Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado
1 Tudo começa com a disciplina
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Tudo começa com a disciplina
Disciplina é uma palavra difícil de se gostar, principalmente quando se é
jovem. Não posso deixar para pensar nisso daqui a alguns anos? É uma
palavra que parece pertencer à vida militar, a colégio interno, ou a uma lista
de regras e regulamentos que nos impedem de fazer algo que queremos. A
disciplina pode parecer às vezes inimiga da diversão e da felicidade, um
enredo adulto projetado para abafar a alegria e a inspiração.
Na verdade, não é nada disso. A disciplina é mais que só trabalho duro, é
onde o processo se inicia. Desde que me entendo por gente, sempre fui
extremamente organizada e esforçada, seja quando estava ajudando minhas
irmãs a limpar a casa, praticando esportes, estudando para a escola,
trabalhando como modelo ou, mesmo hoje, sendo esposa e mãe que trabalha
fora. E é por isso que sinto uma conexão tão forte com este primeiro
aprendizado: Tudo começa com a disciplina. Acredito que todo sucesso que
eu tenha alcançado na vida seja resultado de foco, trabalho árduo, dedicação,
pontualidade, fazer o que era necessário, sempre dando 100% de mim em
tudo o que fazia — e ainda é assim que levo a vida: com disciplina.
Na nossa casa, era importante ter disciplina. Com seis crianças, todas
meninas, tagarelando ao mesmo tempo, era uma necessidade. Minha mãe
estava sempre correndo de lá para cá, se esforçando ao máximo para cuidar
de todas nós. Todos os dias, às seis horas da manhã, ela acordava e nos
preparava de café da manhã leite batido com abacate, banana ou maçã e um
pouco de açúcar, ou às vezes fazia torradas, que é como no Rio Grande do
Sul a gente chama o misto-quente. Depois disso, minha mãe — ou meu pai
— nos levava para o colégio e ia para o trabalho, voltando para casa ao meio-
dia para que pudéssemos almoçar todos juntos. Nos fins de semana, ela
acordava ainda mais cedo para lavar nossas roupas, preparar comida e
congelar as refeições para a semana seguinte.
Com oito pessoas compartilhando três quartos e dois banheiros, minhas
irmãs e eu entendemos desde cedo que tínhamos de ajudar. Cada uma de nós
recebia uma tarefa de limpeza antes de podermos sair para brincar. Quando
Raque ou Fofa tocavam o sino, cada uma ia para o seu posto.
O dia em que Pati e eu nascemos, em 20 de julho de 1980. Minhas irmãs e minha avó materna foram nos conhecer.
Sempre tirávamos fotos de família em frente à árvore de Natal num canto da nossa casa. No alto, da esquerda para a direita: Raque e minha irmã gêmea, Pati. Embaixo, da esquerda para a direita: meu avô paterno, Walter, Gabi, Fofa, eu com a boca aberta, e minha avó paterna, Lucila, segurando a Fafi no colo.
Quase sempre eu era encarregada de limpar o banheiro e geralmente
passava um tempão esfregando o espaço entre os ladrilhos com uma escova
de dentes até tudo ficar tão limpo que daria para comer no chão. (Para me
sentir bem, sempre precisei que os espaços à minha volta estivessem limpos e
organizados. Se há bagunça ao meu redor, não consigo nem pensar direito.)
Minhas irmãs e eu também servíamos extraoficialmente como “mães” das
mais novas. Com 8 anos, eu me lembro de trocar as fraldas da minha irmã
Fafi e, depois, de ajudar minhas irmãs mais velhas a fritar pastéis, que
ajudávamos nossa mãe a preparar do zero — massa dobrada e fechada com
recheios de frango, carne, ou queijo e espinafre.
Boa menina, diziam meus pais sempre que uma das minhas irmãs ou eu
fazia alguma coisa bem-feita, quando éramos educadas, quando fazíamos o
que nos era pedido, quando nos esforçávamos, tirávamos boas notas ou
jogávamos uma boa partida de vôlei. Mas, mesmo se os planos não saíam
como o esperado, minha mãe e meu pai sempre nos faziam sentir que
tínhamos feito o nosso melhor quando nos dedicávamos e nos esforçávamos.
Boa menina era um superelogio. Sempre me deixava orgulhosa do esforço
que eu tinha feito.
Estivesse eu esfregando azulejos no banheiro, estudando sem parar para ir
bem na escola, ou praticando esportes, sempre colocava muito foco e
motivação em tudo o que fazia. Aos 10 anos, quando comecei a jogar vôlei,
disse a mim mesma que, para ser boa naquilo, precisaria treinar pelo menos
duas horas por dia. Decidi que treinaria com a maior garra possível para
entrar na equipe, e talvez até no time da categoria logo acima da minha. O
modo como eu encarava os estudos não era diferente. Se não era boa em uma
matéria, ficava acordada a noite inteira estudando, se necessário, até tirar um 10. Disciplina nunca foi uma ideia distante nem algo que eu viria a
desenvolver mais tarde na vida. Sempre fez parte de mim dar o meu melhor,
deixar meus pais orgulhosos, não decepcionar ninguém. Se eu desejava ser
bem-sucedida em algo, não ficava só imaginando o que queria nem
esperando que isso surgisse do nada, na expectativa de que alguém fosse me
entregar o que eu desejava de mão beijada. Eu sabia que tinha de botar a mão
na massa e fazer acontecer, mesmo se estivesse um pouco temerosa e
parecesse algo impossível. Sempre me esforçava ao máximo, porque, se
desse qualquer coisa menos que o meu melhor, sabia que ficaria chateada
comigo mesma. Além disso, por trás do meu senso de disciplina, existia a
forte sensação de que, qualquer que fosse o meu objetivo, conseguiria
alcançá-lo se me esforçasse o suficiente. Mesmo quando tinha medo, nunca
me sentia desencorajada. Eu me sentia desafiada.
Com o tempo, acabei me tornando mais disciplinada ainda, provavelmente
porque conseguia ver os resultados diretos desse meu modo de agir. Aos 14
anos, quando deixei minha cidade e minha família para me mudar para São
Paulo e tentar a carreira de modelo, eu estava determinada. Dizia a mim
mesma: Não volto para casa de mãos vazias. Não vou desapontar meus pais
e minhas irmãs. Vou ralar muito, o máximo que puder, e fazer o que tiver de
fazer, mesmo que isso signifique trabalhar dia e noite. Sem disciplina, talvez
eu tivesse pegado o primeiro ônibus de volta para casa. O trabalho era
intenso, e eu sentia saudade da minha família. Quase sempre me sentia
sozinha. Mas fiquei em São Paulo e persisti. Uma oportunidade surgia,
seguida de outra e então mais uma. E eu continuava me dedicando.
Minha amiga Maqui, eu, minha amiga Kaká e minha irmã Pati com nossas roupas de Paquitas, pouco antes da apresentação no festival de música de Horizontina, em 1992.
