Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado
3 A qualidade da sua vida depende da qualidade dos seus relacionamentos
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A qualidade da sua vida depende da qualidade
dos seus relacionamentos
Gise, disse meu pai certo dia, durante nossa viagem de sete horas de carro do
aeroporto em Porto Alegre até nossa casa em Horizontina, no fim da sua vida,
o que você vai lembrar? A casa em que viveu? O carro que dirigia? As capas
de revista que fez? Ele nem esperou a resposta. Não, disse ele. A qualidade
da sua vida depende da qualidade dos seus relacionamentos.
Meu pai e eu sempre tivemos conversas significativas durante as longas
viagens de carro indo para o aeroporto ou voltando de lá, principalmente
quando eu ia passar uns dias em casa aos 14 e 15 anos. Sempre ia embora de
Horizontina levando bons conselhos dele. Frequentemente penso no que ele
dizia sobre relacionamentos. A qualidade da minha vida realmente depende
da qualidade dos meus relacionamentos. As lembranças das minhas
interações com as pessoas que amo permanecem comigo por mais tempo do
que outras experiências. Os papos que tive com meu filho antes de dormir. As
conversas com minha filha no trajeto para o colégio. Os momentos que
compartilhei com um namorado ou amigo num jantar. Imagine como nossas
vidas seriam tristes se passássemos o tempo todo sozinhos, sem ninguém à
nossa volta, ninguém com quem contar ou compartilhar nossas experiências.
É por isso que as maiores bênçãos da minha vida são meu marido, meus
filhos, meus pais, minhas irmãs, meus amigos, meus bichinhos de estimação
(sim, meus pets também são meus companheiros) — que me acompanham
pela vida. É provável que muitas pessoas pensem que, ao deixarem a escola,
dão adeus aos seus professores. Mas, na verdade, todos os nossos
relacionamentos, de um jeito ou de outro, nos ensinam a respeito de nós
mesmos. Porque cada relacionamento nos permite ver diferentes aspectos
nossos.
Adorava as conversas com meu pai quando ele me buscava no aeroporto. Tirei essa foto dele ao volante, em 1996.
No fim das contas, a relação mais duradoura e mais importante que
qualquer um de nós vai ter na vida é com a gente mesmo. É por isso que
acredito que o autoconhecimento é tão essencial. Todos precisamos aprender
a ficar à vontade com nós mesmos o mais cedo possível e entender que
somos responsáveis por quem somos. E, como já falei, o melhor modo de se
conhecer é através dos nossos relacionamentos com os outros.
Relacionamentos podem ser casuais ou baseados em amizade. Podem se
desenvolver a partir de atividades ligadas ao trabalho, ou ser românticos.
Alguns duram pouco. Outros podem durar a vida inteira. E podem variar
drasticamente. Alguns exemplos: tive uma relação de amizade que me
estimulou a fazer mudanças positivas, mas, ao mesmo tempo, o
comportamento da outra pessoa ficava estagnado e não evoluía — ou às
vezes acontecia o contrário, eu que ficara com medo de mudar. Com outros
relacionamentos, me dei conta de que a única coisa que tínhamos em comum
era um momento em nossas vidas que acabou ficando no passado. Amigos se
mudam, trocam de emprego, se casam ou se separam. A única constante é
que todas as nossas relações são importantes para o nosso crescimento.
Para descobrir quem você é, um bom começo seria examinar como você
trata a si mesmo e aos outros. Quando tinha vinte e poucos anos, eu me
cobrava muito. Trabalhava numa indústria em que as garotas (é assim que
sempre nos chamavam — “garotas”) são julgadas todos os dias por sua
aparência. E eu me via com esse mesmo olhar crítico. Além disso, os
comentários maldosos que ouvia no colégio e também as críticas quando
comecei a trabalhar como modelo — seu nariz é grande demais, seus olhos
são pequenos demais — se repetiam na minha cabeça como um disco
arranhado. Muitas vezes o trabalho que eu estava fazendo não me deixava
satisfeita. O ângulo estava errado. A luz estava errada. Eu estava errada.
Obviamente, ser tão autocrítica não me fazia bem. Ser tão crítica quanto eu
era naquela época, e levar para o lado pessoal as projeções negativas de outras pessoas, é algo realmente destrutivo.
Só depois que comecei a meditar e a praticar ioga foi que peguei a longa
estrada para aprender a ter mais compaixão por mim mesma. As pessoas que
começam a praticar meditação geralmente percebem, num primeiro
momento, uma voz crítica dentro da própria cabeça. A autocrítica. Até
mesmo paranoia. Por que falei aquilo? Por que não lidei com aquela
situação de um jeito diferente? Dentro do meu cérebro de vinte e poucos anos
havia um projetor que ficava exibindo os mesmos filmes de desaprovação
várias vezes sem parar. O mesmo rolo de filme, a mesma sequência, os
mesmos personagens, o mesmo diálogo. De todas as muitas lições que a
meditação me ensinou, a mais importante foi sobre o poder dos meus
pensamentos em me ajudar ou me fazer sofrer. Dependendo de onde eu
focava a minha energia.
Sempre tive um nível de exigência muito alto comigo mesma — e
esperava que as pessoas ao meu redor tivessem o mesmo tipo de
comprometimento. Mas, ao longo dos anos, aprendi que esse não é
necessariamente o caso. Cada um tem seu próprio tempo e modo de fazer as
coisas. Com essa percepção veio outra: todo mundo, eu inclusive, está
passando por alguma coisa que ninguém mais sabe, todos têm uma história
— e por isso é importante se lembrar de ser gentil com a gente mesmo e com
todos que cruzam nosso caminho.
Ainda há momentos em que exijo demais de mim mesma. A diferença é
que agora tenho consciência dos meus sentimentos. Quando tenho
pensamentos que não me são úteis de verdade, eu os vejo como visitantes ou
figurantes de um filme. Só os observo — parece que estou sentada na última
fileira de um teatro —, o que me dá a perspectiva para dizer “Hum, você já
está pensando naquilo de novo!”, então respiro fundo e afasto esses
pensamentos desagradáveis para bem longe. Ao focar novamente na
respiração, faço um esforço consciente para mudar o diálogo dentro da minha
cabeça. Faço isso repetidas vezes, sempre que medito e ao longo do dia.
(Certa vez, no meio da minha meditação matinal, quando Benny era bem
pequeno, surgiu na minha mente o pensamento de que eu não tinha picado as
uvas que havia botado na lancheira dele. Fui tomada pelo pensamento de que
ele iria engasgar com uma uva inteira! Fiquei aflita — e tive que me
convencer a parar de pensar naquilo e a me concentrar mais profundamente
até que pudesse ver que era o meu medo falando, não a minha clareza. Então
fiquei bem. A meditação me ajuda a permanecer calma e a pensar com clareza — mesmo quando há uvas envolvidas.)
