Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado

4 Nossos pensamentos e palavras têm poder — use-os com sabedoria

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Nossos pensamentos e palavras têm poder —

 

use-os com sabedoria

Uma intenção que tento pôr em prática todos os dias é levar a vida com o

máximo de consciência possível — de mim mesma e de tudo que acontece ao

meu redor. Isso significa estar totalmente presente em todos os momentos da

minha vida enquanto eles estão acontecendo. Acho que o autoconhecimento é

uma das coisas mais importantes da vida. Mas é claro que se trata mais de um

processo contínuo do que de uma meta. Na adolescência, a maioria de nós

acredita que já sabe tudo o que há para saber sobre nós mesmos (e talvez

sobre todo o resto — é só perguntar aos seus pais). Mas, alguns anos depois,

quando pensamos na nossa versão adolescente, temos a sensação de que

estamos observando outra pessoa. Afinal de contas, quem era aquela garota?

Na verdade, vejo que esse tipo de experiência acontece de tempos em

tempos. Nosso autoconhecimento tem o potencial de se aprofundar e de se

expandir, e as maiores influências nesse processo são nossos pensamentos,

nossas palavras e nossas ações.

Quais foram os primeiros pensamentos que passaram pela sua cabeça

quando acordou hoje de manhã? Você sentiu gratidão por estar vivo?

Apreciou sua cama quentinha e como foi bom se espreguiçar e sentir seu

corpo se alongando depois de uma boa noite de sono? Sentiu animação com o

dia que teria pela frente? Ou você se concentrou em todo o trabalho que tem a

fazer, e em como nunca tem tempo para si, e como o mundo às vezes parece

estar conspirando contra você e é sério que está chovendo de novo? Cito

esses exemplos para destacar que pensamentos positivos e negativos moldam

a qualidade das nossas experiências.

Nossos pensamentos criam nossas palavras e ações. Aliás, usar palavras é

um tipo de ação. A compreensão que tenho do poder dos meus pensamentos

aumentou muito quando comecei a meditar. Quanto mais consciente me

tornei do lugar aonde meus pensamentos estavam me levando, mais

consciente fiquei das palavras e ações que se seguiam. Percebi que às vezes

ficava à mercê deles. Nossa mente não deveria nos servir — em vez do

contrário?

Se seus pensamentos são positivos, suas palavras tendem a ser positivas

também. Se seus pensamentos são negativos, suas palavras têm uma

probabilidade maior de causar danos, mesmo que essa nunca tenha sido a sua

intenção. Depois que dizemos algo, não temos como retirar o que foi dito.

Falar coisas negativas e nocivas pode deixar feridas que vão além daquele

momento em particular. Suas palavras podem se tornar parte das crenças de

outra pessoa, parte de como ela vai definir a si mesma e você. O que pode ser mais perigoso do que isso? Falo para os meus filhos que as palavras que

eles usam não são muito diferentes de feitiços. Se houver amor e bondade por

trás dessas palavras, elas ficam carregadas de positividade e podem produzir

um efeito mágico. Mas, se os pensamentos e as palavras deles vêm da raiva

ou da inveja, podem causar muitos estragos.

Exausta! Nos preparativos desde cedo para um desfile na Semana de Moda de Milão, durante uma temporada frenética de desfiles, em 1998.

 

Somos como um disco rígido em que diversos dados são gravados. Esses

dados vêm de nossas experiências anteriores. Seu lar era amoroso e pacífico?

Você cresceu tendo bons exemplos de como as pessoas devem tratar umas às

outras? Ou seus familiares erguiam a voz e batiam portas sempre que um

problema surgia? Pode ser difícil se livrar do condicionamento que se adquire

na infância. A essa altura você já sabe que tenho uma relação muito próxima

com meus familiares, mas com meus colegas de escola foi outra história. Foi

no colégio que descobri o poder dos pensamentos e das palavras.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, era pelo menos dez centímetros mais

alta que todos os meus colegas de turma, meninos e meninas, e isso incluía

minha própria irmã gêmea. Meus colegas implicavam comigo sem parar,

fazendo com que eu me sentisse esquisita e desconfortável com meu próprio

corpo. Pesava uns 45 quilos. Costumava usar duas calças para ir à escola,

numa tentativa de fazer as pernas parecerem mais grossas. Para desviar a

atenção da minha altura, andava com os ombros caídos, e claro que isso só

fazia minha altura ficar ainda mais evidente.

A última coisa que queria era ser diferente. Só queria sentir que fazia parte

da turma. Na escola nos deparamos pela primeira vez com a ideia de divisão

por categorias. Sou atleta, artista, gênio da matemática, cientista, atriz ou

uma garota descolada? Eu não fazia parte da turma dos descolados, mas tive

sorte de ser uma boa jogadora de vôlei, o que ajudou muito com a minha

confiança e fez com que eu me sentisse parte de algum grupo.

Ainda assim, alguns dos meus colegas de turma gostavam muito de pegar

no meu pé. Eles tinham vários apelidos para mim. O favorito era “Oli” por

causa da Olívia Palito, a personagem alta e magricela do desenho animado

Popeye. Outro era “Saracura”, uma ave de olhos pequenos e pernas longas e

finas que parecem gravetos. Também me chamavam de “Camarão”, já que

minha pele ficava vermelha sempre que eu jogava uma partida intensa de vôlei. Lembro que uma vez entrei na sala de aula e vi um cartaz com o

desenho de um esqueleto com uma legenda que dizia: “Alguém viu a Oli?”

