Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado

7 Cuide de seu corpo para que ele possa cuidar de você

7

 

Cuide de seu corpo para que ele possa cuidar

 

de você

Antes de começar este capítulo, sinto que devo abordar um assunto em

particular, mas farei isso rapidinho, porque ele me deixa um pouco

desconfortável. Já ouvi que muitas mulheres gostariam de ter um corpo como

o meu. Também sei que várias pessoas têm curiosidade sobre a minha

alimentação. Há muitas características de que realmente gosto no meu corpo

— sou naturalmente atlética e me orgulho disso — e muitas coisas de que

não gosto, incluindo meus ombros, que já desloquei umas nove vezes cada

um. Muitas mulheres já me disseram que gostariam de ser altas como eu.

Minha altura, no fim das contas, acabou sendo uma vantagem (ser modelo!

jogar vôlei!), mas não fui eu que escolhi ter 1,80m. Principalmente na

adolescência, quando só o que a gente quer é se enturmar, fica difícil passar

despercebida quando se é dez, 15 centímetros mais alta que a maioria dos

seus amigos.

O corpo que eu tenho é o que me foi dado — não esqueça que quatro das

minhas irmãs são uma cabeça mais baixas que eu, e nem toda a couve e todo

o leite de coco do mundo as deixaria mais altas. Muitas pessoas parecem ter a

impressão de que sigo uma dieta especial ou um plano de exercícios

específico para obter uma determinada aparência. A verdade é que, quando

era mais nova, não precisava fazer muita coisa para manter a forma. Afinal de

contas, sou modelo, e meu biótipo é mais esguio, com ossos menores. Mas,

aos 38 anos, meu metabolismo desacelerou, e hoje presto muita atenção ao

que como. Sigo uma alimentação saudável e faço exercícios diariamente, com

um simples intuito: me sentir bem. Você se lembra dos ataques de ansiedade

que relatei? Eles se revelaram uma força motivadora incrível na minha vida.

Se você já teve um, vai entender por que digo que nunca vai querer passar

por isso de novo. Meus ataques de pânico me trouxeram muito mais

motivação do que qualquer prazer que eu possa sentir ao me olhar no

espelho.

Sei que muito se fala sobre o que as pessoas devem ou não devem comer.

A internet, em particular, é uma salada de informações, muitas delas

contraditórias e confusas. Lembra quando ovo fazia muito bem para a saúde,

depois passou a fazer muito mal, e agora é bom para a saúde de novo? Como

saber no que acreditar? Diante do Coma isso, beba aquilo — não, peraí. Não!

Peraí! Sim!, sem dúvida muitas pessoas simplesmente desistem. Se os

especialistas parecem discordar sobre o que é saudável ou não, nós podemos

muito bem comer pizza, hambúrguer, costelinhas, bacon, nuggets, sorvete,

refrigerante, chocolate e macarrão com queijo. A vida é curta, por que não comer o que a gente quer?

Preparando a canja especial da minha mãe, poucos dias antes do Benny nascer, em Boston, em 2009.

 

A questão é que não só estamos nos arriscando a ter uma vida mais curta se

não prestarmos atenção ao que botamos para dentro, como também ficamos

vulneráveis a doenças e à infelicidade.

Meus ataques de pânico transformaram completamente o modo como eu

me alimentava. A primeira mudança que fiz foi cortar o açúcar por três

meses. Não foi fácil. Meu jejum de açúcar de noventa dias terminou em

julho, bem perto do meu aniversário. (Nasci sob o signo de Câncer, e nós

caranguejos gostamos de comer.) Lembro que cheguei a um estúdio

fotográfico e alguém tinha sido legal e me comprado um bolo de chocolate

(meu preferido). Não estava planejando reintroduzir o açúcar na minha vida,

mas foi um gesto de tanta consideração que não quis ser mal-educada.

Quando comi uma fatia pequena — o primeiro açúcar de qualquer tipo que

ingeria após três meses —, não me senti bem e fiquei superelétrica. Mal

consegui me concentrar pelo resto do dia. Meu médico tinha me lembrado de

que havia açúcar em pães, massas, sucos, biscoitos, cereais matinais,

barrinhas de cereal, refrigerantes, energéticos — a maioria dos alimentos

industrializados contém muito açúcar em sua composição. Não é de se

estranhar que as crianças fiquem subindo pelas paredes quando seguem uma

alimentação rica em açúcar. Depois dessa minha desintoxicação, uma simples

fatia de bolo me deixou muito agitada! Esse episódio serviu para mostrar

quanto esse tipo de açúcar realmente me faz mal.

Mesmo depois de cortar todos os tipos de açúcar, a cafeína e o álcool da

minha vida, foi só quando o Benny nasceu que comecei a me alimentar da

maneira como faço hoje em dia. Saber que tudo o que eu comia ou bebia

passava através do meu leite para o meu bebê, afetando sua saúde, seu

sistema imunológico e sua energia, me levou a repensar ainda mais meus

hábitos. Não estava mais comendo só por mim. Por um período, fiquei meio

obcecada com a composição nutricional dos meus alimentos, embora tenha

relaxado um pouco quanto a isso com o tempo. (Acredito que pensar demais no que se come é quase tão ruim quanto ignorar o assunto.) Depois que

comecei a introduzir hábitos mais saudáveis na minha alimentação, o resto da

família naturalmente seguiu os mesmos passos.

