Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado

8 Conhecer a si mesmo

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Conhecer a si mesmo

Certa vez alguém me contou uma história sobre um sapo e um poço. É um

conto antigo, e talvez você já o tenha ouvido: Era uma vez um sapo que vivia

no fundo de um poço. Ele passava a maior parte do tempo na água e nas

sombras, e, do seu ponto de vista, o mundo parecia familiar, completo e

perfeito.

Já sei tudo o que há para saber, pensava o sapo. Posso ver cada estrela,

cometa e constelação. Consigo distinguir o dia, a noite, o entardecer e o

amanhecer. Conheço cada nuvem, cada estrela e cada pássaro que voa pelo

céu. Sei tudo o que há para saber sobre a vida.

Um dia o sapo ficou curioso, então decidiu arriscar e dar um salto para ver

se havia alguma coisa além do poço. Quando aterrissou lá fora, mal pôde

acreditar no mundo inteiramente novo que havia ao seu redor. Ao erguer os

olhos para o céu, no lugar da versão pequena e circular da realidade que tinha

conhecido a vida inteira, viu um mundo vasto, em constante mutação e ficou

impressionado. Havia mais estrelas, cometas, nuvens, constelações e pássaros

do que ele sabia existir. Havia o gramado, as árvores, as rochas e o horizonte

infinito. De repente, o sapo ficou consciente da pequenez de seu próprio

corpo.

Eu amo essa história — ela diz tanto de um jeito tão simples. Penso muito

nela porque, desde que saí de casa para começar a carreira de modelo, tenho

estado numa jornada para compreender meu propósito na vida. Estava

decidida a sair do poço. Queria crescer e vivenciar o máximo que eu podia na

vida. Sempre adorei aprender coisas novas e me aprofundar em temas do meu

interesse, sabendo que mesmo com tudo o que eu estudava sempre haveria

algo mais a aprender. Com frequência sinto que, quanto mais aprendo, menos

sei. Quem eu era aos 14 anos não é quem eu fui aos 20, nem quem sou hoje,

aos 38, nem quem serei daqui uma década. Mas algumas coisas não mudam,

como meu processo contínuo de aprofundar a compreensão de mim mesma,

de outras pessoas e do mundo ao meu redor. O oitavo e último capítulo deste

livro, “Conhecer a si mesmo”, é o aprendizado que está por trás de todos os

outros.

O que poderia ser mais importante do que nos conhecermos

profundamente e expandirmos continuamente nosso autoconhecimento? A

menos que façamos um esforço para compreender as muitas facetas da nossa

natureza, não conseguiremos descobrir o que nos dá alegria e propósito.

“O que você procura está procurando você”, escreveu Rumi. Minha busca

sempre incluiu livros sobre história, religião, metafísica, misticismo. Li obras sobre cristianismo, budismo e hinduísmo. Li o Bhagavad Gita e o Siddartha.

Li sobre a vida de pessoas que me inspiraram, como Gandhi, Martin Luther

King e Krishnamurti. Depois que comecei, foi difícil parar. O que era o chi?

O que era dharma? O que era numerologia? O que eram os chakras? O que os

antigos egípcios sabiam? E quanto aos maias? Como Machu Picchu foi

criada? Quando comecei a meditar e a praticar ioga, ingressei em novos

mundos e novas crenças. E continuei minha jornada. Às vezes, minhas

viagens eram filosóficas. Às vezes, psicológicas. Às vezes elas tinham a ver

com me desafiar para encarar meus medos. Às vezes eram geográficas.

Por exemplo, por ter morado no Japão na adolescência, e mais tarde em

Nova York, e por ter viajado pelo mundo seguindo o circuito da moda, pude

observar muitas culturas, hábitos e crenças diferentes, e aprendi que na

verdade não há um “jeito certo de se viver”. No fim das contas, cada um de

nós é responsável pela própria vida e pela realidade que está ajudando a criar.

Cada um de nós precisa decidir que tipo de ser humano quer ser e para onde

deseja direcionar sua atenção. Em que acreditamos? Quais valores queremos

seguir? Que tipo de vida queremos ter?

No decorrer das minhas leituras e das minhas viagens, aprendi que

algumas ideias hoje populares são na verdade bastante antigas. Conhecer a si

mesmo é uma inscrição no Templo de Apolo em Delfos, e pode ter sido um

ensinamento transmitido pelos antigos egípcios. Neste livro, falo sobre

gratidão, mas o Bhagavad Gita já falava do mesmo tema há seis mil anos.

Meditação e ioga estão por aí há séculos. Não finjo ser “proprietária” dos

conceitos aqui presentes. Estou simplesmente fazendo o melhor que posso

para vivenciá-los.

Por exemplo, a ideia de que todas as pessoas possuem tanto uma energia

feminina quanto uma masculina dentro de si e de que o equilíbrio interno é

resultado da harmonia entre essas duas forças vem do taoísmo, que remete ao

século VI a.C. No taoísmo, o lado masculino é chamado de yang e o lado

feminino é chamado de yin. O conceito de que tanto o yin quanto o yang

existem dentro de nós provavelmente parece lógico para algumas pessoas,

mas não evidente para outras. Se nos identificamos como homem ou mulher,

faria sentido tudo o que um homem faz ser masculino e tudo o que uma

mulher faz ser feminino?

Para mim, não. Seja você homem ou mulher, cada um de nós tem

qualidades diretivas, ativas, yang, e receptivas, passivas, yin.

Quando estamos igualmente confortáveis com a força e a sensibilidade, com agir e esperar, com ouvir e falar, esses dois extremos que nos habitam

geram equilíbrio. Isso não quer dizer que seja fácil atingir o equilíbrio. Desde

muito cedo, recebemos mensagens de pais, irmãos, colegas de turma, amigos

e da cultura dominante sobre como meninos e meninas devem se comportar.

Meninos devem ser fortes, inabaláveis, competitivos e ambiciosos. Meninas

devem ser mais receptivas, educadas, motivadoras e empáticas. Mas quantos

meninos e meninas, homens e mulheres se encaixam apenas em uma

categoria?