Em 1999, após assinar contrato com a Victoria’s Secret, passei a trabalhar
350 dias por ano. Durante uma temporada padrão de desfiles, em um único
dia poderia participar de até seis desfiles, seguidos de várias provas de roupas
para o dia seguinte. Cabelo e maquiagem podiam começar às seis da manhã,
e as provas às vezes se estendiam até o raiar do dia seguinte. Não importava
se tivesse ido para a cama às duas da madrugada fazendo prova de roupa na
noite anterior. Eu sempre chegava para trabalhar todas as manhãs
pontualmente. (Não era um cenário muito glamoroso. Raramente alguém me
oferecia um copo d’água, e algumas pessoas se sentiam à vontade para me
criticar na minha cara.) Na adolescência e no início da juventude, eu me
lembro de ter conhecido uma modelo mais linda que a outra — havia tantas.
Eu mal podia acreditar quando, de alguma forma, era eu quem acabava sendo
contratada para muitos dos trabalhos. Por quê? Sou obrigada a acreditar que a
disciplina teve um papel decisivo nisso. Além disso, eu também procurava
ser uma pessoa agradável de se ter por perto, sempre disposta a aprender e
contribuir com o melhor que podia. Todo trabalho é fruto de colaboração, e
ser modelo não é diferente. Nunca me atrasei — nem uma única vez. Eu
sempre estava 100% comprometida. Certa vez, num trabalho na Islândia, me
disseram para ficar de pé num iceberg cenográfico flutuando em meio a uma
geleira, usando apenas um vestido de alcinhas. Fazia um frio de rachar, e eu
tinha medo de escorregar e cair na água congelante, mas mesmo assim sorria,
fazendo de tudo para ser profissional e não demonstrar meu pânico. Disse a
mim mesma que, não importava se eu estivesse tremendo ou se meus lábios
estivessem ficando roxos, ia dar o melhor de mim.
Dentro de um barquinho indo gravar o comercial no meio de icebergs na Islândia, em 1998. Estava congelando!
Eu me sentia feliz de verdade só por estar lá! Ficava muito grata por cada
oportunidade que me era dada. Por que alguém no meu lugar, fazendo o que
eu estava fazendo, não se sentiria a pessoa mais sortuda do mundo, mesmo de
vestido de alcinhas no meio de uma geleira?
Por incrível que pareça, acredito que uma das razões para eu ter me
tornado uma boa modelo é que nunca fui naturalmente fotogênica. Várias
modelos ficam maravilhosas nas fotos, mas eu sentia que não ficaria bem
simplesmente posando para a câmera. Eu precisava me manter em
movimento, mais como uma atriz ou uma dançarina, a fim de criar um
momento especial. Era importante, para mim, fazer meu trabalho bem-feito,
mas também jamais deixar que ele definisse quem eu era. Na verdade, nunca
me tornei modelo; eu atuava como modelo. Normalmente trabalhava o dia
inteiro e depois ia para casa ficar com a minha cachorrinha Vida e ler. Não
estava interessada em festas, glamour, roupas chiques e noitadas. Eu ficava
mais feliz em ir para casa ler um bom livro.
Acredito que, se você quer ter sucesso, há quatro passos fundamentais a
seguir — ou pelo menos foi assim comigo.
Clareza vem em primeiro lugar. Tudo na vida começa com um sonho. Mas
primeiro o sonho precisa ser claramente definido e, o mais importante, você
precisa entender por que quer aquilo. Aos 14 anos, aos 20 e aos 27, eu nunca
disse para mim mesma: “Meu objetivo é ser uma modelo famosa.” Em vez
disso, minha ênfase era em ser a melhor que podia ser no que faço, o que
significa dar o meu melhor. Sinceramente, eu poderia ter escolhido seguir
outras profissões! E, mesmo assim, seja lá o que eu fizesse, sabia que teria de
ser a melhor. Não a melhor comparada a outras pessoas, mas a melhor versão
de mim mesma.
Pela minha experiência, definir claramente o que você quer lhe dá
direcionamento e desperta a chama interior que traz motivação. Talvez você
tire notas 7 na escola e queira tirar 10. Ou talvez deseje ser excelente num esporte. Uma ótima esposa e mãe. Um ser humano exemplar. Ter sucesso no
trabalho. Talvez você queira fazer exercícios regularmente ou meditar todos
os dias. Então estabeleça seu objetivo com muita clareza desde o começo.
Como alcançar suas metas vai servir a um propósito maior? Por que isso é
importante para você? O que você vai fazer para chegar mais perto de atingir
seus objetivos? Do que precisa para chegar lá?
Também é importante estabelecer expectativas razoáveis. Sei, por
experiência própria, o perigo que é estabelecer metas muito acima do
alcançável e, quando não se chega lá a frustração faz com que você se sinta
um fracasso, quando a verdade é que você simplesmente não foi realista.
Assim que houver clareza quanto ao que você deseja alcançar, o próximo
passo é ter foco — tomar as várias pequenas atitudes que vão impulsionar
você. É aqui que entra o trabalho árduo. O que será necessário para alcançar
sua meta? Você precisa mudar sua rotina diária ou eliminar da sua vida certos
comportamentos, ou até mesmo algumas pessoas que não lhe fazem bem? Se
você tira notas 7 e quer tirar 10, isso pode significar que terá de começar a
acordar uma hora mais cedo para estudar, ou pedir ajuda extra ao professor,
ou formar um grupo de estudos. Também pode procurar um mentor ou
alguém que admira e que possa guiar você.
O terceiro passo é dedicação. Isso significa permanecer nos trilhos ao
longo do percurso, se dando o crédito pelo que fez bem-feito, mas também se
concentrando nas áreas em que precisa melhorar. Como é que você está
praticando? Como está medindo seu progresso? Vem se concentrando apenas
no que já faz bem, ou também testa seus limites ao direcionar os esforços
para aquilo que talvez não seja seu ponto forte, tentando superar as
dificuldades? Pela minha experiência, pude constatar que trabalho duro e
dedicação não são a mesma coisa. Dedicação inclui compromisso com um
objetivo ou ideal específico. Várias pessoas trabalham arduamente, mas
algumas não seguem os passos necessários para alcançar o que realmente
desejam. Você pode estabelecer objetivos para a sua vida, mas sem dedicação
eles não serão atingidos. Quem tem mais chance de se tornar um músico de
sucesso: o pianista que estuda uma hora por dia ou aquele que estuda quatro
horas diariamente? Dedicar-se significa investir tempo naquilo que você quer
e ama, nas áreas em que deseja alcançar excelência. A dedicação diz: Eu vou
seguir em frente, não importa o que aconteça. Sem dedicação é menos
provável que você enxergue os benefícios de todo o seu esforço. Se ter foco
significa dizer sim ao trabalho duro, ter dedicação significa dizer não à distração — às atividades e até mesmo às pessoas que puxam você para
outras direções ou lhe levam a desistir. Responda honestamente: O que você
consegue fazer em um dia? Você gasta todo o seu tempo respondendo
mensagens de texto e e-mails? Está progredindo ou apenas correndo atrás do
prejuízo? Eu continuei dando um passo depois do outro, mesmo quando meu
colegas de escola debochavam de mim, ou quando sentia saudade de casa aos
14 anos, ou quando era rejeitada para algum trabalho. Eu seguia em frente,
em um casting (processo seletivo no mundo da moda) após outro. É claro que
havia vezes em que sentia muita falta dos meus pais e das minhas irmãs, mas,
apesar de esses momentos serem dolorosos e desviarem o foco, eram apenas
visitantes temporários, que iam e vinham. Pois, acima de tudo, eu queria —
precisava — mostrar a mim mesma que era capaz de fazer aquilo com que
tinha me comprometido.
