Aprendizados: Minha Caminhada para uma Vida com Mais Significado

6 A natureza: nossa maior professora

6

 

A natureza: nossa maior professora

Em Horizontina, onde cresci, não havia semáforo. Nem cinema. As ruas eram

basicamente de paralelepípedo, com exceção da avenida principal, onde

ficava o hospital, o banco em que minha mãe trabalhava e a SLC, a fábrica de

implementos agrícolas que empregava a maioria dos habitantes da cidade e

que mais tarde foi comprada pela multinacional de máquinas agrícolas John

Deere. A cidade mais próxima não era muito maior, com cerca de 30 mil

habitantes, e Porto Alegre, a capital do estado, ficava a sete horas de carro.

Muitos de nós têm lembranças de uma infância aparentemente simples,

inocente e feliz — talvez porque nós fôssemos assim! —, mas minha infância

foi desse jeito mesmo. Na minha cidade, todo mundo se conhecia. Os carros

diminuíam a velocidade quando os motoristas viam a gente pulando corda na

rua, e as pessoas batiam papo quando se encontravam. Ninguém trancava a

porta. Aos 4 anos, andava sozinha até a casa das nossas vizinhas Karina e

Melissa, entrava sem pedir licença e até pegava no sono vendo desenho no

sofá delas com minha mamadeira do lado. Lá era esse tipo de lugar. Porém,

muito mais do que o clima amistoso, da segurança e da liberdade que eu e

minhas irmãs tínhamos para voltar da escola a pé ou andar de bicicleta por

onde quiséssemos, o que mais me lembro é de estar cercada pela natureza. As

árvores carregadas de frutas, tantos pássaros diferentes, as fileiras de pés de

amora, a grama quentinha, a areia da praia quando nossos pais nos levavam

de férias para o litoral, a terra molhada sob os pés descalços, e acima de mim

sempre aquele céu azul imenso e brilhante.

Quando digo que A natureza é nossa maior professora, você pode se

perguntar o que exatamente ela nos ensina. Natureza é uma categoria bem

ampla, no fim das contas, e nós crescemos aprendendo sobre ela de um jeito

um tanto quanto desconectado. Nas aulas de ciências, decoramos tipos de

folhas e formatos de nuvens, aprendemos sobre o sistema solar ou sobre a

influência da lua nas marés. Os estudos sociais nos ensinam sobre geografia,

fronteiras e crescimento populacional. Nem todo mundo consegue perceber a

ligação que há entre todas essas matérias: a natureza.

Talvez a pergunta mais adequada a se fazer seja “o que a natureza não nos

ensina?”. Para mim, ela é tudo. É a maior e melhor expressão da criação, do

amor e da compaixão. Não importa quantas vezes eu veja o sol nascendo,

ouça a chuva caindo, veja uma onda quebrando na praia ou observe um

bando de gansos voando, sempre fico completamente maravilhada. Para

viver, comer, beber, respirar e absorver a luz do sol, precisamos manter uma

troca contínua com a natureza. Se o fluxo dessa troca é interrompido, nós sofremos as consequências. A natureza nos dá a vida; sem ela, nenhum de

nós estaria aqui. Quando foi que começamos a esquecer que nossa vida

depende dessa troca?

Como muitas pessoas, cresci acreditando que a igreja era apenas um lugar

aonde íamos aos domingos. Mas por que confinar Deus somente a uma

estrutura feita pelo homem? Acredito que a própria natureza seja nosso

templo. Com certeza é o meu. Se você entra em sintonia com as energias do

amor, da compaixão e de tudo o que a natureza nos dá, você consegue ver

Deus — que é, prefiro pensar, o criador — em todos e em tudo. É como se

nos dando a vida, os lagos e oceanos, as árvores, os campos, os desertos, a

criação quisesse vivenciar a si mesma. A natureza é inteligente. É paciente.

Sábia. Acredito que, se dedicássemos ainda que alguns poucos minutos todos

os dias para restabelecer nossa conexão com a natureza, sentiríamos uma

mudança profunda e positiva. Sei que na minha vida essa conexão me traz

uma paz e uma alegria incríveis.

O poder das árvores. Na floresta amazônica, em 2011.

 

Acredito que podemos escolher viver no céu ou no inferno bem aqui na

Terra. Ambos estão em nossa mente. Estamos ajudando a criar um ou outro.