Fazer mudanças na alimentação é algo que funciona num ritmo diferente

para cada um. Percebi isso com a minha família aqui no Brasil — minha mãe,

meu pai, minhas irmãs e suas famílias. Uma vez por ano nós nos reunimos, e

é quando os primos têm a oportunidade de brincar juntos e fortalecer os

laços. Geralmente nos encontramos na Costa Rica.

Com o Benny na Costa Rica, em 2010.

 

Já faz anos que só preparo comidas saudáveis. Num primeiro momento,

houve algumas reclamações. Alguns integrantes da família costumavam ir ao

supermercado para comprar “complementos”, para não ficarem sem seus

biscoitos e refrigerantes preferidos. Isso me chateava: Será que a gente não

pode comer só coisas saudáveis durante dez diazinhos? Por favor? Mas,

conforme os anos foram passando e os encontros em família continuaram,

aos poucos, eles começaram a mudar seus hábitos alimentares, e hoje quase

todos os meus familiares têm consciência do que estão comendo e do quanto

se sentem melhor quando se alimentam de forma mais saudável. Fico tão

feliz ao ver minhas irmãs e suas filhas se alimentando melhor. Vivemos

trocando receitas saudáveis no nosso grupo da família no WhatsApp.

Também compartilhamos remédios naturais e dicas de saúde. Hoje em dia,

quando todos nos reunimos, não há mais reclamações sobre a comida, muito

pelo contrário, todo mundo fica empolgado com o cardápio!

Encontro de família na Costa Rica, em 2014.

 

Na hora de escolher o que comer, penso no que vai me trazer mais energia

e equilíbrio. Com energia quero dizer manter minha vitalidade, para que

possa dar o melhor de mim tanto aos que estão à minha volta quanto para o

trabalho que quero ou preciso fazer. Isso não significa apenas ter um bom

desempenho — mas também me sentir saudável e pensar com clareza. Esse

processo exige atenção e auto-observação. Será que um legume e uma fruta

específicos, ou um determinado corte de carne ou sobremesa, vão me dar a

energia de que preciso e que desejo, ou vão fazer com que eu me sinta

cansada e sem forças? Com vinte e poucos anos, quando não dava a menor

bola para o que comia, meu almoço costumava ser cheeseburger e batata frita,

e meu jantar, um pratão de massa com molho de tomate e queijo. Depois, a

única coisa que eu tinha vontade de fazer era me deitar encolhida e dormir.

Para aumentar minha vitalidade ao fim de uma refeição, eu bebia uma xícara

de café com muito açúcar, e, quando o efeito da cafeína passava, tomava uma

segunda xícara, e talvez uma terceira. Depois de tanta cafeína, eu não

conseguia mais nem pensar.

Agora tenho consciência de que não posso simplesmente me dar ao luxo de

me sentir cansada ou desanimada, muito menos ansiosa ou confusa. O tempo

é curto, e odeio desperdiçar um segundo sequer. Se me alimento mal, gasto

muita energia só tentando me sentir normal de novo. Por que me sujeitar a

isso se não sou obrigada?

No que diz respeito a equilíbrio, Tom e eu adotamos o pensamento

Moderação em todas as coisas. Meu marido gosta de dizer: “Qualquer coisa,

mesmo que boa, quando em excesso não é bom — e uma coisa ruim em

excesso é só muito ruim mesmo.” Pensando bem, o excesso de qualquer coisa

— seja álcool, cafeína, açúcar, corrida ou sol — não é bom para ninguém. É

uma questão de bom senso. Por exemplo, de vez em quando posso até tomar

uma ou duas xícaras pequenas de café, em geral quando pego um voo

noturno e depois tenho que ir direto para um estúdio fotográfico. A diferença é que agora entendo que a cafeína é um estimulante poderoso, e eu a trato

como tal. Em ocasiões especiais, posso comer uma fatia pequena de bolo —

mas, quando faço isso, sei exatamente como meu corpo vai reagir e que

haverá um preço a pagar. (Só para constar, eu amo doce, mas opto por

sobremesas mais saudáveis sem açúcar refinado.) Agora que já faz muitos

anos que adotei uma dieta limpa, sinto o efeito do açúcar e da cafeína assim

que entram no meu organismo.

Quando comecei a pensar na comida em termos de me dar ou tirar energia,

me tornei mais consciente sobre o que comer e o que não comer. Não chamo

meu padrão alimentar de dieta, sigo hábitos alimentares saudáveis para

manter um alto nível de vitalidade e de clareza de raciocínio a fim de ter uma

vida produtiva e mais agradável. Esse mesmo pensamento motiva meus

exercícios matinais. Não malho apenas para perder ou manter o peso, mas

para manter a mente alerta e o corpo energizado. Quando faço exercícios

todos os dias, me sinto menos estressada, além de sentir um aumento no meu

nível de energia para dar conta de todas as coisas que quero e preciso fazer.

