Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado

2 Desafios são oportunidades disfarçadas

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Desafios são oportunidades disfarçadas

Sempre fui uma pessoa intuitiva. Depois que saí de casa, costumava ter uma

boa noção de como me manter a salvo e fazer boas escolhas. Mesmo assim,

como todo mundo, houve momentos na minha vida em que as coisas não iam

tão bem. Às vezes acontecia alguma situação simplesmente inaceitável — um

conflito ou um confronto —, e aí eu não tinha alternativa a não ser mudar.

Nossos relacionamentos nos ajudam a crescer pois refletem o melhor e o pior

que há em nós mesmos. Quando penso na minha vida, vejo claramente que os

momentos em que mais aprendi e que fiz as mudanças mais positivas também

foram as épocas mais difíceis. Foram situações em que fiz péssimas escolhas

— mas me pergunto se foram realmente “erros” ou, em vez disso, apenas

experiências e oportunidades para aprender. Hoje estou convencida de que

cada desafio que enfrentei na vida acabou se revelando, no fim, uma

oportunidade disfarçada, que, com o tempo, me levou a um lugar melhor, me

tornando mais consciente, e também mais forte.

Inevitavelmente, quando penso numa fase dos meus vinte e poucos anos,

eu me lembro de me sentir tão impotente que cheguei a questionar se queria

mesmo continuar vivendo.

Um dia comum para mim em Nova York, em 1997 — com meu celular em mãos, prestes a embarcar no metrô para mais um dia de testes.

 

Era como se eu estivesse numa “rodinha de hamster”, e nem sequer me

dava conta disso. Tinha 23 anos, era bem-sucedida no que fazia e trabalhava

350 dias por ano. Minha vida consistia em embarcar em aviões e voar para

diferentes locações e estúdios ao redor do mundo. Eu raramente desfazia as

malas — apenas substituía roupas sujas por limpas, pegava o próximo voo,

depois retornava, e dois dias depois fazia a mesma coisa novamente, e de

novo três dias mais tarde. Começava minhas manhãs com um Mocha

Frappuccino com chantilly, junto com o primeiro cigarro do maço daquele

dia. Quanto à alimentação, naquela época eu nem parava para pensar no que

botava para dentro. Durante o período de trabalho no Japão, na adolescência,

havia criado o hábito de comer depressa e sempre em movimento. À noite, ao

chegar ao meu apartamento em Nova York, pendurava o casaco e me servia

de uma taça de vinho. Afinal, depois de um dia agitado, ainda me sentia

ligada no 220v pelo excesso de café e de nicotina que tinha consumido

durante o dia, e precisava de algo a mais que me ajudasse a relaxar. O que

poderia ser uma atitude mais natural do que acabar com o resto da garrafa de

vinho enquanto lia um livro ou retornava ligações? Eu era uma workaholic.

Naquela época, vivia o oposto de um estilo de vida saudável.

Estava vivendo a 100 quilômetros por hora, fumando, bebendo, me

alimentando mal, dormindo pouco e sempre de mala e cuia na mão, como nós

gaúchos dizemos. Era intenso! Vivia em trânsito o tempo todo, fosse indo

para algum lugar ou voltando de outro, o que significava que não criava

raízes nem sentia que pertencia a lugar algum — e não parava um instante

sequer para pensar na minha vida. Era só a minha vida. E, como acontece

com muitas pessoas em seus vinte e poucos anos, eu me sentia indestrutível.

Tirando fotos para mandar para a minha família enquanto trabalhei por três meses em Tóquio, em 1995.

Com minha irmã Gabi comendo no meu quarto de hotel em Paris ao fim de uma movimentada temporada de desfiles, em outubro de 1999.

 

Além de não me dar conta de que estava numa rodinha de hamster, não

entendia que estava basicamente dependendo de estimulantes e calmantes

para passar o dia. Café para me acordar de manhã. Cigarros para dar pausas

nas longas horas de trabalho e criar um espaço para mim sem ninguém —

estilistas, cabelereiros, maquiadores — me tocando. Bife, hambúrguer, batata

frita, massa, pizza, doces e qualquer coisa que me desse energia naquele

momento. Vinho tinto para relaxar e me ajudar a dormir.

A primeira vez que bebi álcool foi com 19 anos, mas sempre havia

champanhe à vontade antes dos desfiles. Pouquíssimos estilistas ofereciam

algo de comer às modelos, por isso, sempre que via comida nos bastidores,

enchia a bolsa. Depois de um tempo isso se tornou a minha “marca”: sair

distribuindo o que quer que tivesse conseguido pegar — sanduíches,

bolachas, doces — para as outras modelos, a maioria que, como eu, tinha

passado o dia correndo de um desfile para o outro, se esquecendo de comer.

Como já falei, minha vida naquela época era uma correria só. Durante a

temporada de desfiles era normal, para mim, acordar às cinco da manhã e só

ir para a cama por volta de uma ou duas da madrugada, já que, depois de

terminar o trabalho, como também já mencionei, ainda precisava fazer as

provas de roupas para os desfiles do dia seguinte, e então dos desfiles

subsequentes. Quando fazia o circuito completo — naquela época Londres,

Milão, Paris e Nova York —, era uma maratona que durava o mês inteiro.

Invariavelmente, ficava doente perto do fim, mas, por não querer desapontar

ninguém, seguia em frente, a ponto de certa vez quase desmaiar no meio da

passarela, e de outra vez ficar tão doente que tive de pegar o avião de volta

para casa alguns dias antes do fim da temporada.

Olhando para trás, vejo que tinha ficado tão anestesiada que não conseguia

enxergar o que estava acontecendo. Eu estava literalmente me matando.