Quando cheguei a Nova York, com 16 anos, foi uma grande mudança para
mim em vários aspectos. O primeiro foi cultural. Por ser brasileira,
cumprimentava quase todo mundo com um abraço e um beijo. Era o normal
para mim! Nós brasileiros somos calorosos e expansivos. Os americanos nem
sempre são assim. Nos meus primeiros dias em Nova York, as pessoas
ficavam paralisadas, ou se afastavam de mim, ou simplesmente ficavam lá
paradas parecendo meio confusas. Será que não gostam de mim?, eu me
perguntava. Será que fiz alguma coisa errada?
Este foi apenas um exemplo de como é importante a gente não sofrer nem
ficar sem graça por causa do nosso jeito diferente de ser. Não devemos
esperar que os outros sejam como a gente. Quando reflito sobre a minha
adolescência e início da juventude, lembro-me das centenas de conversas que
rolaram dentro da minha própria cabeça. Mesmo quando muitos diálogos
envolviam outras pessoas, eu continuava falando comigo mesma em paralelo.
Da esquerda para a direita: com minha agente de longa data, Anne, e minha mãe, na cidade de Nova York, em 2000. Acho que estava com 20 anos nessa foto.
Quem sou eu? era a pergunta mais comum que eu me fazia. Sou o que as
outras pessoas acham que sou? Se não, estou escondendo quem sou de
verdade? Estou bebendo demais? Qual é o meu limite? Devo parar de
fumar? Havia outras perguntas também: Sou o tipo de pessoa que precisa
ficar um tempo sozinha? Gosto de ir para a balada, ou me sinto mais à
vontade cercada de um grupo pequeno de amigos? Que tipo de
relacionamento amoroso funciona melhor para mim? Esse tipo de
questionamento, acho, passa pela cabeça de todo mundo em algum momento,
e nos ajuda a descobrir do que gostamos e do que não gostamos, nossos
limites, nossa rotina, e o que nos faz sentir bem ou mal, sem falar no que
queremos da vida. Ao nos fazermos perguntas fundamentais, passamos a ter
consciência das nossas prioridades e dos nossos valores.
Tendo dito isso, aprender sobre si mesmo através da interação com outras
pessoas é completamente diferente de se comparar aos outros. Pode parecer
difícil de acreditar, mas faço de tudo para não me comparar com ninguém. Eu
me inspiro em outras pessoas, mas isso não significa que me compare com
elas. Esse tipo de comparação é inútil. Por quê? Porque todos nós temos algo
especial, pois cada um de nós é único. Se você perde tempo se comparando
com outra pessoa, a única coisa que está fazendo é abrindo espaço para a
frustração e o fracasso. Você nunca vai se sentir bom o suficiente. Há 7
bilhões e meio de pessoas no mundo, então é muito provável que alguém vá
ser sempre “melhor” do que você em algum aspecto. Mas essa pessoa é você?
Ela faz parte da sua família? Ela cresceu na mesma época que você,
compartilhou seus pais, seus irmãos, sua infância, seus professores, seus
amigos, suas vantagens, suas desvantagens, sua educação, seus empregos
ou...? É claro que não. Quando nos questionamos dessa forma, a ideia de se
comparar com os outros parece ridícula. Eu só me comparo com uma pessoa:
eu. Estou fazendo o melhor que posso no meu trabalho? Estou sendo a melhor esposa, a melhor mãe, a melhor amiga, o melhor ser humano? Como
posso continuar a aprender e a melhorar?
Sempre fui uma pessoa receptiva, como uma esponja, em sintonia com a
energia dos outros. Essa é a razão pela qual aprendi a ser mais seletiva com
minhas amizades ao longo dos anos. Na adolescência e no começo da
juventude, queria ser amiga de todo mundo! Também assumia como minha
tarefa, e até minha responsabilidade, proteger meus amigos. Basicamente,
fazia questão de garantir que todo mundo ao meu redor estivesse feliz. Fui
assim desde pequena. Se a Pati e a Gabi brigavam, elas sempre vinham
chorando me procurar, e eu agia como mediadora e as ajudava a fazer as
pazes. Eu sempre levava para casa cães e gatos que encontrava abandonados
nas ruas, e, quando Raque não dava muita atenção para o coelhinho de
estimação dela, eu assumia a tarefa de cuidar dele. Quando comecei a fazer
amigos em Nova York, na adolescência, ganhei logo fama de boa
“psicóloga”. Tantas pessoas me contavam seus problemas que, em
determinado momento, minha irmã Fafi falou brincando que eu devia
começar a cobrar pela consulta!
Eu só queria o melhor para as pessoas que faziam parte da minha vida e
achava que esse sentimento era mútuo. Infelizmente, aprendi da pior maneira
que nem sempre era assim. Quando comecei a ganhar dinheiro, ficava feliz
em dar um pouco para quem precisasse. Como cresci compartilhando um
quarto com três irmãs e dividindo uma única barra de chocolate em seis
pedacinhos iguais, compartilhar era natural para mim. Você não tem dinheiro
para pagar o aluguel? Aqui, deixe eu ajudar! Está tendo problemas com o
namorado? Então pode ficar no meu apartamento! Não tem nada para vestir?
Pega meu vestido, pega meus sapatos! Bom, não demorou muito para minha
ingenuidade ser arrancada à força de mim. Chegou a um ponto em que me dei
conta de que não importava quanto eu desse, nunca parecia ser o suficiente.
Na verdade, algumas pessoas ficaram tão acostumadas com a minha
generosidade que se chateavam quando eu dizia: Desculpe, dessa vez eu não
posso ajudar. E eu acabava sofrendo e me sentindo usada. Aprendi que em
nenhuma relação uma pessoa deve ser a única a se doar e a outra pessoa
apenas a receber, porque acaba gerando ressentimento dos dois lados e então
a amizade fica abalada. A cabala, uma filosofia que estudei por um tempo,
tem um conceito chamado “Pão da Vergonha”. Ele estabelece que as pessoas
precisam fazer o trabalho de transformação para merecer a Luz. Se
estivermos nos doando demais ou fazendo algo por uma pessoa que não fez por merecer, estamos dando a ela o Pão da Vergonha. Se tomamos mais do
que damos, então estamos consumindo o Pão da Vergonha. Às vezes, a
melhor maneira de ser generoso é oferecer aos outros o espaço de que
precisam para conquistar a Luz com o próprio esforço. Depois de me dar mal
algumas vezes, comecei a selecionar com mais cuidado as pessoas que
mantinha próximas a mim. Com o tempo, aprendi outra lição significativa: se
você é uma pessoa que só dá — seu dinheiro, seu apartamento, seu carro,
suas roupas, seu tempo e seu amor — quem está em desequilíbrio pode ser
você. Um amigo mais velho e mais sábio me disse certa vez: “Você tem que
dar às pessoas a oportunidade de fazer o que podem e devem fazer por si
mesmas.” Todos passamos pelo que for necessário a fim de evoluir e crescer,
e não devemos atrapalhar o processo dos outros.
Há pouco tempo bati um papo com um grande amigo que sempre se doou
demais. Ele estava com problemas pessoais e agora precisava da minha ajuda.