Você é quem decide se é uma pessoa boa ou má, em vez de deixar os outros

decidirem em seu lugar. Se todos concordarmos que Deus é amor, então tudo

o que for desamor é o oposto de Deus.

Estamos vivendo na era da informação. Não acho que seja coincidência o

fato de hoje, mais do que nunca, parecer que as pessoas estão desconectadas

da natureza e de si mesmas. Esquecemos de passar tempo ao ar livre. Em vez

de sair para dar uma caminhada, sentar no topo de uma rocha, ouvir o som de

um riacho ou passear na beira da praia, recorremos a aplicativos ou a vídeos

que reproduzem essas experiências e sons. A maioria de nós tem dificuldade

em simplesmente estar — estar com nós mesmos, estar com outras pessoas.

Quando foi a última vez que você saiu para almoçar ou jantar e ninguém

levou o celular? Tem uma frase que eu adoro que diz que só temos duas

maneiras de viver a vida: uma é acreditando que nada é um milagre; a outra é

acreditando que tudo é um milagre. A natureza nos mostra que a vida é um

milagre.

Durante minha vida inteira tenho sido suscetível ao que chamo de

“energia”. A energia que as outras pessoas emanam. A energia que sinto

quando entro em algum lugar. Tudo e todos liberam algum tipo de vibração.

Sei que não sou a única a sentir isso. Muitas pessoas são sensitivas, algumas

mais que outras. Sem dúvida a ciência tem uma explicação para isso — ou

até um modo de refutar o assunto, talvez —, mas nada parecia mais real para

mim do que essa energia que eu percebia desde bem pequena.

No quarto que dividia com minhas irmãs, às vezes sentia uma presença ao

tentar pegar no sono à noite. Uma sensação de calor ou frio. Eu não podia ver

o que estava sentindo — não queria ver —, mas podia sentir. Essas presenças

eram como as correntes repentinas de água fria e morna que tocam a nossa

pele quando estamos nadando no mar ou num lago. Sempre que sentia uma no meu quarto, me enfiava debaixo das cobertas ou sussurrava meio alto para

a Pati ou a Gabi acordarem ou me levantava e pulava para a cama embaixo da

minha no beliche, onde a Fafi dormia. Seja lá o que fosse, aquilo me dava

medo. Não queria pensar no que poderia ser. Mas aquelas presenças eram tão

reais para mim quanto ir à escola, jogar vôlei ou fazer as tarefas de casa.

Os seres humanos estão sempre em busca de conhecimento. Buscamos

modos de nos compreender e de entender o mundo — modos que podem ser

diferentes do que nos ensinaram. Talvez estejamos procurando experiências

que nos tragam algum significado maior e um sentimento de conexão. A

natureza me faz sentir assim.

Com Benny na nossa horta, em 2013.

 

Nada me deixava mais feliz quando eu era pequena do que ajudar minha

avó materna no jardim dela, subir numa árvore ou tomar banho de mar

quando a família inteira ia para a praia. A natureza era uma presença tão

tangível quanto a das minhas irmãs. Seja qual fosse a energia emanando de

mim, ela parecia vibrar em harmonia com a natureza. Ela nunca foi uma coisa

separada de mim. Ela era eu. Ela é todos nós.

Esse sentimento da minha infância nunca deixou de existir. Cada momento

que passo na natureza me lembra de como meu lugarzinho no mundo se

conecta com alguma coisa vasta e incrível. Tudo que preciso fazer é dar uma

volta atrás da minha casa, ver um pássaro voando lá em cima, ou surfar de

manhã cedinho, e a natureza me traz equilíbrio. Ela nutre a minha alma.

A maioria de nós não vê as árvores pelo que elas realmente são. Nós as

tratamos como cenário, como parte da paisagem. Raramente paramos para

pensar no que as árvores representam de verdade. Além de serem lindas, elas

absorvem o dióxido de carbono, armazenando o carbono e liberando parte do

oxigênio que respiramos. Elas capturam os poluentes em seus galhos e em

suas folhas. Na forma de florestas, ajudam a gerar o ciclo das chuvas que

equilibra nosso clima. Elas ajudam a nos proteger dos raios ultravioleta.

Oferecem sombra, que resfria as estradas, as casas, os jardins. Aumentam a

umidade do ar e desaceleram a erosão do solo. Elas nos alimentam com seus

frutos e podem conter remédios e venenos poderosos em suas folhas ou

cascas. O primeiro lar para muitos de nós é um bercinho feito de madeira, e o

último é um caixão, e, nesse intervalo, muitos de nós vivem em casas com

estruturas de madeira. As árvores forneceram o papel para este livro. Pense

no milagre que é uma árvore. Elas fazem parte das nossas vidas do início ao

fim. Elas são realmente maravilhosas.

