Atrás da Porta
Conversas amenas e pimenta
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Simone adorava sua privacidade e possuía enorme força psicológica para resistir às pressões sociais, o que incomodava as pessoas. Elas não entendiam o conceito de que “sem companhia é melhor do que em má companhia”. De vez em quando, concordava em sair em algum encontro às cegas que seus amigos arranjavam, tentando fazê-la encontrar “o homem certo”, e que inevitavelmente davam em nada. Há muito tempo decidira que homem certo não existe e que qualquer ilusão sobre o assunto já desaparecera por completo.
Ela concluíra que o que procurava para sua vida, no que dizia respeito a romance, não estava disponível no mercado. Talvez fosse muito exigente, mas havia estudado muito, tinha adquirido imensa bagagem cultural. Portanto, não ia se conformar em ficar com alguém só por ficar. Nada do “não sou feliz mas tenho marido”.
Imersa em seus pensamentos, Simone subitamente se lembrou de que havia agendando um encontro online com um dos candidatos da sua pesquisa.
Olhou o relógio e viu que já estava atrasada para o encontro virtual com allyoucaneat@loftmail.com, que dizia chamar-se Victor, certamente nome falso, como o seu e o de Edward. Ligou o computador, entrou no chat e viu que ele já estava esperando. Começou a escrever.
– Olá, Victor, desculpe-me o atraso! É a Claire.
– Olá, Claire, pensei que era um abandono… trinta e cinco minutos é muito mais que atraso!
Ele pareceu aborrecido, mas como não é possível saber o tom quando se escreve…
– Eu havia me esquecido, eu e Paul saímos e só agora conseguimos voltar.
– Paul está com você?
– Sim, está aqui. Dê um oi para ele. Fique tranquilo, ele está nos acompanhando e saúda você também.
– Ok, pessoal, nós já trocamos e-mails, penso que estamos nos conhecendo melhor. Vocês já sabem que não sou nenhum louco, que tenho uma imagem a preservar. Quero saber o que vocês pretendem disso aqui. Vamos avançar? Ou vocês querem apenas se divertir conversando com pessoas?
– Não, queremos realmente alguém que participe de brincadeiras conosco.
– Eu acho que vocês não têm muita experiência na área, não?
– Não muita, já fizemos algumas brincadeiras, mas queríamos alguém em quem pudéssemos confiar.
– Querem um namorado permanente, é isso?
– Sim, exatamente. E você tem experiência... disse nos e-mails anteriores que sim, mas que tipo de experiência?
– Tive várias experiências breves, mas me relacionei com um casal por alguns anos. Eu os conheci durante uma viagem. Acabamos tendo uma boa química e, coincidentemente, morávamos na mesma cidade. Então, após a viagem, a situação continuou.
– Mas em que consistia seu papel na relação?
– Eu não tinha um “papel” na relação, nós entravamos em contato, marcávamos um encontro, inicialmente em pequenos hotéis, mais tarde na casa deles, para relacionamentos sexuais.
– Você fazia sexo com os dois?
– Não, sou “hétero”, não quero nada de homossexualismo. Acho péssimo! Se é isso que estão querendo, estou fora!
– Calma, não, somos “hétero” também, é só curiosidade. Apenas queria que me descrevesse um pouco o que faziam, para ver se estamos no alvo.
Para progredir em sua pesquisa, Simone necessitava saber mais: como as pessoas se comportavam e o que sentiam.
– O marido tinha a fantasia de vê-la fazendo sexo com outros homens, às vezes só nos assistia, às vezes participava, mas sempre nós dois com ela, nunca só nós dois!
– Não me entenda mal, Victor, mas eu não fiz muito isso, nem o Paul. Então não temos certeza de como será nossa reação depois. O Paul também tem essa fantasia, mas eu tenho medo de que depois ele fique com ciúme e isso estrague a relação boa que temos. Como ficava o marido desse casal?
– Olha, depois que eu saía de cena, não sei, mas em cena era tudo ótimo. Acabamos ficando amigos, algumas vezes ele e eu saímos até para tomar uma cerveja e conversar sobre a vida…
– Então você acha que ele não ficava com ciúme?
– Ela me disse, nas poucas vezes em que ficamos a sós, porque eu sempre fui ético e nunca tentei um encontro a sós com ela, que ele tinha muito ciúme dela. Que não compreendia a fantasia dele, porque ele era neurótico, mas que de mim não tinha ciúme. Ao contrário, depois que saíamos juntos, ele usava o episódio como fantasia a sós com ela.
– Pode ser que passemos por isso então, ciúme…
– Não sei dizer ao certo, Claire.
Simone resolveu mudar um pouco de tática, pois precisava de mais informações, e colocou “Paul” na conversa.
– Victor, agora é o Paul que vai falar um pouco com você, ok?
– Ok, olá, Paul.
– Olá, Victor, fiquei um pouco preocupado com essa história de ciúme, porque é bem como me sinto. Sinto muito ciúme da Claire normalmente, mas tenho essa fantasia louca.
– É… acho que é assim mesmo que funciona, Paul. Tive outras relações mais curtas, mas sempre era assim: ciúme, desejo, mas tudo controlável. Acho que vocês têm que estar seguros do que querem antes de começar realmente.