Quando chegou a hora de ir embora, ele me agradeceu várias vezes. “Olha”,
falei, “é você quem sai por aí ajudando os outros e se doando, e você já me
ajudou no passado. Às vezes é importante dar aos outros a oportunidade de
lhe ajudarem. Se é sempre você que faz tudo pelos outros, bem, isso é meio
egoísta, na verdade.” É uma lição que gostaria de ter aprendido mais cedo. A
verdade é que pedir ajuda aos outros não é sinal de fraqueza, pelo contrário:
dá às pessoas a oportunidade de se sentirem empoderadas. Fiquei feliz
quando meu amigo permitiu que eu lhe desse algo em troca, porque poder
retribuir nas minhas relações faz com que eu me sinta bem.
Talvez eu não seja mais, num primeiro momento, tão calorosa e aberta
como era antes (embora ainda seja brasileira). Mas prefiro acreditar que, no
fundo, as pessoas são boas, e procuro ver além da personalidade delas,
focando na sua essência, no seu espírito. O espírito é a linda chama de
bondade que reside em todos nós. Particularmente, adoro estar cercada de
pessoas que me inspiram e que trazem à tona o que há de melhor em mim.
Pessoas boas, inteligentes e que tenham compaixão. Por outro lado, não gosto
de enrolação. Vá direto ao ponto, eu aguento. Espero poder retribuir essas
mesmas qualidades aos meus amigos. O tempo é o maior presente que
recebemos, e todos temos uma quantidade limitada dele. Por isso, o melhor
presente que podemos dar a qualquer um é simplesmente isto: nosso tempo,
nosso amor.
Podemos escolher nossos amigos, mas não podemos escolher nossa família
— o que faz com que pais e irmãos sejam nossos primeiros e melhores professores. (Com certeza são os mais influentes.) Sempre fui extremamente
apegada à minha família, e poucas relações significam mais para mim do que
a que tenho com minhas cinco irmãs. Raque, Fofa, Pati, Gabi e Fafi — eu sei,
é muita gente — me consolam, me desafiam e me protegem. Elas trazem
estabilidade à minha vida. Minha família sempre me entende, e com eles eu
baixo a guarda completamente. Não dá para ser diferente! Eles conseguiriam
me ver através das minhas muralhas. Meus pais e minhas irmãs me conhecem
melhor do que ninguém e estão sempre me dando sua opinião, goste eu ou
não.
Por ser a mais velha, Raque, que tinha só 7 anos quando minha irmã gêmea
Pati e eu nascemos, é praticamente minha segunda mãe. (Há uma diferença
de 14 anos entre a Raque e nossa irmã caçula Fafi.) Quando a Pati e eu
chegamos ao mundo, minha mãe tomou uma atitude muito inteligente. Ela
disse a Raque e também a Fofa (que é dois anos mais nova que a Raque) que
cada uma podia escolher um bebê para cuidar e ajudar a dar mamadeira e a
trocar fraldas. O bebê em questão seria responsabilidade de quem o escolheu.
Por trabalhar duro como bancária no Banco do Brasil e com tantas meninas
em casa, minha mãe precisava contar com toda a ajuda possível. Raque pode
até ter sido minha segunda mãe, mas é também minha irmã mais velha e
adorava se divertir às nossas custas — qual irmão mais velho nunca fez isso,
né?
Nossa avó materna morava na zona rural, a cinco horas de distância da
nossa casa, ela fazia de tudo, incluindo criar e abater as próprias galinhas.
Sempre que havia uma cabeça de galinha dando sopa por lá, Raque gostava
de pegá-la e sair correndo atrás das minhas irmãs e de mim. Nós corríamos e
nos trancávamos no banheiro tentando escapar dela. Certa vez, fomos visitar
o lugar onde estavam enterrados meus avós maternos, e havia uma cerca que
separava o cemitério de um pasto onde tinha uma vaca. Vi um buquê de
flores de plástico no chão, então coloquei algumas das flores na cerca de
madeira para enfeitá-la e tentar deixar o lugar um pouco mais animado.
Quando voltamos lá, um tempo depois, as flores de plástico e a vaca haviam
sumido. Raque me disse que a vaca tinha engasgado com as flores de plástico
que eu havia deixado na cerca e morreu. Eu me senti péssima por vários dias,
mas então, de novo, quem não adora ter um irmão mais velho com tanto
senso de humor?!
Eu amo a Raque mais do que tudo, e ela tem minha gratidão eterna.
Sempre cuidou muito bem de todas nós desde que nascemos e, como filha mais velha, também é a guardiã oficial das memórias da família. Se minha
mãe não se lembra de alguma coisa que aconteceu quando éramos pequenas,
a Raque está sempre a postos para preencher as lacunas.
Graziela, a segunda mais velha — nós a chamamos de Fofa —, sempre
superou todas as expectativas. Foi a primeira a sair de casa para estudar numa
escola de ensino médio em Brasília, onde nossos avós paternos moravam. Ela
se mudou para lá, pois meus pais queriam dar às filhas a melhor educação
possível. Depois de estudar numa escola excelente e de fazer dois cursos ao
mesmo tempo em uma Universidade Federal, Fofa passou no concurso para
se tornar funcionária pública federal. Mais tarde, aos 26 anos, virou juíza
federal. Ela é provavelmente a mais justa e a mais racional e analítica de nós
todas, além de ser uma pessoa linda e altruísta. (O apelido dela na nossa
família é Madre Teresa.) Ela também é uma cozinheira de mão cheia e adora
receber a família toda na casa dela para provar suas deliciosas receitas.
Como irmã gêmea, sempre me perguntava: Onde eu começo e onde a Pati
começa? Ela e eu somos a mesma pessoa, duas partes do mesmo ser, ou
pessoas totalmente separadas? Ter uma irmã gêmea é como crescer com sua
própria régua ou termômetro personalizado. Isso ficou ainda mais claro para
mim quando, aos 10 anos, Pati foi diagnosticada com pneumonia dupla, e os
médicos não sabiam se ela iria sobreviver. Fiquei traumatizada. A ideia de
Pati estar à beira da morte era tão terrível que eu não conseguia compreender
direito a dimensão daquilo. Ela ficou em tratamento intensivo por quase um
mês, mas, para mim, pareceu uma eternidade. Durante a primeira semana,
não tive nem permissão para vê-la. Quando finalmente pude visitá-la, ela
sequer conseguia falar. Estava com tubos de oxigênio que a ajudavam a
respirar. Eu não parava de perguntar quando ela iria para casa, mas minha
mãe dizia que não havia como saber. Minha irmã gêmea esteve ao meu lado a
minha vida inteira e, de repente, não estava mais. Fiquei arrasada. Quando
Pati estava no hospital, prometi rezar a Deus todas as noites para que ela
melhorasse. Rezar era a única coisa que me consolava. De repente, a vida
parecia tão frágil, como se pudesse se quebrar a qualquer momento, num
piscar de olhos. Quando não estava sentada ao lado da cama da Pati no
hospital, estava em casa, no nosso quarto, dobrando e organizando as
camisetas e as calças dela, arrumando tudo para quando ela voltasse para
casa. Graças a Deus ela voltou, e daquele momento em diante comecei a
valorizar a vida de um novo jeito, com mais gratidão e com uma conexão
espiritual muito mais forte.
