas
só depois que visitei as tribos indígenas na Amazônia, em 2004, foi que
fiquei frente a frente com a triste situação gerada pelo desmatamento. Minha
visita foi intensa e reveladora e, quando fui embora, disse a mim mesma que
tinha que fazer alguma coisa para ajudar a preservar os recursos naturais.
Pedi à Grendene, empresa com a qual trabalhei durante anos numa linha de
sandálias, para, por favor, me ajudar a chamar atenção para causas
ecológicas. Decidimos que um percentual dos lucros anuais da minha linha
de sandálias seria doado para ajudar a proteger o rio Xingu, que deságua no
rio Amazonas, e para ajudar a apoiar várias outras causas ambientais. Durante
anos conseguimos apoiar inúmeros projetos, incluindo projetos de
recuperação de florestas, da água e das espécies ameaçadas de extinção no
Brasil.
Eu queria fazer tudo o que estava ao meu alcance para chamar atenção e
trazer consciência para os problemas ambientais, então também criei um
desenho animado na web chamado Gisele and the Green Team, sobre um
grupo de adolescentes que levavam uma vida dupla como supermodelos e
super-heroínas protetoras do meio ambiente. Em Horizontina, meu pai e eu
criamos o Projeto Água Limpa, com a missão de restaurar a mata nativa nas
margens do rio e melhorar a qualidade da água. Essas iniciativas me levaram
a ganhar reconhecimento nessa área. A ONU me convidou para ser uma de
suas Embaixadoras da Boa Vontade. A Universidade de Harvard também
reconheceu o trabalho que eu vinha fazendo. Anos depois, esses esforços me
levaram a fazer aquele discurso no Rock in Rio. Nos últimos anos, a maior
parte do meu tempo tem sido direcionada para trabalhar em prol do meio
ambiente, já que minha preocupação com o planeta e as futuras gerações é enorme, e espero inspirar todos a ajudarem.
Sendo pintada por várias lindas mulheres da etnia Kisêdjê dentro de sua oca, na Amazônia, em 2006.
Presto muita atenção às informações que recebo todos os dias — e à
maneira como alimento e nutro minha mente. Como figura pública, sei que
há muitas coisas escritas sobre mim na internet, quase tudo por pessoas que
não me conhecem. Algumas são maldosas e negativas. Na internet, as
pessoas fazem comentários sobre outras pessoas que não conhecem,
comentários que jamais fariam se estivessem cara a cara. Computadores são
máquinas, e e-mails, mensagens e comentários na internet nos desconectam
da ideia de que há um ser humano do outro lado da tela. O anonimato não só
cria essa desconexão; ele também parece facilitar a crueldade. Para mim, é
difícil acreditar que alguém que tenha uma vida feliz entraria na internet com
o propósito de dizer coisas maldosas sobre uma pessoa que nem conhece.
Isso é pior do que os meninos que implicavam comigo na escola, porque o
número de pessoas fazendo comentários na internet é muito maior. Pessoas
felizes têm coisa melhor para fazer do que gastar seu tempo falando mal dos
outros.
Da primeira vez que visitei a região do Xingu, em 2004, o cacique do povo Yawalapiti pintou minha testa com urucum em preparação para a cerimônia noturna.
Durante minha vida inteira me considerei uma pessoa feliz. Sou
abençoada; tenho saúde, marido e filhos para amar, e trabalhos a realizar. Se
direcionasse toda minha atenção para a internet ou para todas as últimas
notícias negativas do mundo, a qualidade da minha vida iria mudar, e não
para melhor. Meu celular se tornaria meu foco, e o medo, a ansiedade e a
sensação de desamparo aumentariam. Aos vinte e poucos anos, me lembro de
passar dias incríveis no trabalho e com os amigos, e depois ia para casa e
ligava a TV ou entrava na internet e via alguma coisa que me angustiava
tanto que ficava muito mal. Focar muito da sua atenção nas notícias do
mundo, na internet ou em qualquer coisa externa pode consumir você. Não é
a sua vida, mas pode muito bem se tornar a sua vida. Se você continuar
dando atenção a coisas que tragam medo ou ansiedade, vai acabar sentindo
cada vez mais medo e ansiedade.
Discursando — e, como de costume, ficando emocionada — sobre o projeto Água Limpa em Porto Alegre, em 2008.
Claro que isso não significa que você vá ficar alienado sobre o que está
acontecendo ao redor do mundo, mas, ao mesmo tempo, não deve se
concentrar apenas nas notícias ruins. É importante buscarmos nos alimentar
de conteúdos que nos façam crescer, que nos inspirem, que tragam bons
sentimentos.