– Certo, também acho, mas estamos gostando dessa aproximação, sem pressões.
– Sim, compreendo. E compreendam vocês que aqui desse lado também tem alguém preocupado com o desconhecido do outro lado. Quero segurança. Eu tenho família, não quero magoar ninguém, quero apenas alguns momentos de prazer.
– Ah, você também é casado?
– Sim, sou. Eu já havia escrito isso para vocês, preciso de sigilo absoluto.
– Sim, eu gostaria de saber também de você, Victor, como se sentia na relação? Em nenhum momento se apaixonou pela parceira ou sentiu vontade de tê-la para você?
– Claro, acho que isso acontece, mas daí você tem que terminar. Existe uma vida fora da cama, e nessa vida eu tenho uma pessoa que amo e não iria arriscar tudo por uma paixão com um tipo de mulher que não quero para mim.
– Opa! Agora sou eu, Victor, a Claire. Você não gostaria de uma mulher como eu para sua vida, mas gosta para quê, então?
– Claire, não se ofenda… eu aprecio muito seu tipo de mulher para isso… para uma aventura… para um pouco de emoção na vida… mas para meu dia a dia eu não daria conta, é muito arriscado esse jogo que fazem… Eu ficaria sempre na dúvida se minha mulher não estaria indo além das fantasias, praticando-as sem mim.
– Compreendi, e não me ofendi. Mas nas suas experiências anteriores você viu esse tipo de desconfiança nos maridos? Estou preocupada com o Paul.
– Sim, Claire, eu vi em quase todos, e vi ciúme de outros homens, como já falei, não de mim, mas do mundo. É um pouco incompreensível para mim, porque se o homem tem ciúme e quer compartilhar a mulher com outro, isso deve provocar sofrimento. Mas eu não sou psicólogo, sou apenas alguém que usufrui da fantasia dos outros.
Simone conseguiu categorizar o que ele dizia facilmente, dor, prazer, masoquismo puro, entregar o outro para sentir dor e dessa dor ter prazer, e depois do prazer mais dor, círculo vicioso exato do masoquismo. Faria essas anotações depois da conversa.
– Victor, o Paul pede para dizer que gostaria de encontrar você, e daí, se ele concluir que é você quem procuramos, eu irei ao próximo encontro.
– Esta semana estarei fora, volto na próxima e entro em contato. Penso que um encontro entre nós seria fundamental. Se não houver química, não adianta prosseguirmos infinitamente nessa história.
– De acordo, Victor, tenha um bom fim de semana e uma ótima semana. Paul lhe deseja o mesmo.
– Para vocês o mesmo. Por favor, no nosso próximo encontro virtual, tentem marcar em um dia de semana, ficou complicado encontrar esse tempo sem minha esposa, certo?
– Perfeito, compreendido.
Após encerrarem a conversa, Simone fez as anotações correspondentes ao diálogo, mas estava quase certa de que um dos motores desse tipo de fantasia era realmente o masoquismo. Decidiu que postaria também um anúncio de alguém querendo ser acompanhante para um casal, para ver o outro lado. Não tinha pressa, era meticulosa, queria precisão.
Quando olhou pela janela, a chuva fina já havia parado e a noite começava a cair, o dia havia terminado, era fim de sábado. Estava começando a sentir necessidade de um pouco de companhia em sua vida – quem sabe alguém para jantar? Quem? Deixou o assunto arquivado. Decidiu comer alguma coisa e depois ler um pouco.
Trabalho, trabalho, trabalho, pensou. Talvez a vida se resumisse a isso, talvez ela só fosse talhada para trabalhar, e amar fosse para outras pessoas, com olhos mais fechados e menos lucidez. Ninguém resistia à sua análise clínica por mais de quinze minutos. Na primeira hora de conversa, Simone já havia traçado o perfil psicológico da maioria das pessoas, e suas intenções. Ficava difícil se apaixonar dessa forma.
Apaixonar-se requeria pequena dose de cegueira e alta dose de fé. Simone não era cega e tinha pouca fé no “amor verdadeiro”. O pensamento não a deixou infeliz, somente resignada ao fato de que talvez passasse o resto da vida só... Talvez o máximo que conseguisse de felicidade fosse o trabalho e os poucos amigos próximos que tinha.
Com aquele pensamento em mente, abriu o manuscrito de Mark e em alguns minutos já estava perdida no texto novamente.
O Diário de Mark
Exclusividade
Após a noite que Lara passara na minha cama, ela sumiu por uns dez dias, telefonei uma, duas vezes. Ela gostava de jogar, eu não. Sou simples e direto: se uma mulher me quiser, ótimo. Se não… existem muitos peixes no oceano.
Me senti melhor com essa decisão, mas a vontade de vê-la era imensa. Pensava nela constantemente e não conseguia tirar da cabeça nossa transa. Então a encontrei numa delicatessen no SoHo. Ela estava indo para um restaurante abraçada a um homem que se grudava nela em atitude bem possessiva. Ver os dois doeu, o ciúme enfiou sua faca em mim. O homem estava beijando o pescoço dela quando ela me viu.