Como qualquer irmão ou irmã, a Pati e eu somos parecidas em algumas
coisas, e diferentes em outras. Na nossa adolescência, por exemplo, eu era
quase dez centímetros mais alta que ela. Pati era mais popular e sociável e
adorava ficar com as amigas dela, enquanto eu preferia ficar sozinha, subindo
em árvores e me perdendo em meu próprio mundo. Eu achava a Pati tão
legal! Ela também me inspirava na escola. Era ótima aluna, o que me
motivava a me esforçar mais e a ir bem nos estudos.
Sempre fui fascinada por música e adoro cantar. Na verdade, Pati, Gabi e
eu cantávamos no coral da escola. Era tão divertido! Como diz o velho
ditado, “Quem canta seus males espanta”. Aos domingos, em geral, fazíamos
churrasco, e meu pai sempre pegava o violão e a família inteira cantava. Eu
sabia que Pati não era muito confiante em relação à sua voz e me lembro de
perceber seu desconforto e de não querer que ela se sentisse mal. Mas tocar
violão e cantar com meu pai também era um dos pontos altos da minha
semana.
Gabriela, ou Gabi, era, e ainda é, a mais engraçada e a mais rebelde de nós
todas. Nunca havia um momento de tédio com ela por perto. Gabi é só um
ano mais nova que a Pati e eu, e crescemos como um trio, a versão brasileira
de Os Três Mosqueteiros. Se eu achava que dava trabalho para os professores
no colégio, aquilo não era nada se comparado com a Gabi, que estava sempre
metida em encrenca. Antes da Fafi nascer, a Gabi passou cinco anos sendo a
bebê da família, e não deve ter sido fácil para ela abdicar desse papel. Hoje a
Gabi é advogada, inteligente, engraçada e intensa, e provavelmente ainda
mais exigente com ela própria do que eu sou comigo mesma. Ela é
perfeccionista e sente que é dever dela “proteger” a todos da família, e, com
isso, às vezes se esquece de cuidar de si mesma. Felizmente, hoje está mais
consciente disso e se esforça para encontrar o equilíbrio.
Por fim, temos a Fafi, o meu bebê. Desde que a Fafi nasceu, me tornei a
segunda mãe dela, ou melhor, uma das cinco mães dela. Fafi gosta de brincar
que é a favorita da nossa mãe, mas acho que ela é a favorita de todas as mães
postiças também. Depois que a Fafi completou 7 anos, ela basicamente
cresceu como filha única, reinando sozinha na casa. Como todas as minhas
irmãs, Fafi é inteligente, linda, amorosa e solidária. Hoje virou meio que uma
segunda mãe para o Benny e a Vivi, e não há palavras para descrever minha
eterna gratidão por ela. Fafi também é a mais descolada da família. Foi ela
que me disse que eu devia ter uma conta no Instagram e no Facebook. Num
primeiro momento eu recusei. Nunca gostei de ficar muito tempo na internet, sempre fui muito reservada e não queria me expor daquela maneira. E aquilo
parecia exigir muita dedicação e tempo. Mas a Fafi me convenceu de que as
redes sociais eram o melhor modo de mostrar ao mundo quem eu realmente
sou, e tenho que admitir, ela tinha razão.
Assim como amo o Tom, meus filhos e meus pais, amo minhas irmãs mais
do que qualquer outra pessoa no mundo. Nós seis passamos nossas vidas
compartilhando, começando pelo nosso quarto, as roupas que usávamos e as
tarefas que dividíamos em casa. Vejo nós seis como colaboradoras, e poucas
coisas me dão mais alegria do que poder trabalhar com elas. Em certo
momento da minha vida, muitos dos meus relacionamentos — com meu
namorado, com a agente que há tempos trabalhava comigo — estavam
desmoronando ou sendo revelados pelo que realmente eram. Para que eu
sentisse que tinha ao menos um porto seguro, meu pai teve uma ideia. Afinal
de contas, quem sempre estava ao meu lado? Em quem eu confiava? Minhas
irmãs. Então, quando meu pai sugeriu que trabalhássemos juntas, aceitamos
num piscar de olhos. Eu me sinto tão grata por ter crescido cercada de seis
mulheres incríveis — minha mãe e minhas cinco irmãs. Tirando alguns
puxões de cabelo e arranhões quando éramos pequenas, sempre considerei
minhas irmãs as minhas melhores amigas, e não há nada no mundo que eu
não faria por elas, e sei que o sentimento é recíproco. Em pouco tempo, Pati
abriu uma empresa no Brasil, e uma a uma das minhas irmãs foram
embarcando no negócio. Num primeiro momento, nenhuma delas fazia a
menor ideia de como o mundo da moda funcionava, e por que deveriam
fazer? Nunca haviam trabalhado com isso antes, mas se dedicaram a
aprender. Nos últimos dez anos, todas trabalhamos juntas, exceto Fofa, que
ainda é juíza federal, embora isso não a impeça de opinar sempre que uma
grande decisão precisa ser tomada. Confio muito nas minhas irmãs. Somos
todas tão diferentes, mas, como meu pai diz, nós nos completamos, nos
ajudamos a crescer, e, de um modo geral, somos ótimas juntas! Mesmo
quando temos divergências, ou somos duras umas com as outras em certos
momentos, nós sempre vamos nos amar e nos proteger, não importa o que
aconteça. Todas elas são incríveis no que fazem. Somos uma família, mas
também somos uma ótima equipe.
O que não significa que não haja momentos em que uma de nós fique
aborrecida e comece a gritar. É comum os integrantes de uma família
reservarem para si as palavras que mais machucam. Como já falei, com
família a gente baixa totalmente a guarda. Ainda assim, se alguém não estiver me tratando bem, seja um amigo ou uma das minhas irmãs, minha reação é
sempre a mesma: Só vou permanecer numa relação que tenha amor e
respeito. Quando você estiver pronto para retomar uma relação de amor e de
respeito, ficarei feliz em conversar com você. Se você ainda não está pronto,
ok. Estarei aqui quando estiver.
Aprendemos muito com as nossas famílias. E, depois, se formamos uma
nova, aprendemos muito mais. Principalmente com nossos filhos. A sensação
que tenho é de que tudo se tornou verdadeiro, real e sem filtros com meus
filhos. Casar-me e ter filhos me colocou frente a frente com um conjunto de
espelhos totalmente novo. Já reparei que tudo que há de instável ou de
extremo na minha personalidade tem um jeito engraçado de respingar no meu
marido e nos meus filhos e refletir de volta para mim!
Com todas as minhas irmãs comemorando o Ano-Novo em Los Angeles, no ano 2000. Da esquerda para a direita: Raque, Fofa, Fafi, eu, Gabi e Pati.