Agora pense no seu corpo. Quantas funções dele precisam trabalhar

simultaneamente para sustentar a vida! O coração bate; os pulmões se

enchem de ar depois o liberam; as veias fazem circular sangue, oxigênio e nutrientes; os sistemas imunológico e linfático combatem infecções; o

sistema digestório metaboliza os alimentos; e o cérebro orquestra o processo

todo enviando mensagens para cada parte do corpo. Alguma vez paramos

para pensar no milagre que é isso — em como a natureza é milagrosa?

Sempre falo para os meus filhos que Deus, ou nosso criador, é a energia do

amor que vem da abundância. A evidência desse amor e da criação está em

todos os lugares e em tudo. Está no dia e na noite, nas rochas e nos campos,

nas árvores e nas planícies, nos planetas e nos oceanos. Está em você, em

mim e em todos nós. Deus criou a natureza — e a natureza é Deus.

Quando penso nos ataques de pânico que tive em 2003, me pergunto se

eles teriam sido tão severos se eu não estivesse passando meu tempo inteiro

numa cidade grande. Os prédios de Manhattan tapam o sol e o céu, quadras

inteiras ficam na sombra, e as luzes artificiais e a poluição impedem que as

pessoas vejam estrelas à noite. Durante meus ataques de pânico, tudo o que

queria era estar em contato com a natureza. Eu me pegava desejando ir para

minha casinha de madeira em Woodstock. Naquela época, eu ia sozinha de

carro até lá, ouvindo Joni Mitchell no CD player, nos fins de semana sem

compromissos, ou às vezes só para passar o dia. Quando chegava lá, passava

a maior parte do tempo ao ar livre, caminhando, pegando sol, admirando o

lago ali perto, ouvindo os pássaros e, de vez em quando, até avistando de

longe um urso-negro, o tempo todo consciente de que a natureza estava me

curando. Nunca vou esquecer como o solo parecia sugar lentamente todas as

tensões que haviam se acumulado durante a semana.

Benny e Vivi plantando árvores, em 2015.

 

A natureza — e minha reverência por ela — ainda é uma grande parte do

meu cotidiano, e isso inclui as refeições. Antes de comer, sempre junto as

mãos sobre o prato, fecho os olhos e faço uma breve oração. Como já disse,

acredito que tudo está vivo e nos dá energia, inclusive a nossa comida. Se

estiver almoçando uma salada, estou consciente do fato de que tudo à minha

frente — alface, cenoura, beterraba — um dia foi semente. Enquanto

germinavam, as sementes foram aquecidas e nutridas pela terra, pela luz do

sol e pela chuva. Agora, estão nutrindo meu corpo. O mínimo que posso fazer

é demonstrar gratidão e honrar esse ciclo.

Agradeço ao meu alimento e peço que nutra cada parte do meu ser.

Termino minha oração dizendo obrigada três vezes. (Por que três vezes? Sei

lá. Virou hábito.) Só depois é que começo a comer.

Vivi não liga muito para o meu ritual, mas o Benny já passou a fazer uma

prece também. (A Vivi faz só de vez em quando.) Nenhum de nós tem,

automaticamente, direito à comida, e não quero jamais deixar de dar valor ao

que está no meu prato. Com muita frequência, engolimos o que tem ali sem

nem pensar, pois estamos lendo alguma coisa, vendo televisão ou mexendo

no celular. Abençoar minha comida antes das refeições significa que estou

dedicando a ela meu total respeito e atenção.

A natureza está presente na minha vida de tantas maneiras e tenho

profundo respeito pela sua força e poder. Quando entro no mar, por exemplo,

quando estou na Costa Rica, meu horário favorito para surfar é às cinco da

manhã, quando não tem ninguém por perto, exceto os pelicanos e os

golfinhos. E sempre peço permissão ao oceano antes de entrar. Afinal, o que

eu sou para o oceano? Uma partícula diante da sua imensidão. É por isso que,

antes de entrar na água, reservo alguns segundos para fazer uma breve

oração. Peço permissão ao oceano para nadar nele e peço sua proteção. Sinto

que estou firmando um contrato entre nós, além de demonstrar respeito e

reverência pela água.