Eu estava em São Paulo, em 1996, andando até uma Blockbuster debaixo de chuva, quando ouvi um miado. Levei o gatinho para casa e o batizei de Fominha, já que ele devorava em dois segundos tudo o que eu lhe oferecia. Quando soube que não poderia levá-lo para os Estados Unidos, durante meu processo de mudança para lá, alguns meses depois, me certifiquei de que ele ficasse num bom lar.
O quarto passo, humildade, é especialmente importante para mim. Se você
tem clareza, foco e dedicação, e acaba tendo sucesso no que se propôs a
fazer, talvez passe a acreditar que merece um tratamento diferenciado. Nada
disso! A maioria das pessoas não percorre um caminho fácil até o topo, não
importa a profissão. Todos nós enfrentamos desafios ao longo da jornada que
nos forçam a crescer e a aprender. Sei que não sou nenhuma exceção.
Quando um certo nível de sucesso é alcançado, chega o momento de refletir
sobre todos os seus desafios. Sim, você pode ser uma pessoa extraordinária.
Suas habilidades e seus talentos podem fazer você se destacar. Você pode
exercer, como eu, uma profissão que tem bastante visibilidade, na qual se
torna uma pessoa pública. Bom para você! Mas, na minha cabeça, no
momento em que começa a pensar que é melhor que os outros, suas
conquistas passam a não valer tanto. Você cai e volta ao primeiro degrau da
escada. Mas, se você tem humildade, alcança algo mais importante que o
sucesso material: você se torna um eterno aprendiz. A humildade lhe permite
crescer a partir dos próprios erros e saber que todo mundo e todas as
vivências podem lhe ensinar alguma coisa. Na minha experiência, ela abre as
portas para uma vida mais consciente e significativa.
No fim das contas, será que somos assim tão diferentes uns dos outros?
Somos todos alunos na escola da vida nesta Terra. Nosso campus é um
pontinho azul flutuando no espaço. E, sinceramente, quem somos nós diante
dessa imensidão?
Em 2015, optei por reduzir o ritmo da carreira de modelo, mas isso não
significa que parei de trabalhar. Hoje, na verdade, sinto que trabalho tanto
quanto antes, exceto que não viajo mais tanto assim. A mesma disciplina que
me serviu a vida inteira agora é aplicada na tarefa de ser a melhor esposa e a
melhor mãe que posso ser. Minha relação com a disciplina tem me ajudado a
criar uma rotina diária, e mesmo assim faço adaptações constantes nela para
encaixar os detalhes que estão em constante mudança na minha vida.
Ter esse tipo de estrutura me ajuda a permanecer focada, principalmente
agora que tenho filhos pequenos. Há tantas interrupções e acontecimentos
inesperados que me tirariam do eixo se eu não tivesse uma estrutura básica.
Reconheço que tenho muita sorte, porque conto com uma rede de apoio, o
que a maioria das pessoas não tem no dia a dia, mas ainda há uma longa lista
de detalhes e atividades que não posso delegar a ninguém e exigem minha
total atenção.
Depois que minha filha mais nova nasceu, me dei conta de que precisava
mudar completamente minha rotina diária. Meu objetivo era destinar um
tempo a cada pessoa e atividade que são importantes para mim. O dia só tem
24 horas. Então me perguntei: Como seria uma agenda que me permitisse ter
tempo suficiente para mim, meu marido, meus filhos e para os diversos
projetos que gostaria de realizar no mundo?
Para dedicar o amor e a atenção que quero dar aos meus filhos, ao meu
marido, às minhas irmãs, aos meus amigos e até aos meus cães, em primeiro
lugar preciso suprir minhas necessidades. Como mãe e esposa, sou eu quem
dá o tom emocional da nossa família. Se não estiver me sentindo bem, se
estiver estressada ou triste, a família inteira será afetada.
Um dia típico na minha nova rotina diária é mais ou menos assim: acordo
normalmente entre cinco e seis da manhã com o som do “oceano” em meu
celular, que fica sobre o criado-mudo ao lado da minha cama em modo avião.
É um jeito suave de começar o dia. O barulho da água e das ondas quebrando
me enche de uma sensação profunda de paz. Não me levanto correndo, a menos que as crianças me acordem antes de o som das ondas começar. Em
vez disso, gosto de relaxar durante o processo de despertar, como se estivesse
entrando de mansinho na água morna. Eu me espreguiço e me alongo um
pouco, faço algumas respirações profundas, seguidas de alguns minutos de
agradecimento pela vida, pelo meu marido, meus filhos e pela minha cama
quentinha. Tom também se levanta cedo, principalmente durante a temporada
de futebol americano, quando sai de casa para ir ao estádio antes das seis da
matina quase que diariamente.
A primeira coisa que faço de manhã é pegar um vidro de óleo de coco no
banheiro para o oil pulling, ou “terapia do bochecho com óleo”. Essa é uma
antiga técnica ayurvédica de bochechar óleo para limpar as impurezas da
boca e desintoxicar dentes e gengivas. (Supostamente, também faz bem para
a saúde intestinal.) Eu coloco uma colher de chá do óleo na boca e bochecho
por dez a 15 minutos. Você pode usar vários tipos de óleo — gergelim, oliva,
girassol; eu uso óleo de coco orgânico porque gosto do sabor. Continuo a
bochechar enquanto me visto, ainda estou bochechando quando desço para
deixar os cães saírem, e só então cuspo.
Depois de deixar os cachorros entrarem novamente em casa, eu medito.
Acendo uma vela, me acomodo na posição de lótus e fecho os olhos. Na
verdade, não faz diferença se você cruzar as pernas. O importante é sentar-se
com a coluna reta, para que a energia possa fluir. Antes de ter filhos, eu fazia
retiros em que ficava sentada em silêncio durante o fim de semana inteiro, ou
até mais. Agora, por causa da minha vida agitada, medito todas as manhãs,
geralmente por cinco minutos apenas. Essa prática me ajuda a manter um
equilíbrio interior pelo restante do dia.
Eu medito desde 2003, por isso hoje consigo entrar rapidamente num
estado profundo de meditação. Às vezes, medito para encontrar a resposta
para alguma questão. Ou porque estou confusa com relação a alguma coisa e
preciso de um insight. Por exemplo, se estou com um nó no estômago de
fundo emocional, ou com um pensamento nebuloso que não vai embora, a
meditação me ajuda a entender o motivo e também o que preciso fazer para
encontrar alívio. Outras vezes meu objetivo é simplesmente obter paz ou
calma interior. Às vezes, mudo um pouco a ordem das coisas. Quando o Tom
está em casa, durante o recesso de temporada, de vez em quando medito na
cama de manhã e novamente mais tarde, antes de uma reunião de negócios, já
que isso me ajuda a manter a mente clara e focada. Se o Tom e eu estamos
em férias e as crianças com a babá, medito por mais tempo. Criar espaço e tempo para a meditação tem sido importante na minha vida e me trazido
muitos insights. Algumas pessoas podem ver a meditação como perda de
tempo, mas eu a vejo como um exercício de concentração e clareza. O
resultado disso é que, na verdade, ela me faz economizar tempo. Hoje faço o
possível para levar para o meu cotidiano a energia positiva que sinto durante
essa prática, para estar presente e consciente de cada momento e de cada
pensamento que cruzar minha mente. Isso pode acontecer enquanto estou me
exercitando, fazendo uma caminhada ou uma refeição. Alguns dias são
melhores que outros, mas a ideia é continuar praticando, sabendo que, com o
tempo, fica mais fácil.