Eu me senti humilhada. Obviamente, minha aparência também afetava minha

vida social. Nas festas dos amigos, raramente os garotos me convidavam para

dançar música lenta, e eu ficava lá me sentindo um peixe fora d’água.

Como eu não sabia muito da vida, algumas vezes acreditei nas palavras dos

meus colegas de turma. Voltava para casa depois da escola e ficava me

olhando no espelho. Talvez eu seja meio estranha mesmo, pensava. Não

tinha, naquela época, a maturidade emocional necessária para entender por

que alguém decidia magoar outra pessoa de propósito. Afinal de contas, meu

pai nos dizia que, se não tivéssemos nada de bom para falar sobre alguém,

não devíamos dizer nada!

Meu último ano jogando vôlei com minhas companheiras de time, em 1994. Sou eu pulando na rede, me preparando para dar uma cortada.

 

Só mais tarde compreendi que os tiradores de sarro da minha escola só

zombavam de quem não combinava com o grupo. A menina de cabelo ruivo.

O menino com sardas. E, no meu caso, a menina magricela, alta e

desengonçada. Eles deviam estar infelizes, ou insatisfeitos com suas próprias

vidas, ou talvez só gostassem de implicar com crianças mais vulneráveis para

fazer todo mundo rir. Poderiam também estar projetando sua mágoa e seu

sofrimento em mim como um modo de se sentirem menos sozinhos com a

própria dor. Acho difícil acreditar que quem é feliz ou amoroso seja capaz de

fazer bullying com outra pessoa pelo simples prazer de causar sofrimento.

Obviamente, não esqueci as palavras dos meus colegas. Mas eu os perdoei

e não guardei nenhum ressentimento ou raiva deles. Se tivesse deixado

aquelas palavras me definirem, teria parado de acreditar que eu servia para

alguma coisa. Quando cheguei a São Paulo, achei que aquilo tudo havia

ficado para trás, já que ser alta e magra parecia ter se tornado uma vantagem.

Mas então ouvi as palavras de uma editora de moda durante um dos meus

primeiros castings: Ela nunca vai ser capa da minha revista. Os olhos dela

são pequenos demais e o nariz é muito grande para o rosto. Fiquei tão triste,

e naquele mesmo dia liguei para o meu pai e contei o que tinha acontecido.

Ele disse: “Da próxima vez que alguém te falar isso, diga pra eles ‘Eu tenho

uma grande personalidade também’.” De alguma forma, ouvir as palavras do

meu pai fez com que eu me sentisse muito melhor e renovou minha

confiança. Sempre me lembro dessas palavras quando alguém faz um

comentário maldoso sobre mim. Sim, de fato, tenho uma grande

personalidade e vejo isso como um dos meus pontos fortes.

Ainda assim, aos 14 anos, eu era meio moleque — magra, musculosa e de

aparência saudável, com seios de tamanho normal — mas então veio a

puberdade. Dois anos depois, meu peito ficou bem maior, o que fez com que

eu me destacasse de novo e me sentisse ainda mais envergonhada, principalmente numa época em que as modelos pálidas e de aparência

andrógina estavam conseguindo todos os trabalhos. Eu media quase 1,77m,

pesava uns 52 quilos, era muito magra com seios enormes (até me apelidaram

de “Boobs from Brazil” — “Peitos do Brasil”). Nas provas de roupas,

nenhum dos tamanhos das amostras era feito para mulheres com meu tipo de

corpo. Consequentemente, não me sentia bonita nem valorizada — nunca era

boa o suficiente. Mas as palavras negativas que as pessoas usavam para me

descrever também serviam para me motivar. Dali em diante, sempre que me

ofereciam um trabalho eu dizia a mim mesma que tinha que ser mais do que

boa. Sentia que precisava me colocar à altura da tarefa e conquistar a

confiança das pessoas. Mesmo assim, ainda me sentia esquisita e desajeitada,

e mal podia acreditar quando alguém da indústria me oferecia uma

oportunidade e me contratava para um trabalho.

Quando me tornei mãe, todas essas lembranças da adolescência e início da

carreira de modelo vieram à tona. O Benny e a Vivi ainda são muito

pequenos, mas já expliquei para eles que as palavras que as outras pessoas

usam para descrevê-los só são verdadeiras se eles as aceitarem como

verdadeiras. Por exemplo, eles podem responder dizendo “Ah, não, você está

errado, esta é a verdade sobre mim”, em vez de deixar que outra pessoa os

defina.

O processo de aprender a se definir nem sempre é fácil, principalmente

quando se é jovem e sua identidade gira muito em torno do que outras

pessoas pensam ou dizem a seu respeito. Ainda assim, digo e repito para o

Benny e a Vivi que a autoestima depende deles e que na maior parte do

tempo, as palavras que as pessoas usam para nos descrever são projeções de

como elas se sentem em relação a elas mesmas. Afinal de contas, quando

palavras negativas são dirigidas a nós, talvez a outra pessoa esteja apenas

tendo um dia ruim e simplesmente extravasando sua própria frustração.

Fantasia versus realidade, ela versus o verdadeiro eu. Na frente da campanha Versace Jeans, fotografada por Steven Meisel, em 1999.