Quando conheci Tom, ele geralmente comia o que serviam no refeitório da

sede do time dele. Comida superpesada e não das mais nutritivas. Mas ele já

estava começando a fazer uma transição para uma alimentação mais

saudável, lanchando oleaginosas e frutas. Algumas semanas depois de nos

conhecermos, fomos com o amigo dele, Kevin, jantar num lugar que, na

época, era meu preferido para se comer em Nova York, um restaurante

orgânico e vegano em Irving Place, no East Village. Alguns itens do cardápio

continham castanha de caju. Como de costume, pedi uma salada grande com

vários tipos de legumes e verduras (e algas) com biscoitos integrais de

sementes de acompanhamento. “Eles têm bife aqui?”, lembro que o Kevin

perguntou. Quando o Tom terminou de comer, quis saber quando a comida

de verdade seria servida. Foi meio engraçado ver aqueles dois grandalhões

tão confusos sobre o que estavam comendo, mas a boa notícia é que ambos

saíram do restaurante satisfeitos, e o lugar também se tornou um dos

restaurantes favoritos do Tom em Nova York.

Fazendo ioga grávida da Vivi, em 2012.

 

Em 2008, Tom rompeu o ligamento cruzado do joelho logo no primeiro

jogo da temporada. Decidiu operar em Los Angeles para ficar mais perto do

Jack, que na época tinha só um mês. Não foi uma recuperação fácil, por causa

de uma série de infecções bacterianas. Tom ficou de cama durante meses. Em

uma sessão de fotos, conheci um buffet que entregava uma comida orgânica

deliciosa nas locações. Perguntei se eles teriam interesse em trabalhar para

nós. Eles concordaram e começaram a entregar comida na nossa casa três

vezes por semana. Depois que o Tom passou a comer alimentos orgânicos,

deliciosos e livres de conservantes e aditivos químicos, começou a se sentir

muito melhor, e não foi difícil, para ele, abandonar os antigos hábitos

alimentares. Nós dois decidimos que queríamos manter essa dieta mesmo

depois de voltarmos para Boston. Ambos nos sentíamos mais fortes, com

mais energia e com um raciocínio mais ágil. Até posso ter sido a responsável

por apresentar uma alimentação mais saudável ao Tom, mas, como ele já era

muito dedicado e disciplinado sobre questões de saúde, nossas preferências

combinaram naturalmente.

Hoje a alimentação da nossa família evoluiu para uma alimentação baseada

em vegetais e comida integral que inclui, na maior parte das vezes,

ingredientes locais e orgânicos, como legumes crus ou levemente cozidos no

vapor, frutas, verduras e grãos integrais, e de vez em quando alguma carne ou

frutos do mar.

O sul do Brasil, onde cresci, é uma região com muitas fazendas e ranchos

para a criação de gado. Na infância, eu era uma gaúcha típica que comia

carne quase todos os dias. Muitos anos depois — em duas ocasiões diferentes

— tentei virar vegetariana. Amo animais. E o fato de me alimentar deles me

incomodava demais. A primeira vez durou quase um ano e meio. Mas fiquei

extremamente anêmica, apesar de comer muito feijão, lentilha e grão-de-bico

para garantir a ingestão de uma quantidade suficiente de proteínas. Minhas

unhas ficaram quebradiças, e, quando examinava a pele sob os olhos, via que aquela região estava branca em vez de avermelhada. Nem os suplementos de

ferro e vitamina B12 ajudavam, e me sentia cansada o tempo todo. Quando

relatei os sintomas para o meu médico, ele sugeriu que eu reintroduzisse a

carne à minha alimentação. Claro que não era o que eu queria ouvir.

Na Amazônia durante as filmagens da série documental Years of Living Dangerously [O planeta em perigo], em 2016.

 

Dois ou três anos depois, fiz minha segunda tentativa de me tornar

vegetariana. Achava que seria possível, já que comia muito pouca carne.

Durou só dez meses, e fiquei com anemia de novo. Não tenho certeza se isso

tem a ver com meu tipo sanguíneo, com meu biótipo, ou sei lá o quê, mas

hoje aceito o fato de que uma dieta 100% vegetariana não funciona para mim.

Atualmente, como carne duas vezes por mês e frutos do mar uma vez por

semana. Presto muita atenção à origem da carne e dos tipos de peixe que

como. Depois que meu médico me explicou que peixes grandes, como atum e

peixe-espada, contêm maiores concentrações de mercúrio, resolvemos passar

a comer apenas peixes menores.

Também adoro cozinhar. Costumava cozinhar o tempo todo. Antes de me

casar, minha irmã Fafi morou comigo em Nova York durante quatro meses.

Todas as noites, quando voltava do estúdio, eu preparava o jantar para nós

duas. (Afinal, me considero a segunda mãe dela.) Hoje, minha agenda é

muito mais cheia, e tenho que priorizar as coisas, o que significa que não

cozinho com tanta frequência, mas de vez em quando encontro tempo para

preparar sobremesas saudáveis. Temos muita sorte em poder contar com a

Susan, que vem à nossa casa cinco vezes por semana para preparar refeições

saudáveis para a família inteira. As crianças adoram ficar com ela na cozinha

dando uma ajudinha e aprendendo com seu talento e suas dicas. Com a minha

mãe morando tão longe, é maravilhoso que o Benny e a Vivi tenham a

oportunidade de passar um tempo com a Susan, que passa essa energia de

avó. Ela é afetuosa e amorosa, e a comida dela é sempre saudável, nutritiva e

deliciosa. Susan também se dedica à compostagem e a selecionar alimentos

que estejam na época, e sabe muito sobre agricultura. Ela até ajuda as

crianças a plantarem legumes, verduras e temperos na nossa horta.

Além da horta, mantemos também duas colmeias. Desde que soube que as

abelhas estão morrendo por causa dos agrotóxicos, decidi fazer algo pra

ajudar e ainda acabamos nos beneficiando do seu mel fresco (dizem que o mel local pode ajudar a aliviar alergias), que usamos quando queremos

adoçar os alimentos.