Sendo bem sincera, cada vez que vou surfar fico com medo. Medo de

tubarão. De ser sugada por uma corrente forte. De me afogar. Quando

criança, eu entrava no mar direto e amava pular ondas. Um dia, estava

nadando com Gabi, Pati e nossa prima Lisi, que era mais velha que nós. Eu

não sabia que era perigoso nadar perto das pedras, principalmente porque as

correntes eram fortes, mas era pequena e a maré estava alta. A Gabi nadava

ao meu lado, e então, de repente, eu a ouvi gritar. Sem pestanejar, nadei até

ela, e então nós duas fomos puxadas por uma corrente forte. Pati gritou por

socorro, e Lisi tentou nos agarrar, mas acabou ficando presa também. Havia

cerca de vinte pessoas na areia. De algum jeito, elas conseguiram formar uma

corrente humana e nos puxaram para a beira d’água. Eu nunca tinha me

sentido tão indefesa, ou tão apavorada na vida e mantive distância da água

por vários anos depois disso. Mas, quando fui ficando mais velha, passei a

sentir muita falta do mar e queria voltar a me divertir. Num primeiro

momento, entrava só até a água cobrir o tornozelo, e depois me sentava na

areia. Um dia decidi comprar uma prancha de surfe, para que pelo menos

pudesse boiar sobre alguma coisa. Agora já faz anos que surfo. Graças a

Deus, até hoje, o oceano tem cuidado muito bem de mim, e sempre me sinto

muito feliz de estar na sua presença.

Visitar o sítio da minha avó materna quando criança teve um papel muito

importante no desenvolvimento do meu amor e da minha reverência pela

natureza. Minha avó plantava e colhia quase tudo o que comia, e, uma

estação após a outra, eu via as sementes que ela enterrava no solo e das quais

cuidava se tornando brotos e, mais tarde, verduras, legumes ou temperos que

ela usava ou trocava com os vizinhos. Fui ficando cada dia mais admirada

pela forma como uma estação produzia um tipo de fruta ou verdura, e, na

estação seguinte, havia outra colheita totalmente diferente. Dava para ver os

ciclos da natureza em pleno funcionamento, a longa jornada de uma semente

até virar comida no meu prato. Foi com o passar do tempo, no sítio da minha

avó que aprendi a apreciar esse processo e me dei conta de que tudo na Terra

está vivo, seja uma folha de grama, um grão de arroz ou uma fruta.

Com a minha avó também aprendi a importância de comer alimentos

produzidos localmente. Uma das maiores falhas de conexão com a natureza

que vejo é a forma como a maioria das pessoas faz compras no mercado. É

comum comprar frutas, legumes, verduras, carne, frutos do mar e aves sem

saber de onde vêm, ou se os produtores usaram agrotóxicos e estabilizantes

nos alimentos. A maioria dos alimentos hortifrutigranjeiros que minha família come vem de agricultores e produtores locais. Apoio 100% o

consumo de alimentos produzidos localmente e, para mim, não há duas

profissões mais importantes e mais subestimadas que as de agricultor e

professor. Se você pensar bem, agricultores e professores são parecidos. Os

agricultores semeiam e cultivam a comida que ingerimos, e os professores

semeiam e cultivam a mente das nossas crianças!

Frutas, verduras e legumes de origem local têm um sabor melhor porque

são mais frescos, já que nada precisa ser adicionado a eles para impedir que

estraguem. Consumir produtos locais também é melhor para o meio

ambiente. Significa que a comida que ingerimos precisou ser transportada por

uma menor distância até chegar à nossa mesa. Sei que é difícil, para algumas

pessoas, encontrar produtos de origem local — principalmente para quem

vive na zona urbana —, mas sempre fico feliz ao ler que feiras de pequenos

produtores estão cada vez mais em alta. Depois que você experimenta a

diferença de um produto local e sente o nível de energia aumentar, é difícil

voltar a se alimentar de outra forma.

Temos sorte de ter uma pequena horta atrás da nossa casa em Boston.

Plantar nossos próprios legumes, verduras e temperos tem sido uma

experiência maravilhosa para todos nós, principalmente para as crianças. Da

mesma forma que passei a entender os ciclos da natureza no sítio da minha

avó, o Benny e a Vivi começaram a se dar conta de que a vida não acontece

simplesmente — há um processo e um ritmo para tudo na Terra. Para que um

pepino ou morango cresçam, é necessário sol, chuva, solo fértil e, é claro,

muito amor e atenção. Sempre que o Benny e a Vivi convidam algum

amiguinho da escola para ir lá em casa, uma das primeiras coisas que fazem é

correr até o jardim e colher um minipepino ou um tomate-cereja para comer

direto da horta. Quando fazem isso, me lembro da minha infância. Parece um

ciclo se fechando.