 

Benny é uma daquelas crianças que fica triste quando alguém pisa numa

formiga. Se uma criança cai no parquinho, ele é o primeiro a correr para ver

se está tudo bem. Todas as manhãs, quando chega à escola, Benny dá um

abraço em cada um de seus amigos. Mas ele também já foi alvo de

provocações. Imaginem como é ser o filho do famoso quarterback do New

England Patriots e estudar numa escola na Nova Inglaterra e ser alguém que

prefere desenhar, cantar ou brincar de Lego a praticar esportes. Minha

experiência pessoal quando criança me preparou para ajudar o Benny a passar

pela época da escola e me deu a oportunidade de aprender a ter compaixão

por mim mesma quando era mais nova. Somos todos únicos e, com o tempo,

começamos a conhecer nossos dons, o que nos alegra e o que nos motiva,

assim como os aspectos da nossa personalidade que precisamos trabalhar.

Expliquei ao Benny que o papai era muito bom em jogar bola, mas que ele só

se tornou tão bom assim depois de anos de treino e dedicação. A mamãe é

defensora do meio ambiente, o Jack é um excelente jogador de futebol, a Vivi

é a líder das amigas dela, e você, Benny, é um artista e cantor maravilhoso.

Benny pareceu feliz em ouvir aquilo, mas sei que ainda haverá muitas outras

conversas como essa.

Na verdade, no ano passado, enquanto eu preparava o café da manhã, o

Benny, que estava sentado à mesa, perguntou, do nada: “Mãe, o que é uma

celebridade?” Demorei um pouco — onde será que ele tinha ouvido essa

palavra? — mas, por fim, respondi: “Celebridade é alguém que trabalha num

emprego que tem mais visibilidade que outros empregos. Médicos, dentistas,

professores, agricultores — todos têm um trabalho importante.” “O papai”,

lembrei a ele, “tem um trabalho de muita visibilidade jogando para um time

profissional de futebol americano com jogos que passam na televisão aos

domingos. Isso não significa que as pessoas que fazem esse tipo de trabalho

sejam mais importantes”, continuei. “Só quer dizer que o que elas fazem tem mais visibilidade.” Benny pareceu aceitar essa explicação — ah, ok, mamãe

— mas aquilo me fez pensar sobre o que ele talvez estivesse ouvindo sobre o

Tom e sobre mim na escola e que não nos contava. Mais tarde falei para o

Tom que era importante conversarmos com o Benny sobre o trabalho do

papai e da mamãe. Já era hora. Então conversamos. Tom contou ao Benny

que trabalha duro e lembrou a ele que foi um dos últimos a ser escolhido no

draft da NFL no ano 2000, quando estava saindo do nível universitário para

jogar na liga profissional. Nem sempre fui bom nisso, disse Tom. Eu estudei.

Treinei e então fui ficando cada vez melhor no que fazia. Benny, saiba que,

mesmo sendo um garoto de 8 anos, quanto mais você se dedicar a alguma

coisa, melhor você vai se sair nela. Em resposta à pergunta que Benny não

fez, mas que deve ter pensado — “Como as pessoas sabem o nome do meu

pai?” —, Tom disse a ele que as pessoas sabem seu nome, e gostam dele,

porque gostam do que ele faz, ou porque são apaixonadas por esportes. Mas

isso não significa que realmente o conheçam, não do jeito que a nossa família

o conhece.

Pense nas palavras que outras pessoas lhe disseram. Essas palavras tiveram

o poder de lhe magoar, inspirar, motivar, assustar, consolar, alegrar, de fazer

com que você duvidasse de si — ou fizeram você se sentir compreendido,

valorizado e amado. Como a maioria das pessoas, já usei palavras tanto de

forma positiva quanto negativa. Já disse coisas com raiva e falei palavras com

amor. Na maior parte do tempo, tento manter um tom emocional equilibrado,

mas ainda assim já disse coisas que gostaria de não ter dito. Estou longe de

ser perfeita, mas a boa notícia é que continuo tentando e realmente aprendo

com meus erros. De novo, para que estamos aqui na Terra se não para

aprender? É importante lembrar que toda vez que você se trata de um jeito

ofensivo ou muito crítico, está apenas se prejudicando. A mudança não vem

do excesso de críticas nem de se colocar para baixo. Vem da inspiração, do

desejo de querer fazer melhor, de tentar de novo, de dar o máximo de si.

Quando você aprendeu a andar, saiu correndo na mesma hora ou foi logo

subindo numa escada rolante? Não, você deu um único passo. Talvez você

tenha tropeçado e caído. Você se levantou de novo. Da vez seguinte, deu dois

passos. Depois três. É assim que todos nós aprendemos a andar. É assim

também que aprendemos sobre nós mesmos e sobre como levar a vida.

Sem dúvida, minhas palavras mais negativas foram ditas para as pessoas

mais próximas de mim, minha família, principalmente minhas irmãs.

Infelizmente, quem faz parte da família sabe onde mais dói em cada um e com frequência pode acabar dizendo da boca pra fora palavras que, sem

querer, causam feridas emocionais. Eu me lembro de uma briga que tive com

a Pati pelo Skype, embora tenha esquecido os detalhes — tinha alguma coisa

a ver com eu achar que a Pati estava sendo muito controladora e

desrespeitosa. Fiquei com muita raiva naquele momento, na verdade nem

sabia direito o que estava dizendo — as palavras jorravam da minha boca

sem que eu conseguisse impedir. Comecei com, Bem, então, deixa eu lhe

falar o que penso a seu respeito!