Estava envenenando meu corpo do momento em que acordava de manhã até a hora em que apagava à noite. Também estava criando um ambiente propício

para desenvolver um distúrbio de ansiedade. Quando se tem 19 anos, talvez

seja possível se safar trabalhando 350 dias por ano, mas, quando se chega aos

23, depois de ter vivido pilhada durante anos, bem, seu corpo, sua mente e

sua alma começam a desmoronar. Fazia de tudo para lidar da melhor forma

possível com as realidades da minha vida. Mas ainda não tinha maturidade

para lidar com toda essa pressão.

O que aconteceu me pegou de surpresa, considerando tudo o que já tinha

visto até aquele momento na minha área e todas as armadilhas que eu havia

conseguido evitar. Quando saí de casa aos 14 anos, obviamente ainda era

muito jovem, mas, seja lá por que motivo, eu me sentia madura e capaz de

lidar com os desafios de pessoas adultas do meu novo mundo adulto. De

alguma maneira, sempre tinha me sentido protegida. E sabia que cada decisão

que tomasse me afetaria diretamente. Não podia contar com meus pais.

Trabalhava nos quatro cantos do mundo, e minha mãe e meu pai estavam em

casa, lá em Horizontina. Agora, como mãe de crianças pequenas, só consigo

imaginar a preocupação que meus pais tiveram. Nem sei se eles teriam me

deixado ir se soubessem a loucura que o mundo fora da nossa pequena cidade

podia ser.

Muitas modelos jovens pareciam estar vivendo num inferno que, na minha

opinião, elas mesmas, inconscientemente, estavam contribuindo para criar.

Garotas da minha idade enlouquecidas em boates, usando drogas, se

embrenhando em lugares sombrios. Eu poderia facilmente ter sido uma delas:

mais uma modelo pegando o vale para duas bebidas grátis e a pílula de

ecstasy com o cara que ficava na porta da boate. Mas nunca fui assim. Como

já disse, alguma coisa ou alguém sempre me protegeu. Pode ter sido a voz da

minha mãe que, antes de eu sair de casa, me disse para nunca, jamais, aceitar

nada de estranhos, principalmente bebidas. Em Tóquio, noite após noite, eu

via a mesma cena — grupos de garotas indo para boates e se embebedando

ou se drogando, e os caras se aproveitando delas. O tempo todo eu me sentia

como uma observadora externa, de fora de tudo aquilo, como se estivesse

assistindo a tudo através de uma lente ou de uma vitrine. Às vezes, andando

até a estação de metrô a caminho do trabalho, cedinho, passando por bandos

de passarinhos pretos ciscando o lixo nas calçadas, via garotas voltando das

boates, parecendo desorientadas. Não entendia como elas conseguiam viver

daquele jeito. Se ficar longe daquele cenário fazia de mim um peixe fora

d’água, por mim tudo bem; eu não queria seguir por aquele caminho. Quando a menina que dividia apartamento comigo e eu íamos a uma boate, eu pedia

um refrigerante enquanto ela paquerava o barman por quem tinha uma queda.

Depois eu ia para casa a pé e lia um livro. Ir para a balada, beber, usar drogas

e ficar na rua até tarde nunca me pareceram escolhas inteligentes. Eu sabia

que me sentiria mal, que pessoas se aproveitariam de mim, e que acabaria

ficando fragilizada. Aquilo não era para mim. Além disso, meus pais

confiavam em mim. Eles tinham me deixado sair de casa para que eu tivesse

uma oportunidade nessa vida de modelo, e não queria fazer nada que os

decepcionasse. Queria que eles tivessem orgulho de mim, e também queria

ser um bom exemplo para as minhas irmãs.

Minha irmã gêmea, Pati, e eu comemorando nosso aniversário de 21 anos com margaritas de morango num restaurante em New Paltz, Nova York, perto da minha casa de campo em Woodstock.

 

Gostava de trabalhar como modelo — sou grata por todas as oportunidades

que tive de ver o mundo e conhecer pessoas novas e fascinantes. Além disso,

adorava poder me transformar o tempo todo. Moda é um negócio tão

diversificado. Está sempre mudando e é tão lúdica. Cílios postiços e sutiãs de

bojo num dia, roupas de látex e perucas no outro, biquíni fio dental e uma

farda no dia seguinte. Era como fazer experimentos com a minha própria

identidade: Quem vou ser hoje? Meu espírito sem limites era atraído pela

moda. Nunca gostei que ninguém me definisse ou dissesse que eu era isso ou

aquilo. Você é modelo. Sente-se. Não diga nada. Sua função é estar bonita,

mais nada. Na minha cabeça, posso ser o que quiser ser, e nada disso envolve

ficar parada e muda.

As partes difíceis da vida de modelo eram as viagens constantes, as

obrigações promocionais que incluíam festas de lançamento, e o fato de que,

com exceção da minha cachorrinha Vida, era difícil fazer amigos de verdade.

Eu me sentia sozinha às vezes. Quando se atinge certo patamar como modelo,

as pessoas nem sempre ficam felizes por você. É um ramo competitivo e

cheio de inseguranças. Mais de uma vez chegava a um desfile e descobria

que alguém tinha trocado meus sapatos por outros de tamanho muito maior,

ou outras vezes meu salto simplesmente do nada quebrava no meio da

passarela, me forçando a caminhar na ponta dos pés, ou as tiras da sandália

arrebentavam — mas eu sorria e continuava a desfilar da melhor maneira

possível, sem dar bola ao que as pessoas faziam para me prejudicar. Os saltos

que as modelos usam nas passarelas ou durante as sessões de fotos podiam ter

de 15 a vinte centímetros, e andar com eles é um verdadeiro desafio. Aposto

que todas as modelos têm algum tipo de problema de coluna. Sei que eu

tenho. Além de deslocamentos recorrentes dos ombros — um problema

crônico meu —, tenho escoliose e problemas sérios nos joelhos, que pioraram por causa das horas que passei não só caminhando de uma ponta a outra da

passarela, fazendo o melhor que podia para manter o equilíbrio em saltos

absurdamente altos, mas também por contorcer o corpo durante as

intermináveis sessões de fotos, mal conseguindo respirar enquanto mantinha

uma posição esquisita após a outra tentando parecer natural. Simplesmente

não é normal passar dez horas ou mais seguidas, dia após dia, sobre saltos tão

altos, e, menos ainda, pular com eles. Porque eu estava sempre pulando

durante as sessões de fotos; alguns fotógrafos brincavam comigo e me

chamavam de “Sporty Spice”! O motivo era simples: eu tinha muitas

ressalvas quanto à minha aparência. Não me achava nem um pouco bonita. A

única coisa que sentia que podia fazer, a única coisa que me dava confiança,

era me movimentar. Se ficasse em movimento numa foto, em plena atividade

e criando algum tipo de movimentação ou de energia, teria mais ferramentas

para preencher as lacunas da história que o fotógrafo pretendia contar. Mas,

na verdade, também era um meio de desviar a atenção do meu rosto.