– Mark, querido, você por aqui! Este é meu amigo Tony. Tony, este é meu amigo Mark.
Ficou fácil então entender que éramos todos “amigos” de Lara – amigos com bônus, aparentemente. Não sei o que eu estava pensando. Nós, homens, conseguimos ser assim. Eu mesmo já tive várias “amigas”, mas não queria ser um dos amigos de Lara. Meu lado machista do ano aflorou.
– Viajou de novo, Lara?
– Não, estava por aqui.
E o “amigo” ajudou a esclarecer:
– Nem sempre ela faz o número do desaparecimento... mas faz um bocado! Com certeza se enfiou em algum lugar misterioso…
Ah, então não era somente eu o frustrado. Ótimo! Fiquei ao menos consolado em saber que o outro “amigo” recebia o mesmo tratamento que eu.
– Tenho que ir, boa noite para vocês dois.
– Boa noite, Mark, ligo para você.
E me deu um beijo no rosto.
– Boa noite, Mark, um prazer conhecê-lo.
– O mesmo, Tony.
“Que você morra atropelado por um trem expresso, seu merdinha”, pensei.
E assim se foi pela janela minha ilusão de ter algum tipo de relacionamento diferente com a Lara. Entendi que aquela mulher significava bons momentos de aventura, mas que ela nunca me prometera nada. Au contraire, me alertara sobre ser “ganancioso” quando falei em mais tempo juntos. Erro meu. Eu fui o estúpido e estava me sentindo o completo idiota. Queria chutar minha própria bunda. Não me reconhecia no papel patético em que me havia colocado.
Fiquei em frente ao restaurante alguns minutos, tentando decidir o que fazer na sequência... Considerei a hipótese de um assassinato, mas no final decidi ligar para Peter para ver se ele toparia um drinque. Eram quase oito da noite e seria bom conversar com alguém. Se eu fosse para casa sozinho me sentiria infeliz.
– Oi, Pete, e aí, vamos tomar alguma coisa?
– Oi, Mark, tudo bem comigo, obrigado.
– Me desculpe, estou meio estranho hoje.
– Tudo certo.
– E aí, topa beber algo?
– Claro, vamos aonde?
– Aonde você quer ir? – eu lhe perguntei.
– Onde você está agora?
– No SoHo.
– Ok, me encontra no Boqueria, daí já comemos algo, que eu não jantei ainda.
– Boqueria, sei que já fui lá, mas não me lembro onde é...
– Spring Street, não sei o número.
– Eu encontro.
Boqueria é um restaurante pequeno. Do lado de fora parece um armazém, mas dentro tem uma atmosfera agradável de bodega espanhola, com presuntos pendurados no teto. Pedi uma mesa discreta próxima à parede e esperei Peter.
Quando ele chegou, me abraçou, mas dessa vez acho que sentiu meu humor de “navio afundando” e não foi tão efusivo nos cumprimentos. Pedi um uísque duplo e Peter, uma taça de vinho tinto.
– O que dói, meu amigo? Sua cara é de quem perdeu algum processo sério, está com dor de dente ou com hemorroidas.
– Pete, pelo amor de Deus, você consegue ser sério?
– Para quê? A vida já é séria o suficiente, não vou colaborar sendo mais um deprimido por aí. Me conta.
– Lara.
– Ai, não, você se apaixonou pela Lara? Eu avisei… meu amigo, eu a adoro, mas não dá para ancorar ali, é canoa furada.
– Agora é tarde, não tiro a desgraçada da mulher da cabeça, e ainda por cima a vi com outro cara hoje na porta de um restaurante, cheia de amores.
– Essa é a Lara.
– O que você quer dizer com “essa é Lara”?
– Você não escutou nada do que falei outro dia, não é? Lara não é para pegar na mão. Nunca a vejo de mãos dadas por aí com ninguém por muito tempo, e você achou que podia fazer diferente… meu amigo… Não sei o que dizer, talvez você realmente consiga, é charmoso, bem-sucedido, bonitão – aliás, você seria um ótimo gay.
– Pete, vou começar a considerar o mundo gay. Não entendo as mulheres!
– Ok, eu lhe dou um tour gratuito se quiser... Parece que você não entende essa mulher e por isso está aí todo caidinho, apaixonado pelo mistério... Saia dessa, meu amigo! Encare a realidade, entenda o que ela tem para oferecer e pense se quer ou não.
– Eu quero exclusividade, a quero para mim! – disse enfaticamente, apontando para o meu peito.
– Você está obcecado, só isso. Ai, meu Deus! Como o ser humano é masoquista, não consegue receber um não como resposta! Quanto mais rejeitado, mais se apaixona!
– Não é nada disso, Peter… ou talvez seja, sei lá… Gosto da loucura dela, gosto do cheiro dela, da imprevisibilidade!
– Essa imprevisibilidade está fodendo você! – Peter apontou o dedo para a própria cabeça e disse:
– Pense racionalmente: se a quer, decifre-a, use a cabeça, ou ela devora você! – e como Peter é Peter... ele formou garras com as mãos e rugiu para mim como um leão. Se eu não estivesse tão deprimido, teria rido.