Sempre fui uma pessoa impaciente. (Meus filhos e minhas irmãs já
deixaram isso muito claro.) Geralmente tenho muitas ideias, projetos e
interesses rolando ao mesmo tempo. Sou definitivamente hiperativa, mas, de
certa forma, sinto que isso foi útil para mim. Minha mente às vezes trabalha
mais rápido que a capacidade que a minha boca tem de articular as palavras, e
sou o tipo de pessoa que gosta das coisas para ontem. Portanto, a impaciência
sempre foi um grande problema para mim. Hoje estou melhor do que
costumava ser, e isso graças aos meus filhos, mas ainda tenho uma longa
jornada pela frente. Não é da natureza do Benny ser impaciente, mas no ano
passado percebi que ele estava começando a ficar irritado. Bom, como eu
sabia que ele não estava puxando esse tipo de comportamento do Tom, de
quem seria se não de mim? Ser mãe me inspirou a buscar me aperfeiçoar
mais que de costume porque sei que sou eu que estabeleço o tom emocional
da família, e também funciono como espelho para meus filhos e meu marido.
Sempre lembro aos meus filhos de que todos estamos aqui aprendendo, e que
nosso aprendizado não termina nunca.
Já falei sobre como a adolescência e o início da juventude são uma época
de intensa negociação interna. E poucas experiências nos ensinam mais sobre
nossas vontades, necessidades e expectativas do que um relacionamento
amoroso. No passado, estive em namoros que me davam a sensação de nadar
contra a correnteza de um rio, e outros em que a água era calma e estável.
Quando escolhi o Tom para ser meu companheiro de vida, tive a sorte de
encontrar um homem mais calmo que impulsivo. Os parceiros de equipe dele
são testemunhas: o Tom é alguém com quem você pode contar. É uma
qualidade que eu não tinha sentido ter encontrado em nenhum dos meus
relacionamentos amorosos anteriores. Eu amo meu marido — e, acima de
tudo, confio nele. Com Tom, que dá uma base estável à nossa família, sou
capaz de criar um lar.
Nós também nos complementamos. Temos valores semelhantes. Somos
disciplinados quanto a rotinas e hábitos diários. Estamos os dois
comprometidos com a boa saúde e nutrição (a diferença é que eu como doce
quando tenho vontade, o Tom geralmente não). Meu marido é racional,
analítico, um homem de poucas palavras. Já eu sou emotiva, intuitiva,
inquieta, uma mulher de muitas palavras. Aprendi muito com o Tom. Quando
o Benny era menorzinho, deslocou o cotovelo e começou a gritar. Fiquei em
pânico até o Tom aparecer e controlar a situação. É possível que eu nunca vá
conseguir ser tão tranquila, calma e controlada quanto ele, mas estou
trabalhando nisso. Gosto de acreditar que a estabilidade e o equilíbrio do
Tom me dão o espaço e a liberdade de que preciso para voar, e que o
passarinho dentro de mim reconhece — e o Tom gosta de me lembrar disso
— que está bem preso a uma corda invisível e fininha que ele guarda lá no
fundo do bolso.
Com minha família, assumi naturalmente o papel de cuidadora. O dia de
trabalho do Tom é longo e cansativo, e, quando chega em casa, quero dar
atenção a ele. Mas, desde o começo, o Tom confiou em mim o suficiente para
conversar comigo — conversar de verdade —, e com o tempo aprendi a parar
de falar tanto e comecei a me tornar uma ouvinte melhor. Como meu pai
gosta de dizer, é por isso que a gente nasce com uma boca e dois ouvidos.
Às vezes, acho que colocamos muita pressão e responsabilidade em nossa
vida conjugal. Esperamos que nossos companheiros sejam nossos amantes,
melhores amigos, conselheiros, que sejam tudo para nós. Isso não quer dizer
que ao longo de qualquer relacionamento nós não desempenhemos esses
papéis, e que nossos parceiros não façam o mesmo por nós. Mas por que uma
pessoa deveria ser responsável pela nossa felicidade? Isso coloca muita
pressão no relacionamento, e me parece injusto e limitante para ambos.
Afinal, nossas vidas são feitas de tantas relações, e aprendemos coisas tão
diferentes com todas elas.
Benny e Vivi dando amor e carinho ao papai na cozinha em Boston, depois de uma derrota amarga em 2016.
Cada relacionamento tem algo a acrescentar à nossa vida, mesmo os
difíceis. Sinto que em qualquer relação estamos aprendendo ou ensinando,
ou, às vezes, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Adoro harmonia, e
amo viver em harmonia com as pessoas ao meu redor — e creio que nada
gera mais harmonia do que tratar os outros como gostaríamos de ser tratados.
A energia e a intenção que você coloca são o que conta. Ao compartilhar
amor, é mais provável que vá receber amor. Mas, mesmo quando isso não
acontece, simplesmente continuo oferecendo amor. É assim que eu sou, e é o
que sempre me fez sentir bem.
Na minha cabeça, não há nada mais maravilhoso do que viver a vida
construindo relações significativas. Não é incrível quando uma pessoa pode
contar de verdade com você, e então, anos depois, sem que estivesse
esperando nada em troca, você descobre que pode contar com ela? Quão
incompleta seria a vida sem essas relações? Não se trata de correr para chegar
ao destino; trata-se de aproveitar a viagem ao longo do caminho, e essa
viagem é feita de momentos, experiências e interações com outras pessoas —
e, às vezes, com animais. É isso o que cria as nossas memórias. É isso o que
realmente importa.
O instinto também tem um papel importante em nossas novas relações.
Afinal de contas, você nunca sabe quando vai conhecer as pessoas que podem
acabar tendo uma influência positiva e duradoura na sua vida. Sempre que
ouvi minha voz interior, dei sorte. Há alguns anos, lembro-me de ter ouvido
falar de um cara chamado Pedro, que era uma figura importante na
agricultura regenerativa no Brasil. Certo dia, quando estava em São Paulo, vi
o Pedro na capa de uma revista na mesa do meu hotel. Liguei para minha
irmã, Pati, para ver se era possível marcar uma reunião com ele. Pati marcou
a reunião, e logo meu pai, Gabi, Fafi e eu fomos visitar o Pedro na linda
fazenda dele, onde tivemos uma ótima conversa sobre a natureza e sobre a
necessidade de todos trabalharmos com empenho para proteger o planeta. Mais ou menos na mesma época, me convidaram para participar do
documentário O começo da vida, sobre a importância dos primeiros 24 meses
de vida de uma criança. Sabendo que a diretora do filme, Estela, é uma
apaixonada por educação e desenvolvimento na primeira infância, quis
ajudar, então obviamente aceitei. Durante as várias reuniões que tivemos
depois com o Pedro, soube que ele era muito amigo da Ana Lu, que
trabalhava com a Estela e que criou o Instituto Alana, dedicado a promover o
desenvolvimento integral da criança. Poucos meses depois de conhecer o
Pedro, me encontrei com a Ana Lu, com o marido dela, Marcos, e com a
Estela, quando eles estavam em Boston. Tivemos uma conexão positiva
instantânea. Então combinamos de jantar na casa da
Ana e do Marcos da próxima vez que eu estivesse no Brasil. Quando nos
reunimos, discutimos como poderíamos unir forças para criar uma mudança
positiva no mundo. Sentamos num círculo no gramado sob a lua cheia mais
linda e compartilhamos ideias e crenças sobre a promoção de um mundo
melhor através da disseminação da positividade e da esperança.