Não percebi o preço que estava pagando por tudo isso até que meus

ataques de pânico começaram. O primeiro aconteceu em 2003. E eles se

repetiriam por nove meses.

Tudo começou durante uma viagem num avião pequeno e apertado de seis

lugares (incluindo os dois pilotos). Eu estava voando com meus amigos para

a Costa Rica. O tempo estava instável naquele dia, e, quando o avião

levantou voo, começou a balançar e a sacudir como uma folha ao vento. Vou

morrer, disse para mim mesma. Viajava de avião o tempo todo e não via

nada de mais nisso, só que de repente fiquei totalmente consciente de que não

tinha controle algum sobre aquela situação. O medo de estar presa num

espaço minúsculo e de não estar no comando, a sensação angustiante de que

nada no mundo era seguro ou estável. Mesmo com meus amigos tentando me

distrair, sentia que ia desmaiar. Quando aterrissamos, percebi que alguma

coisa havia mudado em mim. Nem lembro o que fiz naquele fim de semana.

Tudo o que me lembro é do medo de pegar o avião de volta para casa no

domingo.

Andando de bicicleta em Nova York com meu anjinho da guarda, em 2003.

 

Quando retornei a Nova York, esse novo medo encontrou outras formas de

se manifestar. Era como se ele estivesse indo de um lugar a outro, de uma

coisa a outra, de um cômodo a outro. De repente, não me sentia à vontade

para andar de elevador. Tinha a sensação de falta de ar. Então subia de

escada. O mesmo acontecia com túneis: sem chance. Tinha recomeçado a

viajar a trabalho, mas já não queria entrar nos hotéis onde ia ficar hospedada.

Cruzar o lobby sem janelas tornava respirar uma tarefa muito difícil. Não

entrava no elevador de jeito nenhum e não queria ficar presa num quarto de

hotel, principalmente se as janelas fossem do tipo que não abriam. Não

conseguia entrar num estúdio de fotografia se não tivesse janelas. Pegar

metrô estava fora de questão. Passei a fazer tudo a pé ou, quando estava em

Nova York, a ir de bicicleta ou pegar um táxi. O objetivo era evitar lugares

fechados ou me sentir aprisionada. Olhando em retrospecto, é mais provável

que eu estivesse tentando superar minha própria ansiedade.

Como as coisas pioraram, marquei uma consulta com um especialista e

depois com outro. Ambos eram médicos nova-iorquinos de renome. Saí de

um dos consultórios com um aparelho de última geração que monitorava

minha respiração. Fui instruída a levá-lo comigo sempre que viajasse de

avião, enfiando o dedo nele e inspirando e expirando enquanto uma linha

ondulada subia e descia numa tela. Isso evitava que eu hiperventilasse ou

suasse frio e também servia para me distrair. Eu levava o aparelho comigo em

todos os voos. Mas não senti muita diferença. Os mesmos sintomas surgiam

todas as vezes. As mãos começavam a suar, ao que se seguia a familiar

sensação de suor brotando na testa. Minha nuca ficava molhada e, depois,

meu cabelo. A respiração ficava ofegante. Eu me sentia tonta. Às vezes,

quase desmaiava.

Por fim, as coisas chegaram a um ponto crítico. Era um fim de semana, e

eu estava no meu apartamento em Nova York. Tinha marcado uma

massagem para me ajudar a relaxar, consciente de que meus músculos estavam ficando mais tensos a cada dia. Àquela altura, meus ataques de

pânico — era assim que os médicos se referiam a eles — já vinham

acontecendo havia quase seis meses. Nessa época, eu morava na West 11th

Street com a West Side Highway, com vista para o rio. Meu apartamento

ficava no nono andar. Era pequeno, mas arejado e bem-iluminado, com várias

janelas e um terraço que contornava metade do apartamento. Só que, de

repente, no meio da massagem, simplesmente não consegui mais ficar lá

dentro. Não conseguia mais respirar. Dei uma desculpa, me levantei, enrolei a

toalha no corpo e saí para o terraço. Fazia uma noite linda. Havia a água e as

luzes a distância e todo o ar de que eu precisava, mas ainda assim não

conseguia respirar. Parecia que tudo na minha vida ia me matar. Primeiro os

aviões, depois os elevadores. Então vieram os túneis, os hotéis, os estúdios de

fotografia e os carros. Agora era meu próprio apartamento. Tudo tinha se

tornado uma jaula, e eu era o animal preso dentro dela, lutando para respirar.

Não conseguia ver uma saída e não podia suportar mais um dia me sentindo

daquele jeito. Um pensamento me invadiu: Quem sabe vai ser mais fácil se

eu simplesmente pular. Tudo vai passar. Eu posso me livrar de tudo isso.

Quando penso naquele momento e naquela garota de 23 anos, sinto

vontade de chorar. Ela era tão jovem que quase me parte o coração. Quero

dizer para ela que vai ficar tudo bem — que ela é jovem demais para colocar

as coisas em perspectiva ou para se conhecer direito, que a vida dela nem

começou ainda. Até aquele momento, sempre tinha me visto como uma

pessoa feliz, forte, positiva, confiante. Não nasci tendo ataques de pânico. Eu

me sentia grata de verdade por cada bênção na minha vida. Por fora, parecia

que eu tinha tudo! Tinha assinado o maior contrato da indústria da moda com

a Victoria’s Secret. Tinha pais e irmãs maravilhosos. Amava meu namorado.