Muitas das sobremesas da nossa família são uma mistura de abacate com

coco. Pelo que sei, são os melhores tipos de gordura que existem. Seja

quando fazemos sorvete ou uma mousse — e se estou querendo um sabor

extra de chocolate, meu favorito —, usamos uma combinação de abacate,

banana e cacau 100% em pó, que nos dá uma base bem cremosa e deliciosa.

Como já mencionei no início do livro, depois de bochechar com óleo de

coco e meditar, começo minhas manhãs bebendo um copo de água morna

com suco de meio limão. Meia hora depois, enquanto preparo o café da

manhã e arrumo as lancheiras das crianças — se não tiver comido o resto do

café da manhã deles —, bebo um copo de suco verde. Em geral preparo uma

mistura de aipo, pepino, meia maçã vermelha ou verde, cúrcuma, gengibre,

suco de limão e, às vezes, couve e beterraba. Se estiver no meu período

menstrual, faço um suco só de beterraba e limão para garantir uma dose extra

de ferro e vitamina C. Se planejo malhar pesado, preparo um smoothie

usando frutas vermelhas frescas ou congeladas, uma colher cheia de cacau em

pó, linhaça, chia e um pouco de leite de coco. Às vezes acrescento uma

banana ou uma colher cheia de manteiga de amêndoa caseira ou proteína em

pó. Também tomo vitaminas e sempre levo uma bolsinha delas comigo

quando viajo. Em geral, prefiro obter minhas vitaminas da verdadeira fonte, a

comida. Mas tomo vitamina C e um multivitamínico do complexo B para me

proteger contra a fadiga e uma possível anemia, e também vitamina D para

proteger os ossos. Faço acupuntura e, duas vezes por ano, meu médico me dá

injeções de vitaminas, incluindo C, B12 e magnésio. Geralmente faço isso

antes do começo do inverno, quando todos ficamos mais propensos a

adoecer.

Duas vezes por semana, procuro não comer nada até a hora do almoço,

mesmo se for malhar. Sempre me sinto incrivelmente energizada depois

desse minijejum. O corpo usa muita energia para digerir os alimentos, e acho

uma boa dar um descanso ao sistema digestivo de vez em quando. Há vários

relatos sobre os benefícios do jejum. Sinto que uma dieta líquida me ajuda

sempre que fico doente, quando o corpo quer apenas sopas ou chás. Às vezes

reservo um mês por ano para não ingerir nenhum tipo de açúcar, o que inclui

o açúcar das frutas e os açúcares dos grãos ou do álcool.

Também sou adepta de porções pequenas, mais ainda com o passar dos

anos. Muitas pessoas acham que, para ficarmos fortes e saudáveis, precisamos comer muito. Pelo contrário. Quantidades menores de comida não

sobrecarregam a digestão nem nos deixam exaustos. Quando eu era pequena,

minha mãe só deixava a gente sair da mesa depois de raspar o prato. Ela nos

lembrava de como tínhamos sorte por ter o que comer, e que muitas pessoas

no mundo passavam fome. Durante anos me senti culpada sempre que

deixava comida no prato, ainda que só um tiquinho. Comia até não sobrar

nada, o que me deixava empanturrada e exausta. Hoje, só me sirvo de

porções menores, que sei que vão me satisfazer, sem me deixar com um peso

no estômago ou cansada. Também me sinto mais leve, mais disposta e pronta

para encarar o dia.

A comida existe para nos energizar, não para nos fazer cair no sono. É por

isso que meu almoço geralmente consiste numa salada, com alguns biscoitos

de sementes e abacate, ou numa tigela de sopa com grão-de-bico e uma

variedade de legumes. Outra comida de que gosto para o almoço,

principalmente no verão, são rolinhos primavera vegetarianos com folha de

arroz e com molho tahine para acompanhar (não é frito, por isso é mais leve).

Esta versão de rolinhos primavera é fácil de fazer. Junto uma ou duas fatias

de maçã ou abacate, repolho picado e algumas tiras de cenoura e pepino e os

enrolo numa folha de arroz previamente hidratada. Dois ou três rolinhos em

geral são suficientes para me deixar satisfeita. São leves, perfeitos e

deliciosos, principalmente com o molho. Eu poderia literalmente beber o

molho de tahine, de tão bom que é!

Apesar do que você pode ter lido por aí sobre nossos hábitos alimentares,

nossa família não evita radicalmente os laticínios. A verdade é que adoro

queijo de cabra e de ovelha, embora tenha passado a evitar os laticínios de

vaca desde que fiz um exame que acusou que tenho intolerância à lactose.

Bebo leite de coco feito em casa, leite de amêndoas ou leite de arroz. Esses

são os três tipos de leite preferidos da nossa família. (O meu é o de coco.)

Quando recebo amigos para jantar, com frequência sirvo um prato com

queijo, frutos secos e um pouco de mel para acompanhar. Mas não dois

quilos de queijo, apenas uma porção pequena — um Midnight Moon, um

Manchego e talvez um queijo de castanha de caju. Acho difícil a gente se

privar de uma coisa que adora, e eu amo queijo, porém como com

moderação. Da mesma forma, não cortamos o glúten completamente, o

evitamos. Quando comemos trigo, é do tipo orgânico e integral. Em casa,

fazemos massa mais ou menos uma vez por semana, em geral massa de arroz

ou quinoa, que acho mais saborosa que a massa de farinha de trigo de qualquer forma, e todos adoramos quando o Tom prepara suas panquecas

especiais sem glúten nos fins de semana.