Benny meditando comigo sob a lua cheia na Costa Rica em 2014.
No que se refere a exercícios físicos, prefiro malhar logo depois de
acordar, já que meu dia fica mais movimentado com o passar das horas. Se
estou malhando em casa, coloco meus fones de ouvido e treino no elíptico
enquanto escuto um audiolivro ou, às vezes, ouço um vídeo do YouTube
sobre algum assunto que me fascina — por exemplo, uma série sobre o Egito
ou a Grécia Antiga. Quando levo as crianças à escola — o Benny está com 8
anos, e a Vivi tem 5 —, às vezes dirijo até o TB12 Sports Therapy Center, em
Foxborough, a cerca de meia hora da nossa casa em Boston, para fazer
fisioterapia nos ombros e no joelho. (Já desloquei os ombros várias vezes e,
no ano passado, me acidentei esquiando e lesionei o ligamento cruzado
anterior do joelho.)
Assim como tudo na minha vida, minha rotina matinal nem sempre segue
como o planejado. Tem dias em que me sinto exausta. Não quero acordar
cedo para meditar e malhar, porque fui para a cama muito tarde, ou porque
um dos meus filhos teve um pesadelo ou febre e dormiu ao meu lado e não
consegui descansar. Há ocasiões em que o Tom joga em outra cidade e chega
em casa de madrugada, e uma hora depois as crianças se amontoam na nossa
cama. (Os jogos dele às vezes me deixam emocionalmente esgotada. Lá estou
eu no estádio vendo caras de 130 quilos atropelarem o homem que eu amo, e
não é um filme; é a realidade da vida do meu marido.) É por isso que preciso
ser flexível e, certas manhãs, digo para mim mesma: Ok, meditar não vai ser
a primeira coisa que você vai fazer hoje. Você pode meditar depois do
almoço. A meditação é uma ferramenta. Está ali para me ajudar a ser o meu
melhor, não para me prender ou punir. Assim, em algumas manhãs, dormir
meia horinha a mais é a melhor coisa que posso fazer por mim. Em outros
dias, quando o Benny e a Vivi acordam muito cedo, simplesmente passo
alguns minutos com eles do lado de fora olhando o sol nascer atrás das
colinas. Todos nós amamos admirar o sol.
Enfim, depois de meditar e malhar, bebo um copo de água morna, uns 250 ml, com o suco de meio limão. Isso ajuda a purificar o sistema digestivo.
Enquanto tomo minha água com limão, preparo o café da manhã dos meus
filhos e organizo o almoço que vão levar para a escola. (Acredito piamente na
velha frase “Que seu alimento seja seu remédio” e levo a nutrição muito a
sério.) Para o almoço, coloco na lancheira do Benny e da Vivi pasta de grão-
de-bico, sopa de lentilha ou arroz com feijão. Acrescento cubinhos de pepino,
abacate ou grão-de-bico com ervilha ao arroz para dar uma incrementada. Em
alguns dias preparo burritos, a comida favorita do Benny, com um pouquinho
de queijo salpicado por cima. Então encho as garrafinhas de água das
crianças e adiciono a elas algumas gotas dos eletrólitos do meu marido.
(Sempre tento gerar o mínimo possível de lixo, principalmente quando se
trata de garrafas e sacolas plásticas. Meu objetivo é viver com o menor
impacto possível sobre o meio ambiente, e nunca jogo fora nada que possa
ser reaproveitado. Faço compostagem, reutilizo ou reciclo.)
O café da manhã é quase sempre agitado, com as crianças tagarelando, os
cachorros nos rondando e um cronograma apertado. Em geral, preparo para o
Benny e a Vivi torradas sem glúten com pasta de amêndoas e mel, ou ovos
com fatias de abacate, ou uma tigela de maçã e frutas vermelhas picadas com
iogurte de coco. Antes do café da manhã, ambos fazem suas tarefas
domésticas. Benny alimenta os cães (sou eu quem enche os potes de ração,
pois ele tem tendência de dar comida demais), e então ele e Vivi põem a
mesa. Depois do café da manhã, as crianças colocam os pratos na pia.
Quando dá tempo, Benny vai brincar de Lego e Vivi com seus pôneis em
miniatura, ou às vezes eles gostam de brincar de pega-pega pela casa,
principalmente quando o irmão, Jack, está com eles. Termino de limpar o
balcão da cozinha, já que gosto de deixar os cômodos tão arrumados quanto
os encontrei — além disso, como já disse, não consigo pensar direito quando
estou num ambiente bagunçado. Só então tomo meu café da manhã.
Geralmente como as sobras das crianças ou bebo um copo de suco verde com
aipo, pepino, meia maçã verde ou vermelha, cúrcuma, gengibre, suco de
limão-siciliano e às vezes couve e beterraba, ou uma torrada com abacate.
Benny e Vivi pegam as mochilas, fecham o zíper dos casacos e calçam os
sapatos. Então saímos.
Benny e Vivi no primeiro dia de aula depois da semana de férias do Natal, em 2016. Olha só essas carinhas fofas!
O trajeto de carro até a escola é um dos meus momentos preferidos do dia.
Somos só nós três, as crianças no banco de trás e eu ao volante. Adoramos
cantar no carro, embora o Benny leve o momento muito a sério e não goste
quando a Vivi canta ao mesmo tempo, então, quando ele está soltando a voz,
ela interpreta a parte do DJ. No trajeto de volta, ouço um podcast ou um
audiolivro, ou às vezes a previsão astrológica do dia.
Se não consegui malhar mais cedo, faço isso quando volto para casa,
depois de deixar as crianças na escola. Em seguida, tomo um banho rápido, e
então estou realmente pronta para começar o dia.
Geralmente não uso maquiagem quando trabalho de casa, mas, se saio,
gosto de passar pelo menos hidratante labial, uma camada de rímel e um
pouco de corretivo, e na minha bolsa sempre tem corretivo e hidratante labial
com cor. Eu gosto de usar maquiagem de vez em quando, é uma ferramenta
fantástica. Se não tive uma boa noite de sono, ou estou com olheiras ou uma
espinha no rosto, ou ainda se quero destacar meus olhos, corretivo e rímel são
meus melhores amigos. Maquiagem é algo divertido. É o único jeito de fazer
com que meus olhos pareçam maiores, ou pelo menos não tão pequenos. É
por isso que, se tenho de ir a algum evento, sempre uso maquiagem.
Mas não penso na maquiagem como uma obrigação. Acredito que ter uma
boa aparência e uma pele bonita tem mais a ver com o que você come, com
seu estilo de vida e com o modo como se sente. (Ir a um bom dermatologista
também pode ajudar.) Realmente acho que fico com a minha melhor
aparência quando me alimento de maneira saudável, faço exercícios
diariamente, bebo muito líquido e descanso a quantidade de tempo que meu
corpo e minha mente necessitam. Nosso interior se reflete no exterior, e vice-
versa. Se mantivermos um ambiente interno saudável, ele vai se revelar na
nossa pele — e, para mim, nada pode ser mais naturalmente bonito do que
isso.