Minha intenção era magoar a Pati, e foi o que fiz. Afinal de contas, ela não

tinha me magoado primeiro? No silêncio que se seguiu, minha irmã gêmea

ficou sem palavras. E eu também. Na mesma hora senti remorso. Eu tinha

pegado muito pesado. A ligação foi encerrada. Nós duas desligamos nos

sentindo péssimas. Não consegui dormir naquela noite. Ficava pensando em

como eu tinha sido idiota. Amo todas as minhas irmãs. Por que eu tinha sido

tão má? De repente, minha justificativa — Mas foi a Pati que começou! Ela

começou! — pareceu tão ridícula. Eu poderia ter lidado com a situação de

tantas outras maneiras, como dizer: Sinto muito que você pense isso de mim,

ou Por que não conversamos de novo amanhã? Eu não precisava ter

ofendido a minha irmã, mas foi o que fiz, e passei os dias que se seguiram

extremamente chateada.

Como pedimos desculpas para alguém que amamos e que magoamos

profundamente? Alguns dias depois, quando a Pati e eu voltamos a conversar,

as primeiras palavras que saíram da minha boca foram Me desculpa. Pati me

agradeceu e aceitou minhas desculpas, mas, nas semanas que se seguiram,

havia sem dúvida um clima estranho entre nós. Sabia que era culpa minha.

Não tive discernimento suficiente para acertar o tom da conversa e não agi

com amor e respeito, que é como gosto que as outras pessoas me tratem.

Desde então já houve situações em que fiquei com raiva, mas aprendi a

parar e refletir antes de falar. Com certeza isso é fruto de um trabalho diário

em que observo continuamente meus pensamentos e minhas ações. Tom e eu

não discutimos muito, mas, às vezes, quando sinto a frustração crescer dentro

de mim — ela vai aumentando, aumentando —, me dou conta do que está

acontecendo. Em vez de reagir de um jeito do qual vou me arrepender depois,

me lembro de respirar. Então falo para o Tom que é melhor conversarmos

mais tarde e me retiro do ambiente. A meditação tem sido essencial no

controle dos meus impulsos. Penso na minha raiva como uma visitante, e

posso ver seu potencial destrutivo, então tomo a decisão consciente de não deixar que ela se instale. Quando Tom e eu ficamos frente a frente de novo,

podemos retomar o assunto sobre o qual conversávamos de uma maneira

amorosa e respeitosa, e é o que sempre fazemos.

Às vezes, em vez de reagir verbalmente, escrevo uma carta. Meu pai nos

ensinou que sempre que nos sentimos confusas ou em dúvida sobre alguma

coisa, devemos procurar um lugar tranquilo e colocar nossos pensamentos e

sentimentos num papel. Quando terminar, disse ele, leia e você verá as

coisas com mais clareza. Certa vez, quando o Tom e eu estávamos passando

por um período complicado, recebi um e-mail dele que me magoou. Na

época, ele estava em Boston, e eu, viajando. Em vez de partir para a

retaliação e enviar para ele um e-mail cheio de ressentimento, peguei uma

caneta e uma folha de papel e escrevi durante uma hora sobre meus

pensamentos e minhas emoções, sobre as coisas que me deixaram com raiva

e as que me deixaram frustrada — tudo o que estava sentindo naquele

momento. Não me censurei. Foi sem parar, sem filtros. Quando terminei,

fiquei chocada ao ver que tinha escrito quase três páginas. Também senti um

grande alívio.

É muito mais proveitoso, para mim, quando escrevo meus pensamentos à

mão. Fica tudo entre a caneta, o papel e eu. Escrever à mão também elimina o

perigo de clicar em Enviar num impulso e depois não poder mais apagar o e-

mail ou a mensagem. As palavras à minha frente eram sem censura, honestas

e intensas — extremamente intensas, na verdade. Só de colocá-las no papel

me senti mil vezes melhor. No fim das contas, jamais enviei a carta. Deixei

passar um dia. Depois li o que tinha escrito mais algumas vezes. Naquela

noite, enrolei a carta e a queimei. Foi como se, ao escrever, minha turbulência

tivesse saído de dentro de mim, passado pela minha mão e ido parar na folha

de papel — e então o fogo queimou tudo. Na manhã seguinte, enviei um e-

mail curto ao Tom dizendo que só queria manter em minha vida

relacionamentos que fossem baseados em amor e respeito e que, quando ele

estivesse pronto para conversar comigo de um jeito amoroso e respeitoso, eu

estaria lá, pronta para ouvi-lo. Um dia depois, foi exatamente isso que

fizemos.

Um dos grandes benefícios do autoconhecimento é o acesso que nos dá à

nossa voz interior. Todos temos uma, mesmo quando às vezes a ignoramos

ou ficamos alheios à sua existência. Nossa voz interior é muito pessoal e

singular. Sempre acreditei que seu propósito é nos proteger, nos ajudar a

permanecer fiéis aos nossos valores e nos encorajar a fazer a coisa certa.

Acredito que cada um de nós tem um ser mais evoluído dentro de si. Com

frequência, se pararmos para ouvir nossa voz interior, vamos nos dar conta de

que esse “eu” mais elevado tem as respostas para nossas perguntas.

Quando era mais nova, minha avó disse para mim e minhas irmãs que cada

uma de nós tinha sua própria estrela lá no céu. Como sei qual estrela é a

minha?, perguntei a ela. É aquela que brilha mais forte para você, respondeu

minha avó. Não importa como você chama sua voz interior, ou que forma ela

assume — sua estrela, seu anjo da guarda, seu criador, seu Deus, seu “eu”

superior —, é sempre quem está cuidando de você.

Meus avós maternos na frente da casa deles — meu lugar favorito para passar as férias quando era criança — com minhas irmãs e eu, em 1982.