Acho que todos concordam que homens e mulheres não são exatamente

iguais. A energia masculina realmente tende a ser mais assertiva e diretiva,

enquanto a energia feminina tende a ser mais receptiva e intuitiva. A energia

masculina precisa conquistar e vencer, e a energia feminina precisa cuidar e

proteger. Ambas as energias são extraordinárias, desde que trabalhemos com

elas conscientemente, de maneira equilibrada, para o bem de todos.

Na minha experiência, a concretização da energia masculina é o poder e da

feminina é o amor. Equilibrando as duas e combinando poder e amor nós

podemos começar a criar uma mudança genuína e positiva no mundo e em

nós mesmos. Para isso, os homens não precisam ser parecidos com as

mulheres, nem as mulheres precisam ser parecidas com os homens. Em vez

disso, ambos os gêneros precisam apenas se tornar mais conscientes das

energias masculina e feminina que já existem dentro de si. Em vez de negar

sua energia feminina, os homens deveriam abraçá-la. Em vez de suprimir sua

energia masculina, as mulheres deveriam celebrá-la. E se você não se

identifica com o sexo masculino nem com o feminino, ou se ama uma pessoa

do mesmo sexo? Isso significa que está perdendo alguma coisa? Nada disso.

Amor é amor. Se você consegue abraçar tanto sua energia masculina quanto a

feminina, e encontra um parceiro ou uma parceira com o mesmo equilíbrio, é

possível encontrar a plenitude e então compartilhar e aprender juntos.

Meu pai fazendo serenata para nós com seu violão — como sempre fazia durante nossa infância — no sul, em 1993.

 

Quando eu era criança, lembro-me de ter consciência da complexa dança

do equilíbrio entre masculino e feminino que ocorria entre meus pais.

Aparentemente, meu pai era muito mais emotivo que minha mãe. Aos

domingos, quando ele pegava o violão e fazia serenatas para nós cantando

antigas canções gauchescas, seus olhos se enchiam de lágrimas.

Meu pai inspirou minha criatividade, minha sensibilidade, meu idealismo e

meu eterno senso de propósito — a noção de que tudo é possível. Ele me

encorajou a sonhar alto, a rejeitar rótulos e a ser destemida. Até hoje faz isso.

Ele sempre teve alma de criança, meio brincalhão, e também sou assim.

Quanto à importância do trabalho árduo, do foco, da disciplina e da

perseverança — tudo isso herdei da minha mãe. Com ela aprendi a não

desperdiçar, a nunca jogar fora nada que pudesse ser reaproveitado, a

terminar o que havia no prato e a ser grata por tudo. Ela me ensinou o valor

das coisas, a nunca fazer pouco caso de nada e a ser independente. Minha

mãe ensinou a todas nós a atitude do “vai lá e faz”. Provavelmente é por isso

que hoje tenho minha própria furadeira elétrica e minha caixa de ferramentas

— se alguma coisa precisa ser consertada ou pendurada, sou eu quem fará o

serviço. (Ou pelo menos vou tentar fazer antes de pensar em chamar um

profissional.)

Como mencionei no início deste capítulo, quando era jovem, passei algum

tempo estudando o taoísmo, filosofia chinesa que nos ensina sobre o yin e o

yang. Era ao mesmo tempo confuso e inspirador. Qual era a relação entre o

sol e a lua, o positivo e o negativo, a escuridão e a luz? Eram forças opostas

ou variações da mesma força? Ao longo do tempo, passei a acreditar que

nossas energias masculina e feminina não estão separadas, elas são duas

metades de um inteiro perfeito.

Pode ser fácil duvidar disso quando pensamos em como nossa cultura trata

os meninos e as meninas que não se enquadram nos padrões convencionais.

Mesmo que os pais não digam diretamente aos seus filhos e filhas que ajam de uma determinada maneira, as crianças captam sinais não verbais. O que é

mais destrutivo do que dizer a uma criança que ela não deveria demonstrar

como se sente? Isso significa que, se você é menino, não pode chorar?

Significa que, se é menina, não pode ser competitiva ou ambiciosa?

Consequentemente, muitos meninos crescem acreditando que é errado

expressar suas emoções, e muitas meninas sentem que devem reprimir suas

ambições.

Mas por que estamos aqui se não para vivenciar o que é ser humano em

sua totalidade — tanto nossa energia masculina quanto a feminina? Você

acha que é de se admirar o fato de a ioga atrair tantas mulheres que, tendo em

mente o que ouviam, quando pequenas, que deviam cobrir o corpo e calar a

voz, agora estendem os braços na postura do guerreiro? Ao longo da vida,

homens e mulheres dão e recebem, lideram e seguem, dão ordens e as

cumprem. Se não somos capazes de descobrir como unir essas duas energias,

ficamos incompletos e desequilibrados, o que pode levar a todo tipo de

comportamento negativo.

Hoje, acredito que ainda estamos vivendo num mundo em que a energia

masculina está em desequilíbrio. Um mundo onde alguns homens continuam

a abusar do seu poder. Homens motivados pela vaidade, pelo ego e pela

ganância. Homens dispostos a sacrificar o amor, a consideração pelos outros

e os cuidados com o planeta em benefício de seus próprios ganhos. Poder

sem amor é uma péssima combinação — e é insustentável. Vemos isso nas

manchetes dos jornais todos os dias. Desigualdade extrema, crueldade contra

os menos afortunados, ilhas de lixo plástico boiando no oceano. Essa

predominância da energia masculina nos desconectou do lado feminino, e da

Mãe Terra.

Nossa sobrevivência depende dos recursos naturais da Terra, então não

seria mais inteligente se nós os utilizássemos com sabedoria, para que

possamos continuar a usá-los e a aproveitá-los por muitas gerações? Esgotar

os recursos naturais sem a consciência de que são finitos nos leva em direção

à extinção. Precisamos fazer escolhas sustentáveis, de modo que nosso

planeta tenha tempo para se recompor. Como não estamos dando a devida

atenção, o planeta está nos enviando mensagens cada vez mais contundentes:

tsunamis, enchentes, terremotos, secas, vulcões em erupção. Esquecemos

que, quando a Terra adoece, nós também ficamos doentes.