Mas voltemos ao meu dia. Após a rotina das primeiras horas da manhã, eu me sinto energizada, minha mente está clara e estou pronta para me sentar
diante do laptop e me concentrar inteiramente em ser produtiva. Tenho um
espaço separado a uma pequena distância da nossa casa, do outro lado do
gramado. Eu o chamo de Santuário. Adoro o lugar. É clean e silencioso, com
poucos itens de decoração, plantas, cristais, pé-direito alto e muita luz. Passo
a maior parte do dia lá, respondendo a e-mails, atendendo ligações e
participando de reuniões. Muitas vezes, pela manhã, fico em contato direto
com minha irmã gêmea, Pati, e com a Fafi, falando de negócios, avaliando
novas oportunidades, aprovando materiais para clientes, respondendo
entrevistas ou trabalhando em projetos ambientais.
Hoje, a maioria das empresas com que trabalho fica no Brasil, e expresso
consistentemente a elas minhas preocupações com o meio ambiente e com a
necessidade de criar produtos e práticas sustentáveis para o planeta. Algumas
empresas são definitivamente mais conscientes do que outras com relação à
sustentabilidade e estão implementando mudanças para garantir que suas
cadeias de suprimentos fiquem cada vez mais limpas, evitando danos à
natureza. Espero que no futuro o cuidado com o meio ambiente se torne
prioridade para empresas de todos os setores.
Embora trabalhe na minha área há muitos anos, só recentemente descobri
que a indústria da moda, principalmente o setor de fast fashion — a “moda
rápida” —, é uma das que mais poluem o planeta, e que a maioria das roupas
acaba em aterros sanitários. Hoje uso minha voz e meus contatos para atrair
atenção para esse problema e desenvolver soluções que tornem o negócio da
moda mais sustentável.
Há quase dez anos também atuo como Embaixadora da Boa Vontade do
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a fim de ajudar a atrair
atenção para questões socioambientais. Essa oportunidade tem sido uma
experiência de aprendizado incrível. Estive em vários países e conheci muitas
pessoas inspiradoras que estão desenvolvendo soluções inovadoras para os
problemas de suas comunidades.
Adoro aprender e compartilhar experiências e conhecimento com as
pessoas que vou encontrando pelo caminho. Procuro me conectar com
especialistas e pessoas afins que tenham o mesmo desejo de fazer sua parte
para tornar o mundo um lugar melhor, como meus amigos e colaboradores do
Believe.Earth, projeto que alguns amigos no Brasil e eu lançamos para trazer
mais consciência quanto à preservação do planeta. Parte da nossa missão é
compartilhar histórias inspiradoras de pessoas comuns que fazem a diferença na vida de suas comunidades, com a intenção de influenciar mais pessoas a
trabalharem pelo bem maior.
Meus dias são muito cheios — mas nunca longos o suficiente. Queria de
verdade que cada dia pudesse durar 48 horas!
Quase sempre tenho diversos projetos em andamento ao mesmo tempo.
Durante o dia, deixo o celular em modo silencioso. É claro que o verifico
regularmente, para saber se Tom ou alguém da escola das crianças ligou, mas
quem me conhece sabe que não amo falar ao telefone. Prefiro ver as pessoas
de perto, cara a cara. Quando estou viajando, converso com o Tom e as
crianças pelo FaceTime todos os dias, mas, se estou em casa, me recuso a ser
escrava do meu celular. Durante as refeições, uma regra fundamental da
nossa família é: nada de aparelhos eletrônicos à mesa!
Normalmente saio do Santuário e volto para casa ao meio-dia para almoçar
— quase sempre uma salada fresca ou uma sopa. Essa também é a hora em
que lido com as questões que possam ter surgido durante a manhã com as
crianças, com coisas da casa e por aí vai. Uma hora depois estou de volta ao
Santuário, onde fico trabalhando até o fim da tarde.
Bebo água o dia inteiro, além de muito chá. Meus favoritos são de capim-
limão, camomila e hortelã, de preferência preparados com folhas frescas
colhidas na minha pequena horta. Mas tudo depende de como estou me
sentindo. Se estou ficando resfriada, por exemplo, bebo chá de erva-doce, ou
preparo uma infusão de limão, mel e gengibre. Em geral, porém, bebo chá
puro, sem mel nem açúcar.
No fim da tarde, Renata, nossa babá, já buscou o Benny e a Vivi na escola,
e daí em diante tudo se resume à minha família. Faço questão de conversar
com a Rê na frente das crianças, para que saibam que falamos delas — e para
ensiná-las a não me tratar de um jeito e a ela de outro. Às vezes preparo um
banho de banheira para os dois, mas quase sempre eles tomam um banho
rápido de chuveiro, e então é hora do jantar, com o Benny e a Vivi
geralmente ajudando a pôr a mesa.
Durante a temporada de futebol americano, Tom chega por volta das seis
da tarde, a menos que esteja jogando em outra cidade, e nossos jantares
duram cerca de uma hora. Sempre pergunto sobre o dia dele, mas geralmente
a conversa gira em torno das crianças. Depois do jantar, normalmente
conversamos pelo FaceTime com Jack, meu enteado, que acompanho desde
os primeiros momentos de vida e que chamo de meu filho bônus, para ver
como ele está e lhe dar boa-noite. (Quando Jack está na nossa casa, leva muito a sério o papel de irmão mais velho. O Benny sempre quer fazer todo
mundo rir. A Vivi é quem ri mais alto, e é evidente que adora os irmãos. Ela
é a maior animadora de torcida deles, e quer se sentir parte da turma.) Então
as crianças vão correndo assistir a desenhos animados em português na TV, o
que dá a mim e ao Tom um tempo sozinhos para conversar sobre o nosso dia,
geralmente bebendo mais uma xícara de chá de camomila.
As crianças vendo o papai jogar, em Foxborough, em 2017.
Tanto o Benny quanto a Vivi falam português fluentemente. Ele tem um
leve sotaque, já ela parece ter nascido no Brasil. Jack entende o idioma cada
vez mais, e eu adoro quando ele tenta falar, porque tem um sotaque muito
fofo. Quando eu era pequena, meus pais só falavam em alemão um com o
outro, mas nunca com a gente, pois queriam manter os assuntos entre eles.
(Hoje, depois de anos viajando, me tornei razoavelmente fluente em quatro
idiomas.)
O Benny e a Vivi podem ser americanos nascidos em Boston, mas também
são brasileiros. Meus pais não falam inglês muito bem, e minhas sobrinhas e
uma das minhas irmãs não falam nada do idioma, mas é importante para mim
que os meus filhos falem português e consigam se comunicar com a minha
família. Assim, todo verão, levo o Benny e a Vivi para passar duas semanas
de férias com a minha família inteira, quando só falamos português. Gosto de
pensar que estou educando meus filhos para serem cidadãos do mundo.
Acredito também que, quanto mais conversarmos com as pessoas no idioma
delas, mais compreendemos uns aos outros.