 

Sua voz interior está sempre ali para lhe lembrar de que você não está só.

O objetivo dela não é garantir que a gente vá evitar riscos ou nunca se

divertir. Às vezes ela nos leva a correr riscos. Hoje, antes de tomar qualquer

decisão, consulto minha voz interior. Ela precisa me sinalizar baixinho, Sim

(já passei por maus bocados quando não parei para refletir e escutá-la).

Preciso sentir no meu coração que esta é a coisa certa a fazer, antes que eu

siga em frente.

À medida que nosso autoconhecimento se fortalece, o mesmo acontece

com nossa voz interior. Hoje ainda sou relativamente jovem e não tenho o

nível de autoconhecimento que espero desenvolver no futuro. Mesmo assim,

percebo o seguinte: quanto mais nos conhecemos, mais fácil é descobrir no

que somos bons, o que nos motiva e o que nos faz mais felizes. Como todos

sabem, a vida pode ter muitos capítulos. Um médico pode decidir se tornar

filósofo. Um bombeiro pode escolher se tornar ator, ou o contrário. E uma

menina, que cresceu acreditando que seria jogadora de vôlei profissional ou

que ajudaria a cuidar de cães e gatos doentes, pode se tornar uma modelo de

passarela. Algumas coisas, contudo, permanecem iguais. Ainda amo animais,

e nas raras vezes que você me encontrar atrás de uma rede de vôlei, serei a

jogadora tão dedicada como sempre fui. (Se meu ombro não deslocasse todas

as vezes que estou em quadra, jogaria com mais frequência, mas estou

resolvendo esse problema, então em breve voltarei a me divertir e a praticar

todos os esportes que adoro.)

Quando você reconhece e aprecia as coisas em que é bom, fica muito mais

fácil se concentrar no que exatamente quer fazer acontecer e, o mais

importante, a razão disso. Esse processo começa com você prestando atenção

à sua voz interior — embora primeiro precise ter certeza de que essa voz é

realmente sua. Não a voz que lhe diz que você deve fazer alguma coisa ou

agir de certa maneira. Não as vozes da sua mãe ou do seu pai. Não as vozes dos seus professores. Não as vozes que são impostas pela sociedade, por seus

pares ou por qualquer sistema organizado de crenças. Nem mesmo seu crítico

interior, aquele que aponta todas as suas falhas. Não, sua voz interior é

aquela que, mais do que qualquer outra, lhe oferece um tipo de saber. (A

meditação me ajudou muito com isso.)

Admito que às vezes parece confuso, porque muitas vozes podem estar

falando ao mesmo tempo. Uma pode estar dizendo uma coisa, enquanto a

outra diz algo totalmente diferente. Como saber que voz seguir? Meu

conselho é primeiro ficar tão em silêncio e imóvel quanto possível. Então

preste atenção ao que seu corpo lhe fala. Quando você pensa no que a

primeira voz está dizendo, os músculos dos ombros se contraem? Dá um frio

na barriga? Agora considere o que a segunda voz está dizendo. Seu corpo fica

mais relaxado e aberto? A respiração fica mais estável? Ouça seu corpo.

Pergunte a si mesmo, A voz que eu seguir vai me tirar o sono à noite — ou

vou ser capaz de dormir me sentindo bem comigo mesmo? Sigo a voz interior

que me enche de paz, que me deixa dormir bem, e que me faz sentir bem

comigo mesma na manhã seguinte. Se as decisões que tomo são baseadas em

amor, e minhas ações refletem esse amor, então estou sendo fiel à minha voz

interior. Mas houve muitas vezes em que ignorei essa voz e paguei o preço,

às vezes baixo, outras alto.

Por exemplo, tenho cabelos ondulados desde pequena. Mas, quando

comecei a trabalhar como modelo, cabelo liso era o que estava na moda.

Então uma amiga me levou para comprar uma chapinha que alisava o cabelo,

e eu a usava todos os dias. Só queria me integrar e parecer descolada, como

todas as meninas ao meu redor. Aos 16 anos, quando me mudei para Nova

York, de repente me vi rodeada de várias garotas que não alisavam os

cabelos, e finalmente senti que já podia parar. Foi uma sensação libertadora

deixar meu cabelo ser como era. É tão engraçado que hoje eu seja

reconhecida justamente pela textura natural do meu cabelo.

Aconteceu outra vez quando eu tinha 14 anos e decidi me mudar para São

Paulo. Achava que me conhecia muito bem. Era uma boa menina.

Meu primeiro violão. Sempre quis tocar para poder cantar junto, já que uma das minhas lembranças preferidas da infância era quando meu pai tocava para nós. Em casa, em Nova York, em 1998.

 

Tinha a cabeça no lugar. Sabia a diferença entre certo e errado. Não ia sair

dos trilhos. Eu também me sentia protegida de alguma forma. Como se

alguém ou alguma coisa estivesse sempre cuidando de mim — estava

convencida disso. Antes de eu sair de casa, meus pais deixaram claro que

confiavam em mim. Eles sabiam que eu era responsável e dedicada. Era boa

aluna, a capitã do time de vôlei e uma boa ajudante em casa. Eles também

sabiam que eu jamais faria algo para decepcioná-los. Além disso, um mês

antes, meu pai tinha escrito uma longa carta para a Elite, minha primeira

agência, dizendo que estava confiando sua filha a eles.