Nas raras ocasiões em que fico na internet, com frequência me pego lendo
palavras ou vendo imagens que me fazem lembrar dos diversos pensamentos
que passam pela minha cabeça durante a meditação. Eles vêm e vão de uma
hora para a outra, de um dia para o outro. Pode ser útil questionar: direcionar
sua atenção para esta ou aquela informação vai beneficiar ou conectar você
ao seu “eu” superior?
Quando fui convidada para participar da cerimônia de encerramento da Copa
do Mundo FIFA de 2014, fiquei dividida. Como muitos brasileiros, eu
acreditava que o Brasil poderia ter usado o dinheiro gasto em estádios para coisas mais urgentes e necessárias, como melhorar hospitais, escolas e a
infraestrutura do país. Mas, no fim, acabei aceitando. Senti que seria uma
honra representar meu país e transmitir uma imagem positiva. Tive a mesma
sensação quando me convidaram para desfilar na abertura das Olimpíadas do
Rio em 2016. Meu objetivo — e espero que isso não soe muito pretensioso
— era que, de algum modo, eu pudesse servir como inspiração, como uma
imagem positiva para o nosso país. Seria um privilégio, na verdade, e eu iria
viver uma experiência única. Eu tinha que fazer aquilo.
Quando cheguei ao Rio e peguei o carro até o hotel, ouvi o que falavam no
rádio. Tudo era negativo. Ninguém acreditava que o Brasil pudesse realizar
uma cerimônia de abertura das Olimpíadas bem-sucedida.
Consequentemente, fiquei apreensiva quanto àquela situação como um todo.
Mas também sabia que sempre que tenho medo de ir além, é aí que preciso
ter coragem. Se não estiver disposta a ousar e tentar algo novo, me fecho para
oportunidades que poderão resultar daquilo. Os maiores sucessos que tive na
vida vieram todos quando saí da minha zona de conforto.
Minha tarefa nas Olimpíadas era desfilar sozinha por mais de 120 metros.
Só eu. Mais ninguém. Milhares de pessoas estariam dentro do estádio escuro,
e milhões mais ao redor do mundo estariam vendo pela televisão. Muitas
coisas podem acontecer, ou dar errado, em 120 metros. E se eu caísse?
Graças a Deus, nunca caí num desfile, mas sabia que isso podia acontecer. Já
perdi um sapato, quebrei um salto, prendi a cauda do vestido no salto várias
vezes, mas nunca caí. Antes de entrar na passarela, fiz uma oração.
Pedi proteção, força e coragem. Pedi para ser uma canalizadora — uma
mensageira de luz e amor. Então o clarão dos holofotes iluminou minha
cabeça.
Quando senti aquela luz, me dei conta da enorme energia positiva que
havia na escuridão ao meu redor. Ao piano, no centro do palco, Daniel Jobim,
o neto de Tom Jobim, tocava e cantava “Garota de Ipanema” quando
comecei a desfilar. Podia ser só eu lá naquela passarela, mas cada um dos
meus anjos da guarda estava comigo. O mundo pode até ter assistido a uma
mulher desfilando numa passarela escura, mas eu não estava sozinha, nem
por um segundo.
Gosto de abraçar cada oportunidade que a vida me dá. Gosto de me
desafiar, de experimentar coisas novas, porque nunca sabemos quanto tempo
nos resta. O tempo é nosso bem mais precioso, e não quero desperdiçar um
segundo sequer. Temos um número limitado de horas, dias e anos para viver a magia desta vida, a beleza do nosso planeta e a sensação de estarmos dentro
de nosso corpo. Minha relação com o tempo — e meu sentimento de que
nunca há o suficiente — está por trás da minha impaciência e também da
minha autodisciplina. Ainda há tanto que quero fazer!
Como o tempo é precioso, muitas vezes reflito sobre como usá-lo com
sabedoria. Como estou usando meu tempo? Estou passando com quem amo?
Estou consciente e presente a cada momento? Estou aprendendo sobre
pessoas, ideias ou situações que vão me encorajar positivamente? Estou
lendo livros ou revistas que me ensinam, me inspiram e me trazem alegria?
Estou direcionando minha atenção a coisas que podem estar fora da minha
zona de conforto — mas que me ajudam a crescer? A mensagem importante
aqui é que podemos escolher direcionar nossa atenção para áreas de nossas
vidas que nos darão o apoio necessário para que sejamos a melhor versão de
nós mesmos.
Rezando nos bastidores antes de desfilar na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio, em 2016.