Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 10 de 19

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

31 de março, sexta-feira

 

Ao alvorecer, um ruído rouco e monótono despertou-me. Ao assomar à

minúscula janela, verifiquei, surpreso, que aquele som parecia vir de toda a aldeia.

Não havia explicação.

Depois de um rápido asseio, estabeleci contato com o “berço”, mas Eliseu não

soube dar nenhuma informação a respeito.

Intrigado, desci as escadas de pedra que conduziam ao pátio central da

fazenda e, quando cheguei às pilastras, o ruído cresceu. Então notei que o som

partia da sala onde eu havia permanecido boa parte da tarde anterior, e para lá me

encaminhei. O fogo da lareira elevava-se vigoroso sobre madeiras depositadas

junto à chaminé. Ao pé da mureta que circundava o fogão, Marta e uma das criadas

ocupavam-se em moer o trigo sobre uma pedra muito parecida com a que eu vira

na manhã anterior em minha descida pela encosta sul do monte das Oliveiras. A

diferença era que esse triturador era negro e muito polido. Ao me aproximar das

mulheres e saudá-las, pude ver que se tratava de uma pedra basáltica de quase

meio metro de largura e trinta centímetros de espessura, já muito desgastada na

parte superior por causa da fricção diária e vigorosa. Num instante, minhas dúvidas

se dissiparam. E a partir daquele dia aprendi a identificar o despertar cotidiano de

Betânia e da própria Jerusalém com o som obrigatório e generalizado em todas as

casas, poderosas ou humildes, da moenda de trigo. Como me contaram os anciãos

da aldeia de Lázaro, se algum dia se deixasse de ouvir o ruído da moenda

convertendo os grãos de trigo em farinha, é que a ruína e a desolação, como havia

escrito Jeremias, tinham chegado a Israel.

Certamente, eu não havia sido o primeiro a se levantar. Desde muito antes do

amanhecer, as mulheres da casa já trabalhavam com afã nas tarefas domésticas.

Enquanto Marta se ocupava da compra do pão na padaria comunal da aldeia, Maria

e outras jovens carregavam água e faziam a limpeza da fazenda. Os homens, por

sua vez, ultimavam os preparativos para o duro trabalho no campo. O pai de

Lázaro, rico fazendeiro, havia deixado para seus filhos terras suficientes para

viverem sem limitações, o que permitia, folgadamente, que em cada colheita os

pobres pudessem recolher uma parte do produto de seus campos, como ordenavam

os velhos preceitos.46

Quando entrei na sala de jantar, a diligente e incansável Marta preparava a

farinha para cozer pequenas tortas sem levedura. Ao me ver, levantou-se, pedindo-

me que desculpasse seu irmão. Lázaro tinha ido acompanhar seus operários a um

dos campos próximos, onde se vinha trabalhando no que chamavam de

“semeadura tardia”, quer dizer, o cultivo de produtos como milho, sésamo,

lentilhas, melões etc., que deviam ser plantados necessariamente entre janeiro e março.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, Marta pediu que eu me sentasse à mesa.

E num abrir e fechar de olhos, colocou diante de mim uma grande tigela de

madeira, que encheu de leite quente. Sempre em silêncio, enquanto sua

companheira continuava triturando os grãos, cortou várias rodelas de um pão

tostado que possivelmente pesaria mais de três libras. Duas generosas porções de

queijo e mel completaram meu desjejum.

Desde a terceira hora (nove da manhã, aproximadamente), grupos de

peregrinos procedentes da Galileia, da Pérsia, velhos conhecidos da família,

parentes de Jerusalém e muitos curiosos vinham chegando à casa de Lázaro. Como

ocorria quase todos os dias, aqueles hebreus estavam aproveitando sua presença

obrigatória na Cidade Santa para “se distrair”, vendo e ouvindo o ressuscitado. Ao

vê-los sentados no jardim e invadindo até o átrio e o pátio central, senti uma certa

irritação. Será que Lázaro não percebia que a maioria daqueles indivíduos somente

buscava motivo para mexericos?

Compreendi que o paciente amigo de Jesus tinha preferido esconder-se...