Quando penso no meu cronograma diário, percebo que quase todos os
momentos do dia parecem um ritual, e eu conscientemente desejo criar uma
série de pequenos momentos especiais. Depende de nós capturar o tempo,
dar-lhe sentido, estar presentes e ser gratos por todo minuto em que estamos
vivos. É por isso que dar grande importância aos pequenos momentos
significa muito para mim. Alongar o corpo assim que acordo. Prestar atenção
à minha respiração. Acender uma vela. Meditar. Cantar com meus filhos a
caminho da escola. Mais que tudo, esses momentos têm a ver com
apreciação, com gratidão. Meu objetivo é estar presente. Sentir e viver a vida
profundamente, mesmo quando o que estou sentindo é intenso e toma conta
de mim, ou às vezes me faz cair no choro (o que acontece de vez em quando).
Viver uma vida plena e significativa, com consciência do que está
acontecendo ao meu redor — e inspirar meus filhos a viverem assim também.
A hora de ir para a cama é outro ritual. Quando o Tom está em casa, dá um
beijo de boa-noite nas crianças e às vezes lhes conta uma história. Na hora de
dormir, adoro ler em voz alta para eles. Depois faço algo que tenho feito
desde que o Benny e a Vivi eram bebês: uma massagem rápida em seus pés
com óleos de aromaterapia; tenho uma farmácia inteira deles. Cinco minutos
de massagem nos pés realmente os acalma e nos aproxima ainda mais.
A última coisa que faço antes de dizer “boa noite” é lembrar a eles de rezar
para o anjinho da guarda. Quase sempre fico do lado de fora do quarto
ouvindo os dois rezarem, e isso faz meu coração derreter todas as vezes.
Normalmente pego no sono depois do Tom. Durante a temporada de
futebol americano, ele gosta de estar na cama às nove da noite. Após escovar
os dentes e ler algumas páginas de um livro, dou uma olhada no celular para
ver se há alguma coisa urgente, coloco o aparelho em modo avião e ativo o
despertador.
Esse é o meu dia. Ele varia quando estou no Brasil, ou em Nova York, ou
na Costa Oeste dos Estados Unidos, ou até mesmo às vezes quando estou em
casa, em Boston. Se estou em outra cidade para uma sessão de fotos, sigo
uma variação dessa mesma rotina. Levanto-me às seis, medito e malho,
mesmo que seja por apenas vinte minutos, porque sei que ao longo do dia vou
me sentir menos motivada para malhar e, depois de um longo dia de trabalho
no estúdio, sei que não vai rolar. Se eu estiver fazendo um comercial para a
TV, o dia pode se estender por até 12 horas. Quando o trabalho é para uma
revista, a sessão dura entre oito e dez horas. Como mencionei, raramente olho
o celular quando estou trabalhando, mas, tão logo tenha terminado, converso
com Tom e as crianças via FaceTime para tentar matar a saudade. Antes de ir
para a cama, gosto de tomar um bom banho, especialmente se foram usados
vários produtos no meu cabelo e ele está aquela bagunça. Geralmente já estou
debaixo das cobertas antes das dez da noite. Preciso de pelo menos sete horas
de sono; oito, se possível. Felizmente, nunca tive dificuldade para dormir.
Sempre estou exausta à noite e, assim que coloco a cabeça no travesseiro,
apago.
Estabelecer uma rotina me ajuda a organizar e encaixar as atividades que
acho importantes e quero realizar. No entanto, para que ela funcione, é
essencial ter disciplina. Acordar cedo, me exercitar, manter uma alimentação
saudável, meditar, tudo isso são escolhas que faço para ter uma vida melhor,
mas só com disciplina isso se torna possível. Só com disciplina consigo obter
resultados.
As pessoas geralmente contam a si mesmas histórias para explicar quem são
e como chegaram até ali. Uma das minhas histórias é que desenvolvi minha
ética profissional por ter compartilhado uma casa pequena com cinco irmãs e
ter visto meus pais trabalharem muito duro. Outra tem a ver com ser uma das
filhas do meio (e com uma irmã gêmea, para completar), que nunca se sentiu
tão especial assim e nunca quis desapontar os pais, o que se transformou num
desejo de não desapontar a si mesma.
Há um fundo de verdade em ambas essas histórias, mas sei também que ser
disciplinada, e ser intensa quanto a essa disciplina, é simplesmente quem eu
sou. Acho que nasci assim. Mesmo tendo crescido como uma de seis irmãs,
com pais que trabalhavam fora, e tendo me esforçado para ir bem na escola e
nos esportes, tudo isso era apenas a arena onde eu pude testar e desenvolver
um traço que já existia em mim. Joseph Campbell escreveu certa vez: “Você
amadurece quando se torna a autoridade da sua própria vida.” No meu caso,
seja lá por que motivo, assumi essa autoridade desde bem jovem. Quando
conto às pessoas que nunca quis decepcionar meus pais, isso era verdade — e
ainda é —, mas o que realmente estou dizendo é que nunca quis ficar aquém
das minhas próprias expectativas.
Se disciplina não é algo que vem fácil, qual é o melhor modo de criá-la?
Tudo começa com autoconhecimento, e ter consciência de si é um processo.
Não é algo que nasce com a gente, mas que se desenvolve com o tempo. Só
sei o seguinte: quanto mais você se conhece e sabe no que é bom e o que lhe
traz alegria, mais fácil é manter o foco no que quer exteriorizar — o que, por
sua vez, torna mais fácil externar o que deseja. O que você quer? O que dá
certo com você? Você funciona melhor a uma determinada hora, ou num
determinado tipo de dia, num determinado ambiente? Faz questão de se expor
a palavras positivas, imagens positivas, pessoas inspiradoras, ideias
inspiradoras? Se, por exemplo, você passa o dia no celular, lendo notícias
negativas e ficando com medo, com o nível de ansiedade lá em cima, ou se
traça metas não realistas para si, acredito que esteja se colocando no caminho da decepção e da tristeza. Se digo a mim mesma que vou meditar por meia
hora de manhã, mas todos os dias sou interrompida, o problema não são meus
filhos pedindo o café da manhã ou os cachorros querendo sair; sou eu não
sendo realista sobre o que está acontecendo ao meu redor!
Penso na disciplina como a voz de um pai ou de uma mãe, ou de qualquer
figura de autoridade, dentro de nós. Ela nos mantém responsáveis por nossas
ações. Mas, se essa voz não é forte o suficiente dentro de você, considere
criar um pai ou uma mãe do lado de fora. Encontre outro modo de
acompanhar seu progresso, de se manter responsável. Isso é algo que tenho
feito com meus filhos. Vivi e Benny são novinhos e ainda têm muito a
aprender. (E quem não tem? Sei que eu tenho.) Para ajudá-los a organizar sua
rotina e atribuir tarefas e responsabilidades a cada um, a solução que criamos
foi usar um quadro branco.
O quadro fica pendurado na nossa cozinha. Ele substituiu um anterior que
tinha ímãs em formato de estrelinhas, mas, quando a Vivi começou a burlar o
sistema e a cobrir a parte dela do quadro com quantas estrelinhas coubessem,
encontramos um mais simples, com um canetão preto e apagador. O uso do
quadro surgiu numa fase breve em que o Benny começou a me retrucar.