Levei só uma mala e uma mochila com tudo o que tinha, meu pai me

colocou num ônibus e me deu 50 reais para o táxi quando chegasse a São

Paulo. Vinte e sete horas depois, o ônibus entrou num dos quatro terminais

rodoviários imensos de São Paulo. Quando saltei do ônibus, minha primeira

reação foi: Uau. Havia mais pessoas naquela rodoviária do que em toda

Horizontina. Foi impressionante.

Perambulei pelo terminal por um tempo, arrastando minha mala, só

olhando as pessoas e as placas. Meu pai tinha me dado instruções precisas.

Quando eu chegasse a São Paulo, era para usar o dinheiro que ele tinha me

dado e pegar um táxi até o apartamento das modelos. Imediatamente. Minha

voz interior não podia ter sido mais clara ou estar mais de acordo que essa era

a coisa certa a fazer. Na verdade, era a única coisa a fazer. Pegue um táxi. Vá

para o apartamento das modelos. Foi ali que me dei conta de outra voz: Gise,

se você está planejando ir aos castings, precisa usar as roupas certas. Eu não

tinha uma única calça jeans que me servisse direito. Tudo que tinha na mala

era o uniforme da escola e algumas camisas de malha e calças que havia

herdado das minhas irmãs mais velhas. Como podia ir aos testes daquele

jeito? Nunca tinha me importado com roupas antes, mas, agora, cercada de pessoas da cidade grande, bem-vestidas, que pareciam saber o que estavam

fazendo e aonde estavam indo, senti a necessidade de dar uma melhorada no

visual. Por que eu tinha que seguir minha voz interior?

Enquanto estava ali parada no meio da rodoviária, bolei um novo plano. Se

eu pegasse o metrô até o apartamento das modelos, podia usar o restante do

dinheiro para comprar algumas roupas que coubessem direito em mim e que

seriam minhas de verdade.

Naquela época — 1995 — quase ninguém tinha celular. Não podia ligar

para o meu pai e explicar o novo plano para ele, e, mesmo que pudesse,

provavelmente não teria feito isso. Tinha saído de casa, estava me sentindo

independente, dona do meu nariz. Segui as placas até o metrô, comprei um

bilhete e entrei num vagão lotado com a mala ao meu lado e a mochila nas

costas. (Detalhe, essa foi a primeira vez em que peguei um metrô na vida,

nunca nem tinha visto um antes).

São Paulo é uma cidade enorme. É tão grande que se pode levar três horas

ou mais para ir de uma extremidade a outra. Pedi informações para as

pessoas, troquei de linha três ou quatro vezes e, quando cheguei à estação

mais próxima do apartamento das modelos, estava me sentindo incrivelmente

inteligente e orgulhosa de mim mesma. Tinha sido mais esperta que a voz na

minha cabeça e encontrado a minha voz. Mas, quando tirei a mochila das

costas para pegar a carteira, ela tinha sumido.

Eu havia fechado a mochila, mas agora a parte de cima estava aberta.

Minha carteira com o dinheiro dentro não tinha caído; alguém a tinha

roubado. Como se estivesse vivendo um pesadelo, saí da estação do metrô e

fui para a calçada. As ruas estavam quentes e tinham um cheiro ruim. Eu me

agachei sobre a mala e comecei a chorar. Não era só pelo dinheiro perdido

que eu estava triste, embora isso já fosse ruim o suficiente; é que agora

também não tinha mais carteira de identidade. Graças a Deus ainda tinha o

pedaço de papel com o endereço e o número de telefone do apartamento das

modelos, que estava no meu bolso. Mas não tinha dinheiro nenhum para fazer

uma ligação no telefone público. Uma mulher que passava me viu chorando

e, quando contei o que tinha acontecido, ela me deu uns trocados para eu

ligar para os meus pais. Meu pai atendeu o telefone. Oi, pai, falei. É a Gise, e

comecei a chorar de novo.

Meu pai ficou furioso comigo, e quem poderia culpá-lo? Tenho certeza de

que ele deve ter ficado extremamente preocupado também. Eu tinha ignorado

minha voz interior — sem falar na voz exterior do meu pai —, e o resultado disso foi que tomei uma decisão estúpida. Fiz uma coisa que deixou meus

pais angustiados. Eles tinham confiado em mim, e eu havia decepcionado os

dois. Mesmo querendo me ajudar, estavam a muitos quilômetros de distância.

Felizmente, tinham sobrado moedas suficientes para eu ligar para a

supervisora do apartamento das modelos. Eu estava perto do metrô, falei. Ela

poderia me dizer como chegar até lá a pé, por favor?

Levei quase uma hora para chegar ao apartamento. Fazia um calor

escaldante em São Paulo em janeiro, e arrastei minha mala por dez

quarteirões imensos, com a cara vermelha, suando e me sentindo um

fracasso, embora felizmente a maior parte do caminho pela rua Teodoro

Sampaio fosse ladeira abaixo. Ninguém pareceu notar que eu estava

chorando, e me lembro de como aquilo pareceu estranho, já que em

Horizontina as pessoas teriam parado e perguntado o que havia de errado e se

elas podiam ajudar. Por fim, cheguei ao apartamento das modelos, conheci a

supervisora, encontrei minha cama e me acomodei.

Daquele ponto em diante, as coisas melhoraram. Outras três meninas

estavam morando lá, e, embora fossem um pouco mais velhas, com 16 e 17

anos, nós nos demos bem. Eu dormia num beliche. As primeiras noites foram

assustadoras, já que era a primeira vez que dormia num quarto sem minhas

irmãs. A agência me dava um adiantamento para poder pagar meu aluguel e

para minhas despesas básicas (que depois era descontado dos trabalhos que

eu fazia). As outras meninas gostavam de mim em parte porque eu estava

sempre limpando o apartamento. (Mesmo naquela época eu não conseguia

evitar.)