Uma foto dos meus amigos do Believe.Earth, logo após o discurso que fiz no Rock in Rio (da esquerda para a direita) Pati, Estela, eu, Ana Lu, Marcos e Pedro.
Foi assim que nasceu o Believe.Earth. A intenção era criar uma plataforma
para contar histórias de pessoas que estão contribuindo positivamente para o
mundo. Nossa missão é Se você acreditar, o futuro pode ser inacreditável.
Como eu poderia saber que o Pedro, a Estela, a Ana e o Marcos eram
amigos? Ou que meu instinto de entrar em contato com o Pedro e o fato de eu
participar do documentário O começo da vida iria criar a centelha que me
levou a conhecer todas essas pessoas do bem e nos inspirou a criar o
Believe.Earth? A vida é realmente uma aventura, e nunca sabemos aonde
nossas amizades vão nos levar — e é isso o que as torna tão interessantes e
especiais.
Acredito que nossas relações — incluindo a nossa vida conjugal — vêm
até nós para ajudar no nosso crescimento e para nos dar a oportunidade de
aprender a criar felicidade e satisfação. Todas as nossas relações juntas
formam um tipo de mosaico. No meu, a maior área pertence a Tom, Benny,
Vivi, Jack e nossas famílias. Há também partes do mosaico da minha vida
que pertencem aos amigos que fiz logo que cheguei a Nova York — Nino,
Helly, Robby, Jody, Anne, Harry, Amber, Kevin e Katie. Outras partes estão
reservadas aos meus amigos de infância em Horizontina e aos amigos que
tenho em todas as partes do mundo, que me inspiraram e compartilharam
minha paixão e meu propósito de tornar o mundo um lugar melhor. Outros
representam amigos que fiz na escola dos meus filhos, e amigos que o Tom e
eu fizemos juntos. E, mesmo assim, ainda há grandes porções em branco.
Esse espaço está reservado para todos os amigos e professores que ainda não
conheci. Meu objetivo é continuar a aprender sobre mim mesma e sobre os
outros até meu último suspiro — vivendo a vida em toda a sua plenitude. É
por isso que estou aqui.
No meu chá de bebê com alguns dos meus amigos mais queridos, em Boston, em 2009.
Um dos relacionamentos mais longos e mais importantes que tive não foi
com outra pessoa. Foi com uma cachorrinha. Uma cachorrinha linda,
engraçada, brincalhona, carinhosa e irresistível chamada Vida. Não há um dia
em eu que não pense nela e não sinta sua falta. Pode acreditar quando digo
que não teria realizado tanto na minha carreira ou na minha vida sem ela.
Vejo os cães como anjos da guarda, como protetores em forma de
bichinhos. A Vida e eu nos conhecemos quando eu tinha 18 anos. Por dois
anos vivi em Nova York, só com uma mala, num apartamento de modelos —
quatro quartos com dois beliches cada, um dormitório rotativo para garotas
do mundo todo —, na East 35th Street. Eu trabalhava literalmente todos os
dias e à noite decorava frases em inglês ouvindo fitas da Mariah Carey e do
Boyz II Men, já que estava ocupada demais para frequentar o curso intensivo
de inglês.
Desde que saí do Brasil, vivia totalmente independente e era dona do meu
nariz. Mesmo sendo uma menina de 18 anos morando a quase 8 mil
quilômetros de distância da minha família, não me via como uma pessoa
solitária. Mas talvez me sentisse mais sozinha do que imaginava, porque,
quando a Vida cruzou o meu caminho, ela me deu todo o aconchego e todo o
amor de que eu nem sabia que carecia.
Vi a Vida pela primeira vez na vitrine de uma loja chamada American Kennels. Estava indo para algum teste ou voltando quando avistei a menor e
mais adorável cachorrinha que já tinha visto, toda serelepe num ninho de
palha, na esquina da Madison Avenue com a 62nd Street. Era tão pequena que
cabia na palma da minha mão. Entrei, me sentei no chão e brinquei com ela
por algumas horas. Perdi a noção do tempo. Só de vê-la na vitrine fiquei
apaixonada, mas passar um tempo com ela oficializou a relação. Ela, Vida,
era especial. Eu tive certeza. Descobri que era da raça Teacup Yorkie
(Yorkshire Terrier mini), sobre a qual eu não conhecia nada. Mas soube que
seria impossível sair daquela loja sem ela.
Era fim de tarde e, pouco antes do horário de fechamento da loja, entreguei
meu cartão de crédito ao caixa. Custava trezentos dólares, bem caro, pensei,
mas me lembrei de que a American Kennels vendia cães com pedigree para
os moradores de uma região nobre, o Upper East Side, e não tinha nada de
canil de fundo de quintal. Saí da loja com a minha nova melhor amiga, com
ela aninhada dentro do meu casaco para ficar quentinha, e começamos nossa
grande aventura juntas. Naquele momento, minha vida mudou. Não se
resumia mais a morar em Nova York, trabalhar o tempo todo, decorar letras
de música da Mariah Carey e do Boyz II Men debaixo das cobertas. Agora
éramos Vida e eu contra o mundo!
Eu com minha trança e meu brinco de pena, e a bebê Vida, alguns dias depois de nos conhecermos, na frente do prédio
onde ficava o apartamento que subloquei na 10th Street com University Place em Nova York (tinham nos expulsado do apartamento das modelos). Olha só como a Vida era pequeninha! Olha essa carinha!
Havia só um probleminha: o apartamento das modelos tinha uma regra
rígida que proibia animais de estimação. Eu não podia ficar lá com a Vida.
Mas não ia devolvê-la para a loja, isso estava fora de questão. Contei para as
outras meninas que minha cachorrinha pesava menos de um quilo e que cabia
literalmente na palma da minha mão. Ainda assim contava como animal de
estimação? As regras do prédio se aplicavam a uma coisinha tão pequena?
Será que eu podia ficar lá só mais uma noite e bolar um plano pela manhã?
No dia seguinte, sabendo que não tinha dinheiro suficiente para alugar um
apartamento ou me hospedar num hotel, encontrei um quarto numa república
perto do túnel Midtown — banheiro compartilhado, chuveiro compartilhado,
um quarto pequeno e escuro com apenas uma cama e uma pia —, onde fiquei
morando pela semana seguinte. Era um lugar assustador e sombrio. Quando
contei à minha agente sobre minha nova moradia, ela me disse que temia pela
minha vida. No dia seguinte, achou um apartamento para sublocar no West
Village que pertencia a outra modelo que ia ficar em Paris a trabalho pelos
meses seguintes.