Tomando picolé de fruta caseiro com minha menininha, na

Costa Rica, em 2014.

 

Acho que a essa altura já deu para perceber que não sou rígida demais

quanto à alimentação. Talvez por isso eu viva beliscando. Durante o dia dá

para me flagrar com um punhado de amêndoas torradas temperadas com

ervas, ou sementes de abóbora (minhas preferidas), na mão. Também gosto

de sementes de girassol e de chocolate amargo, minha obsessão.

Se o primeiro amor do meu marido é o futebol americano, o meu é

chocolate amargo. Como chocolate todos os dias, mesmo que seja só um

pedacinho; e, se estou na TPM, como bem mais que só um pedacinho. Depois

do almoço, sempre como uma sobremesa pequena, em geral alguma coisa

feita com coco ou, de novo, chocolate amargo, embora raramente à noite, já

que a cafeína do chocolate pode me fazer perder o sono.

O lanche favorito na nossa casa é pasta de grão-de-bico (homus)

acompanhada de aipo, cenoura e pepino picados. É também o que

costumamos oferecer aos nossos amigos quando nos visitam ou o que

levamos para a escola do Benny e da Vivi quando há algum evento lá. Não

bebo álcool com muita frequência, mas, quando o faço, gosto de vinho tinto,

ou tequila, em ocasiões especiais. Se estiver de férias no verão, até bebo uma

margarita. Não sou contra o consumo de álcool, mas, em geral, não gosto do

modo como me sinto no dia seguinte. Desde que passei a adotar uma

alimentação mais saudável e deixei de beber com frequência, minha

tolerância ao álcool ficou bem baixa.

Tenho vontade de comer diferentes tipos de comida dependendo da

estação, seja outono, inverno, primavera ou verão. Tom e eu nos associamos

a uma fazenda rural comunitária (CSA) nos arredores de Boston. Os sócios

recebem uma caixa dos legumes, verduras e frutas da estação. No começo do

outono, por exemplo, ganhamos um monte de abóboras — o que também

significa que comemos muita abóbora nessa época do ano, preparada das

mais diversas maneiras.

A natureza é inteligente; ela nos diz o que devemos comer e quando. Assim que me mudei para Boston e tentei adotar uma dieta basicamente

vegetariana ou vegana, ia para a cama à noite morrendo de frio, mesmo com

o aquecedor ligado no máximo. Mas então aprendi a ouvir meu corpo.

Durante os meses frios, tinha desejo de comer sopas quentes e ensopados,

raízes e alimentos mais pesados e suculentos que me ajudavam a manter o

calor do corpo. No verão, uma sopa cremosa ou um ensopado parece um

pouco pesado demais. No clima mais quente, como mais saladas, frutas,

legumes e verduras, assim como alimentos crus — em parte porque são

nutritivos e refrescantes, e também porque há uma oferta maior deles nessa

época do ano. A verdade é que os alimentos produzidos localmente têm um

gosto melhor porque são mais frescos. Nada se compara à doçura de um

morango em junho.

Tom e Vivi com seus óculos escuros, em Cape Cod, em 2014.

 

Ter mais energia é também o objetivo principal por trás dos meus exercícios

matinais. Sou uma pessoa que adora usar o corpo, seja fazendo ioga,

esquiando (ou, pelo menos, tentando esquiar), surfando, andando de bicicleta

ou a cavalo, fazendo kickboxing ou dançando, que é uma das minhas

atividades preferidas. Também já tive interesse por artes marciais. Elas

podem até ser uma forma de luta, mas acho todas lindas. Sou fã de carteirinha

de Bruce Lee. Ele tinha um foco, uma dedicação e uma consciência corporal

extraordinários. Durante quase sete anos, cinco dias por semana, pratiquei

kung fu e luta com espada e bastão em Boston com Yao, um instrutor chinês

incrível. Treinei mesmo durante a gravidez dos meus dois filhos. A melhor

parte foi que pude ver quanto evoluía dia após dia. Tom costumava me

chamar de Gise-lee.

Atualmente, gosto de fazer vários tipos de exercícios. A palavra mais

importante nessa frase é gosto. A menos que eu esteja doente ou viajando,

meus exercícios matinais sempre fazem parte da minha rotina. Encaro os

exercícios da mesma forma como encaro todas as outras coisas na minha vida

— com 100% de foco e dedicação. Seja fazendo ioga, exercícios com faixas

elásticas ou dança, minha abordagem tem menos a ver com querer ser a

melhor e mais com querer dar o meu melhor. Penso da seguinte maneira: se

reservo um tempo para me exercitar, quero aproveitar ao máximo esse tempo. Qual é o sentido de fazer algo pela metade? Não importa se estou malhando

por uma hora — que é o tempo ideal para mim — ou por vinte ou trinta

minutos, o importante é a presença, a dedicação e a intensidade, seja lá o que

eu estiver fazendo.

Quando estou em Boston, costumo ir duas vezes por semana para a

academia do Tom, a TB12, e me exercito com faixas elásticas de resistência.

Fafi e eu também fazemos aula de pilates ou de dança no Santuário, às vezes.