Chamego no café da manhã na Costa Rica, em 2015.

 

Existe ferramenta de ensino melhor que uma horta?

Ter uma horta também ensinou meus filhos sobre os desafios enfrentados

por qualquer coisa viva. Temos uma profissional de jardinagem maravilhosa

que vem nos auxiliar, o Benny e a Vivi adoram ajudá-la a colocar joaninhas

nas plantas, para que afastem predadores. Eles entendem como as plantas são

ameaçadas por ratos-do-mato ou coelhos, ou até por algum cervo que pule a

cerca. À medida que meus filhos crescem, sentem mais orgulho de ajudar a

preparar a própria comida. Eles entendem que os legumes, as verduras e os

temperos que plantamos na horta têm um papel importante na nutrição do

corpo deles. Também entendem que algumas de suas frutas favoritas —

mirtilos, morangos — às vezes não estão disponíveis porque estão fora de

época. Eles sabem quanto as coisas podem ficar difíceis para os agricultores

locais no outono ou no inverno, os desafios do cultivo em estufa e como uma

nevasca ou uma chuva de granizo repentino, por exemplo, podem fazer o

telhado de uma estufa cair. Consequentemente, eles têm uma compreensão

maior do esforço, do comprometimento e do amor necessários para ser um

agricultor.

No futuro, gostaria de aprender mais sobre ervas medicinais, já que alguns

dos remédios mais poderosos à nossa disposição vêm da natureza. Como

cresci com minha mãe preparando chás especiais quando minhas irmãs e eu

ficávamos doentes, sempre fui fascinada pelas formas como a natureza pode

nos curar. Não tenho nada contra a medicina ocidental, mas nas raras

ocasiões em que não me sinto bem, sempre recorro à medicina natural. Se

tenho febre, significa que meu corpo está tentando me dizer alguma coisa. Às

vezes, só ficar sentada numa banheira com água em temperatura ambiente é

um ótimo jeito de fazer a temperatura do corpo voltar ao normal. Se tenho

dor de cabeça, primeiro bebo muita água e depois faço uma massagem de

leve nas têmporas com óleo essencial de hortelã-pimenta. Melhor ainda é me

deitar um pouco, e geralmente a dor de cabeça desaparece.

Tom — com a Vivi de ajudante — conferindo os novos canteiros que acrescentamos à nossa horta nos fundos da nossa casa em Boston, em 2017.

 

Minha avó era meio curandeira. Minha mãe me contou que, quando

alguém no vilarejo dela ficava doente, primeiro chamavam a vó para

descobrir se podiam se tratar com ervas medicinais em vez de ir para o

hospital, que ficava bem longe. Se uma de nós começava a apresentar

sintomas de resfriado ou gripe, ela nos preparava um chá e passava óleo de

hortelã-pimenta na sola dos nossos pés, cobria os dois com meias e nos

mandava para a cama. Quando tínhamos tosse, ela cortava uma cebola e

colocava as rodelas em nosso quarto ou as prendia em nosso pijama, além de

garantir que estávamos hidratadas e tínhamos ingerido bastante vitamina C,

faço o mesmo com as crianças quando elas têm febre. E funciona, sou

testemunha. Algumas vezes, quando as crianças começam a sentir dor na

garganta, uso um método que aprendi com minha mãe. Embebo um pano no

leite bem gelado, dobro o pano como uma compressa, cubro a parte externa

com plástico filme e coloco outro pano por fora para prender ao redor do

pescoço deles. Fica meio fedido no dia seguinte, mas em geral a dor de

garganta desaparece — e não faço ideia do motivo. Além disso, como o

limão é um desinfetante natural, se alguém lá em casa fica doente, corto um

limão pela metade e deixo as metades viradas para cima na cômoda ao lado

da cama deles. No inverno, também gosto de preparar um chá com mel de

manuka, três ou quatro limões picados e gengibre ralado na hora,

principalmente se as crianças e eu estivermos sentindo os primeiros sintomas

de resfriado.