Sempre que eu lhe pedia que fizesse qualquer coisa, ele falava que eu não
sabia de nada e que, mesmo se soubesse, estava errada. Então o Tom e eu
resolvemos encarar a situação com firmeza. Falei para o Benny que tudo bem
se ele ficasse brabo ou frustrado com as regras que havíamos criado, mas ele
não podia me tratar com falta de respeito. Se estivesse brabo, com raiva, que
me falasse. Benny admitiu que nem sempre era legal comigo e me pediu
desculpa. E então deu a ideia do quadro branco.
Funciona assim: quando percebemos que as crianças precisam de mais
estrutura, fazemos algumas perguntas a elas durante o jantar. Como têm se
comportado? Disseram “por favor” e “obrigado”? Olharam nos olhos dos
amigos e dos professores ao conversar com eles? Foram gentis com os
amigos e um com o outro? Se receberam a visita de um amigo em casa
naquele dia, arrumaram os quartos e guardaram os brinquedos ao fim da
brincadeira? Depois das refeições, levaram os pratos até a pia? Quando pedi
que fizessem alguma coisa, eles fizeram? Se a resposta para a pergunta for
sim, a criança ganha uma estrela.
As estrelas podem ser dadas, mas também podem ser negadas. Se o Benny,
digamos, beliscou a irmã, ou a Vivi se esqueceu de ser uma boa anfitriã ao
receber uma amiga, eles não ganham a estrela. Em vez disso, conversamos sobre as atitudes nas quais devem se empenhar mais, como ser um melhor
ouvinte ou ter mais paciência. Deixamos uma lista de expectativas no quadro,
para que eles entendam que tudo é um trabalho em andamento. O esquema
das estrelas realmente tem ajudado. O melhor de tudo é que as crianças estão
ficando cada vez mais à vontade com suas emoções e com quem são como
indivíduos. Por exemplo, o Benny nos conta que comeu um biscoito antes do
jantar e que está com medo de que eu fique braba. Sim, ele pode perder uma
estrela, mas, em vez de dar bronca, eu lhe agradeço por ter sido honesto, o
que o incentiva a continuar sendo honesto. O que mais importa para mim é
que ajudamos a criar um ambiente onde nossos filhos se sentem seguros para
expressar seus sentimentos e ter conversas sérias, e eles sabem que o pai
deles e eu estamos caminhando com eles, lado a lado, e não os carregando no
colo. Sempre lembro aos meus filhos que estamos todos aprendendo juntos.
Tenho 38 anos, nunca fui mãe antes! Por mais que seja meu dever ensinar, eu
também aprendo com eles. Então em que eu poderia melhorar?
Nós tentamos dar aos nossos filhos o que recebemos dos nossos pais na
infância. Se tivermos sorte, conseguiremos preencher algumas lacunas que,
por uma ou outra razão, foram deixadas em branco para nós. Quando eu era
pequena em Horizontina, havia seis de nós à mesa de jantar, seis vozes se
erguendo para conversar, rir ou discordar, todas ao mesmo tempo. Um dia
meu pai criou uma regra: se uma de nós tinha algo a dizer, precisava levantar
a mão e esperar sua vez de falar. Com todas aquelas crianças, minha mãe não
tinha tempo de ler para nós antes de dormirmos. Ela mal tinha um segundo
para si. Às vezes eu me levantava no meio da noite e a encontrava à mesa da
cozinha, ainda trabalhando, uma calculadora com rolos de papel saindo aos
montes na frente dela, tentando fechar as contas. Raque, Fofa, Pati, Gabi, Fafi
e eu tivemos de descobrir muitas coisas sozinhas. De certa forma, éramos
crianças criando outras crianças. Tínhamos de aprender a negociar, a chegar a
um acordo, a brigar de forma justa. Mas nunca, nenhuma vez, durante a
minha infância senti que estava perdendo algo ou que me faltava alguma
coisa. Como poderia perder ou sentir falta do que nem sabia que existia?
Sentia, e ainda sinto, que tive a melhor infância do mundo! Sou eternamente
grata aos meus pais.
Sei que minhas circunstâncias hoje são diferentes daquelas enfrentadas
pelos meus pais. O trabalho que comecei aos 14 anos, e que exerci pelos 23
anos seguintes, me permitiu ter mais tempo para os meus filhos. Posso ler
para eles, fazer massagem em seus pezinhos, ensiná-los a respirar e a expressar seus sentimentos e lidar com eles. E valorizo cada momento em
que posso estar ao lado deles.
Em 2017, fui convidada para fazer o discurso de abertura do Rock in Rio —
um dos maiores festivais de música do mundo — diante de um público de
100 mil pessoas. Nesses anos todos, artistas como Beyoncé, Prince, Rihanna,
George Michael, REM, Red Hot Chili Peppers, Dave Matthews Band,
Coldplay e U2 se apresentaram no festival. O convite veio na mesma época
em que o presidente Michel Temer anunciou que o governo havia extinguido
o status de reserva natural de uma área enorme e muito importante da
Amazônia (a Renca) para abrir a região a mineradoras. Nove reservas
ambientais e indígenas seriam gravemente afetadas. Venho trabalhando com
proteção ao meio ambiente desde 2004, quando visitei a Amazônia pela
primeira vez e vi de perto como as tribos indígenas, principalmente crianças e
idosos, estavam sendo envenenadas e até morrendo por causa dos agrotóxicos
e do mercúrio que poluíam o rio onde elas se banhavam e pescavam. Senti
uma dor no coração. E, apesar de essas toxinas afetarem diretamente suas
vidas, a verdade é que a contaminação da água e do solo afeta a todos nós.
Acredito que qualquer ataque à natureza é um ataque a todas as formas de
vida. Como mãe e provedora, meu instinto natural é proteger. Assim, minha
reação ao decreto do presidente foi de indignação, seguida pelo pensamento:
Eu preciso fazer alguma coisa. Não podemos deixar isso acontecer. Eu e um
grupo protestamos nas redes sociais, e felizmente o governo brasileiro
revogou o decreto e adiou a decisão, sujeita a extenso debate.
Quando Marcos, meu amigo e um dos cofundadores do Believe.Earth, que
conhecia Roberto Medina, criador do Rock in Rio, me convidou para abrir o
festival, eu aceitei. Mas desliguei o telefone apavorada. Eu nunca tinha feito
um discurso para 100 mil pessoas. Nunca tinha escrito um discurso tão
importante quanto esse. Minutos depois, me dei conta de uma coisa dentro de
mim. Determinação. Disciplina. Se algo estava me deixando com medo, eu
sabia que cabia a mim, e somente a mim, trabalhar esse medo. Se queria ter
sucesso nessa missão, teria de trabalhar para isso. Uma grande parte de mim
preferia ficar recolhida na segurança do meu lar. Considerando que o público
estava indo ao Rock in Rio para ouvir música — Ivete Sangalo, Maroon 5,
The Who e Guns N’ Roses se apresentaram naquele ano —, eu também tinha
medo de que eles talvez ficassem aborrecidos quando eu entrasse no palco
para fazer o discurso. E se eles não prestarem atenção em mim?, pensei. Ou
se me vaiarem, ou gritarem comigo, ou atirarem coisas em mim? Não
importa, foi meu pensamento seguinte. Tire isso da cabeça. Apenas faça o
que tem de ser feito. Se você não lutar por aquilo que acha importante, você
estará sendo cúmplice.