Tinha bons amigos em Nova York que eram como uma família. Mas, naquele

momento, a única resposta possível parecia ser pular. É apavorante ver como,

de repente, o desespero pode tomar conta do cérebro e se apropriar dele,

assim, sem mais nem menos.

Não sei como consegui voltar para dentro do apartamento. A ideia de pular

foi substituída por outro pensamento, um pouco estremecido, mas firme: Ok,

Gise, chega. Agora escute.

Ouça a si mesma.

Sabendo que estava com um problema muito maior agora, fui ao médico

no primeiro horário no dia seguinte e contei o que tinha acontecido. Depois

de me questionar para ter certeza de que eu não estava mais pensando em suicídio, a solução dele foi me receitar um medicamento tranquilizante para

ansiedade. Ele me deu um comprimido de amostra para ajudar a me acalmar e

uma receita para que eu fosse à farmácia e comprasse uma caixa do remédio.

Eu me lembro de olhar fixamente para o comprimido na mão dele. Mesmo

me sentindo indefesa, pensei: Não quero ficar dependente de remédios. Não

quero depender de nada que esteja fora de mim mesma. Só de pensar naquilo

fiquei mais ansiosa. E se eu perder o comprimido? Como fica?

Algo dentro de mim sabia, de alguma forma, que eu não podia

simplesmente colocar um Band-Aid no que havia de errado comigo. Não

tenho nada contra remédios, mas, quando ele me ofereceu aquele

comprimido, cada célula do meu corpo reagiu em protesto. Pensei na minha

mãe. Ela sempre buscava alternativas naturais para curar todo e qualquer

problema de saúde que minhas irmãs e eu tínhamos quando pequenas. Ela

preparava chás para nossas dores de garganta e resfriados e colocava panos

úmidos na nossa testa e no nosso pescoço quando alguma de nós tinha febre.

E os métodos dela sempre deram certo — então, que tipo de chá eu poderia

preparar para isso? Eu tinha visto pessoas que começaram com apenas um

comprimido e, com o tempo, passaram a tomar muitos outros. Estava com

medo e não queria seguir por aquele caminho. Sabia que tinha de haver outro

jeito. Eu tinha que descobrir qual era, já que, no fim das contas, sempre fui o

tipo de pessoa que queria vencer os meus medos.

Precisava tomar uma decisão, mas também estava claro que não podia

continuar sofrendo de ansiedade o tempo todo. De alguma forma, embora não

soubesse como, eu sabia que tinha de encontrar outro jeito. Quando saí do

consultório, joguei o remédio no lixo. Algumas coisas você simplesmente

sabe que são verdade para você — ou seu corpo fala. Não sei como o corpo

sabe dessas coisas, mas ele sabe. Digo isso por mim mesma, reconheço que

somos todos diferentes, com necessidades diferentes. No meu caso, sabia que

precisava confiar na minha intuição e lidar com a minha ansiedade do jeito

que me deixava mais confortável. Sigo ouvindo minha voz interior e sempre

incentivo as pessoas a ouvirem a própria.

Então rezei. Rezei pedindo clareza e orientação sobre o que deveria fazer.

Pedi que me fosse mostrado o caminho. Fiz o que sempre faço quando rezo

— pergunto a mesma coisa várias vezes até surgir uma resposta. Naquela

noite, recebi a resposta: ioga. Naquele momento, eu não estava em busca de

uma coisa específica. Ainda não sabia como iria sair dessa. Como disse,

tudo o que pedi foi que me fosse mostrado o caminho.

Ioga. De onde veio isso? Eu não sabia explicar. Até hoje não sei. Eu tinha

algum conhecimento de ioga. Anos antes, tinha lido o livro Autobiografia de

um iogue, de Yogananda, então ioga não era um conceito estranho para mim.

É preciso ter em mente que isso foi antes de a prática se tornar tão popular

quanto é hoje. Ainda assim, eu não possuía ligação alguma com aquele

mundo. Como aquilo poderia me ajudar? Provavelmente devo ter associado

ioga com paz, tranquilidade ou equilíbrio, algo assim. Então, na manhã

seguinte, comecei a procurar um instrutor. Também acessei a internet e

comecei a ler tudo que podia sobre ioga. Não apenas sobre as posturas, mas

também sobre a filosofia por trás dela. Descobri que ioga era muito mais do

que movimentos físicos. É uma filosofia, uma disciplina espiritual focada em

ajudar a pessoa a se conhecer melhor. A palavra ioga vem do sânscrito yuj,

que significa atrelar ou unir. Talvez ela pudesse me ajudar a unir meu corpo à

minha mente? Talvez pudesse me ajudar com os ataques de pânico? Li mais

sobre as técnicas de respiração — principalmente o pranayama — e sobre

meditação. Naquela época, meditação, assim como ioga, era apenas uma

palavra popular. Nunca tinha meditado na vida. Quem tinha tempo? Era

ocupada demais. Mesmo se eu tivesse tempo, por que me dar ao trabalho?

Quando conheci Amy, que se tornou minha instrutora, senti que ela

emanava uma forte aura de serenidade e confiança assim que entrou no meu

apartamento. Primeiro, nós mudamos alguns móveis de lugar, e então ela se

sentou no chão, sobre um tapete de ioga. Eu disse a Amy que estava tendo

falta de ar e que tinha medo de entrar no elevador do meu próprio prédio, por

isso subia nove andares de escada, e que estava com muito medo de morrer.