– Como?
– Hum? – Peter pareceu surpreso com minha pergunta e continuou:
– Essa parte eu não sei. De verdade, não tenho a mínima ideia. Sou bom de falar, mas sou o gay mais masoca de toda Nova York. Basta que me rejeitem que me apaixono. Algumas vezes até acho que sou apaixonado por você, de tanto que me rejeita!
E pôs a mão sobre o coração, bancando a prima-dona.
– Peter, vá se foder, você é um caso clássico de debilidade mental! E eu achando que estava falando com sabedoria…
– Sim, a sabedoria de quem só apanha. A experiência nos torna sábios… ou ao menos nos faz parecer sábios.
– Alguma ideia brilhante?
– Vou pensar; posso fazer uma festa lá em casa e convido vocês dois… Tipo casal armado… e peço a ela para levar um gay lindo que conheça, daí já me ajeito também.
Os olhos dele brilharam como se ele já estivesse na festa.
Olhei feio para ele
– Você é bem egoísta, sabia? Me deixe pensar.
Peter continuou:
– Eu gosto de vocês dois. Seria bom juntá-los, meio água e óleo, diria eu… Mas os opostos sempre se atraem. Claro que depois se repelem em igual intensidade, mas até lá, sei lá se estaremos vivos! Quando foi a última vez em que vocês saíram?
– Dez dias atrás. Ela me convidou para uma festa, foi superestranho, transamos no carro com um motorista nos assistindo. A mulher é insana, acho que não gosta de superfícies, só de obstáculos.
– Superfícies significam camas… camas significam envolvimentos… envolvimentos significam relacionamento… Em outras palavras, meu amigo: ela não quer se relacionar, quer transar! Transa, pelo amor de Deus, e pronto! Você é o homem aqui!
Ele apontou o dedo para mim e pude ver as unhas pintadas com algum tipo de esmalte transparente... o quão estranho ele conseguia ser?
– Ok, deixa eu terminar. Daí fomos a uma festa de alguém, algum “amiguinho” de quem ela decorou o apartamento. Encontramos lá uma senhora chamada Sabine, que disse ser a mãe da Lara, que tratou a mãe como se fosse lixo tóxico e me arrastou para fora da festa.
– Sabine? A mãe de Lara? Homem, aquilo é uma lata de vermes! – ele parecia surpreso.
– Por quê?
– Não conheço a história… ninguém fala naquela família… mas a mãe os abandonou por causa de um senador ou algo assim. Sei que os pais eram separados fazia tempo quando eu frequentava a família, e a mãe era assunto proibido.
Peter falava em tom baixo, como se estivesse me contando um segredo obscuro.
– Proibido?
– Bem, o que quero dizer é que ninguém falava sobre ela. Quem criou a meninada foram o pai da Lara e a avó, Emma, que era mais louca que a Lara.
– Mais louca que a Lara? O que ela fazia? Strip-tease na praça?
– Olha, não tenho certeza de que não tenha feito isso. Ela era irreverente, tinha zero respeito por convenções, pilotava uma moto e nos divertia muito, porque era como se tivéssemos uma amiga adolescente com experiência. Então os conselhos eram fantásticos, reais. A adorávamos!
Peter sorria enquanto falava sobre Emma. Aparentemente tinha grande respeito pela senhora.
– Morreu?
– Sim, uns quatro anos atrás. Foi duro para todos nós. Eu fiquei mal, a Lara ficou devastada. Foi uma das raras vezes em que vi os sentimentos dela na superfície: desespero de perder a avó.
– Uau, Peter, obrigado por me contar isso. Você sabe, depois que encontrei a mãe dela, Lara não quis falar no assunto. Eu a levei para minha casa e a coloquei na cama, ela me pediu para não deixá-la sozinha... Achei que talvez estivéssemos começando a nos entender, mas ela escapou de manhã cedo e não responde o telefone desde então.
– Vou sondar para você… Vou tentar sutilmente falar com ela e ver o que anda acontecendo, sem deixá-la saber que tenho acompanhado o affaire… Para mim vocês só se viram na minha festa, certo?
– Mas isso é uma estratégia bem gay, Pete, não vai dar.
– Você tem ideia melhor? – novamente o dedinho pintado apontado para mim...
– Vou falar com ela, obrigado de qualquer forma, meu amigo, me ouvir já valeu.
– Para isso servem os amigos...
Cantou a frase em inglês em voz alta e com direito a prolongamento da última palavra… Todos em volta olharam… Era Peter sendo Peter...
Saí meio alcoolizado e cheio de coragem, peguei o telefone, ensaiei umas dez vezes o que iria falar e fui para casa dormir.
O Diário de Mark
Quem é o chefe?
No dia seguinte ao encontro com Peter, eu estava no escritório, ocupado, sentado na sala de reunião, cercado por livros e papéis, estudando um processo complicado, quando meu telefone tocou. Pensei em ignorar, mas vi que era Lara.
– Oi, cabritinho – a voz dela tinha um tom rouco de quem acabara de sair da cama.
– Oi, Lara.