Não importava que eu nunca tivesse escrito um discurso como esse na
vida. Não importava quanto tempo teria de ficar sentada diante do laptop até
que as palavras saíssem. Não importava o medo que estava sentindo, ou que
pudesse parecer uma tola, ou as centenas de outras razões pelas quais talvez
não fosse uma boa ideia me colocar naquela situação. Eu me dei conta de
que, agora e para sempre, meu maior propósito era o amor. Aquilo não tinha
a ver comigo. Eu iria falar em prol de uma causa mais importante que eu.
Estava sendo testada, e o teste exigia coragem. Não era a primeira vez que eu
apareceria diante de um público daquele tamanho. Tinha desfilado na maior
passarela da minha vida (mais de 120 metros), na cerimônia de abertura das
Olimpíadas do Rio em 2016, diante de milhares de pessoas ali presentes e
mais centenas de milhões vendo pela televisão, uma experiência que também
me deixou apavorada — antes de realizá-la. Naquela noite, lembro-me de ter
me sentido como uma partícula de luz sendo conduzida pela energia da
multidão. Mas o Rock in Rio seria diferente. Nas Olimpíadas, eu podia sentir
o público, mas o estádio estava tão escuro que não conseguia enxergar
ninguém. Além disso, dessa vez, em vez de desfilar, eu teria de falar. Sabia
que o Rock in Rio não seria fácil para mim, mesmo já tendo estado diante de
um grande público. Porque, vamos combinar, discursar é uma
responsabilidade muito maior que caminhar!
Mas, se eu não tivesse concluído aquela caminhada, não teria como
discursar agora. Lembrar disso me ajudou a fortalecer minha confiança. Eu
acredito que, quando você enfrenta um desafio, deve se erguer à altura dele.
Então o desafio seguinte é um pouco mais difícil, mas aí você se ergue à
altura desse outro. Não é assim que a gente cresce? Quando cheguei ao fim
da redação do meu discurso, escrevi: “Se somos todos capazes de sonhar... se
somos todos capazes de imaginar... somos todos capazes de criar. Então,
imagine o mundo em que você quer viver.” Eu queria encerrar com uma
música, já que, afinal de contas, estava num festival de rock. Mas que
música? Minha irmã Fafi, que estava sentada ao meu lado, disse: “Que tal
‘Imagine’, do John Lennon? Não acha que tem tudo a ver com o tipo de
mensagem que você vem escrevendo e que quer passar para as pessoas?”
Naquele exato instante eu soube que “Imagine” seria a música perfeita para
concluir meu discurso. Além disso, não seria incrível se a Ivete Sangalo, não
apenas uma grande artista, mas também uma amiga querida, uma mulher
maravilhosa e um ser humano lindo, pudesse começar a cantar assim que eu
terminasse de falar? Quando soube que a Ivete iria se apresentar logo depois
de mim, como um dos destaques do festival, liguei para ela e falei que
precisava de ajuda. “Tô contigo!”, disse Ivete. Fiquei muito empolgada! Tudo
estava se encaixando.
Na noite do festival, eu não cabia em mim de tanta emoção. Antes de
entrar no palco, a produtora encarregada do evento tentou me ajudar. Ela me
disse: “Não se preocupe, até o Bono e o Coldplay ficam nervosos quando
tocam aqui.” Engraçado, mas ouvir aquilo só me deixou mais nervosa. Então
fiquei sozinha por um instante. Fechei os olhos. Respirei fundo e reservei um
tempo para focar na minha intenção. Pedi a Deus: Por favor, permita ao
público sentir o que estou sentindo. Deixe que sintam o meu coração. Queria
me conectar com aquelas pessoas. Queria que sentissem que estamos todos
conectados, que somos um. Isso me deu uma descarga de adrenalina, uma
força e a confiança que eu precisava para seguir em frente. Então lá fui eu
para o grande palco.
Falei por alguns minutos. Não falei da Amazônia, nem de mineração, nem
de quaisquer outros problemas que o país vinha enfrentando. Quer dizer, não
diretamente. Em vez disso, falei sobre o poder do coletivo, e sobre esperança,
e sobre permanecermos unidos. Num dado momento, a emoção tomou conta
de mim e comecei a chorar. Então Ivete apareceu. Ela me deu um abraço
apertado e começou a cantar. Pediu que eu cantasse junto, e, embora eu não tivesse planejado aquilo — ficaria tão envergonhada —, quando chegou a
hora, não pude evitar. Cantei mais no estilo karaokê do que qualquer outra
coisa, principalmente porque o dueto era com uma cantora incrível como a
Ivete. E “Imagine” falou o que faltava ser dito.
O que pode preparar uma pessoa para algo dessa magnitude? Não há
manual. Não há regras. Você apenas vai lá e faz o seu melhor. Deixa seus
medos de lado. Você se convence de que nada vai deter você. Uma noite
como aquela não é diferente de nenhuma montanha que você sabe que
precisa escalar, então amarra os cadarços das botas e começa a subir.
Aprende com a experiência. Quando surge a próxima montanha, você está
um pouco melhor, um pouco mais preparado, tem mais prática para caminhar
até o topo.
É assim que a disciplina tem me servido durante toda a minha vida. Ela me
ajudou não só a realizar o que me propus a fazer, mas também a perceber
como posso fazer mais. Basta eu ter fé, acreditar em mim e ir em busca do
que quero.
Na verdade, às vezes preciso me lembrar de dar uma relaxada na minha
própria disciplina, ser mais gentil e ter mais compaixão comigo mesma. Para
algumas pessoas, devo parecer um pouco obsessiva, ou motivada demais.
Estou trabalhando nisso — e ser mãe me tornou muito mais tolerante comigo
mesma. Antes eu era o tipo de pessoa para quem nada estava bom o
suficiente. Eu não era boa o suficiente.
Em 2015, quando a Taschen publicou um livro para celebrar meus 20 anos
de carreira no mundo da moda, lembro que Giovanni Bianco, meu amigo e
diretor de arte do livro, me perguntou: “Gisele, quando é que você tinha
tempo para ir ao banheiro? É tão óbvio que durante anos você não teve vida!”
Ele estava certo. Lá atrás, eu realmente não tinha vida. Somente quando
comecei a repassar milhares de fotos para selecionar as cerca de trezentas que
fariam parte do livro, foi que tive noção de quanto eu tinha trabalhado. Em
vários momentos do dia eu me sinto grata, mas aquelas fotos direcionaram
minhas lembranças para outros lugares. Pela primeira vez pude perceber
claramente como chegou longe aquela filha gêmea que nasceu em uma
cidade pequena no sul do Brasil. Eu me lembrei de todas as pessoas que
conheci, de todas as conversas que tive, de tudo o que senti e aprendi, de
todos os países que visitei. Pela primeira vez na vida eu me dei um tapinha
nas costas. Você se saiu bem, pensei. Você conseguiu. Você fez a travessia. E
hoje não está apenas equilibrada, está mais forte, mais experiente e mais confiante.
Boa menina.