Amy começou a me falar da respiração pranayama. Ela pediu que eu

pressionasse a ponta de um dedo no meio da testa e usasse o polegar para

fechar a narina direita. “Inspire”, disse ela. “Agora expire pela narina

esquerda. Agora faça o mesmo com a narina esquerda. Inspire. Agora expire

pela direita.” Ela explicou que o objetivo de respirar alternando as narinas,

como se sabe, é equilibrar os lados esquerdo e direito do cérebro, o que ajuda

a relaxar e a deixar a pessoa mais centrada. Então me mostrou algumas

posturas de ioga.

Mesmo depois de um único encontro com Amy, pude notar alguma

diferença. Já não me sentia tão tensa quanto antes. Não foi uma cura

milagrosa — ainda estava muito mal e tinha um longo caminho pela frente

—, mas Amy e eu marcamos mais um encontro na manhã seguinte, e depois

na próxima e então na outra. Não posso atribuir à ioga todo o crédito das mudanças que aconteceram na minha vida, mas ela me ajudou muito. E ainda

hoje é fundamental na minha vida.

Como disse anteriormente, sempre gostei de mergulhar fundo nos assuntos

que me interessam, e quanto mais aprendia sobre ioga, mais a respiração

pranayama parecia ser importante para a minha cura. Prana é a força vital do

Universo. É o que distingue os vivos dos mortos. Pode ser encontrada em

alimentos de boa qualidade, na respiração correta e no pensamento positivo.

A respiração pranayama significa simplesmente usar a força vital do

Universo por meio da respiração, o que com o tempo ajuda a trazer equilíbrio

e harmonia ao corpo, à mente e ao espírito, ou pelo menos esse é o objetivo.

Muitas pessoas no Ocidente pensam na ioga como algo físico — uma

forma de exercício baseada em asanas e posturas. Na verdade, todo o

propósito por trás da prática de asanas é alongar e abrir o corpo para prepará-

lo para a meditação. Com Amy como professora, comecei a treinar hatha

ioga, a prática de posturas físicas, embora ao longo dos anos também tenha

experimentado ashtanga, kundalini e outros tipos de ioga. Adoro todas elas,

mas sempre volto para a hatha ioga porque foi onde comecei, e é tão serena

que consigo entrar em estado de meditação enquanto pratico. Além disso,

uma prática suave funciona melhor para mim, já que faço tudo mais na minha

vida com intensidade.

Mas estou botando a carroça na frente dos bois. Com Amy me guiando,

comecei a fazer a respiração alternando as narinas todas as manhãs ao nascer

do sol. Com o tempo ficou mais fácil. A meditação ajuda a cultivar a

sensação de estar presente no momento. O presente é uma dádiva, e, para

mim, sentir essa presença era o presente mais maravilhoso que poderia ter

recebido.

Às vezes as pessoas me perguntam que papel a ioga desempenha na minha

vida hoje. A resposta simples é: para mim, a ioga, como a meditação, me

ajuda a permanecer presente. É como estar constantemente no papel de

observadora de mim mesma, atenta a cada sentimento. Quando desembarco

de um voo longo, posso fazer algumas posturas simples de saudação ao sol

ou uma sequência para a abertura dos quadris. Quando estou na Costa Rica e

tenho a manhã livre, gosto de fazer ioga com a minha amiga Cris.

Simplesmente adoro a troca de energia que acontece quando se pratica junto

com alguém. Quando estou no carro e outra pessoa está dirigindo, faço a

respiração pranayama no banco de trás a caminho do estúdio fotográfico, ou

ouço os cânticos de cantores devocionais como Snatam Kaur ou Krishna Das, que ouvi durante a gravidez e o parto dos meus filhos. A ioga pode ser útil de

muitas maneiras. Seja envolvendo música, mantras, respiração, posturas ou

meditação, é uma prática espiritual linda e poderosa. A ioga me devolveu a

vida.

Ela também me motivou a começar a olhar para dentro. Pela primeira vez,

decidi observar atentamente minha vida, examinar o que realmente estava

acontecendo comigo e que papel eu estava desempenhando. Como tinha

chegado àquele ponto? Por que, com tantas coisas boas acontecendo em

minha vida, pelo menos superficialmente, havia tantas outras dando errado?

Ao longo dos anos, passei a acreditar na importância das atitudes positivas.

Acredito que a qualidade da nossa vida está diretamente ligada às nossas

atitudes. Quando minhas crises de ansiedade começaram, quem me conhecia

ficou com pena de mim. Teria sido fácil embarcar naquela forma de pensar:

Por que isso está acontecendo comigo? Tadinha de mim! Por que estou

tendo crises de ansiedade? Sou uma pessoa tão boa! Mas, se fizesse isso,

teria me colocado como vítima. E sempre acreditei que, quando você começa

a se ver como vítima, abdica do próprio poder, e talvez seja difícil conseguir

recuperá-lo. Graças à prática de ioga e meditação, fui capaz de ver as coisas

por uma perspectiva diferente. Comecei a me questionar: Gisele, por que esta

situação está acontecendo com você? Há uma oportunidade aqui — o que

você pode aprender com isso? Qual é o ensinamento aqui?

De modo algum quero dizer que, se você está sofrendo de ansiedade ou

depressão, não deve procurar ajuda — eu procurei. Hoje sei também que os

primeiros anos da juventude são uma etapa particularmente vulnerável da

vida. A adolescência é difícil — mas depois que você faz 20 anos, quando

ainda está descobrindo quem é, no que é bom, e para onde sua vida está indo,

pode ser ainda mais difícil. Jovens — homens e mulheres — podem se ver

passando por aflições que nunca tiveram antes, e não entender o porquê. Se

for o seu caso, procure ajuda! Isso pode salvar a sua vida. Mas eu não sabia

disso na época. Vinha sendo dona do meu nariz desde os 14 anos, e, no que

me dizia respeito, só havia uma pessoa que podia me salvar: eu mesma.

Aprendi que o único jeito de começar essa missão de resgate era mudar o

diálogo dentro da minha cabeça.