Fui até uma loja de roupas e comprei uma calça jeans nova e uma camisa

de malha branca, que usava todos os dias e lavava nos fins de semana, e

aquele se tornou meu novo uniforme para todos os castings. Comprei um

mapa e comecei a me organizar em relação aos horários e locais dos castings.

Passava horas analisando que metrô ou ônibus eu precisava pegar para chegar

aqui e ali. Logo já tinha memorizado quase todas as linhas de ônibus e de

metrô da cidade. Depois de um mês, conhecia São Paulo como a palma da

minha mão. Sempre que chegavam novas meninas ao apartamento das

modelos, eu as colocava debaixo da minha asa e explicava o melhor jeito de

circular pela cidade.

O que posso dizer, adoro fazer faxina! No apartamento das modelos em Tóquio, em 1995.

 

Eu tinha ignorado minha voz interior — a voz que me dizia a coisa certa a

fazer — e, quando não a escutei, acabei tomando a decisão errada. Às vezes,

minha voz interior se manifesta como uma sensação. Se consigo respirar

profundamente e devagar, então sei que está me fazendo bem. Se minha

respiração fica curta ou irregular, é um bom indicativo de que algo está

errado. Quando decidi usar os 50 reais que meu pai tinha me dado para

comprar roupas novas para estar melhor apresentável quando fosse aos

castings, achei que estava sendo esperta, mas senti que aquilo não era certo.

Senti na minha cabeça, senti no meu corpo. Mas, naquele momento, escolhi

não ouvir a minha voz interior. A sabedoria deste sentimento interior, desse

saber, ficou ainda mais clara dez anos depois, em 2005, quando estava

decidindo se devia ou não continuar trabalhando para a Victoria’s Secret.

Eu tinha 19 anos quando a empresa me ofereceu um contrato de cinco

anos. Quando me fizeram essa proposta, a Vogue tinha acabado de me eleger

Modelo do Ano. Eu me lembro de ir para a cerimônia de premiação com uma

camisa hippie, sandálias Birkenstock gastas e a calça jeans de sempre:

larguinha, rasgada e confortável. Quando Anna Wintour me viu, e perguntou

se eu tinha alguma coisa para vestir, respondi, Tenho, isto aqui, então ela

imediatamente pediu a Grace Coddington, a diretora de criação da Vogue,

que encontrasse uma roupa melhor para mim, mas nunca vou esquecer as

expressões de espanto das duas por causa da roupa que eu estava usando.

Naquela época, eu era modelo de moda, e a Victoria’s Secret era uma

empresa de catálogo. Em 1999, havia uma forte separação entre os dois

segmentos. Ou você desfilava para Alexander McQueen, Versace, Dolce &

Gabbana, e outras grifes de alta-costura, ou trabalhava com marcas mais

comerciais. Não havia uma mistura. Mas, quando a Victoria’s Secret me

falou sobre os termos do contrato, fiquei muito feliz! Trabalhar com a

Victoria’s Secret me traria segurança financeira pela primeira vez na vida e

um emprego estável por cinco anos. Não teria mais que fazer cem desfiles por ano. Nada de viajar de uma cidade para a outra num intervalo de poucos dias.

Não precisaria mais me preocupar com a escassez de ofertas de trabalho ou

com meu futuro financeiro.

Nos primeiros anos, eu me sentia confortável em desfilar e posar de

lingerie, mas, com o passar do tempo, fui ficando cada vez menos à vontade

em ser fotografada desfilando pela passarela usando só um biquíni ou uma

lingerie fio dental. Me dê uma cauda, uma capa, umas asas — por favor,

qualquer coisa para cobrir meu bumbum! Com o passar do tempo, fui me

sentindo mais e mais desconfortável. Mas adorava as pessoas com quem

trabalhava lá, principalmente meu querido amigo, que virou cupido, Ed, que

tinha me contratado e quem, muitos anos depois, promoveu um encontro às

cegas entre mim e o Tom.

Em 2006, graças a uma extensão do contrato, a parceria com Victoria’s

Secret completou sete anos. Meu trabalho com eles ainda representava 80%

da minha renda anual. A empresa me disse que queria estender o contrato por

mais dois anos.

Para todos ao meu redor, a resposta deveria ser sim. A Victoria’s Secret e

eu tínhamos uma longa relação de confiança e de benefício mútuo. Mas eu

não conseguia decidir se ficava ou não. Quando se trabalha para uma empresa

do tamanho da Victoria’s Secret, desfilar é só uma parte das atribuições do

cargo. Há também muita divulgação. Inaugurações de lojas e presenças VIP.

Anúncios de televisão e de revista. Viagens de costa a costa. Entrevistas de

bastidores. Sessões de fotos para o catálogo e para o site. Sempre que a

Victoria’s Secret lançava uma nova linha de lingerie, uma nova fragrância ou

um catálogo com um tema especial, era meu trabalho ajudar a promovê-los.

Se a empresa me mandava para uma praia remota na ilha Virgem Gorda para

fotografar a mais recente linha de moda praia, um programa de celebridades

da TV também estaria lá para registrar cada passo que eu dava. Com certeza

eu me sentia grata pela oportunidade e pela segurança financeira que a

empresa havia me proporcionado, mas estava num momento diferente da

minha vida e não tinha certeza se queria continuar trabalhando lá. Alguns

meses depois, ainda não tinha tomado a decisão final, mas tinha chegado a

hora de decidir.