Ao longo dos anos, muitos livros têm enfatizado que os elementos

“masculinos” são o fogo e o ar, enquanto que a terra e a água são “femininas”. Sendo o maior arquétipo do feminino, a terra oferece amor,

cuidado, sacrifício e compaixão. Ela se doa sem parar, não esperando quase

nada em retribuição. Em troca, alguns homens usam seu poder para se

aproveitar dela, como fazem com frequência com as mulheres. Tudo em

nome da dominação. Em nome do poder e do ego ou talvez porque muitos

anos de história e comportamentos repetidos os levaram a pensar que isso é

direito deles.

Finalmente, a verdade sobre o modo como muitos homens usaram mal seu

poder para abusar das mulheres e explorá-las está vindo à tona. Violência.

Pornografia. Pessoas que destilam seu ódio nas redes sociais e nos

comentários de blogs e sites. Nossa cultura está sendo posta cara a cara com

suas próprias sombras. Mas o que é a sombra, no fim das contas? A ausência

de luz. Na minha opinião, a luz contém atitudes e ações positivas e, à medida

que nos tornamos mais conscientes das mudanças que precisamos fazer, essa

luz fica mais forte. Pode ser fácil querer evitar o que é feio e negativo, mas o

fato de que muitas mulheres corajosas têm vindo a público falar sobre como

foram exploradas me dá esperança.

Como já mencionei, acredito que uma mudança genuína e positiva no

mundo só poderá acontecer quando unirmos o poder com o amor. Precisamos

de ambos. Poder é energia. O poder cria. Poder é a faísca, o impulso. O amor,

por sua vez, é um recipiente. Ele cuida. Ajuda a semente a crescer e

prosperar.

O equilíbrio do masculino com o feminino, ou do poder com o amor, é

uma combinação que venho tentando adotar há anos. Às vezes estou mais em

sintonia com minha energia masculina. Em outras, estou mais conectada com

a feminina. Como sei que estou em desequilíbrio? Quando fico diretiva

demais, eu me pego forçando a barra para alcançar meus objetivos. Para me

reconectar com meu lado feminino, primeiro respiro fundo algumas vezes e

depois me faço algumas perguntas. Como estou alcançando meus objetivos?

Como o que estou fazendo está afetando meus filhos, meu marido, o restante

da minha família e todos a minha volta? Como minhas atitudes vão afetar o

planeta, não apenas hoje, mas no futuro? Sempre me esforço para equilibrar

as energias masculina e feminina dentro de mim. Sem a energia masculina,

não sou capaz de alcançar meus objetivos. Sem a feminina, me falta empatia,

compaixão, consideração e perspectiva. Acredito que somente quando

encontramos o equilíbrio entre as duas podemos viver uma vida plena e

amorosa.

Quando pequena eu era meio moleque. Ainda me vejo assim. Era atlética e

naturalmente mais agressiva. Gostava de pular na rede de vôlei e dar umas

cortadas. A maioria dos meus amigos na escola eram meninos, mas não os

populares — esses não tinham o menor interesse em mim. Eu devia ter uns

12 ou 13 anos quando decidi que preferia ser durona a ser frágil. Pode ter

sido um meio que eu achei de me distinguir da minha irmã gêmea, que era

mais delicada, mais “menininha”. Se um menino me dissesse que eu não

conseguia correr ou escalar tão bem quanto ele, minha resposta era: Na

verdade, consigo, sim, quer ver só? Minha irmã mais nova Gabi tinha uma

personalidade forte e não tinha papas na língua. Ela sempre falava o que

vinha na cabeça para os meninos da turma dela, mas, se eles a tivessem

incomodando demais, eu chegava em sua defesa avisando: Escuta aqui! Se

você falar desse jeito com a minha irmã de novo, você já era. Tá me

ouvindo? Já era! Eu não fazia ideia de por que eles se sentiam intimidados

por mim. Talvez fosse minha energia masculina, ou, quem sabe, porque eu

era super alta? Na infância, minhas irmãs e eu éramos todas muito conectadas

à nossa energia masculina.

Essa mesma qualidade permaneceu comigo quando comecei a trabalhar

como modelo.

O mundo da moda era o cenário perfeito para eu vivenciar minhas energias

masculina e feminina juntas. A carreira de modelo é a única que conheço em

que mulheres ganham mais que homens. No trabalho, passei da moleca que

se sentia mais confortável de jeans, camiseta e roupas largas a alguém que se

adaptava a qualquer visual que o trabalho exigisse. Eu era direta, prática,

cumpridora de tarefas. Isso foi ficando ainda mais forte com o passar do

tempo. Mas, obviamente, a indústria da moda é centrada numa forma

feminina idealizada. Se meu trabalho era ser sexy ou sedutora, eu encarnava

minha própria energia feminina. Ser modelo tem um lado feminino no

sentido de que você precisa estar intuitivamente consciente da sua linguagem

corporal. A modelo precisa ser expressiva com os olhos, as mãos e a boca, ou com o ângulo dos quadris — é como ser uma atriz num filme mudo.

Foi só quando me tornei mãe que me conectei de verdade e profundamente

com minha energia feminina. Eu me sentia como uma leoa, como se minha

casa tivesse se tornado meu covil, e eu era capaz de fazer qualquer coisa para

defender e proteger minhas crias. Dar à luz é algo tão corriqueiro, mas,

quando acontece com você, é uma experiência mágica e profunda. Se não

fossem as mulheres, não haveria futuro, já que somos as únicas que podem

trazer outro ser à vida.

Quando conheci meu marido, Tom, em dezembro de 2006, num encontro

às cegas, percebi logo que ele era um guerreiro em sua carreira, o futebol

americano profissional. O que me surpreendeu, e aquilo pelo que me

apaixonei com o tempo, foi sua bondade, gentileza e doçura. Tom era e é um

homem de caráter. Era tão apegado aos pais e às irmãs quanto eu à minha

família, e de cara deu para ver que ele era muito amoroso e tinha valores

sólidos. Não precisei de muito tempo para perceber que ele daria um ótimo

pai. Quando começamos a namorar, nossas carreiras estavam a mil por hora.