E se uma das maiores lições que a natureza pode nos ensinar é sobre o

ritmo das estações, então, imaginem o que é ser uma brasileira sobrevivendo

a um inverno na Nova Inglaterra! Já sobrevivi a dez deles! Se tivesse que

escolher entre inverno e verão, não pensaria duas vezes. Nada me deixa mais

feliz do que ficar de pés descalços e com uma roupa bem levinha. Como

cresci num clima tropical, naturalmente ia preferir morar onde é mais quente, mas também adoro a beleza das estações na Nova Inglaterra. Porém, o

inverno pode ser rigoroso. Não fico deprimida por causa da noite prolongada,

mas morro de frio o tempo todo, e sou o tipo de pessoa que fica literalmente

roxa quando está com frio. Mas, quando aprendi que o segredo para

sobreviver a esse tipo de clima são as camadas — suéter, jaqueta acolchoada,

calça de ski, casaco, meias, luvas, deixar só os olhos à mostra —, vi que o

inverno pode ser uma época do ano linda e aconchegante. Também gosto de

esquiar, o que tenho feito regularmente há mais ou menos quatro anos,

embora passasse a maior parte do tempo caindo de bunda no chão enquanto

ainda estava aprendendo. As crianças já esquiam bem melhor que eu, e o Jack

desce a montanha voando, o que me faz lembrar de como é bom começar a

aprender um esporte (ou um idioma) tão cedo quanto possível. Ainda fico nas

pistas para iniciantes!

Posso passar os meses de inverno sonhando com um tempo mais quente,

mas o Benny e a Vivi, que nasceram em Boston, amam o inverno, e adoram

principalmente sair de casa e fazer bonecos de neve, anjos no gelo ou guerra

de bola de neve. Eles são New Englanders de fibra. Às vezes, mesmo quando

estou com três camadas de roupas, ainda sinto frio, enquanto a Vivi, só de

suéter, me diz que está morrendo de calor. Meus momentos preferidos em

dezembro e janeiro são quando neva lá fora mas estou dentro de casa, com

uma calça de moletom felpuda e meias confortáveis, sentada diante da lareira,

lendo um bom livro — mas, para ser honesta, isso raramente acontece, já que

estou sempre na maior correria fazendo um milhão de coisas ao mesmo

tempo.

A natureza é linda e inspiradora, não importa a estação.

Ela também foi minha inspiração na hora de ter meus filhotes. (Até os

nomes do meio deles são inspirados nela: Rein [chuva] e Lake [lago].)

Sempre sonhei com um parto natural em casa. Para mim, é o meio mais

pacífico e bonito de uma criança vir ao mundo. Desde que minha irmã

gêmea, Pati, teve pneumonia dupla quando tínhamos 10 anos, sinto uma forte

aversão a hospitais. A ideia de fazer o parto em casa não só parecia natural e

correta, mas também me conectava a uma sensação mais profunda de poder.

Tinha a ver com confiar no meu corpo e no meu criador para trazer uma nova

vida à Terra. E não era como se eu fosse a primeira pessoa a considerar a

ideia. Até os anos 1900, milhões de mulheres davam à luz em casa. Porém,

quando engravidei do Benny, muitas pessoas chamaram minha atenção para o

fato de que pouquíssimas mulheres atualmente tinham filho em casa. Bem,

acho que eu seria uma delas.

Alguns anos antes de engravidar, conheci a Mayra, uma jovem muito

especial que estava estudando para ser doula. Mayra argumentou que os

bebês basicamente flutuam em água dentro da barriga das mães — e que o

modo mais suave e mais tranquilo para um recém-nascido vir ao mundo era

dentro d’água. Isso não saiu mais da minha cabeça. Soube, depois daquela

conversa, que teria meu bebê na água. Disse a Mayra que adoraria que ela

estivesse comigo durante o parto. Alguns meses antes de Benny nascer, liguei

para ela e disse: “Você está pronta? Vamos nessa!” Algumas mulheres,

contou Mayra, davam à luz no mar, enquanto outras o faziam numa banheira.

Escolhi a banheira — uma decisão fácil, já que era dezembro, e estávamos no

meio do inverno de Boston. Comecei a assistir aos muitos vídeos sobre parto

na água que ela havia me recomendado. Num primeiro momento, a maioria

das pessoas próximas a mim, incluindo Tom, achou a ideia perigosa. Mas

minha mãe me apoiou incondicionalmente e esteve do meu lado quando meus

dois filhos nasceram.

Na cozinha do nosso antigo apartamento na Beacon Street, em Boston. Era 2009, poucas semanas antes da chegada do Benny.