Ao consultar Marta sobre o caminho que eu devia tomar para encontrar seu

irmão, a “senhora” abandonou gentilmente seus afazeres e me pediu que a

seguisse através do vasto horto situado atrás da casa e no qual se alinhavam

numerosas árvores frutíferas. Após uns trezentos metros de caminho, ao

desembocarmos em uma pequena esplanada, parei sobressaltado. Diante de nós

erguia-se uma enorme rocha calcária. Ao pé daquele maciço alvo e suave,

salpicado em algumas de suas fendas superiores por ninhos de barro das primeiras

andorinhas, distingui uma pedra circular.

Marta compreendeu o motivo de minha surpresa e, com um aceno de mão,

convidou-me para me aproximar do sepulcro familiar.

Em silêncio, inspecionei o tampo da entrada do túmulo. Tratava-se de uma laje

perfeitamente lavrada, de apenas um metro de diâmetro e trinta centímetros de

espessura. Aquela pedra, muito semelhante às de moinho, constituía o tampo de

uma entrada que, a julgar pelas dimensões externas, era bem estreita. A face

anterior da rocha, com dois metros de altura, a partir do solo, por três metros de

largura, havia sido esculpida como uma fachada e rebocada de branco.

Eu sabia que retirar a laje constituiria falta de respeito aos mortos.Assim, sem

fazer comentário algum, refreei o impulso que me levava a pedir à irmã de Lázaro

que me permitisse deslocar a pedra. Por outro lado, o mais provável é que, ainda

que Marta houvesse concordado, nós dois juntos não teríamos conseguido mover

aqueles trezentos ou quinhentos quilos que a tampa do sepulcro devia pesar.

Minutos depois eu deixava o jardim por uma das veredas que corriam na

direção oeste e que, segundo a “senhora”, me levaria ao encontro de seu irmão.

A temperatura, àquela hora da manhã, ainda era fresca: “10ºC e um moderado

vento norte de dez nós”, confirmaria Eliseu. Na noite anterior, o “cilômetro”

especial do “berço” – com base em um feixe de raios laser – havia detectado uma barreira de nuvens carregadas (cúmulos-nimbos) de uns trezentos quilômetros de

extensão, que se erguia a 6 mil pés sobre o perfil da costa fenício-israelense. No

momento, essas ameaçadoras nuvens de desenvolvimento vertical pareciam estar

sendo detidas em seu avanço para Jerusalém por uma corrente de ar frio

procedente do norte.

“Não se descarte, todavia – anunciou meu companheiro – que as condições

possam mudar e que em 24 ou 48 horas registrem-se chuvas sobre nossa área.”

Enrolei-me na chlamys e prossegui pelo tortuoso caminho entre os ondulantes

campos de cevada. Alguns camponeses haviam iniciado a colheita. Tomavam as

hastes com a mão direita e com a outra cortavam-nas a curta distância da base dos

talos. As foices consistiam em pequenas folhas recurvadas de ferro, solidamente

engastadas com rebites a um cabo de madeira. A debulha se fazia em uma clareira

próxima ao caminho. As mulheres carregavam os feixes e os esparramavam no

solo; depois separavam os grãos da palha com a mão ou com a ajuda de bois.

Neste último caso – o mais frequente, segundo pude comprovar –, os animais

pisavam a cevada. Depois os homens passavam sobre ela com as debulhadoras,

levadas pelos mesmos bois. As mais comuns eram feitas com uma tábua plana cuja

face inferior tinha incrustados pequenos pedaços de pederneira; outras eram

simples rodas, também de madeira.

Outras operações se seguiam, até que as mulheres guardassem os grãos em

sacos. Asnos e carros encarregavam-se, enfim, do transporte do produto da

colheita para a aldeia, onde os grãos eram trasladados para silos ou grandes

domas de barro, como as que eu havia visto na casa de Lázaro.

Não tardei a encontrar o ressuscitado e seus operários. Ele ficou contente de

me ver, mas afastou de imediato minha ideia de ajudá-los nos trabalhos de

semeadura. Estávamos em plena discussão dialética, quando alguns de seus

empregados chamaram nossa atenção para um cavaleiro que se aproximava

procedente da aldeia.