Prometi para mim mesmo que iria parar com os joguinhos de não sei quem é você e não sei o que quero.
– Vamos jantar? – ela perguntou.
– Vamos.
Simples assim pode ser a vida: um telefona, outro atende, um diz o que quer e o outro aceita. Mas toda vez que eu ligava ela não atendia a merda do telefone!
– Algum lugar especial onde você queira ir, cabritinho?
– Você pode escolher.
– Há um indiano ótimo que se chama Amma, conhece?
– Não, onde fica?
– Na East 51st, nos encontramos lá?
– Não, eu gostaria de buscar você, pode ser?
Ela ficou em silêncio alguns segundos, como que pensando na resposta.
– Pode… que hora?
– Às oito está bom para você?
– Bom, vou fazer a reserva. O lugar é pequeno e bem lotado.
– Boa ideia, até a noite, Lara.
Eu não estava com vontade de esticar a conversa.
– Até, Mark.
Progresso! Lembrei que eu sou o advogado aqui, eu dou as ordens, eu sou o perito em palavras, para o inferno com cabritinho isso, cabritinho aquilo… Se for algo parecido com um cabrito, então eu seria um daqueles filhos da puta bem grandes e fortes que ficam nas montanhas. Líder da chibarrada. Me senti macho, com atitude. Mas o sentimento durou só cinco minutos... Até que eu visse a pilha de papéis que tinha que analisar antes do jantar. Coloquei meu machismo de lado e voltei ao trabalho.
Às oito horas estacionei em frente ao prédio de Lara, e ela já estava esperando por mim. Incrivelmente, ela não estava “vestida para matar”: usava uma calça jeans colada! Pensando bem... talvez um pouco “vestida para matar”: bota de saltos altos, blusa até o pescoço, pouca maquiagem, cabelos soltos, cheirosa. Me saudou com um selinho.
Abri a porta do carro para ela, ajudei-a a se instalar, me acomodei ao volante e rumamos para o restaurante.
Somente a Lara para descobrir um lugar como o Amma, minúsculo, umas dez mesas no máximo. Decoração simples e aconchegante, as paredes tinham um tom de salmão, e a mobília era barata mas bonita. Imediatamente entendi a roupa mais despojada de Lara… Meu terno ficou um pouco fora de lugar… mas sou advogado, faz parte de mim. De qualquer forma, tirei a gravata e afrouxei o colarinho.
Sempre gostei de comida indiana. Começamos a escolher o que comer, eu sugeri meus pratos favoritos: Cochin Crab Cakes, naan, arroz com menta e butter chicken. Eu estava no comando. Escolhi um vinho Gewürztraminer para acompanhar, perfeito para comidas apimentadas.
Após decidirmos o cardápio, começamos a conversar.
– Você não é muito de atender ao telefone…
– Quando não sei o que falar… prefiro não atender.
– O que acha que eu queria falar com você que preferiu não atender? Ou de modo geral você não sabe o que me falar?
– Eu não queria falar sobre a noite da festa, e também não sei o que lhe dizer.
Me surpreendeu, porque ela falava o tempo todo. Talvez Peter estivesse certo, sentimentos a perturbavam, então ela estava sentindo algo? Sim, sentir algo podia ser repugnância, também – nojo é um sentimento...
– Isso significa que você gostaria que eu parasse de importunar você?
– Não… isso significa que eu não tenho respostas para as perguntas que sei que você vai me fazer.
“Ah… vidente… sabia que eu tinha perguntas”, pensei com ironia.
– E quais perguntas eu tenho?
– Por que não uma cama? Por que ela não atende ao telefone? Por que some? Por que não podemos passar mais tempo juntos? Por que fugiu da minha cama? Por que foi má com a mãe?
Que interessante... Consciente, a moça, do próprio comportamento.
– E quais seriam as respostas?
– Não tenho nenhuma. Eu só vivo, Mark, não planejo. Você, ao contrário, me parece que só planeja… mas sei lá, nós mal nos conhecemos.
– E você não quer conhecer mais…
– Quero… não quero… não tenho resposta para isso também… Você me desconcerta… Você tem uma doçura que me perturba… Estou acostumada com a alcateia… Uns pulando no pescoço dos outros… Você é gentil… é doce… educado… Eu não sei o que fazer com você.
– Mas sabe o que fazer com o cara com quem estava ontem…
Achei que ela ia alegar que era só um amigo, ou melhor, apenas bons amigos…
– Sim, com ele eu sei. Queremos o mesmo… diversão e pronto… Você quer mais, eu sinto isso em você.
– Me dê mais, então!
Pronto, lá se foi todo o meu orgulho pelo ralo. Eu queria mais, mesmo, e não queria mais esses jogos estúpidos.
– Não posso, não consigo, não está em mim. Mas gosto de estar com você, volto sempre em busca de mais. Mas não sei lidar com a proximidade.
– Aprenda! Você é uma mulher inteligente.
– Eu sou – e riu triste. – Mas sou racional demais! Não me entenda mal, não sou fria, mas é tudo que consigo dar conta. Quando fico emocional, as coisas fogem do controle.