 

Tom e eu estávamos em Los Angeles com o Jack durante o recesso da

temporada de futebol americano quando fui a um obstetra para a consulta dos

quatro meses. O médico que me atendeu disse que era perigoso demais ter o

bebê em casa. Falou que o Benny não estava na posição certa, que meus

quadris eram muito estreitos, e que as condições não estavam a meu favor.

Disse que era melhor eu marcar uma cesariana. E, como mencionei, o Tom

também não estava lá muito animado com a ideia do parto domiciliar. Só

depois que fiz com que ele assistisse a meia dúzia de documentários sobre

parto natural é que finalmente concordou. (Ou talvez Tom simplesmente não

aguentasse mais ver vídeos de parto natural.)

Falei ao obstetra que ia ter meus filhos em casa. Minha atitude foi a mesma

que tive no colégio: Não acho que cabe a você tomar essa decisão! Ninguém

ia me convencer do contrário. Comecei a pesquisar mais e logo encontrei

Deborah, uma parteira muito experiente. Ela já havia feito centenas de partos

em casa. Era amorosa e gentil, exatamente o tipo de pessoa que eu queria ao

meu lado quando fosse ter meu bebê. Deborah me explicou em que posição

Benny estava no útero — não pareceu nem um pouco preocupada com isso

— e me lembrou de que eu não tinha problemas de saúde e que era jovem e

totalmente capaz de levar aquilo adiante. Ela não tinha preocupação alguma e

estava confiante de que eu teria um parto domiciliar bem-sucedido.

Meu plano era dar à luz na minha banheira, embora tenha ignorado um

detalhe importante: eu tenho 1,80m, e a banheira era, bem, não muito maior

que isso. Fiquei em trabalho de parto por 16 horas durante o parto do Benny,

e as últimas três passei dentro da banheira, com Mayra, Deborah, Tom e

minha mãe repondo a água quente sem parar. Toda mulher que já deu à luz

sabe que esta é uma das experiências mais maravilhosas da vida. Porém,

quanto mais intensa era a dor, mais quieta eu ficava. O processo inteiro

estava se desenrolando entre mim, meu Deus e meu filho. Krishna Das tocava

baixinho ao fundo, e eu estava rodeada de velas reluzentes. Fechei os olhos e permaneci concentrada na minha respiração, sabendo que, a cada contração,

eu chegava mais perto. Como sempre, eu tinha um propósito: finalmente ia

conhecer aquele serzinho que vinha carregando dentro do meu corpo por

nove meses. Já ia ver seu rostinho! Meu claro senso de propósito tornou a dor

mais suportável. A vida inteira tinha rezado para meus anjos da guarda, mas,

durante o trabalho de parto, fui direto a Deus.

Quando o Benny chegou, senti, mas não pela primeira vez, que, de alguma

forma, estava fora do meu corpo vivenciando aquele momento de duas

perspectivas diferentes. Podia me ver na banheira, como se estivesse

assistindo a um filme, testemunhando tudo de cima, simultaneamente

sentindo uma onda de energia enquanto continuava a respirar. Estava vendo

meu filho nascer de cima e, ao mesmo tempo, totalmente imersa na

experiência de dar à luz. Sempre me perguntei como aquilo podia estar

acontecendo. Talvez seja porque, num momento como aquele, o véu entre o

mundo terreno e o mundo espiritual fica mais tênue. Sei lá — tudo que sei é

que foi mágico!

O parto da Vivi, três anos depois, foi um pouco diferente. Tendo aprendido

minha lição com a banheira, comprei uma especial para parto com quase dois

metros de diâmetro e que vinha com aquecedor para a água. Não só me

manteve aquecida, como também me deu espaço suficiente para me

movimentar. A menos que uma mulher seja muito pequena, recomendo

comprar ou alugar uma banheira de parto (dei a minha para a Mayra, para que

outras mamães pudessem usá-la). Mais uma vez, Krishna Das estava

cantando, e as velas cintilavam. Tom estava dentro da banheira comigo, e

minha mãe, Deborah, Mayra e minha irmã Fafi estavam à nossa volta. Fico

tão feliz por ter estado acordada e consciente quando dei à luz aos meus dois

filhos. Sim, a dor às vezes é difícil de suportar, mas me concentrar na

respiração ajudou a aliviar a dor. Ter meus filhos em casa foram duas das

experiências mais extraordinárias da minha vida. Eu tinha tomado uma

decisão, confiado em mim mesma e que tudo daria certo, e deu. Sou tão grata

por isso.