Lázaro colocou a mão esquerda à altura dos olhos, como uma viseira, e

observou atentamente. De repente, sem comentário, soltou a semeadura que tinha

no ombro e saiu correndo para a vereda. O cavaleiro aproximou-se de meu amigo

cavalgando a trote e, desmontando, abraçou-o. Um instante depois voltou a

cavalgar e dirigiu-se para Betânia. O ressuscitado fez sinais para que eu me

aproximasse. Seu rosto estava iluminado.

– O Mestre virá! – exclamou alvoroçado, com incontida alegria. – Finalmente

poderás conhecê-lo... Vamos, temos muito o que fazer!

– Mas onde ele está?... Já chegou? – comecei a lhe perguntar atropeladamente,

enquanto tentava segui-lo. Mas Lázaro nada respondeu. E antes que eu pudesse

dizer ou fazer qualquer coisa, ele já levava meia centena de metros de vantagem.

Apesar de sua aparente debilidade, corria como um gato selvagem.

Ao entrar em casa dei-me conta de que a notícia havia alterado a família e os

amigos. Marta, principalmente, corria de um lado para outro, sorridente e nervosa. Ao nos ver, abraçou-se a Lázaro, confirmando-lhe a boa nova:

– Ele virá!... Jesus virá!...

O irmão tentou acalmá-la, perguntando-lhe sobre alguns detalhes.

– ... Dizem que está a uns dez estádios de Betânia – acrescentou a “senhora”.

Fiz um rápido cálculo mental. Isso significava que o rabi estava a 1.860 metros

da aldeia.

Posso jurar que, apesar de minha intensa preparação, dos longos anos de

treinamento e da minha condição de cético, a família de Lázaro conseguiu

contagiar-me com sua excitação. Sem que eu pudesse evitá-lo, um calafrio

percorreu-me a coluna vertebral. Inexplicavelmente, minha garganta secou. Em um

esforço por serenar-me, atribuí meu estado à louca corrida desde o campo. (Uma

vez mais me equivoquei.)

Seguindo os conselhos de Lázaro, permaneci no interior da casa.

Minha primeira ideia foi sair ao encontro do Nazareno, mas o ressuscitado

sugeriu-me que era muito melhor aguardá-lo ali.

– Ele vem sempre ao nosso lar... Além disso – especulou –, a notícia já deve ter

chegado a Jerusalém e, em pouco tempo, não se poderá mais caminhar pelas ruas

de Betânia.

– Então – comentei preocupado –, o Mestre aceitou o desafio e passará a

Páscoa na Cidade Santa...

Meu amigo não quis responder. No entanto, percebi em seu olhar um véu de

desassossego. Eles pressentiam que aquela podia ser a última Páscoa de Jesus de

Nazaré... Não era preciso dizer que o sumo sacerdote e seus sequazes podiam já

estar inteirados da presença do “impostor” na aldeia vizinha. E isso, como bem

sabiam Lázaro e suas irmãs, era perigoso.

Pouco depois da nona hora – talvez fossem quatro ou quatro e meia da tarde –,

a agitação entre as numerosas pessoas que se achavam no pátio de arcos da

fazenda explodiu subitamente. Marta e Maria precipitaram-se para o átrio e

desapareceram entre os grupos de homens e mulheres que congestionavam a

entrada principal e praticamente a fechavam.

Meu coração se acelerou. Vinha de fora um rumor crescente de vozes, gritos e

saudações. Sem saber por que, senti medo. Retrocedi alguns passos e me ocultei

atrás de uma das colunas da ala direita do pátio. As palmas de minhas mãos

haviam começado a transpirar. Pressionei dissimuladamente meu ouvido e, em voz

baixa, informei Eliseu da iminente chegada de Jesus.

Poucos minutos depois, os empregados, amigos e familiares de Lázaro foram

abrindo espaço, e um numeroso grupo de homens irrompeu o pátio.

Entre risos, beijos e mantos multicoloridos, meus olhos ficaram cravados de

imediato num homem que se distinguia muito dos demais... Aquele tinha de ser

Jesus!

Sua compleição – no primeiro momento calculei sua altura em 1,80 metro –

fazia dele, ao lado da quase totalidade dos circunstantes, um gigante. Vestia um manto bordô que lhe cingia o tórax e cujas extremidades lhe envolviam o pescoço

e caíam sobre seus ombros largos e poderosos. Uma longa túnica branca, de

mangas largas, cobria-o quase até os tornozelos. Não vi faixa ou cinto algum. Na

fronte, trazia enrolado um lenço branco que lhe caía sobre os cabelos do lado

direito.