– E você gosta do controle…
– Eu preciso dele para minha sanidade. Eu tenho trinta e cinco anos, Mark… e não foram anos de rosas...
– Nunca vou machucar você…
As palavras dela eram de quem devia ter sido muito machucada em algum momento, então tentei mostrar que eu não seria mais um a fazê-la sofrer.
– Nunca é tempo demais. E ninguém machuca porque quer, salvo se for um doente, e você não me parece nada doente.
– Me deixa chegar mais perto de você…
– Se respeitar os meus espaços… minhas fugas, que são meus encontros comigo mesma. Você acha que isso é possível?
– Vou tentar… atenda ao menos ao telefone e diga: hoje não, hoje sim, e eu prometo respeitar sua vontade.
– Está bem, trato feito! Ela sorriu.
– E mais uma coisa... por favor, não me chame mais de cabritinho, que é irritante!
O jantar foi perfeito, a pimenta era forte, sensual, deixava a boca latejando, mas os pratos estavam saborosos e bem preparados, do início ao fim. Tudo ótimo, a companhia fantástica de Lara, que, após o diálogo pesado inicial, se mostrou leve e divertida. Ela era extremamente engraçada e me fazia rir com suas observações, às vezes cômicas, às vezes mordazes.
Paguei a conta e a convidei para ir até meu apartamento. Ela aceitou, tinha entendido que eu era o chefe – quase bati no peito como Tarzan.
Fui o chefe até chegarmos na minha casa. Lara foi ao toalete, saiu de lá nua, usando apenas as botas de cano, linda, gostosa… Está bem, ela era a chefe. Eu de joelhos novamente, ou melhor, ela – com a boca uma fornalha apimentada, começou a me chupar, a sensação de calor da pimenta que provocava ardência era indescritível! Eu me segurei nos ombros dela enquanto ela me devorava, totalmente no comando novamente.
Quando recuperei o fôlego, levantei-a e coloquei-a em cima da mesa de jantar da sala e foi minha vez de saboreá-la lentamente. Comecei sugando os seios fartos e pela primeira vez observei um pequeno corte no canto inferior deles… silicone… sem problemas, eram lindos.
Fui descendo até chegar ao sexo, que tinha cheiro de desejo e molhado. Acariciei lentamente com a língua as partes externas e fui intensificando o movimento, até começar a sugar o clitóris. Ela gemia forte, num verdadeiro escândalo, e eu me sentia orgulhoso da proeza de fazer aquele mulherão gemer daquela forma.
Assim que ela gozou, não tive dúvidas e penetrei-a forte, em cima da mesa. Ela passou as pernas em volta da minha cintura, ainda de botas, e fizemos sexo intensamente até chegarmos a um clímax vulcânico.
– Foi muito bom – ela falou e me deu um sorriso doce e sereno.
– Sim, foi.
– Mas, para quem queria ir para a cama, essa mesa fria me pareceu algo diferente…
– Você não me dá tempo! Aparece nua no meio da sala e quer que eu pense em cama? A única coisa que consigo pensar é como me enfiar no meio das suas pernas o mais rápido possível. Mas vamos para a cama?
Fiquei com medo que ela dissesse não, recolhesse as roupas e saísse da minha vida por mais dez dias.
– Vamos, sim.
Na cama fizemos sexo novamente por mais algum tempo, até a exaustão. Acho que no final já estávamos fazendo para ficarmos saciados um do outro, e não por tesão, até que dormimos, exaustos.
* * * * *
Na manhã seguinte ela estava ao meu lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro branco, o rosto enterrado nas cobertas. Sorri, me senti no comando novamente. Eu era o chefe.
Capítulo Dez
Simone tinha os olhos ardendo quando ouviu a campainha. Foi abrir a porta e era Edward, garrafa de vinho numa mão, um guarda-chuvas e uma sacola equilibrados na outra.
– Como você não atendeu ao telefone, resolvi aparecer, porque tinha certeza que estaria trabalhando em pleno sábado. Chega, mulher, vamos tomar um vinho e eu vou cozinhar algo para você.
– Edward, você caiu do céu! Pus o telefone no silencioso porque algum lunático não parava de ligar e desligar, mas estava trabalhando no texto do cliente de Nova York, sim. Que bom que apareceu!
Para qualquer pessoa seria falta de educação aparecer na casa do outro sem ser convidado, mas para Simone e Edward não. Tinham esse tipo de liberdade, da qual faziam uso restrito, e que sempre significava que quem apareceu precisava de colo.
Jamais um aparecia na casa do outro quando sabia que o outro estava em algum tipo de relacionamento amoroso, mas, no momento, não era o caso.
– Vamos para a cozinha, Ed. O que vai fazer de bom hoje?
Edward gostava de cozinhar, comidas simples, mas sempre ótimas. Não era para impressionar ninguém, não era um chef. Cozinhava por carinho com os amigos.
– O que você acha de uma massa com molho Alfredo?
Foi mostrando os ingredientes que havia trazido, tirando-os da sacola, e começou a abrir os armários em busca dos utensílios. Era familiarizado com a casa, estivera ali inúmeras vezes.