Quando comecei a me perguntar Por que isso está acontecendo comigo e o

que essa situação está querendo me ensinar?, houve uma grande mudança no

meu modo de pensar. Ao longo dos dias e das semanas seguintes, comecei a

ver a mim e à minha vida com maior clareza. À medida que comecei a melhorar, me fiz outra pergunta: Como vou lidar com esta oportunidade que

a vida me deu para aprender sobre mim mesma?

Mais ou menos na mesma época, me lembro de ter uma sensação muito

estranha: estava me afastando de mim mesma e do meu ego, como se fossem

duas estruturas tombando lentamente na arrebentação. A vida estava me

mostrando algo, e a mensagem não podia ter sido mais clara. Dependia de

mim querer “ver” o que a vida estava me mostrando ou voltar para a rodinha

de hamster. Parecia que eu estava sendo convocada a rejeitar tudo aquilo que

não estava me apoiando ou me fazendo bem para abraçar tudo o que estava.

Por exemplo, eu me convenci de que, se estava tendo falta de ar, poderia

ser uma boa ideia parar de fumar. Tinha começado com 17 anos, primeiro

com cigarros de cravo, embora logo em seguida já estivesse viciada nos

cigarros normais. Fumava até um maço por dia. Sempre que queria me

enturmar ou parecer descolada, acendia um. Tentei parar algumas vezes, fiz

apostas com amigos, recorri a um acupunturista e li livros que pudessem me

ajudar a parar de fumar, tudo sem sucesso. Naquele momento falei para mim

mesma que os cigarros tinham de ir embora. Então, parei. Simples assim.

Também comecei a correr, meia hora toda manhã, mesmo se estivesse

chovendo ou nevando. Em parte, essa estratégia me ajudou a não fumar, mas,

principalmente, me estimulou a desenvolver um hábito mais saudável. Nada

faz você sentir seus pulmões melhor do que uma boa corrida.

Meu novo foco na respiração me abriu para novos modos de pensar sobre

outros hábitos e rotinas, principalmente o hábito de estar sempre “em

atividade”. Viajando. Perseguindo algo. Atendendo a ligações, respondendo

mensagens de texto e e-mails. Trabalhando o dia inteiro e todos os fins de

semana. Eu me sentia culpada quando tirava um dia de folga sequer. Dizendo

a mim mesma: Você tem que aproveitar esta oportunidade enquanto ela está

aqui. Você pode descansar depois. No “sistema de crenças” daquela cultura,

tudo tem que levar a alguma outra coisa — dinheiro, bens materiais, estar na

dianteira do mundo. A ioga, por outro lado, tem mais a ver com ser do que

com fazer. É sobre estar aqui, agora, presente neste momento. Com a ioga

aprendemos que já somos tudo o que precisamos ser.

Ao longo dos dias que se seguiram, ficou claro para mim a quantidade de

coisas na minha vida sobre as quais nunca tinha tirado um tempo — ou me

dado um espaço — para pensar. Nunca me ocorreu, por exemplo, que a

cafeína era um estimulante, ou que os cigarros eram estimulantes, ou que o

álcool era um calmante, e que comer porcaria e doces todos os dias podia afetar meu corpo e meu humor. Tudo o que eu sabia era que, quando fumava,

aquele era o único momento em que me permitia inspirar fundo e expirar

completamente. Eu me lembrei de todas as vezes que estive em festas e, me

sentindo sufocada, irritada ou inquieta, descia ou saía para fumar. Fosse qual

fosse o motivo, dizia para mim mesma que precisava de uma pausa para

respirar. Era verdade: eu realmente precisava de uma pausa para respirar. Era

tudo que me faltava: respirar.

Nosso corpo é um templo, mas também é um veículo. É um meio de

transporte. Não é muito diferente de um carro ou de uma bicicleta. Só há um

passageiro nele: a alma. E isso é você. Sou eu. E, aos 23 anos, o veículo —

“meu corpo” — que continha a minha alma — eu — estava entrando em

colapso. Como a pessoa responsável por criar aquele colapso, também era a

única que podia desfazê-lo. É fácil falar agora, olhando pra trás, mas, se você

não cuidar do seu corpo enquanto ainda é jovem, garanto que vai pagar o

preço algum dia, se não nos primeiros anos da juventude, como aconteceu

comigo, então depois dos quarenta ou cinquenta.

As mudanças que comecei a fazer na minha vida surgiram quando passei a

ouvir atentamente à minha voz interior e a confiar em mim mesma que

haveria outras alternativas. Quando comecei a praticar a respiração

pranayama, senti como se estivesse entrando num espaço novo. Uma vez

dentro daquele espaço, reparei que havia outros espaços que também

precisavam da minha atenção. Por exemplo, o modo como eu me alimentava.

Não fui criada para seguir uma alimentação das mais saudáveis. Afinal de

contas, cresci numa cidade pequena, e minhas irmãs e eu comíamos o que

todos os outros comiam — arroz e feijão com algum tipo de carne ou

legumes. Eu gostava de beliscar as batatas fritas de saquinho vendidas no

mercado, e minha mãe nos deixava beber refrigerante nos fins de semana. Eu

devorava Sucrilhos com leite depois do treino de vôlei. Quando parei de

fumar, conheci o Dr. Dominique, que me disse que minhas glândulas

suprarrenais estavam totalmente esgotadas. (Sempre que ia ao consultório

dele, na verdade, ele me chamava de “Miss Adrenalina”.) A teoria dele era

que meus altos níveis de estresse tinham levado minhas glândulas adrenais a

produzir muito ou pouco cortisol, o hormônio do estresse. Ele foi muito

enfático ao dizer que minha alimentação estava me prejudicando e me

aconselhou a cortar completamente o açúcar pelos três meses seguintes. Não

só o açúcar do vinho que eu bebia todas as noites, mas das frutas e dos

carboidratos que meu corpo metabolizava em açúcar depois de eu comer arroz, massa ou pão. Apesar de sempre ter amado chocolate e o meu Mocha

Frappuccino com chantilly matinal, eu era disciplinada — e estava assustada

— o suficiente para fazer o que ele havia mandado.