Nem mesmo no instante da inversão de massa do módulo, naquela noite de 30

de janeiro de 1973, experimentei uma aceleração cardíaca como a que suportava

naquele momento.

O gigante caminhou lentamente para o centro do pátio. Seu braço direito

descansava sobre o ombro de Lázaro. Ao seu redor, Marta e Maria gesticulavam e

batiam palmas, em meio ao alvoroço geral.

Era, sem dúvida, um homem branco, de rosto longo e estreito, próprio da raça

caucasiana. Os cabelos, lisos e de uma tonalidade ligeiramente caramelada, caíam-

lhe sobre os ombros. Pouco depois, ao soltar a banda que trazia enrolada na fronte

e que era usada também por quase todos os homens de seu grupo, vi que repartia

os cabelos ao meio. Usava bigodes e uma fina barba, dividida em duas partes, da

cor de ouro velho, igual à dos cabelos. O bigode, ainda que pronunciado, não

chegava a ocultar-lhe os lábios, relativamente finos. O nariz desconcertou-me. Era

comprido e ligeiramente proeminente.

Desde sua entrada na casa, Jesus não havia deixado de sorrir, mostrando uns

dentes brancos e impecáveis, ao contrário do que ocorria com a maioria dos

hebreus.

O Mestre foi sentar-se à beira da piscina central, sobre um dos tamboretes que

alguém havia levado ao refeitório. Os homens, as mulheres e os meninos

amontoaram-se ao seu redor. Os raios de sol incidiram então sobre seu rosto, e eu

fiquei maravilhado. O contraste com aquelas caras endurecidas, enrugadas e

envelhecidas de seus amigos e seguidores era simplesmente admirável. Sua pele

era curtida e bronzeada.

Timidamente, fui saindo de trás da pilastra. Jesus, a pouco mais de quatro ou

cinco metros, ergueu repentinamente seu rosto e perfurou-me com seu olhar. Uma

espécie de fogo percorreu-me as entranhas. Ante a surpresa geral, o rabi levantou-

se e abriu caminho entre as pessoas que haviam começado a sentar-se sobre os

ladrilhos vermelhos do piso. Meus joelhos começaram a tremer. Mas já não me era

possível escapar. Aquele gigante estava diante de mim...

Jamais esquecerei aquele olhar. Os olhos do Galileu, ligeiramente rasgados e

de uma viva cor de mel, tinham uma singular virtude: pareciam concentrar toda a

energia do Cosmo. Mais do que observar, transpassavam. Cílios longos e espessos

proporcionavam-lhe especial atrativo. A fronte, espaçosa, terminava em

sobrancelhas retas e bem separadas. Não pestanejou. Sua face, plácida e

francamente iluminada pelo sol, infundia um estranho respeito.

Ergueu os braços, colocou suas mãos longas e aveludadas sobre meus ombros

e sorriu, ao mesmo tempo que piscava um olho.

Um inesperado calor inundou-me da cabeça aos pés. Quis responder ao seu

gesto, mas não pude. Estava confuso e aturdido. Estava emocionado.

– Sê bem-vindo...

Aquelas palavras, pronunciadas em grego, acabaram por me desarmar. Havia

tal segurança e afeto em sua voz que necessitei de muito tempo para reagir.

O rabi voltou para a beirada da cisterna, enquanto seus amigos o

contemplavam num mutismo total. Alguns dos discípulos romperam por fim o

silêncio e perguntaram a Lázaro quem eu era. O ressuscitado, com visível

satisfação, explicou-lhes que eu era seu hóspede: “Um estrangeiro vindo

expressamente de Tiro para conhecer Jesus”.

Permaneci imóvel, quase petrificado, tentando coordenar meus pensamentos.

“Não pode ser” – repeti para mim mesmo mais de uma vez. “É impossível que

tenha adivinhado... Como pôde?...”

Por mais voltas mentais que eu desse, chegava sempre à mesma encruzilhada.

Se ninguém lhe havia falado de mim – e por que iriam fazê-lo? –, não podia saber

quem eu era nem por que estava ali. No pátio havia meia centena de pessoas. A

muitos ele conhecia – isso era claro –, mas a outros não. Esse era o meu caso e, no

entanto, ele havia-se dirigido a mim...

Nunca, nem sequer agora, quando registro estas recordações, estive seguro,

mas só um ser com um poder especial poderia ter agido daquela maneira.

A não ser que, simplesmente, tenha me “reconhecido” como consequência de

nossa “futura” e prolongada “aventura”. Um terceiro “salto” no tempo, que naquele

momento nem sequer tínhamos em mente. Quem sabe?

Para que vou mentir? O resto da tarde foi para mim como um relâmpago que

rasga os céus do Oriente ao Ocidente. Quase não percebi nada. Sei que Marta, tal

como fizera comigo, lavou os pés do Nazareno e friccionou-os com mirra. Recordo

vagamente que, entre muitas saudações, Jesus saiu da casa acompanhado de

Lázaro e de um numeroso grupo de pessoas. Marta me diria depois que as

acomodações da fazenda estavam todas ocupadas por amigos e parentes que

vinham chegando a Betânia e que, de comum acordo com Simão, um ancião

inseparável do Mestre e velho amigo da família, Jesus pernoitaria na casa desse

antigo leproso.

A princípio, muitos dos habitantes de Betânia e dos peregrinos que tinham

chegado à aldeia discutiram entre si, acreditando que o Mestre entraria nessa

mesma tarde de sexta·feira em Jerusalém, desafiando o decreto de prisão que o

Sinédrio havia baixado. Mas se equivocaram. Jesus e seus discípulos se dispuseram

a passar a noite na casa de Simão e em outros lares de amigos e parentes de

Lázaro. Todos – essa é a verdade – fizeram o possível para que o Mestre se

sentisse feliz durante sua estada na pequena povoação.

Segundo Marta, Simão quisera receber convenientemente Jesus e havia

anunciado um grande banquete para o dia seguinte, sábado. Isso significou um

novo esforço em ambas as casas, uma vez que, de acordo com as rigorosas prescrições da lei judaica, o dia sagrado para os israelitas começava precisamente

no crepúsculo do dia anterior.

Durante o resto do dia, o Mestre da Galileia recebeu uma infinidade de amigos

e visitantes, conversando com cada um.

Ao anoitecer, Jesus regressou à casa de Lázaro, e ali, em companhia de seus

íntimos e da família do ressuscitado, refez as forças, mostrando-se de excelente

humor.

Lázaro pediu-me que os acompanhasse. Os homens tomaram assento em torno

da grande mesa retangular do refeitório, e as mulheres, dirigidas por Marta,

começaram a servir. Em um primeiro momento, mantive-me prudente e

confortavelmente junto à lareira. Mas Lázaro insistiu e levou-me a partilhar com

eles as abundantes iguarias: algo de caça, feijões, frutas secas e vinho.

Surpreendeu-me comprovar que com nenhuma das comidas se tomava água, que

era habitualmente substituída pelo vinho.

Antes de iniciar a tardia “ceia”, o Mestre e as catorze ou quinze pessoas que

partilhavam da mesa ficaram de pé e entoaram um breve cântico. Eu fiz o mesmo,

embora permanecesse, logicamente, em silêncio. Marta explicou-me depois, em

uma das suas apressadas idas e vindas, que aquele hino, intitulado Ouve, Israel,

era, na verdade, uma oração. Estranhei que o rabi, não obstante suas diferenças

públicas com os doutores da lei, respeitasse os velhos costumes de seu povo. Não

sei se já mencionei que o Mestre havia demonstrado, durante toda a tarde, um

contagiante senso de humor, rindo e fazendo galhofas por qualquer coisa. Aquele

iria ser, ao menos nos dias que precederam a quinta-feira, 6 de abril, outro dos

aspectos que me surpreenderam nele. Como estava longe da imagem grave,

atormentada e longínqua que nos transmitem tantos dos livros do século XX...

Jesus de Nazaré era uma mistura de menino e general; de ingênuo pastor e

compenetrado analista; de homem que vive plenamente cada dia e de prudente

conselheiro. Mas, acima de tudo, notava-se que era feliz. Muito mais alegre e

despreocupado do que seus próprios amigos e discípulos, visivelmente agitados

pelas ameaças do sumo sacerdote.

A seguir, Jesus, que presidia a mesa junto com Lázaro, pegou um dos grandes

pães e, seguindo seu costume, cortou-o e distribuiu os pedaços entre os comensais.

Ainda nem havíamos começado quando, de repente, o Mestre dirigiu-se a um

dos homens do grupo. Ao chamá-lo pelo nome, meu coração disparou. Era Judas

Iscariotes!

O discípulo levantou-se lentamente e, aproximando-se do rabi, entregou-lhe

alguma coisa, regressando ao seu lugar. Permaneci como que hipnotizado,

contemplando aquele tipo fraco e esgrouviado, de pouco mais de 1,70 metro de

estatura e cabeça pequena. Seu nariz aquilino destacava-se sobre a pele pálida,

quase macilenta, dando-lhe o clássico “perfil de pássaro” que eu havia estudado na

classificação tipológica de Ernest Kretschmer. (O grande psiquiatra teria ficado

muito satisfeito ao saber que a classificação do tipo “leptossômico” coincidia plenamente, nesse caso, com o temperamento “esquizotímico” de Judas: sério,

introvertido, reservado, pouco sensível e até ressentido. A verdade é que, à medida

que fui conhecendo o caráter desse homem, convencia-me cada vez mais de que se

tratava, de fato, de um grande tímido, que não havia tido oportunidade de

desenvolver seu imenso caudal afetivo.)

Seus cabelos negros, finos e abundantes, contrastavam com seu rosto

praticamente imberbe.

Quando se aproximou de Jesus, notei que sua túnica era presa à cintura, em

lugar do simples cordão ou cinto, por uma hagorah, ou faixa escura, da qual havia

sido retirada aquela pequena bolsa de couro. Aparentemente e pelo que pude ir

observando, a faixa servia principalmente para guardar dinheiro e pequenos

objetos, além de armas. Judas trazia uma pequena espada presa do lado direito.

Naquele momento, todavia, não reparei num fato singular: tal como Iscariotes,

outros discípulos também ocultavam suas espadas sob seus mantos ou hagorahs.

O rabi pediu às irmãs de Lázaro que se aproximassem dele. Maria foi a primeira

a abandonar os apetrechos que estava manejando no fogão e colocou-se em um

dos cantos da mesa, junto ao Galileu. Logo mais entrava Marta, ainda enxugando

as mãos no avental. A luz de uma das grandes lâmpadas ou candeias portáteis que

tinham sido colocadas sobre a mesa punha em relevo o atraente perfil de Maria.

Uma espessa cabeleira negra caía-lhe sobre as costas, quase até a cintura. Sobre a

fronte e prendendo parcialmente os cabelos, luzia uma faixa celeste que ressaltava

sua cútis azeitonada. Tinha feições miúdas e delicadas. Um milagre para uma

mulher de trinta anos naquela dura sociedade.

Não consegui falar com ela nem uma única vez, mas seus olhos negros

revelavam um coração singularmente sensível.

Jesus colocou a bolsinha nas mãos de Maria e, dirigindo-se a ela e a Marta,

pediu-lhes que aceitassem aquela pequena dádiva. Enquanto Maria ficava

ruborizada, Marta, cheia de curiosidade, tomou a bolsa das mãos da irmã e a abriu

depressa. De meu assento, mal consegui distinguir alguns grânulos. Depois soube

que se tratava de sementes de bálsamo, compradas pelo próprio rabi em sua

passagem por Jericó.

Diante do regozijo geral, Maria, sempre em silêncio, aproximou-se de Jesus e

deu-lhe dois sonoros beijos na face.

Pouco a pouco, todavia, o tom alegre e descontraído daquela ceia foi se

alterando por obra e graça de alguns dos homens de Cristo. Saltava aos olhos que

eles estavam preocupados com o rumo que iria tomar o futuro imediato do Mestre.

Não tardou a ser abordado o assunto da ordem de captura de Jesus, baixada pelo

sumo sacerdote, e das medidas que deveriam ser adotadas para salvaguardar a

segurança do rabi, em primeiro lugar, e a do resto do grupo.

Um dos mais inflamados e radicais era um discípulo de barba grisalha e bigode

raspado, quase todo calvo e de olhos claros. Sua cabeça redonda destacava-se

sobre o pescoço grosso. Aquele homem de rosto marcado pelas rugas (calculei equivocadamente que seria um dos mais idosos – 40 ou 45 anos) não era

partidário da entrada em Jerusalém.47 Temia, é claro, pela vida do rabi; e procurou,

por todos os meios ao seu alcance, convencer o grupo do perigo que a ideia

continha.

Jesus assistiu impassível e sério a toda a discussão. Deixava que uns e outros

falassem sem pronunciar uma única palavra. Até que, em um momento mais calmo

dos debates, o Mestre deixou que ouvissem sua voz grave. E, dirigindo-se ao

apóstolo dos olhos azuis, sentenciou:

– Pedro, ainda não compreendeste que nenhum profeta é acolhido por seu

povo e que nenhum médico cura os que ele conhece?

Depois, fixando seus olhos de falcão nos meus, acrescentou:

– ... Se a carne foi feita do espírito, isso é uma maravilha. Se o espírito foi feito

do corpo, é a maravilha das maravilhas. Mas do que eu me maravilho é disto: como

essa grande riqueza instalou-se nessa pobreza?

Um denso silêncio ficou flutuando na sala. E o Mestre, erguendo-se, retirou-se

para descansar.

Naquela noite e nas seguintes, os discípulos, temerosos de tudo e de todos,

montaram guarda, aos pares, na porta da casa de Simão, “o leproso”. Tanto Judas

Iscariotes como Pedro, seu irmão André e Simão, chamados “os Zelotes”, e os

surpreendentes irmãos gêmeos Judas e Tiago de Alfeu, todos estavam armados de

espadas curtas, praticamente idênticas às gladius dos legionários romanos: a

conhecida gladius hispanicus, ou espada espanhola, como a chamou Políbio. Eram

armas de sessenta centímetros de comprimento, de folha larga e duplo fio, e com

uma ponta que as fazia temíveis.

Os discípulos de Jesus procuravam escondê-las sob o manto, geralmente no

lado direito e dentro de uma bainha de madeira.

Jesus não ignorava que alguns de seus mais próximos seguidores carregavam

armas. Todavia, salvo no triste momento de sua captura, na noite de quinta-feira,

6 de abril, na fazenda de Getsêmani, jamais fez menção a isso ou os censurou.

Não devo ocultar. Antes de nos retirarmos, alguns dos discípulos, cochichando

entre si, lançaram-me vários e intensos olhares. Finalmente, João de Zebedeu,

mais decidido que o resto, avançou até mim e falou em nome do grupo:

– É curioso, amigo Jasão. Todos experimentamos idêntica sensação. Todos

cremos conhecê-lo. Durante vários anos, outro grego – também chamado Jasão –

seguiu os passos do Mestre e conviveu conosco. Há apenas alguns dias, despediu-

se para sempre... Mas cremos tratar-se de uma casualidade.

– Por quê? – interrompi intrigado diante da segunda e curiosa coincidência.

– Esse Jasão – recordou com carinho – é quase um ancião. E tu, ao contrário,

és jovem.

Logicamente não pude compreender o alcance daquela revelação...

 

46 “Papai Noel” confirmaria esse costume com base nos textos sagrados do Levítico (19, 9; 23, 22) e do Deuteronômio (24, 19-21). Um tratado completo, com oito capítulos, é recolhido pela Misná. (N. do M.)

47 Simão Pedro enquadrava-se também no tipo “pícnico” que Kretschmer cita: cara larga, macia e arredondada. Visto de frente, seu rosto lembrava um escudo. Sua fronte era ampla e conservava alguns fios de cabelo na região temporal.

No entanto, Pedro não apresentava muita obesidade. Sua caixa torácica, assim como os ombros e os braços, era forte e musculosa, muito própria de uma vida consagrada ao rude trabalho da pesca. Ele coincidia com a classificação de Kretschmer em seu temperamento “ciclotímico”: aberto, espontâneo, de amizade rápida, mas com grandes oscilações no estado de humor. Por sua grande capacidade de sintonização afetiva, era fácil se contagiar de alegria e tristeza. E teve oportunidade de sobra para confirmar isso. Em suma: Pedro era muito sociável e bem aceito pelo resto do grupo. (N. do M.)