Vida ainda não tinha nome. Eu a abraçava e a apertava enquanto dizia:
Minha vida! Minha vida! Então ela passou a se chamar Vida. Foi o nome
perfeito para ela, porque Vida realmente se tornou a minha vida. Então,
alguns dias depois que me mudei para o apartamento sublocado, o telefone
tocou. Era minha mãe, e estava furiosa. Eu era dependente dela no cartão de
crédito, e a fatura havia acabado de chegar pelo correio. Naquela época, eu já
tinha uma boa exposição como modelo e estava montando meu portfólio, mas
ainda não ganhava muito dinheiro. Quando fazia desfiles ou editoriais de
moda nas revistas, geralmente saía com algo em torno de cem dólares. Tinha
um dinheirinho guardado de quando trabalhei no Japão, e minha agência me dava adiantamentos que eram deduzidos dos trabalhos que eu arrumava, mas
minha mãe e eu ainda tínhamos conta conjunta, já que ela achava que eu era
jovem demais para ficar totalmente encarregada das minhas próprias
finanças. Foi assim que ela soube que eu havia gastado três mil dólares numa
loja chamada American Kennels, e Gise, você sabe quanto dinheiro é isso, e,
pelo amor de Deus, onde tu tava com a cabeça? Senti o estômago embrulhar.
Não tinha reparado naquele zero a mais. Se eu já achava trezentos dólares
muito, três mil era algo inimaginável. Eu ouvia o que minha mãe estava
dizendo — ela trabalhava como caixa de banco e sabia o valor do dólar. Mas
ela tinha que entender. Fossem trezentos ou três mil dólares, comprar Vida
foi a melhor coisa que eu fiz. Mãe, eu ficava dizendo, você não entende.
Estamos falando da Vida!
Digo e repito, tudo que conquistei na minha carreira ou na minha vida
pessoal não teria sido possível sem a Vida. Ela sempre estava lá para me
apoiar. Era a única constante no meu mundo. Todo dia ela me deixava mais
feliz, mais alegre e mais completa. Era meu anjo, meu escudo, minha guarda-
costas, meu bebê, minha filha, minha mãe, minha melhor amiga. Com a Vida
por perto, eu nunca estava sozinha. Podia ser apenas uma menina normal de
18 anos.
Quando a modelo de quem subloquei o apartamento voltou de Paris,
subloquei outro imóvel — desta vez na 58th Street com a Oitava Avenida —
que achei pelos classificados do jornal. Esse apartamento custava seiscentos
dólares por mês, tudo o que eu podia pagar na época. Era uma quitinete que
parecia um ovo, a cozinha tinha aqueles fogões elétricos com duas bocas e
um frigobar, o chuveiro do banheiro era uma mangueira pendendo do teto. As
prostitutas se reuniam todas as noites na esquina da rua. Eu dormia num
colchão no chão, com a Vida ao meu lado. Certa noite, vi alguma coisa se
deslocando devagar na penumbra e chamei: “Vida?” Mas dava para sentir o
corpinho dela junto ao meu, então, quando acendi a luz, vi um rato três vezes
maior que a Vida rastejando bem perto de mim. Na manhã seguinte, comprei
ratoeiras no mercado. Não só porque minha mãe estava prestes a chegar para
me visitar, mas fiquei sabendo que ratazanas poderiam comer uma criaturinha
tão pequena como a Vida.
Vida chorava muito quando pequena, então resolvi levá-la comigo para
onde quer que fosse. Eu tinha uma bolsa pequena, tipo sacola. Quando
pegava a bolsa, ela ficava pronta para ir. Vida saltava dentro da bolsa,
colocava a cabecinha para fora, e nós duas saíamos por aí. Ela não tinha medo de nada. Acho que pensava que era um esquilo-voador. Mesmo quando
eu passava por ela casualmente com a bolsa aberta, escutava um barulho de
vento, como o bater de asas, e de repente minha bolsa ficava dois quilos mais
pesada.
Em pouco tempo, Vida se tornou uma figurinha constante nos estúdios
fotográficos e nos desfiles. Todo mundo sabia que ela era minha cachorrinha.
Ela ficava sentada no meu colo enquanto arrumavam meu cabelo e faziam
minha maquiagem. Durante os desfiles, ela ficava dentro da bolsa ou num
cantinho presa na coleira, do contrário ela correria pela passarela atrás de
mim. Vida era extremamente sociável. Gostava de passear e de fazer novos
amigos. Sabendo quanta distância ela podia percorrer, as pessoas começaram
a usá-la como mensageira. Vida aparecia com um post-it amarelo na coleira:
Oi, Gisele, acabei de dar bacon para a Vida, ou Oi, Gisele, você pode me
encontrar no estúdio seis, por favor? Uma vez Vida apareceu nos bastidores
com apliques de cabelo, e outra vez meu querido amigo fotógrafo Steven
Meisel fez uma Polaroid dela com a legenda VOGUE ao fundo, e assim Vida
estreou como capa de revista. Mais de uma vez eu a avistei no meu camarim
com metade de um bagel (um tipo de pão pequeno, duro e em forma de anel)
na boca. Depois que ela começou a inchar como um balão, tive que implorar
às pessoas que não dessem guloseimas para ela. Se por alguma razão eu não
pudesse levar a Vida comigo para o trabalho, ela me esperava em casa e me
recebia toda animada, pulando no meu colo. Toda noite ela dormia ao meu
lado na cama, ou no meu travesseiro, com o rostinho colado ao meu. À noite
eu sentia as batidas rápidas do coraçãozinho dela. Era como se nós duas
estivéssemos conectadas por um cordão invisível. Ela era tanto parte de mim
quanto eu era dela.
Minha mãe e eu na frente do prédio onde morei por um tempo em 1998, o mesmo lugar onde certa noite vi um rato maior que a Vida.
Quando eu não estava trabalhando ou dormindo, estava dentro de um avião
indo para o próximo trabalho. Não importava para onde fosse — Europa,
Extremo Oriente —, a Vida ia comigo. Ela era uma ótima passageira,
silenciosa e bem-comportada. Vida estava ao meu lado quando conheci o
Tom, quando o Jack era pequeno, e quando o Benny nasceu. Quando me
mudei para Boston, Vida imediatamente deixou muito claro que ela era a
rainha da casa, o cão de guarda, a protetora da família. Quando Benny era
pequeno, se qualquer um ousasse entrar no quarto dele quando estivesse
dormindo, Vida rosnava. Tom também amava a Vida. Ela já não era mais
uma filhotinha na época, e sempre que eu tinha que fazer uma viagem de um
ou dois dias, o Tom a levava para o Gillette Stadium para que ela não tivesse
que ficar o dia inteiro sozinha. Sem brincadeira, ele amava fazer isso! Um dia
me contou que a Vida costumava perseguir o Randy Moss, wide receiver dos
Patriots, pelo vestiário, e que Randy tinha medo dela.
À medida que o tempo passou, o corpo da Vida começou a enfraquecer.