Cada vez que eu pensava na decisão que tinha que tomar, sentia um aperto

no estômago. Se renovasse o contrato, isso significaria que teria que

continuar a viver minha vida segundo os termos da empresa. Não havia nada

que pudesse fazer quanto à visão deles — a Victoria’s Secret é uma corporação imensa, eles trabalham sempre na velocidade máxima —, e

também não podiam mudar a minha visão, o modo como eu me sentia.

Naquela noite, antes de dormir, rezei, Deus, por favor, me mostre o caminho.

Me dê um sinal claro. Devo sair? Devo ficar? O que devo fazer? Deixar a

empresa era a coisa certa a fazer? Deveria me manter fiel às minhas crenças?

Estaria sabotando minha carreira? Na manhã seguinte, não estava nem um

pouco mais perto de chegar a uma decisão do que na noite anterior. Meditei

por meia hora, fazendo as mesmas perguntas para mim mesma várias vezes.

Cada vez que fazia isso, sentia um aperto no estômago.

Olhando para trás, acho que estava esperando que outra pessoa tomasse a

decisão por mim. Essa outra pessoa, é claro, era minha voz interior — ou

minha estrela, meu anjo da guarda, ou Deus. Hoje falo para o Benny e a Vivi:

Quando vocês rezarem, procurem sua estrela. Rezem todas as noites para o

seu anjo da guarda. Talvez amanhã vocês tenham uma prova na escola —

bem, então, peçam ao anjo da guarda que os ajude e os proteja. Se os anjos

são mensageiros de Deus, conversem com eles, ou vão direto ao topo e falem

com Deus! Eu lembro ao Benny e à Vivi que eles podem rezar para o céu lá

fora, dentro de uma igreja, ou na caminha deles — a qualquer hora, em

qualquer lugar.

Eu me senti guiada, e a ideia surgiu num lampejo. Dobrei dois pedacinhos

de papel e os coloquei dentro de uma xícara vazia. Num deles, tinha escrito a

palavra sim — o que significava que ia continuar na empresa. No outro, tinha

escrito a palavra não — o que significava que ia deixar a empresa. Fechei os

olhos e criei uma intenção: seja lá qual papelzinho escolher, será para o meu

bem maior, e será a decisão correta. Estendi a mão e peguei o papel que dizia

não. Foi uma confirmação para mim.

Não era só a resposta que, inconscientemente, eu queria ouvir. Também

era a resposta que meu corpo queria ouvir e que, acredito, estava tentando me

dizer havia dias. Daquele momento em diante, fiquei em paz. Acreditei,

confiei e aceitei que tinha tomado a decisão correta — ou pelo menos a

melhor decisão para mim. O aperto no estômago desapareceu e não voltou

mais. Naquela manhã liguei para minha agente e para a equipe da Victoria’s

Secret e agradeci demais a todos. Eu me sentia extremamente grata por tudo o

que eles tinham feito por mim nos últimos sete anos. Tinha sido uma ótima

oportunidade e uma jornada incrível. Mas eu não ia renovar o contrato.

(Mesmo que essa decisão tenha sido difícil, pois esse trabalho significava

80% da minha renda naquela época, tinha confiança de que, ao fechar essa porta, daria oportunidade para outras se abrirem. E foi exatamente isso que

aconteceu.)

Às vezes não há uma explicação clara de por que uma coisa parece certa

— mas acredito que você ainda precise seguir o que sua voz interior está lhe

dizendo. No fim das contas, consegui usar o tempo e a energia que colocava

naquele trabalho e nas viagens para direcioná-los às coisas que se tornariam

duas das maiores bênçãos da minha vida: meu casamento e meus filhos.

Quanto mais confiamos em nossa intuição, mais forte ela se torna. Quando

comecei a meditar, percebi que podia deixar de lado todo estresse e ansiedade

para encontrar um nível de paz que não conhecia antes e que descobri dentro

de mim. Ainda uso a meditação para chegar a esse lugar, mas também a

utilizo para me guiar e me mostrar o caminho a seguir sempre que fico

confusa e preciso de clareza. Descobri que, se tenho paciência e dou ao

processo tempo e espaço suficientes, o próximo passo sempre ficará mais

claro.

Manhã de sábado do jeito que eu mais amo! Três anjinhos em Nova York, em 2017. Jack está atrás, Benny no meio e Vivi na frente.

 

É por isso que, quando alguém me pede um conselho, eu logo digo: Fique

em silêncio, encontre sua voz interior e escute o que ela diz com a maior

atenção possível. Evite levar tudo para o lado pessoal. As pessoas vão dizer

coisas para você — e sobre você —, mas tente não deixar essas palavras lhe

atingirem. O que as pessoas dizem não tem quase nada a ver com você, e

quase tudo a ver com elas. Em vez disso, pergunte: O que eu realmente

quero? E por quê? Tenha a maior clareza possível quanto às suas intenções.

Encontre sua voz interior, ouça-a com atenção e continue aperfeiçoando a

prática. Quanto mais você a escuta, mais forte ela se torna. Permaneça fiel à

sua voz interior. Ela vai fazer com que você se lembre de que nunca está só.

E, se a escutar e confiar nela, eu lhe garanto que ela nunca vai lhe conduzir

para um mau caminho.

Minha amiga e professora de ioga Cris praticando cânticos e meditação na Costa Rica, em 2008.