Cortar o açúcar foi extremamente difícil. Nas primeiras duas semanas, tive

dores de cabeça fortíssimas, mas se era pela falta do açúcar ou de cafeína, ou

uma combinação das duas coisas, não tenho como saber. Quando as dores de

cabeça passaram, toda a minha relação com o que eu comia se transformou.

Comecei a me questionar. A comida que ingeria estava me enfraquecendo ou

me nutrindo? Estava me tirando ou dando energia? Depois que comecei a

mudar minha alimentação, foi impossível voltar atrás. Eliminei frituras e fast-

food, comecei a comer mais legumes e verduras, e também passei a

experimentar alimentos crus. Em vez de comer carne duas vezes por dia,

mudei para duas vezes por semana. Não demorou muito para sentir a

diferença nos meus níveis de energia e, o mais importante, no meu humor.

(Vou falar mais sobre isso no Capítulo 7.)

Eu me dei conta de que havia outras coisas de que precisava me livrar

também — certos relacionamentos não eram bons para mim. Tanto pessoais

quanto profissionais. Um dia fiquei sentada em silêncio e me questionei:

Esses relacionamentos são bons para mim? Estão me fazendo bem? Sempre

acreditei que os relacionamentos deviam ser baseados em amor, respeito e

confiança. Refleti sobre o relacionamento com meu namorado naquela época.

Todo aquele turbilhão que eu estava enfrentando me forçou a fazer

questionamentos mais profundos a mim mesma, e, quando a pessoa que você

ama não está fazendo as mesmas perguntas a si mesma — e por que teria que

fazer? —, você começa a se questionar quanto vocês têm em comum. Como

não me anestesiava mais com cigarro, álcool e excesso de trabalho, ficava

mais e mais consciente das coisas que havia escolhido ignorar. Será que eu

estava sozinha querendo fazer reflexões mais profundas enquanto ele

continuava o mesmo? No fim das contas, infelizmente, a resposta foi sim.

Sem falar que eu estava dedicando quase toda a minha energia a mudar

minha própria vida. Não foi culpa minha, nem dele; estávamos apenas em

estágios muito diferentes das nossas vidas. Um amigo muito sábio certa vez

me disse algo que nunca mais esqueci: Gisele, você tem que dar às pessoas a

dignidade de passar pelo processo delas. Penso muito nessas palavras. Ao

mesmo tempo, era escolha minha manter ou não alguém na minha vida. A

decisão que tomei não significou que não amasse mais aquela pessoa.

Significou apenas que eu precisava me amar primeiro e me cercar só das coisas que iriam me fazer bem e das pessoas em quem podia confiar.

Duas ou três semanas após iniciar essa minha nova rotina, passei a me

sentir mais calma e mais centrada, mais no controle das coisas. Minha mente

não estava mais a mil por hora. Um mês depois, parei em frente ao elevador

do meu prédio. Vou entrar nessa coisa, disse a mim mesma. E entrei. Minhas

mãos não suaram frio. Não fiquei contando os segundos até chegar ao nono

andar. Ainda precisava viajar a trabalho. Mas não tinha mais que levar um

aparelho comigo nos voos. Em vez disso, pensava: Estou num avião. Durante

o voo vou ler um livro ou talvez assistir a um filme. Ainda estava

trabalhando, mas basicamente em contratos que precisava cumprir. Tinha dito

à minha agente que precisava desacelerar de verdade. As pessoas podiam

ficar chateadas ou não querer trabalhar mais comigo, mas falei a mim mesma

que meu bem-estar era mais importante. Se não tivesse minha saúde, ou

minha sanidade, não teria uma carreira — ou, pior ainda, uma vida.

Após três meses daquela nova rotina — ioga e respiração pranayama todas

as manhãs ao nascer do sol, meditação, exercícios, zero açúcar e uma

alimentação saudável —, os ataques de pânico desapareceram. Às vezes você

precisa atingir o fundo do poço para se dar conta do tamanho da queda. Um

sinal de alerta às vezes se manifesta como um beliscão, outras vezes como

um soco. Estamos sempre recebendo mensagens durante o dia e enquanto

dormimos. Podemos ouvi-las e fazer algo a respeito, ou podemos ignorá-las.

Mas essa experiência me ensinou que, se você não ouvir essas mensagens,

elas ficarão mais altas e mais intensas. Você vai acabar ou tendo uma

superação ou sofrendo algum tipo de destruição. Graças a Deus, para mim

não foi a segunda opção.

Mesmo que aquele tenha sido um momento desafiador, serviu para deixar

claro que é minha a escolha de ver a vida de um modo positivo ou negativo.

O primeiro sopro de ar que entra no nosso corpo quando nascemos,

inspiramos sozinhos. O mesmo acontece com nosso último suspiro. Entre

essas duas respirações, temos algumas decisões importantes a tomar. Não

podemos escolher as circunstâncias das nossas vidas, mas podemos escolher

com que atitude vamos encará-las. No fim da vida, queremos nos lembrar do

nosso mau comportamento e das nossas péssimas atitudes? Dos momentos

em que agimos com crueldade, inveja, medo ou quando dissemos algo cruel a

alguém? Queremos passar pela vida sobrecarregados com o peso das pedras

que carregamos nos bolsos?

Minha irmã Fafi tirou essa foto minha com a Vivi em Paris, em 2013, fazendo ioga de manhã bem cedo antes de sair para trabalhar.

 

Desde que me entendo por gente, meu desejo sempre foi viver em

harmonia, de forma tão leve e com tão poucos arrependimentos quanto

possível. Vou dar um exemplo. Quando fico com raiva de alguém e não

consigo deixar pra lá, não tiro isso da cabeça, a raiva pode me consumir. Na

verdade, ela vai me consumir. A única pessoa que pode se livrar dessa raiva

sou eu mesma. Por quê? Porque fui a única responsável por criar aquela raiva

— o que significa que também sou a pessoa encarregada de se livrar dela.