Adoro fazer exercícios ao ar livre, principalmente na Costa Rica. Lá consigo

ficar totalmente integrada e presente na natureza enquanto também faço bem

para o meu corpo, meu cérebro e meu espírito. Quando surfo, esquio ou ando

a cavalo, não sinto que estou “malhando”. Ao meu ver, o exercício é como

me plugar numa tomada de alta voltagem. Na verdade, fico deprimida e

irritadiça quando não consigo me exercitar, e minha vitalidade diminui. Se

não tomarmos conta do nosso corpo, o nosso corpo não vai cuidar de nós. Ele

é como um veículo. Quando me exercito e me alimento bem, estou ajudando

na manutenção do meu veículo para que funcione direito e não quebre.

Algumas pessoas malham para ficar com um corpo lindo. Eu me exercito em

busca de sanidade e clareza também. Fazer dez minutos que sejam de

qualquer tipo de movimento aumenta significativamente minha energia vital.

Espairecendo com a prática de kung fu, em 2011.

 

Não quero jamais que exercícios físicos sejam uma obrigação. Não perco a

cabeça nem fico enlouquecida se faltar um dia ou dois. Fazer exercícios

físicos compulsivamente pode ser um problema tanto quanto não fazer

exercício algum. Se saio para surfar, isso conta como um treino, mas, quando

volto para a areia, fecho a manhã com chave de ouro com algumas saudações

ao sol, talvez por nenhuma outra razão a não ser alongar os músculos que

ficaram tensos na prancha de surfe. Se o Tom e eu estamos esquiando, e fico

apenas meia hora nas pistas, faço alguns exercícios com faixas elásticas

depois. Se estou no Brasil fazendo um ensaio fotográfico, pratico ioga no

quarto do hotel, cerca de meia hora de uma sequência de posições para a

abertura dos quadris, de pranchas, pontes e alongamento. Faço o que é

possível. O exercício me reconecta com minha respiração e meu corpo.

Quando estou malhando, me mantendo consciente da minha respiração, o

exercício se torna uma outra forma de meditação. Quando termino, me sinto

revitalizada.

Às vezes, porém, podem surgir alguns contratempos. No ano passado, por

exemplo, rompi o ligamento cruzado do joelho no primeiro dia de uma

semana de férias com as crianças. Foi muito frustrante porque tive que ficar

de molho com a perna para o alto pelo resto da viagem. Durante os meses

seguintes, o máximo que eu podia fazer era caminhar, e demorei muito tempo

para poder retomar minha rotina diária. Agora valorizo, mais do que nunca,

quando meu corpo está bem, e compreendo como é importante cuidar bem

dele para que eu possa continuar fazendo o que amo pelo máximo de tempo

possível. Ficar imobilizada e não poder fazer exercícios regularmente foi

muito difícil para mim e sem dúvida me deixou meio deprimida. Foram

necessárias paciência, dedicação e perseverança para me recuperar

totalmente, mas hoje sou muito grata por sentir meu corpo bem de novo

(tirando meus ombros, que ainda precisam de mais tratamento).

Há algo muito gratificante em colocar sua energia em uma atividade específica, digamos, ioga ou uma arte marcial, todos os dias, por um longo

período. Você não só acompanha seu progresso, como também é capaz de se

aprofundar no treino. Por exemplo, quando você pratica as posturas da ioga

regularmente e com muito foco, elas se tornam um portal para a compreensão

espiritual. Mais uma vez, o segredo é a dedicação: quanto mais tempo e

atenção dedicamos a alguma coisa, melhor nos tornamos naquilo. E, como

em tudo, o autoconhecimento ajuda muito na hora de saber o que funciona ou

não para o seu corpo. O que dá certo para mim pode não funcionar para você.

Minha filosofia é usar o exercício como ferramenta para criar paz interior e

clareza. O que ele representa para você? Uma forma de ter um momento de

solidão numa longa caminhada ou de interagir com amigos durante uma aula?

Você é uma pessoa com muita energia que precisa se exercitar para baixar a

bola, ou é mais do tipo preguiçoso que precisa de uma atividade para pegar

no tranco? Sua inspiração e vitalidade podem vir de algumas das atividades

que eu amo, ou de outra coisa totalmente diferente. Talvez você precise de

uma combinação de atividades que se complementam. Não acho que seja

coincidência o fato de o esporte preferido do Tom no recesso da temporada

ser golfe — sem contato corporal, sem corridas. Nosso corpo e nosso planeta

são os únicos lares que temos. Como você quer que seu lar seja para que se

sinta melhor e mais feliz? Você está tratando a si mesmo com carinho e

respeito de modo a poder pedir e receber o máximo do seu corpo e da sua

mente? Se você não deu ao seu corpo a atenção e a nutrição de que precisa, é

pouco provável que ele vá oferecer o que você precisa em troca.

Se estiver considerando fazer ajustes à sua alimentação, minha principal

recomendação é evitar açúcar e alimentos industrializados. Tente comer o

máximo de comida de verdade e produzida localmente que você puder. Se os

alimentos orgânicos não forem uma opção para você, certifique-se de lavar

tudo com cuidado. Se quiser eliminar o açúcar ou reduzir os laticínios,

comece devagar. Vá aos poucos. Veja como o seu corpo reage. Se você sentir

mais energia como resultado disso, vai ter uma motivação a mais para

continuar. Foi o que aconteceu comigo. Mas não faça o mesmo que já vi

algumas pessoas fazerem, ou seja, adotar minha “dieta” como uma espécie de

desafio. Em primeiro lugar, minha alimentação evoluiu bem devagar por

causa das minhas circunstâncias. E, em segundo lugar, talvez você não reaja à

comida do mesmo jeito que eu.