Eu e meu doce bebê, com uma semana de vida, em dezembro

de 2009.

 

Eu me lembro de ficar deitada na cama com cada um dos meus filhotes

logo depois que nasceram e pensar: A natureza é milagrosa, a vida é

realmente mágica — assim como nosso corpo, que é capaz de gerar uma

vida, e como é incrível sentir uma afinidade instantânea com um ser que você

acabou de conhecer.

Também percebi um novo tipo de força dentro de mim. Eu me senti como

Kali, a deusa hindu do tempo, da criação, da destruição e do poder — me

senti invencível. Podia quebrar uma rocha ao meio com os dentes! Podia

partir uma montanha em duas! Podia abrir mares! Kali também é ligada à

morte. Quando um bebê nasce, a mãe dá um passo para trás. Uma parte dela

morre. Foi também a morte da consciência de mim mesma como ser único,

do ego, de colocar a mim e às minhas necessidades em primeiro lugar. O

parto é uma metáfora para muitos aspectos da vida, porque exige muito

esforço, e só depois que passamos pelo teste é que recebemos a recompensa.

Logo após o parto da Vivi, o Benny veio à nossa cama animado

para conhecer a irmãzinha.

 

Em 2008, criei com meu pai um programa dedicado a recuperar a qualidade

da água de um pequeno rio na região de Horizontina. Nós o batizamos de

Projeto Água Limpa. Foi uma experiência muito gratificante, não apenas

porque pude trabalhar com meu pai, mas porque alegra meu coração saber

que criamos uma mudança significativa e duradoura na região onde nasci.

Após a recuperação das margens do rio, os moradores passaram a ter acesso a

uma água mais limpa. Recentemente, minha família decidiu expandir nossos

esforços, usando o que aprendemos com o Projeto Água Limpa para iniciar o

reflorestamento das margens do rio Jacuí, um dos maiores do Rio Grande do

Sul. Estou muito animada para encarar este novo desafio, com a esperança de

que, no futuro, outros irão somar esforços para que possamos manter vivo

não apenas o Jacuí, mas também mais e mais rios a fim de oferecer água

limpa e fresca para todos. Tenho fé de que seremos capazes de trabalhar

juntos com as comunidades locais, que por sua vez serão empoderadas para

cuidar dos recursos naturais e preservá-los.

Nossa saúde depende da saúde do nosso planeta. Quando maltratamos a

natureza, maltratamos a nós mesmos. Sem dúvida, a natureza percebe nossa

falta de consciência, e os incontáveis meios pelos quais a estamos explorando

e destruindo, mas ela simplesmente continua sendo nossa provedora. Meu

sábio amigo Noel, que cuida das árvores dos parques nacionais da Irlanda, certa vez me deu uma explicação simples e profunda sobre o que está

acontecendo com a natureza. “Qualquer coisa viva que perca um terço de sua

pele”, disse ele, “sofre com febre alta e corre grande risco de morrer. Até

hoje, nosso planeta perdeu um terço da sua pele — as árvores, o solo, o

oceano e a biodiversidade que o cerca. Mesmo assim, em vez de ajudar a

plantar e restaurar o que foi arrancado, nós continuamos saqueando e

destruindo.” Muitas pessoas não dão o devido valor ao planeta, aos alimentos

que comemos e à água que bebemos. Muitos acreditam que temos o direito

de nos apropriar de tudo o que a natureza tem a oferecer. Mas não temos!

Todos precisamos contribuir para o futuro do planeta. Esta é a nossa terra.

Nossa água. Nossas árvores. Nosso futuro. Se queremos continuar a morar

neste planeta, é nossa responsabilidade arregaçar as mangas e fazer alguma

coisa para ajudar. Depende de nós protegermos a Terra e nos salvarmos. Nós

somos os salvadores pelos quais temos esperado. Nós precisamos honrar o

organismo que nos sustenta. Nosso futuro está em nossas mãos.

Vivi, minha menininha, voando ao pôr do sol, na Costa Rica,

em 2016.

 

Então, por favor, seja tão útil quanto puder. Use seus dons especiais para

servir aos outros e tornar o mundo um lugar melhor. Lembre-se: eu, você e

todos que vivem na Terra somos uma parte da natureza — e por que estamos

aqui se não for para aprender, crescer e ajudar uns aos outros?