Primeiro, contudo, preciso aceitar o que estou sentindo e por quê. Preciso ser

totalmente honesta comigo mesma. Existe aqui uma injustiça real que preciso

resolver, ou é algo sem importância que eu deveria deixar pra lá? Alguém

mais está sofrendo com isso, ou a raiva está ferindo somente a mim? Apenas

estando aberta a aprender, a aceitar e a ser honesta eu posso ter esperança de

mudar. Se não reconhecer minha raiva, acabo como o cachorro que fica

trancado no porão e mostra os dentes sempre que a porta é aberta.

É por isso que sempre que sinto o peso da raiva ou do medo, a primeira

coisa que faço é aceitar meus sentimentos. Vejo esse sentimento como um

visitante que só está de passagem. Então, conscientemente, me despeço dele,

sabendo que fui eu quem permitiu sua visita, para começo de conversa. Não

abro mão desses sentimentos por ser uma pessoa generosa! Abro mão porque,

no fim das contas, é o melhor para mim. A única pessoa que vive dentro do

meu cérebro, do meu corpo e da minha alma sou eu. Ninguém mais é

responsável pelo que estou sentindo. Mas isso também significa que sou a

única que pode resolver minhas turbulências emocionais.

Na minha cabeça, não há nada pior do que chegar ao fim da vida e saber

que você é responsável por ódio ou desavenças. Já ouvi dizer que nascemos

com o rosto que Deus nos deu, mas acabamos com o rosto que merecemos.

No fim da minha vida, a única coisa que vai importar para mim é se fui ou

não uma boa pessoa. Uma pessoa amorosa. Uma adição a esta vida — não uma subtração. Alguém que viveu a vida em sua plenitude, que viveu sua

verdade, que amou a vida e a Terra e teve um impacto positivo no mundo.

Espero que meu próprio rosto um dia reflita todas essas intenções. Meu pai

costumava me dizer que, no fim do dia, quando eu colocasse a cabeça no

travesseiro, precisava ser capaz de conviver com cada escolha que havia feito

de modo a poder dormir tranquila a noite toda e acordar de manhã me

sentindo bem comigo mesma.

Escrevendo no meu diário durante um retiro de ioga, em Sedona, no Arizona, em 2014.

 

Quando penso em amor, sempre penso na minha família. Em 2003,

enquanto realizava uma mudança após a outra na vida, minha família virou

meu foco. Vivendo entre Nova York e Los Angeles, e viajando o tempo todo,

me dei conta do quanto tive saudade dos meus pais e das minhas irmãs e de

como ter ficado na rodinha de hamster não tinha apenas me desconectado de

mim mesma; também tinha me desconectado deles. Quando você passa por

uma crise, ou por um período de insegurança, quer ficar perto das pessoas

cujo amor e apoio são constantes. Minha família é meu porto seguro, meu

refúgio. Nenhuma família é perfeita, mas acredito que a minha está sempre

pronta para me defender. Quando estou perto dos meus pais e das minhas

irmãs, baixo totalmente a guarda. Eles me aceitam como sou, tanto a luz

quanto as sombras, e faço o mesmo com eles. Falamos a mesma língua.

Família que faz a postura da árvore unida... bem, o resto você já sabe. Esse é o Tom com a Vivi no colo, e Benny e Jack mais na frente, nas Bahamas, em 2014.

 

Se minhas irmãs e eu estamos conversando, e uma de nós começa a chorar,

poucos segundos depois estamos todas chorando. Sempre. Se uma de nós

pergunta: “Por que você está chorando?”, a resposta sempre é: “Estou

chorando porque você está chorando!”

Foi por isso que, naquele mesmo ano, voltei para a minha casa em

Horizontina. Queria estar perto das pessoas que falavam a minha língua,

principalmente porque não havia passado muito tempo com a minha família

desde que tinha saído de casa para me lançar na carreira de modelo. Eu me

senti com 14 anos de novo. Bebia os chás especiais da minha mãe. Ajudava a

lavar as roupas e a limpar a casa. À noite, ajudava a fazer pastéis na cozinha,

exatamente como fazia quando era pequena. Passei o máximo de tempo

possível com minhas cinco irmãs, e naquele ano chegamos até a passar o

carnaval na Bahia juntas. Devagarinho, fui ficando mais forte. Mais estável.

Mais feliz. Eu me sentia cada vez mais à vontade. À vontade comigo mesma.

À vontade com as pessoas que mais amava, e que também me amavam.

As pessoas não podem nem devem enfrentar tudo isso sozinhas. Pedir

ajuda nunca é sinal de fracasso, e sim uma demonstração de força e de

confiança, e de saber que sua vida vale a pena ser salva. Ao mesmo tempo,

também estou convencida de que nenhum de nós aprende, ou cresce, nos

momentos fáceis da vida. Se eu não tivesse tido ataques de pânico, nunca

teria sentido necessidade de mudar. Nem fisicamente. Nem mentalmente.

Nem espiritualmente. As dificuldades que chegaram tão perto de me matar

me proporcionaram, no fim das contas, uma vida inteiramente nova. O

período mais negativo que já havia vivenciado na vida se tornou o mais

transformador e a maior das bênçãos. De muitas maneiras, aquela garota de

23 anos de fato morreu. Mas, quando ela reviveu, estava muito mais feliz,

mais consciente e muito mais saudável. Ela tinha aprendido sobre o

sofrimento e sobre os muitos presentes que ele pode trazer, também havia descoberto que os momentos mais sombrios das nossas vidas podem ser

nossos melhores professores.

O amor é a melhor terapia. Agarradinha no gato do meu amigo em uma viagem com meus pais à África do Sul durante meu processo de cura dos ataques de pânico, na Cidade do Cabo, em 2003.