Simone abriu o vinho e buscou duas taças grandes, pegou um saca-rolhas, abriu a garrafa, serviu o vinho, estendeu uma taça para Edward e colocou a outra sobre a ilha de mármore branco, para saborear enquanto Edward cozinhava.
– Pronto, meu amigo, agora que começou a mexer nas panelas, conte-me: o que houve?
– Noah...
E deu um suspiro cansado. Ele começou a preparar a comida, movendo-se rapidamente. Pôs água numa panela e a panela no cook top, pegou uma tábua e uma faca para cortar os ingredientes.
– O que houve agora? A Beth envenenando novamente?
– Não... peguei-o fumando maconha. Ele foi lá para casa ontem... eu tinha um jogo de tênis com um amigo, estendemos um pouco a coisa, fomos tomar umas cervejas, o Noah ficou em casa. Sempre leva um amigo. Dessa vez era uma amigo novo, que eu nunca tinha visto... Quando cheguei, meu apartamento parecia um defumador.
Ele parou de cortar, foi até a geladeira e pegou a manteiga.
– Meu Deus, mas não está cedo para esse tipo de experiência? Ele só tem doze anos!
– Já nem sei mais... adolescente não é o meu forte...
Edward pegou uma frigideira, jogou manteiga dentro e começou a derretê-la. Depois, juntou o alho, virou-o, adicionou o vinho que havia trazido e creme.
– E o que você fez?
– Ejetei o amigo, peguei o Noah pelo colarinho e levei para a casa da Beth. E daí, minha amiga... você já imagina o desfecho: acusações mútuas, gritaria...
Edward terminou o molho, deixou-o ao lado e checou a pasta para ver se estava pronta.
– Não seria a Beth se não houvesse gritaria...
Tinha dias que Simone não entendia como Edward suportava chegar perto da ex-mulher – um verdadeiro vinagre, intragável, mas ele era calmo e sempre tentava agir com equilíbrio. Só que hoje não parecia nada bem.
– Simmie, pode pôr a mesa, por favor?
– Claro. O que você pensa em fazer?
Ela pegou dois jogos americanos, dois pratos, garfos, facas e os guardanapos brancos de linho e arrumou tudo rápido. Não era muito boa em atividades domésticas, mas ao menos sabia arrumar uma mesa.
– Não sei, estou procurando uma psiquiatra para me ajudar. Ele riu da própria piada.
– Eu penso que é preciso submetê-lo a algum tipo de exame, para saber a profundidade, quanto já consumiu.
– Ele jurou que foi a primeira vez, que só estava experimentando, mas sei lá, ele não é mais aquele menino que confiava em mim e me contava tudo...
– Bem-vindo à adolescência, Ed, eu sempre pensei que os filhos deveriam hibernar aos doze e acordar aos vinte e um anos. O mundo seria mais pacífico! Mas os próximos anos serão árduos, se ele começou assim aos doze.
– E se eu pegasse a guarda dele, Simmie, o que acha? Ele precisa de uma influência masculina em bases mais permanentes?
Edward estava preocupado. Conversaram mais um tempo sobre Noah e enfim começaram a relaxar. Simone aconselhou Edward a procurar um colega deles, especialista em adolescentes, e Edward concordou. Ele parecia aliviado por ter algo produtivo para fazer. A comida ficou pronta. Estava ótima, tudo o que um sábado à noite chuvoso pedia.
Simone começou a conversar sobre a pesquisa e deram bastante risada juntos lendo alguns e-mails.
– Sabe, Simmie, essa nossa ideia é meio maluca, mas ao menos rende boas risadas.
– É bem maluca, mesmo. Hoje você falou com um sujeito e quase marcou um encontro, vai ter que marcar dentro em breve. Esse sujeito quero analisar, já consegui extrair bastante material de um simples diálogo. Corrobora em tudo o que me dizem meus pacientes. Sempre tem um certo masoquismo envolvido nesse tipo de fantasia.
– Eu falei com um sujeito? – ele riu. – Simmie, você é doida. Precisamos ser cuidadosos com essa pesquisa.
Os dois começaram a rir. Sem dúvida também pelo efeito do vinho consumido – estavam na segunda garrafa. “Que sentimento maravilhoso é o da cumplicidade da amizade”, pensou Simone, “muitas vezes melhor que um relacionamento amoroso complicado”.
– Você está com molho na boca, Ed – disse Simone, e passou o dedo no lábio inferior de Edward para retirar um pouco do molho que estava ali. Nesse momento, ele segurou a mão de Simone e beijou-a carinhosamente.
Simone ficou surpresa com a sensação que o toque dos lábios de Edward causou em sua pele. Um arrepio lhe percorreu o corpo e ela atribuiu a culpa ao vinho, à solidão e ao término dela, proporcionado pela adorável presença do amigo. Fez um carinho no rosto de Edward e disse:
– Obrigada por ter aparecido e me tirado de um sábado infernal.
Simone olhou para Edward e viu que ele também havia ficado abalado com o carinho repentino – ah, o vinho... Melhor ficarem atentos, porque não seria bom para ninguém darem vazão a qualquer tipo de sentimento diferente da amizade.
– Acho que vou indo, Simmie. Já estou cansado e o vinho está me deixando bem alegre.