Como eu, o Tom era 100% dedicado ao trabalho dele — não que eu

entendesse direito o que era futebol americano naquela época, ou o que ser

um quarterback da NFL representava. Só sabia que ele amava o que fazia e

que estava comprometido com seu time, o New England Patriots, e queria

manter seu ótimo desempenho. Seu objetivo, ele me disse, era jogar por mais

dez anos e depois se aposentar para se dedicar a formar uma família. Eu tinha

só 26 anos, e, para mim, aquilo pareceu um ótimo plano, já que eu também

sentia que ainda tinha muito a conquistar na carreira. Mas a vida se desenrola

de maneiras inesperadas — a única constante é a mudança. Dois meses

depois de começarmos a namorar, o Tom me contou que sua ex-namorada

estava grávida. No dia seguinte, a notícia estava em todo lugar, e senti que

meu mundo tinha virado de cabeça para baixo. Nem preciso dizer que não foi

uma época fácil. Mas foi um período que nos trouxe muito crescimento. Mais

tarde, naquele mesmo ano, o pequeno Jack nasceu, fazendo meu coração se

expandir de maneiras que eu não sabia serem possíveis.

Jack, meu filho bônus, tem sido um grande presente e uma grande bênção

na minha vida. Na verdade, Jack foi o responsável por acelerar meu

amadurecimento e o de Tom em muitos sentidos. Nós concordamos que Jack

deveria ter irmãos com idade próxima à dele e não dez anos mais novos. Com

Jack em nossas vidas, as prioridades definitivamente começaram a mudar. Eu

queria estar à disposição do Jack e do Tom e fazer o que fosse necessário para dar estabilidade às suas vidas, e ajudá-los a ter um relacionamento

próximo. Tom precisou muito do meu apoio naquela época, e sempre que

estou em posição de ser de alguma ajuda para alguém, principalmente para

alguém que amo, me desdobro em mil. A verdade é que ajudar e dar apoio

aos outros sempre me faz sentir bem. Também sei que, para ganhar alguma

coisa, com frequência temos de abrir mão de outra. Resolvemos começar

nossa família mais cedo que o planejado. Dois anos depois, estávamos

casados e logo engravidei, e ficamos ocupados cuidando da nossa família

entre a Nova Inglaterra e Los Angeles.

Antes de Tom e eu nos casarmos, conversamos muito sobre como

queríamos que o relacionamento progredisse, e deixei claro que queria uma

relação interdependente, e não codependente. Vejo a vida conjugal como

duas pessoas caminhando lado a lado, crescendo individualmente e juntas,

nunca abrindo mão da essência de quem são nem de seus sonhos para agradar

ou satisfazer o parceiro ou a parceira. Eu queria alguém que me aceitasse

como eu era, por inteiro, alguém que me inspirasse e me desafiasse a ser a

melhor versão de mim mesma. E queria ser essa mesma pessoa para o meu

marido. Eu via nosso relacionamento como um porto seguro para o qual

ambos poderíamos retornar e nos abrigar quando precisássemos, ao mesmo

tempo garantindo que ambos tivéssemos a liberdade para realizar nossos

próprios sonhos.

Mais que isso, eu queria um casamento com igualdade, baseado em amor,

respeito e confiança. Ainda acredito que um casamento com igualdade — em

que duas pessoas são igual e simultaneamente motivadas em suas carreiras —

é possível, mas não tão fácil quando os filhos são pequenos. As crianças

devem vir em primeiro lugar. Sempre sonhei em constituir uma família e,

quando esse sonho se realizou, meus filhos naturalmente se tornaram minha

prioridade.

Acredito que as mulheres conseguem fazer qualquer coisa — só que não

tudo ao mesmo tempo. Devemos priorizar. Como os Patriots jogam em

Boston e os horários do Tom são rígidos, vi as coisas da seguinte forma: meu

trabalho como modelo era muito mais flexível que o trabalho dele. Nova

York pode ser a capital da indústria da moda, mas meu trabalho de modelo

não é um emprego de nove às cinco, e eu não precisava morar em Manhattan

para continuar fazendo o que fazia. Também sentia que já tinha conquistado

muita coisa — pelo menos no mundo da moda. Não sentia a necessidade de

continuar provando do que era capaz. Não havia sido fácil, para mim, chegar ao topo da montanha, mas depois de anos de trabalho árduo, eu tinha

conseguido. Então, me perguntei: Preciso estampar mais uma capa de

revista? Preciso de mais uma campanha? Preciso fazer mais uma aparição

em evento? Não mesmo! Minha prioridade passou a ser a minha família, e

passar a maior parte do tempo com eles. Eu queria construir a melhor relação

possível com Tom, Jack e nossos filhos. Adoro ficar em casa e também sou o

tipo pacificador que gosta de deixar tudo melhor, mais fácil e mais

harmonioso para as pessoas que amo. Muitas mulheres provavelmente sabem

do que estou falando!

Os pais, as irmãs e demais parentes do Tom, incluindo sobrinhas e sobrinhos, no dia anterior ao épico Super Bowl de 2017, quando os Patriots venceram os Atlanta Falcons. Estou em pé ao lado da mãe do Tom, Galynn.

 

Também nunca olhei para trás. Nosso filho, Benny, nasceu em dezembro

de 2009, e dois meses depois, quando a temporada de futebol americano

terminou, o Tom, o Benny e eu nos mudamos para Los Angeles, onde o Jack

morava, para que todos pudéssemos estar mais próximos dele. Mas, no

começo do verão, nossa família voltou para Boston a tempo do início dos

treinos.

Um casamento novo, um bebê novo, uma vida nova na Nova Inglaterra —

foi uma grande transição para mim. Não conhecia ninguém em Boston, e

morar lá tornava mais difícil realizar meu trabalho, mas estava apaixonada

pelo Tom e queria fazer nosso casamento dar certo. Então, aquilo que tinha

me esforçado tanto para conquistar, o que eu havia feito desde os 14 anos de

idade, precisou ficar em segundo plano. Não foi uma transição totalmente

isenta de dificuldades. Minha carreira tinha sido centrada nas necessidades de

uma única pessoa: as minhas. Eu podia ir e vir, trabalhar e viajar para cá e

para lá, e fazer o que eu queria fazer. Aquele capítulo da minha vida foi

substituído pelas necessidades de uma família em crescimento. Com a

chegada do Benny e da Vivi, logo descobri que ser mãe dava muito mais

trabalho que ser modelo. Qualquer mãe com filhos pequenos sabe que é uma

tarefa intensa. A agenda do Tom durante a temporada de futebol americano

exige tanto dele que fico com quase todas as responsabilidades da família.

Encaro esse estágio da minha vida como sendo um vale. Não porque seja

negativo, de forma alguma, mas porque, depois que se chega ao topo da

montanha, não há outro lugar para se ir a não ser para baixo. No topo de uma

montanha, é sempre ensolarado, claro e se tem uma vista ampla. Por outro

lado, a vida num vale é mais calma e restrita. O vale me dá a oportunidade de

compreender um lado diferente de mim mesma, e de me dedicar a ser a

melhor esposa e a melhor mãe que posso ser, tudo enquanto vivencio o amor dos meus filhos.

Mas dei sorte. Ao contrário de muitas mães em tempo integral, tive a

oportunidade de começar a trabalhar muito cedo, e meus vários anos de

trabalho árduo haviam me proporcionado uma independência financeira.

Ainda tenho a oportunidade de viajar para cumprir alguns contratos de

trabalho, e dedico parte do meu tempo livre às causas que são importantes

para mim. Esses trabalhos e essas viagens são como visitas rápidas ao topo da

montanha — seja quando estou desfilando na passarela das Olimpíadas do

Rio ou fazendo um discurso sobre o meio ambiente na ONU. Mas recuso a

maior parte dos trabalhos como modelo. Ou o Tom tem um jogo importante,

ou o Benny tem uma apresentação de teatro na escola, ou talvez o Jack vá nos

visitar no fim de semana, ou a Vivi está com uma tosse que não passa. Seja lá

qual for o motivo, a agenda nem sempre permite, e minha família vem em

primeiro lugar.

Quando as crianças eram bem pequenas, houve momentos em que me senti

sobrecarregada e confusa, às vezes até um pouco deprimida, embora me

esforçasse ao máximo para ser forte. Eu sentia o peso da nova

responsabilidade que a maternidade havia me trazido. Queria fazer o meu

melhor, e fazer tudo direito. A questão é, eu era mãe de primeira viagem,

aprendendo as coisas na marra, e, além disso, às vezes me sentia dividida por

saber que havia muito mais que eu queria criar no mundo. O Tom participava

de tudo ao meu lado o máximo que podia, mas, durante a temporada, ele sai

às seis da manhã e eu geralmente só o vejo de novo na hora do jantar. Graças

a Deus minha mãe ficou comigo durante um mês depois que o Benny nasceu.

Sem minha mãe, Fafi e Mayra, minha amiga e doula, que, depois de muita

persuasão, se tornou nossa babá por um período, não acredito que eu teria me

saído tão bem.

Ao mesmo tempo, a vida inteira eu estive conectada com minha energia

masculina. Realize, realize, realize! Vá em frente, vá em frente, vá em frente!

Quando estava grávida do Benny, resolvi aprender a pilotar helicóptero.

(Falando em abraçar minha energia masculina...) Descobri um piloto

chamado Stu, e, nos três meses seguintes, fiz um curso intensivo de

navegação, padrões de clima, nuvens stratus, nuvens cumulus e os efeitos da

condensação durante o voo. Aprendi a pilotar à noite e em más condições de

tempo, como pousar o helicóptero numa área limitada e a me comunicar com

os controladores de tráfego aéreo na torre de comando. Cumpri as sessenta

horas necessárias para receber o certificado de piloto privado de helicóptero, embora tenha parado pouco antes de obter minha licença, já que o Tom e eu

achamos que seria perigoso demais fazer o teste final, que envolvia executar

um pouso de emergência com o motor inoperante. Ainda assim, foi divertido

passar por todo o processo. Eu estava pilotando um helicóptero R44 — o

“pássaro”, como Stu e eu o chamávamos — alguns dias antes do Benny

nascer!

Benny e eu nos sentindo orgulhosos e fortes depois de completar o curso de sessenta horas para pilotar helicóptero, em 2009. Benny nasceu cerca de um mês depois.

 

O vale também me lembra da importância do elemento feminino na vida de

qualquer família. Se você é um homem ou uma mulher que trabalha fora, leva

duas vidas diferentes. A primeira, sua vida do lado de fora, acontece no

mundo. É centrada na motivação, na realização profissional e em ganhar a

vida para sustentar a família. A segunda vida é a que existe do lado de dentro.

Essa é focada em cuidar da casa e dos filhos; manter uma agenda; ficar de

olho num milhão de detalhes como tarefas escolares, consultas médicas,

obrigações sociais e garantir que todos estejam indo bem e que tudo esteja

correndo com tranquilidade. Muitos homens se concentram na vida do lado

de fora, assim como muitas mulheres. Mas, para que alguém tenha sucesso e

prosperidade na vida de fora, precisa ter uma vida de dentro segura e estável.

É por isso que cada vez que ouço alguém dizendo “ela é só mãe”, fico

irritada. Ser “só mãe” é o alicerce de tudo. Ser “só mãe” garante que nossos

filhos tenham a base e o apoio de que precisam para ter sucesso não só no

trabalho, mas na vida. Milhões de “só mães” estão ocupadas criando os

homens e as mulheres do futuro que algum dia vão influenciar o mundo de

maneira positiva ou negativa. Nossa cultura gosta de tratar a rotina

multitarefa das mulheres como uma obrigação. E não é! Existem muitas mães

por aí que tornam tudo possível e fazem tudo acontecer, e, na minha opinião,

são incríveis.

Enfim, conforme o tempo ia passando, eu ficava cada vez mais ciente de

que me faltava equilíbrio. Com dois filhos pequenos, uma casa para cuidar e

um marido trabalhando o dia inteiro e às vezes viajando para jogar, me dei

conta de que não estava numa posição muito saudável. Foi quando comecei a

fazer pequenas mudanças. Em vez de ficar sozinha em casa cuidando dos

filhos quando recém-nascidos, convidava uma amiga para tomar chá. Depois,

uma amiga para caminhar. Quando voltei a trabalhar, passei a levar o Benny

e a Vivi comigo, para que pudesse amamentá-los. Foi um período intenso. Não dormia quase nada à noite e trabalhava o dia inteiro. Parecia um zumbi.

Certa vez, lembro-me de estar amamentando o Benny numa longa viagem de

avião dos Estados Unidos para o Brasil e me sentindo a pior mãe do mundo,

mesmo sabendo que me sentiria pior ainda se o tivesse deixado em casa.

Ainda assim, voltar a trabalhar depois de ter filhos parecia férias! Aos

poucos, comecei a recuperar o equilíbrio das minhas energias masculina e

feminina. E também pude ver como esse mesmo equilíbrio estava se

formando em meus próprios filhos.

Jack e Benny já estão conectados aos seus lados mais “sensíveis” e

intuitivos. E, aos 5 anos, a Vivi já é muito forte e seu estilo é “do meu jeito

ou nada feito!”. Ela é determinada e motivada a alcançar seus objetivos. Ao

mesmo tempo, é extremamente carinhosa e inteligente. Ela tem o pai na

palma da mão, e sabe disso. Está sempre tão feliz, é tão iluminada e alegre

que todos dizemos que a Vivi está saltitando pela vida. Benny, que tem 8

anos, adora música e arte, ama cantar e brincar de Lego. Ele ama os animais e

o planeta, tanto que, certa noite, logo depois que voltei para casa de uma

viagem à Amazônia, começamos a conversar sobre o que cada um de nós

poderia fazer para proteger a vida na Terra. Ele me perguntou o que ele

poderia fazer. Sugeri que, em vez de receber presentes de aniversário, pedisse

aos amigos que usassem o dinheiro para fazer doações a fim de proteger seus

animais preferidos. Então, nos últimos dois aniversários, seus amigos fizeram

doações para ajudar a salvar os elefantes e as baleias. Ele sente muita empatia

e também gosta de passar um tempo sozinho sonhando acordado, do mesmo

jeito que eu fazia quando tinha a idade dele. Dos três, Jack, o mais velho, é o

mais responsável e também mantém um equilíbrio saudável entre as energias

masculina e feminina. É extremamente dedicado, adora jogar futebol e certa

vez disse ao pai que um dia vai querer estudar em Michigan, a universidade

que Tom frequentou. (É claro que Tom abriu um sorriso de orelha a orelha.)

Como o pai, ele também é bondoso, sensível e generoso. Eu me sinto muito

abençoada por tê-los na minha vida. Eu os amo tanto!

Meu papel, do meu ponto de vista, é ser a guardiã deles e permitir que cada

um descubra suas forças e seus talentos inatos. Também tento dar o exemplo

com minhas próprias ações, de modo que eles possam ver que sou, ao mesmo

tempo, forte e acolhedora.

Agora que as crianças estão mais velhas e na escola, sei que logo estarei

pronta para começar a escalar outra montanha. (Aprendi que gosto disso!)

Nunca morei no vale por tanto tempo, mas não trocaria o tempo passado lá por nada neste mundo. Meus filhos me deram um senso de propósito mais

amplo e uma motivação maior. Antes de eles nascerem, eu já era apaixonada

pelas causas ecológicas e ambientais. Mas agora levo cem vezes mais

dedicação, energia e urgência para o mesmo trabalho. Ter filhos tornou ainda

mais importante, para mim, fazer o que posso para ajudar a tornar o mundo

um lugar melhor.

Há pouco tempo, o Tom e eu nos lembramos da conversa que tivemos logo

que casamos, quando ele me disse que jogaria por mais dez anos e depois se

aposentaria. Mas reconheço que tem sido melhor para nós pensar naquela

conversa como um mapa e não como um destino. Hoje, Tom está jogando

melhor que nunca, e ainda ama a profissão. Nunca conheci alguém, na minha

vida inteira, que amasse mais uma coisa do que meu marido ama jogar

futebol americano! Fico impressionada com o comprometimento, o foco e a

dedicação incansável que ele investe em ser o melhor no que faz. Ao mesmo

tempo, nós dois sabemos que a duração da carreira de um atleta é limitada.

Eu me preocupo com sua saúde física. Como qualquer esposa, tenho medo

por ele, e pela nossa família também, porque o futebol americano é um

esporte de muito contato físico. Mas não vou dizer para ele parar de fazer o

que ama. Sua dedicação, disciplina e seu comprometimento para ser o melhor

no que faz são algumas das razões pelas quais eu o amo. Tom vai se

aposentar quando achar que é a hora. A decisão tem que partir dele. No fim

das contas, se o Tom está feliz, todos nós ficamos felizes.

Uma das particularidades sobre ser mulher, esposa e mãe é que estou

sempre buscando o que é melhor não só para mim, ou para o Tom, mas para

todos na família. Qual é o melhor jeito de apoiar e suprir as necessidades de

todos enquanto seguimos em frente? Nesse sentido, as mulheres têm muito

em comum com o planeta Terra.

O que importa mais para mim neste exato momento — minha prioridade

número um, na verdade — é que o Benny, a Vivi e o Jack cresçam juntos

num ambiente estável. Que eles possam crescer e se sentir parte de uma

comunidade e fazer amizades boas e duradouras. Quero que se sintam

seguros e amados e que saibam que podem sempre contar uns com os outros,

que têm uma base forte e sólida na nossa família e na nossa comunidade, e

que Tom e eu sempre estaremos ao lado deles, para o que der e vier, não

importa o que aconteça.

Qualquer que seja o lugar em que nós acabemos morando no futuro, um

lar não é uma estrutura ou um lugar literal, com pintura, tijolos, janelas ou tapetes. Lar para mim tem a ver com lembranças, emoções e momentos

maravilhosos. Os apartamentos e as casas onde já morei são lugares de amor,

de boas lembranças, de todos nós passando o tempo juntos e rindo à mesa de

jantar. Na minha opinião, lar é um lugar dentro de mim. É onde quer que

minha família esteja.

Às vezes, digo às pessoas que meu marido e eu nos amamos tanto que nos

casamos duas vezes. Tom e eu viemos de famílias ligadas à igreja católica

apostólica romana — principalmente do lado da minha mãe (que teve até uma

irmã que virou freira). Nossos pais estão casados há décadas. Significava

muito para eles que o Tom e eu tivéssemos uma cerimônia de casamento

tradicional, numa igreja, e é claro que queríamos satisfazer o desejo deles.

Nas semanas que antecederam a cerimônia na igreja, Tom e eu passamos

muito tempo conversando sobre o que queríamos do nosso relacionamento.

Como já mencionei, expliquei a ele que a última coisa que eu queria do nosso

casamento era codependência. Quando você sente que precisa salvar a outra

pessoa. Quando passa o tempo todo se preocupando com as necessidades dela

a ponto de incorporá-las à sua vida ou até de se apropriar delas como suas.

Quando você sente o ímpeto de resgatar ou de curar o outro. O que pode ser

mais perigoso do que estar num relacionamento em que o par não pode

respirar sem você, ou quando o outro precisa que você o complete, ou quando

alguém se torna responsável por preencher as partes que faltam em você, e

você se perde e perde a própria identidade? Não, nosso casamento não só

tinha que ser baseado em amor, respeito e honestidade; precisava ser

interdependente — quando duas pessoas fortes se amam, mas nunca a ponto

de sacrificar sua felicidade e seus valores.

Eu não era Tom; Tom não era eu. Nós nos amávamos, mas não éramos a

mesma pessoa. Pelo resto de nossas vidas, estaríamos ambos em constante

mudança. Sei de muitos casamentos que terminam porque um acusa o outro

de fazer exatamente isso: mudar. Mas o que havemos de fazer se não

continuar mudando ao longo da vida? As árvores perdem as folhas no outono,

dormem no inverno, brotam na primavera e renascem no verão. O sol nasce,

seguido pela chuva, pela neve, pelas nuvens ou por mais sol. E o mesmo

acontece com as pessoas! Como descobri enquanto estava vivendo no vale,

há um ritmo natural para tudo, um tempo para se retrair e um tempo para se

expandir, um ritmo que pode se repetir muitas vezes ao longo de uma vida.

Voltando a história, nossa primeira cerimônia aconteceu em 26 de

fevereiro de 2009, quando fizemos nossos votos na Igreja Católica de Santa Mônica, na Califórnia. Além do Tom, de mim e do padre Lloyd, que nos

casou, os únicos presentes eram nossos pais e o Jack, que tinha 2 anos na

época e levou as alianças até o altar. Alguns dos nossos melhores amigos

também compareceram; um deles ficou encarregado de fotografar o evento

(mas se emocionou tanto durante a cerimônia que quase todas as fotos

ficaram fora de foco). Depois da celebração, todos voltamos para casa e

comemos salada, bifes preparados na grelha pelo Tom e bolo. Essa foi a

recepção do nosso primeiro casamento.

Não me lembro de ter tido nenhuma fantasia de contos de fadas, quando

pequena, sobre meu casamento. Por exemplo, nunca me imaginei num

vestido de noiva branco e longo, rodeada de madrinhas. Não, eu imaginava

um casamento nada convencional. Se me casasse, seria em meio à natureza,

que é a minha igreja de verdade, e a cerimônia seria divertida, linda e

informal. Eu estaria descalça. Diria meus votos bem no instante em que o sol

estivesse se pondo. A primeira vez que visitei a Costa Rica, me apaixonei por

sua natureza virgem e pensei: Espero poder morar aqui um dia. E achei que

seria o lugar perfeito para um casamento.

(A Costa Rica me lembrou tanto o Brasil — o clima, a umidade, o mesmo

tipo de gente simples, gentil e calorosa. Há macacos e pássaros nas árvores,

golfinhos e pelicanos no mar, e milhões de borboletas. O clima é úmido,

como se estivesse inspirando e expirando, a natureza viva. Aos vinte e

poucos anos, quando comecei a ganhar mais dinheiro, comprei um pedaço de

terra numa área remota do país e comecei a construir uma casa lá.)

Minha primeira viagem à Costa Rica, em 1998, quando fiquei perdidamente apaixonada pelo país. Eu tinha 18 anos.

 

Exatamente como eu havia imaginado um dia, nosso casamento na Costa

Rica foi, como eu esperava, divertido, lindo e informal — mais espiritual que

religioso.

Já conheci muitas noivas que ficam estressadas nas semanas que

antecedem o casamento, preocupadas com o fotógrafo, com a comida, com o

barman ou com as cores dos vestidos das madrinhas. Eu não queria pensar

nessas coisas. O que realmente pensei, nas semanas antes da cerimônia, foi

nas coisas que havia admirado em outros casamentos. Na mesma linha do

equilíbrio das energias masculina e feminina dentro de todos nós, o

casamento ideal é uma dança na qual os parceiros se revezam em doar e

receber, liderar e seguir, orientar e aprender, pelo resto da vida. Acredito que

uma mulher que tenha essas duas energias em equilíbrio vai atrair um

parceiro com o mesmo equilíbrio. Lembre-se, o ideal é que cada um de nós

tenha poder e amor na mesma medida. Força e compaixão.

Nosso casamento na Costa Rica, em 2009.

 

Sempre amei poesia, e, um mês antes do nosso casamento na Costa Rica,

encontrei um poema que pareceu ter sido composto sob medida para mim. É

da obra O Profeta, de Khalil Gibran, e foi escrito há quase cem anos.

 

Vocês nasceram juntos, e para todo o sempre assim devem ficar

Juntos quando a asa branca da morte seus dias dissipar

Sim, até na memória silenciosa de Deus irão se conservar

Porém, que em sua proximidade haja espaços vazios

E que os ventos dos céus passem entre seus corpos a dançar

Um ao outro se amem, mas não façam do amor uma prisão

Que ele seja um mar em movimento entre as praias de suas almas

Encham de cada um a taça, mas não bebam de apenas uma

Deem um ao outro o pão, mas não comam do mesmo pedaço

Cantem, dancem juntos e se alegrem, mas permitam ao outro ficar

só

Ainda que separadas, as cordas do alaúde vibram a mesma canção

Deem seus corações, mas não para o outro guardar

Pois apenas a mão da Vida pode seus corações conter

E permaneçam juntos, mas não próximos demais

Pois afastados os pilares de um templo permanecem

E na sombra do outro, o carvalho e o cipreste não crescem

Esse poema me lembrou que duas pessoas que se amam podem alcançar

tanto a interdependência quanto o equilíbrio. Com esse equilíbrio, cada um se

torna um pilar forte o suficiente para sustentar o amor enquanto permanecem

lado a lado. Um não precisa se apoiar no outro, colidir com ele, ou se fundir

com o outro. Um pilar forte se mantém erguido por si só. É perfeito sendo

simplesmente ele mesmo, e de seu lugar escolhe compartilhar e permanecer

junto ao outro.

Nossa segunda cerimônia de casamento aconteceu ao pôr do sol de um dia

quente no começo de abril. Antes da cerimônia, minha irmã Fafi me ajudou a

arrumar o cabelo. Usei rímel à prova d’água, pois sabia que ia chorar —

porque sempre choro! —, e não teria sido uma visão muito bonita ficar com

olhos de panda no meu próprio casamento. Cerca de quarenta pessoas se

reuniram na nossa sala de estar integrada à área externa da casa: minha

família inteira e a do Tom — incluindo sobrinhas — e três melhores amigos

de cada. Numa mesa próxima coberta de velas e cristais, os mais variados,

havia dois recipientes, um contendo mel e outro, arroz. O mel, dizem, para

adoçar nosso futuro, e o arroz para atrair prosperidade. Jack tinha 2 anos, e,

de novo, foi nosso pajem! Usei um vestido de alcinha branco simples. Estava

descalça. A cerimônia foi curta, e as últimas palavras que todos ouviram

foram:

 

Pois afastados os pilares de um templo permanecem

E na sombra do outro, o carvalho e o cipreste não crescem

 

Não houve uma recepção formal depois. Foi mais uma festa sem protocolo,

alegre e descontraída, como sempre havia imaginado que seria. Os

convidados comeram comida mexicana e beberam margaritas. Ficaram

sentados ou circulando pela cozinha, pelo jardim ou à beira da piscina. Minha

irmã Pati e a irmã do Tom, Julie, leram um lindo poema cada uma, e todos comeram bolo de chocolate. Tom tinha criado as playlists — a dele tinha

músicas de Ray LaMontagne, Amos Lee, James Taylor e outros — e, num

dado momento, meu amigo Nino, que conheço desde meus primeiros dias em

Nova York e é como um irmão para mim, plugou seu iPod na caixa de som.

As crianças foram nadar na piscina, enquanto os convidados dançavam.

Lembro que bebi duas margaritas, e depois de duas margaritas você não se

lembra de muita coisa nem se importa muito mais com nada.

Mas me lembro de procurar Tom e de encontrá-lo, e embora não consiga

lembrar quem puxou o outro e quem seguiu — isso importa? —, começamos

a dançar. Ainda estamos dançando e crescendo com os altos e baixos da vida.

Então aqui vai uma reflexão: imagine o que aconteceria se cada um de nós

conhecesse a si mesmo tão completa e profundamente quanto possível. E que

vivêssemos cada dia de nossas vidas com consciência e compaixão, sem

projetar nossas emoções nos outros, ou permitir que nossos egos distorçam a

realidade. Se todo mundo fizesse o esforço necessário para se conhecer

melhor, e assumisse a responsabilidade de ser a melhor versão de si mesmo,

acredito que o mundo seria um lugar diferente, um lugar melhor.

Tom e eu dançando na festa do nosso casamento na Costa Rica,

em 2009.

 

Então, por onde você pode começar? Como pode destrancar essa porta, ou,

colocando de outra forma, como pode saltar para fora do poço? Não há um

jeito melhor que outro. Há o seu jeito. Há milhões de maneiras diferentes de

nos conhecermos melhor, e o seu método de mergulhar fundo é único para

você. Lembre-se de que estamos todos aqui para aprender. Na minha

experiência, nos metemos em encrenca só quando seguimos os outros em vez

de seguir nossa voz interior e nosso próprio caminho — obviamente, sempre

com amor e respeito pelos outros. Como sempre lembro a meus filhos,

devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados.

É por isso que incentivo você a viajar — na sua cabeça, no seu coração,

nas suas crenças. Você poderia começar prestando atenção aos seus

pensamentos, à suas palavras e ações. Ou começando a praticar a meditação.

Ou se fazendo perguntas. Lendo livros. Buscando inspiração em pessoas que

admira. Procurando outros que sejam sábios e sensíveis, com quem você

possa aprender coisas novas. Investigando tradições e sistemas de crenças

antigos. Explorando a mitologia ou o misticismo, se isso lhe atrai. Mais do

que tudo, tente evitar julgar a si mesmo e aos outros — e, principalmente,

achar que tem sempre razão. O mundo está repleto de pessoas que alegam

que seu modo de fazer as coisas, ou seu sistema de crenças, é correto e o das

outras é errado. Mas como podemos sequer saber o que é certo e o que é

errado?

Todos temos liberdade de escolha. Vamos acreditar no que as outras

pessoas dizem ser verdade, ou vamos escolher procurar dentro de nós

mesmos para encontrar a nossa verdade?

Em outras palavras, se você estiver dentro do poço, salte para fora! Eu sei

— é preciso ter coragem. Você não sabe o que há lá fora. O sapo certamente

não sabia. Mas, depois que der o salto, vai estar diante de mais estrelas e mais

céu do que sabia existir. Você vai aterrissar num lugar novo, e talvez até

desnorteante, um lugar que expande e aprofunda sua compreensão de si mesmo, do mundo, do seu papel no mundo, e até mesmo de portais para

outros mundos. Por que não explorar e atravessá-los também? O universo é

infinito e nossa compreensão dele é tão pequena.

Seja lá para onde você escolha ir, desejo uma jornada segura e

emocionante, e que você possa sempre estar em conexão com o amor e ser

guiado por ele.