Raças como a dela são particularmente vulneráveis a colapso de traqueia. A
traqueia dela ficou tão estreita que dificultava a passagem de ar. Nossa
família inteira estava em Los Angeles no dia em que ela ficou mal. Eu estava
no fim de umas férias curtas e tinha voo marcado para Nova York no dia
seguinte para trabalhar. Estava curtindo uma tarde de descanso na jacuzzi
com o Jack, que na época tinha 5 anos, e o Benny, que tinha 2, quando a Vida
apareceu e, em seu melhor estilo esquilo-voador, saltou para dentro da água
quentinha com a gente. Rapidamente eu a tirei de lá. Imaginei que fosse se
sacudir ou rolar na grama do jeito que sempre fazia quando se molhava. Mas,
alguns minutos depois, Ben, que era assistente do Tom na época e nosso
amigo, veio correndo com a Vida nos braços — ela estava tremendo e quase
não conseguia respirar. Entrei em pânico. Não podia deixar os meninos
sozinhos, e ela precisava ir com urgência para a clínica veterinária, então pedi ao Ben que corresse e a levasse para lá.
Quando eles chegaram à clínica da Dra. Lisa, ela logo sedou a Vida. A
veterinária disse ao Ben que a Vida estava tendo cada vez mais dificuldade
para respirar por causa do colapso da traqueia, o que significava que naquele
momento sua traqueia estava menor que a espessura de um canudinho. Vida
precisou ficar sedada em observação na clínica veterinária, e meu coração se
partiu quando precisei ir para Nova York — onde tinha uma obrigação
contratual a cumprir — na manhã seguinte. Esperei que fosse ser só um
pesadelo e que a Vida fosse melhorar, mas, quando a veterinária me ligou no
dia seguinte para dizer que ela estava piorando e que talvez não fosse durar
muito mais, eu pedi mil perdões — Sinto muito, sinto muito, eu tenho que ir
embora correndo — e, assim que acabou o trabalho, saí correndo e peguei
um voo de volta para Los Angeles.
Minha companheirinha e eu no meu último trabalho antes do Benny nascer, em 2009.
Quando cheguei a Los Angeles, a Vida ainda estava sedada — só assim
conseguia respirar — e praticamente não se mexia. Nós duas passamos o dia
todo juntas. No gramado atrás da nossa casa, havia uma área com uma
pequena cachoeira e um laguinho, cercados de árvores. Era um lugar
tranquilo e isolado. Envolvi a Vida numa cobertinha e nós duas ficamos lá
sentadas até escurecer. Eu a ninava, e ela fechava os olhinhos e depois
acordava. A última coisa que eu queria era que ela sufocasse ou que sentisse
qualquer dor. A veterinária tinha me dito que viria até minha casa naquela
noite. Quando chegou, Vida ainda estava nos meus braços, enrolada na
cobertinha.
Levando Vida e Jack para visitar o papai no treino, em 2008.
Coloquei um cristalzinho de quartzo rosa em formato de coração nas
dobras da cobertinha e enrolei nela minha echarpe favorita, sobre a qual Vida
adorava dormir. Coloquei a boca bem perto do rostinho dela e disse:
Obrigada, Vida, por ter cuidado tão bem de mim. Agora é minha vez de
cuidar de você. Você vai dormir agora e, quando acordar, não vai mais estar
dentro do seu corpo. Obrigada, Vidinha — obrigada, obrigada, obrigada. A
Dra. Lisa não podia ter sido mais gentil, bondosa ou respeitosa. Minha
melhor amiga deu seu último suspiro nos meus braços. Eu não conseguia
parar de chorar. Eu a enterrei junto com alguns dos meus cristais favoritos,
enroladinha na echarpe que nós duas adorávamos.
Antes de eu conhecer a Vida, os cães sempre fizeram parte da minha
história. Durante minha infância no Brasil, tive alguns vira-latas — Xuxa,
Suzy, Fofo, Preto — e, depois de me mudar para Los Angeles, com vinte e
poucos anos, fui até o canil South Central onde adotei Hazel, e também tive
Willy e Django. Depois que o Tom foi apresentado à Vida, declarou que ele
também queria um cachorro. Um macho bem grandão! Desconfio de que
alguns de seus companheiros de time estivessem tirando sarro dele quando
levava a Vida para o treino. Pelo site Petfinder (que ajuda achar casas para
cachorros de rua), encontramos Lua e o irmão dela. Eu disse ao Tom que
sentia muito, mas que não ia pegar mais dois cachorros. Afinal, eu estava
grávida, e nós já tínhamos dois cães na Costa Rica. A irmã do Tom, Nancy,
se ofereceu para ficar com o irmão da Lua. Então, após alguns anos, Tom
disse que desde criança sempre quis ter um beagle. Em poucos dias, um
beagle se materializou na nossa porta como que por mágica. Scooby tinha 3
anos, e Tom disse que era adotado. Ele sabia que se dissesse a palavra
“adotado” eu jamais reclamaria, e não reclamei. Foi assim também que
encontrei Pepe e Negrita, os dois cães que recolhi das ruas na Costa Rica e
que agora moram na nossa casa de lá. (Se vejo um cão ou gato ou qualquer
outro animal abandonado na rua, de jeito nenhum os deixo lá para sofrer, por isso tive tantos cães e 14 gatos quando era pequena.)
Dando adeus à minha melhor amiga, no dia em que ela partiu da Terra, em Los Angeles, em 2012.
Tentando achar um espaço na cama, em 2008. Ali atrás é a Vida, Willie bem na frente e Hazel descansando ao lado do Tom. (É claro que isso foi antes de termos filhos).
Poucas semanas depois de o Scooby chegar, minha amiga Sam, que mora
em Los Angeles, ligou para contar que uma amiga dela tinha encontrado uns
filhotinhos abandonados na rua e, sabendo que os outros três filhotes tinham
conseguido um lar, peguei um. Vivi batizou a nova cachorrinha de Fluffy,
mas todo mundo a chama de Fluffers.
Eu amei todos os meus cães. Amo os cachorros que tenho hoje. Mas nunca
amei tanto um cachorro como ainda amo a Vida. Hoje, na nossa casa em
Boston, tenho um altarzinho onde fica o cristal de quartzo rosa em formato de
coração que eu tinha colocado no meio da cobertinha dela em seus momentos
finais. Não quis enterrá-lo junto com ela. Quero ter uma parte dela comigo
para sempre. Mas quis enterrá-la com a echarpe que nós duas amávamos.
Disse a mim mesma que a echarpe a protegeria da terra fria e a manteria
aconchegada e quentinha. Aquele cristal de quartzo rosa é a única lembrança
física que tenho do nosso último dia juntas. Vida me proporcionou memórias
felizes que jamais esquecerei. Pode parecer loucura dizer que uma
cachorrinha foi meu anjo da guarda, melhor amiga, protetora, defensora e
fonte constante de alegria e de felicidade na minha vida — mas é verdade.
Vida foi o serzinho mais adorável, doce, inteligente, engraçado e corajoso
que já conheci. Nem um dia se passou sem que ela fizesse com que eu me
sentisse especial, feliz e amada. Sei que Vida consegue me ouvir quando digo
a ela, repetidas vezes, obrigada. A mamãe vai amar você pra sempre.