Tendo dito tudo isso... Eu. Amo. Pizza. Algumas noites de sábado, quando

o Benny e a Vivi recebem amigos para dormir em nossa casa, fazemos a Noite da Pizza. Tento evitar que ela seja um desastre nutricional ao focar nos

ingredientes. (A verdade é que você pode transformar muitos dos seus pratos

preferidos — como macarrão com queijo — em comidas mais saudáveis

apenas alterando alguns ingredientes.) Um amigo nosso é dono de uma

pequena rede de pizzarias chamada Desano, que utiliza ingredientes italianos

de alta qualidade, e às vezes ele nos manda pizzas congeladas que

preparamos nessas noites especiais de sábado. Os ingredientes são orgânicos,

e as pizzas têm pouco queijo, geralmente burrata (muçarela de búfala). São

deliciosas, finas e crocantes. Obviamente, não tenho coragem de desperdiçar

comida, em geral acabo comendo as bordas das pizzas de todo mundo com

manteiga. Ninguém nunca vai me flagrar na cozinha à uma da madrugada

devorando um pote de sorvete, mas, quando começo a comer manteiga,

ninguém me segura. Nada se compara a um bom pãozinho com manteiga.

Todos temos direito a uma extravagância alimentar — ou duas, ou três —, e a

legítima manteiga francesa e o chocolate amargo são as minhas, junto com

um balde de pipoca, por favor, nas noites em que vejo um filme com o Tom.

A essa altura você deve estar se perguntando se o Benny e a Vivi

realmente gostam da rotina nutricional da nossa família, já que crianças, em

geral, são chatas para comer. Mas eles vêm comendo alimentos integrais

desde bem pequenos, então estão acostumados com essa alimentação e

gostam de verdade dela.

Imagino que as pessoas tendam a gostar daquilo que lhes é familiar, e é por

isso que quem nasce na Inglaterra adora o chá Earl Grey, os australianos

amam Vegemite e no sul do Brasil tomamos chimarrão. Nossas papilas

gustativas estão preparadas para gostar do que conhecemos, e principalmente,

do que conhecemos na infância. Qualquer legume ou verdura que meus filhos

possam comer crus — couve-flor, pepino, cenoura, brócolis — eles gostam,

além de pasta de grão-de-bico com rodelas de pepino e cenoura, com uma

pitadinha de sal do himalaia. É claro que eles também adoram pizza, massa e

cheeseburger, que comem uma vez ou outra, quando estamos viajando, mas

em casa tentamos manter a alimentação o mais saudável possível.

Se meus filhos gostam dos alimentos que comem desde pequenos, isso

também é verdade para quem cresceu comendo cheeseburger, batata frita e

pizza, pois vai se acostumar a uma comida com muito sal, açúcar e gordura.

Se você resolver começar a se alimentar de forma saudável agora, num

primeiro momento pode ser que o novo gosto não pareça tão bom, porque o

sal, o açúcar e a gordura dos alimentos industrializados não estão presentes. Mas, acredite, você pode mudar seu paladar e ter prazer com uma nova

alimentação, e sou a prova viva disso. Para mim, foi uma questão de me dar

conta de como me sentia melhor e mais feliz por ter mais vitalidade.

Quando as crianças estão cercadas de comida de qualidade e são encorajadas a preparar os próprios alimentos, acabam adorando comida saudável. Essa é a Vivi me ajudando a preparar suco verde de manhã, em 2014.

 

Dito isso, aqui estão alguns meios de introduzir legumes e verduras na

alimentação de crianças. Minha mãe costumava picar legumes e verduras e

misturá-los com ovos para ajudar a escondê-los. Ou preparava uma canja, que

normalmente faço quando o Benny e a Vivi estão começando a ficar

gripados. Também é possível refogar os legumes numa frigideira com um

pouco de ghee (manteiga clarificada, que gosto de usar para saltear), alho e

sal marinho; você pode mergulhá-los na pasta de grão-de-bico, em manteiga

de amêndoas ou em molho tahine; pode preparar smoothies com eles; pode

misturá-los a ensopados, sopas e ovos do jeito que minha mãe fazia. Tenho

uma amiga que faz cookies de cenoura que levam aveia orgânica e muita

cenoura ralada. A família dela adora. Pense no que você gosta e use a sua

imaginação.

Depois do jantar, normalmente gosto de tomar uma xícara de chá de

camomila, e também ofereço chá para as crianças. Tento não beber nada —

seja água, chá ou vinho — enquanto estou comendo. Minha mãe sempre nos

ensinou que os líquidos tornam mais difícil a digestão. Basicamente, bebo o

que quero antes do jantar, e o mesmo fazem as crianças, mas não durante as

refeições. Quando o jantar termina, espero mais ou menos meia hora antes de

ingerir líquidos. E, já disse e repito, sou uma grande adepta de porções

pequenas. É difícil digerir muita comida de uma só vez. Pense em como você

se sente no dia seguinte à ceia de Natal. Minha filosofia é que, se você ainda

estiver com muita fome, sempre poderá se servir de novo. Acho que, quando

desaceleramos e prestamos mais atenção enquanto comemos, é mais fácil

perceber quando o tanque está cheio.

Quando eu era solteira e não tinha filhos, costumava ir a retiros de

meditação que duravam de três a quatro dias, onde também ficava em jejum e

só ingeria líquidos. O que mais me fascinava era quando, depois de terminado o jejum e de eu retomar a ingestão de alimentos sólidos, a primeira

fruta ou legume que eu comia causava uma explosão de sabor na minha boca.

Ainda gosto de fazer um detox de vez em quando, porque me sinto ótima

depois. Contudo, jamais faria um detox à base de sucos no inverno, só nos

meses mais quentes. Nosso corpo precisa de toda energia e toda gordura que

puder obter no tempo frio (e, acredite, faz muito frio em Boston), então

reservo os jejuns para os meses de verão. Às vezes, bebo apenas sucos.

Também bebo muita água de coco por seu valor nutricional e energético

(melhor se bebido direto do coco). Fazer um detox realmente ajuda a clarear a

minha mente. Os primeiros dois dias de uma dieta líquida podem ser

desafiadores, porque, bem, você fica com fome. Para mim, contudo, vale

muito a pena. A desintoxicação me proporciona clareza e mais energia.

Mas não faço jejuns como forma de controlar o peso. Mantenho meu peso

graças ao meu estilo de vida. Sigo uma alimentação saudável e bebo muita

água e chá ao longo do dia. Esteja eu comendo ou me exercitando, o

importante é fazer coisas que me ajudem a ganhar mais energia e clareza.

Nós somos o que comemos! Isso não é novidade para quase ninguém, mas

vou ainda mais além. Também somos como comemos. Levei anos para

entender que não se trata apenas do que ponho na boca — e também de como

estou comendo —, não só da velocidade, mas também do meu estado

emocional. Se estou ansiosa ou alegre na hora das refeições, esses

sentimentos também serão ingeridos. A atitude que gosto de manter durante

as refeições é de apreciação. Apreciação pelo milagre da natureza, como o

das sementinhas que cresceram até se tornarem os legumes e as verduras da

minha salada, ou da linda árvore que compartilhou suas frutas comigo.

Dedicar um tempo para trazer consciência plena às refeições pode aumentar

nosso respeito pela vida e pela natureza. Quando estamos mais em sintonia

com o que comemos, nos tornamos ainda mais conscientes de que a natureza

nos dá cada elemento que permite ao nosso corpo se desenvolver.

Imagine não ter alimento algum na sua frente. Ou, tirando o jejum

deliberado, ficar mais que um ou dois dias sem comer nada. Se isso

acontecer, e se alguém lhe oferecer algo para comer depois, nesse momento a

comida vai se tornar mais valiosa para você do que qualquer outra coisa na

face da Terra. Por muito tempo, não me importei com o que comia e com

meus hábitos alimentares. Comia de forma automática e sem pensar. Tinha

fome, então me alimentava. Também comia depressa, engolindo os alimentos

quase sem mastigar, principalmente quando estava com muita fome. Raramente respirava entre as mordidas. Aproveitava a hora da refeição para

fazer ligações e reuniões. Não é de se espantar que eu me sentisse meio

desanimada e um pouco indisposta depois. O que minha mãe sempre nos

dizia quando éramos crianças? Para mastigar bem a comida, pelo menos vinte

vezes. Até hoje, quando nossa família se reúne, minha mãe fica em silêncio

quando está comendo, realmente apreciando cada garfada.

O modo como uma pessoa come diz muito sobre ela. O que vemos do lado

de fora é quase sempre um reflexo do que está dentro. Agora você já sabe que

a meditação me ensinou muitas coisas, em particular a importância, e a

magia, de estar totalmente presente em cada momento. Quando estamos

presentes, nós observamos, ouvimos, experimentamos sensações, sentimos

gostos e vivenciamos tudo com mais clareza. Não como tão devagar quanto a

minha mãe — ainda estou trabalhando nisso —, mas minha intenção é estar

consciente, tentar transformar cada refeição numa forma de meditação. De

vez em quando as refeições podem ser um ótimo momento para praticar o

estado consciente ao ficar em silêncio, se concentrando na comida, prestando

atenção à respiração e observando para onde a mente vaga enquanto se está

comendo. Infelizmente a agitação da vida não permite que eu faça todas as

refeições dessa maneira, mas, quando faço, me sinto muito bem!

Também acredito ser importante reservar um tempo para nos

questionarmos sobre quais emoções associamos à comida. Nós valorizamos o

que está diante de nós? Nos sentimos gratos? Nos sentimos culpados sobre o

que estamos prestes a comer, ou podemos fazer a refeição com prazer e

satisfação? Percebo que as emoções que rodeiam a comida são complicadas e

que todo mundo tem alguma “questão”.

Tudo isso serve para dizer que se sentar para fazer uma refeição pode ser

uma ótima oportunidade de vivenciar a presença e a gratidão.

Vale a pena tentar. Sente-se em silêncio. Agradeça pela comida que está na

sua frente e pelo lugar de onde ela veio. Não transforme a refeição numa

competição para ver quem come mais devagar, mas coma cada garfada com

apreço por todos os nutrientes que você está ingerindo. Veja como se sente ao

terminar. A vida é tão atribulada e tão corrida para a maioria de nós que

raramente dedicamos um tempo para relaxar e nos centrar. Mas todos

precisamos comer. Então, por que não transformar, quando possível, as

refeições numa experiência mais consciente?