– Ei, você não vai sair por aí dirigindo nesse estado. Dorme aqui.
– Certeza?
– Certeza. Você já conhece bem meu quarto de hóspedes, pode rumar para lá. Está prontinho como sempre, com escovas de dente extras dentro do armário.
– Eu te amo, Simmie!
Havia emoção nas palavras dele, mais do que o normal.
– Eu também amo você, meu amigo querido. Vamos dormir, porque já estamos parecendo dois sonâmbulos.
Simone foi para seu quarto, Edward para o de hóspedes. Estava exausta, feliz e com uma sensação maravilhosa de ter alguém querido perto dela.
No dia seguinte, acordou tarde. Edward já havia partido, deixando uma bandeja com o café da manhã que havia preparado e que agora já estava frio, e uma nota de agradecimento pela noite maravilhosa.
Simone vestiu uma roupa de ginástica e saiu para correr. A chuva havia parado e o tempo estava fresco.
Ao retornar, tomou um banho rápido, vestiu uma roupa confortável e foi para a cozinha preparar um chá. Levou a caneca até o sofá, colocou-a sobre a mesinha lateral e se acomodou para retomar a leitura. Hoje dedicaria o dia a terminar o texto de Carl, ou ao menos tentaria adiantar a leitura.
O Diário de Mark
Rotina
Depois da nossa conversa, meu relacionamento com Lara assumiu uma espécie de rotina: ela ia e vinha, eu respeitava os espaços dela e ela não desaparecia mais, apenas me dizia que não podia ou não queria sair.
Para mim não estava sendo fácil entender, no entanto eu pensava que, com o tempo, ela confiaria em mim e talvez as coisas mudassem. O fato é que eu estava completamente apaixonado, como nunca estivera na vida, talvez obcecado, como insistia em dizer o Peter. A paixão nos idiotiza. Eu me sentia um tolo, sem saber muito bem como lidar com meus sentimentos.
Apesar de minhas esperanças de que Lara mudasse, tentava levar minha vida como se Lara não existisse… De qualquer forma, às vezes ela me parecia uma miragem.
Tentei sair com uma amiga com quem às vezes me divertia, Samara, mulher interessante e linda. Fomos para a cama. Eu precisava me livrar da obsessão por Lara, mas só piorou, porque a comparação foi inevitável e Lara ganhou com muitos pontos de vantagem. E ainda acabei por assustar a mulher, porque me peguei sendo selvagem como era o gosto de Lara, e Samara não era da mesma opinião. Ela gostava de fazer amor, e Lara, de trepar.
Lara era um mistério. Havia uma mistura de medo e desconfiança no comportamento dela. Era nítido que tinha pavor de relacionamentos. Eu ainda não havia decifrado o enigma da pirâmide, mas estava tentando.
Sexo com ela era sempre explosivo, fantástico. Transávamos nos lugares mais insólitos e às vezes na minha cama, daí ela se aninhava nos meus braços até de manhã cedo e, como sempre... sumia por uma semana. Eu tentava ouvir Peter e apenas viver, ou a própria Lara, que dizia para não planejar, mas aquele não era eu, definitivamente.
Liguei para ela uma noite e perguntei se gostaria de ir para Atrás da Porta. Eu queria novamente aquela experiência inebriante. Ela aceitou de pronto e fomos para lá.
Lara vestia um impermeável; quando chegamos ao local, retirou-o e por baixo tinha um vestido de matar, meu Deus! Todo decotado e cheio de fendas na cintura e nas costas, não sei como ela equilibrava aquilo, mas fiquei louco só de olhar para ela.
O procedimento foi igual ao da primeira vez: revistas em busca de telefones e pequenos dispositivos que pudessem filmar. Entramos, dançamos um pouco, bebi algumas taças de uísque, minha cabeça começou a ficar leve, daí puxei Lara pela mão e fomos para atrás da porta.
Aquele dia estava mais calmo por lá, com menos pessoas, e era possível ver melhor o ambiente, suas luzes bruxuleantes, seus veludos vermelhos. Era um local altamente eletrizante, não apenas pelos gemidos, mas porque fora desenhado para despertar a libido.
Caminhamos de mãos dadas por um labirinto mal iluminado. Aproximou-se de mim uma ruiva estonteante, me acariciou o peito; nisso Lara pegou e colocou a mão por dentro da blusa da mulher e lhe acariciou o seio. Pensei: hoje a noite é minha! Minha fantasia entregue numa bandeja. Acho que encontrei o gênio da lâmpada!
Lara puxou a mulher para si e começou a beijá-la na boca. As duas se beijaram na minha frente e eu me senti como um adolescente, quase gozando apenas de olhar a cena erótica. Daí Lara fez algo inesperado. Empurrou a mulher e disse: “Caia fora, vaca, este é meu!”
Ciao ciao, bambina, ciao, ciao, dolce ilusione. Nem tive tempo de saborear o gosto da Lara com ciúmes, tamanha minha frustração. Em minha mente, eu já estava vendo aquelas mulheres maravilhosas nuas e nós três transando.
Lara virou para a parede, ficando de costas para mim, e disse: