Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado
Introdução
Esta foto foi tirada para o meu primeiro book quando eu tinha
14 anos.
Se minha intenção fosse escrever um relato simples e direto da minha vida
até agora, a versão editada em cortes rápidos poderia ser esta:
Meu nome é Gisele Caroline Bündchen. Trabalho há 23 anos como
modelo. Nasci em 1980 e fui criada em Horizontina, uma cidadezinha no sul
do Brasil, a uma hora do rio que faz a divisa do país com a Argentina. Sou da
quinta geração de brasileiros descendentes de alemães, tanto por parte de mãe
quanto por parte de pai. Meus pais falavam alemão um com o outro e
português comigo e com as minhas cinco irmãs. Sou uma das filhas do meio
e, quando éramos pequenas, minha irmã gêmea Pati e eu ficávamos
discutindo para saber qual das duas era a terceira ou a quarta em ordem de
idade. Durante a minha infância, queria ser ou jogadora de vôlei profissional
ou veterinária.
Quando tinha 13 anos, minha mãe, preocupada com a minha má postura —
eu já media 1,75m —, me matriculou junto com duas das minhas irmãs num
curso de modelo e manequim na nossa cidade. No fim do curso, nós
embarcamos numa excursão para Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. A
viagem de ônibus pareceu interminável, durou 27 horas. Algumas mães
viajaram conosco, incluindo a minha. Num shopping em São Paulo, um
homem se aproximou de mim e soltou uma frase que me deixou desconfiada:
Você quer ser modelo? Eu gritei “Mãe!”, e ela veio correndo. Mas esse cara
— Zeca era o nome dele — era sério, um caça-talentos da Elite Model
Management. Quando fomos até o escritório da agência, ele disse para minha
mãe que ela devia me inscrever num concurso nacional, o Elite Look of the
Year, e foi o que ela fez. Não consegui acreditar quando ganhei o segundo
lugar, que veio acompanhado de uma passagem para Ibiza, na Espanha, para eu participar da etapa mundial do Elite Model Look. Foi minha primeira
viagem de avião, a primeira vez que saí do Brasil. E acabei ficando entre as
dez finalistas. Tudo estava acontecendo muito, muito rápido.
Final do concurso Elite Model Look em São Paulo, em 1994. Tinha 14 anos.
Um ano depois, em 1995, mudei para São Paulo para me lançar na carreira
de modelo. Tinha 14 anos. Como se pode imaginar, sair de uma cidadezinha
de 17 mil habitantes para morar na maior cidade do Brasil foi uma mudança
enorme. Depois de passar alguns meses trabalhando em São Paulo, a agência
me mandou para Tóquio, no Japão, onde morei durante três meses fazendo
fotos como modelo de catálogo. Meu primeiro grande momento aconteceu
alguns anos depois, em Londres, quando o estilista Alexander McQueen me
selecionou para o desfile de sua coleção prêt-à-porter. Eu desfilei pela
passarela sem camisa, assustada, com um top branco pintado no meu corpo
no último minuto por uma maquiadora, enquanto uma chuva artificial caía do
teto. Depois do desfile de Alexander McQueen, a indústria da moda passou a
me chamar de The Body — ou “O Corpo” — e o apelido pegou.
Um registro behind-the-scenes de um ensaio fotográfico no Rio de Janeiro, quando eu tinha 16 anos.
Em 1999, trabalhei como modelo para Versace, Ralph Lauren, Chloé,
Missoni, Valentino, Armani e Dolce & Gabbana. A revista Vogue me
escolheu para representar o fim da era das modelos heroin chic. Naquele ano,
fui capa da Vogue francesa e três vezes capa da Vogue americana. A
manchete de uma das matérias era “A volta das curvas”. Terminei aquele ano
ganhando o prêmio de Modelo do Ano da Vogue. Na primavera de 2000,
trabalhei como modelo para Marc Jacobs, Donna Karan, Calvin Klein,
Christian Dior, Prada, Valentino e muitas outras grifes renomadas em Nova
York, Milão e Paris. De 1998 a 2003, estrelei todas as campanhas de moda da
Dolce & Gabbana e, de 2000 a 2007, fui uma das Angels da Victoria’s
Secret. Nos últimos vinte anos, apareci em mais de 1.200 capas de revista,
quase 450 campanhas publicitárias e participei de cerca de 500 desfiles de
moda. Em 2015, optei por reduzir o ritmo da carreira de modelo, porque
queria me concentrar mais na minha família e em projetos pessoais. Meu
último desfile foi na abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016.
Percorri a passarela mais longa da minha vida ao som de “Garota de
Ipanema”, de Tom Jobim. Foi eletrizante! Aquele momento pareceu ser o
ponto culminante de tudo o que tinha vindo antes.
Tudo isso aconteceu — embora eu tenha deixado todos os detalhes de fora.
Essa é a história da minha vida pública. Mas tudo o que vivi em público tem
pouquíssima relação com quem realmente sou, com o que mais importa para
mim, ou com as coisas em que acredito e com o que desejo oferecer para o
mundo. O irônico é que, embora eu seja conhecida pelo meu trabalho como
modelo, nunca senti que aquela pessoa na passarela, ou nas revistas, ou nos
comerciais de TV fosse eu. Na escola, meus colegas debochavam de mim por
causa da minha altura, da minha magreza e da minha aparência. Por maior
que seja o seu sucesso na vida adulta, não acredito que isso seja capaz de
mudar completamente o modo como você se via na infância.
Então, quando comecei a trabalhar, mesmo que a princípio eu tivesse o
porte de modelo, me sentia desajeitada. O fato de algumas pessoas da
indústria da moda me dizerem que meus olhos eram pequenos demais e que
meu nariz e meus seios eram grandes demais reforçava esse sentimento. Aos
14 anos, nada parecia ser mais desagradável ou me fazia sentir mais
constrangida do que um estilista me dizendo que eu era bonita, ou um
fotógrafo me dizendo como fazer uma pose, ou ainda ouvir um editor
comentando sobre o meu corpo, os meus seios, os meus olhos ou o meu nariz
como se eu não estivesse lá.
Foi por isso que, por volta dos 18 anos, numa tentativa de me proteger e
evitar sofrer ou me sentir como um objeto, eu criei um escudo ao redor de
mim mesma. O meu eu privado era Gisele, mas a modelo Gisele era ela. Era
como eu a chamava também — ela. Ela era uma atriz. Uma performer. Uma
camaleoa. Uma personagem que criei para expressar a fantasia de um
estilista. Eu chegava para trabalhar e ouvia o que o fotógrafo queria, o que o
estilista queria, o que o maquiador queria. As ideias deles se uniam para criar
um clima, e eu, de repente, conseguia ver ela, sentir ela. Trabalhar como
modelo era uma forma de explorar todas as facetas da minha personalidade,
incluindo aquelas que eu nem sabia que tinha. Sendo ela, podia expressar
qualquer emoção, qualquer atitude. Era como se, me desconectando de mim
mesma, pudesse ser livre, enquanto mantinha o meu eu verdadeiro escondido
e seguro. Ela podia ser sexy ou recatada. Ela podia ser uma soldada ou uma
mulher atrevida. Ela podia ser um rosto ou um corpo no meio de dois
extremos. Eu não sonhava em ser modelo — quando era pequena, nem sabia
que era uma profissão. Eu simplesmente vi o que estava acontecendo comigo
como uma oportunidade de ganhar a vida. As portas se abriram — primeiro
uma, depois outra —, e entrei por elas. Havia também uma questão prática em jogo. Quando criança, cheguei a ouvir meus pais discutindo por causa de
dinheiro. Achei que, se tentasse ser modelo, e até me tornasse boa nisso,
poderia ajudar a nossa família. Então decidi aproveitar a chance que estavam
me oferecendo e ver o que poderia acontecer.
Mas, em vez de escrever sobre ela, quero me concentrar em quem eu sou.
Portanto, neste livro divido alguns aprendizados que me ajudaram a levar
uma vida mais consciente e alegre, que me inspiraram a superar cada desafio
que enfrentei ao longo dos anos e que me trouxeram uma compreensão mais
profunda de mim mesma e do mundo ao meu redor.
Alguns desses aprendizados descobri do jeito mais árduo — por
experiência própria. Outros pude observar as pessoas no decorrer dos anos e
cheguei à conclusão do que não fazer e de como não agir. Cada capítulo
deste livro traz histórias extraídas das minhas próprias experiências,
ilustrando meu processo de aprendizado e o que acontecia na minha vida
naquele momento. Também tive muitos professores ao longo do caminho.
Descobri que a natureza é uma grande professora e uma fonte de cura muito
poderosa. Aprendi a prestar atenção à minha voz interior, de quem obtive
insights importantes mesmo quando eu não queria ouvir. Aprendi que nossos
pensamentos, nossas palavras e ações estão conectados, e por que precisamos
ser cuidadosos com eles. Eu comecei a nutrir meu corpo, minha mente e meu
espírito através da meditação, de alimentos curativos e de uma visão positiva
da vida, e o resultado disso é que fui capaz de experimentar uma clareza mais
profunda e um sentido de propósito mais amplo. Espero que, ao dividir minha
história, ela possa servir de inspiração e ajuda para outras pessoas que
estejam passando por situações semelhantes.
Então, se a modelo de quem falei antes era ela, quem sou eu?
Se tem uma palavra que uso para me descrever é simples. Sou o tipo de
mulher que gosta de andar de calça jeans, camiseta e pés descalços. Minha
família vai dizer a mesma coisa. Sempre fui aluna da escola da vida, sempre
curiosa, sempre querendo saber mais. Naturalmente, quando saí da minha
cidade para iniciar a carreira de modelo, passei a experimentar o mundo de
novas maneiras. Pelas duas décadas seguintes, comecei o processo de
descobrir quem eu era. Como já disse, essa Gisele é muito diferente da minha
pessoa pública. Eu nasci numa família trabalhadora de classe média numa
cidade no sul do Brasil chamada Três de Maio. Além dos meus pais, havia
em casa seis de nós meninas: Raque, Fofa, Pati, Gise (essa sou eu), Gabi e
Fafi. Minha mãe, sempre batalhadora, trabalhava como bancária e ainda dava conta de toda a rotina da casa e das filhas. Meu pai era um empreendedor,
teve muitas atividades diferentes. Ele estava sempre lendo, aprendendo e
criando, e era — e ainda é — um espírito livre de verdade. Hoje atua como
palestrante motivacional e sociólogo trabalhando comigo em projetos
ambientais.
Eu bebezinha na minha casa em Horizontina, em 1981.
Tivemos a sorte de crescer tendo uma grande variedade de árvores
frutíferas no quintal de casa — abacate, pitanga, pêssego, goiaba, mamão,
butiá e três tipos diferentes de bergamota (minha fruta preferida) — que eu
colhia e carregava na camiseta dobrada.
Sempre amei a natureza. Sentia que a terra e a areia debaixo dos meus pés,
as árvores, as nuvens, os pássaros e os raios de sol faziam parte de quem eu
era, sentia que eu era a natureza. Lembro-me do quanto adorava visitar o sítio
da minha avó materna, onde ela tirava o leite das vacas, cultivava quase tudo
o que comia e fazia as próprias roupas. A vó preparava comidas deliciosas
para nós, como as cucas — uma versão alemã do panetone, só que com
pedacinhos de morango ou uva no meio da massa —, que eram servidas com
nata fresca ainda morna recém-tirada do leite.
Meu pai e minha mãe (segurando Gabi no colo) e, no meio, Raque e Fofa, no meu aniversário e da Pati (sou eu na frente e à esquerda, de língua de fora), em 1983.
Fui criada na religião católica, e minha mãe nos levava à missa todo
domingo. Assim como as minhas irmãs, não gostava muito de ficar sentada
naqueles bancos duros ouvindo o padre falar. Mas gostava dos cantos (minha
mãe tinha uma linda e poderosa voz de soprano). Também gostava das festas
que aconteciam no salão paroquial, onde eu comia qualquer coisa servida
pelas senhoras da igreja — salada de repolho, massa e churrasco — com as
outras crianças. Ainda adoro as histórias da Bíblia e as ensino aos meus
filhos. Mas eu sempre ficava matutando o porquê de tudo e, a certa altura,
comecei a questionar o que estavam me ensinando.
Um dia, numa aula de religião, quando tinha uns 12 ou 13 anos, estávamos
estudando o Levítico, e levantei a mão. Como a lei “olho por olho, dente por
dente” podia existir ao mesmo tempo em que Jesus nos ensinava a amar
nossos inimigos e sempre oferecer a outra face? Como isso funcionava? Eu
não estava tentando bancar a espertinha, mas aquilo simplesmente não fazia
sentido. Em vez de responder à minha pergunta ou iniciar um debate, a
professora pareceu surpresa, depois frustrada, e me mandou para a diretoria.
Eu não achava que tinha feito nada de errado! (E continuo não achando.)
À esquerda: Festa de aniversário minha e da Pati em 1987, em Horizontina. Acho que dá para ver como fiquei feliz depois de esperar um ano inteiro para ganhar a Fofura, minha boneca favorita! À direita: Pati e eu adorávamos brincar com os pintinhos na casa da nossa avó, em 1983. Era o meu lugar preferido quando criança.
Por que ela não me deu uma resposta? Se ela não tinha a resposta, quem
teria? Meus pais é que não. Minha mãe e meu pai estavam ocupados demais
trabalhando enquanto tentavam criar seis filhas. E as perguntas sem respostas
iam se acumulando. Quem eu era? Por que eu estava aqui? Como o mundo
começou? À medida que as dúvidas aumentavam, também crescia minha
resistência a qualquer tipo de sistema que afirmasse: Estes são os fatos, é
assim que funciona, e só existe um caminho.
Talvez tenha sido essa busca constante que tenha me levado a ficar
fascinada pelo mundo espiritual. Eu rezava à noite para Deus, para minha
estrela guia, para os meus anjos da guarda. No início da adolescência,
comecei a ler não só sobre religião, mas sobre crenças, metafísica e
mitologia. Esses são meus assuntos preferidos até hoje. Em algum momento
passei a acreditar que todos nós vivemos num mundo regido por ilusões, e
que o meu — o nosso — dever é descobrir quem realmente somos e
encontrar nosso propósito individual. Tudo o que vivemos, as coisas boas e
as ruins, tem um significado, mesmo quando não conseguimos entender
imediatamente qual é. Tudo acontece para que nós possamos aprender e
evoluir.
Eu digo aos meus filhos que Deus é uma energia que está por trás da
criação de tudo. Deus é visível nas montanhas, nos oceanos, no céu, nas
árvores, na luz do sol, na chuva, nos animais e nas estações do ano. Sem a
natureza, nada nem ninguém existiria. A natureza é divina e é ela que nos
mantém vivos.
Hoje, com 38 anos, sinto que estou diante de uma vida completamente
nova — um tipo de renascimento. Meu objetivo agora é continuar a aprender
e desenvolver meus talentos para usá-los para ajudar a servir a um bem maior. Acredito que muitas pessoas estejam preocupadas e distraídas com o
excesso de informação e de notícias ruins, e espero que este livro sirva como
uma ferramenta de inspiração para que se concentrem nos valores internos e
espirituais. Quando era mais jovem, não havia como prever o que aconteceria
comigo vinte anos depois. Estava ocupada demais vivendo, ocupada demais
fazendo escolhas. Uma vez li que, quando olhamos para o nosso passado,
podemos ver uma linha narrativa, uma ordem ou um plano, como se fosse
algo gerado por uma força invisível, e que os acontecimentos, e até mesmo as
pessoas presentes na nossa vida, que pareciam aleatórios ou sem importância
num dado momento, se tornam, no fim das contas, indispensáveis para a
nossa história. Nossas vidas também desempenham um papel importante nas
das outras pessoas. É como se nossas vidas fossem engrenagens de um
grande sonho de um sonhador solitário no qual todos os personagens também
estão sonhando. Quando olhamos para trás, é como se, sem saber,
estivéssemos criando juntos as nossas vidas — mas de que jeito, e com
quem?
Sei que ainda sou relativamente jovem, mas, olhando para a minha vida até
o momento, tenho uma enorme sensação de gratidão. Oportunidades
fenomenais me foram oferecidas, e trabalhei duro para tirar o melhor proveito
de cada uma delas. Minha vida não foi desse jeito por acaso. Escolhi me
mudar para São Paulo quando tinha 14 anos. Muitos anos depois, escolhi me
casar com meu marido. Escolhi formar uma família com ele. Poderia nunca
ter saído do Brasil. Poderia ter sido jogadora de vôlei profissional (eu era boa
nisso) ou ter me tornado veterinária. Poderia ter me casado com outra pessoa,
ou nunca ter me casado ou tido filhos. A vida que levo hoje é a consequência
das dezenas de decisões que tomei. Quando era mais jovem, aproveitei as
portas que se abriram para mim. Mas, com o passar dos anos, comecei eu
mesma a abrir as portas. Se fizermos escolhas mais conscientes e com uma
maior compreensão de nós mesmos, estaremos mais alinhados com o nosso
propósito na vida, seja ele qual for.
Ao longo dos anos, amigos e desconhecidos me confidenciaram sobre as
dificuldades enfrentadas pelas meninas e mulheres em suas vidas. Ouvi que
suas filhas ou amigas estavam enfrentando depressão, ansiedade, distúrbios
alimentares, automutilação, e, diante disso, compartilhei algumas das minhas
próprias experiências desafiadoras, na esperança de que isso fizesse com que
elas se sentissem apoiadas e que soubessem que não estavam sozinhas.
Somos todas bombardeadas com imagens de como deveria ser nossa aparência, ou de como deveríamos nos comportar. E, sim, sei que por mais de
duas décadas trabalhei numa indústria que tende a exaltar padrões
inalcançáveis de beleza, estilo e glamour. Sei também que as redes sociais
são talhadas para expor os melhores momentos das nossas vidas, não os
piores. No meu Instagram, você não vai encontrar muitas fotos minhas com
dor de cabeça ou com olheiras por ter ficado a noite inteira acordada
cuidando dos meus filhos quando estão doentes.
A vida pode ser mágica, mas viver bem exige esforço, foco, paciência,
compaixão, determinação e disciplina. Invejar ou se comparar com qualquer
pessoa é uma receita tóxica. A inveja só gera a sensação de nunca sermos
bons o suficiente. Acredito que somos — cada um de nós — únicos à nossa
própria maneira. Cada um de nós tem algo único e especial a oferecer, e que
somente nós podemos dar ao mundo.
Muitas mulheres estão simplesmente sobrecarregadas. Estejam elas no
ensino médio, com excesso de atividades em suas agendas diárias, ou na casa
dos trinta ou quarenta anos ficando esgotadas enquanto tentam ser boa mãe,
esposa perfeita, ter sucesso no trabalho, ou as três coisas, sem nunca ter
tempo só para si. Elas perderam a conexão com a natureza e com elas
mesmas. Estão buscando respostas do lado de fora, sem perceber que as
respostas que realmente importam estão do lado de dentro. Houve um tempo
em que eu fui assim. Então, naturalmente, estou escrevendo este livro para o
meu eu mais jovem. Se alguém tivesse compartilhado estas lições comigo
quando eu era adolescente ou quando eu tinha vinte e poucos anos, talvez
minha jornada tivesse sido um pouco mais fácil. E também quero
compartilhar essas lições com meus filhos. Sempre me pergunto: De que
forma eu poderia ajudá-los se eles não fossem meus filhos? Ou se eu não
estivesse aqui? Como eu posso deixar para eles algo importante e de valor?
As lições contidas neste livro são as que mais quero que meus filhos
aprendam e que se lembrem delas como luzes que guiarão suas vidas.
Por 23 anos fui aluna na escola da moda, e uma das primeiras coisas que
descobri foi como ela podia ser superficial. Por muito tempo na minha
carreira de modelo, me senti dividida e culpada. Trabalhar como modelo
nunca foi minha paixão nem a minha identidade. Foi uma oportunidade de
trabalho que surgiu quando eu era muito jovem, e eu a abracei. Mas isso não
quer dizer que eu não seja extremamente grata por todas as oportunidades
que tive e a todas as pessoas que me deram essas oportunidades. Hoje, toda a
visibilidade que tenho existe por causa do meu trabalho no mundo da moda, e agora posso usar algumas das ferramentas que adquiri para atrair mais
atenção para projetos que são importantes para mim e que, acredito, possam
ter um impacto positivo no mundo.
A maioria das pessoas me conhece apenas como uma imagem, um objeto,
uma tela em branco na qual podem projetar suas próprias histórias, seus
sonhos, suas fantasias — o que, ironicamente, era a mesma abordagem que
eu adotava no trabalho quando me tornei ela. Por 23 anos, também fui uma
imagem sem voz. Tenho isso em comum com muitas mulheres. Quantas
vezes nos passaram a mensagem de que nossas vozes não valiam a pena ser
ouvidas, seja quando somos ignoradas numa reunião, ou criticadas nas redes
sociais, ou reduzidas a um conjunto de partes corporais? Permitir a mim
mesma me abrir e mostrar meu lado vulnerável — não ela, mas eu, Gisele —
é bem assustador. Não vou mais poder me desconectar nem me esconder. Ao
mesmo tempo, acredite em mim: nada é mais estranho do que ser o objeto das
projeções de outras pessoas. Ser conhecida e ao mesmo tempo desconhecida
já não me parece certo. A vida nem sempre é fácil, nem é um conto de fadas,
e todos enfrentamos desafios, não importa quem sejamos. Ao falar
abertamente, espero que possa inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo,
principalmente numa época em que as mulheres precisam apoiar umas às
outras mais do que nunca. Afinal, as mudanças só acontecem quando estamos
dispostos a defender aquilo em que acreditamos.
Durante a celebração da Revolução Farroupilha, dia do gaúcho, em Horizontina, setembro de 1986. Eu sou a de vestido laranja.
Os aprendizados neste livro não são regras. Como alguém que sempre
questionou o status quo, é claro que não quero me transformar no status quo
de ninguém. Algumas destas lições podem parecer familiares, ou até mera
questão de bom senso. Meu objetivo é simplesmente interpretar crenças
específicas no contexto da minha vida e das minhas experiências. E, como a
maioria das pessoas, ainda estou aprendendo e tentando melhorar todos os
dias. Se estes aprendizados forem úteis, ótimo. Se uma, duas, ou todas as oito
não fizerem sentido para você, deixe-as para lá e siga seu caminho. Lembre-
se de que eu cresci questionando qualquer um ou qualquer coisa que
pretendesse ter todas as respostas, e talvez você se sinta do mesmo jeito. Nem
por um segundo estou tentando ser uma autoridade ou uma especialista. Não
sou melhor nem pior do que ninguém. Estes aprendizados simplesmente
deram certo para mim e me ajudaram a melhorar minha própria vida ao
atribuir a ela um significado mais profundo.
Ainda assim, se você guardar apenas uma mensagem deste livro, espero
que seja a importância de viver a vida com amor. De amar a si mesmo. De
amar os outros. De amar o mundo no qual todos nós vivemos. Jogue para o
alto todo o resto, mas, por favor, jamais viva sua vida sem amor.